Conversa de cachorro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minha cachorra mais velha e mais sábia me chamou para conversar. Tenho notado, disse ela como introdução, que você anda um tanto ressabiada, irritada mesmo com os últimos acontecimentos políticos, não é verdade?

Nuvens 2Amuada, respondi que estava me sentindo cansada com tanto vai e vem nos humores da população e dos governantes. Acho que a desesperança tomou conta de mim, admiti constrangida.

A cachorra aprumou-se e continuou: Vocês não têm um ditado que diz que, para quem não sabe aonde quer ir, nenhum vento é favorável? Pois então, sinto que você está perdida em divagações sobre o que vai acontecer do lado de fora e não se dá conta de que o mais importante é encontrar um caminho interno. Você não acha que já está mais do que na hora de parar de ficar apontando a responsabilidade de outras pessoas pela escolha do atual curso de ação e começar a se investir desse mesmo poder?

by Alex Gregory, desenhista americano

by Alex Gregory, desenhista americano

Fez uma pausa estratégica para me dar tempo para pensar e prosseguiu num tom professoral: Lembra quando eu lhe disse que, entre nós, não há questionamentos sobre a capacidade do líder? Se um líder de matilha nos conduzisse para a beira de um precipício ou para lugares onde não haja comida nem água – coisa inimaginável para nossas mentes, diga-se de passagem – a matilha simplesmente deixaria de segui-lo.

Briga 5Mas, interrompi, as coisas não são tão simples assim entre nós humanos. Há sempre alguns que continuam seguindo o líder mesmo quando os sinais de que ele está se aproximando de um beco sem saída já são evidentes. Nossa matilha então se divide e tem início uma verdadeira guerra de opiniões, cada um querendo seguir para um lado.

Presta atenção, continuou enfática a cachorra. Você está confundindo liderança com chefia e isso não é nada bom. Em qualquer espécie, se um dirigente não consegue envolver e comprometer todos os membros de um grupo, então ele não é líder de ninguém. Pode até concentrar o poder por um tempo, mas, se não souber abrir caminhos, será rapidamente abandonado e descartado. A indecisão ou fragilidade do condutor só faz abrir caminho para ferozes lutas internas e ele próprio acaba correndo o risco de ser despedaçado durante um confronto qualquer.

Pois é, disse eu, eu acho que é exatamente isso o que está acontecendo agora. Já enfrentei muitos problemas em meu trabalho de consultoria organizacional por causa disso. Muitos executivos insistem em acreditar que o bom líder é aquele que produz resultados e eu já levei muita mordida por discordar e afirmar que líder é aquele que alcançou a excelência no gerenciamento de processos. É preciso que cada membro do grupo se sinta incentivado a buscar por conta própria maneiras de garantir autonomia, responsabilização e visão altruística. As competências críticas para garantir a sobrevida do grupo não podem ser prerrogativa apenas do dirigente. Se as pessoas não assumirem o próprio poder de escolha e decisão, não há esperança. Como dizem os orientais, quando dois elefantes brigam quem paga é a floresta.

by Leo Cullum (1942-2010), desenhista americano

by Leo Cullum (1942-2010), desenhista americano

Se você sabe de tudo isso, provocou minha cachorra, por que se desespera? Chame para si mesma a tarefa de desenvolver novos processos de envolvimento e comprometimento de todos com o mundo político. Você estudou para isso. Acho que já estou velha e cansada demais para absorver uma missão tão gigantesca e complexa como essa, repliquei aborrecida.

Guia 1A missão da velhice, alfinetou uma vez mais minha cachorra, não é pôr-se em marcha intempestivamente, mas sim iluminar possíveis novos caminhos. Intimidada, fiquei sem resposta por algum tempo. Não queria passar recibo da minha falta de humildade. Foi então que lembrei de uma matriz de concordância-confiança que me foi apresentada por uma amiga querida como ferramenta para desenvolver pensamento estratégico. A concordância, dizia ela, flutua muito ao sabor do tema em pauta. A confiança, por outro lado, tende a ser muito mais estável ao longo do tempo. No entanto, se por um acidente qualquer, for quebrada, revela sua natureza de cristal delicado. Se ele se parte, por maior que seja o esforço para consertá-lo, jamais voltará a ser como antes.

