Talibã

José Horta Manzano

Nestes dias em que o mundo se surpreendeu com a queda ultrarrápida do governo afegão diante dos talibãs, todos procuram culpados. Como é possível que o país tenha caído com tanta facilidade?

Análise é o que não falta. Há quem aponte a falta de preparação do exército afegão. Há quem diga que as tropas legalistas não eram em número suficiente diante dos revoltosos. Há ainda quem acredite que o exército nacional, além de mal preparado pelos americanos, estava mal equipado.

É possível que todas essas críticas sejam apropriadas – é difícil fazer afirmação definitiva. No entanto, elas ignoram um problema de raiz, que, a meu ver, está na origem dos males atuais: o Afeganistão não é um país. Pelo menos, não é o que costumamos entender como um estado-nação.

Aquela região é um mosaico de etnias, que falam línguas contrastadas e que, muitas vezes, professam religiões antagônicas. As línguas do grupo iraniano são majoritárias (baluche, aimaque, hazara, tadjique, pachtu), mas extensas regiões do país falam línguas do grupo túrcico (turcomeno, uzbeque, quirguiz, todas aparentadas ao turco). Há ainda línguas minoritárias, classificadas fora desses troncos principais. Dê uma olhada no mapa etnolinguístico que reproduzi logo na entrada do post.

Essa diversidade de falares impede a intercompreensão. Em outros termos: ninguém o que diz um habitante de outra região. Para se entenderem, teriam de eleger uma língua comum – uma lingua franca –, objetivo impossível para um povo de poucas letras. Só essa particularidade, de não se entenderem, já é barreira intransponível para a formação de um país.

Imagine o distinto leitor o drama que seria não poder dialogar com os nativos de um Estado vizinho ao seu. Como é que se há de governar uma tal colcha de retalhos? Só se consegue pela força, com mão de ferro. Foi o que fizeram as forças de ocupação durante 20 anos e é exatamente o que os novos donos da região – os talibãs – se preparam a fazer.

Assim mesmo, é bom ter em mente que esse tipo de mosaico transformado em Estado é fonte permanente de tensões. Até países altamente civilizados, como a Bélgica, por exemplo, assistem a confrontos periódicos entre as comunidades que o compõem. No Afeganistão, é certeza: os talibãs nunca poderão se mostrar “bonzinhos” nem afrouxar o regime, sob pena de o país se desagregar.

Taliban? Talibã? Taleban? Talebã?
Tenho visto na imprensa todas essas grafias e ainda mais algumas. Como escrever certo? Vamos começar pelo começo.

Talibã é palavra afegã inspirada no termo árabe taleb, que quer dizer estudante. No começo, a palavra designava os estudantes de teologia que, nos anos 1990, tomaram conta do país. Radicais, impetuosos e despreparados para governar, fizeram um desastre. Foram contidos pelas forças de ocupação de uma coalizão encabeçada pelos EUA e coadjuvada por países europeus. Só que a presença estrangeira não resolveu os conflitos seculares. Mal os ocupantes começaram a se retirar, tudo está voltando ao que sempre foi.

Agora, que sabemos de onde vem a palavra talibã, como aportuguesar a grafia? Dado que quem faz a língua é o falante, as coisas vão se acomodar com o tempo. Por enquanto, é muito cedo. Cada jornalista escreve como imagina ser correto. Eu escreveria assim, como pronunciamos nós: talibã. Com inicial minúscula e ã no final, que é nossa maneira de aportuguesar (Irã, Omã, Amsterdã).

Em nenhum caso eu poria inicial maiúscula. Assim como democracia, monarquia, fascismo, getulismo e janismo levam inicial minúscula, talibã também deve levar. Eu evitaria o coletivo “o Talibã”. Melhor falar no “regime talibã” ou, no limite, “regime dos talibãs”.

Mas isso é o que este escriba acha. É possível que o uso imponha outras normas. Se assim for, seguiremos o cortejo.

Trilha com sabor de chocolate

José Horta Manzano

Você sabia?

Os suíços sentem muito orgulho por seu país não ter sido invadido por tropas alemãs nem italianas na Segunda Guerra Mundial. É realmente surpreendente que a pequena Suíça não tenha sido engolida, com casca e tudo, pelos exércitos do Eixo. Afinal, excluindo um minúsculo trecho que a separa do Principado do Liechtenstein, a Suíça estava completamente cercada por nações em guerra. Tinha (ainda tem) fronteira com a Alemanha, a Itália, a França (ocupada pela Alemanha) e a Áustria (anexada à Alemanha). No país helvético, muita gente atribui essa não intervenção à força de dissuasão representada pelo poderio militar suíço.

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Há quem sorria ao ouvir essa explicação. Seja como for, tanto Berlim quanto Roma sabiam que seria bastante complicado dominar e ocupar um território montanhoso como este. Sabiam também que os suíços estavam muito bem armados e equipados, além de serem conhecidos como combatentes aguerridos.

Toblerone de verdade

Hitler e Mussolini devem ter feito a conta duas vezes. Chegaram à conclusão de que não valia a pena perder tempo, dinheiro, esforço e vidas humanas para conquistar um território pouco industrializado e totalmente desprovido de riqueza mineral. De qualquer maneira, não saberemos nunca o que realmente passou pela cabeça dos dois ditadores.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones

Eu acrescentaria mais uma razão. Numa Europa conflagrada, interessava a todos respeitar a neutralidade de um pequeno território, situado bem no centro geográfico do conflito. Era um lugar seguro, de onde não se receava que viesse nenhuma ameaça. Mais que isso, era um lugar onde todos podiam guardar, na confiança, seus dinheiros, seus ouros, suas obras de arte e suas joias. Mais ainda: um lugar superconveniente para eventuais encontros secretos e confabulações discretas e confidenciais. Todas essas razões hão de ter contribuído para que o país fosse poupado.

