Internacional reacionária

Viktor Orbán, Giorgia Meloni, Donald Trump, Marine Le Pen, Elon Musk

José Horta Manzano

Duas semanas atrás, num discurso proferido na Conferência dos Embaixadores em Paris, o presidente Macron se referiu a Elon Musk como o homem que “dá apoio a uma nova Internacional Reacionária. Nessa comparação, ele se referiu a duas organizações que realmente existiram: a Internacional Comunista (que viveu de 1919 a 1943) e a Internacional Socialista (fundada em 1951 e que ainda sobrevive).

Essas duas organizações buscavam favorecer a implantação do comunismo (respectivamente, do socialismo) em todos os países. Como sabemos hoje, o objetivo de nenhuma das duas foi alcançado, embora ainda haja muita gente assustada com o “perigo do socialismo”. O próprio capitão, quando conduzia(!) o Brasil, declarou na ONU que tinha livrado nosso país do perigo do socialismo.

Hoje Donald Trump toma posse do cargo que havia perdido quatro anos antes. Volta a ser presidente dos Estados Unidos por um mandato único e não renovável de quatro anos. A tradição americana não inclui convidar políticos estrangeiros para assistir às cerimônias. Assim mesmo, expoentes da extrema direita internacional fizeram questão de anunciar, com antecedência, sua presença.

Assim, os regozijos pela assunção de Trump contarão com o prestígio de três chefes de Estado ou de governo em exercício: Giorgia Meloni (primeira-ministra da Itália), Viktor Orbán (primeiro-ministro da Hungria) e nosso vizinho Javier Milei, presidente da Argentina.

Mas não é só. Eric Zemmour, ex-candidato à presidência francesa já confirmou presença. As francesas Sarah Knafo e Marion Maréchal, ambas deputadas europeias, também vão. Todos os três são conhecidos por suas posições de direita extrema, anti-imigração, isolacionistas, antimuçulmanos.

Há mais figuras peculiares. O espanhol Santiago Abascal, do partido extremista Vox, estará presente. É aquele que gostaria de enforcar os independentistas da Catalunha por crime de traição. Um espírito suave e tolerante, como se vê.

Outro que fez questão de marcar presença é o britânico Nigel Farage, um dos líderes do movimento isolacionista que culminou no (hoje pranteado) Brexit.

Um alto dignitário do partido Alternative für Deutschland estará, naturalmente, entre os políticos europeus presentes. Afinal, Elon Musk declarou que seu partido extremista, o AfD, era o único capaz de “salvar a Alemanha”. Parece mentira, mas é verdade. Faz poucos dias que isso aconteceu.

Não se sabe bem por que razão, a francesa Marine Le Pen estará ausente. Uns dizem que ela não foi convidada. Outros creem que ela procura se resguardar com vistas às próximas eleições presidenciais. Não quer perder pontos aparecendo em má companhia.

Tem um que anda choramingando pelos cantos. Fez besteira grossa e está de castigo sem poder viajar. Ah, e ele gostaria taaaanto de estar naquele clube acolhedor, no meio de tanta gente fina, todos se ajoelhando diante de um mesmo senhor. Perder uma festa dessas é punição pior que uns dias na cadeia. Ah, como Jair Bolsonaro deve estar se sentindo mal. Excluído de uma reunião da Internacional Reacionária! Ai, como dói.

Raiva do Xandão que não deu licença. Saudades do Trump e dos bons tempos de recepção em Mar-a-Lago. Medo de ser superado por Milei no coração de Trump. Tristeza de não poder se encontrar pessoalmente com Orbán para cobrar a verdadeira razão pela qual a embaixada da Hungria em Brasília não lhe concedeu asilo.

Tem nada não, fica pra outra vez. Mas… será que haverá outra vez?

Asilo na embaixada

Embaixada da Rússia em Brasília
Painel no saguão monumental

José Horta Manzano

Cutucado por jornalistas, Jair Bolsonaro acenou com a possibilidade de refugiar-se numa embaixada. Foi um balão de ensaio que ele soltou, não se sabe bem com que intenção.

A ‘ameaça’, se assim se pode qualificar a fala do figurão agora penalmente indiciado, me fez cogitar. Fazer o quê numa embaixada? E que embaixada escolher?

Parece que faz um tempão, mas foi este ano, em março, que Bolsonaro entrou de mala e cuia na embaixada da Hungria em Brasília, crente de que sua “amizade” com Viktor Orbán fosse lhe garantir tratamento VIP. De mala e cuia é expressão, que na verdade ele não levou roupa de cama nem alimento. Lá se instalou, sem pedir licença, com o sentimento de quem acha que tudo lhe é devido.

A tragicomédia durou dois dias, o tempo de o embaixador pedir instruções a Budapest. Que fazer com o incômodo visitante? Antes que a coisa caísse na voz do povo, Bolsonaro foi gentilmente convidado a retirar-se do local. Asilo? Não é possível.

Para que a notícia entrasse no domínio público pela grande porta, entregaram ao The New York Times, considerado o jornal mais importante do mundo, o relato do acontecido, acompanhado das imagens do circuito interno. Pra ninguém botar defeito. Todos puderam ficar sabendo que o candidato ao asilo tinha entrado por livre e espontânea vontade, sem coação.

À porta da embaixada da Hungria é que Bolsonaro não bate mais. Não quer levar outro desacato. Que embaixada(s) nosso ex-presidente indiciado poderia escolher agora? Vejamos.

Estados Unidos
Precisaria primeiro atravessar as portas do prédio. Não entra lá quem quer. Se lhe permitissem entrar, é de apostar num cenário à la húngara, ou seja, com um asilo sumariamente negado. Com ou sem Trump na Casa Branca, ninguém – nem Donald Trump – quer importar um trambolho incontrolável como Bolsonaro. O melhor a fazer é cortar o mal pela raíz, não permitindo a entrada dele sequer na embaixada. (Dependesse de mim, é o que seria feito.)

