Se os 2 minutos finais fossem meus…

Fernão Lara Mesquita (*)

Brasileiros!

O passo que vamos dar domingo é decisivo. Pense bem antes de apertar aquele botão.

Esse retrato cor-de-rosa do Brasil que os marqueteiros da Dilma pintaram na campanha é falso. Os números em que ele está baseado são falsos.

A festa acabou mas o PT continua batendo bumbo pra fazer você dançar. Você sabe bem disso. Você está sentindo isso no seu bolso, na compra do mês e na prestação que não cabem mais no salário.

by Carlos Augusto R. Nascimento, desenhista paraense

by Carlos Augusto R. Nascimento, desenhista paraense

Os números que a Dilma mostra valem tanto quanto os juramentos solenes de acabar com a corrupção e a impunidade do partido que, quando chega a hora de agir, só age para desmoralizar a Justiça e tirar da cadeia, um por um, todos os condenados por corrupção. Nenhum dos que foram presos continua preso. Nenhum dos que estavam no poder perdeu o poder.

No plano internacional tem sido a mesma coisa.

O PT vive falando em direitos humanos mas só age na ONU para impedir que os maiores criminosos do mundo sejam detidos. Promete democracia mas só se relaciona com ditadores. Com aquele tipo de gente que aceita convite pra entrar mas não aceita ordem pra sair.

Tudo isso não é só coincidência.

O PT pede o seu voto mas já cassou por antecipação o que você vai dar domingo para o seu futuro deputado no Congresso com o decreto que a Dilma assinou há cinco meses – aquele que põe para fazer as leis do Brasil, no lugar dos parlamentares, os “movimentos sociais” que você não elegeu.

É por cima de tudo isso que o PT pede mais 4 anos, além dos 12 que já se foram, e olhando pra outros 8 logo ali adiante.

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

Olhe pra Cuba, olhe pra Venezuela, olhe pra Bolívia, olhe pra Argentina; olhe pros ditadores todos que o PT não se cansa de festejar e pros países que ele aponta como modelos para o Brasil.

É isso mesmo que você quer?

Domingo vai começar a nascer o Brasil onde seus filhos vão viver.

Por isso, pense bem antes de apertar aquele botão.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista e editor do blogue Vespeiro.

Leilão cubano

Cuba leiloa com EUA e Rússia porto erguido pelo Brasil

Leandro Mazzini (*)

Uma nova Guerra Fria, em novo contexto. É o que se depreende do episódio.

O governo do Brasil fez papel de bobo, no Caribe, com o ‘aliado’ governo cubano. Bancou, via BNDES, com R$ 240 milhões a fundo perdido, a construção do Porto de Mariel, de olho na reabertura comercial e no fim do embargo americano ao país de Fidel.

Putin e CastroMas quem vai faturar bonito são os Estados Unidos e a Rússia. Depois de os EUA fazerem oferta para operar a área, agora foi o presidente russo, Vladimir Putin, quem avisou a Raúl Castro que tem pretensões sobre a área. Para isso, Putin perdoou aos cubanos a dívida de US$ 35 bilhões. A revelação é do jornalista Marcelo Rech, de Brasília, editor do site InfoRel.

As negociações para o perdão da dívida duraram 20 anos. Putin ainda avisou aos Castros que vai investir US$ 2,6 bilhões em Cuba – principalmente direcionados a Mariel. Putin correu para Cuba um mês depois de os americanos fazerem a oferta de operação do porto. Recomeçou, assim, uma nova ‘guerra fria’ entre EUA e Rússia.

(*) Leandro Mazzini é jornalista, escritor, cientista político e editor do blogue Coluna Esplanada, alojado no UOL.

Direto ao ponto

Miguel Pellicciari

Só para deixar bem claro: quem nomeia diretores da Petrobrás é o sócio majoritário, ou seja, o governo federal, cujo presidente na época de Paulo Roberto Costa era o Lula. Quem endossa a nomeação é o conselho de administração, cuja presidente era Dilma Rousseff.

Portanto, o senhor Paulo Roberto Costa sabia muito bem qual seria sua missão na empresa.

Agora, o que mais intriga é ver o maior interessado nisso ― o pessoal do PSDB ― não explicar direitinho a coisa aos eleitores nem mostrar a fila de caminhões aguardando para ter acesso a nossos portos, comparada ao moderníssimo porto feito pelo PT em Cuba.

Citação extraída de comentário de leitor do Estadão, 19 set° 2014.

Para redourar a imagem

José Horta Manzano

Precisa ser muito caradura. Um correspondente do Estadão nos informa que o Brasil está para apresentar, ao plenário da ONU, proposta de combate à impunidade de crimes contra a imprensa e contra a liberdade de expressão.

Anúncio 1Logo o Brasil, quem diria! E pensar que, em assuntos de reprimir a livre expressão de ideias, nosso País poderia dar aulas a qualquer principiante.

Quem não se lembra do caso do jornalista americano Larry Rohter? Em 2004, era correspondente no Brasil do New York Times. Foi ameaçado de expulsão do País por ter ousado pôr no papel o que todos já sabiam: que o Lula, então presidente da República, era forte apreciador de uma branquinha.

Quem já se esqueceu da Operação Boi Barrica? Era investigação sobre os ‘malfeitos’ do filho de José Sarney, suspeito de ter sacado ― sabe-se lá de onde ― 2 milhões de reais em dinheiro vivo para financiar a campanha da irmã Roseana. Uma decisão judicial cassou ao jornal Estadão o direito de publicar uma linha sequer sobre o assunto. Faz mais de cinco anos que a mordaça continua atada.