Isso hoje faz parte da História. Como diz o outro, «Depois que aconteceu, qualquer um é profeta; difícil mesmo é adivinhar o futuro». Naqueles anos 1930, um bafo de guerra soprava no continente, embora ninguém soubesse de que lado nem com que força viria a tempestade. As autoridades suíças não podiam cruzar os braços e apenas torcer para que o país não fosse invadido. Todos tinham de estar prontos para repelir tropas inimigas.

Linha dos toblerones, hoje utilizada para caminhadas a pé

A inteligência militar planejou um complexo sistema de defesa. Naqueles tempos, a referência mais próxima era a Primeira Guerra (1914-1918), durante a qual os ataques se faziam por via terrestre, com tanques e blindados. Foi pensando nisso que bolaram o sistema defensivo suíço, basicamente terrestre àquela época. Incluía numerosos pontos, alguns dos quais são hoje conhecidos do grande público, enquanto outros ficarão secretos para sempre. Talvez seja melhor assim.

Todas as pontes do país estavam minadas. Ao menor sinal, as vias de comunicação seriam interrompidas, o que dificultaria tremendamente o avanço de tropas inimigas. A região de Genebra, fronteiriça com a França, trazia um problema espinhoso para os militares. Por ser constituída de terrenos planos e pela ausência de rios, foi considerada indefensável. Tomou-se a decisão tática de dar a cidade como perdida e implantar o sistema de defesa uns 30km mais para o interior do país.

Villa Rose Fortaleza disfarçada de casa de campo

Villa Rose
Fortaleza disfarçada de casa de campo

Construíram-se fortalezas com aparência de pacíficas casas de campo. Foram levantados bunkers com aspecto externo de inofensivos chalés de madeira. Instalaram-se discretos postos de observação em pontos mais elevados ― naqueles tempos não havia street view nem espionagem por satélite. Para completar, uma verdadeira obra de arte defensiva foi construída, uma versão helvética da muralha da China. Ficou conhecida popularmente como Ligne des toblerones, a linha dos toblerones.

O que era e por que lhe deram esse nome?
Era – e ainda é – uma linha de 10km de blocos de concreto que impossibilitam a passagem de tanques de guerra. São quase 3000 blocos monstruosos de 9 toneladas cada um. Têm forma peculiar de tetraedro que lembra um pedaço de chocolate Toblerone, daí o apelido.

Villa Rose Janela com cortina falsa

Detalhe da Villa Rose: janela com cortina falsa

Não se tem notícia de que nenhum tanque tenha jamais tentado superar o obstáculo. A guerra acabou faz muito tempo. A Suíça não foi invadida. Mas os toblerones continuam lá até hoje. Quem é que vai arrastar aqueles imensos blocos? E o que fazer com eles depois? Assim, foram deixados onde estavam e, aos poucos, acabaram se tornando atração turística. Uma trilha própria para caminhadas a pé serpenteia por quilômetros, dentro da floresta, ao longo da barreira de concreto. É conhecida hoje como o Sentier des Toblerones, a Trilha dos Toblerones.

Taí uma obra militar que soube envelhecer. Em escrupuloso respeito ao espírito atual, não foi atirada a um lixão mas acabou reciclada.

Publicado originalmente em 28 nov° 2013.

15 de agosto

José Horta Manzano

Em alguns países de tradição católica, 15 de agosto é dia feriado. Festeja-se a Assunção(*) – a subida ao céu de Maria. Segundo a tradição, a mãe de Jesus não teria realmente morrido, como um mortal qualquer. Chegada ao final de seu percurso terreno, apenas fechou os olhos por um momento para, em seguida, reabri-los e ser levada, de corpo e alma, ao reencontro familiar: Pai, Mãe e Filho.

Em Portugal, descreve-se esse momento como “Dormição de Maria”. Sempre achei curioso os alemães utilizarem a palavra viagem para descrever a Assunção: Mariä Himmelfahrt – A viagem ao céu de Maria”. Enquanto costumamos dizer, mais poeticamente, “subida aos céus”, o alemão é mais realista. Talvez seja implicância minha, mas a palavra viagem traz lembranças bastante físicas que quebram o encanto e o mistério do fenômeno.

Ao sentir que, em pleno século 20, estava ficando complicado fazer o povo acreditar candidamente nessa narrativa, o papa Pio XII resolveu utilizar a mão pesada. Numa bula de 1950, impôs a Assunção de Maria como dogma de fé, ou seja, verdade indiscutível, daquelas que o fiel tem de aceitar sem protestar.

Pelo ensinamento da Igreja, o destino de todos os fiéis, no final, será o mesmo de Maria. Ela simboliza esse futuro comum a todos. A diferença é que ela foi pela via expressa; quanto aos outros, cada qual vai seguir o próprio caminho, que pode ser mais (ou menos) pedregoso. Bom, tem aqueles que vão parar no inferno, mas essa já é uma outra história, que fica para uma outra vez.

Em Portugal, o 15 de agosto é feriado nacional. Quanto aos vizinhos espanhóis, têm tantas festas municipais e regionais, que o dia praticamente pode ser visto como feriado nacional. No Brasil, talvez já tenha sido dia de festa nos tempos de antigamente, mas não encontrei menção. Atualmente, apenas alguns municípios, como Belo Horizonte e Fortaleza, festejam esse dia.

Na Itália, a data é uma das mais marcantes do calendário. Tem até nome especial: chama-se Ferragosto, uma corruptela da locução latina “Feriae Augusti – o Repouso de Augusto”. Oficializada pelo imperador Augusto na base de antiquíssimas festividades, a data marcava o início do período de descanso que se seguia ao fim da parte mais pesada do trabalho nos campos. Os arados (e os animais de carga que os puxavam) podiam repousar.

Hoje em dia, o arado não é mais puxado por animais, mas a tradição festiva continua, reforçada pelo fato de o 15 de agosto cair no meio das férias de verão, no período mais quente do ano, em que multidões aproveitam o feriado para tirar alguns dias de descanso.