Países do mundo ocidental
Nas outras democracias ocidentais, calculo que o raciocínio seja o mesmo. Portanto, Alemanha, Canadá, Japão, França, Romênia, Austrália & semelhantes entram neste capítulo.

Argentina
Depois de eliminar o Ocidente democrático, sobram as ditaduras, a América Latina, a África e o sudeste da Ásia. Não imagino Bolsonaro batendo à porta da Argentina. Milei reina por enquanto mas… e amanhã?

África, Ásia
África? Ásia? Não consta que o ex-presidente se sentisse bem na África. No sudeste da Ásia (Tailândia, Filipinas, Nova Guiné)? Você acha?

China, Rússia, Índia
Eliminados todos os anteriores, quem é que sobrou? As ditaduras mais fechadas, que combinam com a alma e o espírito de Jair Messias. O nome principal é a Rússia. Seus satélites também entram na lista: Casaquistão, Bielo-Rússia, e os outros. Tirando a Rússia, o último refúgio possível seria a China ou a Índia.

Bolsonaro e seus filhos já trataram Pequim de todos os nomes e já lhe atribuíram todos os defeitos possíveis, a começar por “comunistas”. Com que cara vão agora pedir favor aos chineses? Quanto à Índia, é exótica demais.

Espremido o limão, quem é que sobrou? A Rússia, não vejo outro país. Se quiser escapar de Alexandre de Moraes, é para lá que deve ir. Mas não convém ir entrando assim na embaixada sem mais nem menos, como ele fez com a Hungria. Precisa antes combinar com os russos.

O palavreado de Milei

José Horta Manzano

Num aprendizado benfeito, o aprendiz que se aplica de verdade chega, às vezes, a superar o mestre.

Tome por exemplo Donald Trump, presidente eleito dos EUA. Seu palavreado tem feito sucesso entre os que apreciam um governo autoritário. O personagem é mentiroso contumaz, dono de um discurso recheado de lorotas. Um dia, falando em público na época do covid, revelou que tinha o hábito diário de tomar creolina(*) como preventivo contra a doença. Pois sim… (como se dizia antigamente para demonstrar que não dava pra acreditar).

Tremendas mentiras, sim. Apesar delas, Trump não é conhecido por fazer discursos recheados de insultos e palavrões. Pode ser que escape alguma coisinha aqui ou ali, mas não é a tônica.

Nosso Jair Bolsonaro nacional, admirador declarado de Trump, tentou adotar o estilo oratório do ídolo. Só que seu baú de expressões é pobre e sua mente, pouco criativa. Em decorrência, decerto por falta de palavras, não conseguiu elevar o nível de suas invectivas. Seus quatro anos na Presidência escorreram sem que ele fosse além de palavrões rasteiros, daqueles de boteco de beira de estrada. Foi incapaz de estruturar um raciocínio sequer.

Virada a página de Bolsonaro, novo aprendiz apareceu na Argentina. Chama-se Javier Milei. Mais jovem, mais vigoroso e mais instruído que o capitão, conseguiu juntar, em seus discursos, a agressividade de Trump e a vulgaridade de Bolsonaro. Mas não se contentou de apenas continuar vivendo de carona, aboletado no calhambeque dos tutores. Com sua motosserra, alargou a picada a fim de poder trafegar com seu caudal de impropérios.

Assustados com seu palavreado, catedráticos da própria universidade em que Milei se formou vêm publicando artigos no site da instituição, textos que acabam repercutindo na mídia argentina. Karina Galperín, diretora-geral de estudos da universidade, declarou que a luta selvagem de Milei pela desregulamentação atingiu seu discurso político. O jornal La Nación analisou um discurso pronunciado pelo presidente no mês passado e descobriu que, em 70 minutos de fala, o discursante cometeu nada menos que 29 agressões.

Aqui estão alguns dos insultos, cuja variedade deixa Trump e Bolsonaro comendo poeira: casta podre, vendidos, kirchneristas, ratazanas, bando de delinquentes, ladrões, excremento humano(!), mentirosos, traidores, covardes, imbecis, ratos miseráveis, bunda suja, degenerados fiscais, esterco imundo(!).

Essa moda de se comportar há de corresponder a uma tendência mundial. Ainda outro dia, a cidade de São Paulo passou pertinho de mandar para o segundo turno um forasteiro aventureiro que parecia ter incorporado o espírito do presidente argentino. Desta vez, foi por pouco, mas ninguém garante que, da próxima, o resultado não seja diferente.

Os argentinos usam um verbo cujo significado, à primeira vista, nos escapa: putear. Em política, se usa para definir um palavreado chulo, rasteiro, recheado de palavrões. A imprensa informa que Milei sempre foi fã desse modo de se exprimir. Só que, enquanto era um personagem obscuro, o problema não era tão grave. Agora, que se tornou chefe do Estado, o eco chega mais longe.

Como se vê, parece que a puteada está se tornando o dialeto habitual dos novos dirigentes autoritários, uma política de comunicação eficiente e aceita pelos eleitores. Os discípulos de Trump estão se saindo melhor que o mestre.

(*) Não me lembro bem se Trump disse creolina, benzina ou querozene. Tanto faz, dá no mesmo: seja qual for o desinfetante, a mentira da afirmação é ululante.

Lembro a meus queridos leitores que “creolina” não tem nada a ver com as palavras hoje proibidas por habitarem no index verborum prohibitorum. Creolina não tem a ver com raça. É marca comercial de um antigo desinfectante e antisséptico feito à base de creosoto, daí o nome. Não sei se ainda é produzido.

Mais quatro aninhos

by Neil Davies, desenhista britânico

José Horta Manzano

Donald Trump vai assumir a Casa Branca a partir de janeiro próximo, isso é uma verdade que não há como mudar. O que, de bom ou de mau, tiver de acontecer durante seu mandato, acontecerá, gostemos ou não.

Contra fatos, não há argumentos. Escolhido por sólida maioria de seu povo, o magnata será presidente pelos próximos quatro anos, salvo se o céu lhe caísse sobre a cabeça, catástrofe que não aconteceu mais desde os tempos bíblicos.

