Bolsonaro
Tuíte – 9
José Horta Manzano
Sergio Moro acaba de dar demissão ao vivo. Durante os 16 meses em que esteve à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública, engoliu cobras, lagartos, sapos e pernilongos. Foi humilhado dezenas de vezes pelo capitão. Dizia-se à boca pequena que ele estava apequenado, que se agarrava ao emprego.
De repente, caiu a gota d’água, aquela que fez transbordar o pote até aqui de mágoa. Entornou tudo, até a última gota. O ex-magistrado disse, com todas as letras, que saía porque doutor Bolsonaro não havia cumprido a palavra dada.
Pegou mal pra caramba, talquei? Que o doutor fosse homem em quem não se deve confiar, todos já sabiam. Mas ele nunca havia sido malhado dessa maneira, em praça pública, em rede nacional, por personagem tão admirado pela população.
Agora todos ficaram sabendo por que o doutor quis trocar o chefe da PF: a fim de proteger a si e aos filhos de perigosa proximidade com a Justiça, prefere dar o cargo a um amigo.
Mas a hora do acerto de contas vai chegar um dia. E esse dia pode estar mais próximo do que imagina o capitão. Quem tem rabo preso, não adianta fugir – tudo acaba aparecendo.
Apertem os cintos
Eduardo Affonso (*)
– Torre de comando, aqui é o capitão.
– Torre de comando na escuta, capitão. Prossiga.
– Quero trocar o engenheiro de voo, talquei?
– Durante o voo, capitão?
– Agora mesmo.
– Mas capitão…
– Eu sou o capitão, não sou? Quero colocar no lugar dele, hmmm, deixa eu ver, o comissário Éverton.
– O comissário Éverton tem conhecimentos para ser o engenheiro de voo?
– Ele trabalha no avião, porra. Conhece o avião. Já andou de avião. Quero o comissário Émerson como engenheiro de voo e pronto. O engenheiro antigo está demitido.
– Capitão, o senhor falou comissário Éverton ou comissário Émerson?
– Sei lá, porra. Um comissário aí.
– Está bem, capitão. O senhor está no comando, há de saber o que é melhor para a condução da aeronave até o seu destino.
– Eu andei pensando em mudar também o destino disso daí.
– O senhor quer mudar o plano de voo em pleno voo, capitão?
– Se os passageiros quiserem… E eu sei que os passageiros não estão satisfeitos de ser obrigados a viajar com o cinto afivelado, mesinha travada, não poder fumar… Tem muita gente insatisfeita com isso daí.
– Capitão, esses são procedimentos normais. É para a segurança dos passageiros e da tripulação.
– Falando em tripulação, eu não quero mais aquela aeromoça como chefe de cabine. Minha sobrinha, que está na poltrona 7F, é a nova chefe de cabine.
– Capitão, sua sobrinha trabalha na empresa? Tem os cursos?
– Contrata agora, porra. Contrato temporário. É que eu preciso de alguém de confiança na cabine enquanto eu vou lá fora trocar as turbinas.
– O senhor vai… trocar as turbinas?
– Vou. Elas estão me incomodando ali na asa. Não gosto de turbina zumbindo no meu ouvido.
– O senhor não prefere pousar primeiro para depois trocar as turbinas?
– Não. E quero as turbinas ali na parte de baixo. Naquele lugar ali, como é que chama? Aquele com pneu. Trem de pouso. Isso, quero as turbinas no lugar do trem de pouso.
– Capitão, vai ser difícil pousar sem os trens de pouso. Troque apenas a aeromoça e…
– Droga, tem uma luzinha vermelha acendendo aqui no painel. Ô da torre, como é que eu apago essa luzinha?
(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.
Frase do dia — 453
Frase do dia — 452
Frase do dia — 451
O elixir que salva?
José Horta Manzano
O presidente de Madagascar convocou ministros, embaixadores e jornalistas para assistirem a anúncio importante. Subiu ao palco, tomou o microfone e informou que tinha sido encontrado remédio local contra a covid-19, elaborado com plantas da ilha.
Com a garrafa na mão, acrescentou, entre dois goles tirados direto do gargalo, que o elixir faz efeito em 7 dias. A bebida já tem até nome: chama-se Covid-Organics, marca afinada com o zeitgeist (= espírito do tempo). Andry Rajoelina – esse é o nome do presidente – disse ainda que o remédio já tinha sido testado e aprovado por cientistas locais.
Ficou no ar um certo desconforto. Jornalistas, que queriam ter acesso ao detalhe dos testes clínicos, voltaram de mãos abanando e consideraram que tudo aquilo estava opaco demais. Embaixadores, que examinam o mundo com a régua de medir vantagens para o próprio país, saíram desconfiados de que não passava de marketing barato; de fato, se o planeta passar a se interessar pela bebida, o crescimento das exportações malgaxes será exponencial. A OMS, por seu lado, pôs o “remédio” entre aspas e advertiu que sua eficácia está longe de ser comprovada.
