Patacoada

José Horta Manzano

Ninguém escapa. Na hora de encontrar desculpa, a imaginação humana não tem limites.

Um dos grandes jogadores da seleção italiana de futebol, Andrea Pirlo, declarou que o clima do Brasil cria duas copas diferentes, a dos que jogam na região equatorial e a dos que atuam na zona subtropical. Patacoada.

Quente frio1. Nenhuma das equipes jogou todas as partidas numa só zona climática. Todas têm se deslocado. Portanto, os incômodos são para todos.

2. Quando faz calor, o tempo quente é para os 22 jogadores ― estão sob as mesmas condições. Quando faz mais fresquinho, idem.

3. No Brasil, a amplitude térmica entre as regiões mais escaldantes e as menos ardentes não é larga. Em muitos países europeus, as diferenças são bem mais marcantes.

4. Na Europa do Sul (Espanha, Itália, Grécia), temperaturas acima de 40° não são raras no verão. Em certas regiões dos mesmos países, o termômetro pode descer bem abaixo de zero no inverno.

5. A campanha para chegar à Copa do Mundo (assim como à Eurocopa) é longa. Há jogos de ida e de volta em cada grupo. Estão aqui alguns exemplos de partidas que a Itália disputou para se classificar para a Eurocopa 2012:

Interligne vertical 133 set° 2011 em Tallinn (Estônia), em clima muito frio, a 60° de latitude;

7 set° 2011 em Florença (Itália), em clima quente e seco, em meio a vinhas e oliveiras;

8 out° 2011 em Belfast (Irlanda do Norte), em clima úmido e ventoso.

Sinto muito. Por mais que admire a elegância de Pirlo, não lhe posso dar razão neste caso.

Ciao, Italia. Ci rivedremo presto  a gente se vê qualquer dia.

Sem sanduíche

José Horta Manzano

Doris Dudler, suíça de 54 aninhos, habitante do Cantão de São Galo(*), está desempregada há mais de um ano. Combativa, não está parada esperando que alguém faça algo por ela. Já tentou encontrar emprego por diversos meios: enviou currículos com vídeo, distribuiu santinhos nas esquinas, apresentou-se publicamente. Foi chamada para diversas entrevistas, mas não conseguiu uma colocação até hoje. Já ouviu sonoros nãos mais de 200 vezes.

Determinada, tomou decisão incomum: decidiu tornar-se mulher-sanduíche e passear pela cidade com um cartaz na frente e outro atrás anunciando seus dons de excelente secretária. Mas, atenção!, na Suíça ninguém pode sair por aí fazendo o que lhe der na telha sem ter recebido a devida licença.

Homem sanduiche

Homem-sanduíche     –    Foto: Carlos Romão

Para conseguir autorização para a autopromoção, Doris procurou a polícia local. Pasmem os distintos leitores: seu pedido foi recusado. O motivo? As autoridades policiais acreditam que, se tivessem aceitado a solicitação da moça, teriam de conceder igual direito a todos os que viessem a fazer o mesmo pedido no futuro. E a cidadezinha perigava tornar-se uma barraquinha de sanduíches, se é que me posso exprimir assim.

A moça ainda insistiu argumentando que, no Cantão de Berna, autorizações semelhantes já tinham sido concedidas. A resposta veio brutal: «Aqui estamos em São Galo, não em Berna».

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(*) São Galo, monge francês, viveu na Idade Média (489-554). Canonizado pela Igreja Católica, tem sua festa celebrada dia 1° de julho. Diferentemente do que ocorre com Pedro, Antônio e João, seu nome saiu de moda há séculos. Ou você conhece alguém chamado Galo?

Hermanos

Um visitante recém-chegado de Marte poderia até indignar-se com esta chamada da Folha de São Paulo e catalogá-la entre as piores do ano.

Para quem não sabe do que estão falando, soa preconceituosa e politicamente incorreta.

Folha de São Paulo, 25 jun° 2014

Chamada da Folha de São Paulo, 25 jun° 2014

Escolha infeliz

José Horta Manzano

O escritor Ruy Castro, colunista da Folha de São Paulo, acertou no milhar com seu artigo Solene esnobada, publicado em 23 de junho. Irretocável.

