Acabou a copinha

José Horta Manzano

Pois é, a seleção brasileira de futebol levantou a copinha! Foi um triunfo saboroso justamente porque não era esperado. Até o mês passado, nosso País estava em 22° lugar na classificação da Fifa. Até a Suíça estava (bem) à frente.

Ok, vocês me dirão que não se pode botar muita fé no que vem da Fifa. Uma instituição que lida com rios de dinheiro torna-se, paradoxalmente, vulnerável. É, por conseguinte, susceptível a sucumbir a certas distorções.

Seja como for, todos convirão que ninguém esperava que o Brasil chegasse à final. Muito menos que vencesse o jogo. Um jornalista chegou a escrever que a seleção nacional era o azarão da copinha. Daí a (grata) surpresa com o resultado final, incontestável.

Copa das Confederações

Copa das Confederações

O povo compareceu em massa, num Maracanã festivo e tingido de amarelo. Ninguém estranhou muito a ausência de dona Dilma na cerimônia de encerramento do torneio. A vaia monumental não era uma probabilidade, mas uma certeza absoluta. Acho que ela fez bem em não ir ― dos males, o menor.

Já uma coisa me intrigou: a ausência de nosso messias, homem sabidamente chegado às coisas do futebol. Logo ele, que trabalhou tanto pela conquista do direito de sediar a copinha e a copona. Logo ele, homem notoriamente venerado e aclamado pelo povo entusiasta. Logo ele, sempre preocupado em preservar a esplêndida herança que deixou ao País. Logo ele, arroz de festa de todos os momentos de glória nacional. Logo ele, que, sólido e altruísta, jamais abandonou nenhum companheiro nem pulou do barco nas horas difíceis.

Dizem que estava na África. O compromisso na Etiópia ― país que constitui, como sabemos todos, pedra angular na pauta de relações exteriores do Brasil ― era, de certeza, mais importante do que trivialidades futebolisticas.

Sejam louvados o desapego e a abnegação de nosso intrépido e visionário estadista. Muitos anos se passarão antes que apareça no Brasil um outro com as mesmas qualidades.

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Hino
Hoje é dia de ouvir o Hino Nacional. E de pé, faz favor! Se você mora no Brasil ― e é madrugador ― procure sintonizar a Rádio Cultura FM de São Paulo. Para hoje, não dá mais. Mas diariamente, pouco antes das 6h da manhã, vai ao ar uma excelente versão do hino, com banda e coro. Para quem aprecia, é um deleite.

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Desrespeito
Por imposição da Fifa ― sempre ela! ―, a execução dos hinos nacionais não pode exceder um minuto e meio. Para a maioria deles, não há problema. São curtos e cabem perfeitamente no tempo fixado. É o caso da Alemanha, dos EUA, da França, da Itália, do Reino Unido.

Nosso belo cântico oficial, saído direto de um teatro de ópera de Rossini, como já li em algum lugar, não se ajusta ao figurino estabelecido. Um pouco mais longo, vai além de dois minutos. A Fifa não hesitou: amputou-lhe um naco.

Em pelo menos duas ocasiões durante essa copinha, a multidão presente no estádio passou por cima da injunção dos cartolas. Continuou cantando o hino a cappella até o fim da primeira parte. Fato nunca visto antes, foi ressaltado até pelo comentarista da televisão suíça.

Que se aceitem certas exigências da federação internacional de futebol, é inevitável. Mas não se pode admitir que o hino ― um dos símbolos da nação, segundo nossa Constituição ― seja executado pela metade e em andamento mais rápido que a norma. E há mais: que isso ocorra em território nacional com a complacência das autoridades e na presença de pelo menos um ministro da República. Por ironia, justamente aquele que apresentou, faz anos, um projeto de lei ultranacionalista visando a blindar a língua falada no Brasil contra influências estrangeiras.

Como o mundo dá voltas!

 

Insistir pra quê?

