Língua complicada

José Horta Manzano

Você sabia?

Por razões históricas, a representação gráfica dos diferentes falares humanos não é uniforme. Há línguas que se valem de ideogramas, como o chinês. O japonês se serve de sistema complexo, com silabário e ideogramas. (Silabário é um sistema de escrita com um sinal gráfico para cada sílaba.)

A maioria das línguas escritas utilizam um alfabeto. Há dezenas deles. Em alguns casos, o alfabeto reflete os sons e as nuances da língua para a qual foi especialmente criado. Não é nosso caso.

Nossa língua herdou um alfabeto concebido para outra língua. Os escribas medievais foram obrigados a inventar letras, sinais e combinações para representar sons que não existiam no latim e para os quais não havia letras específicas.

Essa é a razão pela qual nossa escrita nem sempre bate com a fala. Escrevemos de um jeito e lemos de outro. A mesma letra pode ter mais de um som. Ao contrário, um único som pode ser representado de maneiras diferentes.

Escrita khmer

Escrita khmer

No português atual, uma única letra pode indicar até cinco(!) pronúncias diferentes. A letra ‘x’ é o exemplo maior. Soará como ‘ch’ em enxurrada, como ‘z’ em exame, como ‘s’ em excluir, como ‘ks’ em fixo. E será muda em excelente.

Por outro lado, o som ‘ch’ pode ser representado de três diferentes maneiras. Em acho, é indicado por ‘ch’. Em eixo, por ‘x’. E em este (na pronúncia carioca e nordestina), é representado por ‘s’.

Embora nem sempre nos demos conta, há numerosos casos de sons múltiplos representados por uma única letra. Cada um dos dois ‘aa’ de cama indica um som diferente. O ‘e’ de chover não se pronuncia como o ‘e’ de mulher. O mesmo se dá com o ‘o’ de moça e o ‘o’ de roça.

Tem mais. O primeiro e o segundo ‘d’ de dedinho não soam da mesma maneira. O mesmo vale para os dois ‘d’ de cidade e para os dois ‘t’ de tomate. O ‘u’ de muito é nasal, enquanto o de cuido não é.

Não nos atrapalha ver a nasalização de vogais assinalada pela letra que vem a seguir ― geralmente um ‘m’ ou um ‘n’. Assim, o ‘a’ de cano, o ‘e’ de então, o ‘u’ de mundo têm som nasal.

Por razões alheias à gramática, não nos importa que a pronúncia de certas letras seja contrariada. Ao ler a palavra Mercosul, por exemplo, ninguém respeita o que está escrito (Mercozul); dizemos todos Mercossul. Fica criada mais uma função para o ‘s’ intervocálico.

Que fazer? A cavalo dado, não se olha o dente. O alfabeto que temos nos foi legado. Temos de usá-lo como é.

Escrita khmer

Escrita khmer

A língua khmer, da família das austro-asiáticas, é falada por 13 milhões de indivíduos distribuídos entre Camboja, Vietnam e Tailândia. Sua particularidade é ter o alfabeto mais sortido do planeta: são 72 letras. Entre elas, 32 vogais. Dá três vezes nosso abecedário! Em compensação, parece que a gramática é bastante simples. Uff! Melhor assim.

Só para apimentar: acaba de me ocorrer que a língua francesa tem por volta de quarenta maneiras de escrever o singelo som ‘o’. O, ot, od, hau, au, eau, ho, aux, aud são algumas delas. Há mais algumas dezenas.

Pensando bem, não podemos reclamar. Até que tivemos sorte.

China em polvo… rosa

José Horta Manzano

Você sabia?

O fenômeno de urbanização acelerada, típico de países tradicionalmente agrícolas, teve início, no Brasil, lá pelos anos 1940, 1950. As décadas de 60 e de 70 conheceram o auge do movimento.

Foi quando campos se esvaziaram e cidades incharam. Pouco resta do Brasil rural de nossos avós. O rancho fundo e a choça do jeca-tatu perdem-se na bruma do passado. A passagem para a urbanização ainda continua, mas hoje dança-se em ritmo mais maneiro.

Dalian, norte da China

Dalian, norte da China

Já na China, a urbanização está ocorrendo a toque de caixa, em velocidade vertiginosa. É como se os carros de boi de 1920 cedessem lugar a um batalhão de milhões de automobilistas ― todos despejados na paisagem ao mesmo tempo.

A gestão dessas mudanças nem sempre é sem percalços. Os atores às vezes trocam os pés pelas mãos. Quando postas em prática, iniciativas cheias de boa intenção podem revelar-se um desastre. É o que acaba de ocorrer em Dalian, metrópole de quase 7 milhões de habitantes situada a menos de 500 km a leste de Pequim.

