Agrotóxicos

Os europeus parecem estar mais preocupados do que os brasileiros, os mais afetados

 

José Horta Manzano

Você sabia?

Leis e regulamentos são, muitas vezes, hipócritas. A maioria dos países europeus proíbe a utilização de dezenas de agrotóxicos, aqueles da pesada. Já os regulamentos de exportação desses mesmos países são bem mais condescendentes quando se trata de exportar os ditos venenos. Em resumo: fabricar e exportar pode; espalhar em solo europeu, nem pensar!

A indústria mundial de fertilizantes, integrada por firmas da estatura econômica de uma Syngenta ou de uma Bayer, é poderosíssima. Se as leis europeias parecem contraditórias (pode fabricar, mas não pode utilizar), ponha-se o milagre na conta dos ativíssimos lobbies financiados pelos fabricantes.

Assim como agem para conseguir manter a fabricação em solo europeu, filiais desses mesmos lobbies agem em países mais atrasados, para que o uso de pesticidas perigosos continue permitida. Se esses produtos são proibidos na Europa, não é por capricho de legisladores. É porque estudos demonstraram sua nocividade.

Nessa prateleira de venenos, há os cancerígenos, os que matam abelhas, os que acabam com os peixes. E todos eles terminam, pelo menos em parte, nos leçóis freáticos, contaminando a água que os humanos vão beber amanhã.

Quando as rédeas do país estão entregues ao clã do Bolsonaro, então, ai, meu Deus! Deve ter um bocado de gente ganhando comissões polpudas pra garantir que continue autorizada a importação de venenos agrícolas. “O povão que se lixe” – devem dizer – “meu croissant chega todos os dias fresquinho de Paris”.

É interessante saber que o Brasil é o segundo maior importador mundial de agrotóxicos, incluindo os que estão proibidos na Europa. Em 2018, importou 10 mil toneladas. Em 2019, foram 12 mil toneladas. Não disponho de dados mais recentes, mas é permitido desconfiar que, com a chegada do capitão ao Planalto e as autorizações que tem concedido para uso desse tipo de veneno, devam ter aumentado muito.

Mas o mundo dá voltas. Os netos do capitão ainda hão de amaldiçoar o avô, quando descobrirem que a polinização desapareceu por falta de abelhas, e que não se pode mais tomar água por estar contaminada. Mas aí será tarde. O chato é que será tarde para nossos netos também.

Mas tem remédio. Quando a coisa chegar a esse ponto, basta parar de utilizar os venenos. E aguardar umas poucas centenas de anos. A natureza sempre acaba por se regenerar. Passa logo.

Linguagem gestual

José Horta Manzano

Eu não conhecia a nobre deputada acriana retratada acima. Ao votar nas prévias do PSDB, a moça desentendeu-se com os colegas, fez denúncias de corrupção e armou um fuzuê. Para coroar, berrou: “Sou Bolsonaro!”.

Suponhamos agora que o distinto leitor nunca tenha visto foto da deputada e desconheça os fatos. Olhe bem a imagem. Francamente, o ar suave da moça já indica quais são suas simpatias. Ou alguém imaginava que ela fosse admiradora de Madre Teresa de Calcutá?

O 17

José Horta Manzano

Ao demorar para abraçar um partido, Bolsonaro está bobeando. Está deixando que se cimente o “recall” do 17, número que 57 milhões de eleitores apertaram no teclado da urna eletrônica para elegê-lo.

Se continuar bobeando, nas próximas eleições ainda é capaz de aparecer algum incauto que, certo de estar votando no capitão, vai apertar o 57, número do jacaré.

Quanto à ema, não tem risco: não consta do jogo do bicho.

Passa ser

José Horta Manzano

Não acredito que a pisada na bola seja consequência da intromissão do Bolsonaro no Enem; se bem que, pensando bem, tem um pouco a ver, sim senhor.

Não é de hoje que a Instrução Pública vem sendo mandada pra escanteio “nesse país”, como diria nosso guia. Mas há que reconhecer que, com os personagens peculiares que escolheu para chefiar o Ministério da Educação, o capitão está dando sequência ao que outros já vêm fazendo faz tempo. Tem se esmerado mais que os anteriores, é verdade, mas a linha de conduta é a mesma. O intuito de todos eles é desinformar. Afinal, povo desinformado é mais facilmente manipulado. Ou não?

Aos ouvidos de quem não está acostumado a ler, a expressão “passa a ser”, pode ser entendida como “passa ser”. O escorregão na chamada da Folha não decorre de falta de atenção; é falta de conhecimento mesmo. Os que escrevem “passa ser” são os mesmos que escreveriam “vai começar chover”.

Falta instrução, que só viria com mais leitura. Falta leitura, que teria de ser incentivada pela escola. Falta escola, que teria de ser implantada pelo governo. Falta governo, que teria de ser eleito por um povo instruído. Falta povo instruído… e o círculo vicioso se fecha. Será que um dia vai se romper?

Dia da Bandeira

José Horta Manzano

O golpe de Estado de 15 de novembro de 1889 destronou o imperador e instaurou regime republicano. Naquela altura, um punhado de militares de alto coturno era adepto das teorias sociológicas, filosóficas e religiosas do francês Auguste Comte (1798-1857), o idealizador da corrente de pensamento que viria a ser conhecida como positivismo. É dele a frase L’amour pour principe, l’ordre pour base, et le progrès pour but” (O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por objetivo).

Desterrado o imperador do Brasil e instaurada a república, fez-se necessário alterar rapidamente o símbolo maior – a bandeira. A que estava em vigor, que trazia a coroa imperial e a esfera armilar, já não servia. Em poucos dias, deu-se um jeito.