E aquele banco que, pressionado pelo Planalto, teve recentemente de demitir uma penca de analistas financeiros que haviam recomendado cautela a seus clientes, diante das perspectivas econômicas nacionais? Se isso não for cerceamento da liberdade de opinião, o que será?

Jornal 1Quem se lembra de ter passado alguns dias, nem que fosse uma semaninha só, sem ouvir declaração de um sempre furibundo Lula acusando a imprensa de todos os males? Para ele e para seus áulicos ― incluindo a atual presidente da República ―, imprensa boa é aquela que proclama o lado bom do governo e cala sobre o que não convém publicar. Mídia que conta as coisas como são é golpista e preconceituosa.

Depois de passar 12 anos pressionando a mídia, vem agora o governo brasileiro propor ao mundo a proteção da liberdade de expressão? É como se a China propusesse a proibição do ‘dumping’. Ou se a Argentina patrocinasse a publicação de estatísticas transparentes. Ou se Cuba lutasse pela adoção planetária do princípio da livre circulação dos indivíduos.

Francamente, tem gente que não teme o ridículo.

Economia brasileira, enfim com crescimento cubano

Percival Puggina (*)

Na edição desta última quinta-feira, o Estadão traz artigo do economista Roberto Macedo analisando os dados de um recentíssimo relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). O robusto documento de 216 páginas traz a classificação dos países segundo o crescimento do PIB 2014 estimado pela Comissão.

Trinta e três países compõem a região. Estimando o crescimento do PIB brasileiro no corrente ano em 1,4% ― expectativa otimista que sequer o Banco Central corrobora ―, o Brasil fica em 27º lugar, empatado com Cuba.

Se adotarmos a expectativa mais realista, aquela com a qual os analistas do mercado vêm operando, o Brasil ficaria em 30º, à frente apenas dos parceiros petistas Argentina e Venezuela. E logo acima de Barbados, pequena ilha caribenha de 280 mil habitantes, fragmento do Reino Unido.

Lembra o autor do referido artigo que nosso governo tem afastado das próprias costas a responsabilidade por esse desastre, atribuindo o infortúnio a um rescaldo da crise internacional de 2008.

Ora, comento eu, como pode o mesmo governo, que cacarejou como seus os ovos dos bons índices de 2007, 2008 e 2010, remeter a algum sujeito oculto no mercado mundial os ônus das contas do malfazejo período Dilma? E, principalmente, por que outros 29 países da região crescem mais que o Brasil?

Ao que me consta, todos produzem, consomem, compram e vendem no mesmo planeta que nós, embora nosso governo pareça viver no mundo da Lua.

(*) Percival Puggina é arquiteto, empresário, escritor e colunista do jornal Zero Hora.
Edita o blogue puggina.org.

Gotejando

Eliane Cantanhêde (*)

Censura 2Depois de o Planalto enviar um funcionário a um seminário de internet em Cuba, tudo é possível. Cuba é o último lugar do mundo para fazer curso de internet… a não ser de guerrilha digital.

Por essas e outras, é irritante, mas não surpreendente, a informação da Folha e do Globo de que a rede do Planalto é usada para adocicar perfis de aliados, azedar dos adversários e plantar calúnias contra jornalistas críticos. A operação, além de indecente e possivelmente criminosa, é também de uma burrice gritante.

Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, afora serem queridos amigos, são dois dos mais premiados jornalistas do país. Logo, o ataque não foi só aos dois, mas a uma categoria inteira e a uma cidadania que exige liberdade de expressão e de crítica.

Censura 1Do ponto de vista político, é péssimo para Dilma Rousseff, mas é sobretudo um desastre para o PT, que já enfrenta alta rejeição, candidatos assustados e atritos de toda sorte.

Segundo o marqueteiro João Santana, eleições trabalham o imaginário popular. Pois o uso da sede da Presidência para golpes rasteiros só “vai gotejando” uma imagem ruim do PT, como diz Gilberto Carvalho.

Auto de fé

Auto de fé

A hora é de falar de Mais Médicos, Minha Casa, Pronatec, não de o Planalto fazer jogo sujo que remete a mensalão, aloprados e manipulação da CPI. E também à estrela vermelha de dona Marisa no Alvorada, ao passeio da cadelinha em carro oficial, ao emprego da nora para não fazer nada no Sesi e ao contrato milionário do filho ― o Ronaldinho ― por baixo do pano.

A confusão entre público e privado corresponde às boquinhas e ao aparelhamento de Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil. Em nome de “uma causa” ― a dos poderosos e da elite de plantão. Os outros? Os outros são “contra os pobres”.

Se cabeças rolaram no Santander por avaliações de mercado, o que ocorrerá no Planalto por ações que nada têm a ver com o interesse público, o Estado e a nação?

(*) Eliane Cantenhêde, jornalista, é colunista da Folha de São Paulo

A cartilha

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 jun° 2014

Pelos anos 60, o mundo não funcionava como hoje. O planeta vivia na base do «nós ou eles» – quem não era de um campo era necessariamente do outro. O adversário era mais temido que odiado.

O espaço capitalista, capitaneado pelos EUA, apreciava ser visto como «mundo livre». Já os dirigentes do universo comunista, liderados pela União Soviética, encarnavam as «forças do progresso». Era claro exagero: nem os capitalistas eram assim tão livres, nem os comunistas sobressaíam pelo progresso civilizatório.

Espanha, Portugal, Brasil, Filipinas e outros integrantes do «mundo livre» eram contidos com mão de ferro por ditaduras ferozes. Albânia, Bulgária, Coreia do Norte, Romênia – dirigidos por «forças do progresso» – contavam entre os países mais atrasados.