José Horta Manzano

Susana Werner, mulher do goleiro da seleção brasileira de futebol, foi vítima de assalto à mão armada, em Fortaleza. Ficou feliz por ter saído com vida.Interligne 07

Manifestantes tentaram invadir o Hotel Bahia, em Salvador, onde está hospedada a comitiva da Fifa. A Polícia Militar conseguiu segurar a turba que, enfurecida, depredou dois ônibus dedicados ao transporte dos cartolas.Interligne 07

A delegação espanhola teve dinheiro e objetos furtados de seus aposentos no hotel em que se hospedavam, no Recife. Que fique bem claro: não era a pensão de dona Mariazinha. Que fique mais claro ainda: os espanhóis são os atuais detentores do título de campeões do mundo ― portanto, o time mais visado e o que deveria, em teoria, ter sido mais bem protegido.Interligne 07

Um jogador uruguaio declarou, em entrevista coletiva, que o Brasil tem muito a melhorar para a Copa-14. Lúcido, disse que, caso os aborrecimentos de que sua delegação foi vítima, tivessem ocorrido com uma seleção europeia, o reclamo teria tido repercussão bem maior.Interligne 07

Os enviados especiais da Folha de São Paulo confirmam que, embora a Fifa não esperasse uma organização perfeita ― só faltava! ― a magnitude dos problemas está além do pior cenário imaginado. Os cartolas estão apavorados.

Antes da Copa das Confederações, os dirigentes da Fifa já se tinham conformado com muitos dos males brasileiros endêmicos. Corrupção, desorganização, promessas e prazos não cumpridos. Tudo isso já estava mais ou menos previsto e, bem ou mal, assimilado. No entanto, não contavam com o desencadeamento de um clamor popular impossível de reprimir. Sejamos sinceros, ninguém imaginava o que estava por acontecer.

Essa mistura explosiva de desorganização e violência está causando problemas pesados. A Fifa está-se vendo obrigada a negociar com as delegações estrangeiras a fim de convencê-las a não abandonar o País antes do final desta copinha.Interligne 07

Quando se faz uma besteira, o melhor caminho é ser honesto, reconhecer o erro e, parodiando mestre Vanzolini, dar a volta por cima. Na era em que o Lula mandou no País, asneiras grossas foram cometidas. Algumas são já irreparáveis, outras ainda não estão consumadas.

ChangeBrazil

ChangeBrazil

A questão da manutenção da Copa-14 no Brasil está sobre a mesa. Chegamos a um ponto em que as autoridades competentes deveriam parar para refletir. À vista do ensaio geral a que estamos assistindo estes dias, fica a pergunta: ainda vale a pena insistir em hospedar a próxima Copa? Não valeria mais a pena parar por aqui e deixar o abacaxi para quem se dispuser a descascá-lo?

Há países prontos para receber o evento: Alemanha, Reino Unido, Itália são alguns deles. Dispõem todos de infraestrutura adequada, vasta e bem azeitada rede hoteleira, transportes organizados.

Faz dez dias que o planeta inteiro descobre, boquiaberto, que o povo brasileiro não está tão feliz como o marketing político vinha martelando estes últimos anos. Todos conhecem agora a incompetência das autoridades brasileiras para organizar dignamente um evento de importância média, como essa copinha. A Copa de verdade é um desastre anunciado.

ChangeBrazil

ChangeBrazil

Que se desista agora, antes que seja tarde demais! Não há por que envergonhar-se: a indisciplina, a corrupção e a incompetência já caíram no domínio público planetário, não dá mais para esconder.

Resta estancar a sangria. E, quanto mais rápido, melhor.

Vaia planetária

José Horta Manzano

Dona Dilma foi vaiada. Os apupos irreverentes foram ouvidos por 60 mil pessoas in situ e por mais algumas centenas de milhões ao redor do globo. Talvez seja a primeira vaia planetária transmitida ao vivo.

Para a doutora, foi momento pra lá de constrangedor. Foi uma dessas horas em que a gente torce para que um buraco se abra à nossa frente e nos engula, tamanha é a vergonha.

Até algum tempo atrás, poucas pessoas eram testemunhas auriculares da História(*) presentes na hora agá. Apenas alguns milhares estavam naquela praça gelada de Bucarest em 1989 para assistir ao que seria o último discurso do gênio dos Cárpatos,o ditador Nicolae Ceaușescu.

Em geral, precisa assistir ao jornal televisivo da noite para ficar sabendo que este ou aquele figurão foi alvo de alguma hostilidade aqui ou ali. Ao vivo e planetariamente, dona Dilma pode considerar-se pioneira ― que lhe seja reconhecida essa gloriosa primazia!