Para o novo estandarte, conservou-se o que era básico: o losango amarelo sobre fundo verde. Apagados os símbolos imperiais, sobrou um vazio no centro. Para preenchê-lo, os criadores complicaram a vida de futuros desenhistas, escolares e costureiras. Inseriram um globo azul rodeado de estrelas representando o céu do Rio de Janeiro no momento em que D. Pedro II foi apeado. Dado que cada uma delas ocupa um lugar preciso, as estrelas dão muito trabalho na hora de desenhar, esculpir, costurar, pintar ou bordar a bandeira.

Não contentes com essa extravagância, os criadores da flâmula procuraram um complicador. Decidiram inserir na bandeira a conhecida frase do sociólogo francês que admiravam. A ideia, a meu ver, era descabida. Muitos países têm divisa oficial, mas não é comum (nem necessário) vê-la inscrita na bandeira.

Alguém já imaginou a bandeira francesa estampada com a frase “Liberté, Égalité, Fraternité” (Liberdade, Igualdade, Fraternidade)? Ou a alemã carregando “Einigkeit und Recht und Freiheit” (Unidade e Direito e Liberdade)? Ou ainda a bandeira norueguesa com um “Alt for Norge” (Tudo pela Noruega) talvez grafado no braço mais longo da raçuda cruz escandinava? É questão de gosto. A mim, parece bastante cafona.

Bom, resolveram inserir a frase e ninguém os convenceu do contrário. Só que, por extenso, ela não cabia. Sem cerimônia, cortaram o que lhes pareceu secundário, deixando só o essencial. Mas acho que não leram direito ou não tinham conhecimento suficiente da língua francesa. Cortaram demais. A tríade sobre a qual Monsieur Comte tinha construído sua teoria perdeu uma pata. Em vez de “amor, ordem e progresso”, ficou só “ordem e progresso”. O amor escorreu pelo ralo.

Não está claro se era uma premonição. É permitido imaginar que os criadores da bandeira intuíram que, na República nascente, amor não haveria. Passadas 13 décadas, pode-se dizer que, em parte, acertaram. Assim como nunca houve ordem na nova República, até amor e progresso têm andado pra trás nestes tempos obscurantistas.

Até uns 20 anos atrás, a gente sentia o vento do progresso batendo no rosto; o país parecia correr para um futuro risonho. Hoje sobrou uma amarga lembrança de um tempo em que a gente achava que a felicidade estava na virada da esquina. Quanto ao amor, nestes tempos de ódio insuflado pelo capitão e destilado por redes e robôs, melhor nem falar.

Está na praça uma petição impulsionada por pessoas que gostariam de resgatar o amor que os criadores da bandeira republicana desdenharam; desejam acrescentá-lo ao lema, completando a tríade positivista. Certamente estão movidos por excelentes intenções, mas não creio que seja boa ideia. Este caso é daqueles em que a emenda periga sair pior que o soneto.

Em primeiro lugar, se bastasse escrever na bandeira as palavras-chave de um futuro que desejamos, a ordem e o progresso, que estão lá gravados há 132 anos já teriam surtido efeito e já teriam dado o ar de sua graça. Não deram. Portanto, pra que serve acrescentar o amor? Pra dar mais trabalho às costureiras que pregam letras nas bandeiras?

Em segundo lugar, escrever – seja o que for – na bandeira nacional é péssima ideia. Bandeira é feita para distinguir nosso país em meio a uma quantidade de países estrangeiros. Como marketing, qualquer palavra anotada é um desastre. Já parei de contar as vezes em que tive de responder a quem me perguntava o significado daquelas palavras. (Sendo que, após minha resposta, me pareceu às vezes entrever a sombra de um sorriso indulgente. Talvez seja impressão minha.)

Certos países árabes trazem inscrições na bandeira. Mas a caligrafia árabe é artística, elegante, um desenho das 1001 noites, uma festa para os olhos. A gente não entende nada, mas aprecia. Já nosso castigado lema, escrito em caracteres latinos, não tem graça. Um estrangeiro olha para aquilo como olharíamos para palavras escritas em turco.

Se este blogueiro ainda tivesse o vigor da juventude, levantaria bandeiras (sem trocadilho), desceria às ruas e lançaria uma campanha exigindo que se eliminasse toda inscrição em nosso belo e original pavilhão. Por si só, ele já é reconhecível de longe, entre outros mil. No centro, basta deixar o globo azul e sua faixa branca, virgem, sem palavras. Como se sabe, as palavras são de prata, mas o silêncio é de ouro.

Quanto às estrelas, bem, já que estão lá, que fiquem. Na próxima existência, voltarei pra reclamar sua supressão. Se ainda houver Brasil, naturalmente.

Bahrein

José Horta Manzano

O Bahrein, reino insular do Oriente Médio, é um país muito pequeno, mas muito rico. Pelas contas do FMI, seu PIB em 2017 foi de US$ 52.000 por habitante. Para efeito de comparação, no mesmo ano o Brasil cravou US$ 15.500 por habitante. Uma senhora diferença de 1 pra 3,5.

A economia do país é inteiramente baseada na extração de petróleo. Antes da descoberta do óleo negro, a ilha era habitada por tribos que comerciavam com outros povos da região. Não sei bem o que vendiam nem o que compravam, mas esse detalhe pouco interessa à nossa história.

O fato é que, como todo o mundo sabe, as reservas de petróleo não são infinitas. É difícil dizer quanto tempo vão durar, porque vai depender do ritmo de extração. Mas, do jeito que vão as coisas, com o mundo buscando (e encontrando!) fontes renováveis de energia, não vai demorar muito pra que o petróleo perca boa parte de seu interesse e os preços despenquem.

Os dirigentes do pequeno país não são bobos nem vivem dentro de uma bolha. Sabem perfeitamente que, se nada fizerem, dentro de poucas décadas voltarão a andar de camelo nas areias de seu desértico país. Com chance, poderão vender alguns quilos de tâmaras a alguma caravana de passagem.