Nestes tempos de “Copa das copas”, todos nós temos tido nossos ouvidos e olhos bombardeados com gritos de goool, patriotadas, análises, janelas embandeiradas, carreatas, trombetas, buzinaços. E continhas de chegar.

Nós outros, expatriados, vivemos imersos em ufanismos múltiplos. As carreatas e os buzinaços não correspondem necessariamente às conquistas daquela que antigamente chamávamos Seleção canarinho. Dependendo do país onde se esteja, as continhas de chegar podem até ir em sentido contrário ao que nos interessaria. É natural. Vivemos na casa dos outros.

Já se disse e redisse, já se pisou e repisou o assunto: a dinheirama que o povo brasileiro ― através de seus representantes, evidentemente ― despejou na organização da Copa e na construção de estádios ma-ra-vi-lho-sos teria sido mais bem utilizada em projetos de educação e saúde.

Assim não foi feito, que é que se há de fazer? O que está feito está feito. Resta fazer das tripas coração. Os bilhões de reais arrancados do povo brasileiro estão, pelo menos, servindo de maxipromoção do País em nível planetário. Será?

Fifa vinhetaComo salientou Ruy Castro, nenhuma das atrações do País tem sido mostrada à plateia brasileira. Querem saber mais? Tampouco os espectadores estrangeiros têm tido direito a conhecer, nem que fosse por alguns segundos, alguma coisa além das “arenas” de padrão Fifa.

A vinheta ― acho linda essa palavra(*) ― tem sua beleza plástica, não há que negar. Falo daquele desenhozinho animado de alguns segundos que nos repetem umas dez vezes por dia. Aquele que sobrevoa uma praia, atravessa uma floresta, mostra uma selva de prédios e termina com um menino com cara de pobrezinho, encarapitado em sua favela, com o olhar maravilhado ao vislumbrar ― bem longe ― um estádio iluminado. Estádio padrão Fifa que ele, pobrezinho, visivelmente não tem condições de frequentar.

Gastar tantos bilhões suados dos brasileiros para reiterar ao mundo a imagem de um país marcado pela desigualdade social? Que escolha infeliz.

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(*) Vinheta, do francês vignette. No século XII, quando entrou na língua francesa, a palavra fazia alusão à decoração de folhas de vinha com que se ornava o bordo de utensílios de louça.

Ainda não é hora

José Horta Manzano

É brincando que se dizem as verdades. É na hora da descontração que cada um desnuda sua verdadeira personalidade. Quem nasceu pra tostão não chega a merréis. Adote o distinto leitor o ditado que lhe parecer mais adequado.

Sábado passado, a convenção partidária que chancelou a candidatura de dona Dilma a suceder a si mesma no cargo de chefe do Executivo da República contou com a presença do indispensável Lula, condimento de todas as batalhas.

Segundo relato do repórter da Agência France Presse ― ecoado pela Folha de São Paulo ― nosso messias estava bem-humorado. Os (raros) repentes de bom humor do antigo presidente costumam gerar apreensão entre assessores. Periga sair alguma sandice. Tiro e queda, foi o que aconteceu.

“É a primeira vez que uma equipe de futebol perde por excesso de qualidade dos nossos estádios. A Inglaterra não estava acostumada a jogar em um campo da qualidade dos que temos aqui” ― foi o que declarou um atrevido Lula, que continua a crer que o mundo gira em torno de sua pessoa.

Estadio 1Com certas coisas, não se deve brincar. Ao enfatizar que a eliminação dos visitantes se deveu à qualidade excepcional dos estádios brasileiros, deixou implícito que as outras seleções europeias ― as que não foram eliminadas ― dispõem de estádios melhores. Denegrir a nação que inventou o futebol não cai bem na boca de um líder partidário que, ainda por cima, já foi até presidente do País. Por que essa ofensa dirigida gratuita e especificamente aos ingleses?

Considerando que ele já conseguiu proezas como conciliar revolução proletária com peleguismo e firmar aliança com Collor, Maluf e Sarney, Lula mostrou uma faceta intolerante e preconceituosa.

Na cabeça de nosso guia, o excesso de qualidade de nossos estádios deve rimar com o excesso de democracia da Venezuela, distorção devidamente detectada e denunciada por ele em 2005.

Ainda não chegou a hora de fazer pouco daquele povo. No dia em que os súditos britânicos decidirem vir tratar da saúde em nossos hospitais públicos e estudar em nossas universidades, aí sim, poderemos nos vangloriar.

