As muletas de cada um

José Horta Manzano

Tem muita gente que, pra falar, precisa de muleta. Isso não é exclusividade nossa; em outras terras ocorre fenômeno idêntico. Não sei se já foi feita alguma estatística sobre o assunto, mas acredito que “né?” seja a mais usada. Um “né?” aqui, outro ali, todos costumamos usar. Mas tem gente que não consegue terminar uma frase sem acrescentar a muletinha. Fica a impressão de que o sujeito não tem certeza de ter sido entendido, daí o “né?”.

Outros dizem “entendeu?”, muleta tamanho família, de três sílabas. Muito comum em certas regiões do país é terminar frases com “uai”, muletinha graciosa que sempre me fez lembrar um porquê inglês “why?”.

Os dois presidentes mais marcantes deste século no Brasil também pontuam suas frases, cada um a seu modo. Lula da Silva não soltava duas frases sem terminar com um “sabe?”. Já doutor Bolsonaro mostra nítida preferência pelo “talquei?”. Embora a expressão preferida de cada um deles varie (sabe x talquei), a informação é a mesma: tanto o antigo quanto o atual chefe do Executivo deixam transparecer insegurança.

Quem solta um “sabe?” está pedindo confirmação do interlocutor. O mesmo vale para quem diz “talquei?”. Ambas as muletinhas são perguntas. Quem pergunta, implicitamente espera resposta, de preferência simpática. Quem tem certeza do que está afirmando, simplesmente afirma, sem acrescentar perguntinha no final.

É interessante como a gente acaba descobrindo traços da personalidade alheia. No fundo, somos todos como o gato que se esconde mas deixa o rabo de fora.

Não nos representa

José Horta Manzano

Não gosto nem desgosto de Regina Duarte. Pra mim, como dizia minha avó, a moça não fede nem cheira. Lembro vagamente de alguma cena de tevê em que ela aparecia, trinta anos atrás. Mais nada.

Fiquei surpreso quando soube que ela tinha aceitado o cargo de Secretária da Cultura. Me pareceu decisão arriscada visto o contexto. Por um lado, concordava em ser sucessora daquele destrambelhado aprendiz de nazista; por outro, ia trabalhar sob as ordens de doutor Bolsonaro, que é outro perturbado. Imaginei que daí não saísse nada de bom. Parece que não está saindo mesmo.

É de hoje a notícia de um coletivo de mais de 500 artistas que acaba de lançar manifesto contra a secretária da Cultura. Em 150 palavras veementes, o grupo repudia o comportamento da moça quando de recente entrevista a uma emissora de televisão. Parece que ela andou pondo as manguinhas de fora. O manifesto termina com a frase choque: «Ela não nos representa».

Faço coro com os artistas que se declaram contrários a todas as mazelas do governo atual. No entanto, o protesto deles sofre de um mal de nascença: a secretária da Cultura, assim como todos os seus colegas ministros e secretários, não estão lá para representar ninguém.

Em nosso sistema político, os representantes do povo são os parlamentares, que são eleitos exatamente para essa função. Ministros e secretários são auxiliares pessoais e diretos do presidente da República, que tem o direito de os escolher e de os demitir ad nutum(*).

Portanto, não faz sentido apontar o dedo para a secretária e dizer que ela «não nos representa». A moça não está lá pra representar ninguém. A função dela é pôr em prática a política de seu chefe, o presidente. É a este senhor que toda reclamação tem de ser dirigida.

(*) Ad nutum é expressão latina. A tradução literal é ‘com aceno de cabeça’. Vem daí nosso verbo anuir (=consentir, autorizar). Usa-se essa locução adverbial para indicar uma decisão instantânea, fruto de poder absoluto e discricionário.

No caso presente, ad nutum informa que o mandato de ministros e secretários é revogável a qualquer momento, bastando para isso um simbólico “aceno de cabeça” do presidente.