Uma onda de energia repentinamente tomou conta de mim. É isso, repeti para mim mesma em voz alta: “Caminhante, não há caminhos. O caminho se faz ao caminhar.”

Só mesmo uma cachorra para me lembrar que sou, antes de mais nada, um animal.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Carta aberta ao gato do José

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cachorro 22Prezado amigo felino,

Sabíamos que você, gato inspirado,
Estava deveras acabrunhado e curioso
Dos motivos do tal instituto ter entrado
Em um sono misterioso

Alvíssaras, prezado companheiro,
Folgamos em lhe dizer que o pessoal acordou
E colocou mais brasa no braseiro
Através de duas pesquisas o fim do governo indicou

Informam que a rejeição subiu, como já sabíamos todos
E que a oposição seu patrimônio manteve intacto
E esperavam, impávidos, com esses dados causar impacto
Resgatar sua credibilidade junto aos tolos

Mas, oh, quanta ingenuidade
Já mais ninguém aguenta
Constatar a desdita da presidenta
E desacreditar no fim de sua impunidade

Só faltou explicar
Se, para tudo isso, contribuiu o ocorrido na Venezuela
Ou se o que eles buscavam era só confirmar
Que o Brasil não mais comporta esse bando de Zé Arruela.

Em tempo, será que o Papa Francisco podia
Rezar uma missa de réquiem e colocar um ponto final nessa agonia?

Um abraço carinhoso de suas amigas cachorras.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Quem paga o pato

José Horta Manzano

FHC 1Não acho que seja função de quem já esteve no topo da carreira ficar dando palpite sobre o dia a dia da República. Para a biografia de suas excelências, mais valeria recolher-se a um silêncio distante e majestático. A aura dos figurões sairia reforçada.

Mas as coisas no Brasil não funcionam assim. É comum aparecer, na mídia, entrevista concedida pelos mais improváveis personagens: encarcerados, juízes, desembargadores, antigos ministros do STF, antigos presidentes da República. Ah, essa vaidade…

Ademais, a situação peculiar que nosso País atravessa permite certos excessos. Vamos ao mais recente deles.

Tesoura 1Toda a imprensa noticiou a declaração do antigo presidente Fernando Henrique Cardoso, pronunciada em 23 de maio no Centro Universitário de Brasiília. Disse o palestrante que, ao cortar 70 bilhões de seus gastos este ano, o governo “está pagando seus pecados”. O «governo» está pagando? Quéquéisso, cara-pálida?

Arca 1Integrantes do «governo» estão com as burras cheias – abarrotadas – de dinheiro, ouro e pedras preciosas. Houve os bilhões roubados da Petrobrás. Houve os réus confessos de haver pago propina a políticos de alto e baixo quilate.

Há ainda quem suspeite que boa parte dos bilhões entregues aos bondosos irmãos Castro, no âmbito do Mais Médicos, estar sendo devolvida sob forma de depósito em contas particulares, domiciliadas em paraísos fiscais. Há desconfiança de assombrosos desvios ligados a obras bilionárias financiadas pelo BNDES em Angola, na Venezuela, no Equador e em outros países amigos.

Quem está pagando somos nós, povão, tanto os ingênuos que botaram essa gente lá quanto os que não se dobraram ao marketing oficial.

Ninguém pode perder o que não tiver. Portanto, os integrantes do «governo» não podem perder a dignidade, por nunca a terem tido. A eles, venais e egocentrados, a fortuna pecuniária basta. São gente atrasada e daninha, que jamais deveria ter sido alçada aos píncaros da República.

Crédito: Junecember

Crédito: Junecember

Quem está pagando, prezado ex-presidente, é o povo. A conta veio justamente para aqueles que dão duro todos os dias na esperança de um futuro melhor. Dói no bolso e no coração ver que nosso destino está sendo forjado por cafajestes.

Data venia, excelência, entendo a intenção de suas palavras e com ela concordo. Mas, convenhamos, a formulação foi pra lá de infeliz.