A fim de não sofrer esse triste fim, já faz anos que vêm investindo para transformar o reino em um polo de “soft power”, um moderno centro de tecnologia, de telecomunicações e de turismo. Só assim escaparão de um retorno a condições medievais.

Bolsonaro esteve lá estes dias, pra inaugurar a embaixada do Brasil em Manama, a capital, e pra saudar o soberano. Na véspera de ser recebido pelo rei, nosso presidente estava ainda em Dubai. Foi lá que, imaginando que o auditório fosse integrado por um bando de ignorantes, contou a grande mentira que marcou seu passeio médio-oriental: que a Amazônia ainda estava “do mesmo jeitinho e do mesmo tamanho que tinha quando chegaram os portugueses 500 anos atrás”. A enormidade coincidiu com a publicação dos números de desmatamento do mês passado: 876,5 km2. Tem ideia do que isso signifique?

Faz dois dias, escrevi sobre o assunto. Volto a bater na mesma tecla porque acabo de me dar conta de que a superfície do Reino do Bahrein – com tudo incluído: a ilha principal, ilhas costeiras, camelos, o rei, os ouros e os mármores – atinge 785,0 km2. Resultado do páreo: só no mês de outubro, apesar do negacionismo crônico de Bolsonaro, o Brasil destruiu uma área de cobertura vegetal maior que a superfície do Bahrein inteiro!

Fico aqui calculando quantos barris de ouro negro o rei do desértico país não daria pra ter uma parte, uma pequena parte, um tiquinho desse verde todo que o Brasil vai destruindo a cada dia que passa. Nem que fosse meia dúzia de árvores.

Negacionismo improdutivo

José Horta Manzano

A fraqueza do Bolsonaro salta aos olhos. Faltando menos de seis meses para encerrar o prazo de se afiliar a um partido – condição indispensável para concorrer à eleição –, ele ainda não conseguiu encontrar nenhum que o acolha de olhos fechados e braços abertos. Nenhuma agremiação quer saber do capitão, com receio de que seu pé frio e sua imagem degradada contaminem o partido e causem dano aos demais candidatos. Tirando a turma do sim-senhor, ninguém quer ver seu nome associado ao do presidente. Se isso não é presidente fraco, o que será?

As origens de seu negacionismo são obscuras. Talvez nem Freud explique. Mas as consequências são sempre previsíveis. Funciona assim: dotado de raciocínio particularmente torto, o Bolsonaro se posiciona contra tudo o que o bom senso indica como bom para a população e, por consequência, para o Brasil. No sentido inverso, funciona também: ele será contrário a tudo o que for bom para o Brasil e, por consequência, para a população.

Basta surgir um fato novo, e a gente já sabe o que vai acontecer. Basta analisar: se for bom para a população, o capitão fatalmente será contra. E vice-versa. O exemplo maior foi o da vacina contra a covid-19.

Bolsonaro foi contra desde antes de ela ser lançada no mercado. Para ele, era questão de princípio: ser contra tudo o que possa melhorar as condições de vida e de saúde do povo que o elegeu. Ele não arreda pé dessa premissa.

O capitão não foi o único no planeta a ver a chegada da vacina com certa desconfiança. Será que não foi desenvolvida rápido demais? Todos viram que ela ficou pronta em tempo recorde. Será que funciona? Muitos duvidaram que funcionasse. No início, os questionamentos eram numerosos. Havia mais perguntas que respostas.

Só que as respostas foram chegando. Não se pode lutar contra os fatos. Com milhões de cidadãos vacinados em dezenas de países, e com a epidemia a ponto de ser controlada, não há mais como negar. Um a um, dirigentes desconfiados passaram a encarar a realidade. A vacina veio rápido, funcionava e era indispensável para frear o alastramento da epidemia.

O único que se recusou a aceitar os fatos foi nosso genial doutor Bolsonaro. Negou e continua negando. Não perde ocasião para repetir, com o orgulho dos ignorantes, que não está vacinado e que não tenciona vacinar-se.

Nestes meados de novembro, dirigentes de um bom punhado de países europeus (França, Áustria, Suíça, Alemanha, entre outros) procuram a melhor maneira de convencer sua população de que é necessário tomar vacina. Até Vladimir Putin, de costume tão reservado, foi à tevê implorar a seu povo que tomasse vacina.

Os governos estão propagandeando a imunização faz um ano. No entanto, uma quarta parte dos “vacináveis”, em média, se recusa a espichar o braço. E olhe que não foi por falta de incentivo. Desde que as vacinas foram lançadas, todos os governos têm feito campanhas intensas de convencimento da população. Talvez seja medo da agulha, mas nenhum “antivax” confessa.

Por seu lado, apesar de contar com o dirigente mais antivax do planeta – um bizarro capitão que não perde ocasião para desdenhar a ‘gotinha que salva’ –, o Brasil tornou-se um dos campeões mundiais da vacinação. Em vez das ruidosas passeatas de cidadãos refratários à imunização que se veem na Europa, temos mais é gente louca pra receber a segunda dose, a terceira, e quantas mais vierem.

Não é estranho o povo castigado pelo governo mais negacionista do mundo tornar-se campeão dos adeptos da vacina? No meu entender, é prova eloquente da fragilidade do Bolsonaro e do fracasso de sua imbecil teoria negacionista.

Xô, estropício terraplanista! Nem teu povo presta mais atenção às insanidades que proferes!

Cresceu rápido

José Horta Manzano

O caderninho de notas do jornalista Lauro Jardim não deixou escapar. Entre as anotações de 15 de nov°, aparece:

“André Mendonça chamou a atenção hoje, no Fórum Jurídico de Lisboa, organizado pelo IDP de Gilmar Mendes e com meia República presente. E não exatamente pelas suas intervenções nos debates.”