Em toda a península, aeroportos e estações de estrada de ferro ficam apinhados – em modo covid, naturalmente. Na era pré-internet, muita gente mandava cartão de Bom Ferragosto, assim como quem deseja Feliz Natal. Há quem continue firme na tradição, só que hoje vai por uótisápi. O simbolismo religioso do feriado passou para segundo plano.

Essa tradição de deslocamento populacional foi inaugurada e intensificada durante o período fascista, nos anos 1920 e 1930, com a criação das “excursões populares” incentivadas pelo governo central. Como ainda ninguém tinha tido a ideia de dar prêmios ao povão do tipo bolsa família, foi a maneira bolada pelos dirigentes da ditadura de proporcionar panem et circenses – pão e [jogos] circenses” ao povão.

Ignaros e distantes dessas chatices históricas, nossos atuais dirigentes, que parecem todos ter fugido da escola, descuidaram essa prática milenar de adubar o povo. Em vez de pão, entregam inflação. Em vez de jogos circenses, distribuem bofetadas e insultos diários. Desventurado Brasil!

(*) Apesar da vaga semelhança fonética com “ascensor”, o termo assunção não tem a ver com elevador. Pertence a outra família. Deriva do verbo latino assumere, cujo sentido primeiro é tomar para si, presumir, escolher. Assim, a assunção de Maria é a declaração de que a eleita é ela.

Consumir, assumir, presumir e assunto são membros da família. Presunto também é, só que, em nossa língua, o danadinho tomou outro caminho. Em vez de “presunto assassino”, temos de dizer “presumido assassino”. Presunto, como todos sabem, é outra coisa.

Essas palavras que tropeçam e saem da linha são o sal e a pimenta das línguas.

Quanto recebe um medalhado olímpico?

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz só uma semana que se encerraram os Jogos Olímpicos de Tóquio, mas parece que faz um tempão. É que eventos marcantes arrebatam a atenção no momento em que ocorrem mas, assim que acabam, desaparecem da memória cansada.

Estive colecionando dados sobre o prêmio em dinheiro que cada comitê nacional destinou a seus campeões. Não foi fácil. Tive de catar um aqui, outro ali, que cada um fala do seu sem se preocupar muito com os demais.

As conclusões são interessantes, inesperadas e, às vezes, surpreendentes. Os montantes dados pelos países a seus atletas variam muito. Vão desde Singapura e Taiwan – generosíssimos – até países extremamente sovinas como a Grã-Bretanha e a Suécia.

Um singapuriano ou um taiwanês medalhado com ouro ganhou um amortecedor confortável para o resto de seus dias: voltou para casa com 3.800.000 reais no bolso. Além disso, os taiwaneses, ainda que não tenham conseguido o pódio mas tenham chegado, por exemplo, em 7° ou 8° lugar na prova final, foram premiados em dinheiro.

Para Singapura, a vistosa política até que saiu em conta, visto que o país não conseguiu nenhuma medalha. Já para o comitê taiwanês, a conta saiu salgada: seus atletas ganharam 12 medalhas, sendo 2 de ouro.

Nos esportes individuais, o Brasil pagou 250 mil reais a cada atleta dourado, 150 mil aos prateados e 100 mil aos de bronze. Os prêmios oferecidos por nosso país se encaixam na média dos vizinhos latino-americanos. Para o ouro, a Colômbia dá 300 mil reais, o Peru oferece 316 mil, o Chile presenteia com 289 mil. Mais generosa que o Brasil, a Bolívia propõe 262.500 reais a todo boliviano que chegue ao ouro; assim mesmo, nunca obtiveram nenhuma medalha.

Os comitês olímpicos de Hong Kong e da Indonésia também tiveram de levar a mão ao bolso pra pagar os prêmios prometidos. A Indonésia tinha oferecido 1.800.000 reais por ouro; seus atletas levaram um total de 5 medalhas, sendo uma de ouro. O mesmo aconteceu com Hong Kong. Um feliz vencedor “dourou” e embolsou a fabulosa soma de 3.400.000 reais por sua medalha; outros 5 colegas receberam prêmios menores com suas pratas e seus bronzes.

O paupérrimo Bangladesh propôs um megaprêmio de quase 1.600.000 reais por medalha dourada e um pouco menos para as prateadas e bronzeadas. Mas o risco de empobrecer era pequeno, visto nunca ter ganhado medalha antes. E não foi desta vez que ganhou.

A Estônia, país de espírito previdente, não dá prêmio tipo mega-sena. Talvez para evitar que o jovem, de cabeça avoada, jogue o dinheiro pela janela, faz proposta diferente. Os campeões passam a receber imediatamente uma pensão anual vitalícia de 4.600 euros, que será complementada por uma ajuda especial assim que chegarem aos 65 anos, a idade da aposentadoria.

A Polônia segue caminho semelhante, com um acréscimo generoso. Seus atletas dourados recebem, logo de cara, um prêmio de 310 mil reais. Bem mais tarde, quando chegarem ao 40° ano de vida, passarão a receber uma renda livre de impostos equivalente a 60% do salário médio nacional. Todos os meses, até o fim da vida! Atenção: não é o salário mínimo, mas o salário médio do país. Nada mal, não?

No fim da lista, estão os países de espírito pão-duro, aqueles que julgam que os atletas, treinados e financiados durante anos com o dinheiro dos contribuintes, não fazem mais que a obrigação quando vencem competições. Os jovens estarão assim devolvendo uma parte do que receberam. Sem dúvida, é uma maneira de enxergar o funcionamento da sociedade. Bem diferente da nossa criação, que nos faz acreditar que tudo nos é devido.

