Olhar de ver

Dad Squarisi (*)

MarquezEstive com García Márquez três vezes. A convite da Fundação Nuevo Periodismo, participei de oficinas em Cartagena sobre jornalismo para a paz. A Colômbia vivia em guerra, com sequestros que mantinham a população refém do medo. Ele, dono da casa, dava boas-vindas e conversava com o pequeno grupo. Vestia-se de branco da cabeça aos pés. Nem a pulseira do relógio fugia à regra.

O olhar do escritor foi o que mais me encantou. Ao conversar com alguém, ele lhe dedicava atenção plena. Os olhos, em nenhum momento, se desviavam em passeios vadios que expulsam o interlocutor. Nas sessões de autógrafo, sem ligar pro tamanho da fila, negava-se a redigir dedicatórias genéricas.

Indagava quem era a pessoa, o que fazia, do que gostava. Depois, mandava recado particular. O presidente do jornal recebeu o aposto “o homem que manda”. O diretor de finanças, “o dono do dinheiro”. O repórter, “o que corre atrás”. Esperei pacientemente a minha vez. Não me perguntou quem eu era. Havíamos conversado durante o curso.

Mas me mirou longamente. Baixou a cabeça, esboçou um desenho e escreveu “Uma flor para Dad”. Colega equatoriana que estava a meu lado se dirigiu a ele com voz invejosa. “Eu também quero”, gemeu suplicante. Ele largou a caneta sobre o livro, observou a moça com firmeza e surpreendeu: “A Olga, que quer uma flor, eu dou duas”. E deu.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura.

Afanador de galinhas

Sylo Costa (*)

Cícero, na primeira Catilinária contra a corrupção de seus contemporâneos, exclamou: ó, tempora, ó, mores! O mesmo podemos dizer do nosso Brasil de hoje: gente pobre, se comete um deslize furtando uma galinha ou um galo, é para comer, nunca para formar aviário. Já alguns sem-vergonha e ladrões roubam é Petrobras. Outros, remediados e ricos, políticos e velhacos, afanam tudo, principalmente dinheiro público, fazendo fortunas. Ó, tempos, ó, costumes!

Galinha 2Imagine esta situação, caro leitor: Afanásio Maximiniano Guimarães afanou um galo e uma galinha do galinheiro de Raimundo das Graças Miranda. A Defensoria Pública requereu ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais a extinção do processo, uma vez que o acusado devolvera os animais (presumo que o dito cujo tenha sido condenado na 1ª instância).

Se o perigoso assaltante de galinhas tivesse tido tempo para devorar os bichos, certamente que a defesa apelaria para o chamado furto famélico, situação em que se subtrai algo para comer e não morrer de fome.

Ou não, porque os políticos de Brasília e aqueles que comem quietos, como mensaleiros e fanáticos interessados na Petrobras e outras fontes luminosas como Copa e Olimpíadas, já desmoralizaram esse tipo de crime e, provavelmente, já pensaram em todas as maneiras de como sair incólume dessas aventuras, depois das ditas efemérides.

Mas, voltando ao tema do furto de galinhas, presumo eu que existiu outro pedido da defesa, em caráter liminar, quanto à aplicação do princípio da insignificância, e o assunto foi parar no Supremo.

O ministro relator, Luiz Fux, ao analisar o caso, decidiu aguardar o julgamento do mérito do pedido para depois decidir a questão em definitivo. É…, um país cujos principais juízes se preocupam na mais alta Corte com galos e galinhas e não conhecem de Renans e Roses, escondidos que vivem debaixo dos caracóis dos seus cabelos e perucas, não podem ter mesmo tempo para mandar prender ladrões de casaca que abundam e que agem abertamente para desmoralizar nossas instituições e quebrar, no sentido de arrebentar, nosso país.

Galinha 1Não sei quem foi o iluminado que um dia descobriu o termo “hediondo” e, achando-o bonito, resolveu enquadrar tudo quanto é desgraça nesse título para substituir nosso Código Penal, fazendo até furto de galinha ser crime hediondo. Ladrão de galinhas não pode ser o mesmo que ladrão de Petrobras.

A lei não pode ser oito ou 80. Quer dizer que eu, que sou apenas um cidadão comum, se furtar uma galinha para comer serei julgado por crime hediondo e terei julgamento igual a esses ladrões sócios de doleiros? Furto é uma coisa, roubo é outra.

Ó, quer saber? Eu e muita gente só vamos esperar a primeira parada desse trem brasileiro. Ainda que não tenha chegado a lugar algum, quero descer e só subirei de volta quando desratizarem o ambiente pátrio.

(*) Sylo Costa é colunista do jornal O Tempo, de Belo Horizonte.

Era uma vez… José Wilker

Wilma Schiesari-Legris (*)

A primeira vez que vi o José foi quando ele fez o papel do arquiteto, na peça de Arrabal O arquiteto e o imperador da Assíria, montada pela primeira vez no Brasil em 1970.

A peça começou no Teatro Ipanema, com direção de Ivan Albuquerque. O elenco era formado por Rubens Corrêa e José Wilker.

Não foi no Rio que assisti à peça, mas no TBC, em São Paulo, numa matinée de domingo. O ator José Wilker havia chegado ao teatro no mesmo momento que eu, como um hippie, vasto chapéu feito de retalhos de couro ― provavelmente adquirido na feira artesanal da Praça da República ― e uma calça branca boca de sino de cintura baixa.José Wilker 1

Foi num cenário deslumbrante feito de retalhos de jornal, engolindo aquele palco de alto a baixo, que pressenti estar na presença de um enorme ator.

Jamais, durante aquele espetáculo, poderia imaginar que ele pudesse entrar também na minha vida. Explico melhor. Nos anos 70, minha melhor amiga da época, colega de escola, foi viver com ele. Um casamento de dez anos, do qual tive notícias unicamente através das cartas que me chegavam, primeiramente em São Paulo e, depois de 78, na França.

Pois bem, foi dentro dos envelopes que acompanhei a vida de ambos, que habitavam um apartamento muito simpático, no Jardim Botânico, que lhes fora alugado através da atriz Debora Duarte.

Estive uma única vez naquele lugar e o que mais me impressionou foi uma coleção de LPs, que precedeu a outra, de 4.000 filmes em videoteipe. Aquilo era um templo de cultura: os discos enfileirados ocupavam uma estante que dava a volta num cômodo amplo e os livros abarrotavam as prateleiras de outra sala.