Dizem as más línguas que, caso seja confirmado como ministro do STF, Mendonça não será o primeiro a ostentar cabeleira fixa, daquelas que, por nunca crescerem, dispensam visitas ao barbeiro. Será sempre uma economia para os cofres da nação, que terão uma conta a menos para pagar.

A floresta intocada

Bolsonaro mergulhado nos ouros e nos mármores do Oriente Médio.

José Horta Manzano

Bolsonaro, o indesejado das gentes, não é bem-vindo em nenhum país civilizado. Não recebe convite para visitar nenhum deles. Sem ter o que fazer, perambula pela periferia do mundo. E leva junto os bolsonarinhos, que também parecem não ter nada mais importante pra fazer na vida.

Estes dias, está fazendo turismo nos palácios de ouro e mármore que ditaduras hereditárias levantaram, com o dinheiro do petróleo, sobre as areias do desértico Oriente Médio.

Nenhum jornalista ousou fazer-lhe a pergunta fatal: “Então, presidente, aquela promessa de campanha de transferir a embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, como é que fica?”. Não convém reavivar memória de ofensas passadas, justamente quando se está de visita à casa dos ofendidos.

Em discurso pronunciado neste 15 de novembro, Bolsonaro garantiu, alto e bom som, que a Amazônia continua virgem e intocada, exatamente como a encontraram os primeiros exploradores portugueses chegados em 1500.

Distorcida pelo linguajar peculiar do capitão, a frase saiu picadinha. Mas o fundo de seu pensamento era esse. Garantiu, sem corar, que as queimadas são um mito. Em seu raciocínio, a floresta, sendo úmida, não pode arder. (Me fez lembrar aquele impagável discurso em que o Lula ensinava que só havia poluição no Brasil porque a Terra gira; não girasse, não haveria poluição.)

Por coincidência, no mesmo 15 de novembro, o Instituto de Pesquisas Espaciais anunciou a triste verdade: diferentemente do que anuncia o capitão, a floresta amazônica continua encolhendo. Só no mês passado (outubro), 876,5 km2 viraram pó.

No Brasil, país acostumado a cifras gigantescas – de população, superfície, assaltos e mortes por covid –, esse número não impressiona. Em outras partes do mundo, não é bem assim.

A Suíça, por exemplo, abriga 8 milhões de habitantes espalhados por 26 cantões. Pois saiba o distinto leitor que a superfície de floresta amazônica brasileira destruída no mês de outubro é exatamente a mediana da área dos cantões suíços. Isso quer dizer que metade dos cantões tem superfície menor que 876,5 km2, enquanto a outra metade tem superfície maior que a zona desmatada. “Ah, mas a Suíça é país pequeno!” – dirá um desmancha-prazeres. Ah, é? Então leia o que vem a seguir.

A superfície que foi desmatada só no mês de outubro pode não impressionar no Brasil, mas deixa de queixo caído em outras partes do mundo. É mais que 8 vezes a superfície do município de Paris, número que impressiona qualquer francês. É mais que 7 vezes a área do município de Milão, vastidão de deixar abobado qualquer italiano. Para todos eles, é aterrorizante imaginar que o Brasil destrói, a cada 3 dias, a cobertura vegetal de uma área do tamanho de uma grande metrópole.

Ao fim e ao cabo, a mentira presidencial tem perna curta. Doutor Jair Messias não é o único canal de informação da plateia que acompanhou seu palavrório nas Arábias. Como pessoas bem formadas e bem informadas que são, todos eles, a estas alturas, já devem estar a par dos números do Inpe. Já conhecem a verdade. Eles, sim, dispõem de canais que lhes dão informações eficazes.

Não faço ideia de quem prepara os discursos do capitão. Há de ser gente que nunca sai da bolha. Eles parecem acreditar que o mundo é composto de devotos que bebem unicamente as “verdades” espalhadas pelos canais bolsonaristas.

Enganam-se, fazem o presidente dar vexame. De tabela, envergonham a todos nós.

Narrativa

José Horta Manzano

No domingo 14 de nov°, a deputada Joice Hasselmann soltou um tuíte venenoso:


Nenhum deputado bolsonarista se inscreveu para inspecionar o código fonte das urnas eletrônicas. O TSE abriu as portas para vistoria em 4/10. Eles só se interessam pela narrativa.


Estricnina pura. Em menos de 30 palavras, a doutora deu seu diagnóstico sobre o estado de espírito dos espalhadores de notícias falsas (em português: fake news). Nessa gente, o que domina é a falsidade. O que dizem é só “da boca pra fora”, como se dizia antigamente.

Os que praticam esse perigoso esporte de desinformação não são apegados à verdade. Se a notícia espalhada não bate com a realidade, dane-se a realidade.

Afinal, toda seita que se preze exige que os fiéis bebam as palavras do chefe, como se bebessem da fonte de água pura. Na qualidade de arautos do “mito”, são pagos pra divulgar o que seu mestre mandar.

Se o chefe disse que as urnas eletrônicas são um lixo, ninguém tem o direito de contestar, muito menos o de verificar. E há bobões que acreditam e seguem o enterro. Nenhum deles tem sequer a curiosidade de levantar a tampa do caixão pra ver se defunto há.

Piada de português


Piadas de português agora são de brasileiro


Nelson Motta

Estive alguns dias em Lisboa e Madri e fiquei emocionado em ver ruas cheias, comércio movimentado, bares, restaurantes, cinemas, teatros, shows e estádios lotados. As pessoas parecem mais leves e esperançosas. Máscara obrigatória em lugares fechados, sem discussões. A vida está ficando mais parecida com o que era antes, só que com mais entusiasmo para recuperar o tempo perdido.

Talvez sejam só impressões de turista egresso do inferno tropical, afinal, na Espanha e em Portugal nem todos os problemas se resolveram com o “fim” da pandemia. Mas agora eles têm um horizonte. Já se respira mais aliviado e a vida renasce sem medo, talvez mais forte. Me sinto como um dos bichos saídos da arca de Noé depois do dilúvio.