Senhora idosa

Dad Squarisi (*)

Corrupção 2Metáforas têm superpoder. São capazes de ir além do que dizem. Quando o pão pão, queijo queijo perde o viço e o dom de surpreender, a gente apela para o sentido figurado. Oba! Desvencilha-se das amarras e avança em significados. Foi o que fez a presidente Dilma Rousseff.

Ao dizer que a corrupção é “senhora idosa”, não saiu do óbvio. Não saiu do óbvio também quando afirmou que é anterior ao governo do PT. Até as pedras sabem que veio na caravana de Pedro Álvares Cabral. Está registrada lá, na carta de Pero Vaz de Caminha.

De óbvio em óbvio, a metáfora conduz a outro. Idosos morrem. (Jovens também.) A morte faz parte do ciclo da vida. Quem contraria a lei natural colhe resultado certo — o fracasso. Mas muitos insistem. Desde que o mundo é mundo, há relatos de atrevimentos. A mitologia está repleta de exemplos. Um deles: o de Sibila.

Vovó 1A profetisa se tornou porta-voz de Apolo. O mais belo deus do Olimpo apaixonou-se por ela. Caidinho de amor, prometeu satisfazer todos os desejos da amada. Ela pediu loooonga vida. Talvez a eternidade. Ele a atendeu. A moça foi ficando velhinha, velhinha — pequena e ressequida.

Alguém a pôs numa gaiola e a pendurou no templo de Apolo. Sibila ficou ali ano após ano, década após década, século após século. Visitantes pensavam que se tratasse de uma cigarra. Quando descobriam que era uma pessoa, perguntavam o que ela mais queria. A resposta: “Quero morrer”.

Gaiola 1A voz de Sibila ecoa de norte a sul do Brasil. A multidão que vestiu as ruas de verde-amarelo deixou recado claro — deixem a corrupção morrer. Cartazes, alto-falantes e bordões recusavam a prática embolorada que se agigantou com desenvoltura ímpar. Sem escrúpulos, jogou nas cordas até a Petrobrás, a mais simbólica empresa brasileira.

Velha como a senhora idosa foi a resposta do Planalto. Ao olhar pra trás, o discurso ressequido lavou as mãos. (Assim era, assim será.) Deixou de mirar o novo que tomou as ruas. São pessoas conectadas que exigem mudanças. Estavam lá como sociedade organizada que se recusa a pagar a supervitamina que mantém vivo cadáver sem sintonia com o contemporâneo.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Governo, que governo?

Dad Squarisi (*)

Há governos e governos. Democracia é o governo do povo. Teocracia, governo de religiosos. Plutocracia, governo de ricos. Cleptocracia, governo de ladrões. Na língua de Platão e Aristóteles, demos quer dizer povo. Daí democracia. Teo, Deus. Dele se formou teocracia. Os mais curiosos são os dois últimos.

Plutão e Cérbero, seu cão de três cabeças

Plutão e Cérbero, seu cão de três cabeças

Plutocracia
Plutocracia vem de Plutão. Na mitologia romana, Plutão era o deus dos mortos e do mundo subterrâneo. (Equivalia a Hades, dos gregos.) Por que a associação à riqueza? Por duas razões. Uma: o ouro e a prata se extraem das minas. A outra: para entrar no mundo dos mortos, os cadáveres precisavam pagar pedágio. A família, então, punha uma moeda sob a língua de cada morto. Já imaginou a riqueza acumulada?

Clepsidra

Cleptocracia
Clepsidra vem do grego klepsydra. A sofisticada palavra dá nome aos primitivos relógios de água ou areia. Duas palavras a formam. Uma: clepto, que quer dizer roubar. A outra: hidra, que significa água.

A clepsidra deixa o seguinte recado aos mortais: o tempo não discrimina. Rouba a vida de pobres e ricos a cada gota d´água ou grãozinho de areia que sai do relógio.