«Plebiscito Popular»

«Plebiscito Popular»

Impiedosos, os anos 70, 80, 90 mudaram a face do mundo. O papa polonês, a queda do Império Soviético, o fim das ditaduras ibéricas e latino-americanas, o fracasso de Cuba, o banimento de tiranetes asiáticos, o fortalecimento da União Europeia se encarregaram de redistribuir as cartas e reequilibrar as forças.

A redemocratização do Brasil e a subida do poder aquisitivo condenaram ao baú dos arcaismos expressões como: ligas campesinas, comunismo revolucionário, agricultura de subsistência, luta de classes, esquerda socialista, solidariedade entre os povos.

Numa época como a atual, em que o hedonismo foi elevado à categoria de ideal supremo, antigas expressões de desprendimento e de solidariedade perderam-se num passado ingênuo e deliciosamente démodé.

Os participantes

Os participantes

Démodé? Pois há quem tente realumiar o mundo com fogo extinto. No Brasil, articula-se uma campanha – cujos iniciadores permanecem discretos – que preconiza a convocação de um «plebiscito constituinte», seja lá o que isso queira dizer. Uma cartilha, termo escapulido do baú, está à disposição dos interessados.

O opúsculo, nomeado Cartilha Plebiscito Popular, agride a boa linguagem logo de entrada, na chamativa capa policrômica. Ao qualificar o plebiscito como «popular», demonstra ignorar que, por definição, todo plebiscito é popular. A redundante expressão reaparece, despudorada, 39 vezes ao longo das 40 páginas da «cartilha». E pensar que uma rápida consulta ao dicionário teria evitado o vexame…

Num saboroso anacronismo, o folhetim exuma expressões e conceitos empoeirados. Voltam à cena as classes dominantes, os setores oprimidos, a maioria explorada, a democracia burguesa, os setores reacionários. Ressurge a imperiosa necessidade de estatizar empresas. É um verdadeiro mergulho num mundo que já foi, um libelo romântico em total assintonia com a realidade atual. A cartilha não logra demonstrar a relação de causa e efeito entre o nebuloso «plebiscito popular» e o atingimento do almejado padrão de excelência.

O movimento é prestigiado por 214 instituições entre as quais se contam indefectíveis uniões campesinas, movimentos místicos, grupos revolucionários, frentes pró-cotas, centros de solidariedade aos povos. Sem surpresa, o MST e o Partido Comunista apuseram sua chancela.

Um aderente, no entanto, destoa. Entre os apoiadores do movimento, está… o Partido dos Trabalhadores. Impávido, com todas as letras, bem-comportado, na ordem alfabética. Não fosse este um adjetivo pouco adequado às atribulações da agremiação, eu diria que o partido assinou o manifesto meio envergonhado.

A adesão do PT atropela o bom senso. Senão, vejamos: o desenho da página 11 da cartilha deixa claro que chegou a hora de cuidar da saúde, da educação, da moradia, da reforma agrária, do salário. Sabemos todos que o partido que ocupa o poder federal há 12 anos controla todos os patamares do governo da República. Executivo, Legislativo, estatais, agências reguladoras, nenhum degrau lhe escapa.

As reclamações

As reclamações

Se não impuseram, em quase três lustros de poder, as reformas que ora pleiteiam, difícil será acreditar que o venham a fazer na rabeira de um «plebiscito popular». Apesar dos ventos favoráveis e da confortável e submissa maioria congressual, reformas importantes nunca foram feitas, donde a persistência do descalabro na Educação, na Saúde Pública, na infraestrutura.

A sugestiva capa da cartilha é ilustrada por uma horda de manifestantes, municiados com bandeiras vermelhas, pressionando um Congresso de onde parlamentares fogem intimidados. É a tradução gráfica da substituição de representantes eleitos por bandos raivosos.

Ninguém discorda do fato de que nossos eleitos deixam a desejar – e muito! Mas será que escorraçá-los e substituí-los por hostes revolucionárias será a melhor solução?

Frase do dia — 142

«É surrealista. Na opinião dos arautos da CLT, temos a melhor legislação do universo. Como entender, então, o que se passa na Justiça do Trabalho?

Deixamos de ser atraentes a investimentos. Convertemo-nos em zona incerta e perigosa. Ou mudamos rapidamente de rumo ou estamos condenados a ser como Cuba e Venezuela: governo forte, economia em pedaços.»

Almir Pazzianotto Pinto, advogado e antigo presidente do Tribunal Superior do Trabalho in Estadão, 29 maio 2014.

Uns de menos, outros de mais

José Horta Manzano

Os brasileiros de boa vontade se comoveram com a triste sorte dos médicos cubanos arrolados no programa Mais Médicos ― aquele que visa a aumentar o número de profissionais sem lhes garantir o apoio de infraestrutura condizente.

Os infelizes caribenhos são tratados como raça à parte, tratamento que combina com o regime de apartheid, de divisão do povo em estratos, que nossas autoridades vêm tentando nos impingir. A distorção entre a remuneração dos médicos comuns e a dos cubanos é chocante. Enquanto os comuns recebem remuneração decente, os cubanos, encurralados em regime de pão e água, têm de resignar-se a sofrer confisco de 80% a 90% do salário.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Mas toda moeda tem duas faces. De um lado, estão os cubanos, desapossados, por seu próprio governo, do fruto de trabalho suado. No outro extremo, estão alguns espertinhos que descobriram caminho pouco ortodoxo para engordar seus ganhos. Explico.