Acima de tudo a volta do mais elementar e fundamental dos direitos: poder andar sozinho (e sem máscara) pelas ruas a qualquer hora sem medo de ser assaltado ou agredido por bandidos ou pela polícia ou pela milícia.

Sim, ainda há antivacinistas, que têm a liberdade de não se vacinar, mas todos os estabelecimentos públicos e privados têm a liberdade de só permitir a entrada de vacinados. Liberdade ou é para todos ou é para ninguém.

Uma agradável curiosidade em Lisboa: uso uma daquelas maquininhas que furam o dedo e analisam a taxa de glicose do sangue (para prevenção de diabetes) e a minha quebrou, então fui a uma farmácia e, depois, meio incrédulo, a outra, e nas duas me deram a mesma resposta: “Estes aparelhos não podem ser comprados em lugar nenhum. É proibido vendê-los. Só podem ser dados — de graça — pelo Serviço de Saúde Pública mediante receita de um médico”. Como dizia Nelson Rodrigues, fiquei besta.

Depois, comentando com um amigo português, ex-ministro de governos socialistas, ele fez uma expressão de enfado e foi quase irônico: “Deve ser porque é muito mais barato gastar nessa prevenção do que tratar e salvar vidas de diabéticos, especialmente velhos e pobres”.

Ele acompanha com preocupação, espanto e compaixão o transe brasileiro, mas não acreditou que o governo gastou mais no lançamento da nota de 200 reais (que agora, em dólar, só vale 190) do que nas campanhas de prevenção da Covid.

Nas rodas políticas, todo mundo ainda comenta, e certamente aumenta, a grosseria das piadas que o Bozo contou ao professor Marcelo Rebelo de Souza, presidente de Portugal, um homem educado, respeitado e verdadeiramente querido pelo povo, que vai ao supermercado e à praia sozinho, sem seguranças. E presidiu Portugal na vitória contra a Covid.

Com sua sutileza cavalar, ele é capaz até de ter contado piadas de português ao presidente. Só não imaginava que o “português” era ele mesmo, piada do mundo, que se vangloria de ser “o único chefe de estado do planeta que defendeu a cloroquina”.

Todos os outros que estão rindo dele são burros e desinformados.

(*) Nelson Motta é jornalista, escritor, musicólogo e produtor teatral.

O Lula e a Nicarágua

Lula e Daniel Ortega, o tiranete nicaraguense

José Horta Manzano

A Nicarágua é um pequeno país da América Central, um pouco maior que Portugal e um pouco menor que o Amapá. Abriga cerca de 6 milhões de habitantes.

Pobre e vampirizado por uma classe dominante acostumada a revezar-se no poder há séculos, o país não consegue deslanchar. Vive da extração de algum minério e da agricultura. Está entre os quinze maiores produtores de café.

A família Somoza mandou e desmandou no país durante meio século, a começar dos anos 1930, instalando um desavergonhado regime dinástico, com um ditador sucedendo ao outro.

No limiar dos anos 1980, levantou-se uma revolução nacional “para acabar com tudo isso que está aí”. É estado de espírito tristemente conhecido entre nós. Quando surge um líder com esse tipo de conversa, pode apostar: vai haver muita movimentação, mas, no final, nada vai mudar. Já vimos esse filme com o Collor, com o Lula, com o Bolsonaro. Deu no que deu.

De fato, foi o que aconteceu. Um jovem Daniel Ortega era o líder daquela que ficou conhecida como Revolução Sandinista, uma guerra de guerrilha. Muita gente morreu, os EUA se meteram na confusão, mas, no final, a dinastia dos Somoza foi interrompida. O quadro guarda semelhanças com a “revolución” dos bondosos irmãos Castro, na ilha de Cuba.

Os sandinistas nicaraguenses não conseguiram tomar o poder imediatamente. Instalou-se um governo civil, não revolucionário. Mas Daniel Ortega manteve-se nas cercanias do poder, esperando sua hora. Já não tão jovem como nos tempos da revolução, conseguiu finalmente chegar à presidência pelo voto em 2006.

Eleito, tomou gosto pelo poder. Agindo como um Putin tropical, ajeitou regras e leis em causa própria, e acabou instalando um regime que não fica nada a dever à ditadura que tinha jurado combater – veja como são as coisas.

Tendo sido eleito em 2006 com mandato de 5 anos, deu um jeito de se reelejer em 2011 e de novo em 2016. Faz alguns dias, venceu sua quarta eleição seguida, para novo mandato de 5 anos. Frise-se que a vice-presidente é Rosario Murillo, esposa do tiranete, a confirmar o total domínio do clã. Considerando que ele já completou 76 aninhos, terá 81 ao término do mandato. Se chegar até lá.

Para alcançar seu objetivo eleitoral, o velho líder não hesitou em instalar o terror nos partidos de oposição. Começou seis meses atrás. Ditadorzinho descarado, mandou prender os sete adversários que poderiam representar risco para sua reeleição. Só deixou livres os cinco nanicos, que não lhe traziam perigo e que lhe eram, de certo modo, subservientes. Proibiu que observadores estrangeiros viessem conferir a lisura do voto e da apuração. Sem surpresa, venceu com 75% dos votos. Foi na semana que passou.

O mundo civilizado denunciou a farsa, mas o PT, partido do qual o Lula é presidente de honra, entrou na contramão. Soltou nota qualificando a re-re-re-reeleição de Ortega como “grande manifestação popular e democrática”. O texto ainda menciona o trabalho do ditador na “construção de um país socialmente justo e igualitário”.

Passados dois dias, diante da onda de indignação que se alevantou na imprensa brasileira, a direção do PT decidiu improvisar uma retratação. Doutora Gleisi Hoffmann jura de pés juntos que o primeiro texto não tinha sido submetido à apreciação da diretoria. Portanto, ficava o dito pelo não dito. O quê? Que uma nota daquele teor tenha saído sem o aval do comitê central? Acredite quem quiser.