Meu palpite – gratuito e sem compromisso – é que Trump 2 será menos impactante que Trump 1. Primeiro, todo o mundo já conhece a peça e espera dele o pior, portanto não há surpresa. Segundo, o bilionário não tem mais grande coisa a provar. Nasceu em berço de ouro, conseguiu multiplicar a fortuna que recebeu, tornou-se personalidade de projeção nacional devido a sua constante presença na televisão. Depois disso, contra todos os prognósticos, alcançou a Casa Branca, foi na segunda tentativa, ressuscitou e voltou surfando na crista da vontade popular. Pela segunda vez, vai se tornar o homem mais poderoso do planeta.

Que mais pode ele querer? Na idade em que está, o momento de glória máxima é este. Não vejo mais o que pode almejar. Creio que não fará como nossos desajeitados políticos que, depois de um cargo maior, se resignam a descer alguns degraus e aceitar um cargo menor. Ou alguém imagina um futuro Trump deputado?

Eu tinha lembrança de que, nos EUA, presidentes não podem exercer um terceiro mandato. Pra ter certeza, fui pesquisar e encontrei. A 22ª emenda à constituição americana, ratificada sete décadas atrás, é taxativa: ninguém poderá exercer a Presidência do país por mais de dois mandatos (consecutivos ou não).

Assim sendo, a não ser que Donald Trump decida iniciar uma carreira de ditador aos 78 anos de idade – e que obtenha o apoio necessário para tal empreendimento – daqui a quatro anos ele deixará a Presidência. É o consolo que nos resta.

Para nós, minha gente, duro mesmo foi aguentar os quatro anos do capitão. Trump, nóis tira de letra.

Observação
O glorioso ano de 1946 foi o único, até hoje, que deu aos Estados Unidos três presidentes da república: Bill Clinton, George Bush (júnior) e Donald Trump nasceram naquele mesmo ano. Este escriba também.

Pesadelo voltou

José Horta Manzano


Algumas considerações sobre Trump e sua nova eleição (que alguns chamam equivocadamente de “reeleição”)


Nem as preces, promessas, novenas, oferendas e despachos de meio mundo foram suficientes. Os americanos, os verdadeiros donos da bola, votaram como bem entenderam. E mais uma vez elegeram Donald Trump para a Casa Branca. Como é que pode? Para mim e para muitos, aquela mulher simpática, sorridente e diplomada transmite mais confiança que aquele velho pretensioso, grosseiro e ameaçador.

Acredito firmemente que as tradições daquele país – ligadas à força física, à violência, à lei do mais forte, à crença de que vence o que atira primeiro ou o que bate mais forte – falaram mais alto. Não é tão já que entregarão as rédeas do país a uma mulher. E, ainda por cima, de pele escura.

Muitos povos têm fixação em tempos gloriosos que ficaram no passado. Franceses e ingleses vivem a nostalgia da época das colônias, em que viviam num país rico e poderoso.

Em Portugal, esse sentimento é especialmente presente. Fala-se sempre, com certa saudade, do tempo em que o pequenino país tinha importância mundial por ter colônias ultramarinas. Muitos anos atrás. tive um colega de serviço português, que suspirou um dia, balançando a cabeça e, com ar acabrunhado, me confessou sua tristeza: “Ah, e perdemos o Brasil…”.

A partir de 1945 e pelas três décadas seguintes, os EUA viveram seu apogeu. Eram os maiores em todos os pontos: os mais poderosos, os mais ricos, os mais influentes. Todo o mundo respeitava aquele país e gostaria de viver lá. O cinema nos trazia imagens de uma civilização avançada.

Quando Trump insinua que vai fazer com que seu país volte a ser importante (Make America Great Again), está aludindo àquele período. Quem é que não gostaria, não digo de voltar ao passado, mas de reviver uma época dourada, de crescimento, sem desemprego, sem concorrência comercial à altura do país? Um período de dólar forte, que permitia à população viajar à Europa ou ao México com dinheiro farto no bolso.

Pois é esse argumento de dar água na boca que aflora no imaginário do americano comum quando Trump brande seu MAGA (Make America Great Again). Seria difícil perder a eleição.

Cantinho da Candinha
Será que é impressão minha? Pela foto do início deste artigo, parece que Donald Trump abandonou a perturbadora coloração laranja do cocuruto e permitiu a seus cabelos viver uma velhice normal?

Como meus cultos leitores sabem, dona Melania Trump é originária da Eslovênia, pequeno país de dois milhões de habitantes, resultado do despedaçamento da antiga Iugoslávia. Estive hoje dando uma vista d’olhos aos jornais de lá. Como se pode imaginar, estão exultantes com a perspectiva de voltar a ter, por quatro anos, uma conterrânea no posto de First Lady dos EUA.

Por um desses veículos, fiquei sabendo que Barrow Trump, aquele garoto meio desengonçado que aparecia nas fotos durante a primeira presidência do pai, está hoje com 18 anos. Cresceu, cresceu, passou mãe e pai, está com 2,06m. Um assombro! Além do inglês, fala esloveno fluentemente. Fora de casa, só inglês. Da porta pra dentro, só esloveno. Se o pai não estiver, naturalmente.

Você fala esloveno?

Hamburgueria

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, Donald Trump ficou sabendo que um dos bolsonarinhos tinha fritado hambúrguer nos EUA, tinha incluído esse emprego em seu currículo e que tem usado isso como propaganda eleitoral.

Bem recentemente, Trump soube ainda que Kamala Harris, sua adversária nas eleições, também trabalhou numa hamburgueria.

Furioso, não quis ficar atrás. Entrou no primeiro McDonald’s que encontrou, requisitou um avental e mandou chamar a imprensa.

Tentou passar por um gentil atendente da rede, mas esqueceu de tirar as abotoaduras de ouro. Pegou supermal.