Biruta e anemômetro

Biruta e anemômetro

Globalização é isso. Da ponta da Terra do Fogo até o Japão, passando por África, Oropa e Bahia, o mundo foi testemunha do apreço que os brasileiros sentem por sua presidente. Uma imagem vale mil palavras.

Além de inaugurar uma nova modalidade de apupo espontâneo e global, a pioneira senhora Rousseff estava muito bem acompanhada naquele momento de súbita fama. Nossa iluminada líder estava ladeada por dois mandachuvas pra lá de conhecidos. São ambos chefes de organizações em que corrupção e «malfeitos» ― notórios e corriqueiros ― são regra, não exceção.

Os ventos não sopram sempre do mesmo quadrante. Se assim fosse, anemômetros seriam suficientes para medir sua velocidade. Não haveria necessidade de birutas para indicar sua direção. O infeliz Conducător não se deu conta de que os ventos haviam mudado de direção, imprudência que lhe custou a vida.

Bem faria dona Dilma se, fazendo das tripas coração, se aplicasse em utilizar o tempo que lhe resta na presidência para servir mais ao povo que a elegeu e menos aos gaviões que a cercam. Afinal, seu salário e suas mordomias são custeados por todos nós, não pelos interesseiros que a rodeiam.

Oxalá os apuros em que se meteu dona Dilma no estádio de Brasília lhe possam servir para perceber que o eleitorado tem sofrido transformação radical desde que a informação passou a fluir com maior facilidade, uns 15 anos atrás.

Internet, telefone celular, redes sociais, toda essa parafernália que surgiu no final do século XX tem trazido modificações profundas na percepção que a sociedade tem daqueles que a governam. Hoje em dia, um brasileiro, ainda que não tenha feito estudos universitários, faz cada vez menos parte daquela massa de manobra com que contavam os chefes políticos de antigamente.

Dilma Rousseff vaiada 15 junho 2013

Dilma Rousseff vaiada
15 junho 2013

Ainda que o governo popular tenha substituído o antigo voto de cabresto pelo voto de cooptação, ainda que bolsas e quotas várias sejam a versão moderna do antigo paternalismo do sanduíche e da tubaína, ainda assim o mundo continua girando.

Aos trancos e barrancos, o brasileiro vai abrindo sua consciência. Quem alarga a conscência abre os olhos. Quem abre os olhos vê. Quem vê a maneira pela qual o País vem sendo conduzido estes últimos anos pode até não gostar. E que não gosta periga reclamar.

Dona Dilma deveria tomar cuidado. Caso seu governo continue a dar a imagem de estar correndo feito barata tonta, visivelmente sem rumo, mais preocupado em satisfazer caciques que em empunhar com firmeza as rédeas da nação, ela está arriscada a ouvir outras vaias. Nos estádios ou ― pior ― nas urnas.

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(*) Piscadela ao primeiro jornal televisivo, o pioneiro Repórter Esso, que se qualificava de «testemunha ocular da História».

Quanta ingenuidade!

José Horta Manzano

Nascido nas Alagoas em 1956, Aldo Rebelo, o atual ministro do Esporte já teve tempo de sobra para criar juízo. Suas mais recentes declarações tendem a provar que ainda lhe falta um pedaço de caminho a percorrer.

Sua opção pelo partidão (PC do B) fazia sentido quando a ele se afiliou, nos já longínquos anos 1970. Hoje em dia ― após a débâcle da URSS e a transformação da China em economia de mercado ― sua persistência nos mesmos ideais é mais difícil de explicar. Mas cada um tem suas convicções e há que respeitá-las. O ministro é a prova tangível de que, de vez em quando, ainda aparece algum dom-quixote.

Quando deputado, Rebelo apresentou projetos de lei um tanto desfocados. É dele a estranha ideia de coibir o uso de estrangeirismos a fim de «proteger» a língua portuguesa.

Não ocorreu ao nobre deputado que, assim como as gentes, as palavras também migram, vão daqui pra lá e vêm de lá pra cá. É justamente isso que faz a riqueza das falas e lhes dá vigor. Além do que, quando uma língua precisa ser protegida, é sinal de que está moribunda, com um pé na tumba. Não é o caso da variante de português falada no Brasil.