Como toda aglomeração chinesa que se preze, Dalian tem seus imensos centros comerciais (em bom português: shopping centers). Elevadores de vidro, o infalível Starbucks, McDonald’s e seus inescapáveis sucedâneos, franquias de marcas internacionais, tudo está ali presente para confirmar que nada se parece mais com um centro comercial do que outro centro comercial. Em qualquer lugar do mundo. Não falta nem o fundo musical emburrecente.

Um detalhe, no entanto, faz a particularidade dessa catedral do consumo. Os administradores do centro julgaram de bom-tom criar espaços de estacionamento especialmente dedicados às mulheres, devidamente assinalados com ideogramas cor-de-rosa. Particularidade? Ora, isso não é novo! ― dirão meus atentos leitores. Já faz tempo que, em muitos outros centros, as mulheres contam com setor reservado.

É verdade. O que distingue o shopping center de Dalian é a razão pela qual certas vagas são reservadas ao sexo feminino. Em outras partes do mundo, a intenção é garantir maior segurança às senhoras, protegendo-as contra agressões. Não é o caso de Dalian.

"Respeitosamente reservada às mulheres" Dalian, China

“Respeitosamente reservado para mulheres”
Dalian, China

Na China, agressões, roubos, arrastões & assemelhados (ainda) não fazem parte da paisagem habitual. As vagas de estacionamento do centro comercial em questão são simplesmente… 30 cm mais largas do que as vagas comuns. A intenção dos idealizadores da novidade foi facilitar a manobra das motoristas.

Assim que a notícia se espalhou, o país sofreu tempestade midiática. Multidões de cidadãos ― especialmente de cidadãs ― expressaram sua indignação, principalmente por meio das redes sociais. Sem que os autores da ideia se dessem conta, ficou escancarado o proconceito de que mulheres ao volante são menos hábeis que homens.

A discussão continua, apaixonada. Há quem aprecie a iniciativa, há quem abomine a discriminação. Só o tempo dirá se as vagas serão suprimidas ou não. Se eu ficar sabendo, conto.

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A palavra polvorosa descende do castelhano polvo (=pó, poeira). Entra-se em polvorosa quando algum acontecimento levanta poeira.

Foi-se

José Horta Manzano

Foi-se o João Ubaldo, grande entre os grandes. Assim como quem não quer dar incômodo a ninguém, foi-se de mansinho, logo de manhã cedinho, sem prevenir.

Foi-se aquele que escrevia com sotaque. Aquele que fazia brotar sorrisos a cada parágrafo. Inteligência aguda e ironia fina eram os ingredientes maiores de seu receituário.

E culto também, o homem! Chegou a traduzir ― ele mesmo ― um de seus romances para o inglês. Falava alemão, coisa rara para quem não é descendente.

Sua escrita era como uma conversa ao pé do fogo, informal, amiga, imperdível.

Enfim, que fazer? A vida é assim mesmo. Como diz o outro, pra morrer, basta estar vivo. Mas, cá entre nós, tem gente que merecia viver uns 150 anos.

O baiano João Ubaldo leva consigo um pedaço da inteligência nacional. E como vai fazer falta!

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Para ler sua última crônica, publicada post-mortem pelo Estadão, clique aqui.

A insensatez

José Horta Manzano

As palavras têm peso. Quanto mais elevada for a posição de quem as exprime, maior será o impacto do que disser. Nem todos os dirigentes se dão conta disso.

Muito tempo atrás, o mundo era dividido entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos. O Brasil se situava entre estes últimos. Um dia, já faz uns 40 anos, chegou-se à conclusão de que a expressão subdesenvolvido era pesada e infamante. Foi substituída por em desenvolvimento. Na prática, nada mudou: nosso país continuou na mesma categoria.

Mais recentemente, firmou-se a convicção de que uma meia dúzia de países subdesenvolvidos ― oops, em desenvolvimento ― pesavam mais que os outros. Foi-lhes atribuído outro epíteto. Passaram à categoria de potências emergentes. Entre os promovidos, ainda que fosse pela macicez de sua população, figura o Brasil.

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Um avião de linha caiu ontem na Ucrânia. Despencou justamente numa zona conflagrada, nos confins do país, a poucos quilômetros da fronteira com a Rússia. Segundo especialistas, é forte a probabilidade de que o aparelho ― que explodiu em voo ― tenha sido vítima de míssil terra-ar.