A província argentina de Misiones, cuja capital é Posadas, faz fronteira com o Paraná e com Santa Catarina. O lado brasileiro é mais densamente povoado que a província vizinha. Uma vez anunciado, o Mais Médicos despertou interesse em bom número de profissionais argentinos. Muitos se apresentaram e estão hoje empregados no Brasil, onde recebem os 10 mil reais como todos os outros ― à exceção dos azarados cubanos.

Até aí, nada de excepcional. O caldo começa a engrossar agora. Maurice Closs, governador da Província de Misiones, acaba de vir a público denunciar uma fraude perpetrada por uma vintena de médicos argentinos.Mais médicos

São profissionais que, contratados pelo Brasil no bojo do Mais Médicos, encontraram um jeito original de continuar a receber salário de médico contratado pela Saúde Pública argentina. Conseguiram falso atestado médico e pediram a seu governo licença para tratamento de saúde. Conseguiram. Além do salário brasileiro, recebem, sem trabalhar, mais o equivalente a 5 mil reais.

Das duas dezenas de profissionais argentinos contratados pelo Brasil naquela região, dezesseis estão-se valendo do mesmo estratagema. Os problemas de saúde alegados são, em maioria, de ordem psíquica. A constatação de que, numa pequena província, tantos médicos estavam com problemas mentais despertou a curiosidade das autoridades. E a tramoia foi descoberta.

O ministro argentino da Saúde Pública, indignado com essa mostra de desonestidade e de falta de ética, promete tomar providências.

Contrato maleável

José Horta Manzano

Não é credível que o governo de nossa República, ao combinar com o regime cubano as modalidades de importação de pessoal da área médica, não estivesse a par das peculiaridades da remuneração dos profissionais.

Portanto, se assinaram o convênio e aceitaram suas condições, fizeram isso com conhecimento de causa. Estavam a par de que os missionários receberiam menos de 10% do total desembolsado pelo contribuinte brasileiro.

Quem assina, concorda. Que não venham agora alegar ignorância. Essa história de «eu não sabia» ficou como imagem de marca de personagem em acelerada via de decadência. Não cai bem requentar o símbolo.

Nossos mandachuvas têm o persistente e irritante costume de só trilhar o caminho certo quando pressionados a fazê-lo. São como criança pequena: exigem atenção 24 horas por dia. Bobeou, fazem besteira.

Foi preciso que uma certa Ramona ― admitida no «programa» na qualidade de médica ― botasse a boca no trombone, em atitude temerária. Não fez mais que gritar bem alto o que todo o mundo já sabia. Mas seu trombone soou forte, e ninguém mais pôde fazer de conta que o problema não existia.

Crédito: Nani (Ernani Diniz Lucas) Desenhista mineiro

by Nani (Ernani Diniz Lucas)
Desenhista mineiro

Ficou claro que o governo brasileiro patrocina trabalho escravo. Ficou escancarado que, apesar de se autoproclamar justo e igualitário, o governo popular faz vista grossa a gritantes desigualdades ― desde que seus interesses pecuniários sejam preservados.

Assim mesmo, medo pânico se infiltrou nos bastidores! E agora? Se «debandar geral», como é que fica? Por mais que o atual estilo de governar ande desmoralizado, ainda não tocou o fundo do poço. Continua presente a ameaça de descer mais fundo. Mais vale pôr um esparadrapo enquanto é tempo, antes que a sangria se torne inestancável.

Eis que, de repente, nosso bondoso governo prepara gestões junto aos bons velhinhos de Cuba para pedir-lhes que concedam um aumentozinho no holerite dos missionários. Pode ser coisa pouca, um cala-boca pra inglês ver. Sempre ajuda.

Lígia Formenti e Vera Rosa, do Estadão, nos dão conta do embaraço e da aflição que invadiram a alma de nossos dirigentes ao perceberem que a remuneração dos infelizes cubanos equivalia à décima parte do que recebem os profissionais, digamos assim, normais. Nosso governo, que não suporta injustiça na distribuição de benesses, indignou-se.

Até a abnegação missionária tem limites, que diabo!

PS:
Como diz o outro, se importaram médicos cubanos para melhorar a saúde, quero políticos suecos para acabar com a corrupção.

«Mais médicos» ― enfim a hora da verdade

Percival Puggina (*)

Médico

Médico

O pedido de asilo da cubana Ramona Matos Rodriguez, que desertou do programa «Mais médicos», quebrou os ponteiros do relógio do governo petista em relação à sua tramóia com a empresa Castro & Castro Cia Ltda, com sede e foro na cidade de Havana. Chegou a hora da verdade.

Impõe-se, portanto, que eu escreva este artigo. Durante meses, os defensores do indefensável, com a fria determinação dos mentirosos contumazes, tentaram negar os fatos. Tentaram transformar esse negócio escandaloso em inaudita solidariedade do povo cubano para com os países necessitados. Também para eles acabou o tempo da mentira.

Não se trata, aqui, de mostrar o quanto sei sobre a realidade daquela ilha caribenha, mas de mostrar há quanto tempo tais fatos são bem conhecidos. Por isso, transcrevo a seguir um trecho do meu livro Cuba ― A Tragédia da Utopia, publicado em 2004. É o relato de uma informação que recebi na Embaixada de Cuba quando a visitei em 2001 e ainda sequer cogitava escrever o referido livro (pag. 113).

Interligne vertical 12«Em 2001 fui visitar a embaixada brasileira em Havana. Ela se situa no excelente prédio da Lonja de Comércio (Bolsa de Valores), uma edificação do século XIX, recentemente restaurada. (…) Durante a entrevista (com o secretário da embaixada), entrou na sala uma moça de cor negra que lhe dirigiu algumas palavras em espanhol e se retirou deixando expedientes sobre a mesa.