Aldo Rebelo ― Ministro do Esporte

Aldo Rebelo ― Ministro do Esporte

O deputado já tentou também fortalecer o saci-pererê em detrimento de bruxas importadas. Elaborou projeto para instituir o dia oficial do negrinho de uma perna só. Gostaria ele que caísse no 31 de outubro, justamente para resguardar o Brasil contra a insuportável ingerência estrangeira representada pelo Halloween.

Outra travessura do simpático homem político foi tentar, por meio de lei, obrigar que o tradicional pão francês ― aquele tradicional pãozinho de padaria ― passasse a conter uma certa porcentagem de raspa de mandioca misturada à farinha de trigo.

Como se vê por essa sucinta olhadela, o homem é adepto da maneira forte e radical: a imposição vem de cima, por lei, e não se fala mais nisso. Como nos bons velhos tempos do camarada Stalin, ah! que saudades…

O ministro do Esporte é, como se vê, pessoa sensível e sobretudo susceptível. Ano passado, ao captar numa declaração do secretário-geral da Fifa uma alusão ofensiva aos brios do País, não hesitou em proscrever o estrangeiro e em declará-lo persona non grata.

Não se conhecem as circunstâncias claras, mas deve ter levado um puxão de orelhas. Enquadrado, deixou o dito pelo não dito. Razões de Estado costumam ser mais convincentes que susceptibilidades. O secretário-geral da Fifa continua circulando livre e solto pelo País.

Como sabemos todos, o ministro do Esporte está no olho do furacão com relação aos eventos esportivos planetários que terão lugar em futuro próximo no Brasil. Segundo reportagem do Estadão, Aldo Rebelo mostrou sua preocupação com o alto valor cobrado pelos ingressos nos novos estádios ― curiosamente chamados de arenas, num atentado contra a língua digno de empalidecer qualquer ministro.

Ora pois, o idiota devo ser eu. Não posso imaginar que os mandachuvas brasileiros que negociaram a famigerada «Lei da Copa» com os controversos dirigentes da Fifa tenham negligenciado a fixação do preço dos ingressos. Se até na caxirola pensaram, não me parece cabível que tenham esquecido de combinar qual seria o preço das entradas.

Que reflete, então, a fala do ministro? Falsa ingenuidade? Ou, pior, confissão de incompetência?Interligne 35

O ministro reincide
Acabo de ler no Estadão desta quinta-feira notícia que vem bem a calhar. Agora o espantalho são os hotéis. Parece que os organizadores dos eventos se esqueceram de combinar com os hospedeiros também. O ministro adverte que, em caso de preços abusivos, «a mão pesada do poder publico vai agir». Bota peso nisso, coronel!

Primeira consideração: hotéis são entidades comerciais privadas. Praticam os preços que lhes parecerem convenientes. Cada hóspede é livre de alojar-se onde bem lhe aprouver.

Segunda consideração: o ministro não explicou o que vem a ser «preço abusivo». Conviria deixar a coisa mais clara.

L’inutile precauzione

José Horta Manzano

Na época em que Gioacchino Rossini (1792-1868) compôs seu Barbiere di Siviglia, ainda era comum que livros e óperas recebessem não somente um título, mas também um subtítulo. Este último era em geral mais longo e costumava ser mais explícito que o principal.

O título original do libreto do Barbiere é Almaviva ossia l’inutile precauzione ― Almaviva, ou seja, a precaução inútil.

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Segundo o Houaiss, doutor honoris causa «é título laudatório e homenageante, conferido a pessoa sem que esta tenha passado por quaisquer exames ou concursos». Em palavras mais chãs, é badalação. É como dar um agradozinho de Natal ao porteiro do prédio. Não vem necessariamente do coração, mas, nunca se sabe, pode-se até amanhã precisar dele.

O Lula andou passeando pela Argentina para acrescentar mais uma meia dúzia dessas medalhas de chocolate à sua já extensa coleção. Enquanto isso, as consequências nefastas dos erros cometidos por ele e por seus companheiros desde que assumiram as rédeas do País se tornam dia a dia mais evidentes.

Expressões como emergente, potência, Bric, G20, tão em voga até um ou dois anos atrás, andam rareando na linguagem atual.