Prefeitos, vereadores e bandeiras

 

José Horta Manzano

Há vereadores e prefeitos de municípios pequeninos, há vereadores e prefeitos de megalópoles, mas um traço é (ou deveria ser) comum a todos: a busca do bem comum. É para isso que foram eleitos.

Nos pequenos municípios, o prefeito é como o chefe da banda que toca no coreto. Nas grandes cidades, ele é o dirigente da orquestra sinfônica. A quantidade de secretários e assessores varia, mas o objetivo é sempre de fazer que todos os auxiliares formem um conjunto de trabalho harmonioso a serviço dos administrados.

Essa é a teoria. Sabemos que o funcionamento nem sempre é o de uma máquina bem azeitada.

O vereador é uma engrenagem dessa máquina maior. Seu objetivo deveria ser o mesmo do prefeito, em ponto pequeno. Sua mente deve ter abertura suficiente, que lhe permita inteirar-se dos grandes problemas do município que o elegeu. Um vereador não pode deixar-se absorver por um tema único, como um monomaníaco incapaz de enxergar o mundo à sua volta.

Me dá muita preocupação ver que, como a ilustração deste artigo comprova, uma geração de jovens candidatos escapa a essa visão abrangente e acaba vendo seu município como quem observasse pelo lado contrário do telescópio. Os verdadeiros problemas municipais somem só deixando transparecer algum detalhe de somenos.

Todos os municípios brasileiros sofrem de graves problemas. Saneamento básico, escolarização, saúde pública, transporte, tráfego urbano, tráfico de entorpecentes, criminalidade, vandalismo, violência gratuita são alguns deles.

Assim mesmo, vemos jovens de seus vinte e poucos anos, bem vestidos e bem alimentados, que se candidatam a vereador abraçando bandeiras como o “uso de banheiro por pessoas trans” como se residisse aí a redenção do município.

Sabe-se que pessoas chegadas à extrema direita são obcecadas por temas ligados ao sexo. Falou em sexo, começam a se apoquentar. Mas abraçar esse tipo de tema como única bandeira de campanha já é demais.

O pior da história é que, apesar de seu deserto de propostas, acabam eleitos! E com votação surpreendente! Dá tristeza ver que os jovens nascidos este século não mostram nenhum avanço de percepção política com relação às gerações que os precederam. Antes, parece que regrediram.

Não sei se a visão encruada da atual geração de políticos se deve à radicalização fomentada por Donald Trump ou se, ao contrário, a radicalização é que é fruto da visão encruada dos jovens políticos. O ovo ou a galinha?

Seja como for, o futuro não é risonho.

Desgraça histórica

by Jon Berkeley, desenhista irlandês

Pela primeira vez, um ex-presidente americano foi condenado por um crime – 34 crimes, na verdade. Essa desgraça histórica deveria chocar a nação e tranquilizá-la quanto à sua capacidade de fazer justiça. O fato de que a condenação de Donald Trump provavelmente não alcançará nenhum dos dois resultados decorre, por um lado, do poder corrosivo da sem-vergonhice de Trump e, por outro, à natureza complexa e contestável das acusações contra ele.

The Economist, 30 maio 2024

O penteado

A partir do alto à esquerda, em sentido horário:
Geert Wilders (Hol.), Javier Milei (Arg.), Donald Trump (EUA), Boris Johnson (UK)

José Horta Manzano

As redes sociais de língua espanhola estão fervendo com uma descoberta. Trata-se de fato evidente, mas ninguém tinha ligado uma coisa à outra. Os líderes de extrema-direita parecem ter especial predileção por penteados extravagantes.

Donald Trump e Boris Johnson deram o sinal de partida à nova moda. O topete alaranjado do americano e o “cabelo assanhado com muito cuidado”(*) do inglês surpreenderam o mundo. Lá no fundo, cada um de nós pensou: “Como é que pode um presidente (um primeiro-ministro) se apresentar com uma cabeleira esquisita dessas?”. Mas pouca gente ligou uma coisa à outra.

Este mês, de repente, com poucos dias de intervalo, são eleitos dois novos membros da tendência ultra-direita populista. Na Holanda, é Geert Wilders, e na Argentina, nosso já familiar Javier Milei. Ambos ostentam o que, décadas atrás, se conhecia como “cabeleira de maestro”. De fato, não se costumava ver ninguém assim, exceto os diretores de orquestra.

Com mais esses dois na lista, não dá mais pra esconder. É por isso que as redes de língua espanhola estão excitadas. No Brasil, imagino que a empolgação seja bem menor, afinal nenhum dos personagens nos é conhecido e familiar – quem já ouviu falar de Geert Wilders?

Sigismeno, um amigo meu que, na juventude, foi cabeleireiro de dama, me garante que o cabelo de Bolsonaro, apesar do aspecto emplastado e descurado, é tingido. Tintura feita nos conformes, nada de trabalho caseiro com pincel e bacia sobre a mesa da cozinha, e a esposa ajudando. Como prova, Sigismeno aponta a meia dúzia de fios brancos que surgem ao lado da orelha do capitão, um embranquecimento lentíííssimo que não avançou um fio em seis anos, desde que o político se tornou conhecido.

Fico meio assim. Se bem que é verdade que, quando presidente, Bolsonaro mais de uma vez se deixou fotografar sentado numa cadeira de babearia de aspecto chinfrim. Será que não passava de disfarce pra desviar a atenção do distinto público?

Voltemos aos ultradireitistas cabeludos. No tempo dos Beatles, quando todos os jovens começaram a deixar crescer o cabelo, as vovós costumavam resmungar: “Cabelos compridos, idéias curtas”.

Trump e Johnson já deram sua contribuição para confirmar o resmungo das velhinhas. Vamos ver se os recém-chegados ao clube – o holandês e o argentino – conseguem fazer uma boa gestão e, assim, desmentir a maldição.

José Irimia Barroso, escritor hispano-venezuelano, tuitou: “Se vierem os extraterrestres, vão achar que ‘populismo de ultra-direita’ é algo relacionado com o penteado…”.