Entre os que não dão nenhum prêmio a seus vencedores, estão a Grã-Bretanha (65 medalhas), a Nova Zelândia (20 medalhas), a Suécia (9 medalhas), a Noruega e a Croácia (8 medalhas cada uma). Como se vê pelo número de medalhas recebidas pelos que ficaram chupando dedo, não é o vil metal que move essa juventude corajosa. O importante é competir.

Observação
Os montantes mencionados são resultado da conversão aproximada dos valores originais, expressos em moeda local.

Paraskevidecatriafobia

José Horta Manzano

Em dezembro de 1993, o British Medical Journal, órgão respeitado nos meios científicos, publicou um estudo feito por um colegiado de autores que levava título sugestivo: Is Friday the 13th bad for your health? – Sexta-feira 13 é dia ruim para a saúde?”.

Para evitar ao distinto leitor o trabalho de ler o artigo inteiro, dou logo a conclusão: parece que sim. No levantamento feito pelos autores, parece que acidentes rodoviários, por exemplo, ocorrem com maior frequência numa sexta-feira 13 do que em outras sextas-feiras. É verdade que não é tão complicado fazer com que estatísticas confirmem a tese que o autor queria demonstrar. Seja como for, mais vale ficar com um pé atrás.

E hoje é justamente sexta-feira 13. E 13 de agosto, ainda por cima! Para nós, brasileiros, o fato de o 13 de agosto cair numa sexta-feira reforça a maldição. Logo mais adiante, explico.

O palavrão que dá título a este post foi composto a partir de raízes gregas. Decompõe-se assim: Παρασκευή (Paraskeví=sexta-feira) + δεκατρία (decatría=treze) + φοβία (fobía=fobia). Juntando as pontas, fica: Pavor de sexta-feira treze. Muita gente fina faz parte do clube dos que detestam esse dia, acredite. Há gente que evita até pôr os pés fora de casa.

A origem da superstição é religiosa. A tradição cristã ensina que Jesus foi crucificado numa sexta-feira, no dia seguinte à última ceia, refeição compartilhada por 13 comensais. O número 13 foi, portanto, um mau presságio que anunciou um desenlace trágico.

Já a implicância com o mês de agosto não vem da tradição cristã. É coisa nossa. Alguns acontecimentos dramáticos atingiram a política brasileira em agosto.

Getúlio Vargas suicidou-se num 24 de agosto, enquanto Jânio Quadros renunciou num 25 de agosto. O ex-presidente Juscelino Kubitschek e o canditato à presidência Eduardo Campos morreram em agosto, ambos em acidente trágico. Dilma Rousseff foi destituída da Presidência num 31 de agosto. A maldição de agosto também atingiu o general presidente Costa e Silva, que teve um ataque cerebral e foi afastado do cargo em 31 de agosto de 1969. Até Carmen Miranda, que não estava na política mas era a estrela maior da música brasileira, faleceu num 5 de agosto.

Antes de toda essa mortandade, não sei por que razão, agosto já era conhecido como “mês do desgosto”. Minha avó dizia ainda que “agosto é mês de cachorro louco”. Não sei se haveria base científica, mas assim falavam os antigos.

Portanto, quando o 13 de agosto cai numa sexta-feira, todo cuidado é pouco! Ainda mais com covid na praça e, pior que tudo, com Bolsonaro de timoneiro. Valei-nos, São Benedito!

Sem luz no fim do túnel

Guadelupe, joia francesa do Caribe

José Horta Manzano

Do antigo império colonial francês, sobraram alguns retalhos, coisa pouca perto do que havia antes. Nas Américas, o maior território é a quase despovoada Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, lindeira com o Amapá. Interessa a Paris sobretudo por abrigar um centro de lançamento de foguetes.

Junto à costa do Canadá, sobrou ainda um minúsculo arquipélago – Saint Pierre et Miquelon –, batido pelos ventos, lambido por ondas violentas e habitado por menos de 6 mil almas, quase exclusivamente pescadores.

Mas a verdadeira joia são a Martinica, Guadelupe e Saint Martin, pequenos grupos de ilhas situadas nas verdes águas do Caribe, um paraíso muito apreciado por hordas de turistas que vêm especialmente da metrópole comer siri e tostar ao sol. Saint Martin é uma ilha minúscula, que a França compartilha com a Holanda.

Já Guadelupe e a Martinica são maiorzinhas e inteiramente francesas. Todos esses resquícios do antigo império perderam, há tempos, o estatuto colonial. Fazem oficialmente parte do território nacional, com deveres e direitos idênticos aos dos territórios metropolitanos, exatamente como Paris ou Marselha.

A pandemia de covid-19 está mais ou menos controlada na Europa. Digo “mais ou menos” porque, com essas novas variantes, focos ressurgem aqui e ali a toda hora. No entanto, nos territórios franceses do Caribe a coisa está bem pior. A situação está pra lá de feia. Guadelupe e Martinica, que, levando em conta os turistas, perfazem um total de quase um milhão de pessoas, estão pulando miudinho.

Os hospitais estão abarrotados. Acabo de ouvir no rádio o testemunho de médicos de hospital que confessam que, a cada nova entrada de paciente, estão tendo de fazer terrível triagem e decidir quem tem mais chance de sobreviver e quem tem menos. Exatamente como aconteceu em Manaus, estão faltando bombonas de oxigênio.

Quem tiver mais chance de sobreviver, vai receber alguma assistência; quanto aos demais, serão entregues à própria sorte. Hoje de manhã, no principal hospital de Guadelupe, já havia 17 pacientes de covid, todos em estado gravíssimo, acomodados em macas nos corredores, sem oxigênio e sem assistência respiratória. Por falta de alternativa.

Atenção: não estamos falando do Bangladesh, mas da França! O responsável por essa situação infernal é a nova cepa de covid, a variante Delta, que pegou firme por lá. As autoridades da Martinica determinaram que os turistas abandonem a ilha o mais rápido possível. O toque de recolher, que já estava em vigor nas duas ilhas, foi ampliado. Agora é proibido sair de casa entre as 19h e as 5h da manhã. Mesmo fora desse horário, ninguém tem o direito de se deslocar num raio mais amplo que 5km em volta de sua residência.