Quando ficamos novamente sós, ele explicou que a moça era cubana, excelente funcionária, contratada pela embaixada junto a uma das duas agências oficiais através das quais o governo cubano loca mão-de-obra a organizações estrangeiras que funcionam no país. A embaixada fornecera uma descrição do perfil da pessoa que procurava, a agência estabelecera o valor da remuneração em 200 dólares mensais, enviara algumas moças para serem entrevistadas e aquela havia sido escolhida.

Dos 200 dólares com que a embaixada remunerava a agência, a moça recebia em pesos o equivalente a 20 dólares. O restante ficava para seu generoso patrão, o Estado cubano. Diante dessa dura realidade a representação brasileira, incluíra a funcionária em sua folha de pagamentos e lhe repassava, por fora, 500 dólares mensais. É o que a maior parte das representações estrangeiras e empresas de fora fazem como forma de motivar seu pessoal.

Não é diferente o que acontece em relação aos muitos convênios que o governo cubano estimula que sejam firmados com países latino-americanos para fornecimento de pessoal médico, especialmente na área de medicina comunitária. Cuba não sabe o que fazer com os médicos que tem (um médico para cada cento e poucos habitantes!) e os médicos não sabem o que fazer com o que sabem. Acabam nas portas dos hotéis, oferecendo serviços como guias turísticos.

Através desses convênios e do mecanismo de apropriação do salário de seu pessoal nos tenebrosos níveis acima descritos, o governo consegue captar dólares no exterior. E ainda faz o seu «comercial» como um país solidário que presta importante ajuda à saúde pública das comunidades carentes do planeta.»

Há 13 anos, portanto, Cuba já adotava esse procedimento. De um lado, anuncia ao bom e generoso povo cubano que está prestando ajuda humanitária. De outro, apropria-se da renda produzida pelos recursos humanos que aloca, numa proporção jamais sonhada pelo mais porco dos «porcos capitalistas” dos quais tanto mal dizem. Pior ainda: nos tempos do patrocínio soviético, a paga cubana em recursos humanos consistia em enviar jovens para as guerrilhas comunistas nos conflitos da África subsaariana. Sangue cubano por rublos e petróleo, em nome da «unidade dos povos».

A bolsa...

A bolsa…

Agiu certíssimo a doutora Ramona. Quero ver a retirarem do gabinete da liderança do DEM. Pago para ver! Ronaldo Caiado é osso duro de roer. Quero ver, também, quem terá coragem de desmentir as informações que ela presta sobre o sinuoso percurso dos valores que o governo brasileiro paga, per capita, a Raúl Castro. E quero ver, por fim, o que dirá a Opas, a altissonante Organização Pan-americana de Saúde, intermediária oficial dessa operação, sobre o contrato dos médicos cubanos com a tal Sociedade Mercantil Cubana Comercializadora de Serviços Médicos Cubanos SA que a contratou.

Outra coisa que ninguém conta, mas sobre a qual tenho informação de cocheira: faltam médicos em Cuba. Os negócios dessa empresa locadora de médicos(!) esvaziaram os serviços locais, que estão sendo prestados por estudantes latino-americanos de medicina. Repito: quebraram-se os ponteiros desse negócio. O que ainda existe de moralmente sadio na sociedade brasileira não pode conviver passivamente com um declarado e certificado regime de escravidão em território nacional. Com a palavra a Ministra Maria do Rosário.

Ou os cubanos não são humanos?

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Cala a boca

José Horta Manzano

Ramona Rodríguez Crédito: José Cruz, ABr

Ramona Rodríguez
Crédito: José Cruz, ABr

Sonia Racy nos dá notícia, por seu blogue alojado no Estadão, das últimas peripécias da señora Rodríguez. Falo de dona Ramona, aquela sui-generis missionária cubana que, algum tempo depois de chegar ao Brasil no bojo da importação de pessoal médico de Cuba, renegou o trato e postulou asilo nos EUA.

O escândalo que se esboçava era grande demais. Não era caso pra ficar sentado esperando o que ia acontecer. Nossos governantes ― respeitados mestres na arte de amansar adversários, oponentes e inimigos ― agiram rápido. Deram-se conta de que um providencial emprego se encontrava justamente vago, na administração da Associação Médica Brasileira. Ora, veja você que feliz coincidência!

O posto foi imediatamente proposto a señora Rodríguez O salário? Pode ser que um dia o distinto público fique sabendo. O que não saberemos nunca é o valor que esse cala-boca terá custado ao bolso do contribuinte brasileiro. Não é com qualquer dez merréis que se faz alguém desistir de um asilo nos EUA.

O teste

José Horta Manzano

Os milhares de médicos importados de Cuba são, evidentemente, seres humanos como todos nós. Têm qualidades, defeitos, riem, choram, comem, dormem, exatamente como o resto da humanidade. Não são autômatos.

Para alcançar a graça de ser enviado ao estrangeiro por um período, o profissional cubano tem de dar a seu governo escravocrata alguma garantia de que vai cumprir a «missão» abnegadamente e, principalmente, de que vai voltar à miserável ilha. Em resumo, o missionário pode partir desde que um cordão umbilical o mantenha atado à terra de origem.

O espírito caritativo dos Castros é enorme, mas tem seus limites. Os bondosos irmãos estão de acordo em arrendar a países estrangeiros o serviço de seus cidadãos. Contudo, entregar seus profissionais assim, de mão beijada, ah, isso não!

Solidariedade mercantil à cubana é mais mercantil que solidária. Funciona assim: eu te empresto contra remuneração. De graça, não te dou nada. E não te esqueças de minha (polpuda) comissão.