Culpa da Dilma

José Horta Manzano

A edição online da revista alemã Der Spiegel publicou estes dias um artigo que analisa causas e possíveis consequências da afronta que dona Dilma sofreu quando de sua aparição no Itaquerão, na abertura da “Copa das copas”.

A análise é complexa. Inclui o resultado das últimas sondagens eleitorais, menciona a visita do vice-presidente americano, fala do empate da Seleção com o México.

Extraí o parágrafo que transcrevo abaixo, um bom exemplo da percepção que estamos transmitindo à mídia estrangeira.

Assim que Dilma Rousseff apareceu no telão, um coro obsceno se levantou no estádio Foto DPA - Deutsche Presse-Agentur

Assim que Dilma Rousseff apareceu no telão, um coro obsceno se levantou no estádio
Fonte: Der Spiegel     –     Foto DPA – Deutsche Presse-Agentur

Interligne vertical 12«Rousseff steht seit Monaten in der Kritik. Ihr werden die immensen Kosten der WM angelastet, die nicht erfüllten Versprechen von mehr Sicherheit und besserer Infrastruktur, die lahmende Wirtschaft. Eigentlich alles, was in Brasilien schiefläuft. Es werden schon Witze darüber gemacht: Ein Eigentor? Dilma ist schuld. Reifen platt? Dilma ist schuld. Milch ist aus? Dilma… Wohl nur die Fifa hat derzeit ein schlechteres Image.»

Interligne vertical 12«Faz meses que Rousseff amarga críticas. Dela serão cobrados os imensos custos engendrados pela Copa, as promessas não cumpridas de maior segurança e melhora da infraestrutura, a economia em marcha lenta. Em resumo: tudo o que acontece de errado no Brasil. Estão na moda piadas do tipo: Gol contra? Culpa da Dilma. Pneu furado? Culpa da Dilma. Acabou o leite? Culpa da… Francamente, no momento, só a Fifa tem imagem pior.»

A Copa é uma beleza!

Percival Puggina (*)

MegafoneQuem xingou Dilma no Itaquerão? Fossem sonoros aplausos, a comunicação oficial não teria constrangimento em ressaltar a ruidosa e alegre saudação popular dedicada à presidente. Mas não foram aplausos. Impunha-se, portanto, circunscrever a ação a um pequeno e seleto grupo de privilegiados e encontrar responsáveis.

O ex-presidente Lula, que, prudentemente, não passa nem de avião por sobre os estádios com cuja construção se comprometeu, veio às falas. Ao se manifestar, no dia seguinte, durante um comício do PT em Pernambuco, apelou para o velho truque de emoldurar o fato num quadro simplista: o estádio teria sido capturado por não torcedores, gente cheia de ódio.

Quem estimulou esse ódio? Setores da imprensa. Quais as razões do ódio? Revolta dos ricos contra o crescente bem estar dos pobres. Mas, adiante, sublinhou não haver no estádio ninguém com cara de pobre. “A não ser você, Dilma”. Nenhum “moreninho”. E afirmou que o público era formado pela “parte bonita da sociedade, que comeu a vida inteira”.

by François Matton, desenhista francês

by François Matton, desenhista francês

Ao querer simplificar, Lula complicou e se complicou. É impossível não perceber os preconceitos desse discurso. Para que tal oratória fique de pé, o ex-presidente decide que branco é bonito e moreninho, feio. E que quem sempre comeu se revolta quando todos comem. Por quê?

Faltando os porquês, o discurso cai. Desaba como uma pedra sobre os sapatos Louboutin da presidente com cara de pobre. Lula sempre forçou antagonismos para se posicionar: pobres contra ricos, moreninhos contra branquinhos, olhos claros contra olhos escuros, empregados contra patrões, índios contra civilizados. Ou vice-versa, ao gosto do freguês. Agora, nos apresenta o Brasil dividido, também, entre o Brasil dos bonitos e o Brasil dos feios. Arre, Lula!