Ocupado em combater inimigos imaginários, doutor Bolsonaro deve ter perdido a informação. Ainda bem, senão haveria o risco de ele também se tornar garoto-propaganda do elixir que salva.
Se ditadura vier
José Horta Manzano
A hierarquização de funções é forte característica das Forças Armadas. E todo militar respeita a hierarquia. Quanto mais elevado estiver colocado na escala hierárquica, mais o fardado será sensível a qualquer quebra do respeito que o menos graduado deve aos que têm mais galões.
Na lógica militar, o inferior tem de respeitar o superior. Eis por que, na hora H, negaram apoio ao ministro Mandetta: entenderam que, ao afrontar o presidente, ele havia faltado com o respeito ao superior, ferindo assim os valores da hierarquia. Que o chefe esteja certo ou errado, pouco importa – o inferior tem de seguir as diretivas; se não estiver contente, que se vá.
A cada dia fica mais evidente que doutor Bolsonaro sonha em se apoiar nos militares para implantar uma ditadura da qual seria ele, naturalmente, o chefe maior. É urgente explicar a ele que, se os generais o respeitam hoje, não é pelo grau militar, mas porque foi eleito democraticamente, direitinho como manda a lei. Como presidente, é ele o chefe das Forças Armadas. Se, por hipótese, uma ditadura fosse implantada, a ordem democrática deixaria de valer e as cartas seriam redistribuídas.
No exato momento em que essa eventualidade tenebrosa ocorresse, Bolsonaro perderia a condição de eleito e retrogradaria à patente que tinha ao deixar o Exército. Aferrados à hierarquia, generais de quatro estrelas dificilmente se deixariam dirigir por um capitão da reserva que terá perdido o respaldo do voto popular. Portanto, se ditadura houvesse, seria sem o doutor.
Para azar nosso, o déficit de inteligência que acomete o capitão não lhe permite entender essa lógica. Vai daí, o homem continua clamando pela ditadura. Coisa de louco.
Pra ejectar o doutor
José Horta Manzano
Até casos que parecem incongruentes acabam clareando, veja só. Um deles está aqui.
Por um lado, pedidos de impeachment do presidente se empilham na lista de espera da Câmara dos Deputados. Por outro, doutor Bolsonaro continua atacando diariamente Rodrigo Maia, o presidente daquela Casa. Sabendo que cabe justamente a Rodrigo Maia decidir se põe ou não põe em pauta um pedido de impeachment, a primeira impressão é de que Bolsonaro pirou de vez. Afrontar aquele que lhe pode cortar o pescoço? Coisa de louco.
Ontem Bolsonaro se deixou filmar quando assistia a uma fala de Roberto Jefferson (lembra dele?), na qual o deputado cassado delata Rodrigo Maia, que estaria armando complô para chegar ao impeachment do presidente. Cheguei à conclusão de que a farsa estava grosseira demais pra ser verdadeira. Louco, ainda vá, mas louco a esse ponto… não é possível. Alguma coisa está errada.
Acho que encontrei a chave do mistério. Explico. Doutor Bolsonaro, que mamou nas tetas da Câmara durante 28 anos e tem certo conhecimento do funcionamento da Casa, percebeu que não há clima para impeachment neste momento. Coronavírus, confinamento, PIB desabando e aumento do desemprego impedem que um processo de destituição do presidente da República prospere. Bolsonaro sabe também que, se um processo de impeachment não tiver sucesso, ele sairá fortalecido e vacinado até o fim do mandato.
Portanto, paradoxalmente, o que interessa ao presidente é conseguir que Rodrigo Maia inicie imediatamente um processo de destituição – que certamente vai dar chabu. Pra conseguir isso, decidiu dar pedradas e flechadas diárias a fim de irritar o presidente da Câmara. Só isso explica o que o comportamento alucinante do doutor. (Se não for isso, só chamando o pessoal do hospício; e que venham com camisa de força.)
Resta torcer pra que Maia não caia na cilada. Que espere o momento favorável pra ejectar o doutor.
Tuíte – 7
José Horta Manzano
No fundo, no fundo, governantes não estão ligando a mínima para a saúde do povo. O que querem é evitar todo escândalo que os possa impedir de permanecer no poder. Para atingir o objetivo, caminham sempre na corda bamba: pra escapar de um escândalo, não é aceitável provocar outro.
Se dirigentes do mundo inteiro – com exceção de 3 ou 4 renitentes – estão submetendo a população a algum tipo de confinamento, não é tanto que estejam atristados com a perspectiva de perder certo número de conterrâneos. O que apavora é o colapso do sistema hospitalar.