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Entre as ideias fixas de nosso messias, sobressai a inamovível obsessão por congregar os países vizinhos numa espécie de Confederação do Equador versão 2.0. Países desafortunados de outros quadrantes também são bem-vindos. O objetivo talvez seja o de marcar a História como fundador de um novo Império.

No entanto, o mundo gira e, nessas voltas, a paisagem vai mudando. O fato é que a mania de grandeza de nosso líder tem sido vítima de reveses acachapantes.

Quando ele tentou se meter no meio dos briguentos do Oriente Médio, os contendores deixaram bem claro que não o tinham chamado e que não precisavam dele ― sabiam brigar sozinhos e preferiam que assim continuasse.

O baixinho maluco do Irã, além de não ter ainda conseguido fazer sua bomba, enfrenta contestação crescente. Do jeito que vão as coisas, não deve continuar na presidência de seu país por muito tempo. Será um companheiro a menos.

O bigodudo de Honduras, aquele que, com a complacência do Planalto, transformou a embaixada do Brasil em comitê de campanha, acabou deixando seu país com o rabo entre as pernas. Para nunca mais voltar.Barbiere di Siviglia libretto

Na Venezuela, o líder bolivariano acabou involuntariamente seguindo o conselho que lhe havia dado alguns anos antes um irritado D. Juan Carlos I da Espanha: se calló. O sucessor, além de bufão, é ainda mais destrambelhado que o original. Anda proclamando, a quem interessar possa, que sabe quem são os que não votaram nele. Com nome e endereço. Coisa de desequilibrado acuado.

Sobrou doña Cristina Fernández de Kirchner. Na falta de uma reedição da grandiosa Confederação do Equador, uma diminuta Confederação Platina podia até quebrar um galho. A coisa anda feia pros lados de nossos hermanos, mas, para quem cortejou até ditadores africanos, a Argentina é de bom tamanho. Vantagem adicional: ninguém corre o risco de terminar fuzilado como Frei Caneca.

Precavido, o Lula anunciou que anda rezando para que nossa presidenta se entenda bem com sua homóloga portenha. Como no Barbeiro de Sevilha, é precaução inútil. Não vai dar certo. Dois bicudos não se beijam. Tirando a corrupção generalizada, o Brasil e a Argentina pouco têm em comum. A experiência tem mostrado que uma associação dos dois países, além de contranatural, é contraproducente.

A imaginação de nosso líder anda fértil demais. Um abraço de Cristina equivale ao de um náufrago. Melhor não aceitar, sob risco de afundarem as duas.

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Lembrete
Não consta que alguma universidade brasileira tenha agraciado Sepp Blatter, presidente da Fifa, com o diploma de doutor honoris causa. Que não seja por isso! Os vereadores paulistanos cuidaram do assunto. Em nome de todos os habitantes da metrópole, conferiram ao mandachuva da nobre e imaculada entidade o título de cidadão paulistano.

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Vamos ver como evolui

José Horta Manzano

Desta vez, não deu

Não se sabe bem quem terá tido a ideia. O marketing foi deixado aos cuidados de um músico baiano que costuma se apresentar com a cabeça encimada por uma touca que lembra a de um mestre-cuca. Um pouco menos elegante, é verdade.Touca mestre-cuca

Inventaram um dispositivo meio esquisito, parecido com brinquedo de criança, feito de plástico, recheado de bolinhas, com alças laterais onde se encaixam os dedos. Para rimar com ecologia, anunciaram que seria feito a partir de cana-de-açúcar. Para rimar com nacionalismo, foi tingido de verde.

Na hora de escolher o nome, fizeram um esforço especial para escapar do ridículo. Quiseram compensar a escolha infeliz do apelido dado ao simpático tatuzinho que simboliza a Copa (mas não só…), o pobre Fuleco. Chamaram o novo brinquedinho de caxirola. Não ocorreu a ninguém que os estrangeiros pronunciarão caksirôla. Faltou aconselhamento.

Para reforçar o marketing, distribuíram a novidade ― de graça! ― num recente jogo de futebol. Cinquenta mil exemplares. Que desastre! Torcedores descontentes com o desempenho de sua equipe não pensaram duas vezes. Tomados pela decepção e pela raiva, lançaram sobre o gramado o que traziam na mão. Era justamente nossa caksirôla em fase de teste. Centenas delas terminaram no gramado, perturbando o jogo. A história não diz se o dispositivo foi aprovado como instrumento. Contudo, o teste detectou que é excelente projétil.