Teu nome não nega

José Horta Manzano

Faz um mês, o Correio Braziliense publicou artigo meu intitulado Bolsonaro: um nome predestinado. Nele eu conto que, do ponto de vista etimológico, o sobrenome de nosso presidente pertence ao universo das armas e da guerra. A palavra ‘bolzón’ dá nome a dois artefatos bélicos medievais: indica tanto um aríete (peça usada pra arrombar portal de cidade fortificada), quanto uma atiradeira de flechas (que chamamos arbaleta ou bestilha).

Um dos editoriais do Estadão deste sábado traz outra informação interessante. Revela que um grupelho de brucutus apoiadores de doutor Bolsonaro, que age sob a etiqueta de ‘300 do Brasil’, está acampado nos arredores da Praça dos Três Poderes com a ideia de invadir Congresso e STF. Um dos chefes da ameaça de assalto às instituições da República chama-se Marcelo Stachin, expoente da campanha de formação do futuro partido do presidente – Aliança pelo Brasil.

O moço também tem sobrenome de origem italiana que combina bem com o entorno em que navega. Stachin (pronuncie Staquín) é palavra do dialeto piemontês (Turim). Em italiano padrão diz-se birro ou sbirro – termos usados quase sempre com valor depreciativo. Stachin designa o agente policial cruel ou também o capanga de um governo despótico. Em nossa língua, a forma esbirro, de mesmo significado, está aportuguezada e dicionarizada há muito tempo.

O rapaz carrega sobrenome feito sob medida.

O guia

José Horta Manzano

Neste 8 de maio, a Europa celebra o 75° aniversário da rendição da Alemanha, que marcou o fim da Segunda Guerra em terras europeias. Para ver o término definitivo do conflito, seria preciso esperar a capitulação(*) do Japão, que só ocorreria quatro meses mais tarde.

Estes dias, visto que a epidemia de covid-19 arrefece, rádios e tevês voltam a transmitir programação habitual. Entre outras emissões, mostram filmes, relatos e debates sobre as semanas que antecederam o fim da guerra.

Ainda que hoje seja difícil acreditar, o regime nazista fanatizou toda a população da Alemanha. O mais fanático de todos era o Führer (=Guia) Adolf Hitler. Convencido de ser Deus na Terra, estava certo de que, sem ele, o povo alemão não sobreviveria. Para manter-se no comando supremo, estava disposto a sacrificar o povo – como de fato fez. A destruição do país só foi suspensa quando não havia praticamente mais nada a destruir.

Apesar de sentir um calafrio, não pude me impedir de comparar a situação da Alemanha de 1945 com a do Brasil de 2020 – resguardadas as devidas proporções, naturalmente. São momentos em que o povo se encontra sob o jugo de um tirano de poucas letras, fanático, autoritário e surdo a todo chamamento da razão. Ambos os ‘guias’, tanto o alemão quanto o brasileiro, sacrificariam o próprio povo em defesa de seus interesses pessoais.

Para sorte nossa, a comparação pára por aqui. A Alemanha, descuidada, havia conferido todos os poderes a seu guia; quando se deu conta de que caminhavam para o desastre, era tarde demais. O Brasil, para nosso alívio, tem instituições que condividem o poder com o ‘guia’; em outras palavras : temos rédeas pra domar os ardores do potro chucro.

(*) Costuma-se usar as palavras capitulação e rendição como sinônimas. No duro, não são sinônimas perfeitas.

Capitulação é rendição condicional. O exército que perdeu entrega as armas amparado por um acerto feito previamente com o vencedor. Esses acordos costumam ter cláusulas – capítulos –, daí o verbo capitular. Foi o que aconteceu entre os EUA e o Japão em 1945.

Rendição incondicional é a expressão que se usa quando não há acordo. O perdedor simplesmente entrega as armas porque já não tem força suficiente para impor condições. Foi o que aconteceu em 1945 entre a Alemanha e as potências vencedoras.