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(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Os bilhões de Dilma

Percival Puggina (*)

Se você reparar bem, a cada abalo que o governo da presidente Dilma registra em sua sacolejada escala Richter, segue-se algum plano mirabolante ou algum anúncio bilionário destinado a acalmar as ondas. Seja o abalo moral ou político, a reação oficial vem sempre de um ou de outro modo.

Ora o governo anuncia providências estruturais que não funcionam (como essa de intervir no futebol e estancar a evasão de atletas para o exterior), ora reúne o ministério, os governadores, a imprensa, o empresariado, os movimentos sociais e informa que está destinando bilhões de reais para isto ou para aquilo.

Arca 1Convenhamos, é um modo estranhíssimo de governar. É injustificável que, completados 93% de seu mandato e enquanto transcorre o 12º ano de gestão petista, o país ainda esteja sendo governado aos trambolhões, ao arbítrio do momento e seguindo o juízo das necessidades impostas pelas oscilações do Ibope.

De modo especial, tais improvisações parecem incompatíveis com o perfil segundo o qual a presidente foi repassada aos votantes no mercado eleitoral de 2010. São bilhões para cá e para lá, saídos do nada e conduzindo, na vida real, a coisa alguma. É o que se poderia chamar de capital volátil. Faz lembrar aquelas maletas pretas dos filmes de ação, que supostamente deveriam conter vultosas quantias, mas estão recheadas de jornais com notícias antigas.

De fato, são eventos que, a despeito da pompa e circunstância, logo se tornam coisas esquecidas, cuja função se exauriu no momento de cada anúncio. E de nada vale ficar cobrando serventia maior para algo concebido apenas para ser divulgado./p>

(*) Arquiteto, empresário e escritor.
O texto transcrito é excerto de artigo mais extenso. Quem quiser ler a versão integral pode clicar aqui.

Frase do dia — 153

«‘Vai ser uma festa‘, anunciou Marta Suplicy, ministra da Cultura, no lançamento do programa Brasil de Todas as Telas, que, segundo o governo, destinará R$ 1,2 bilhão ao setor audiovisual. Trata-se de uma peça publicitária de campanha eleitoral, evidenciando que o Planalto governa com slogans.»

Editorial do Estadão, 6 jul° 2014.

Frase do dia — 84

«Não deixa de ser paradoxal que o governo brasileiro, que vem respeitando há pelo menos 20 anos os cânones do capitalismo, precise deslocar-se a Davos para vencer resistências, ao passo que o Irã, cujo confronto com o Ocidente é o mais agudo de todos os países mais ou menos relevantes, se faz cortejar.»

Clóvis Rossi, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo, 14 jan 2014.

Alô! Quem fala?

José Horta Manzano

Muito se tem falado em espionagem estes últimos tempos. Pouco, muito pouco sobre contraespionagem. Que bicho é esse? É uma atividade patrocinada por Estados para, entre outras funções, protegê-lo da bisbilhotagem alheia.

O escândalo que surgiu faz algumas semanas ― falo do anúncio de ações de espionagem monitoradas pelo governo dos EUA ― só espantou o distinto público. Governantes estão cansados de saber que espionagem entre Estados é prática mais antiga que o rascunho da Bíblia.

Governos de países mais desenvolvidos foram bem mais comedidos em sua reação. Mostraram um simulacro de indignação, mais para satisfazer a galeria. E ficou por isso mesmo. O mundo continuou a girar. Business as usual. Por que reagiram de maneira tão branda? Por dois motivos.

Telefone celular

Telefone celular

Primeiro, porque já faz tempo que se deram conta de que as maiores ameaças externas não provêm mais de armamento bélico. Foi-se o tempo em que possuir um grande número de tanques e de aviões era garantia de ganhar qualquer guerra. Os países mais bem orientados fazem a distinção entre objetivos do Estado (a longo prazo) e metas de governo (a curto prazo). Essas nações vêm-se dedicando, faz anos, a proteger-se desse tipo de ameaça cibernética. É atribuição de seus serviços de contraespionagem.