O ocorrido dá margem a interpretação. Na minha opinião, foi o próprio Lula, que é falto de instrução mas cheio de esperteza, quem mandou os companheiros desdizerem aquele palavrório padronizado e carimbado anos 1970. Em plena campanha eleitoral, tudo o que nosso guia não quer é reavivar, na lembrança do eleitorado, o radicalismo e as amizades perigosas que seu partido tem alimentado durante décadas: Chaves, Maduro, os bondosos irmãos Castro, os ditadores africanos.

Mas ninguém é bobo. A primeira nota – solta, livre, espontânea e sem amarras – foi o reflexo do verdadeiro ADN (=DNA) do Lula e dos seus. O resto é lantejoula para enfeitar campanha e enganar trouxa.

Entre a permanência de um desonesto Bolsonaro e a volta de um desonesto Lula… ai, meu São Benedito! Ajude-nos a encontrar uma terceira via decente! Mas não demore muito!

O próximo presidente

José Horta Manzano


Pra ser muito sincero, não acredito que doutor Sergio Moro venha a ser o próximo presidente do Brasil.


Isso não significa que este blogueiro tenha uma quedinha por Bolsonaro ou pelo Lula. Meus fiéis leitores sabem que a verdade não é bem essa. Acredito – e principalmente espero! – que o próximo chefe de nosso Executivo não venha a ser nenhum dos três: nem Moro, nem Bolsonaro, nem o Lula.

Eliminados os três, me parece que aumentam as chances de termos um próximo presidente razoável. Nem peço nem que seja excelente; razoável já estaria de bom tamanho.

Bolsonaro dispensa apresentações: é esse estropício que está aí. Ele não deixa passar um dia sem nos lembrar quem é, de onde veio, quem são seus acumpliciados, como age, quais são suas intenções, de que estofo é feito. O homem é transparente, cristalino. Não só parece mau, é mau. Não só parece primitivo, é primitivo. Não só parece rasteiro, é rasteiro. Não só parece falto de inteligência, é falto de inteligência.

O Lula, bom, desse então, nem precisa falar. Mas não custa lembrar, que há sempre gente desmemoriada. Além de “aparelhar” toda a administração do Estado brasileiro com seus cupinchas, permitiu (chefiou?) a instalação da maior corrupção sistêmica já vista num Estado que se imagina democrático. Se sofremos hoje o castigo de ter um Bolsonaro segurando as rédeas do país, agradeça-se ao Lula. Sem a roubalheira, os excessos e os escândalos do primeiro, não haveria o segundo.

De Sergio Moro, não se conhece muito. Mas o que se sabe já é suficiente para colar-lhe algumas etiquetas. Sabe-se que é obstinado e que não hesita em lançar mão de procedimentos “quase legais” a fim de alcançar seus propósitos. Sabe-se que apoiou o capitão e que seu ardor pelo personagem foi tão grande, que o fez abandonar a magistratura para seguir o chefe. Sabe-se que, no espectro político, suas posições estão à direita da direita. Exagerando um pouco, eu diria que Moro é um Bolsonaro que não fala palavrão.

Acho muito difícil Sergio Moro chegar ao segundo turno. Se, por surpresa, chegasse lá, suas chances de vencer não seriam enormes.

Se Moro tiver de enfrentar o Lula, vai pular um cortado. Por um lado, Lula conta com um capital de eleitores cativos; por outro, duvido que os devotos do capitão, desamparados, deem uma mão a Moro, votando naquele que eles consideram “traidor” da causa. Nesta configuração, nosso guia conserva todas as suas chances.

Se Moro tiver de enfrentar o Bolsonaro, vai ser pior ainda. Alguém imagina um simpatizante do Lula votar naquele que, quando juiz, mandou o demiurgo para a cadeia? Portanto, subtraindo os votos do eleitorado simpático ao Lula e os votos dos que desconfiam de Moro, não há de sobrar grande coisa para o ex-magistrado. Nesta configuração, quem conserva todas as chances é o capitão.

Vamos torcer para sobressair logo um nome que encarne uma verdadeira terceira via. Essa que o ex-juiz representa está mais pra beco sem saída. Sem calçamento e sem iluminação.

No tiene la culpa

Jornal O Globo, 11 nov° 2021

José Horta Manzano

Todo o mundo sabe. Quando um aluno interessado e esforçado não consegue aprender, a culpa não é dele – costuma ser do professor.

Bolsonaro, com 30 anos de métier, tomou Moro como aprendiz. O ex-juiz exerceu como ministro durante quase ano e meio. Admirativo e aplicado como era, se não aprendeu, não terá sido por desinteresse. É que o professor era ruim pra diabo.

Se um culpado existe nesta história, não é o ex-ministro.

A palmatória retroativa

Eduardo Affonso (*)

O limite de velocidade de uma estrada é reduzido de 100 para 80 km/h, e são notificados todos os que trafegaram, algum dia, acima da velocidade agora permitida. Inverte-se a mão de uma rua, e fica decidido que cometeram infração grave todos os que circularam no sentido estabelecido até então. As multas não param de chegar. Milhares de carteiras de motorista são cassadas.

Faz-se um acordo ortográfico eliminando acentos e alterando grafias, e procede-se à revisão de todas as provas de Português dos últimos 800 anos, tirando ponto de quem um dia acentuou “ideia”, usou trema em “cinquenta” ou hífen em “dia a dia”. Currículos são refeitos; escritores, execrados por seus “erros crassos”.