Não me cabe dar conselho às autoridades sanitárias brasileiras. Afinal, esses funcionários são pagos para isso e supõe-se que estejam mais capacitados que eu. Mas a meus distintos leitores, que são todos gente fina, insisto: continuem a respeitar os gestos que salvam. São os mesmos que todos já conhecemos.

  • Fora de casa, use máscara, até (e principalmente) no elevador.
  • Cumprimente de longe, sem beijinhos e apertos de mão.
  • Evite, sempre que possível, lugares apinhados
  • Se puder fazer suas compras fora do horário de maior afluência, melhor será.
  • Não se preocupe se o álcool em gel resseca as mãos: use e abuse.
  • Quando chegar da rua, procure lavar cuidadosamente as mãos, o rosto, os óculos e, se possível, o cabelo.

No fundo, é questão de bom senso. A epidemia ainda não se foi. A variante Delta é da pesada, capaz de fazer estrago grande. Ninguém pode ainda garantir que a vacina seja eficaz contra essa cepa.

Se você sobreviveu até aqui, pra que facilitar? Güenta mais um pouquinho!

Variante Lota

José Horta Manzano

Faz uma semana, postei um artigo sobre as novas (e perigosas) variantes de covid-19 que têm aparecido com assustadora frequência. Expliquei que, no começo, cada uma tinha sido batizada com o nome do lugar ou do país onde tinha sido identificada pela primeira vez. Assim, tivemos a variante britânica, a brasileira ou de Manaus, a indiana, a sul-africana.

Só que a OMS – Organização Mundial da Saúde achou que não era boa ideia deixar que novas cepas recebessem nome de lugar ou de país. Esse costume podia acabar estigmatizando regiões inteiras do planeta e, como consequência extrema, podia até levar à não-notificação de novas variantes, de medo de que o nome do país ficasse malvisto.

Ficou então decidido atribuir uma letra grega a cada nova cepa. A antiga britânica virou Alfa; a sul-africana passou a chamar-se Beta; a de Manaus tornou-se Gama; a indiana, a mais perigosa até o momento, é hoje conhecida como variante Delta.

Contei também que outras variantes menos virulentas, das quais pouco se ouve falar, já estavam catalogadas, todas com letras gregas. Já se conhecem a Épsilon, a Zeta, a Eta, a Teta, a Iota, a Kappa e até a Lambda.

Certas matrizes de artes gráficas (popularmente conhecidas como fontes) têm a incômoda característica de usar exatamente o mesmo símbolo para o I maiúsculo e para o L minúsculo. As fontes da família Arial, amplamente utilizadas, têm essa peculiaridade. Veja só: ao deparar o símbolo l, não se pode afirmar de cara, sem examinar o contexto, se se trata de i maiúsculo ou de ele minúsculo.

É o que deve ter acontecido como o funcionário que redigiu um artigo provavelmente traduzido do inglês e publicado n’O Globo. Tanto a manchete quanto o corpo do artigo falam de uma certa variante “Lota”. Se vê que não leram meu post. Ou, se leram, não prestaram atenção. Lota não é letra grega, portanto, não pode ser nome de variante de covid-19. O nome da nova cepa é Iota, com I inicial.

Iota, variante surgida nos EUA, recebeu por nome a nona letra do alfabeto grego, ancestral de nosso jota. Por enquanto, as letras gregas ainda estão dando pro gasto. O problema vai se complicar quando for identificada a variante Ômega, última letra do alfabeto. Depois dela, como é que fica?

Observação
No caso da manchete do jornal, deve ter havido um primeiro escriba a grafar Lota, com L inicial. Na sequência, dúzias de veículos simplesmente copiaram a informação, ipsis litteris, sem tirar nem pôr, com erro e tudo, sem que ninguém se preocupasse em conferir.

É sinal dos tempos. É exatamente assim que se propagam as notícias falsas: com multidões repetindo o que ouviram, sem que nenhum cristão pare um instante pra refletir se a ave-maria é legítima.

Humilhação internacional

The Guardian, Londres

José Horta Manzano

Esta é do jornal britânico The Guardian, em artigo que descreve o fumarento e carnavalesco desfile de ontem, que misturava veículos de guerra e carros de passeio, como se vê na foto.

Os carros particulares parecem exasperados tipo “Ô, sai da frente, seu Tartaruga, que eu quero passar!”. Ou não?

A expressão “banana republic” dispensa tradução.

A vergonha fumacenta

José Horta Manzano

Faz semanas que se alevanta a grita pelo impeachment do presidente da República.

Ontem, um Brasil atônito assistiu a um folclórico desfile de fumacentos calhambeques que vagamente lembravam tanques de alguma guerra do passado. Foi espetáculo grotesco capaz de envergonhar o inexistente exército da Costa Rica. Com isso, a temperatura subiu alguns graus.

Ato contínuo, o PDT, partido que já foi de Brizola e hoje é de Lupi, apresentou à PGR pedido de perícia e interdição do presidente Bolsonaro por incapacidade mental.

Erraram. O pedido certo era de interdição por burrice. Acertavam no milhar.

Ensaio geral?

arquivo pessoal deste blogueiro

José Horta Manzano

Este blogueiro, embora fosse bem jovem, já estava em idade de ouvir o zum-zum que correu a cidade na manhã de 1° de abril de 1964. Ouvir e escutar é uma coisa; entender é outra. Acho que, tirando os galardoados que tinham dado as ordens, ninguém entendia direito o que estava acontecendo. Nem mesmo – e principalmente – os que conduziam os brucutus.

Foi no fim da manhã que a voz correu e chegou até nós, povinho ignaro e sem importância. Falava-se em golpe de Estado. Como é que é? De novo? Mais um? Quem foi desta vez? (Sem ser corriqueiro, golpe de Estado não era algo que espantasse naqueles tempos.)