Depois os vi aqui em Paris. Foi em 1979, atravessando um corredor do metrô na estação Trocadéro, de onde voltavam, de mãos dadas, de uma festa do Partido Socialista, quando Giscard ainda era o presidente da França. Dali, seguimos até a minha kitinete, e o José nos ofereceu, ao meu marido e a mim, um de seus livros, que ele dedicou assim:

Interligne vertical 12Para Wilma e Pierre,
Com carinho, meu primeiro livro a atravessar o Atlântico.

E assinou. Era Em algum lugar fora deste mundo, o título do livro e a situação.

Minha amiga estava grávida e desconhecia o seu estado. Quando eles souberam o que os esperava, o José também ficou grávido e dentro dos envelopes jamais havia alusões à vida artística de ambos, dois atores de muito sucesso na ocasião. Eram sempre cartas adoráveis, longe das luzes da ribalta e dos estúdios de filmagem, com fotos da minha amiga envergando uma linda barriga, depois substituídas pelas imagens da Mariana que crescia. Guardei-as todas, até ela se mudar de casa.

Um dia a sua vida se partiu e a minha amiga partiu também, instalando-se no Leblon e levando adiante a educação da pequena, até que a nossa amizade também murchou, me deixando órfã, assim, até hoje.

José Wilker 2Quando José Wilker esteve em Paris em 2007 para presidir o Festival de Cinema Brasileiro, foi condecorado com altas distinções tanto pela França como pelo Brasil.

O festival também fazia uma homenagem ao José, que esteve ali presente durante alguns dias. Sempre na plateia, eu também estive lá e tomei coragem para conversar com ele numa daquelas noites.

Será que ele se lembraria de mim, depois de mais de 35 anos sem nos vermos? De quando lhe preparei ovos fritos com linguiça, tudo o que havia na geladeira de casa?

Falamos de muitas coisas na ordem e na desordem dos meus pensamentos. Havia muito tempo que minha melhor amiga saíra de sua vida e, agora, da minha.

Foi quando ele me disse que Mariana, morando com ele, estava sendo formada pelo Carlos Diegues para ser roteirista do filme deles. José tinha o peito estufado ao falar da filha, agora interessada menos por psicologia e mais por arte. A sétima!

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

Hoje soube que José Wilker morreu. Constatei que deve ter partido feliz, pois ele mesmo, grande epicurista, dizia do bem que faz um bom vinho e o amor de uma mulher.

Deixa órfão o cinema brasileiro, os palcos cariocas e os estúdios de televisão. Deixa infelizes todos os que o amaram.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora

Pé de sapato

Osvaldo Molles (*)

De início, ela quis impor o respeito. Logo no primeiro dia, dona Maricota entrou e foi dizendo para aqueles alunos do primeiro ano primário:

― Quero disciplina e respeito, se não, dou ponteirada!

A gente era pequeno demais e achava imenso, enorme, aquele ponteiro com que dona Maricota apontava a lição do quadro-negro e desapontava os malcriados com bordoadas justas e certeiras. De vez em quando, o subdiretor botava o nariz enorme pela porta entreaberta. Aí ela sorria. E a classe, logo no primeiro mês, começou a desconfiar que havia namoro.

Professora 1Não sei por que é que ela implicou comigo. Acho que era por causa do «pé descalço ― pé calçado». É que pobre faz assim: compra um par de calçado só. Um irmão calça o pé direito, o outro calça o esquerdo. E o dedão de fora está sempre amarrado num pano sujo de poeira. Dona Maricota não gostava da tapeação. E intimidava:

― Seu Osvaldo, se esse pé não sarar até o dia 21 de abril, dou ponteirada!

É que, naquele tempo, o Brasil tinha sido descoberto no dia 21 de abril. Depois, descobriram o Brasil no dia 3 de maio. E a 21 de abril havia festa. Aí, então, os irmãos que calçavam o mesmo número tiravam o par ou ímpar. Quem ganhava ia à festa. Eu nunca fui, talvez por causa do meu azar em jogo.

Entretanto, dona Maricota costumava sorrir para os três alunos mais bem penteados e bem vestidos da classe. Um deles era o Peixotinho, de colarinho sempre alvo e de gravatinha preta. Levava «manteiga do sítio de papai» para dona Maricota e era o primeiro da classe. Era talentoso na arte de agradar. E tinha um futuro brilhante. Dona Maricota acreditava no futuro do Peixotinho. Hoje, ele é vendedor de bananas na rua da Cantareira.

Foi um pó de arroz antigo, cheirado de passagem, que me trouxe essas lembranças de dona Maricota. E, apesar de tudo, a gente sente saudade do perfume tênue que a professora espalhava quando fazia o esforço de distribuir ponteiradas entre os «pé descalço ― pé calçado» da classe.

Interligne 23

(*) Osvaldo Molles (1913-1967) era paulista de Santos. Seu percurso foi eclético. Deixou rastro como escritor, romancista, contista, cronista, jornalista, radialista, compositor, letrista, roteirista. Soube captar, com olhar lírico, a alma da gente simples de seu tempo. Foi parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, com quem compartilha a autoria de Tiro ao Álvaro (1960), gravada pelos Demônios da Garoa e por Elis Regina.

O conto aqui transcrito foi publicado no livro Piquenique Classe C ― Crônicas e flagrantes de São Paulo, lançado em 1962 pela Boa Leitura Editora. A obra, com 63 crônicas, traz ilustrações de Clóvis Graciano e prefácio de Hermínio Sacchetta. Reúne textos esparsos que o autor havia publicado em meia dúzia de periódicos, entre eles a Folha de São Paulo, a revista Manchete, o jornal Diário da Noite.

Àqueles que quiserem conhecer um pouco mais sobre Osvaldo Molles, recomendo uma visitinha ao site Cifrantiga. Aqui.

Unesco tomba as Sete Maravilhas do Caos da Copa

Diego Rebouças (*)

Notícia azeda de tão velha: Brasil não vai conseguir maquiar todos os seus problemas até a Copa do Mundo! Pensando nisso, a Unesco decidiu tombar as «Sete Maravilhas do Caos da Copa do Brasil». Não é o máximo? Agora, os gringos não vão poder reclamar. E nem você, mané! A não ser que queira levar de brinde da PM uma arma que eles chamam de não-letal, mas que mata que é uma beleza. Papel e caneta na mão para a lista:

1) O caos aéreo
Welcome, gringaiada! Primeira parada obrigatória: o aeroporto. Nós temos tanto orgulho de termos aeroportos que nenhum brasileiro passa menos de duas horinhas preso em um. Tanto é que a gente vota na mesma corja que promete ajeitar as coisas e não ajeita nada. Ajeitar pra quê? A gente gosta assim! Filas, malas trocadas, voos superlotados. Se espremam na confusão e welcome!