Solidaridad... pero no mucho

Solidaridad… pero no mucho

Até que demorou, mas era inevitável: a primeira defecção acaba de acontecer. Trata-se de uma corajosa profissional despachada para exercer seu ofício no interior do Pará. Não há de ser uma adolescente descabeçada: exerce a medicina há 27 anos. Apesar de ter deixado uma filha na ilha-prisão, deu o passo arrojado: escapuliu de seu cativeiro amazônico e buscou refúgio em Brasília, junto a um dos (raros) partidos de oposição.

Pode até parecer estranho. Em princípio, pedidos de asilo costumam ser apresentados a autoridades alfandegárias ou policiais. Nossa valente profissional, que já deve ter-se dado conta de como as coisas funcionam no País, achou melhor evitar esse caminho. É possível que tenha tido notícia do caso dos esportistas desertores que foram despachados de volta a Cuba em 2007. Melhor evitar esse risco.

Fez bem a doutora. Cuba é um dos 58 membros fundadores da Organização das Nações Unidas. Em 1948, a ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, válida para todos os seus membros. O Parágrafo 2 do Artigo 13 do documento reza: «Toda pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar a seu país». Mais claro, impossível.

Essa primeira deserção ocorre num momento delicado e tem valor de teste. O momento é sensível porque, pouco a pouco, os olhos do planeta começam a se voltar para o Brasil por causa da copa que vem aí. O tratamento que for dado a esse primeiro pedido de asilo vai ter eco planetário.

Demorou, mas chegou a hora do vamos ver.

Eureca!

Dad Squarisi (*)

Desvendado o mistério. Agora sabemos por que a comitiva de Dilma mudou a rota. O plano era abastecer o avião nos States. Depois, seguir pra Cuba. Sem mais nem menos, o aerodilma pousou em Lisboa. A turma desembarcou na capital portuguesa e sonhou sonhos camonianos. O que aconteceu?

Havana & Lisboa

Havana & Lisboa

O Planalto tentou desconversar. Disse que a decisão fora de última hora. Não foi. Reservas haviam sido feitas bem antes. E daí? Pergunta daqui, investiga dali, eureca! O problema foi linguístico. A moçada tropeçou na concordância. Dizia “o Estados Unidos”, “no Estados Unidos”, “do Estados Unidos”. As autoridades americanas não gostaram. Exigiram correção. Orgulhosa, Dilma disse não. Bateu asas e voou. (…)

Para continuar a leitura (mais 131 palavras), clique aqui.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura.

Frase do dia — 95

«Trata-se de uma inversão na prática da mendicância: é a primeira vez na História que quem dá a esmola agradece ao mendigo. Ao anunciar mais 2 mil [médicos] contratados em tais condições, a vendedora de peixe na Suíça comporta-se como receptadora de escravos no Caribe 125 anos após a Abolição.»

José Nêumanne Pinto, jornalista e escritor, referindo-se à visita que nossa presidente fez a Cuba para agradecer aos ditadores o envio de médicos. In Estadão, 29 jan° 2014. O texto integral está aqui: Da banca de peixes ao mercado de escravos.

Frase do dia — 92

«O Brasil já é o segundo maior exportador para Cuba, excluindo-se o petróleo venezuelano: China (42%), Brasil (16%) e Canadá (15%). Os principais produtos vendidos ao país são óleo de soja, milho, frango, arroz, carne e café.»

Patricia Campos Mello, enviada especial a Havana pela Folha de São Paulo.

Está aí a confirmação de que o Brasil voltou a ser exclusivamente exportador de matéria-prima. Nem a pobre e desindustrializada Cuba se interessa por nossos produtos industriais. A China — nosso “parceiro estratégico”(!) — nos deu um chega pra lá e tomou nosso lugar.

Dona Dilma foi a Cuba

José Horta Manzano

Depois de visitar a rica Suíça, dona Dilma dá mais uma prova de sua largueza de espírito. Antes de regressar ao Brasil remediado, passeia sua simpatia pela miserável ilha dos Castros. Vai inaugurar um porto marítimo.

A modernização do Puerto de Mariel, principal porta de escoamento da produção de Cuba, está sendo levada a cabo por uma grande empresa brasileira de construção pesada.

Do custo total de um bilhão de dólares(!), mais de 70% estão sendo financiados pelo BNDES, o brasileiro Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

Ao bancar essa obra de infraestrutura, a estratégia confessada do governo brasileiro é dotar Cuba de uma moderna porta de saída marítima de maneira a permitir que indústrias brasileiras se instalem na ilha e explorem o baixo custo da mão de obra local.

Enxergo, nesse empreendimento, três contradições e uma ilusão. Vamos por partes.

Dilma Rousseff & Raúl Castro Crédito: Reuters

Dilma Rousseff & Raúl Castro
Crédito: Reuters

Primeira contradição
O banco de fomento criado pelo governo brasileiro em 1952 nasceu como BNDE. Nos anos 70, suas atividades passaram a se preocupar com o social. E o S foi acrescentado.

Para um banco cujo objetivo declarado é promover o desenvolvimento econômico e social, financiar o «aproveitamento» de mão de obra semiescrava de infelizes cubanos é, no mínimo, vergonhoso. E contraditório.

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Segunda contradição
O BNDES é sustentado com nossos impostos. Espera-se que essa sacola comum reverta em benefício de nosso povo. Financiamento de projetos em solo estrangeiro são admissíveis desde que provoquem exportação de produtos brasileiros. Não é o caso do custeio do porto cubano. Não há, em princípio, exportação de produtos nossos. A mão de obra é local. O principal beneficiário — se não o único — é o empresário financiado com nosso pecúlio. É contraditório.