Numa época sem internet, sem redes sociais, com rádio transmitindo em cadeia única e com as raras tevês tocando música, as notícias se arrastavam a passo de tartaruga. Para nós, adolescentes, a novidade não fedia nem cheirava. A vida continuou, a escola pra quem estudava, o trabalho pra quem trabalhava.

Para os mais velhos, especialmente para os que se lembravam dos bombardeios sofridos pela cidade na Revolução de 1924, restou o temor de ver de novo gente sendo esmagada por bombas largadas por aeroplanos. Fora isso, como todos tinham na memória recente os movimentos de 1924, 1930, 1932, 1935, 1945 e 1955, esse não passava de um a mais.

Não foi senão algum tempo depois que nos ensinaram que aquilo não tinha sido um golpe de Estado, mas uma Revolução. Sei que, hoje em dia, pôr na mesma frase as expressões “31 de março” e “Revolução” causa frisson. Mas, na época, ninguém se abalou. Assim foi.

É claro que, “golpe” ou “revolução”, os acontecimentos da madrugada de 1° de abril de 1964 não surgiram do nada, resultado do mau humor de dois ou três generais que houvessem comido salada de pepino à meia-noite. O movimento estava fermentando fazia semanas, meses talvez. Naquela noite, amadureceu e estourou. Só que, como todo levante que se preze, germinou em silêncio, no escurinho dos quartéis, em conciliábulos para meia dúzia de iniciados. Para os demais, boca de siri.

Neste 2021, o capitão que imagina nos governar, sentindo que perde rapidamente o pouco apoio que tinha, determinou que manobras militares ostensivas se realizassem em Brasília, ao vivo e em cores, bem no dia em que o Congresso deve votar uma matéria ultrassensível. Todos interpretaram a exigência presidencial como expediente intimidatório sobre os parlamentares – e sobre a população. Uma espécie de “Quem manda no meu exército sou eu”.

Jair Bolsonaro ainda usava calça curta em 1964. Há de ser por isso que não se dá conta de uma verdade elementar: golpe de Estado não se anuncia de véspera, especialmente pondo brucutus no asfalto. Ele está assumindo um tremendo risco. Sem necessidade, está apostando no tudo ou nada antes da hora. Há dois caminhos possíveis. Só dois, não vejo mais nenhum.

Se os parlamentares se intimidarem com os canhões e votarem como deseja o capitão, ele vai conseguir alguns pontos. Não será o vencedor da guerra, mas terá ganhado uma batalha, o que lhe permitirá continuar no páreo.

Já se os parlamentares não ligarem a mínima para os canhões e derrubarem a medida tão desejada pelo capitão, este último terá perdido o pouco que lhe resta de moral. Todos vão ficar sabendo que o desprezo pelo presidente é tamanho, que nem brucutus no asfalto assustam mais ninguém.

Em matéria de golpe de Estado, não há ensaio nem ameaça – só a ação definitiva conta. E ela tem de ser única, imprevista, radical e certeira. Não há segunda chance.

Voto à antiga

Ascânio Seleme (*)

Beijo na cédula
Veterano mesário de eleições em São Paulo conta a história de um candidato a deputado federal que tinha muito apoio entre as mulheres porque era bonito, dono de grandes olhos verdes e um sorriso cativante. Era o jornalista e advogado Emílio Carlos, que perdeu alguns milhares de votos na sua primeira eleição porque as cédulas vinham borradas por batom de mulheres que beijavam o papel numa prova de ternura. O candidato acabou sendo eleito em 1946 e permaneceu na Câmara até morrer, em 1963. Pode parecer bobagem, mas a história mostra como era fácil anular votos bons num pleito com cédulas de papel.

Bruno Covas
Bolsonaro não foi o único a criticar o ex-prefeito Bruno Covas por ter vindo ao Rio com o filho assistir à final da Libertadores em meio a pandemia. A diferença é que o presidente o atacou depois de morto, para obter um ganho político. Assim é Bolsonaro. Um canalha que desrespeita os mortos e arremeda, rindo, doentes de Covid que não conseguem respirar. Não vale nada mesmo.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 7 agosto 2021.

Bolsonaro é a pedra no sapato

Fernando Gabeira (*)

Com um país tão interessante, não consigo ainda explicar por que tanta confusão converge para sua capital, Brasília.

Essa história da vacina da Davati, por exemplo, é um roteiro de chanchada. Um dirigente de empresa que recebe auxílio emergencial e um cabo da PM que não consegue pagar o aluguel resolvem oferecer 400 milhões de inexistentes vacinas AstraZeneca.

Usam um reverendo para se aproximar do governo. O reverendo é amigo de um homem que se diz super-homem. Sua entidade religiosa falsifica logotipos da ONU, e ele se diz embaixador da paz. Ungido por quem? Por outro reverendo, o famoso Moon. Sua grande missão diplomática foi ir a Israel para unir judeus e árabes, tarefa que, como todos sabemos, alcançou um perene êxito.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 9 agosto 2021.

Os primos ricos

Manchete de O Globo

José Horta Manzano

Há quem diga que boxe, uma variante do soco-inglês, não é esporte, é resquício de briga de neandertais. Há quem diga que nado artístico não é esporte, é balé. Há quem diga que hipismo não é esporte, pois quem dá duro é o cavalo, não o homem. Há ainda quem diga que skate (ou esqueite, forma ignorada, mas que aparece no dicionário) também não é esporte, que é brinquedo de pré-adolescente.

Seja como for, todas essas modalidades são reconhecidas pelo Comitê Olímpico Internacional e têm o direito de aparecer nos Jogos Olímpicos. Portanto, se reclamações há, não briguem comigo. Convém escrever uma cartinha para o Comitê, sediado em Lausanne (Suíça).