Cada um tem seu palpite sobre o que possa ter ocorrido: erro, distração, ataque proposital. Uns acham que o exército ucraniano possa ter disparado o foguete mortífero. Outros garantem que isso só pode ser obra dos insurgentes ucranianos pró-russos. Ainda há quem veja o dedo de Moscou por detrás do desastre.

Dificilmente saberemos nós, meros mortais, o que realmente aconteceu. Ainda que se descubra ― ou já se saiba ― como foi, é pouquíssimo provável que a verdade seja um dia revelada à larga.

Os grandes deste mundo já se pronunciaram sobre o acidente. Barack Obama, François Hollande, Angela Merkel & companhia se limitaram, como manda o figurino, a declarações de pesar e a condolências dirigidas à família das vítimas.

Nossa presidente não se esquivou. Afirmou que o governo brasileiro não deverá se manifestar sobre a queda do avião. Manifestar-se para dizer que não vai se manifestar já é, em sim, incongruente. É como aquele sujeito que bate à sua porta para dizer que hoje não vai poder vir. Mas dona Dilma foi mais longe.

Dilma Rousseff & Vladimir Putin

Dilma Rousseff & Vladimir Putin

Esquecendo-se de que a expressão «potência emergente» inclui a ideia de «potência», soltou palavras pra lá de desconcertantes. Além de manifestar-se para dizer que não ia se manifestar, acrescentou que, segundo órgãos da imprensa, «o avião derrubado estava na rota da volta do presidente Putin. Hora e percurso coincidiam. O míssil seria, então, dirigido ao avião presidencial».

É raro que um chefe de Estado se arrisque tanto em situação tão incerta. Incapaz de liberar-se de seu complexo de vira-lata, a chefe do Brasil-potência não se deu conta de que sua fala é analisada com atenção em chancelarias estrangeiras e jogou pesado. Insinuou que inimigos do senhor Putin estariam por detrás do atentado. Naquela região, de inimigos, o senhor Putin tem um só: o governo constituído da Ucrânia, eleito há poucos meses.

A ousadia de quem soprou essa extravagante mensagem a nossa incauta presidente nos põe numa saia pra lá de apertada. A chefe do Estado brasileiro ― voz oficial da nação! ― acusa, por meio de um circunlóquio, que Kiev tentou assassinar o presidente da Rússia.

Essa desajuizada declaração é um desastre diplomático. Demonstra mais uma vez, se ainda fosse necessário, que a cúpula instalada do Planalto não leva jeito para dirigir nosso País.

Mais dia, menos dia, russos, ucranianos pró-russos e ucranianos antirrussos vão acabar se entendendo. A conflagração vai logo ser coisa do passado, que não interessa a ninguém que se eternize. Feitas as pazes entre os beligerantes, sobrarão três grandes vítimas do evento.

A primeira, naturalmente, são os que viajavam dentro do aparelho derrubado. Vítimas inocentes que ― e é isso que nos consola ― devem ter expirado na hora, sem tempo de se dar conta do que acontecia.

A segunda vítima deverá ser a companhia aérea malaia. Tendo em conta que um de seus aviões já desapareceu misteriosamente quatro meses atrás, este novo golpe periga ser fatal para a empresa.

A terceira vítima, por obra e graça de nossos preclaros dirigentes, será a relação entre o Brasil e a Ucrânia. E tudo por causa de palavras levianas pronunciadas ― sem a menor necessidade ― por nossa presidente. Quanta insensatez!

O gato e a lebre

José Horta Manzano

Não sou analista financeiro nem tenho lastro suficiente para me aprofundar na matéria. Assim mesmo, os anos e as experiências vividas não deixaram de me apurar o bom senso. Entre tantos incômodos, os anos maduros trazem, pelo menos, o consolo de enxergar com menos paixão.

Banco 2Fiz esse preâmbulo antes de falar da criação do Banco do Brics, assunto que me chamou a atenção estes últimos dias. Longe de ser banco de pobre, como alguns apressados poderiam deduzir, tem sócios de peso. Basta dizer que conta com a segunda potência comercial do planeta entre seus membros. É interessante notar que cada um dos sócios tem sua própria motivação para aderir ao empreendimento.

A Rússia, por exemplo, anda meio de birra com o resto do mundo por causa do conflito com a Ucrânia. Desde que anexou a Crimeia, vem sofrendo sanções econômicas da União Europeia e dos EUA. As punições são inócuas, é só questão de marcar um desacordo. Assim mesmo, a Rússia procura mostrar que está dando de ombros para o castigo. Nessa óptica, uma associação com outras economias poderosas é sempre bem-vinda.