DiscursoMas não foi só aí que, por excesso de simplificação, a oratória ex-presidencial despencou a ponto de tornar a fala imprestável para qualquer par de neurônios que lhe desse atenção. Afinal, quem ― sem consultas, sem ouvir a opinião pública, na escuridão do próprio bestunto ― decidiu trazer a Copa de 2014 para o Brasil? Quem cedeu às exigências e padrões da Fifa? Quem multiplicou as sedes e construiu estádios onde sequer existem clubes de futebol? Quem, se não o próprio Lula, criou o cenário para a festa do dia 12, não no histórico Maracanã, não na Capital Federal, mas no estádio do seu Corinthians?

Agora, após o acontecido, ele imagina que o país também se divide entre uma multidão burra e uns poucos inteligentes, entre os quais ele próprio. E fala, novamente, como se nada tivesse a ver com o que acontece no País.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

A quantidade faz a força

José Horta Manzano

Você sabia?

Alguns meses atrás, o site informativo americano Business Insider publicou o resultado de estudo baseado na classificação PISA, que mede o grau de instrução de jovens de 15 anos.

Foram computados os adolescentes que tinham alcançado a nota máxima em matemática ou testes verbais. Em seguida, esses números foram comparados com a população de cada país.

Ainda que, estatísticamente, o resultado seja pura estimativa, não há de estar muito afastado da realidade.

Nosso país, por ter população importante, aparece na lista dos 25 melhores. No entanto, em porcentagem, nossos adolescentes estão bastante distanciados dos demais. Aparecem na rabeira.

Disso tudo, já sabíamos. Assim mesmo, vale a pena dar uma espiada na classificação.

Os 25 países com mais mentes brilhantes Fonte: Actualidad.RT.com

Os 25 países com mais mentes brilhantesClique para aumentar      (Fonte: Actualidad.RT.com)

Interligne vertical 11c1. EUA
Estudantes de nível excelente: 1.7%
5.336.300 habitantes de nível brilhante

2. Japão
Estudantes de nível excelente: 4.05%
5.167.800 habitantes de nível brilhante

3. Coreia do Sul
Estudantes de nível excelente: 4.40%
2.200.000 habitantes de nível brilhante

4. Alemanha
Estudantes de nível excelente: 2.60%
2.129.140 habitantes de nível brilhante

5. França
Estudantes de nível excelente: 2.20%
1.445.400 habitantes de nível brilhante

6. Taiwan
Estudantes de nível excelente: 5.85%
1.365.390 habitantes de nível brilhante

7. Canadá
Estudantes de nível excelente: 3.10%
1.081.280 habitantes de nível brilhante

8. Rússia
Estudantes de nível excelente: 0.65%
932.750 habitantes de nível brilhante

9. Reino Unido
Estudantes de nível excelente: 1.4%
885.220 habitantes de nível brilhante

10. Austrália
Estudantes de nível excelente: 3.3%
748.440 habitantes de nível brilhante

11. Itália
Estudantes de nível excelente: 1%
609.200 habitantes de nível brilhante

12. Polônia
Estudantes de nível excelente: 1.45%
558.830 habitantes de nível brilhante

13. Singapura
Estudantes de nível excelente: 9.10%
483.392 habitantes de nível brilhante

14. Turquia
Estudantes de nível excelente: 0.65%
481.000 habitantes de nível brilhante

15. Hong Kong
Estudantes de nível excelente: 6.00%
429.300 habitantes de nível brilhante

16. Holanda
Estudantes de nível excelente: 2.55%
427.635 habitantes de nível brilhante

17. Bélgica
Estudantes de nível excelente: 3.45%
384.330 habitantes de nível brilhante

18. Espanha
Estudantes de nível excelente: 0.75%
354.525 habitantes de nível brilhante

19. Suíça
Estudantes de nível excelente: 4.25%
339.873 habitantes de nível brilhante

20. Brasil
Estudantes de nível excelente: 0.10%
198.700 habitantes de nível brilhante

21. República Tcheca
Estudantes de nível excelente: 1.80%
189.180 habitantes de nível brilhante

22. Nova Zelândia
Estudantes de nível excelente: 4.1%
181.753 habitantes de nível brilhante

23. Suécia
Estudantes de nível excelente: 1.90%
180.823 habitantes de nível brilhante

24. Finlândia
Estudantes de nível excelente: 3.25%
175.955 habitantes de nível brilhante

25. Áustria
Estudantes de nível excelente: 1.7%
143.854 habitantes de nível brilhante

Fontes:
Business Insider
RT – Agência russa de informações

Frase do dia — 149

«O acúmulo de desmandos formou um passivo em que a realidade venceu o marketing.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão de 20 jun° 2014, aludindo ao governo federal e à queda de popularidade de dona Dilma.