Falando em Lausanne, é cidade pela qual tenho carinho, por ter lá passado meus verdes anos. Mas isso já faz muito tempo e não vem ao caso neste momento.

A manchete que reproduzo acima me deixou um tanto surpreso. Informa que o COB, entidade encarregada de supervisionar o esporte olímpico no Brasil, planeja injetar mais dinheiro no skate. O mistério dessa lógica me parece difícil de desvendar.

Metade das 6 medalhas de prata do Brasil foram conquistadas por skatistas. Com ou sem dinheiro do COB, esse esporte já desliza sozinho sobre suas rodinhas. Acho que o Comitê devia mais é se preocupar com os parentes pobres, aquelas modalidades em que nossos atletas tiveram participação modesta ou nula.

No atletismo, há dezenas de modalidades em que nenhum brasileiro participou. No ciclismo, idem. Há ainda a escalada, a esgrima, a ginástica acrobática, o tiro esportivo e com arco – cada um deles comportando diferentes modalidades.

Se o COB, além de colher os louros da vitória, tem real intenção de trabalhar pelo desenvolvimento do esporte no Brasil, devia cuidar dos parentes esquecidos, não somente dos primos ricos.

Umas bobagens e outras

Carlos Brickmann (*)

As bobagens
Desemprego de quase 15% da população? Bobagem: o ministro pôs a culpa no IBGE. Quase 600 mil mortos na pandemia? Bobagem: o ritmo se reduziu, morrem menos de mil por dia, no máximo o equivalente a cinco desastres do avião da TAM em Congonhas. Preços da comida multiplicados? Bobagem: quem comia carne nem lembra mais como era, quem comia frango come ovo, quem comia ovo irá, um dia desses, receber a nova Bolsa Família.

O Governo tem coisas mais importantes a fazer: por exemplo, condecorar a primeira-dama Michelle Bolsonaro com a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz, destinada a pessoas com atuação destacada “no campo das atividades científicas, educacionais, culturais e administrativas” que obtêm “resultados benéficos à saúde física e mental dos brasileiros”. Além de sua esposa, Bolsonaro condecorou seus ministros da Educação, Comunicação, Turismo, Relações Exteriores. Outros beneméritos homenageados são os presidentes da Câmara e do Senado. E que é que fizeram para receber esta bela homenagem, com o nome de Oswaldo Cruz, pai da vacinação no Brasil?

O ministro do Turismo, por exemplo, levou cinco assessores para reunião internacional, onde havia três vagas para o Brasil, incluindo a dele. Um bom passeio é benéfico à saúde física e mental de qualquer pessoa, e os caronas são brasileiros. Foi este ministro que, na sanfona, fazendo a trilha sonora de Bolsonaro, destroçou a Ave Maria, alegrando quem odeia música.

E Michelle?
A primeira dama é um motivo de orgulho para seu marido presidente. Pois não é que, percebendo como o frio maltratava os moradores de rua, foi à luta e conseguiu 148 agasalhos para doar aos pobres? Como o passarinho jogando água com o bico num dos incêndios da Amazônia, ela fez sua parte. Foi de coração, fez o melhor que pôde. E conseguiu 148 agasalhos (número oficial) sozinha, sem ter sequer um Queiroz para ajudá-la. Tudo sozinha, apenas com os meios de que dispunha: carro oficial, seguranças e motorista.

A patriota
É a terceira condecoração que a esposa de Bolsonaro recebe em seu Governo. Já ganhou a Medalha da Vitória, que normalmente é concedida a quem contribuiu para divulgar a coragem dos soldados que combateram o fascismo na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, participou de conflitos internacionais defendendo o Brasil ou integrou missões de paz. Foi agraciada com a Ordem do Mérito da Defesa, destinada a homenagear quem prestou “relevantes serviços ao Ministério da Defesa ou às Forças Armadas do Brasil”. E agora recebe a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz, categoria Ouro, a mais alta.

O caro leitor não sabe o que foi que Michelle fez para receber as medalhas? Vá pesquisar, uai! Este colunista é que não vai combater sua ignorância sobre o tema – até porque também não sabe. O fato é que Michelle tem mais medalhas do que a olímpica Rebecca.

Inculta Flor do Lácio
O governador João Doria inaugurou o Museu da Língua Portuguesa (uma beleza: bem melhor do que o que pegou fogo, e que já era muito bom) e convidou todos os ex-presidentes da República, mais os presidentes de todos os países de língua portuguesa. Marcelo Rebelo, de Portugal, e Jorge Fonseca, de Cabo Verde, vieram. Angola mandou o ministro da Cultura. Temer e Fernando Henrique compareceram. Sarney teve um problema de saúde. Bolsonaro, Lula, Dilma, Collor? Esse negócio de cultura é chato!

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Imunização coletiva

José Horta Manzano

Ano e meio depois do estouro da pandemia de covid, começam a aparecer estudos de larga escala, baseados na observação da evolução de grande número de casos num longo período. Um deles acaba de ser publicado na Suíça.

No Brasil, a busca pela vacinação tem ocultado aquela parte da população que se recusa a estender o braço. Por certo há, em nosso país também, um certo número de ‘antivax’ obstinados – o maior deles sendo justamente o presidente da República. Mas a massa dos que correm atrás da vacina ainda tem gritado mais alto.

Nos países europeus em que a campanha de vacinação está mais adiantada, os ‘antivax’ já começam a sobressair. Há os que, apesar de um bilhão de humanos já terem sido vacinados, ainda declaram ter receio de ser ‘cobaias’. Há os que, emboram tomem alegremente vacina antimalárica quando viajam a um país africano, não querem saber da anticovídica. Há ainda os que simplesmente têm medo de injeção.