Em segundo lugar, a reação foi comedida justamente pelo fato de esses países mais desenvolvidos fazerem exatamente a mesma coisa que os EUA, cada um na medida de suas possibilidades. Quem tem telhado de vidro procura não atirar pedrinhas no telhado do vizinho. Ainda que o vizinho tenha sido flagrado roubando frutas do seu quintal, mais vale fazer de conta que não viu. Ou, melhor ainda, dizer: «Olhe aqui, que não se repita, hein!».

Muita informação não costuma ser divulgada. Não é preciso que todos saibam de tudo a todo momento. Seria malsão. Vazou hoje a informação de que o pessoal do andar de cima da França (ministros, secretários e figurões de alto escalão) estão proibidos de utilizar seus smartphones comuns para transmitir dados referentes a assuntos do governo. Já faz tempo que essa recomendação vigora. Os mandarins de Paris contam com cerca de 2300 telefones especialmente concebidos para esse fim. São smartphones só na aparência. Ultrasofisticados, enviam mensagem criptadas e passam por canais diferentes dos que nós, simples mortais, utilizamos. Em princípio, são ingrampeáveis.

Dez ou doze anos atrás, justamente quando as novas tecnologias começavam a dominar o planeta e a dar uma reviravolta nos antigos conceitos bélicos, o Brasil teve a má sorte de começar a ser governado por gente um pouco especial. Ingênuos, deslumbrados e despreparados, nossos mandachuvas não se deram conta de que as regras do jogo haviam mudado. Continuam temendo uma invasão da Amazônia. Por que não um desembarque de marcianos?

Telefone celular (não recomendado para ministros)

Telefone celular
(não recomendado para ministros)

O candor com que nosso ministro da Defesa declarou outro dia que «desconfia» que seu telefone tenha sido grampeado e o furor com que nossa presidente tem reagido à bisbilhotice americana atestam que nosso país não tem um serviço de contraespionagem. O estupor do ministro e a cólera da presidente são sinceros. Nossa defesa cibernética, se existe, não funciona.

Mas nunca é tarde para fazer benfeito. Chorar, espernear, bater o pé, fazer beicinho, ficar de mal, ameaçar, nada disso vai adiantar. Melhor farão se aprenderem com o erro. Se nossos governantes passarem a dedicar à função para a qual foram eleitos ou nomeados uma décima parte do tempo que gastam fazendo politicagem, já teremos dado um grande passo.

O papa e o protesto

José Horta Manzano

Os franceses têm resposta pra tudo. A cada aumento de imposto ― fato que acontece com bastante frequência na terra deles ― sempre aparece alguém no rádio ou na televisão para repetir que trop d’impôt tue l’impôt, imposto demais mata o imposto.

Com isso querem dizer que todo exagero é pernicioso. Impostos elevados demais são um convite à evasão e até à fraude. Têm razão. Nunca convém abusar, sob pena de ver o resultado irremediavelmente comprometido.

Faz um mês, o Brasil fervia. Centenas de milhares de manifestantes pacíficos saíam espontaneamente às ruas. Sem bandeiras, sem comando unificado, sem orientação partidária, sem carros de som, sem uniformes e sem estímulo oficial. Alguns portavam cartazes artesanais onde exprimiam seu anseio, sua reclamação, seu fastio.

Se algum dos 200 milhões de brasileiros lhe disser que, duas semanas antes, já havia previsto os protestos, não acredite: estará mentindo. Nenhum de nós imaginou que esse tipo de fenômeno fosse de novo possível num Brasil sedado havia mais de 10 anos. Mas aconteceu e foi útil.

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Numa certa altura da vida, tive um chefe que eu admirava e respeitava. Era o dono da empresa. Vez por outra, no meio do dia, ele saía. Nunca dizia aonde ia, mas costumava lançar, já na soleira da porta, a frase ritual: «Pode ser que eu volte no fim da tarde». Às vezes, voltava mesmo. O mais das vezes, não. Mas, entre nós, ficava a dúvida. Voltará ou não? Será que posso ir-me embora um pouco mais cedo? Será que ouso ausentar-me uma meia horinha para tomar sorvete na esquina?

O fato é que a técnica do chefe funcionava. Ninguém arriscava fazer o que não devia. O homem ia, mas o chicotinho ficava dependurado na parede.