(*) “Cabelo assanhado com muito cuidado” é trecho da música Mocinho Bonito, do compositor Billy Blanco. O samba foi lançado no fim dos anos 1950, gravado por Isaura Garcia e, em seguida, por Doris Monteiro.

Cuidado com o sub do sub

José Horta Manzano

No Brasil, tirando algum analista mais comedido, as grosserias e o palavreado chulo que são marca registrada do capitão parecem não incomodar. Deve ser efeito da repetição. É como quem mora numa avenida movimentada que, de tanto ouvir barulho de caminhão, nem percebe mais que tem veículo passando. Ou de quem vive no eixo da pista de aeroporto movimentado, que acaba não se dando mais conta de que um avião rela seu telhado a cada 15, 10 ou 3 minutos.

Já nos States, tem disso não. A coleção de impropérios e palavrões deles é tão rica quanto a nossa, o problema não está aí. O fato é que, num país cuja certidão de nascimento foi assinada por um grupo de famílias devotas que estavam imigrando por motivo de perseguição religiosa, certas baixarias são reservadas para o âmbito privado; é inconcebível pronunciá-las em público.

A CPI que investiga o comportamento de Donald Trump nos dias que precederam a invasão do Capitólio de Washington, no ano passado, ouviu ontem uma moça jovem, assistente do chefe de gabinete do presidente. Ela encarna aquela figura meio invisível, que trafega livre e despercebida pelos altos círculos. Sua presença não intimida, de modo que ninguém policia muito as palavras diante dela, e as falas correm fluidas.

Pois foi essa senhora que, chamada a depor na comissão parlamentar, botou a boca no trombone. É que ouviu, da boca do presidente, um palavreado que – nos Estados Unidos – presidente não deveria ousar.

Não vou aqui repetir a notícia que todos já conhecem. O que me chamou a atenção foi, primeiro, o que disse Trump; segundo, como o palavrão foi estampado na mídia internacional

O que ele disse
“I’m the effing president. Take me up to the Capitol now!”
“Effing” é a forma suavizada usada pela imprensa para evitar de escrever o original fucking, que, embora frequente na linguagem falada, é considerada ofensiva demais pra aparecer em jornal. Pra saber o que o presidente disse exatamente, substitua-se effing por fucking.

Em espanhol
“Soy el maldito presidente, ¡llévame al Capitolio ahora!”
Foi assim que saiu a maioria dos títulos em espanhol. Maldito, nesse caso, embora seja expressão pesada, não chega a ser tabuística.

Assim mesmo, o jornal El País, decerto pra não correr risco de ofender ninguém, mostrou que a moda do “politicamente correto” vem fazendo estragos em seu país e optou por omitir a palavra mais vulgar. Numa solução radical, suavizou:
“Soy el presidente de Estados Unidos, ¡llévenme allí!”

Em alemão
A imprensa alemã utilizou expressão corrente na língua. Curiosamente, trata-se da tradução do mesmo “maldito” espanhol. Ficou assim:
“Ich bin der verdammte Präsident, bringt mich zum Capitol”

Em italiano
Os italianos aproveitaram a ocasião. Usaram uma palavra que trota na cabeça de todos, mas que só vem à boca depois que as senhoras tenham deixado a sala. É cazzo (= cacete).
“Sono il cazzo di capo, vai al Campidoglio!”

Em francês
Os franceses fizeram como os italianos – idem com batatas.
“Je suis le putain de président, amenez-moi au Capitole tout de suite!”
A palavra tabuística lembra a nossa versão, dado que usa um substantivo que não faz sentido lógico naquela posição mas denota exasperação e traz carga ameaçadora. Putain = puta.

Em português
No Brasil, a mídia deitou e rolou. Alguns veículos deram a letra inicial do palavrão seguida por estrelinhas, forma antiga de dizer sem dizer. Mas a maioria mandou ver:
“Eu sou a porra do presidente, me leve para o Capitólio agora!”

Já em Portugal, a grande imprensa preferiu uma saída à moda de El País:
“Sou o presidente, leve-me ao Capitólio agora!”
Não dói no ouvido, mas também não transmite o estado furibundo em que se encontrava Trump.

Em holandês
Na Holanda, país em que grande parte da população fala, além da língua do país, inglês fluente, a expressão inglesa não dá medo a ninguém.
“Ik ben de fucking president, breng me naar het Capitool, nú.”

Moral da história
Desconfie do sub do sub. Por mais alheio que ele possa parecer, ele também tem ouvidos para ouvir e boca para falar.

Militares nos EUA e no Brasil

Nos EUA, militares seguiram a lei em vez de Trump, e afastaram temor que agora há no Brasil

Pedro Doria (*)

Comandante do Estado-Maior das Forças Armadas americanas, o general Mark Milley discursou em novembro de 2020 sobre o dever de cada militar em sua visão, após o presidente Donald Trump promover uma série de mudanças no alto escalão do Pentágono. “Não fazemos juramento a um rei”, ele afirmou, “a um tirano ou a qualquer pessoa. Juramos defender a Constituição dos Estados Unidos.”

O cargo de Milley está acima do dos três comandantes de cada uma das Armas e ele é o militar mais graduado do país, imediatamente abaixo do secretário da Defesa, que em geral é civil. Existe um motivo para que, em democracias liberais, militares não possam se manifestar politicamente. Não é uma razão trivial. É, isso sim, uma razão da qual depende a essência da democracia.

As Forças Armadas são, o próprio nome diz, a instituição mais armada de uma nação. Tem tanques, mísseis, caças, toda sorte de armas, e profissionais especialistas em seu manuseio. Elas precisam existir. Se um país é atacado, precisa se defender. A existência de Forças Armadas já é um motivo para evitar guerras.

Mas isso cria, para democracias, um dilema. Armam-se essas instituições e seus integrantes – e o que acontece se elas decidem se envolver em política? O debate público não pode envolver violência. Não pode, portanto, ter a participação de elementos que ameacem de alguma forma, com violência, a defesa de seus ideais. É por isto que qualquer cidadão, quando escolhe a carreira militar, abre mão imediatamente de se manifestar publicamente sobre política.