O confinamento, que seja mais rigoroso ou menos, está aí justamente pra evitar esse afluxo excessivo. No dia em que cidadãos doentes baterem à porta de hospitais lotados, sobrecarregados e incapazes de atendê-los, estará instalado escândalo tonitruante.
Governadores e prefeitos ajuizados entenderam o perigo e fizeram como estão fazendo praticamente todos os países: aderiram às diretivas da OMS e editaram regras de distanciação social e de confinamento.
Ao insistir na negação da realidade e do bom senso, doutor Bolsonaro dá mais uma prova de seu déficit de inteligência. Se sua doutrina desvairada fosse seguida, o circuito brasileiro de saúde pública sofreria rápido aumento de pacientes e o colapso seria líquido e certo. O escândalo seria instantâneo. No fundo, ele está sendo salvo pela diligência de governadores e prefeitos ajuizados.
Tuíte – 6
José Horta Manzano
Doutor Bolsonaro continua a dar provas de persistente déficit de inteligência. Não falha um dia. Acaba de acusar o presidente da Câmara de conspiração. Culpa doutor Maia de desempenhar mal suas funções e também de tramar a deposição do presidente da República. Bolsonaro esquece que é justamente o presidente da Câmara que tem a prerrogativa de decidir se dá ou não sequência a um processo de impeachment. O mandato de Maia vai até janeiro de 2021, e numerosos pedidos de impeachment já se empilham na caixa de entrada.
Tuíte – 3
José Horta Manzano
A Constituição Brasileira reza, no Artigo 84, Inciso I: “Compete privativamente ao Presidente da República nomear e exonerar os Ministros de Estado”. A novela do vai-não-vai e do fica-não-fica, estrelada pelo presidente e pelo ministro da Saúde Pública, segue enredo absurdo. Ministro é escolha pessoal do presidente. Assim como pôde nomear, deve poder demitir a qualquer momento. Ao não demitir Mandetta, doutor Bolsonaro mostra ser presidente fraco, hesitante, pusilânime, dependente da aprovação de terceiros. Um homem assim pode até ser bom executante, mas não serve pra chefiar o Executivo.
Tuíte – 2
José Horta Manzano
Ruy Castro, escritor e jornalista, é da mesma opinião que este blogueiro quanto à relação entre doutor Bolsonaro e a covid-19. Em três ocasiões (25/3, 31/3 e 13/4) escrevi artigos sugerindo que o presidente teria sido contagiado na viagem que fez à granja de Trump. Voltou, tossiu, sentiu falta de ar, tomou cloroquina, os sintomas passaram. E o moço atribui a cura milagrosa ao remédio. O artigo de Ruy Castro está aqui (para assinantes da Folha). O último dos que escrevi está aqui (é boca-livre, não precisa ser assinante).
Frase do dia — 450
Cloroquina
José Horta Manzano
Algo fora de série está acontecendo. Um fármaco do qual ninguém tinha ouvido falar até um mês atrás caiu na boca do povo. Seu uso está no centro das discussões. Cresce o bate-boca entre a ala dos ferventes admiradores e a dos acalorados oponentes. Tanto os bem informados quanto os que se empapam unicamente em redes sociais, todos têm uma opinião sobre o sulfato de hidroxicloroquina, cloroquina para os amigos. Só que tudo o que se tem dito sobre o uso de cloroquina em pacientes com covid-19 é, por enquanto, puro achismo, que não combina com ciência.
Esse remédio vem sendo receitado há mais de meio século em infectologia e reumatologia. Trata, entre outras afecções, doenças reumáticas, lupus eritematoso e certos tipos de malária. A cloroquina arrasta uma lista robusta de contraindicações; também tem alto risco de interação danosa com outros fármacos. É aquele tipo de remédio que o médico receita como derradeiro recurso, quando o paciente não respode a outras moléculas.
Docteur Raoult, médico que exerce no sul da França, confessa ter administrado cloroquina a todos os seus pacientes com covid-19. Assegura que noventa e tantos porcento deles se curaram. Isso tem criado polêmica e dado muito que falar na França. Profissionais que acompanharam o experimento revelam que a maioria dos pacientes tratados por docteur Raoult estava fora de todo grupo de risco: eram jovens e sem doença crônica; portanto, era gente que se teria curado de qualquer maneira, com ou sem cloroquina. Além disso, a amostragem é pequena demais. Fica a dúvida.
Os hospitais suíços estão administrando esse fármaco a 50% dos internados com covid-19. Ainda é cedo, mas dentro de algumas semanas já deveremos ter o resultado de um teste que não ousa dizer seu nome. A cloroquina vem sendo sistematicamente receitada em associação com um ou mais remédios.