Confinamento light

José Horta Manzano

A Suíça é um país federal. Cada cantão tem ciúmes da própria autonomia, visto que ela lhe concede ampla liberdade em muitos aspectos da vida administrativa. Tanto o Estado central quanto os cantões costumam respeitar essa independência; cada parte evita se meter nos assuntos da outra.

No final de fevereiro, quando a ameaça do coronavírus ribombou, ficou claro que teriam de ser tomadas medidas urgentes para limitar a propagação da epidemia. Uma dúvida surgiu: deixar que cada cantão cuidasse de sua jurisdição ou centralizar as decisões? A primeira opção poderia resultar numa desordem geral, cada cantão optando por diretivas diferentes. Já a segunda parecia mais estruturada, mas feria a sacrossanta autonomia regional. Como fazer?

Numa decisão fora dos padrões, o governo federal optou por centralizar a orientação. Ainda que de nariz torcido, os cantões acompanharam. O governo, confiante no espírito disciplinado do povo, achou desnecessário decretar confinamento rigoroso como o de países vizinhos (França e Itália).

Dia 16 de março, comércio e escolas fecharam. Empresas de serviço que recebem público também tiveram de parar de trabalhar. Continuaram funcionando os comércios essenciais: supermercados, farmácias, lojas de comida para animais de companhia.

As empresas que podiam instauraram o teletrabalho. As demais – construção civil, por exemplo – tiveram de parar porque não havia meios de respeitar a distanciação social. Os transportes públicos continuaram funcionando, ainda que em ritmo reduzido. As ruas esvaziaram, pois ninguém tinha para onde ir. Deu para ouvir passarinhos cantando, coisa comum nesta época do ano, mas difícil de perceber nas cidades maiores.

Trompa alpina (Alphorn), instrumento nacional suíço

Nos primeiros dias, um movimento de pânico se instalou. Como se o país se preparasse a entrar em guerra, o povo tomou de assalto os supermercados e acabou com determinados artigos. Ovos, farinha, fermento, papel higiênico e papel toalha sumiram. As gôndolas de enlatados ficaram com espaços vazios. Parece que o pessoal tinha mais medo de morrer de fome do que de contrair a doença.

Semana passada, começou o desconfinamento. Vai por etapas. Cabeleireiros e terapeutas já podem trabalhar, paramentados com luva e máscara, e munidos de álcool em gel. Semana que vem, escolas começam a receber a criançada e o comércio abre. Festivais, manifestações esportivas e outros ajuntamentos vão ter de esperar mais um pouquinho. Para esses casos, ainda não há previsão de autorização.

Tanto o governo federal quanto as administrações cantonais foram generosas para com os que ficaram sem emprego. Os pequenos empresários que perderam faturamento também não foram esquecidos. Medidas pontuais foram adotadas para paliar o problema de cada um.

Ninguém sabe até quando a população vai continuar com medo de contágio. Imagino que, por um bom tempo, a vida será diferente do que era antes. O mundo só voltará ao que costumava ser no dia em que encontrarem uma vacina contra esse mal. Antes disso, uma inocente tossidinha será capaz de esvaziar um ônibus inteiro.

Dabelou seven

José Horta Manzano

Nos anos 1960, surgiram os filmes de James Bond. O intérprete que apareceu nas primeiras fitas e deu vida ao personagem foi o escocês Sean Connery, galã de 1,90m que contracenou com beldades esculturais. O contexto da Guerra Fria era pano de fundo propício para histórias de espionagem. O agente secreto 007 – dabelou seven, na pronúncia original – bisbilhotava o mundo a serviço de Sua Majestade, a rainha da Inglaterra.

Lembro-me de uma cena bizarra de uma daquelas películas. O nome do filme agora me escapa; pode bem ser Thunderball (1965), aquele que, no Brasil, recebeu o longo e desgracioso título de 007 Contra a Chantagem Atômica.