Resultado: autoridades baianas baniram o aparelhinho das partidas que vierem a ser disputadas em Salvador. É de imaginar que outros Estados sigam o exemplo, a não ser que… bem, sabemos todos que os argumentos da Fifa costumam ser convincentes.

Vamos ver como evolui.Interligne 4f

Brincando com a saúde… dos outros

Uma mafia de falsificadores de leite foi flagrada no Rio Grande do Sul estes dias. Por ganância, batizavam o alimento com substâncias comprovadamente cancerígenas. O detalhe sórdido é que um dos criminosos mandava separar uma parte do leite bom para consumo de sua família. A adulteração vinha em seguida. Mateus, primeiro os teus!Vache 2

Em 2008, escândalo semelhante estourou na China. Uma gangue mafiosa explorava o mesmo filão. Acrescentavam melamina ao leite. Apanhados, foram presos e julgados. O caso rendeu duas penas de morte e mais uma de prisão perpétua. As penas capitais já foram executadas em 2009. A firma de lacticínios ― a maior da China ― foi à falência.

Voltemos ao Rio Grande. Dos 8 presos, um já foi solto. Seis ― bem orientados por seus defensores ― declararam que só se pronunciarão em juízo. O oitavo falou. Disse que não sabia de nada.

Que pena merecem os que vendem gato por lebre e expõem crianças, velhos e doentes ao câncer?

Vamos ver como evoluiInterligne 4i

Com ditadura é mais fácil

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 maio 2013

«L’important dans la vie ce n’est point le triomphe, mais le combat.
L’essentiel n’est pas d’avoir vaincu, mais de s’être bien battu.»

O importante na vida não é o triunfo, mas o combate.
O essencial não é vencer, mas lutar bem.

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Que me perdoem pela longa citação. É a famosa máxima ― geralmente mencionada truncada ― do barão Pierre de Coubertin, aquele que, 120 anos atrás, ressuscitou os Jogos Olímpicos. Achei importante citá-la na íntegra.

Quando o barão pronunciou essas palavras, todos fingiram acreditar. Mas elas seguem um raciocínio contrário à natureza humana. Não tivessem nossos antepassados vencido, e não estaríamos nós aqui. É importante lutar, mas vencer é o objetivo natural de toda contenda. Ninguém compete pelo simples prazer de renhir. Dizem alguns biógrafos, aliás, que nem o próprio barão acreditava na frase que havia pronunciado.

Há mentiras e meias-verdades em que a gente faz que acredita. Nem que seja só para evitar discussão. Um antigo presidente de nossa República, quando ainda exercia o cargo, disse certa feita que a Venezuela padecia de excesso de democracia. Todos fizeram cara de acreditar. Pra que discutir?

François Hollande, quando ainda candidato à presidência da França, garantiu que consertaria a economia do país já no primeiro ano de mandato. Alguns eleitores acreditaram, outros só fizeram cara. O homem foi eleito. Um ano depois, a economia continua a mergulhar num abismo que parece não ter fim, enquanto a taxa de desemprego sobe à estratosfera. Estes dias, Monsieur Hollande voltou a prometer que, daqui para o fim do ano, sem falta, estará tudo dominado e o país terá entrado nos eixos. Agora, vai. A gente faz que acredita. Pra que discutir?

No Brasil, ao término de um processo conhecido como mensalão, alguns figurões de alto coturno foram considerados culpados e, ato contínuo, condenados por crimes vários. Curiosamente, alguns dos anjos caídos ― justamente os que mais alto se situavam na hierarquia ― continuam a jurar não ter jamais cometido os crimes pelos quais foram sentenciados. Alegam ter sido vítimas de uma farsa grotesca e garantem que uma corte internacional de arbitragem reconhecerá a iniquidade da condenação. Todos fazemos de conta que acreditamos. Pra que discutir?

De vez em quando, um medalhão nos surpreende com alguma declaração fora de esquadro. Semana passada, por exemplo, o secretário-geral da Fifa nos brindou com uma pérola. Em tom de queixa contra a burocracia brasileira, afirmou que «um nível mais baixo de democracia é preferível para organizar uma Copa do Mundo». Trocando em miúdos, o mandarim insinuou que, na hora de preparar um campeonato mundial, nada se compara a uma boa ditadura.