Diferentemente de nossa hermana Cristina, o Brasil não precisa do socorro financeiro de bancos internacionais. Já temos apoio suficiente. Se dona Dilma achou tão importante a criação desse estabelecimento é por razões de imagem interna. Transmite ao povo a sensação de que nosso país tem dinheiro pra dar, emprestar e vender. E, mais que isso, dá a prova cabal de que, finalmente, não dependemos mais dos abominados capitalistas ocidentais. A artimanha funciona, tem muita gente que acredita.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Quanto à África do Sul, cujo PIB equivale à quarta parte do nosso, não se entende bem o que está fazendo nesse clube. Faria mais sentido incluir a Turquia e a Indonésia.

O PIB (PPP) brasileiro, pelas contas do FMI, equivale ao da Rússia. Já a China, com produção anual bruta quase seis vezes superior à nossa, precisa menos ainda de ajuda de bancos internacionais. Seu interesse é diferente do nosso e do da Rússia.

Banco 1Com dinheiro a escapar pelo ladrão, o Estado chinês tem vista de longo alcance. Por seu peso econômico, terá de facto a última palavra nas decisões da nova empresa. Para ser concedido, todo empréstimo terá de contar com o beneplácito de Pequim.

A China, sedenta de matérias-primas necessárias para sua afirmação, tenderá, naturalmente, a apoiar projetos de seu próprio interesse. Projetos visando a favorecer produção de soja no Brasil ou de gás na Sibéria serão aplaudidos em Pequim. Seu financiamento está garantido.

Se os estrategistas do Planalto imaginavam, com a criação do banco de fomento do Brics, alforriar-se da dependência dos investidores tradicionais, perigam decepcionar-se. Livram-se da suserania ocidental para enfeudar-se aos tecnocratas de Pequim.

Quem viver, verá. Posso me enganar, mas tenho a impressão de que estão comprando gato por lebre.

Frase do dia — 160

«Dilma não atuou na Seleção nem a treinou, mas não resiste a recorrer ao esporte bretão para parecer simpática. Nascida em Minas, comemorou a conquista de Libertadores da América pelo Atlético Mineiro em 2013 em redes sociais. “Congratulo (sic) com toda a torcida do Atlético pela conquista do título. Eu sou torcedora do Atlético e, quando criança, ia com meu pai a muitos jogos do Galo no Mineirão”, postou. Não faltou quem nos mesmos veículos lembrasse que 1) como nasceu em 1947, tinha 18 anos e, portanto, não era criança quando o estádio foi inaugurado; e 2) que o pai morrera em 1962, três anos antes de sua inauguração.»

José Nêumanne Pinto, escritor e jornalista, in Estadão 16 jul° 2014, mostrando que mentira tem perna curta.

De jegue

José Horta Manzano

E o bobão aqui que acreditou que, para assistir a uma partida de futebol, o povo dispensava o metrô ― que é babaquice ― e ia «de ônibu, de pé ou de jegue»…

Parece que não é bem assim. A monumental arena de Natal acaba de acolher o primeiro jogo pós-Copa. Vejam a desolação.

E pensar que essa fortuna podia ter sido utilizada para o progresso do País. Que judiação!

Estadio 6

Feitios de oração

Fernão Lara Mesquita (*)

Proporcionou «a melhor Copa da História fora dos gramados» quem, cara-pálida? O governo ou o povo brasileiro? Pelo bico da Dilma, que não destravou nem na hora de entregar a taça, ela sabe pelo menos que ela é que não foi.

O que é que a imprensa internacional está festejando, a «organização perfeita», que já começa a ser enfiada na História do Brasil, ou a tradicional simpatia do povo brasileiro somada à ausência do desastre anunciado?

E o povo brasileiro, o que é que ele deve comemorar, já que futebol é que não será? A metade das obras que lhe foi entregue ou o dobro do preço das obras inteiras que ele pagou e vai continuar pagando por décadas a fio, com juros e correção monetária?

Reza 1Que as festas brasileiras são as melhores do mundo não é novidade. Que a nossa permissividade ampla, geral e irrestrita é uma delícia para umas férias de 15 dias, idem. Mas nesta hora em que os 57 mil soldados do exército ― um para cada brasileiro assassinado na rua no ano passado ― vão voltar para os quartéis, nós é que vamos continuar tendo de criar nossos filhos no meio do tiroteio das feiras livres de drogas e da libertinagem geral. Os alemães vão voltar pra casa e criar os deles naquela chatice da paz, da abundância, da boa educação e dos melhores serviços públicos do mundo, que vigoram lá onde eles vivem.