E há os piores, aqueles que são burros e egoístas ao mesmo tempo, e que esperam ser protegidos pelo resto da população. São como o capitão, que não perde ocasião de repetir que “será o último a ser vacinado”. Botam fé no conceito da imunização coletiva, ou “imunidade de rebanho”, como preferem. Em sua fantasia, imaginam que, assim que a maior parte dos habitantes estiver imunizada, os não vacinados vão acabar sendo “contaminados” pela vacina alheia, sem nem mesmo precisar estender o braço.

Estão iludidos. Não é assim que funciona. O estudo suíço comprova que as pessoas não vacinadas têm risco 80% maior de contrair a covid. Como exemplo, na região do país onde ele foi levado a cabo, nas 2 últimas semanas de julho foram declarados 1030 casos novos de covid. Dessas 1030 pessoas, só 9 haviam sido vacinadas – as 1021 restantes não tinham recebido nenhum imunizante. Em outros termos, de cada 100 novos infectados, 99 não tinham sido vacinados. Isso mostra também que os benefícios da vacinação da maioria não “contaminam” nem se propagam aos demais.

Constata-se que essas vacinas anticovid, embora recentes, têm eficácia excepcional. Mas fazer novena não basta: precisa estender o braço e receber a picada. As palavras do chefe da Brigada Científica Suíça Anticovid são categóricas:

“Se os que resistem a se vacinar estão contando com a imunização coletiva pra escapar, estão enganados. Mais cedo ou mais tarde, todos eles apanharão a covid.”

Credulidade

José Horta Manzano

Com o passar dos anos, a gente vai amadurecendo e perdendo certas ilusões. Perder ilusões é chato. O mundo fica mais terra a terra, pão pão queijo queijo. O lado bom disso tudo é que a gente acaba ficando mais blindado contra algumas armadilhas.

Fico impressionado com a credulidade de tanta gente fina. A historinha que li hoje é divertida. Antes de mais nada, precisa saber que Itu, situada a 100km de São Paulo, é conhecida como a cidade dos exageros. Não sei bem quem foi o iniciador dessa legenda urbana, o fato é que funciona como apelo turístico. Todos sabem que Itu é o lugar onde tudo é grande.

Estes dias, um jovem resolveu fazer uma brincadeira. Postou nas redes uma foto com seu cartão de vacinação. Disse que tinha ido a Itu tomar vacina e que lhe tinham dado um cartão enorme. Na montagem, realmente o documento cobre metade do corpo do rapaz. E não é que muita gente acreditou?

A postagem ‘viralizou’, como se diz. Pelo que conta o jovem, “algumas pessoas disseram até que dava pra ter comprado mais vacina com o valor gasto na impressão da carteira de vacinação”.

Pode um negócio desses? Dá até medo de ver a que ponto o povo acredita em tudo o que contam. É comovente, mas também inquietante. A gente começa a entender a razão pela qual tanta gente bota fé nas lorotas do capitão.

Como é que se faz pra ensinar à juventude que não convém acreditar em tudo o que se vê, nem em tudo o que se ouve ou lê? É urgente encontrar solução.

Do jeito que está, vamos direto pro buraco. Com fábricas de notícias falsas brotando por toda parte (inclusive e principalmente no Planalto), a juventude vai estar cada vez mais desorientada.

Que há de novo?

José Horta Manzano

Bolsonaro está se comportando exatamente como aquele louco de hospício surtado, que, mesmo contido por camisa de força, continua berrando que é Napoleão. Agora, algemado por inquérito aberto pela superior magistratura, continua a espernear, afirmar que tem provas de fraude nas eleições, ameaçar botar “seu” exército nas ruas de brucutu e tudo, sublevar o povo, incendiar o país. Blá blá blá. É reprise de filme antigo.

Essa é a parte folclórica. Que o capitão não bate bem da bola, já é de conhecimento geral. Que ele não tem prova nenhuma de fraude em eleição, o Brasil já entendeu faz tempo. Que ele não vai botar exército algum em rua nenhuma, estamos carecas de saber. Então, que há de novo?

Nesse dramalhão, o que começa a alterar a disposição das peças no tabuleiro é a entrada em cena de novo personagem. Até agora, o presidente tinha estrebuchado sozinho, ator único de monólogo incoerente. Só que o palco era defeituoso e os únicos coadjuvantes eram acólitos tipo Pazuello. A alta magistratura do país, representada pelo STF e pelo TSE, decidiu mostrar a que veio, e botou pé no palco. Entrou firme. Mandou logo um “alto lá!” que foi ouvido ‘do Oiapoque ao Chuí’, como se dizia. Já não era sem tempo.

Não sei quais serão as consequências, no Brasil, do aparecimento de um protagonista de peso. Por aqui, o efeito foi imediato. E positivo. Logo de manhã, tanto a rádio suíça quanto a francesa abriram o jornal falado com a notícia do dia. Em meio ao relato de vitórias nos Jogos Olímpicos, todos aqui ficaram sabendo que Monsieur Bolsonaro está sendo investigado pelos persistentes ataques ao sistema eleitoral de seu país”.

À primeira vista, não parece um crime repugnante, como os que outros dirigentes autoritários cometem. Nada a ver com o russo Putin que envenenou um oponente, com o bielo-russo Lukachenko que sequestrou avião de linha pra apanhar um dissidente, com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita que assassinou um jornalista bisbilhoteiro no recinto de um consulado do país no estrangeiro.

Assim mesmo, repugnante ou não, crime sempre é crime. É reconfortante ver que o mundo está começando a entender que, apesar dos esforços de Bolsonaro e seus ministros para rebaixar nossa condição, nosso país não se tornou um pária entre as nações, nem uma republiqueta bananeira.  Nem há de se tornar.

Continuamos dando provas de que nossa democracia está viva, que é sólida e que funciona. Ainda temos instituições para contrapor a aprendizes de ditador. Alguém imaginaria Putin, Lukachenko ou o príncipe saudita “sob inquérito” aberto pela mais alta magistratura do país deles?

Ânimo, Brasil decente! Nem tudo está perdido!