Furou

José Horta Manzano

Ninguém pode contestar: futebol é o esporte mais popular sobre a face da Terra. Compreensivelmente, o campeonato mundial é o evento mais midiatizado do planeta. O fato de ser quadrienal ajuda a botar pimenta: quanto mais raro for o artigo, mais valioso será.

Ser focalizado, nem que seja por um instante, pelas câmeras que transmitem jogos da Copa faz efeito fulminante. Para gente desconhecida, gera um causo pra ser contado pelo resto da vida. Para medalhões, é a confirmação do status, a glória planetária autenticada com carimbo e firma reconhecida.

Astros, dirigentes, esportistas, políticos disputam um lugar no camarote VIP ― ou perto dele ― para ter, quem sabe?, a sorte de ser focalizado. A exposição garante notoriedade instantânea.

É verdade que há pessoas que, por alguma particular razão, preferem não ser filmadas nessas ocasiões. Para evitar vaias, apupos ou xingamentos, por exemplo. Ou, mais prosaicamente, para não serem flagradas num lugar onde não deveriam estar naquele momento.

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Certos figurões chegam a programar, com antecedência de meses ou até de anos, sua presença nessas vitrines. Foi o caso de nosso guia, que presidia o País quando teve lugar a Copa da África do Sul.

O homem chegou a deslocar-se até o continente africano. Seus servis assessores haviam programado um percurso que incluía ― ora vejam a coincidência ― uma passagem pela República Sul-Africana justamente por ocasião da final da Copa. Seria uma ocasião de ouro para aparecer na tribuna oficial, no jogo final do campeonato, como convidado de honra do chefe do Estado. Exposição mundial garantida.

Acontece que o trajeto do Brasil na competição não foi glorioso. A Seleção curvou-se antes do que se esperava. E nosso guia, que não se contenta com coisa pouca, renunciou à aparição pública. Ficou para a Copa seguinte.

Tribuna VIP

Tribuna VIP

Chegou 2014. Não adianta ficar repetindo aqui o que todos já sabem: nem a atual presidente, nem o anterior, nem ninguém que lembre a existência de um deles consegue passar ileso num estádio. São vaias e apupos garantidos.

Grande deve ser a frustração de nosso guia. Justamente ele, que antevia, na exposição midiática que esta Copa lhe garantiria, o reconhecimento universal, carimbado e autenticado, de sua glória pessoal. Deu no que deu.

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Mas nosso messias não está só: há um outro frustrado. Não sou depositário de segredos de cabeças coroadas, dessarte não posso dar garantia sobre o que vou dizer. Mas pode bem ter-se passado assim.

Primeira consideração:
Entre Copa do Mundo e Eurocopa, a Espanha ganhou todas. Ia de vento em popa. Tudo indicava que chegaria, com facilidade, à final da «Copa das copas».

Felipe VI, da Espanha

Felipe VI, da Espanha

Segunda consideração:
A monarquia espanhola anda bambeando. Repetidos escândalos envolvendo membros da família real ― e o próprio rei ― achacaram os espanhóis. A abdicação do antigo e a assunção de novo rei poderia trazer aquela brisa que desanuvia a atmosfera.

Conclusão:
Por que não juntar o útil ao agradável? Por que não fazer coincidir a sagração do herdeiro com o triunfo da seleção espanhola na Copa? Imaginem que maravilhoso seria se o mundo inteiro visse a aparição do sorridente casal real na tribuna de honra do Maracanã a acenar para a plebe no momento da vitória esportiva de seu país?

Esse cenário não me parece fantasioso. Por mim, foi assim que aconteceu ― aposto minhas fichas. De toda maneira, não saberemos jamais. O que sabemos, isso sim, é que, asseguradamente, o casal real não estará presente à cerimônia de entrega da taça. Furou.

Falando em entrega de troféu, Vladimir Putin já anunciou que estará presente à final da Copa. Quem é que lhe vai fazer companhia? Algum mandarim da Fifa?

Dura lex, sed lex

José Horta Manzano

Você sabia?