No dia seguinte ao do Mineiratzen, diante da boa vontade geral com que o Brasil recebeu a «matemática criativa» do Felipão a nos provar que aqueles 7 x 1 não foram nada e que o time estava indo muito bem, fiquei sinceramente com medo que ele acabasse ganhando um ministério do PT. Vieram a calhar, portanto, os 3 x 0 da Holanda, para nos livrar de vez de mais essa bizarrice acachapante neste país onde nada rende mais dividendos que um bom e velho «malfeito».

A terrível ameaça de que a Dilma e o Aldo Rebelo façam pelo futebol brasileiro o mesmo que o PT e o PC do B têm feito pela nossa economia e pela credibilidade do futuro do Brasil com as suas sucessivas «intervenções» pode, entretanto, ter aumentado com mais essa pá de cal. Dado que não há mesmo como exorcizar a ameaça, pelo menos até o resultado da próxima eleição, só resta mesmo rezar.

No que diz respeito ao desempenho da Seleção, a explicação reside nas duas diferentes maneiras de rezar. Os alemães e os holandeses são daquela religião em que a reza é o trabalho. Eles acreditam que Deus só ajuda quem se ajuda e que o paraíso se conquista pelo tanto que cada um consegue, dando o melhor de si, acrescentar à obra coletiva.

Heroi 1Já nós somos daquela religião que acredita que, sendo isto aqui um vale de lágrimas onde só rola o que Deus manda independentemente do que façamos, cada um pode fazer o que quiser, inclusive ― e principalmente ― viver fora da regra de Deus. No fim das contas, já que Ele é o culpado de tudo, nós já estamos previamente perdoados. Falta apenas saber quantas ave-marias teremos de rezar com todo o fervor na hora H para zerar a conta ― e para conseguir que a intervenção divina nos desobrigue de colher aquilo que plantamos. E para que pães e gols, por milagre, se multipliquem.

Essa diferença faz pelo futebol o mesmo que faz pelo PIB de cada um de nós. A menos que apareça um «salvador da pátria» que, em si mesmo, já seja um milagre ambulante ― como já tivemos tantos ― e que conceda a graça de desvincular a colheita da semeadura. Sem que seja preciso nem mesmo rezar.

Só que desta vez não deu.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

Não justifica

José Horta Manzano

Aporrinhado por uma hecatombe de acontecimentos ruins ― derrota doída no gramado, vaias e apupos recorrentes, inflação em alta e outros males crônicos ― o Planalto se vê na urgente e ingrata obrigação de encontrar notícias boas.

Já faz fários anos, o ministro Mercadante, fiel escudeiro da Casa Civil, disse uma vez que havia tomado a decisão irrevogável de retirar-se do governo. Não só não saiu, como até hoje está lá. A firmeza e a exatidão de suas palavras têm, desde então, o valor que cada um queira lhes atribuir.

Turismo 3Pois bem, o senhor Mercadante acaba de apresentar balanço turístico do período da «Copa das copas». Afirmou, com indisfarçado orgulho, que mais de um milhão de turistas estrangeiros visitaram o Brasil.

Um número isolado, sem referencial, é pouco significativo. Para ser avaliado, falta saber quantos turistas costumam visitar o País a cada ano. Melhor ainda, é bom verificar como se situa nosso país-continente na escala internacional da movimentação turística.

Dados do Ministério do Turismo garantem que 5,7 milhões de turistas estrangeiros aportaram no Brasil em 2012. Grosso modo, ano sim, outro também, dá meio milhão de pessoas por mês. Portanto, do milhão de indivíduos assinalados pelo senhor Mercadante durante o mês do mundial, há que subtrair o meio milhão que viria de qualquer maneira. No frigir dos ovos, o campeonato atraiu apenas 500 mil visitantes extras.

Agora, convenhamos. Considerando que a Copa exigiu investimento de 25 bilhões, o resultado é pífio. Com muitíssimo menos, o Ministério do Turismo deveria poder atrair turistas ― afinal, é para isso que ele serve. Se não tem conseguido alçar o número de visitantes, é por incompetência.

Torneios de futebol, embora sejam eventos de repercussão planetária, têm duração muito curta. Efêmeros, seus efeitos não se prolongam no tempo. Senão, vejamos: alguém se sente impelido a visitar a África do Sul na esteira da Copa que ali se realizou quatro anos atrás?