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As passeatas de junho foram uma advertência gritante. Todos os figurões entenderam, mas cada um reagiu a seu modo. O mais visado, o pai de todos, escondeu-se e, pusilânime, fez-se de morto e sumiu de circulação. Outros, que não tinham como escapar, tomaram decisões vistosas, mas atabalhoadas e desconexas. Houve ainda quem desafiasse a voz das ruas e continuasse, como antes, requisitando aviõezinhos da FAB como se estes fizessem parte de seu patrimônio privado. Levaram uma advertência em regra.

Agora, que estão todos avisados, precisa dar uma pausa para meditação. Os mandarins brasileiros não vão tomar juízo da noite para o dia, que os vícios são muito antigos e já criaram raízes. O importante é que todos agora sabem que o mundo mudou e que as coisas não são mais como antes. Todo gesto, toda conversa, todo movimento é susceptível de ser vigiado, descoberto e divulgado.

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Papa Francisco

Papa Francisco

Papa Francisco deve desembarcar no Rio nesta segunda-feira, logo mais à tarde, em sua primeira viagem fora da Itália. Algumas mentes pouco iluminadas estão convocando incautos para protestar contra isto e aquilo durante a visita papal. É besteira grossa.

Primeiro, porque uma manifestação desse tipo pode ser interpretada como hostilidade ao visitante. Não cai bem. Além de mostrar sua falta de educação, os manifestantes perigam emitir sinais incoerentes. Desfilar diante do indivíduo A para manifestar seu descontentamento com o indivíduo B? Não faz sentido.

Segundo, porque os microfones e as câmeras do mundo inteiro que estarão postadas estes dias em volta do visitante transmitirão ao mundo a imagem de um povo baderneiro, pouco sério e dificilmente governável. A longo prazo, uma imagem desse naipe só pode ser prejudicial. Vai assustar futuros turistas e afugentar investidores. Contribuirá para que o planeta enxergue o Brasil com antipatia.

Terceiro ― e talvez mais importante: o exagero é prejudicial. As duas semanas de manifestações juninas foram uma advertência séria. Governo, ministros, senadores, deputados, prefeitos, governadores entenderam que o chicotinho está dependurado na parede. Não precisa açoitar ninguém, pelo menos não por enquanto.

Tenhamos paciência. Vamos dar tempo ao tempo. Não nos precipitemos. Vamos deixar que nossos mandachuvas tomem as providências urgentes. Depois, veremos. Trop d’impôt tue l’impôt.

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Interligne vertical 4Observação indignada e envergonhada

O senhor Eduardo Paes, prefeito da mui nobre cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro permitiu-se ofender um país inteiro. Chamou os franceses de vagabundos. E não fez isso numa conversa de botequim, mas durante uma entrevista coletiva, ao responder a um questionamento de uma equipe da televisão francesa.

Não conheço o prefeito do Rio. No entanto, ao ler essa notícia, entendi que não deve ser o homem mais inteligente da política brasileira. E olhe que os políticos brasileiros não primam pela inteligência nem pela cultura! A ofensa pública e gratuita que ele cometeu é acachapante. Mesmo sem ser carioca, sinto-me envergonhado.

Dilma e a girafa

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 julho 2013

Faz vários anos, tive um funcionário, gente fina, pau pra toda obra. Às vezes eu tinha de confiar-lhe alguma tarefa mais ingrata, mais maçante. Com tato, eu pedia: «Então, Jorge, você não se importa de fazer isto?». E a resposta vinha, certeira: «Oh, imagine! Fazer isso ou pintar a girafa é a mesma coisa, tanto faz».

Até hoje estou sem saber que diabo era aquela história de pintar a girafa. Mas a mensagem era clara: ao velho Jorge, pago para trabalhar, pouco importava qual fosse a tarefa. Se era para fazer, arregaçava as mangas e fazia. Lembrei-me dele estes dias.