Foto: TDG, Genebra

Foto: TDG, Genebra

Os que vendem aqueles petrechos imprescindíveis para compor o perfeito torcedor andam fazendo bons negócios. Bandeiras, bonés, cornetas & congêneres se vendem bem estes dias. E não só no Brasil.

Todo suíço adora hastear uma bandeirinha ― seja em época de Copa ou não. Na janela, num mastro plantado no jardim, na barraca de acampamento, qualquer lugar é bom. Países de território exíguo tendem a ser mais apegados a marcas de nacionalidade.

Fachadas de prédios, nestes dias de «Copa das copas», andam coloridas. O número de estrangeiros é grande, donde a diversidade de bandeiras. Além das suíças, as portuguesas, as italianas e as alemãs são as mais comuns. Até ontem, viam-se muitas espanholas também. Compreensivelmente, desapareceram todas hoje de manhã.

Tenho até um vizinho exótico, que arbora a bandeira da Nova Zelândia ― e não somente durante campeonatos de futebol. Mas isso é raro.

Anda na moda cobrir o espelho retrovisor externo do automóvel com uma capa estampada com o desenho da bandeira. É costume recente e tem feito muito sucesso. Mas cuidado! Pode ser ilegal!

Foto: Keller Fahnen, Suíça

Foto: Keller Fahnen, Suíça

Um automobilista do Cantão de Berna escreveu a um jornal local lamentando-se da multa que levou por ter coberto seu retrovisor com a bandeira nacional. O motivo? É que, em certos modelos de automóvel, o espelhinho externo incorpora uma lampadazinha que serve de pisca-pisca.

Se a capa, ao cobrir o retrovisor, ocultar o pisca-pisca, o automobilista pode ser acusado de ter modificado de modo ilícito as características homologadas do veículo. E a multa pode ser salgada.

A polícia promete não pecar por excesso de zelo, isto é, não tem intenção de parar todo carro que passar com capinha sobre o retrovisor. No entanto, se isso acontecer numa batida policial, aí não tem jeito: multarão.

Dura lex, sed lex. No cabelo, só Gumex.

Uff!

José Horta Manzano

Estadio 4Por intermédio de um vídeo assustador, a audiência internacional da inglesa BBC fica a par da precariedade das estruturas provisórias erigidas às pressas para permitir acesso às arquibancadas do Maracanã.

O comentador se felicita pelo fato de os estádios brasileiros terem atendido à demanda «até agora».

Esperemos que aguentem pelo menos até o fim da Copa das copas. Depois, seja o que Deus quiser.

Interligne 23

Para assistir ao filmezinho de minuto e meio, clique aqui. Atenção: almas sensíveis e cardíacos devem-se abster de clicar.

Negócio da China

José Horta Manzano

Você sabia?

Quem gosta, gosta. Assim como deve haver brasileiros apaixonados por críquete (eu não conheço nenhum, mas nunca se deve duvidar), há chineses tarados por futebol. Vocês me dirão que, no meio de zilhões de habitantes, se encontra de tudo. É verdade.

Problemas, enquanto não nos atingem, não despertam nossa atenção. Em linguagem mais chã: pimenta no olho do outro é colírio. Vamos aos fatos.

Crédito imagem: dramafever.com

Crédito imagem: dramafever.com

Nosso planeta ― como nos ensinou uma vez nosso guia em aula memorável ― é redondo e gira. Isso faz que diferentes regiões vivam sob diferentes fusos horários. Os jogos do atual campeonato mundial foram programados para favorecer, na medida do possível, espectadores do continente americano, da Europa e da África. É por isso que se joga um pouco mais cedo no Brasil ― justamente para que não caia no meio da madrugada na Europa.

Mas não dá para satisfazer a todos. Sempre haverá os que ficam a ver navios. Desta vez, foram os espectadores do Extremo Oriente. Pela hora chinesa, os jogos caem de madrugada ou de manhã cedo. Para quem tem de trabalhar no dia seguinte, a coisa se complica um bocado. Frise-se que Pequim não decretou que os dias de jogo sejam feriados.

E como é que o chinês fanático por futebol se vira pra não perder transmissões ao vivo? Ora, dá-se um jeitinho. Por lá também, burlar a lei faz parte da cultura nacional. O inglês Telegraph informa ― e o americano Fox 31 repercute ― que a Copa das copas está deixando muita gente doente na China.