Parece cheio, mas cabe mais gente by Roberto Capote, Folhapress

Parece cheio, mas cabe mais gente
by Roberto Capote, Folhapress

2) Trens, metrôs e ônibus superlotados
Conseguiu sair do aeroporto, Gringo? Mas a superlotação continua nos trens, metrôs e ônibus. Esse assunto irritou alguns brasileiros em 2013, muitos foram até pras ruas protestar, dizendo que “Não é só por 20 centavos”, mas a CPI dos Ônibus do Rio de Janeiro morreu, todo mundo esqueceu do assunto e tenta entrar aí no trem, Gringo, com mala e tudo. Não conseguiu? Não tem problema, porque a gente acha que Gringo é tudo rico e por isso temos a honra de apresentar a Terceira Maravilha do Caos da Copa!

3) Taxistas monolíngues
Símbolo do nosso folclore, o taxista fala pouco quando você precisa de uma informação crucial e entope os seus ouvidos quando você não está nem aí pra saber a opinião dele sobre como as novelas das 21h prejudicam a educação das crianças. Gringo, saiba desde já uma coisa: seu taxista vai falar pouco. Ou vai falar muito. Mas quase nunca vai falar o que você quer. Ainda bem que isso não importa porque nós temos a Quarta Maravilha do Caos da Copa!

4) Os maxiengarrafamentos
Bem-vindo, Gringo! Seu taxista não diz coisa com coisa e esse táxi bandeira dois não sai do lugar. É que nós, brasileiros, adoramos ficar parados. Em aeroporto, transporte público ou no carro. Tanto que todo ano a gente vota em pessoas que têm até uma cara diferente, mas são financiadas pelos mesmos empreiteiros. Que ganham maravilhas fazendo megaviadutos, que tapam a visão e dão uma maquiada no trânsito daqui, só pra meio quilômetro mais na frente afunilar tudo de novo. Isso é que é bacana do Brasil, gringo! Não importa em que cidade você esteja, você sempre estará em Gambiarra City. E olha, que máximo! Enquanto você lia esse item, clic, clic, o precinho do seu taxímetro só fez aumentar. Tá achando ruim? É porque você ainda não viu o próximo item da lista, o…

Parece cheio, mas cabe mais água by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Parece cheio, mas cabe mais água
by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

5) Alagamento pós-chuva
Recapitulemos a sua situação, Gringo: você levou uma surra no aeroporto, está preso numa avenida que não anda, com um taxista que consulta um dicionário cada vez que você pronuncia uma palavra. Eis que começa a chover. Carros começam a buzinar. Uns sobem na calçada, outros sobem no posto e quem não consegue sobe sua prece em direção a Deus. Mais 15 minutos e tudo estará debaixo d’água.
Mas antes temos a Sexta Maravilha do Caos da Copa, a…

6) Violência urbana
Com os carros parados e a chuva caindo, décadas de negligência dos governos municipais, estaduais e federal de todos os partidos dão suas caras: crianças que não tiveram acesso à escola viraram jovens sem acesso ao mercado de trabalho e pior – sem acesso à autoestima. Vão respeitar pra quê, se o Estado brasileiro nunca os respeitou? Eles não estão nem aí. Tanto que estão mandando você entregar sua carteira e sua mala no meio do engarrafamento, antes que a rua alague. E é bom entregar, Gringo.

7) Estádios überfaturados
ÊêÊêÊê!!! Chuva passou, táxi andou, Gringo precisou parar num caixa 24 horas para poder pagar a corrida, mas é hora de comemorar. Sem malas nem carteira, você está muito mais leve. E como o taxista não entendeu onde ficava o seu hotel, então, ele te trouxe para um dos nossos estádios überfaturados. Isso mesmo: über. Afinal, nem a Muralha da China e as pirâmides do Egito JUNTAS custaram tanto. E daí que mais da metade da população brasileira não tem cacife para assistir os jogos da Copa? Se você tem ingresso, Gringo, pode entrar. Por isso, seja muito welcome. Entre no estádio. Ache a sua cadeira-padrão-Fifa, que a partida vai começar.

(*) Diego Rebouças é roteirista e jornalista. O artigo acima foi publicado pela Folha de São Paulo, 26 dez° 2013.

Este artigo foi publicado neste blogue no fim do ano passado. No entanto, com a aproximação da “Copa das copas”, está mais atual que nunca. Daí a republicação.

Félix

Wilma Schiesari-Legris (*)

O Félix apareceu nas nossas vidas sorrateiramente, vagando pelos corredores do prédio, passeando pelo jardim de boa terra quente e dormindo num nicho da parede até ser adotado pelos habitantes do imóvel que assim o batizaram por ser ele um pleonasma em branco e preto do gato Félix.

Gato 1Todas as velhinhas do condomínio adoravam falar com o Félix, mesmo sem saber miar. Uma delas resolveu adotá-lo ensinando ao animal abandonado os caminhos pavlovianos para chegar a seu apartamento situado no sexto andar. Primeiro galgaram juntos as escadas e depois o percurso começou a ser feito por elevador porque a velhinha era mais idosa que o gato.

Félix foi subjugado pela carne fresca cortada a tesouradas e devidamente apresentada num pratinho de porcelana, primeiro à porta do apartamento, depois no seu interior.

A astuta e felina velhinha concebeu então uma campainha para que o gato, assim que chegasse diante da porta, mostrasse a sua presença faminta agitando a patinha no carrilhãzinho colocado estratégicamente ao pé da porta. Assim, pouco a pouco, o gatinho foi voltando e permanecendo no interior da casa com a liberdade de sair quando quisesse e regressando a cada caçada infrutífera tentada no jardim. Não era um gato que se deixasse afagar: ia, comia e partia, voltando sistematicamente.

Quando o bichinho se sentiu realmente à vontade, começou a tirar umas pestanas na sala e foi com grande surpresa que a senhorinha descobriu que o suposto macho era uma fêmea: tinha ela uma enorme e cirúrgica cicatriz ventral, separando suas tetinhas em duas colunas estéreis.

O tempo passando e a confiança se instalando, Madame Félix deixou-se acariciar sem jamais entrar na categoria dos gatos descritos por Miguel Torga, nunca mostrando submissão, e mesmo, ao contrário, submetendo.

