Feitios de oração

Fernão Lara Mesquita (*)

Proporcionou «a melhor Copa da História fora dos gramados» quem, cara-pálida? O governo ou o povo brasileiro? Pelo bico da Dilma, que não destravou nem na hora de entregar a taça, ela sabe pelo menos que ela é que não foi.

O que é que a imprensa internacional está festejando, a «organização perfeita», que já começa a ser enfiada na História do Brasil, ou a tradicional simpatia do povo brasileiro somada à ausência do desastre anunciado?

E o povo brasileiro, o que é que ele deve comemorar, já que futebol é que não será? A metade das obras que lhe foi entregue ou o dobro do preço das obras inteiras que ele pagou e vai continuar pagando por décadas a fio, com juros e correção monetária?

Reza 1Que as festas brasileiras são as melhores do mundo não é novidade. Que a nossa permissividade ampla, geral e irrestrita é uma delícia para umas férias de 15 dias, idem. Mas nesta hora em que os 57 mil soldados do exército ― um para cada brasileiro assassinado na rua no ano passado ― vão voltar para os quartéis, nós é que vamos continuar tendo de criar nossos filhos no meio do tiroteio das feiras livres de drogas e da libertinagem geral. Os alemães vão voltar pra casa e criar os deles naquela chatice da paz, da abundância, da boa educação e dos melhores serviços públicos do mundo, que vigoram lá onde eles vivem.

No dia seguinte ao do Mineiratzen, diante da boa vontade geral com que o Brasil recebeu a «matemática criativa» do Felipão a nos provar que aqueles 7 x 1 não foram nada e que o time estava indo muito bem, fiquei sinceramente com medo que ele acabasse ganhando um ministério do PT. Vieram a calhar, portanto, os 3 x 0 da Holanda, para nos livrar de vez de mais essa bizarrice acachapante neste país onde nada rende mais dividendos que um bom e velho «malfeito».

A terrível ameaça de que a Dilma e o Aldo Rebelo façam pelo futebol brasileiro o mesmo que o PT e o PC do B têm feito pela nossa economia e pela credibilidade do futuro do Brasil com as suas sucessivas «intervenções» pode, entretanto, ter aumentado com mais essa pá de cal. Dado que não há mesmo como exorcizar a ameaça, pelo menos até o resultado da próxima eleição, só resta mesmo rezar.

No que diz respeito ao desempenho da Seleção, a explicação reside nas duas diferentes maneiras de rezar. Os alemães e os holandeses são daquela religião em que a reza é o trabalho. Eles acreditam que Deus só ajuda quem se ajuda e que o paraíso se conquista pelo tanto que cada um consegue, dando o melhor de si, acrescentar à obra coletiva.

Heroi 1Já nós somos daquela religião que acredita que, sendo isto aqui um vale de lágrimas onde só rola o que Deus manda independentemente do que façamos, cada um pode fazer o que quiser, inclusive ― e principalmente ― viver fora da regra de Deus. No fim das contas, já que Ele é o culpado de tudo, nós já estamos previamente perdoados. Falta apenas saber quantas ave-marias teremos de rezar com todo o fervor na hora H para zerar a conta ― e para conseguir que a intervenção divina nos desobrigue de colher aquilo que plantamos. E para que pães e gols, por milagre, se multipliquem.

Essa diferença faz pelo futebol o mesmo que faz pelo PIB de cada um de nós. A menos que apareça um «salvador da pátria» que, em si mesmo, já seja um milagre ambulante ― como já tivemos tantos ― e que conceda a graça de desvincular a colheita da semeadura. Sem que seja preciso nem mesmo rezar.

Só que desta vez não deu.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s