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

Crédito: Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br

O secretário-geral tem tudo para se sentir blindado. No ano passado, depois de fazer um de seus desastrados pronunciamentos, foi declarado persona non grata pelo Ministro dos Esportes do Brasil. Sabe-se lá por que milagre, o incêndio foi apagado rapidinho e o episódio foi esquecido. Monsieur Valcke voltou a ser persona grata em nossas terras.

De novo incensado, sentiu-se livre para reclamar da quantidade de interlocutores com os quais é obrigado a dialogar no Brasil. Gostaria de ter uma só pessoa com quem conversar. Se essa pessoa for o mandachuva maior, melhor ainda.

O secretário-geral mostrou-se nostálgico da Copa de 1978, aquela que serviu de vitrina para os ditadores argentinos mostrarem ao mundo a excelência do regime. Na época, naturalmente ninguém mencionou o lado sombrio e as dezenas de milhares de desaparecidos.

Para coroar, o figurão não se privou de formular votos para que a Copa seguinte, a da Rússia, seja mais do seu feitio. Chegou ao despudor de mencionar o nome de Putin. Mostrou-se seguro de que o tsar de todas as Rússias ainda estará firme no poder, e de que, com ele, o diálogo será mais fluido. Ninguém duvida.

O relacionamento entre a Fifa e o governo brasileiro é complicado, difícil de delinear. O que parece nem sempre é. A riquíssima Fifa é organização notoriamente corrupta. A elite política brasileira também está habituada a lidar com muito dinheiro e não costuma mostrar especial empenho em coibir a corrupção por estas bandas.Copa 14 logo 2

Mas cada turma tem seus métodos, seu jeito de operar. Mal comparando, costurar um acordo entre a Fifa e os governantes brasileiros é tentar conciliar, digamos, capos da Máfia siciliana com chefes da Camorra napolitana. Para chegar lá, precisa ter boa vontade e paciência. Muita paciência.

Nosso consolo é que, no fim, o esporte vencerá. Afinal, o importante é competir. Pra que discutir?

Malfeitos estrangeiros

José Horta Manzano

Às vezes a gente imagina que a corrupção é um mal exclusivamente brasileiro, que absurdos só acontecem em terra tupiniquim, que a malandragem é especificidade nacional.

É apenas meia verdade. Se é fato notório que corrupção, absurdos e malandragem correm soltos em nossas terras e fazem parte da paisagem, não é verdade que o Brasil seja o único lugar do planeta onde essas práticas são corriqueiras.Bola futebol

Sabemos todos que a próxima Copa do Mundo terá lugar em nosso País. Sabemos todos que irregularidades ― para usar um termo eufemístico ― têm ocorrido e que muitas mais ocorrerão nos meses que nos separam do evento.

É razoável imaginar que as edições do campeonato mundial de futebol hospedadas pela Alemanha, pela Coreia, pelo Japão não tenham sido manchadas por trambiques. Se os houve, foram menos escancarados.

Já de uns tempos para cá, parece que a Fifa resolveu tirar a máscara. Não bastasse a escolha da África do Sul e do Brasil, a Rússia está escalada para abrigar a edição seguinte.

O imenso país, que se estende do Báltico ao Pacífico, tem espaço, tem população, tem tradição futebolística. Não é por esse lado que se poderá criticar a escolha. O que atrapalha um pouco o quadro é o fato de a Rússia nunca ter conhecido um governo democrático.

Desde os tempos de Ivan, o Terrível, o território tem sido controlado com mão de ferro. De monarquia feroz, passaram a ditadura comunista. Seguiu-se um governo autoritário que ainda subsiste. A candidatura da Rússia não foi, portanto, apresentada por legítimos representantes do povo, mas pela nomenklatura. É verdade, não se usa mais esse termo, mas a realidade não mudou muito por aquelas bandas. As castas dirigentes ainda hão de continuar sobrevoando o populacho por um bom tempo.