A certa altura, reúnem-se os integrantes de uma organização criminosa. Serão entre 15 e 20 em volta de uma espécie de mesa baixa. Do chefe, não se vê o rosto, só se percebe que ele afaga obsessivamente um gato persa branco sentado no seu colo. O mandachuva não chama os integrantes da pequena assembleia pelo nome, mas por número. São todos numerados: o 05, o 03, o 09 e assim por diante. Presume-se que o dono do gato seja o 01. A cena acaba trágicamente, com dois participantes sendo precipitados, com cadeira e tudo, para dentro de minicrateras abertas repentinamente.

Eram histórias de ação, empolgantes, emocionantes, mas… não passavam de historietas de cinema. Não era pra levar a sério. Eu, por exemplo, não levei. Só me ficou uma informação: em facções e organizações criminosas, é praxe os participantes serem numerados.

Acredito que nosso presidente, adolescente à época, tenha se entusiasmado demais da conta com essa história de numerar gente. Deixou-se impregnar de tal maneira que guardou o curioso costume até hoje. De fato, não se refere aos filhos pelo nome, mas por número. Não está claro o porquê de ele se sentir à vontade numa família numerada. Gosto pela matemática? Identificação com a secta do filme de James Bond? Fica o mistério no ar.

Observação
Segunda-feira passada, naquela conversa amena em que, com elegância, mandou jornalistas calarem a boca, nosso presidente deixou claro que a numeração das pessoas não se restringe ao clã. Referindo-se às mudanças na chefia da PF do Rio, revelou que havia convidado um determinado senhor “para ser o zero dois”.

Resta saber qual é o número que o doutor reservou para si. Visto que, na famiglia, a numeração está toda tomada, sobrou o 00 (= o dabelou). Cai bem para o doutor. Os anos vazios de sua gestão cobrarão a conta. A história, que é cruel, guardará desta presidência de intrigas uma lembrança próxima do zero. Zero à esquerda.

O presidente e o golpe

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 maio 2020.

Uma bela tarde de 2010, Lula da Silva subiu ao palanque de Dilma Rousseff, então candidata à Presidência. Deitaram ambos copioso falatório. Com palavras agressivas, criticaram a imprensa, a oposição, os jornalistas. Ridicularizaram os opositores e desclassificaram os que não pensavam como eles. A intenção não era expor propostas de governo – desse assunto pouco ou nada se falou. O propósito maior era demolir tudo e todos que estivessem do outro lado da imaginária linha do nós x eles.

Lá pelas tantas, Lula ousou: «Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública!». Um atrevimento. Era a confirmação explícita dos eflúvios absolutistas embutidos na ideologia lulopetista. Àquela época, a repercussão da palavra presidencial era modesta. Internet não tinha o alcance nem o vigor de hoje. Além disso, dois mandatos tinham deixado claro que não se podia levar a sério as bravatas do chefe. Por causa disso, a história de ‘nós somos a opinião pública’ morreu ali, sem direito a debates nem análises. A frase teve o destino inglório que deveriam ter todas as falas inconsequentes: foi para a lata do lixo.

Ironicamente, o socorro do Brasil acabou vindo da absoluta inépcia da presidenta. A doutora tanto forçou, que a corda arrebentou. Com isso, seu mandato foi para o beleléu. Com o impeachment, conseguimos estancar a escalada do besteirol presidencial e da rapina orquestrada.

Nas eleições de 2018, o contragolpe tinha de vir. E veio violento. Já durante a campanha, Jair Bolsonaro lançou sinais anunciadores de como seria sua presidência, mas ninguém ligou. O cenário já se podia até entrever quando o candidato soltou um tuíte estranho: “Nosso partido é o povo!”. Estava anunciada a inclinação populista da gestão que estava por vir, espécie de lulopetismo de sinais trocados. Na época, ninguém calculou qual seria a extensão do drama.