Absurdo? É mais ou menos assim que os novos inquisidores vêm agindo em relação aos que não tinham bola de cristal e viviam em conformidade com sua época, não com a nossa. Medem os homens do século XVIII com a régua moral do século XXI. Consideram indignos de ser eternizados em bronze aqueles que tiveram escravos num tempo em que ter escravos era tão natural quanto é hoje ter empregados assalariados. E dá-lhe jogar tinta no Churchill, botar fogo no Borba Gato, mandar para o porão o Thomas Jefferson. (Ainda não se sabe se dinamitarão o Monte Rushmore, como fizeram os talibãs com os Budas de Bamiyan).

Pregam o multiculturalismo, mas deitam e rolam no cronocentrismo, imaginando o presente como o ponto culminante da evolução, o momento em que se atingiu a Verdade e as civilizações pretéritas serão passadas a limpo. É (de novo!) o fim da História, com o triunfo das suas pautas e o vencimento do boleto da dívida histórica.

E pensar que estivemos mal-acostumados com aquele princípio jurídico que garantia que a lei não retroage, a não ser em benefício do réu. E acreditávamos ser todos reféns do implacável Zeitgeist.

Na obra de Machado de Assis, a escravidão, o patriarcado, o preconceito, a hegemonia da Igreja Católica são um pano de fundo naturalizado — e não tinha como ser diferente. Defender direitos iguais para brancos e pretos, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, crentes e incréus era uma exceção, uma extravagância. O que não significa que o autor fosse escravocrata, machista ou homofóbico. Mas é muito mais fácil exumar discriminações caducas que combatê-las, vivas, nas trincheiras do cotidiano.

O que pensarão os progressistas do século XXII dessa gente que, em 2021, ainda se vestia para tomar banho de mar, levava cães ao pet shop e vacas ao matadouro, torturava plantas com as refinadas técnicas da topiaria e do bonsai, pregava a tolerância sendo intolerante e se julgava a palmatória do mundo?

Convém ler Dickens: “Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos; era a idade da sabedoria, era a idade da loucura; era a época da confiança, era a época da incredulidade; era a estação das Luzes, era a estação das Trevas; a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós; íamos todos direto ao Paraíso, íamos todos no sentido contrário”.

A História não é o aqui e o agora, mas o conto de todas as cidades, de todos os povos, de todos os tempos.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Pesquisa demais faz mal?

José Horta Manzano


“Para quê consultar os cidadãos, se é tão mais simples aguardar as pesquisas? Por que quebrar a cabeça bolando um programa político, se, em troca de pequeno investimento, as pesquisas vão lhe dizer o que a população espera? Por que se aborrecer com debates entre militantes e primárias para designar um candidato, se as pesquisas podem se encarregar disso?”


É com essas palavras que o jornalista François-Xavier Lefranc, redator-chefe do Ouest France (3° maior quotidiano francês), abriu o editorial do jornal faz alguns dias. É que, exatamente como ocorre entre nós, o país de Monsieur Lefranc anda “viciado” em pesquisas na área política.

Imagino que seja fenômeno mundial. Não sei se é impressão minha, mas, no lugar do velho Ibope, que era um e único, temos hoje numerosos institutos de pesquisa. Alguns já se tornaram referência, como o Datafolha ou o Ipsos, mas outros aparecem sem que a gente saiba de onde saíram. Todos analisam uma eleição 11 meses antes do dia de votar. Já estão todos no segundo turno, num momento em que o eleitorado sequer sabe quem serão os candidatos.

Nas eleições, a população está cada vez mais acostumada a conhecer o resultado antes mesmo de ir votar. Pesquisadores lembram sempre que seu trabalho apenas reflete uma imagem do momento, com margem de erro e todas as precauções de hábito. Mas não adianta: o eleitor vê o resultado da pesquisa como se fosse cash, dinheiro na mão. E sabemos que dinheiro na mão é vendaval.

O editorialista francês acredita que, em vez de esclarecer o eleitorado, as pesquisas ultrafrequentes tendem a confundir. Na melhor das hipóteses, têm efeito nulo, não interferindo no voto de eleitores cujo propósito é firme e inabalável. Na hipótese mais tóxica, tendem a distorcer o pensamento dos hesitantes e dos indecisos, e a incitá-los a votar no candidato A em vez do candidato B pelo simples fato de aparecer melhor nas pesquisas. O chamado “voto útil“, aquele que se dá a um para evitar a vitória de outro, entra nessa categoria. Se não fossem as pesquisas, essa modalidade distorcida de voto praticamente desapareceria.

Por meu lado, acredito que, as pesquisas contribuíram fortemente para a eleição do capitão. Foi efeito bola de neve. Cada nova pesquisa que mostrasse um avanço de seu nome era seguida de novas adesões, o que acabava fazendo o candidato subir nas pesquisas. Foi essa espiral ascendente que o elegeu e não uma base ideológica – que era minúscula e assim continua até hoje.

Fechando o editorial, o Ouest France informa aos leitores sua nova (e drástica) política para as eleições presidenciais francesas, marcadas para daqui a 6 meses: diferentemente de como costumavam proceder no passado, nenhuma pesquisa será encomendada pelo jornal desta vez.

Confesso que a atitude tem seus atrativos. A população tem, sim, o direito de ser informada. Mas até que ponto a informação “do que poderia ser” – entendida como “o que certamente vai ser” – não atrapalha mais do que ajuda? Propaganda, debates, discussões, mesas redondas, análises, sim. Mas números, às vezes até com decimais(!), podem representar aquele excesso de democracia que resulta em desserviço a ela.

COP26

José Horta Manzano

A COP26, megaencontro realizado em Glasgow, não se restringiu aos dois primeiros dias, quando chefes de Estado deram o ar de sua presença. Os encontros, as palestras e os seminários continuam. Vão do domingo 31 de outubro até a sexta-feira 12 de novembro.

Alguns dirigentes, como nosso capitão, preferiram dar o ar de sua ausência – fato contra o qual ninguém reclamou. Ele deixou de ir por não ter nada a dizer, é de crer. Comida e bebida grátis, ele já tem todos os dias, sem precisar enfrentar a chuva escocesa.