Porque tem acesso às maiores armas de um país, não pode entrar no debate sobre política. É preciso que o debate público ocorra sem que um lado tenha força militar.

Não é uma peculiaridade do Brasil. Está no alicerce de qualquer democracia. O que o alto-comando do Exército decidiu na quinta-feira, ao não punir o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello por ter participado de uma manifestação com o presidente Jair Bolsonaro, é, portanto, isto: militares já podem se manifestar publicamente em favor do presidente da República. Uma decisão temerária: o Exército acaba de se colocar na política.

(*) Pedro Doria é jornalista e escritor. O artigo foi publicado no jornal O Globo de 4 junho 2021.

Loser

José Horta Manzano

Ingleses e americanos são bons pra criar expressões de gíria. Não sei se é a língua inglesa que se presta bem a esse contínuo exercício de criação ou se é o espírito do povo que combina com ele. Talvez os dois.

A palavra loser (=perdedor) é substantivo derivado do verbo to lose (=perder). No meio estudantil americano de meados do século 20, o termo loser adquiriu uma acepção insultuosa. Passou a designar não aquele que eventualmente deixa de vencer numa ocasião precisa – como uma partida de xadrez – mas o perdedor infeliz, habitual e contumaz, o indivíduo que não vence nunca e que passa a vida perdendo todas. No falar popular americano, a melhor tradução é fracassado, ofensa doída num país em que a meritocracia é erigida em ideal nacional.

Faz anos que Donald Trump se apresenta como o homem que vence todas, o líder carismático que tem sempre razão e que traz no bolso do colete a solução simples para males complexos; um verdadeiro deus ex machina que há de redimir o país desnorteado e à deriva. Foi assim que vendeu seu peixe e foi com esse discurso que venceu a eleição de 2016.

Quatro anos se passaram. Trump governou de olho nas pesquisas, sempre jogando para a plateia interna, um tanto descolado do fato de presidir a maior potência planetária. Não há de ter desagradado tanto assim, visto que, na corrida para o segundo mandato, recebeu mais de 70 milhões de votos. Mas o que conta é o resultado, que lhe foi desfavorável: perdeu a eleição.

O balanço de sua gestão é pra lá de negativo: perdeu a Câmara (House of Representatives) para os democratas; perdeu o Senado também para os democratas; e, pra coroar, perdeu as eleições. O homem perdeu todas! Tornou-se um loser! Um fracassado!

Essa pancada no orgulho está na origem de suas atitudes alucinadas estes últimos tempos. Durante a vida, Donald Trump já deve ter usado inúmeras vezes a palavra loser como insulto. Sentir agora a ofensa na própria carne deve ser insuportável. Loser! Loser! Loser!

Katastrophale Corona-Politik

José Horta Manzano

Nossa percepção do som de línguas estrangeiras não é uniforme. Cada uma delas nos deixa uma impressão diferente. Em assunto técnico, por exemplo, o inglês é insuperável. Já uma história de amor, se contada em francês, fica mais picante. Se ela terminar em festa de casamento, com família e amigos em torno de uma longa mesa ao ar livre, será descrita em italiano. Se, no entanto, houver traição e vingança, convém passar para o espanhol. Acontecimentos fortes, impactantes, trovejantes, serão descritos com perfeição em alemão.

Bolsonaro: A catastrórica política do coronavírus
Der Standard, Áustria

Convenhamos que «Jair Bolsonaros katastrophale Corona-Politik» soa como bordoada e dispensa tradução. É o título de artigo publicado pelo diário austríaco Der Standard. Conta de onde vem a fixação bolsonárica pela cloroquina. Aqui estão os primeiros parágrafos.

O presidente brasileiro e seu grande modelo, Donald Trump, são responsáveis por dezenas de milhares de mortes por anunciarem uma droga ineficaz.

Em 7 de março, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro visitou seu homólogo americano, Donald Trump, em Mar-a-Lago. Ele havia cancelado viagens planejadas para a Itália, Polônia e Hungria a conselho de seu ministro da Saúde, mas o populista de direita não queria deixar escapar a importância midiática de ser visto ao lado de seu grande modelo.

Trump deu-lhe uma caixa do medicamento antimalárico hidroxicloroquina, como o próprio Bolsonaro relatou com orgulho. “A partir daí”, lembra o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, demitido em abril, “ele não levou mais a sério as recomendações dos cientistas”.

Ao retornar dos Estados Unidos, 22 integrantes da delegação brasileira deram positivo.

Clique aqui quem quiser ler o artigo na íntegra (em alemão).

FLOTUS

José Horta Manzano

O presidente Donald Trump informou estar contaminado pelo vírus da covid. Ele não gosta de dizer o nome do coronavírus. Prefere “vírus chinês”, acentuando assim, de propósito, a origem estrangeira do bichinho.

Até dois dias atrás, isso funcionava. Ao afrontar a pandemia sem medo e sem máscara, aparecia como muro sólido, como o super-homem que fazia barreira a todo ataque vindo do exterior. Agora, que está infectado, a imagem levou um tranco e se dissolveu. Se nem o pai da pátria está imune, quem estará?

POTUS & FLOTUS
Para quem vive nos EUA ou está familiarizado com o dia a dia do país, essas palavras não são segredo. Para os demais, podem parecer esquisitas. É inglês, isso aí?

Ao anunciar a doença, Trump disse que “FLOTUS” e ele tinham sido contaminados. Estaria falando da esposa? Pois é isso. As palavrinhas misteriosas são acrônimos.

P.O.T.U.S. = President Of The United States (Presidente dos Estados Unidos)

F.L.O.T.U.S. = First Lady Of The United States (Primeira-dama dos Estados Unidos)

Outros acrônimos em -OTUS são utilizados de raro em raro.