O gato (ou gata) pôs a pobre velhinha de quatro patas e, para selar a sua autoridade, passou a utilisar sistematicamente o elevador, onde todo eventual ocupante lhe servia de ascensorista, abrindo-lhe a porta da cabina no sexto andar. Dali em diante, a gata passou a olhar nos olhos da velhinha.

Cada vez que estavam juntas, era ela quem fazia as observações sobre o estado da casa ou o moral da velhinha. Aquela gata com olhos verdes e diabólicos sabia. Sabia da subserviência da velha, da sua submissão milenar, do seu altruísmo e da sua mesquinharia. Acompanhando com o olhar a anfitriã, passava as horas a conjecturar a miséria da vida humana comparada com a dos gatos vagabundos, a ponto de convencer sua senhora a abandonar a casca humana e tornar-se gata como ela.

Era o fim das gatas borralheiras e o começo da reflexão. Aquela velhinha estava começando a entender de filosofia com sua arrogante gata!

Que melhor vida para uma fêmea, mesmo comparando com aquela da gata castrada, do que ser apenas um animal no qual a humanidade se manifestava mais pungente? A gata nunca miou, nunca se deixou pegar no colo, nunca arranhou, sequer destruiu o tecido do sofá onde se pôs a passar as tardes a observar sua serva.Gato 1

Ela considerava as maneiras da velhinha presenciando as vulgaridades comportamentais cometidas pelas pessoas que vivem sós e se descuidam dos aparatos de educação requeridos pela vida em sociedade.

Quantas não foram as frases ditas em voz alta ― que repugnariam um vizinho mais avisado ― e que a bichana ouviu calada?

Quantos não foram os telefonemas não atendidos ou, se assim não ocorresse, que eram recheados de mentiras ou inverdades que o animal descompreendeu?

Que continham aquelas cartas que chegavam ao apartamento ou que dele saíam para um neto distante ou um filho interesseiro, herdeiro único, que seria o dono do espaço da gata no tempo em que a morte colhesse a sua hospedeira?

A suposta ordem dos objetos e da decoração, pensava o bicho, escondiam uma desordem qualquer?

Quem eram aqueles parcos visitantes que às vezes iam jantar com elas, apreciando mais a gatinha que a senhorinha?

Por que tantos livros nas bibliotecas e tão poucas e murchas as flores nos vasos?

Gato 1Todas essas questões ficaram sem resposta até o dia em que a senhorinha resolveu comer no mesmo pratinho que a gata, agachada ao chão, ao lado dela. A bichana partilhou a ração e permitiu que a dona se sentasse com ela no sofá da sala. Às vezes ambas faziam a sesta dentro do armário embutido do quarto ou espreguiçavam juntas sobre o tapete bordô.

Quando a gata curvava o dorso esticando as patas dianteiras, sua dona se sentia melhor da lordose. Quando o animal lambia as patas para depois limpar o pelo da cabeça e das orelhas, a velhinha sentia-se mais asseada. Quando Félix procurava uma réstia de sol vinda da janela, dividia o espaço com ela.

O único senão é que, naquela altura, a velha e a gatinha eram da mesma velhice e o animal não era mais visto da janela, nas horas em que ficava fora de casa, a trepar nos muros altos, escalar as árvores ou a caçar os passarinhos desavisados que bicavam no jardim.

O apartamento foi legado em cartório à bichana.

A velhinha morreu tentando saltar dum galho alto do jardim. Ela havia tomado por hábito caçar lagartixas e passarinhos que, a quatro patas, levava para Félix subindo a pé os seis andares com a presa entre os dentes.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora

Entre a misantropia e a filantropia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Tem gente que não gosta de gente. Dentre esse tipo de pessoas, há aquelas que buscam nos animais uma espécie de compensação afetiva para estabelecer relacionamentos e escapar da solidão.

Tem também gente que ama gente. Já dentre essa classe de pessoas, há aquelas que vivem reclamando de quem dá preferência à adoção de animais, ao invés de crianças carentes.

No meio dos dois tipos, há ainda pessoas que se satisfazem com relacionamentos cotidianos tanto com humanos quanto com animais.

Na linguagem comum das ruas, é habitual usar a expressão “Fulano é muito humano” para designar uma pessoa portadora de sensibilidade, generosidade ou solidariedade. Por outro lado, também é comum indignar-se quando um exemplar da raça humana transgride algum código de ética ou de convivência social dizendo que “Fulano é um animal”.Homem animal

De que lado está a verdade? Humanos são mesmo seres sensíveis, generosos e solidários enquanto os animais são geneticamente incapazes de se comportar de acordo com as regras da boa convivência humana? Claro que você já sabe a resposta: existe gente chegada a atitudes “animalescas” e existem animais tão sensíveis de quem se poderia dizer que já são um pouco “humanos”.

A frequência estatística de cada um desses tipos? Bem, eu diria que, se deixados em seu estado natural ― isto é, sem que grandes traumas tenham ocorrido em seu percurso geneticamente programado ― a chance de encontrar animais humanizados e pessoas animalizadas estaria próxima da do acaso, ou seja, 50% para cada lado.

Inútil negar a evidência de que somos todos humanos e animais ao mesmo tempo. Na nossa espécie, o cerne biológico é recoberto por uma camada de racionalidade que age como uma espécie de tampão para inibir a expressão de instintos primitivos. Quase sempre dá certo, mas não há garantia de espécie alguma de que um acontecimento inusitado e com uma carga energética maior do que a que estamos habituados não possa burlar a vigilância do ego e irromper com força máxima no terreno da animalidade.

O problema está na nossa dificuldade em admitir que existe, em estado latente, dentro de cada um de nós o potencial de visitar qualquer um desses extremos a qualquer momento e sem que possamos antecipar isso. Nossa censura interna apenas se esforça em comprovar que isso jamais acontecerá conosco.

O inferno são os outros

Tudo seria simples se todos os comportamentos humanos fossem plenamente conscientes ― e não são. O motivo que aparece em nossa consciência para justificar uma determinada atitude nossa nem sempre corresponde à realidade de nossa emoção. Como fomos adestrados pacientemente desde muito cedo para a expressão de sentimentos positivos e para a repressão dos negativos, nos deixamos cegar para a crueldade de muitas de nossas intenções. “O inferno são os outros”, já dizia Jean-Paul Sartre. Se não tivéssemos de conviver com pessoas que adotam outros estilos de vida, outros códigos de conduta e outros valores, nossa existência seria plácida como a superfície de um lago em dia sem vento.