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Terceira contradição
É curioso financiar a contratação de mão de obra estrangeira para trabalhar fora do território nacional. E o trabalhador brasileiro como é que fica? Sem trabalho? Pendurado numa bolsa qualquer? Melhor seria utilizar esse bilhão de dólares para financiar nossa própria infraestrutura, que anda bem necessitada. Consertar o dos outros e deixar o nosso ao deus-dará é contraditório.

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A ilusão
Enganam-se aqueles que imaginam que o regime ditatorial cubano vai durar pela eternidade. Mais dia, menos dia, cai. Se a União Soviética desapareceu um dia, não é a ilha dos Castros que vai permanecer para mostrar ao mundo o caminho de um futuro radioso. Aí vai chegar a hora do vamos ver.

O povo cubano não há de guardar gratidão eterna àqueles que tiverem sustentado sua interminável ditadura. É mais que provável que Venezuela e Brasil não sejam idolatrados por aquelas bandas. Por outro lado, Cuba tem ligação visceral com seu vizinho de parede, os EUA. No dia em que a ditadura se for, vão-se jogar nos braços do grande irmão do Norte. Pode apostar.

Imaginar que o Brasil venha a ser benquisto por ter contribuído a manter em vida a dinastia dos revolucionários é tolice. Uma doce ilusão.

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E pensar que tudo isso está sendo feito com nosso dinheiro. Que desperdício!

Frase do dia — 78

«Os números são claros como as águas do Mar do Caribe: dos 13 mil profissionais que o programa Mais Médicos pretende mobilizar até março, mais de 10 mil serão cubanos. Com isso, não resta mais nenhuma dúvida de que a anunciada intenção de atrair médicos de outras nacionalidades ou mesmo brasileiros não passou de fachada para um projeto há muito tempo acalentado pelo governo petista: importar médicos cubanos em grande escala, ajudando a financiar a ditadura cubana.»

Programa “mais cubanos”, editorial do Estadão de 11 jan° 2014. Para ler o texto integral, clique aqui.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Comentário meu

Com ou sem ajuda do dinheiro suado dos brasileiros, a ditadura cubana há-de cair de podre, mais dia, menos dia. O intuito maior dessa chamada maciça de imigrantes é espalhar cabos eleitorais pelos cantos mais recuados do território nacional, numa tentativa de conservar o poder.

Enquanto a galeria se entusiasma com discussões estéreis sobre financiamento de propaganda eleitoral, aí está o exemplo acabado de que o custeio já está sendo feito com dinheiro público. É isso aí, camaradas!

Cotas raciais no comércio exterior

Percival Puggina (*)

Se existe uma parte do planeta onde bate com mais vigor o generoso coração de Lula e Dilma, esse lugar é a África Negra. Imagino ser por isso que existam cotas raciais para o comércio exterior brasileiro. Volta e meia – às vezes nem meia volta se completa – e lá estão nossos presidentes petistas na África Subsaariana, cada um a seu turno, perdoando dívidas milionárias que aqueles países têm para com o Brasil. A conta já passa de US$ 2 bilhões. Não por acaso são, em parte, débitos de governos ditatoriais, sanguinários, genocidas, que lidam com as finanças locais em regime de partilha. Vai um pouco para o interesse público e o restante para contas familiares em bancos estrangeiros.

Um deles, o senhor Omar al-Bashir, já leva 24 anos no cargo de presidente do Sudão. Tem dois mandados internacionais de prisão e, segundo um promotor do Tribunal Penal Internacional, acumula US$ 9 bilhões de recursos próprios em paraísos fiscais. Outro, o senhor Teodoro Obiang, que comanda a Guiné-Equatorial, adquiriu em 2010 um apartamento na Av. Vieira Souto, no Rio de Janeiro, naquela que foi até então a maior transação da história da cidade envolvendo um imóvel residencial. O pequeno refúgio carioca do ditador é um tríplex com 2 mil metros quadrados. O patrimônio pessoal do bilionário ditador do Congo-Brazaville, Denis Sassou Nguesco, proprietário de algumas dezenas de imóveis na França é superior à dívida do país perdoada pelo Brasil (US$ 352 milhões). E por aí vai. Em maio deste ano, numa única tacada, a presidente Dilma anunciou perdões, abatimentos e novos parcelamentos para dívidas de uma dúzia redonda de nações africanas.

Brasil e África Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Brasil e África
Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Alega o governo que esse procedimento está alinhado com as orientações do Clube de Paris, que o recomendam como forma de estimular a contratação de novos financiamentos e promover o desenvolvimento daqueles povos. Faria sentido se não estivéssemos tratando, em alguns casos, de povos cuja miséria aumenta na proporção direta em que a elite governante amplia sua riqueza pessoal. Faria sentido se não houvesse, na lista de beneficiados, governos ditatoriais que só perdem em longevidade e truculência para a dinastia cubana dos Castro Ruz.

É uma pena que a benevolência dos governos petistas em relação aos seus cotistas raciais no comércio exterior não encontre simetria de tratamento com as dívidas dos produtores rurais brasileiros quando suas lavouras são assoladas por estiagens e secas.

É uma pena que essa mesma prontidão não apareça na hora de atender os brasileiros vítimas de cheias, cujos bens são arrastados pelas águas.

É uma pena, também, que não se respeite o preceito bíblico de que a mão esquerda não saiba o que a esquerda faz em favor do próximo. De fato, enquanto a generosidade nacional é proporcionada pela dadivosa mão direita, a esquerda encaminha novos recursos para obras de empreiteiras brasileiras nesses países. Quem garante que a virtude da probidade e a adimplência tenham desabrochado em meio aos maus pagadores e prevaricadores de ontem? Continuaremos financiando empreiteiras e cancelando os débitos?