Não é absurdo imaginar que algum mimo tenha sido oferecido aos integrantes do comitê que escolheu a Rússia. Dado que não é costume assinar recibo quando se recebem agrados desse jaez, ficaremos sem saber.
Camelo

Mas o que vem depois é bem pior. Os dirigentes da Fifa decidiram que a edição seguinte, a de 2022, vai-se realizar no Catar. O nome se escreve meio esquisito. Quem preferir, que use Qatar ou até Katar, que fica mais exótico.

Poucos já visitaram esse país, mas os meios de informação de que dispomos atualmente nos deixam a par de muita coisa. Não precisa ser nenhum especialista para saber que o Catar não tem tradição futebolística. Uma rápida pesquisa nos ensina que a superfície do país é de 11 mil km2, a metade de Sergipe, o menor estado brasileiro. Da população total de menos de dois milhões de almas, metade está concentrada na capital. As duas maiores cidades abrigam 80% dos habitantes.

Mas há pior ainda. O clima é desértico, sem árvores, sem vegetação. Para completar, a média das temperaturas diurnas em junho/julho, justamente quando a Copa será disputada, é de amenos 41°, 42°. Atenção: falo de média. Um dia mais abafado pode empurrar o mercúrio até os 48° ou 50°. Esses valores são, naturalmente, medidos à sombra. Mas nenhum visitante será obrigado a ficar à sombra.

Trinta e duas equipes participarão. Jogarão 64 partidas. Como é que vão se arranjar com as sedes? Todos os jogos no mesmo estádio? Ou novas arenas serão edificadas no deserto? Cá entre nós, nunca o termo «arena» terá sido tão bem utilizado. Em italiano e em espanhol, significa areia.

Dado que é impossível que esses detalhes tenham escapado aos nobres dirigentes do futebol mundial, alguma razão oculta tem de estar por detrás da designação desse micropaís. O fato é que a Fifa, inflexível, mantém sua escolha.

Como diziam os mineiros de antigamente, «debaixo do angu tem carne».

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Nota: Pode-se entrever um pedacinho da carne escondida debaixo do angu por este artigo. Decididamente, está instituído o programa Bolsa-futebol.

Vamos ajudar a Fifa

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que o exemplo vem de cima. Parece-me uma evidência, de baixo é que não poderia vir. Outro dito popular ― adoro ditados e provérbios ― afirma que quem semeia vento colhe tempestade. Em geral, é o que acontece.

Há corrupção no futebol em vários países! Que surpresa! O correspondente do Estadão deu a inacreditável informação, publicada na edição online de 17 de janeiro. Na mesma linha, seguiram o Globo, Terra e outros sites noticiosos.

Todos relatam que a Fifa, um dos organismos mais endinheirados do planeta, precisa de ajuda para coibir a propagação da corrupção. É mais ou menos como se uma raposa, presa num galinheiro, pedisse ajuda às galinhas para escapar.

Ora, pois. Não é segredo para ninguém que a Fifa, além de ser dona de cofres abarrotados, é composta de elementos altamente suspeitos de corrupção. Não falo de ladrões de galinhas, mas de raposas, de criminosos de alto coturno. Daqueles cujo balcão de negócios faria empalidecer de inveja certos congressistas tupiniquins. Dos mais graduados!Corrupção

Pouca gente arriscaria a pele para assaltar a pobre vendinha de seu Zé. Já onde há dinheiro, a tentação é, evidentemente, maior. Para eliminar ― ou, pelo menos, reduzir ― a corrupção no «esporte das multidões», a retidão tem de começar no topo. O exemplo vem de cima. Uma associação (mais que) suspeita de pesados malfeitos não tem moral para exigir de seus afiliados aquilo que não exige de si própria.

Mas que se aquietem todos, nada de pânico! A corrupção, os árbitros vendidos, as trapaças em todos os escalões do futebol ainda têm dias risonhos à frente. Estamos ainda em plena semeadura de vento. As borrascas de verdade só virão mais tarde.

Falando nisso, ainda não consegui entender por que raios o Catar (ô nome esquisito, prefiro Qatar, mais exótico) foi designado para acolher a Copa do Mundo de 2022. Se o Japão e a Coreia, poucos anos atrás, tiveram de unir forças para abrigar uma evento de tal magnitude, como é possível que alguns quilômetros quadrados de deserto possam montar a tenda, receber o circo e garantir o espetáculo? Tudo indica que, nessa história, os palhaços somos nós.

Onde tem fumaça, tem fogo. Tá ruço.