Crédito foto: Associated Press

Crédito foto: Associated Press

Doente entre aspas, naturalmente. Depois de perder uma noite de sono, é difícil trabalhar. O mais prático é pedir um atestado médico e justificar a falta ao serviço. Num site chinês chamado TaoBao, qualquer um pode conseguir um talão de atestados por 16 centavos de dólar ― um negócio da China!

Mas a manha, amplamente difundida, é pra lá de conhecida, manjada demais. Mais vale conseguir um documento de qualidade superior. Um atestado com cara de verdadeiro, em papel timbrado de hospital com assinatura de médico, chega a custar pelos 50 dólares. É caro, mas… para um apaixonado, todo sacrifício é pouco.

O governo anda de olho. Assim mesmo, para um torcedor de verdade ― de corneta, boné e bandeirinha ― o risco compensa.

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Nota:
A magnífica aula de geografia ministrada por nosso guia, faz alguns anos, está devidamente imortalizada no youtube. Se você quiser recordar, clique aqui. São 59 segundos inesquecíveis.

A última democracia?

José Horta Manzano

O site de informação Slate traz ― tanto em sua versão inglesa quanto na francesa ― artigo assinado por Anne Applebaum com interessante visão das futuras Copas do Mundo.

«Será o Brasil a última democracia a organizar uma Copa do Mundo?» ― é a pergunta que encabeça o artigo.

A jornalista constata que as obras grandiosas construídas especialmente para Copas e Jogos Olímpicos tendem a tornar-se elefantes brancos. Estádios sul-africanos, japoneses, sul-coreanos e pequineses, erigidos especificamente para esses grandes encontros esportivos, são hoje subutilizados.

by Paulo Ito

by Paulo Ito

As estruturas de concreto levantadas para os Jogos Olímpicos de Inverno de Sotchi, na Rússia, já começam a trincar. A reciclagem pós-olímpica do leste de Londres, tão anunciada pela mídia, ainda não é realidade. Onde quer que se tenham realizado Copas e Olimpíadas, despesas foram muito superiores ao orçamento.

A única diferença entre outros países e o Brasil é que, para nós, o arrependimento chegou antes. Já faz meses que o povo brasileiro se manifesta contra os gastos irresponsáveis que nosso governo se comprometeu a fazer.

O mundo tem observado a reação dos brasileiros com olhos mais atentos do que se imagina. Estes últimos meses, Alemanha, Suíça, Suécia e Polônia, assustadas com as despesas, retiraram sua candidatura para organizar os JOs de Inverno.

Munique (Alemanha) e Davos-St.Moritz (Suíça) renunciaram na esteira da recusa que seus cidadãos exprimiram nas urnas. O povo de Cracóvia (Polônia) foi o mais radical: 70% dos eleitores rechaçaram os Jogos.

Pelo andar da carruagem, as únicas candidaturas que deveriam se manter para os Jogos de Inverno 2022 são Pequim (China) e Almaty (antiga Alma-Ata, Cazaquistão). Não por acaso, ambas as cidades estão em países autoritários, onde o povo não tem como manifestar sua opinião.

Porto Alegre, 12 jun° 2014 Foto Marki Djurica, Reuters

Porto Alegre, 12 jun° 2014
Foto Marki Djurica, Reuters

A mesma razão parece explicar a escolha das duas próximas sedes da Copa do Mundo: a Rússia e o Catar. Ambos apresentam a garantia de que não haverá contestação nem protesto. Quanto a algum referendo incômodo, nem pensar ― o ordenamento jurídico desses países desconhece esse instrumento.

Como outros derivativos, o esporte é ópio do povo. Dá prestígio e dá lucro. As Copas e os Jogos Olímpicos ― o zênite do esporte mundial ― são hoje em dia controlados por seleta nomenklatura. E, naturalmente, continuam sendo financiados pelos manés que somos nós.

Brasil x México

José Horta Manzano

Lula caricatura 1Abusando de seu senso inato para a delicadeza e para a diplomacia, nosso guia fez recentemente sutil pronunciamento repercutido pelo diário mexicano El Economista.

Declarou que, enquanto o Brasil é uma realidade econômica, o México não passa de uma promessa.

El Economista não hesitou em destilar a frase e fazer dela o título do artigo: «Brasil se envaidece de seu passado; México, de seu futuro».

Bateu, levou.