Foto: Uol/Folha

O que tinha de acontecer, aconteceu. O candidato esquisito, incapaz de expor o próprio programa, foi eleito. Não há milagre: candidato esquisito tende a exercer governo esquisito. Seu programa, de tão vago, não se consegue até hoje decifrar; más línguas dizem que a única diretiva é manter o poder a todo custo. No intuito de preencher os vazios e desviar a atenção do que interessa, o Planalto nos inunda de ruídos periféricos, slogans, falatório e palavras de ordem. Essa colcha de retalhos traz mensagens desconexas e discordantes. O que hoje é, amanhã poderá deixar de ser. O que se diz agora pode acabar desmentido logo mais.

Embevecido com a atenção que prestam a seu palavrório, o presidente se sente livre e cria asas. Diz o que lhe passa pela cabeça. Lança palavras ao ventilador. A cada rodada, o tom sobe e as palavras ganham força e vigor. A plateia acompanha. Uns se sentem indignados; outros, nauseados; alguns ainda, encantados. Analistas tentam encontrar sentido onde não há lógica. Põem-se a refletir sobre o significado profundo; buscam entrever mensagem criptada; tentam ponderar o que não tem nexo. É inútil. Um único recado é claro e inequívoco: doutor Bolsonaro não enjeitaria iniciar, aos 65 anos, carreira de ditador; afora isso, não há que remexer mais fundo. O zigue-zague presidencial é uma não tática.

Sabemos todos que o desejo do doutor não se realizará. Primeiro, porque nossas instituições funcionam; em seguida, porque uma reforma súbita e radical do regime não interessa às elites que realmente detêm o poder. Não estamos mais em 1964. A ameaça vermelha, então real, hoje só sobrevive na imaginação de mentes anacrônicas. Golpe e refundação do regime é ruim para todos. Nos negócios, trava o bom andamento; nas Forças Armadas, embaralha promoções; nas exportações, gera boicote; na vida do cidadão comum, instala ambiente de desconfiança. Em resumo, atrapalha muito mais do que ajuda. Portanto, pra serenar ânimos e garantir sossego, o melhor favor que a mídia séria pode fazer ao país é baixar a bola e dar à fanfarronice presidencial a importância que ela merece, ou seja: nenhuma.

Memento homo

José Horta Manzano

Diante do que faz doutor Bolsonaro, a gente sente saudade dos mais recentes presidentes do Brasil. Exceção feita a dona Dilma, parecem todos grandes presidentes. Até o Lula está anos-luz à frente do pedregoso Bolsonaro. Pena que tenha se servido com tanta sem-cerimônia das benesses que o cargo lhe oferecia e – principalmente – que tenha permitido à malta despojar o Estado.

Diante do que diz doutor Bolsonaro, a gente sente saudade de todos os antigos presidentes do Brasil. Todos, de verdade, incluindo até aquele General Figueiredo, que gostava mais de cavalo do que de gente e que costumava dar coices verbais quando estava de mau humor. Em matéria de estilingadas verbais, Bolsonaro ganha estourado de todos eles.

Saiu um bom artigo de FHC no Estadão deste domingo. O antigo mandatário assume a confortável posição de observador distante e, com a autoridade de quem já viveu 9 décadas quase inteiras, distribui conselhos a quem interessar possa. Lá pelas tantas, ele cita um aforismo do Antigo Testamento. Coisa fina. Só que ele comete uma imprecisão. “Pulvis est et in pulvis reverteris” é o que ele diz, quando o correto é “Pulvis es et in pulverem reverteris”. Melhor ainda é citar o axioma na íntegra: Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris. – Recorda, homem, que és pó e ao pó retornarás”.

Não tem importância. Só a lembrança de que já tivemos um presidente que fazia citações em latim já é um bálsamo. Acende a esperança de que doutor Bolsonaro não será uma verruga encravada na alma nacional por muito tempo. Um dia, que esperamos seja o mais logo possível, seremos brindados com inquilino do Planalto menos agreste.

Observação
A locução latina aparece na Vulgata da Bíblia (Gênese). São as palavras que Adão ouviu de Deus quando foi expulso do paraíso depois de incorrer no pecado original.