Reproduzo aqui dados da Organização Mundial do Turismo, órgão da ONU, relativos ao movimento turístico global:

Número de turistas estrangeiros recebidos
em cada país – Dados de 2012
———————————-———————————-——————————————-
 1. França         84,0 milhões
 2. EUA            63,3 milhões
 3. Espanha        58,7 milhões
 4. China          58,6 milhões
 5. Itália         46,1 milhões
 6. Turquia        36,7 milhões
 7. Reino Unido    29,2 milhões
 8. Alemanha       28,4 milhões
 9. Malásia        24,1 milhões
10. México         23,4 milhões
11. Áustria        23,0 milhões
12. Rússia         22,6 milhões
13. Hong Kong      22,3 milhões
14. Ucrânia        21,4 milhões
15. Tailândia      19,0 milhões
16. Canadá         18,2 milhões
17. Saudi-Arábia   17,6 milhões
18. Grécia         14,4 milhões
19. Polônia        13,3 milhões
20. Macau          12,9 milhões
21. Holanda        11,3 milhões
22. Singapura      10,3 milhões
23. Hungria        10,2 milhões
24. Croácia         9,9 milhões
25. Coreia do Sul   9,7 milhões
26. Egito           9,4 milhões
27. Marrocos        9,3 milhões
28. Dinamarca       8,7 milhões
29. Rep.Tcheca      8,7 milhões
30. Suiça           8,5 milhões
——————————-
… Brasil          5,7 milhões

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Receitas trazidas pelo turismo internacional
a cada país – Dados de 2012 (em dólares)
—————————————–—————————————–—————————-
 1. EUA          126,2 bilhões
 2. Espanha       55,9 bilhões
 3. França        53,7 bilhões
 4. China         50,0 bilhões
 5. Macau         43,7 bilhões
 6. Itália        41,2 bilhões
 7. Alemanha      38,1 bilhões
 8. Reino Unido   36,4 bilhões
 9. Hong Kong     32,1 bilhões
10. Austrália     31,5 bilhões
——————————–
… Brasil         6,6 bilhões

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Verificamos que cada estrangeiro em visita ao Brasil gasta em média 1160 dólares. Portanto, os turistas suplementares que a “Copa das copas” nos trouxe hão de ter gasto menos de 600 milhões no total.

É muito pouco para justificar os bilhões investidos. É urgente procurar outro legado.

Frase do dia — 159

«Olha, eu estou tranquila, viu? Eu estou me mirando no exemplo do rei sueco Gustavo VI. Na final da Copa de 1958, na Suécia, o Brasil fez cinco gols na seleção deles, que estava na final. Fomos campeões e ele nos entregou a taça.»

Dilma Rousseff que, em declaração à Folha de São Paulo, sugeriu a possibilidade de que o rei da Suécia pudesse até ter fugido com a copa debaixo do braço. Para alívio de todos, ela seguiu o exemplo do rei e entregou a taça. Com cara de poucos amigos, é verdade, mas entregou.

Os bilhões de Dilma

Percival Puggina (*)

Se você reparar bem, a cada abalo que o governo da presidente Dilma registra em sua sacolejada escala Richter, segue-se algum plano mirabolante ou algum anúncio bilionário destinado a acalmar as ondas. Seja o abalo moral ou político, a reação oficial vem sempre de um ou de outro modo.

Ora o governo anuncia providências estruturais que não funcionam (como essa de intervir no futebol e estancar a evasão de atletas para o exterior), ora reúne o ministério, os governadores, a imprensa, o empresariado, os movimentos sociais e informa que está destinando bilhões de reais para isto ou para aquilo.

Arca 1Convenhamos, é um modo estranhíssimo de governar. É injustificável que, completados 93% de seu mandato e enquanto transcorre o 12º ano de gestão petista, o país ainda esteja sendo governado aos trambolhões, ao arbítrio do momento e seguindo o juízo das necessidades impostas pelas oscilações do Ibope.

De modo especial, tais improvisações parecem incompatíveis com o perfil segundo o qual a presidente foi repassada aos votantes no mercado eleitoral de 2010. São bilhões para cá e para lá, saídos do nada e conduzindo, na vida real, a coisa alguma. É o que se poderia chamar de capital volátil. Faz lembrar aquelas maletas pretas dos filmes de ação, que supostamente deveriam conter vultosas quantias, mas estão recheadas de jornais com notícias antigas.

De fato, são eventos que, a despeito da pompa e circunstância, logo se tornam coisas esquecidas, cuja função se exauriu no momento de cada anúncio. E de nada vale ficar cobrando serventia maior para algo concebido apenas para ser divulgado./p>

(*) Arquiteto, empresário e escritor.
O texto transcrito é excerto de artigo mais extenso. Quem quiser ler a versão integral pode clicar aqui.

No final…

«Le football est un jeu très simple qui se joue à vingt-deux et à la fin c’est toujours les allemands qui gagnent.»

«O futebol é um jogo muito simples, com vinte e dois jogadores. E, no final, quem ganha são sempre os alemães.»