Este blogueiro, que não é médico nem pesquisador, se abstém de aderir ao bloco dos admiradores ou ao dos oponentes. Que os pesquisadores pesquisem e que os médicos receitem. Metade da população mundial está, em maior ou menor grau, confinada. Metade da humanidade! Pois deixe estar. Médicos, hospitais, institutos de pesquisa, laboratórios do mundo inteiro estão buscando a cura da covid-19. Cada um deles gostaria de alcançar a glória de poder declarar: «Encontramos o remédio que cura!».
Que o distinto leitor não se preocupe. Assim que descobrirem o remédio milagroso, seremos informados na hora. O que fica esquisito, de verdade, é o presidente de um país, que não é médico nem nada, vestir-se de garoto propaganda de um fármaco cuja eficácia para a covid-19 ainda está em estudo. Tirando a militância digital, que engole tudo sem refletir e faz tudo que Seu Mestre mandar, os demais brasileiros se perguntam: «Mas por que, raios, ele insiste tanto com isso?».
Resposta clara, não há. Há uma suposição: a de que ele tenha sentido sintomas da doença e feito um teste; assim que soube que tinha dado positivo, tomou esse fármaco; os sintomas desapareceram, e ele atribui o milagre ao remédio. Essa hipótese explica por que o homem dá uma de valentão e se expõe tanto. Explica também por que o general Heleno abandonou a quarentena. Sabem de uma coisa? Com tanto tagarela que há no governo, qualquer hora a verdade aparece.
Frase do dia — 449
Frase do dia — 448
Timoneiro
José Horta Manzano
Doutor Bolsonaro trata de maneira nojenta o povo que o elegeu. A cada passeio, ele se torna foco de contágio. Aperta a mão de um, limpa o nariz, aperta a mão de outro, passa mão no cabelo, roça a mão de um terceiro. E assim vai espalhando vírus e micróbios pra cima de gente simples e ingênua. Tira vírus da mão de um, deposita vírus na mão do outro. Um nojo.
Embora seu comportamento contribua para acelerar a propagação do vírus, a transmissão da doença está longe de suas preocupações. Como se diz em língua de casa, o homem não está nem aí para os outros.
Quando questionado sobre esse comportamento de alto risco, sai-se com um «Ninguém pode me tirar o direito de ir e vir». Como se vê, só consegue pensar nos direitos que tem, sem se dar conta de que os demais também têm direitos. Entre eles, o de serem protegidos do contágio.
O moço é de um egoísmo tenebroso. Se já não conseguia assumir o encargo de presidir a nação em tempo normal, com a pandemia ficou pior. Recordo uma sutil máxima latina que cai como luva para explicar o que ocorre.
A gripezinha
José Horta Manzano
«Não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar não, talquei?»
Desde que soltou essa preciosidade pela primeira vez, em meados de março, doutor Bolsonaro já tornou a insistir na metáfora em diversas ocasiões. Sempre em público.
Não está clara a origem do negacionismo do doutor diante da pandemia. Há quem diga que ele se sente uma espécie de super-homem, invulnerável e ungido pelos deuses, a quem nada pode acontecer. Também há quem diga que o homem é tapado e não consegue enxergar o tsunami que ameaça o mundo todo – Brasil incluído. É ainda permitido acreditar que ele contraiu a doença e se curou, provavelmente com hidroxicloroquina. Isso explicaria o merchandising que ele faz para o fármaco.
Seja como for, a gripezinha e o resfriadinho do doutor estão dando trabalho a tradutores. É que nossa língua facilita a formação de diminutivos, o que não acontece em outras línguas. Em português, os sufixos inho, zinho, zico, zito resolvem o problema e são utilizados em ampla escala. Pomos substantivo, adjetivo e até advérbio no diminutivo.
Em outras terras, jornalistas usaram o adjetivo pequeno(a) para se aproximar do efeito da fala de Bolsonaro. Chegaram perto, mas um pouco da nuance se perdeu. “Resfriadinho” não é a mesma coisa que “pequeno resfriado”, especialmente se o “resfriadinho” for pronunciado com a boca torcida. Na fala de Bolsonaro, o diminutivo marca todo o desdém que ele sente pela doença. É difícil traduzir esse estado de espírito. O mesmo ocorreria se a gente quisesse traduzir «presidentezinho».

Na tradução da notícia, a mídia internacional tem adotado a palavra “pequeno”. Ficou assim:
Inglês:
little flu, little cold
Francês:
petite gripe, petit rhume
Italiano:
piccola influenza, piccolo raffreddore
Alemão:
kleine Grippe, kleine Erkältung
Espanhol:
pequeña gripe, pequeño resfrío
