Já na contramão dessa crença, Freud nos alertou em muitos de seus escritos para a violência contida no “retorno do oprimido”. Se tivermos sido extremamente eficientes ao longo de nossa vida para conter a livre expressão de instintos selvagens, podemos ter esticado tanto a corda que inadvertidamente nos colocamos a apenas um passo de uma explosão devastadora.

Duas canoas by Liz Zahara

Duas canoas
by Liz Zahara

Para domesticar a fera humana e incorporar a doce espontaneidade animal, precisamos simplesmente ter consciência de que temos um pé em cada canoa o tempo todo. É, pois, a delicada tensão dinâmica entre nossa humanidade e nossa animalidade o princípio-guia que rege uma existência saudável, a meio caminho entre a misantropia e a filantropia.

Para tratar daquelas pessoas que sentem dificuldade em encontrar o caminho do meio, lancei há pouco tempo o conceito de “adestramento de humanos”. Se você se interessa em saber mais a esse respeito, entre em contato comigo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga.
Email: msvac@uol.com.br

Do trabalho que dá ter um cachorro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Muitas pessoas já me pararam no meio da rua, admiradas com minhas cachorras – seja por seu porte, por sua estrutura corporal, pela beleza e brilho de seus pelos longos, por seu ar de vivacidade ou, ainda, por sua doce mansidão – para me fazer sempre uma mesma pergunta: “Dá muito trabalho?”Cachorro 2

Nunca soube responder com precisão a essa pergunta. Gastava sempre alguns minutos me perguntando se a rotina diária de cuidados com elas podia ou não ser enquadrada na categoria “trabalho”. Explico melhor: para mim, trabalho e prazer não são categorias mutuamente excludentes. Na cabeça de muitas pessoas, trabalho vem normalmente associado a obrigação, sacrifício, dedicação, esforço, atos repetitivos, chatice, tensão, busca por resultados, etc.

Já prazer é comumente associado a ficar deitado de barriga para cima, preferencialmente ao ar livre, sem fazer nada e, no mais das vezes, desfrutando de algum estímulo revigorante, como uma brisa, uma bebida gelada, uma comidinha bem temperada, carícias corporais, etc. Para meu cérebro, entretanto, a coisa não é tão simples assim. Nem sempre dá para catalogar os cuidados necessários para a manutenção de uma vida saudável [humana ou animal] em um único dos extremos dessa falsa dicotomia. Quem faz o que gosta, meu cérebro não se cansa de argumentar, não considera isso um trabalho, apenas e tão somente se delicia fazendo o que precisa ser feito. Como todas essas ponderações sempre me ocorriam ao ouvir a pergunta, eu impulsivamente devolvia: “Depende do que você considera trabalho!”

A piada é velha mas, ainda assim, acho que vale a pena ilustrar com ela o que eu tentava comunicar: “Você sabe que está ficando velho quando o trabalho dá prazer e o prazer dá trabalho”. Como já estou “entrada em anos” e tenho tido poucas oportunidades de me deleitar com outros prazeres, resolvi dedicar o tempo que me sobra para condensar numa espécie de “cartilha” minhas percepções a respeito do trabalho que dá ter um cachorro. Ofereço a lista de pontos abaixo como minha contribuição pessoal para que entusiastas da posse responsável de animais de estimação (não conheço muito sobre gatos, minha referência é o trato com cachorros) possam tomar uma decisão informada.Cachorro 1

Interligne vertical 91. Cachorros não sabem limpar os pés no capacho. Em função disso, você corre sempre o risco de ver o piso que acabou de limpar ser conspurcado por uma trilha de pegadas de patinhas sujas de terra, de xixi ou de cocô.

2. Cachorros não sabem sugar nem aspirar sua própria baba. Dessa forma, o lugar determinado por você para eles tomarem água vai estar sempre circundado por uma pocinha peculiar e, muitas vezes, haverá uma trilha de respingos indicando o trajeto que eles fazem indo e voltando do pote.

3. Cachorros nunca se tornarão independentes de você para se alimentar, tomar água, tomar banho, nem para fazer suas necessidades fisiológicas de uma maneira ecologicamente sustentável e higienicamente responsável. Cabe a você tomar todas as providências necessárias.

4. Cachorros não falam e, portanto, você vai ter de se esforçar muito para compreender o que eles estão querendo comunicar quando o olham com aquele ar de perplexidade, principalmente quando esse olhar vem acompanhado de desobediência. Também não adianta nada perguntar o que está acontecendo quando eles ficam deitados por muito tempo e se recusam a comer.

5. Cachorros carregam para dentro de sua casa – nas patas e nos pelos – uma série infindável de bactérias, germes, virus, alérgenos de toda espécie, galhinhos, torrões de terra, pulgas, carrapatos e outros desafios importantes ao seu sistema imunológico. Tudo o que você precisa fazer é se perguntar: eu acredito que meu sistema imunológico é reforçado ou se fragiliza diante desses desafios?

6. Cachorros não fazem nenhuma ideia de suas dimensões corporais nem de seu peso e, além disso, não sabem calcular distâncias muito bem. Assim, seus móveis, cristais, pratarias e bibelôs estarão permanentemente em risco quando de seus deslocamentos dentro de casa, principalmente quando eles estão felizes e abanando seu rabo com vigor.

7. Cachorros costumam se empolgar – tanto no sentido afetuoso quanto agressivo – quando encontram pelas ruas algum companheiro de quatro patas e, portanto, você precisará ficar eternamente em alerta para evitar tropeções e arrastões. Caso o encontro seja com humanos, você precisará cuidar para que não assustem nem derrubem crianças pequenas ou idosos debilitados. Outro cuidado sempre necessário é treina-los para que não façam movimentos bruscos nem saiam correndo caso se assustem com o ruído do trânsito.

8. Cachorros não obedecem às convenções sociais. Podem cheirar suas partes íntimas sem qualquer pudor, pular nas suas visitas, agarrar-se às suas pernas e pés, fazendo movimentos copulatórios explícitos, e até mesmo fazer xixi como forma de demonstrar alegria por vê-lo.

9. Cachorros podem produzir ruídos altos e irritantes por horas a fio quando se sentem sozinhos mas, certamente, o que mais vai incomodá-lo é quando eles ficam em silêncio absoluto por muito tempo. Não dê chance ao azar: levante-se imediatamente tão logo se dê conta de que eles estão muito quietos e vá verificar o que eles estão aprontando. Nove vezes em dez você terá surpresas desagradáveis.