E é uma pena, por fim, que, junto com a bonomia das cotas raciais de nosso comércio exterior, não venha junto uma transparência maior sobre as comissões pagas pelos novos negócios que estão sendo contratados lá com as empreiteiras daqui. Tenho um palpite, mero palpite, de que iríamos encontrar, beneficiado por tais valores, um conhecido lobista que mantém relação de intimidade paternal com as decisões de governo.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Bye, bye, Paraguai

Fernão Lara Mesquita (*)

Outro dia foi a China que anunciou que está saindo de onde o PT quer entrar. Na semana passada, quem diria, quem passou por nós na contramão e dando adeus às Venezuelas e às Cubas dos sonhos do PT foi o Paraguai que, na quinta-feira 28, acabou com a imunidade parlamentar dos seus senadores ― ou melhor, com aquela parcela dela que é abusiva e antidemocrática ― depois de duas semanas de rebelião aberta contra a decisão anterior, do dia 14, quando 23 dos colegas do senador punido votaram a favor da sua permanência impune no Senado.

Victor Bogado, do Partido Colorado, tinha a babá de seus filhos ganhando dois salários ― um pela Câmara dos Deputados e outro pela Itaipu Binacional ― e foi um dos primeiros a ter seus podres publicados no novo site da internet criado pelo presidente Horácio Cartes, do seu próprio partido, para prestar contas sobre gastos públicos e dar transparência ao que se passa dentro do governo.

Pouco depois da votação espúria, um dos parlamentares que votou pela impunidade do senador alegando a imunidade parlamentar entrou numa pizzaria para jantar. Foi o estopim. Ele foi expulso sob vaias e palavrões e, por pouco, não foi agredido pelo público.

Daí por diante foi como uma epidemia. Restaurantes, bares, comércios, shopping centers e até estádios de futebol e hospitais (estes abrindo exceções só para emergências) começaram a pôr cartazes na porta anunciando «não atendemos ratos neste estabelecimento». A única exceção foi uma funerária que pôs anúncios nos jornais dizendo que receberia qualquer um dos traidores «com todo o prazer».

O povo montou uma vigília na frente do Congresso e um site foi aberto na internet com fotos dos 23 traíras e acompanhamento diário dos seus passos. Em duas semanas nova votação foi convocada, a imunidade do senador caiu e ele foi cassado.

Nesse meio tempo, Genoino ia para casa e José Dirceu passava a ganhar 20 mil reais por mês para conspirar contra a democracia brasileira do jeito a que já está acostumado, enquanto todos os partidos de algum peso fechavam as portas para a admissão de Joaquim Barbosa como candidato em 2014.

O Paraguai esteve 35 anos sob a ditadura de Alfredo Stroessner, 14 anos a mais que os nossos ditos «anos de chumbo». O país nunca experimentou nada que lembrasse remotamente uma democracia digna desse nome. E, no entanto, taí respirando ar fresco graças às novas condições de circulação da informação e à articulação da resistência civil.

E o Brasil?
Algo de muito semelhante ocorreu aqui no mês de junho deste ano. Mesmo com todo o marasmo em que vive a nossa política, bastou que alguém agitasse uma bandeira ― no caso o STF com as condenações do Mensalão ― e o povo se levantou com força suficiente para pôr o «Sistema» em pânico.

Mas nenhuma força organizada deu sequência ao movimento, o que ensejou que os profissionais do golpe armassem a sequência de quebra-quebras que tirou a gente séria das ruas.

Se tivesse havido uma única voz disposta a puxar a fila, ela teria seguido andando. Mas você pode virar e revirar os nossos 32 partidos «de esquerda», inclusive os «de oposição» e seus milhares de candidatos; pode ver e rever o horário eleitoral e não encontrará rigorosamente nada que escape daquela tapeação vergonhosa que conhecemos, ofensiva à nossa inteligência, de tão rasa e explícita.

Pior: você pode revirar todos os jornais, ouvir todas as rádios, ver todos os programas jornalísticos da TV, e nada que não seja esses mesmos candidatos e o que uns estão dizendo sobre os outros lhe será apresentado. Haverá até quem afirme gostar e quem afirme não gostar deste ou daquele. Mas sugestão nova, propostas, reportagens sobre modos diferentes de gerir a coisa pública ou informações sobre como os outros que dão certo estão fazendo, zero! Mesmo os acontecimentos do Paraguai tiveram uma cobertura menor que um reles desastre de trem em Nova York.

Não há exemplo histórico de processos como o brasileiro que tenham sido revertidos senão por dois tipos de expediente: uma iniciativa forte do Poder Judiciário ou a articulação de propostas novas e de campanhas, protagonizadas pela imprensa, para levá-las a efeito. Ou então essas duas coisas junto.

O voto distrital com recall foi uma das propostas que nasceram assim e têm currículo mais brilhante no rol das revoluções pacíficas da humanidade. Tem mudado mundos e fundos nos dois últimos séculos e está aí esperando quem a leve adiante para mudar o Brasil.

Mas, até agora, a única figura institucionalmente forte que vi pregar esse remédio no Brasil foi ― adivinhe! ― o ministro Joaquim Barbosa. Aquele que, pela primeira vez em nossa história, pôs essa bandidagem da porta da prisão para dentro, ainda que tenha sido impedido de trancá-la.

Aécio Neves, esse alegre candidato «de oposição» em busca de um discurso, é um que, se adotasse esta proposta, correria o sério risco de ter, pela primeira vez na vida, alguma coisa a dizer que valesse a pena ser ouvida.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/