Girafa

Girafa

Dois anos e meio atrás, os brasileiros elegeram uma presidente para sua República. Iludidos ou conscientes, bem ou mal informados, ricos ou pobres, poderosos ou dominados, pouco importa a razão da escolha. Dilma foi ungida pelas urnas. Foi ela, mas, tivesse sido outra pessoa, no fundo, tanto faz. Os tempos absolutistas em que um único medalhão mandava e desmandava sozinho já sumiram na névoa do passado, junto com a guilhotina e a caixinha de rapé. A presidente que temos é essa, e com essa ficaremos. Mesmo poderoso, um presidente não é dono do País nem governa sozinho. Felizmente.

Pensando bem, mais vale ter no topo da República uma personagem menos brilhante, pouco exuberante, nada carismática. Se não é a melhor figura política que o Brasil já conheceu, a presidente atual tampouco é a pior. Tem suas carências, mas quem não as tem? Falta-lhe jogo de cintura, é verdade. Ainda assim, mais vale a rigidez de uma Dilma ― ainda que tisnada de rudeza e de rispidez ― que a exagerada plasticidade de seu antecessor, dono de uma indulgência que frisava a leniência e que abria caminho para toda sorte de desvios e «malfeitos».

Já vai para quase um mês que a sociedade brasileira está em efervescência. O que querem os manifestantes? O que dizem as ruas? Como deve o governo lidar com essa cena não prevista no roteiro original? Dizem que ninguém sabe ao certo por que os manifestantes manifestam. Não sejamos hipócritas. Sabemos bem o que querem. Querem o que queremos todos. Exatamente aquilo que está escrito bem no meio da bandeira verde-amarela: ordem e progresso.

Queremos um país em que os representantes do povo exerçam seu papel com seriedade. Queremos que a bandalheira deixe de ser a regra e volte a ser exceção. Queremos que malfeitores sejam punidos. Queremos que condenados cumpram suas penas. Queremos que enfermos sejam atendidos com dignidade. Não queremos ser república de bananas nem fazer parte do sinistro clube de países autoritários, sanguinários, populistas, irrelevantes. Queremos ordem. Uma vez instalada, o progresso fluirá naturalmente.

Não precisamos de plebiscitos para nos distrair. Nosso país reclama um gesto forte e imediato, um sinal claro que indique uma guinada real na governança. Nosso regime não permite à presidente destituir parlamentares. Mas ela pode, sim, demitir ministros. A nomeação (e a exoneração) de auxiliares diretos é prerrogativa pessoal da mandatária.

Sabem todos que Dilma Rousseff não faz parte do clube dos corruptos. Aliás, sua popularidade foi às alturas quando, de uma vassourada, mandou meia dúzia de ministros plantar batata.

Dilma Rousseff por Lezio Jr.

Dilma Rousseff
por Lezio Jr.

Para grandes males, grandes remédios. Se ela quiser resgatar sua imagem ― que se esfarela dia após dia ― só lhe resta um caminho: exigir que todos os titulares de seu inchado corpo ministerial apresentem sua demissão. Todos, sem exceção. Ninguém poderá dizer que foi demitido, as aparências serão salvas e estará feita a tábula rasa. O sinal enviado à nação será tremendo. Todos entenderão que, por fim, a presidente realmente ouviu a voz das ruas e está disposta a recomeçar com o pé direito.

Para seguir a lógica até o fim, Dilma deverá escolher os novos titulares não mais por afiliação partidária ou por apadrinhamento, mas pela competência. Pisará o pé de muita gente, mas, é certeza, mostrará sua coragem vencerá a parada.

E o Congresso? E a base aliada? Vão todos desertar? Ora, que bobagem. A grande massa de nossos representantes funciona na base da cooptação e de seu corolário, o medo. O pavor de não serem reeleitos é maior que qualquer ideologia. Todos se bandearão para o lado vencedor. Qual dos representantes ousará contestar a audácia da presidente?

Em vez de pintar a girafa ou de planejar plebiscitos, dona Dilma deveria assumir com firmeza as rédeas do governo. Pulso, intrepidez e energia não lhe faltam. Que diga adeus a gurus, marqueteiros e messias. Seguindo essa via sem tergiversar, apaziguará as ruas e garantirá sua reeleição.

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