SCOTUS = Supreme Court Of The United States (Suprema Corte dos Estados Unidos)

COTUS = Constitution Of The United States (Constituição dos Estados Unidos)

O finalzinho of the United States – dos Estados Unidos” abre um amplo leque de possibilidades para novos acrônimos. Mas é preciso ter em conta que a língua é um balaio de convenções. Acrônimos, assim como palavras novas, serão bem-vindos na medida que sejam entendidos por todos.

Não adianta você inventar meia dúzia deles. Se não combinar antes com os russos, não vão servir pra nada porque ninguém vai entender.

Trumpização

José Horta Manzano

Donald Trump não inventou a baixaria na política, mas está lhe dando um impulso fenomenal. É difícil saber se costumes tão rasteiros já existiram antes, em outras épocas. O bom senso indica que não, que nunca houve nada parecido. Homens políticos, por mais incisivos e veementes que possam ter sido, não desceram tão fundo como o atual inquilino da Casa Branca.

Não assisti ao debate de ontem, etapa obrigatória da corrida presidencial americana. Pra começar, não teria estômago para aguentar hora e meia de bate-boca; pra terminar, o espetáculo caía às 3h da manhã na hora daqui, razão suficiente para renunciar. Mas ouvi, hoje de manhã, uma dezena de analistas, cada um com sua visão e seu resumo do que ocorreu.

Pelo que pude depreender, não foi um debate de ideias stricto sensu, dado que nenhum dos candidatos gastou mais que 10% de seu tempo para apresentar as metas de um eventual governo. Foi mais parecido com uma briga de cortiço, em que a intenção de cada litigante era só rebaixar o adversário.

Invectivas, insultos, mentiras, ataques pessoais, ‘voadoras’ na carótida, dedo no olho, pé no peito pra derrubar. Sabe de uma coisa? Aqueles que se destroçavam num circo romano, dois mil anos atrás, seguiam código de ética bem superior ao que se viu numa etapa crucial das eleições do país mais poderoso do planeta.

Não posso avaliar o que se passa na cabeça do americano médio; não sei como ele se sente depois de quatro anos sob Trump. Visto daqui de longe, no entanto, o problema é diferente. Quem vive fora dos EUA está menos preocupado com problemas internos americanos e mais com a imagem que a grande potência projeta no resto do mundo. E com a influência que exerce em dirigentes mais frágeis, como é o caso do doutor que nos governa.

Que Donald Trump esteja fazendo bom ou mau governo, isso quem tem de julgar são os americanos, seus eleitores. Darão o veredicto nas urnas. Quanto a nós outros, só nos resta constatar o abalo que um indivíduo inculto, agressivo, narcisista, mentiroso e despreparado para ser presidente tem provocado nos costumes políticos do planeta.

Povos mais esclarecidos, como os que vivem em democracias maduras, têm nas mãos as armas para reconhecer essa ameaça de degradação nas artes da política e para resistir a ela. Povos menos esclarecidos – como o nosso, sejamos sinceros – se encontram desarmados. O jeito lulopetista de manejar a coisa pública deu uma perigosa inclinada para baixo. Os anos em que fomos governados por presidentes de poucas letras e ideias curtas (mas braços longos, se é que me entendem) deram a partida para forte rebaixamento no nível do debate de ideias.

A rejeição ao modo lulopetista de governar abriu uma avenida para o aventureiro que se mostrasse mais ousado. Bolsonaro conseguiu ser visto como o mais antipetista dos candidatos. Não deu outra: deixou os demais a comer poeira e venceu.

Sem preparo e sem projeto, nosso doutor precisava agarrar-se à figura de um irmão mais velho a mostrar-lhe caminho radioso. É neste ponto que entra a influência daninha de Trump sobre políticos despreparados, como nosso presidente.

Se Trump não tivesse ousado, Bolsonaro não ousaria. Se Trump não tivesse dito, Bolsonaro não diria. Se Trump não tivesse feito, Bolsonaro não faria. Em resumo: sem Trump, não teria havido Bolsonaro; ou, pelo menos, não esse Bolsonaro que conhecemos.

Resta esperar que os eleitores americanos se mostrem mais espertos desta vez e que despachem o topetudo pra casa. Para o Brasil, será uma bênção.

A fama já chegou lá

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro chega à Índia como convidado especial para assistir aos festejos do R-Day, festa nacional que comemora a República.

Por essa ocasião, o jornal anglófono Times of India botou na capa um resumo da biografia do convidado. E fecha com a informação principal: “Conhecido como Donald Trump brasileiro”.

O Trump brasileiro
Times of India

Eu me sentiria incomodado com a comparação. Quanto a nosso doutor, acredito que se sinta elogiado. Cada qual com seu cada qual.

O elefante

José Horta Manzano

Faz alguns dias, saiu notícia espantosa. Mais uma de Donald Trump. Num tuíte, o imprevisível presidente se mostrou interessado em comprar a Groenlândia e disse que a Dinamarca, dona da imensa e gelada ilha, deveria concordar em vendê-la aos EUA. A Groenlândia, habitada por 60 mil pessoas, pertence realmente ao reino da Dinamarca, embora goza de grande autonomia.

Parece piada de hospício. Passado o primeiro momento de estupor diante da ousadia de Trump, o mundo riu. A mídia europeia levou tudo na brincadeira. Por seu lado, a primeira-ministra dinamarquesa declarou que a ideia do presidente americano era absurda.

A primeira-ministra da Dinamarca, o presidente americano, a Groenlândia e a fábula do elefante.

Trump não gostou do que disse a chefe de governo. Embirrou. Em represália, anulou a visita que faria a Copenhague estes próximos dias. Na Dinamarca, ficaram todos constrangidos: «Com que então, ele não estava brincando? Estava falando sério mesmo?».

Politiken, importante jornal dinamarquês, traz na manchete o comentário de políticos do país. «Esta história faz o ditado do elefante na loja de porcelana perder todo sentido.»

É verdade. Donald Trump é capaz de quebrar mais louça que um elefante.