Chavão citado volta e meia na França. Principalmente quando ganham os alemães.

Frase do dia — 158

«O padrão Fifa acaba junto com o torneio. A segurança exaltada pelos estrangeiros que vieram ao país para a Copa é tão atípica quanto a goleada alemã. Sem Copa, o exército deixa as ruas. Um jogo do campeonato brasileiro não mobilizará dois mil policiais, nem haverá feriados que garantam a fluidez do trânsito.»

João Bosco Rabello, colunista do Estadão, em artigo de 9 jul° 2014.

Coerência no futebol

José Horta Manzano

Panico 1Outro dia, ao perder para a Alemanha por 7 a 1, nossa equipe nacional de futebol deu susto em todo o mundo. Nem o mais ousado dos videntes, nem o mais pernudo dos polvos teria previsto placar tão elástico.

É difícil encontrar explicação. Quando sobrevém um acontecimento fora de toda previsão e de todo controle, costumamos falar em acidente. Foi a palavra mais utilizada para descrever a hecatombe.

Os ingleses se referiram ao fato como mishap. Os franceses tanto usaram mésaventure como accident de parcours. Quanto aos italianos, deram preferência a disavventura. E os espanhóis disseram percance.

Bom, isso valeu para o 7 a 1. Assim como raio não costuma cair duas vezes no mesmo lugar, a segunda derrota seguida da Seleção muda o cenário.

by João Bosco Jacó de Azevedo, desenhista paraense

by João Bosco Jacó de Azevedo, desenhista paraense

O fato de o «scratch»(*) nacional perder de goleada dois jogos consecutivos ― em Copa do Mundo jogada em casa! ― já não se encaixa mais no departamento de acidentes. Os bilhões de telespectadores que assistimos aos lances principais desta Copa estamos a nos perguntar se os termos da explicação não estariam invertidos.

Sim, agora tudo parece indicar que, se acidente houve, foi o resultado dos primeiros jogos da Seleção. Agora dá pra entender o que estava por detrás daquelas vitórias sofridas, estreitinhas, acudidas por pênaltis inexistentes, resolvidas na loteria do tiro ao alvo e salvas por bolas na trave.

Passarinho 2Pensando bem, até que há lógica nisso tudo. Nosso país, por decisão de seus perspicazes e ilibados líderes, caminha em marcha forçada para se tornar uma Venezuela. Nessa perspectiva, dispor de equipe nacional de futebol de padrão Fifa não combina. A lógica elementar exige que nosso futebol se aproxime do padrão bolivariano.

É o que está acontecendo. É coerente e faz sentido.

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(*) Scratchera um dos nomes que se dava ao grupo de jogadores selecionados para representar o futebol do País. Falo do tempo em que o Brasil era respeitado em campo. Falo daquela época em que a simples visão de uma camisa amarela fazia qualquer adversário engolir em seco.

Frase do dia — 157

«Num surto provocado por mistura tóxica de oportunismo (…) e conhecido vezo autoritário, Dilma falou como quem quer cassar o direito constitucional dos brasileiros de ir e vir (…), como se o Brasil fosse uma Cuba ou uma Coreia do Norte.»

Editorial do Estadão de 12 jul° 2014, numa análise da entrevista em que nossa presidente declarou que «o Brasil não pode mais continuar exportando jogador».

Recordar é viver ― 5

Lingua 1O ex-presidente Lula fala apenas a própria língua, e mal. Mas também não finge “arranhar” outros idiomas.

Em 2005, por ocasião da cerimônia de sepultamento do Papa João Paulo II, ele se viu em meio a personalidades políticas mundiais, incluindo o então presidente da França, Jacques Chirac, que lhe dirigiu algumas palavras.

Sem qualquer diplomata brasileiro nas proximidades para socorrê-lo, o Lula não hesitou. Cutucou o antecessor Fernando Henrique Cardoso, que estava ao lado, e pediu com toda a humildade:

― Traduz aí, Fernando!

Pescado no site do Cláudio Humberto, Diário do Poder.

Sem fronteiras

José Horta Manzano

Seja qual for o resultado da final de consolação deste 12 de julho, a Copa das copas já terminou. Chegou a hora do inventário. Quando o resultado é bom, distribuem-se os dividendos. Dado que o exercício foi catastrófico, é hora de apontar os culpados.

Certa de que o Brasil venceria o torneio, dona Dilma tinha-se atribuído, de antemão, a paternidade de glórias futuras. As glórias entraram em greve e não vieram. Todos agora lançam olhar interrogativo à presidente e perguntam: «Ué, a senhora não disse que ia dar tudo certo e que ia ser uma maravilha?». Presidenta que se preza não pode se esquivar alegando que foi traída, que não sabia de nada. Essa desculpa já está muito manjada.