A palavra memento, pronunciada com voz solene e indicador apontado para o alto, tem valor de interjeição. Foi usada por séculos como advertência a alguém que estivesse a ponto de cometer um erro. Em italiano, as duas primeiras palavras da locução se juntaram pra formar «mementomo!», repreensão dicionarizada, mas hoje caída em desuso.

Comida por quilo

José Horta Manzano

Tive uma tia que, já velhinha mas ainda esperta, almoçava fora todos os dias. Não se pode dizer que cozinhar tenha sido uma de suas paixões. Assim sendo, aproveitou, enquanto foi possível sair à rua sozinha, pra frequentar um restaurante «por quilo» que ficava perto.

Todos os dias, quando faltavam quinze para as onze, lá estava ela à porta do restaurante esperando a hora. Às onze em ponto, assim que abriam, ela pegava o prato e rapidinho ia se servir. Fazia questão de ser a primeira. Dizia que não gostava de comer «comida mexida». Não sei se terá sido em virtude da prudência alimentar, mas ela morreu centenária.

Na opinião de um especialista em culinária cujo blogue li estes dias, o coronavírus vai acabar com restaurante por quilo. Segundo ele, vão fechar todos. É verdade que, quando a gente pensa, o desfile de clientes diante das vasilhas espalha abundante sortimento de vírus, bactérias e outros bichinhos que fatalmente vão aterrissar sobre a comida. Não tem como escapar. Nem usando máscara e luva: um vírus mais ligadão pode até pular do braço do freguês direto no feijão. Te esconjuro!

O desaparecimento de estabelecimentos onde se come razoavelmente bem por preço módico seria uma tristeza. Poria muita gente fina em apuros. Mas o ser humano tem incrível capacidade de se adaptar. Novos caminhos aparecerão. O futuro dirá quais são.

Um detalhe linguístico me parece divertido. Imagine um atacadista que vende pregos. Um cartaz na parede adverte: «Venda por quilo». Todos entendem que o comerciante não vende pequenas quantidades; a medida é o quilo. O freguês tem de comprar um quilo, dois, três ou mais. A condição é clara.

Agora diga-me por que raios está escrito que o restaurante vende comida «por quilo»? Não é verdade. Ele não exige que se compre um quilo, dois, três ou mais. Na realidade, ele vende comida «por peso», que não é exatamente a mesma coisa. O preço é expresso em reais por kg, mas o cliente não é obrigado a comprar quilos; pode levar a quantidade que quiser.

Parece esquisito, mas é só falta de costume: «por peso» exprime melhor o princípio. Minha velha tia nunca devoraria comida aos quilos. Sua medida era o que a magra pensão lhe permitia; não podia passar de R$ 3,50 por refeição. Contadinhos.

Dois em um

José Horta Manzano

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A chamada do Estadão vem com dois problemas. Por coincidência, os dois envolvem o acento grave.

Depor
O verbo depor tem múltiplos significados. Sua regência varia conforme a acepção. Em linguagem jurídica, quando significa prestar depoimento, é intransitivo, ou seja, não aceita objeto direto nem indireto.

Portanto, Sérgio Moro vai depor (ou prestar depoimento) neste sábado. Ponto final. Ele não prestará depoimento a ninguém. Pode-se complementar informando o local, a data, e outras circunstâncias. Endireitada, a frase fica assim:

Neste sábado, Sérgio Moro presta depoimento na PF.

Crase
Na frase ‘Audiência marcada para às 11h’, a crase sobra. Não há encontro de artigo com preposição. Veja a diferença:

Ele chegará para a audiência às 11h
(às = a + as)

Audiência marcada para as 11h
(as = as)

Pra corrigir, basta portanto tirar o acento grave.