Foi mal

José Horta Manzano

Baita escorregão! É d’O Globo de hoje. Já ouvi muita acusação contra o presidente dos EUA. Prepotente, autoritário, trapalhão, inconsequente, mentiroso, presunçoso – são algumas delas. É a primeira vez que o vejo acusado de botar quebranto. Parece que a rainha Elizabeth, bem assessorada, já sabia do perigo. Nada como receber informações de primeira mão.

Chamada d’O Globo, 5 junho 2019

Pode até ser verdade; não posso garantir porque não sou amigo de infância de Mr. Trump. Mas, cá entre nós, o autor da chamada quis dizer uma coisa e acabou escrevendo outra. Aquele feitiço que, dizem, certas pessoas têm o condão de lançar com os olhos chama-se mau-olhado. Escreve-se com tracinho. E, naturalmente, é mau, não mal.

Manicômio geral

José Horta Manzano

Primeiro, foi o bolsonarinho senador. Começaram a aparecer uns podres sobre o rapaz, uma história meio sórdida de exploração do homem pelo homem. Circulou a notícia de que ele confiscava, em benefício próprio, parte do salário de cada colaborador. Aproveitar-se da fragilidade alheia, tsk, tsk, que coisa mais feia! Daí veio o pai e disse algo como: «Se ele errou, tem de pagar e consertar o que fez». E todo o mundo se tranquilizou ao imaginar que, se o filho era malandro, pelo menos o pai era equilibrado.

Em seguida, veio o bolsonarinho vereador. Começou aboletando-se no coche presidencial na hora do desfile inicial – coisa esquisita. Em seguida, sempre atendendo pelo doce apelido de ‘pit bull’, desembestou a metralhar conhecidos e desconhecidos pelas redes sociais – redes essas que, sob seus dedos ágeis, estão mais pra associais. A primeira façanha foi derrubar um ministro. De lá pra cá, não parou mais. Daí veio o pai e explicou que ‘pit bull’ era só um apelido, que o moço era mais manso que gatinho miúdo. E todo o mundo se tranquilizou ao imaginar que, se o filho era perturbado, pelo menos o pai era equilibrado.

Bolsonaro & bolsonarinhos
Crédito: vespeiro.com

Na continuação, veio o bolsonarinho deputado. Começou forte: apareceu logo nos EUA, de boné «Trump 2020» enfiado no cocuruto. E continuou na mesma linha. Organizou jantar para homenagear Steve Bannon (um desafeto de Trump) e, dia seguinte, sentou-se no salão oval com Trump. Sua façanha mais recente foi preconizar um Brasil membro do clube atômico. Daí veio o pai e explicou que não havia por que se preocupar porque, no fim das contas, é sempre ele – o presidente – a dar a última palavra. E todo o mundo se tranquilizou ao imaginar que, se o filho era destrambelhado, pelo menos o pai era equilibrado.

Esgotados os bolsonarinhos, chegou a vez do pai. Já faz algumas semanas que o presidente vinha emitindo sinais confusos, mordendo e assoprando, espalhando o calor e o frio. Faz dois dias, desandou de vez. Doutor Bolsonaro deu mostras de que não é fiel nem mesmo ao guru que o ajudou a eleger-se (segundo seu próprio diagnóstico). Abandonando o astrólogo boca-suja, jogou-se para o lado de outro iluminado, um residente francês de pai congolês e mãe angolana. O esclarecido personagem, que se considera milagreiro, declarou que doutor Bolsonaro é ungido pelos deuses e foi por eles designado para conduzir o povo brasileiro. E nosso presidente, babando de satisfação, repicou a mensagem!

Conclusão
O primeiro filho é malandro. O segundo é perturbado e o terceiro, destrambelhado. Quem achava que a sensatez do pai fosse salvar o cenário, pode perder a esperança. Era de desconfiar. Fruto não costuma cair muito longe da árvore.

Rabicho
Acaba de sair a notícia de que, pela segunda vez desde que assumiu o trono, doutor Bolsonaro atribuiu uma medalha nacional de mérito aos filhos. Desta vez, foi a medalha do Mérito Naval, concedida a dois bolsonarinhos. Como? Eles não têm mérito? Ora, que bobagem! Quem está ligando pra esses detalhes? Distribuição de medalha em família sempre reforça o sentimento de clã. Um dos dois bolsonarinhos medalhados é justamente o senador, aquele que está enrolado até o pescoço com a Justiça.

Silêncio é poesia

José Horta Manzano

Logo que começaram a pipocar as mensagens de simpatia de líderes do mundo inteiro abalados com o incêndio de Notre-Dame de Paris, senti uma certa inquietação: que faria doutor Bolsonaro? Será que ia se calar fingindo que era poste? Será que ia mandar mensagem? E, se mandasse, que barbaridade perigava escrever no bilhete?

Aliviado, descubro que o pior não aconteceu. A mensagem do presidente foi sóbria, digna, exatamente como se espera de personagem equilibrado. Não estivesse assinada de próprio punho, eu nem acreditaria que tivesse sido escrita por ele mesmo.

Já Mr. Trump, ai, ai, ai. Que bordoada! O homem se permitiu dar conselho aos bombeiros de Paris, imagine só! Enquanto as chamas consumiam o edifício, sugeriu que fossem despachados aviões-cisterna, daqueles que se usam para combater incêndio florestal. E que despejassem toneladas d’água sobre a catedral.

Condescendentes, os bombeiros de Paris responderam delicadamente que não era uma boa ideia, pois o peso da água perigava destruir o que restava do monumento além de matar pedestres. Muito acertadamente, as normas proíbem o uso de aviões-cisterna em meio urbano. Desta vez, doutor Bolsonaro livrou-se do ridículo.

Em boca fechada não entra mosca, minha gente. Donald Trump calado é um trovador. Se subsiste uma duvidazinha quanto à autoria da mensagem de doutor Bolsonaro, não há que hesitar pra designar o autor do bilhete de Mr. Trump: é ele mesmo.