10. Cachorros não sabem determinar o valor dos objetos que encontram em seu caminho – nem em termos financeiros, nem em termos afetivos. Seus óculos, seu celular, o controle de seus aparelhos eletrônicos, seus documentos, boletos de pagamento, aqueles seus sapatos caríssimos, aquela roupa que você adora, seus acessórios, suas jóias, etc. despertarão sempre uma grande curiosidade neles. Como cachorros não tem mãos para segurá-los e examiná-los mais de perto, eles os colocarão em sua boca e experimentarão seu gosto e sua textura. Caso gostem…

11. Cachorros podem despertar temor, raiva ou ternura em terceiros. Ao circular com eles em elevadores, nas ruas, nos parques, esteja preparado para enfrentar reações imprevisíveis das pessoas com quem você cruza. Elas podem ir desde os afagos e elogios até gritos, impropérios e escoriações generalizadas – em você, neles e nos tais terceiros.

12. Cachorros não podem ser deixados sozinhos por muito tempo – nem ao longo de um único dia, nem principalmente quando de suas férias, viagens a trabalho ou de lazer, compromissos de última hora, doenças, ou simples cansaço. Tenha sempre à mão o telefone de um hotelzinho, spa ou clube de campo para pets. Nem pense em pedir a seus familiares e amigos para ficarem com eles, já que, no mais das vezes, você receberá apenas um sorriso amarelo de volta. Qualquer que seja a solução encontrada, você terá sempre de arcar com os custos de hospedagem, alimentação e transporte.

13. Cachorros são emocionalmente “grudentos”. Transformam-se em suas sombras e o acompanham caminhando literalmente em seus calcanhares onde quer que você vá. Estão sempre necessitados de atenção e não se constrangem em lançar aqueles olhares “pidões” solicitando que você jogue bolinha com eles, que os acaricie ou que interrompa qualquer coisa que esteja fazendo, por mais importante que seja, só para olhar para eles.

14. Cachorros não têm noção de tempo. Para eles, não existe passado nem futuro. Assim, não adianta nada você caprichar na bronca por algum malfeito que eles tenham perpetrado apenas alguns minutos atrás ou que você já cansou de tentar corrigir, nem pedir que eles esperem você terminar o que está fazendo para levá-los para passear. Mas atenção: essa desvantagem tem um lado bom. Cachorros não guardam ressentimentos, não vão nunca jogar na sua cara seus descontroles emocionais do passado nem querer “discutir a relação”. Depois de um conflito qualquer, basta chamá-los que eles virão correndo, balançando alegremente o rabinho.

15. Cachorros são seres paradoxais. Apesar de serem a causa direta ou remota de tantos transtornos, desconfortos, ameaças, irritações e constrangimentos no seu cotidiano, certamente o seu pior defeito é estabelecer um padrão de relacionamento que não encontra paralelo na espécie humana. Eles fazem com que você se acostume a esperar das pessoas o mesmo comportamento ético, a mesma lealdade, a mesma sensibilidade para decifrar suas emoções e aquele mesmo olhar de admiração. Daí….. você desaprende a viver sem eles!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga.

Quem bebe soviete não repete

Fernão Lara Mesquita (*)

Segundo dona Dilma, «Os casos da Venezuela e da Ucrânia são absolutamente díspares».

GrapetteSem dúvida nenhuma.

A Venezuela quer sair de qualquer jeito de onde a Ucrânia já esteve e a Ucrânia não quer voltar de jeito nenhum para onde a Venezuela está, nem por todas as «conquistas sociais» do bolivarianismo que fazem a nossa presidente continuar hesitando no meio do tiroteio e dos corpos caindo. Conquistas multiplicadas por mil.

Vamos esperar que ela não dê uma de Vladimir Putin escondendo o Yanucovitch dos venezuelanos quando o povo de lá se livrar dele.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

Cría cuervos, y te sacarán los ojos

Sandro Vaia (*)

Não é preciso ter visto o filme de Carlos Saura para entender o significado da célebre expressão espanhola.

O rojão na cabeça que matou o cinegrafista Santiago Andrade da TV Bandeirantes durante um distúrbio no Rio é o olho arrancado por um corvo criado, alimentado, paparicado e incentivado por boa parte do pensamento político que imagina construir uma sociedade perfeita cheia de fadas Sininho e de rios de leite e mel, onde a justiça social estará disponível nas prateleiras dos supermercados a preços de liquidação.

Não importa se o morteiro foi disparado por 150 reais. Há assassinatos mais baratos do que esse disponíveis no mercado. Importa é o caldo da cultura que criou assassinos-vítimas que aparecem com cara de Dr. Jeckyll nos seus gestos de confissão e arrependimento e são fotografados em ação no auge de sua monstruosa transfiguração de Mr. Hyde.

Se, além do curling, houvesse na Olimpíada russa de inverno que transcorre em Sochi a modalidade de pisar em ovos, a imprensa, as autoridades, os políticos e o governo brasileiro criariam um escrete imbatível.

Pede-se uma lei contra o terrorismo, mas terrorismo não é. E se terrorismo for, como não enquadrar os não muito amistosos manifestantes do MST, que ocuparam a praça dos Três Poderes, tentaram invadir o prédio do Supremo e entraram em combate com policiais militares?Corvo 1

Mas não se pode criminalizar os movimentos sociais, reza a cartilha do poder. Por isso, prudentemente o ministro da Justiça guardou em sua gaveta um ante-projeto do secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, prevendo punições para manifestações violentas.

Como se não bastasse, representantes do pacífico MST, cujo líder José Pedro Stédile chamou o governo Dilma de «bundão» em questões de reforma agrária uma semana antes, foram recebidos e afagados pela própria presidente, depois de ferir 30 policiais nos choques do dia anterior.

Mas se o movimento for contra a Copa do Mundo, não será mais movimento social, mas pode ser enquadrado como terrorismo, conforme um projeto de lei que está atravancado em alguma gaveta do Congresso Nacional.

A confusão conceitual se instalou na seara do politicamente correto, e os concorrentes da maratona de pisar em ovos, não sabem mais pra que lado atirar: os pobres meninos desamparados da periferia que atiram rojões a esmo são vítimas da sociedade ou da exploração de políticos inescrupulosos que pagam pela sua violência?