Apesar de não ter grande coisa a apresentar além de boas intenções (que cairão no colo e serão cobradas dos próximos dirigentes), o Brasil mandou a maior delegação entre todos os 180 países presentes. Nada menos que 479 participantes integram oficialmente a comitiva brasileira. Para alguns, é dever de ofício; para muitos, é uma grande festa. Em Glasgow venta muito e faz frio, mas há excelentes cervejas e uma quantidade de excelentes pubs.

O governo brasileiro peneirou (com peneira própria) os candidatos a participar da comitiva oficial. Entre os eleitos, estão grandes industriais, personalidades do ramo de investimentos e até grandes empresários do biodiesel. Corporações e federações industriais também estão lá. A CNI (Confederação Nacional da Indústria), sozinha, mandou 10 representantes.

A comitiva oficial inclui primeiras-damas de quatro estados, duas recepcionistas, dois fotógrafos e até uma barmaid, mas, curiosamente, nenhuma ONG. Essa ausência é estranha, dado que são justamente as ONGs que põem a mão na massa de verdade, confrontadas que estão com os problemas reais, no varejo de todos os dias.

Li na mídia que o stand das ONGs brasileiras, embora menor que o da delegação oficial, é muito mais concorrido e está sempre cheio, apesar de, no oficial, servirem (excelentes) salgadinhos e bebidinhas preparadas por profissional.

Sabia que há uma delegação ainda mais numerosa que a do Brasil? Por incrível que pareça, a presença mais forte é a dos lobistas ligados à indústria petrolífera. Uma jornalista suíça fez as contas e identificou 503 membros dessa “corporação”. Não mantêm um stand próprio, à vista de todos. Trabalho de lobista não é na linha de frente. Eles estão espalhados, infiltrados em cada uma das delegações nacionais. Na do Brasil também há.

Esses lobistas representam o outro lado da moeda. Todo o mundo sabe que uma das medidas principais para paliar a agonia do planeta é o total e imediato banimento da queima de petróleo. Se essa regra passasse a ser seguida com rigor, isso significaria a asfixia da indústria petrolífera e a ruína de países cuja riqueza é principalmente baseada na extração do óleo. A função do lobista é esticar a corda e prolongar a agonia do planeta até não poder mais.

Mas não adianta. A queima de combustíveis fósseis para produção de energia está com os dias contados. Com ou sem lobistas.

A arte de redigir nota de falecimento

José Horta Manzano

Com o falecimento de Nélson Freire, ocorrido semana passada, o Brasil perdeu seu mais importante intérprete de música erudita, o único conhecido e reconhecido universalmente. Muitos anos hão de se passar até que outro filho desta terra entre no rol dos maiores do mundo.

Em horas assim, quando falece um grande nome da música nacional, é praxe haver manifestação imediata da Secretaria da Cultura, da Presidência da República e do Ministério das Relações Exteriores.

Como já mencionei alguns dias atrás, doutor Frias, secretário nacional de Cultura não deu um pio. Por certo, nunca tinha ouvido falar de um dos maiores pianistas do mundo. Mais inquietante ainda é ver que falta, no staff, um encarregado de seguir o que acontece fora da bolha em que todos eles vivem.

O presidente Bolsonaro, grosseiro como de costume, nem falou nem disse nada. Silêncio absoluto. Não sabia, não sabe e nunca saberá quem foi Nélson Freire. Talvez achasse que, como todo artista, “esse daí” também era comunista. Vai ver até que votou no PT. “Pô.”

O Itamaraty, que ainda guarda algum resquício do que costumava ser a diplomacia brasileira, manifestou-se. Soltou um comunicado formal, protocolar, que não chega a 1000 toques, com 155 palavras. Descrever em 155 palavras a carreira de um artista maior é complicado. Não dá.

Apesar da exiguidade do comunicado, o Itamaraty ainda encontrou jeito de encaixar a seguinte frase: “Muitas de suas apresentações internacionais contaram com apoio do Itamaraty”. Jogar flores em si mesmo pode cair bem em outras ocasiões; em nota de falecimento, pega mal pra caramba. Além de prepotente, é o cúmulo da deselegância. Nélson Freire não dependou do “apoio” do Itamaraty para correr mundo e firmar seu renome em 70 anos de carreira.

No dia seguinte ao do anúncio da morte do artista, o Palácio do Eliseu soltou nota de falecimento, assinada pelo presidente Emmanuel Macron. Como todos sabem, o palácio presidencial francês não é agência funerária. Comunicados da Presidência francesa são poucos, caem a conta-gotas.

A nota de falecimento francesa traz uma minibiografia do homenageado, com 437 palavras espalhadas por 2800 toques (quase três vezes a extensão do bilhetinho do Itamaraty). Vê-se que foi escrita por quem é do ramo. Dá um apanhado preciso da obra do artista, cita sua discografia, relembra seus compositores favoritos, menciona as peculiaridades de seu toque e da sonoridade que conseguia extrair do instrumento.

Não esquece a velha amizade que unia o brasileiro a Martha Argerich, considerada a maior pianista viva. E termina declarando: “o presidente da República e esposa saúdam o excepcional intérprete de Debussy, que nos brindou frequentemente com sua presença, e dirigem suas condolências sinceras aos que lhe eram próximos, assim como a todos os que se emocionavam com a poesia de seu toque”.

Se Bolsonaro, logo no início do mandato, não tivesse insultado a primeira-dama francesa, até que podia mandar um ou dois emissários para um estágio no Eliseu, a fim de serem iniciados nas artes de redigir um elogio fúnebre digno de país civilizado.

O encargo fica para o sucessor do capitão.

Para saber mais:

O original da nota do Itamaraty

O original da nota do Palácio do Eliseu