Revoltante

José Horta Manzano

Não sou anticlerical. Nem teria como – quem vem, como eu, de família cheia de padres, freiras e carolas sempre guarda laços de respeito ainda que não pratique a religião. Atenção: respeito não é sinônimo de submissão, muito menos de fanatismo cego.

Fiquei sabendo que, no Brasil, a remuneração de pastores evangélicos é isenta de tributos. É possível que muitos estivessem a par mas eu não estava. Não sei que efeito essa informação faz no distinto leitor; quanto a mim, fico de cabelo em pé.

O Estado brasileiro é laico. Laico não quer dizer ateu, nem herético, nem muito menos anticlerical. Quer dizer que ele paira acima de preferências religiosas. Com relação às diferentes denominações religiosas, o Estado mantém-se neutro e equidistante, assim como também não ampara um time de futebol em detrimento dos demais. É fácil de entender.

A Constituição garante a cada um o direito de aderir (ou não) a uma organização religiosa. É decisão que pertence ao campo pessoal, ligada ao foro íntimo de cada um. O cidadão que adere a um agrupamento religioso tem o direito de tirar dinheiro do próprio bolso para dar amparo financeiro ao agrupamento. Isso é atitude normal. O que não é normal é o Estado dar uma forcinha a alguma organização religiosa, seja ela qual for.

Entidade religiosa é instituição privada, assim como clube de futebol ou escola de samba. O Estado não tem dinheiro próprio, ele cuida do dinheiro da sociedade; seus cofres guardam os haveres dos contribuintes, que somos nós todos. Desde o capiau que compra um quilo de feijão até o grande empresário, todos contribuem. O empresário paga imposto sobre seus ganhos; o capiau paga, ainda que não se dê conta, o imposto embutido no preço do feijão. Portanto, não me parece justo que o Estado laico abra os cofres e use meu dinheiro para amparar entidade religiosa.

Determinados bispos neopentecostais burlam a lei. Valendo-se da isenção de tributos sobre a remuneração de pastores, fazem passar participação nos lucros, dividendos e outras benesses como salário. Escapam, assim, ao imposto. O chato é que a Receita faz controles pontuais, aqui e ali. Quando apanha algum infrator, aplica multa pesada. Em certos casos mais graves, as multas podem ser milionárias. Tem muita organização religiosa batalhando pra não pagar o que deve.

Saiu a notícia de que donos de organizações pentecostais em débito com a Receita estão pressionando doutor Bolsonaro para que mande afrouxar as regras e anular a cobrança. Dado que o presidente está muito interessado na reeleição e nada comovido com o dinheiro do contribuinte, é bem capaz de consentir. Se assim for, teremos mais um caso de transferência de renda às avessas: tira-se dos humildes para dar aos milionários. Lindo, não?

Observação:
Ricardo França, fiel e atento leitor, conhece bem a questão da tributação. Informa-nos que a reportagem do Estadão, fonte deste artigo, embola os fatos e confunde o leitor.

No frigir dos ovos, ainda que a informação do Estadão esteja confusa, uma realidade aparece: dirigentes de determinadas seitas estão se aproveitando de brechas na legislação tributária para encher ainda mais os bolsos.

Por mais religiosos que sejam, não há milagre. No final, a conta vem para todos nós. É revoltante.

Alteração feita em 2 maio 2020.

Desaforo poliglota

José Horta Manzano

O «E daí» de nosso refinado presidente ecoou lá fora. Ao dar a notícia, os jornais tiveram de traduzir. Ficou assim.

The Guardian (Londres, Reino Unido) escolheu
«So what?»

El Tiempo (Bogotá, Colômbia) preferiu
«¿Y entonces?»

AskaNews (Roma, Itália) optou por
«E allora?»

Frankfurter Allgemeine Zeitung (Frankfurt, Alemanha) ficou com
«Na und?»

France 24 (Paris, França) decidiu-se por
«Et alors?»

Como se vê, malcriação tem tradução fácil em qualquer língua. Já presidente malcriado e desaforado é menos comum, por isso dá manchete.