O diabo é que todos dizem querer uma sociedade mais justa e em nome disso são capazes de pregar e acreditar que a justiça está em desmoralizar o Poder Judiciário porque condenou correligionários por corrupção ou em escrever que o «superávit primário é uma invenção diabólica do capitalismo para explorar os povos».

Quem cria esses corvos? E os olhos de quem eles comerão?

(*) Sandro Vaia é jornalista e escritor.
Fonte do artigo: O Globo, Blogue do Noblat

Natan Donadon disse tudo!

Fernão Lara Mesquita (*)

«O voto aberto vai fazer com que meus colegas votem contra o coração e a vontade deles»

E não é com isso que o Brasil sempre sonhou? Que eles votem SEMPRE contra o coração e a vontade deles e a favor da nossa? Democracia é exatamente isso ― nem mais, nem menos. Estas duas votações em menos de seis meses:

Interligne vertical 7Meio ano atrás: 233 votos pela cassação, 24 a menos que o necessário a 172 pela manutenção do mandato (mais abstenções)

Ontem: 467 pela cassação x 1 abstenção (de outro deputado presidiário)

É a prova do que se tem afirmado desde sempre aqui no Vespeiro: a civilização (que é o outro nome da democracia) não é muito mais que a presença da polícia.

O voto distrital com recall põe polícia na política. É a chegada do xerife a este nosso faroeste dominado pelos bandidos.

Não há povos piores nem povos melhores, «gentinha» nem gentona. O que há são os que já experimentaram e os que ainda não experimentaram. E mesmo entre os que já experimentaram, se tirar a polícia de cima, volta tudo pra trás. Até o Steve Jobs, o Leonardo da Vinci cibernético ― o «inventor da modernidade» ― se tiver certeza de que não vai pagar por isso, vira explorador de menores miseráveis na China.Biscoito surpresa

O voto distrital com recall arma a mão da polícia da política ― que é você ― para que ela possa exigir o cumprimento da lei. E o efeito é imediato e automático, como previa o anteontem ainda deputado e hoje só presidiário. E se é assim diante da simples perspectiva de ser identificado pelo eleitor, imagine o que seria se eles soubessem que o eleitor pode, a qualquer momento, sem manifestação de rua nem bagunça, retirar o voto que lhes garante o emprego.

O recall é isso. Divide-se o número de eleitores pelo número de deputados e cria-se um distrito eleitoral delimitado pela geografia com aquele número de eleitores. Cada candidato só pode pedir votos em um único distrito eleitoral. Se eleito, fica-se sabendo exatamente que eleitores ele representa. E se mijar fora do penico, qualquer eleitor daquele distrito tem direito de passar uma lista pedindo a confirmação do mandato do porcalhão. Se conseguir colher a assinatura de 5% dos eleitores da circunscrição, convoca-se uma nova votação unicamente naquele distrito. Caso o deputado não seja confirmado, seu mandato será cassado. E, se calhar, ele que vá se entender com o Joaquim sobre os direitos que lhe vão restar lá na Papuda.

Isso faz milagres! Muda a vida! Qualquer outra reforma fica fácil de arrancar com essa arma na mão.

Agora que estamos na bica de acabar com essa tapeação dos mascarados assalariados, todo o mundo sabe de quem, quebrando tudo por aí, taí uma boa razão pra você voltar pra rua.

Mas jogue fora o cartaz inútil, por mais engraçadinho que tenha sido o trocadilho usado na última vez. Espalhe esta convocação. Vamos todos pra rua com o mesmo cartaz. Vamos todos exigir a arma que temos direito de carregar pra construir um Brasil do jeito que a gente quer.

VOTO DISTRITAL COM RECALL, JÁ!

Para maiores informações sobre o funcionamento do recall, clique aqui.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

«Mais médicos» ― enfim a hora da verdade

Percival Puggina (*)

Médico

Médico

O pedido de asilo da cubana Ramona Matos Rodriguez, que desertou do programa «Mais médicos», quebrou os ponteiros do relógio do governo petista em relação à sua tramóia com a empresa Castro & Castro Cia Ltda, com sede e foro na cidade de Havana. Chegou a hora da verdade.

Impõe-se, portanto, que eu escreva este artigo. Durante meses, os defensores do indefensável, com a fria determinação dos mentirosos contumazes, tentaram negar os fatos. Tentaram transformar esse negócio escandaloso em inaudita solidariedade do povo cubano para com os países necessitados. Também para eles acabou o tempo da mentira.

Não se trata, aqui, de mostrar o quanto sei sobre a realidade daquela ilha caribenha, mas de mostrar há quanto tempo tais fatos são bem conhecidos. Por isso, transcrevo a seguir um trecho do meu livro Cuba ― A Tragédia da Utopia, publicado em 2004. É o relato de uma informação que recebi na Embaixada de Cuba quando a visitei em 2001 e ainda sequer cogitava escrever o referido livro (pag. 113).

Interligne vertical 12«Em 2001 fui visitar a embaixada brasileira em Havana. Ela se situa no excelente prédio da Lonja de Comércio (Bolsa de Valores), uma edificação do século XIX, recentemente restaurada. (…) Durante a entrevista (com o secretário da embaixada), entrou na sala uma moça de cor negra que lhe dirigiu algumas palavras em espanhol e se retirou deixando expedientes sobre a mesa.

Quando ficamos novamente sós, ele explicou que a moça era cubana, excelente funcionária, contratada pela embaixada junto a uma das duas agências oficiais através das quais o governo cubano loca mão-de-obra a organizações estrangeiras que funcionam no país. A embaixada fornecera uma descrição do perfil da pessoa que procurava, a agência estabelecera o valor da remuneração em 200 dólares mensais, enviara algumas moças para serem entrevistadas e aquela havia sido escolhida.

Dos 200 dólares com que a embaixada remunerava a agência, a moça recebia em pesos o equivalente a 20 dólares. O restante ficava para seu generoso patrão, o Estado cubano. Diante dessa dura realidade a representação brasileira, incluíra a funcionária em sua folha de pagamentos e lhe repassava, por fora, 500 dólares mensais. É o que a maior parte das representações estrangeiras e empresas de fora fazem como forma de motivar seu pessoal.

Não é diferente o que acontece em relação aos muitos convênios que o governo cubano estimula que sejam firmados com países latino-americanos para fornecimento de pessoal médico, especialmente na área de medicina comunitária. Cuba não sabe o que fazer com os médicos que tem (um médico para cada cento e poucos habitantes!) e os médicos não sabem o que fazer com o que sabem. Acabam nas portas dos hotéis, oferecendo serviços como guias turísticos.