Elefante 2Instruída por algum assessor, ela chegou à conclusão de que, para escapar, o melhor seria jogar a responsabilidade no colo de alguém. A CBF, responsável pela organização do futebol nacional, apareceu como culpada ideal pelo descalabro. Dona Dilma, sob a ameaça de ver suas «arenas» se transformarem em elefantes brancos, aceitou a sugestão. Já se pronunciou mais de uma vez declarando, em tom peremptório, que uma profunda reformulação do futebol brasileiro tem de ser empreendida.

Cabe a pergunta: por que, diabos, essa profunda reformulação não foi posta em prática faz sete anos, desde o momento em que o Brasil foi designado para abrigar a Copa das copas? Por que esperaram que a incúria desembocasse numa acachapante derrota?

Ainda que tardiamente, nossa presidente propõe que se criem escolas de futebol, como na Alemanha, para que nossos craquinhos possam desenvolver sua craquidão e tornar-se cracões sem ter de recorrer a escolas estrangeiras. Assim ― raciocina a mandatária ― jogadores brasileiros ficarão no Brasil, o nível do futebol nacional subirá e os estádios lotarão, afastando o espectro de elefantes albinos plantados em plena Amazônia Legal.

O raciocínio manca das duas pernas. Parte da falsa premissa de que nossos atletas vão jogar na Europa por causa da inexistência de escolas de futebol nacionais. Não é bem assim. Eles vão jogar onde o salário for mais vantajoso. Se os clubes brasileiros pagassem o que pagam os europeus, haveria fila de cracões mundiais à espera de uma chance.

Elefante 1A segunda leviandade é ignorar o custo da empreitada. Já imaginaram? Cria-se nova estatal, a Futebrax (ou SoccBras, de sabor mais americanizado). Em seguida, abrem-se 27 filiais da autarquia, uma em cada estado. Depois vêm as sedes, os campos de treinamento, os professores, os assessores, os olheiros, os fisioterapeutas, os médicos, os roupeiros, os treinadores, os psicólogos, os porteiros, os seguranças, a mulher do café. Sem esquecer os agregados, os nomeados, os apaniguados, os amigos do rei e a indispensável propaganda institucional ― um verdadeiro cabide de empregos. Para salvar elefantinhos (os estádios inúteis), cria-se um elefantão. Contrassenso.

Proponho a dona Dilma um caminho muito mais simples, rápido e barato. Que institua imediatamente a Bolsa-Futebol. Os craquinhos que demonstrarem talento serão contemplados. Passarão dois anos na Alemanha, estudando numa escola de futebol, com todas as despesas pagas. Depois disso, terão de honrar o compromisso de atuar no futebol brasileiro, obrigatoriamente, durante dois anos. A partir daí, estarão liberados para trabalharem onde bem entenderem.

A mim, parece-me uma solução de baixo custo e de fácil realização. Em vez de construir uma estrutura a partir do zero, cara e demorada, aproveita-se a estrutura já existente no estrangeiro. Não vejo desonra nisso.

Para disfarçar o estigma de assistencialismo embutido na palavra bolsa, melhor chamar o programa de Futebol sem fronteiras. Que tal?

E daí?

José Horta Manzano

Justiça desequilibradaA Folha de São Paulo nos informa que o prefeito da maior cidade brasileira atribuiu a um certo senhor Teixeira o comando da Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, posto importante e assaz cobiçado na administração da metrópole.

Acontece que o senhor Teixeira já foi condenado pela Justiça por improbidade administrativa. Você entendeu bem, distinto leitor, a condenação do indivíduo não foi por uma guarda-chuvada desfechada num momento de descontrole. Foi por ter-se valido de função pública para fins ilícitos.

A história do enfrentamento entre o secretário e a Justiça é complicadíssima, teatral, cheia de altos e baixos. Arrasta-se há mais de uma década.

Pode até ser ― espero ― que não haja empecilho legal para a nomeação do senhor Teixeira. Há que convir, no entanto, que nem tudo o que é legal é ético.

Coisa feia

José Horta Manzano

 

Vaia

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Ao ouvir as vaias de que os argentinos foram alvo durante o jogo contra a Holanda, em São Paulo, fiquei imaginando se os que vaiaram os hermanos não são os mesmos que dão de ombros quando dona Cristina, presidente do país vizinho, bloqueia negociações com o Brasil, demolindo o já combalido Mercosul e prejudicando nosso comércio exterior.