Através desses convênios e do mecanismo de apropriação do salário de seu pessoal nos tenebrosos níveis acima descritos, o governo consegue captar dólares no exterior. E ainda faz o seu «comercial» como um país solidário que presta importante ajuda à saúde pública das comunidades carentes do planeta.»

Há 13 anos, portanto, Cuba já adotava esse procedimento. De um lado, anuncia ao bom e generoso povo cubano que está prestando ajuda humanitária. De outro, apropria-se da renda produzida pelos recursos humanos que aloca, numa proporção jamais sonhada pelo mais porco dos «porcos capitalistas” dos quais tanto mal dizem. Pior ainda: nos tempos do patrocínio soviético, a paga cubana em recursos humanos consistia em enviar jovens para as guerrilhas comunistas nos conflitos da África subsaariana. Sangue cubano por rublos e petróleo, em nome da «unidade dos povos».

A bolsa...

A bolsa…

Agiu certíssimo a doutora Ramona. Quero ver a retirarem do gabinete da liderança do DEM. Pago para ver! Ronaldo Caiado é osso duro de roer. Quero ver, também, quem terá coragem de desmentir as informações que ela presta sobre o sinuoso percurso dos valores que o governo brasileiro paga, per capita, a Raúl Castro. E quero ver, por fim, o que dirá a Opas, a altissonante Organização Pan-americana de Saúde, intermediária oficial dessa operação, sobre o contrato dos médicos cubanos com a tal Sociedade Mercantil Cubana Comercializadora de Serviços Médicos Cubanos SA que a contratou.

Outra coisa que ninguém conta, mas sobre a qual tenho informação de cocheira: faltam médicos em Cuba. Os negócios dessa empresa locadora de médicos(!) esvaziaram os serviços locais, que estão sendo prestados por estudantes latino-americanos de medicina. Repito: quebraram-se os ponteiros desse negócio. O que ainda existe de moralmente sadio na sociedade brasileira não pode conviver passivamente com um declarado e certificado regime de escravidão em território nacional. Com a palavra a Ministra Maria do Rosário.

Ou os cubanos não são humanos?

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Eureca!

Dad Squarisi (*)

Desvendado o mistério. Agora sabemos por que a comitiva de Dilma mudou a rota. O plano era abastecer o avião nos States. Depois, seguir pra Cuba. Sem mais nem menos, o aerodilma pousou em Lisboa. A turma desembarcou na capital portuguesa e sonhou sonhos camonianos. O que aconteceu?

Havana & Lisboa

Havana & Lisboa

O Planalto tentou desconversar. Disse que a decisão fora de última hora. Não foi. Reservas haviam sido feitas bem antes. E daí? Pergunta daqui, investiga dali, eureca! O problema foi linguístico. A moçada tropeçou na concordância. Dizia “o Estados Unidos”, “no Estados Unidos”, “do Estados Unidos”. As autoridades americanas não gostaram. Exigiram correção. Orgulhosa, Dilma disse não. Bateu asas e voou. (…)

Para continuar a leitura (mais 131 palavras), clique aqui.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura.

Antigamente

Carlos Drummond de Andrade(*)

Drummond autocaricatura

Drummond
autocaricatura

Antigamente, os pirralhos dobravam a língua diante dos pais, e se um se esquecia de arear os dentes antes de cair nos braços de Morfeu, era capaz de entrar no couro. Não devia também se esquecer de lavar os pés, sem tugir nem mugir. Nada de bater na cacunda do padrinho, nem de debicar os mais velhos, pois levava tunda. Ainda cedinho, aguava as plantas, ia ao corte e logo voltava aos penates. Não ficava mangando na rua nem escapulia do mestre, mesmo que não entendesse patavina da instrução moral e cívica. O verdadeiro smart calçava botina de botões para comparecer todo liró ao copo-d’água, se bem que no convescote apenas lambiscasse, para evitar flatos. Os bilontras é que eram um precipício, jogando com pau de dois bicos, pelo que carecia muita cautela e caldo de galinha. O melhor era pôr as barbas de molho diante de treteiro de topete: depois de fintar e engambelar os coiós, e antes que se pusesse tudo em pratos limpos, ele abria o arco. O diacho eram os filhos da Candinha: quem somava a candongas acabava na rua da amargura, lá encontrando, encafifada, muita gente na embira, que não tinha nem para matar o bicho; por exemplo, o mão-de-defunto.

Bom era ter as costas quentes, dar as cartas com a faca e o queijo na mão; melhor ainda, ter uma caixinha de pós de perlimpimpim, pois isso evitava de levar a lata, ficar na pindaíba ou espichar a canela antes que Deus fosse servido. Qualquer um acabava enjerizado se lhe chegavam a urtiga no nariz, ou se o faziam de gato-sapato. Mas que regalo, receber de graça, no dia-de-reis, um capado! Ganhar vidro de cheiro marca barbante, isso não: a mocinha dava o cavaco. Às vezes, sem tirte nem guarte, aparecia o doutor pomada, todo cheio de nove horas; ia-se ver, debaixo de tanta farofa era um doutor da mula ruça, um pé-rapado, que espiga! E a moçoila, que começava a nutrir xodó por ele, que estava mesmo de rabicho, caía das nuvens. Quem queria lá fazer papel pança? Daí se perder as estribeiras por uma tutaméia, um alcaide que o caixeiro nos impingia, dando de pinga um cascão de goiabada.

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em compensação, viver não era sangria desatada, e até o Chico vir de baixo vosmecê podia provar uma abrideira que era o suco, ficando na chuva mesmo com bom tempo. Não sendo pexote, e soltando arame, que vida supimpa a do degas! Macacos me mordam se estou pregando peta. E os tipos que havia: o pau-para-toda-obra, o vira-casaca (este cuspia no prato em que comera), o testa-de-ferro, o sabe-com-quem-está falando, o sangue-de-barata, o Dr. Fiado que morreu ontem, o zé-povinho, o biltre, o peralvilho, o salta-pocinhas, o alferes, a polaca, o passador de nota falsa, o mequetrefe, o safardana, o maria-vai-com-as-outras… Depois de mil peripécias, assim ou assado, todo mundo acabava mesmo batendo com o rabo na cerca, ou, simplesmente, a bota, sem saber como descalçá-la.

Mas até aí morreu Neves, e não foi no Dia de São Nunca de Tarde: foi vítima de pertinaz enfermidade que zombou de todos os recursos da ciência, e acreditam que a família nem sequer botou fumo no chapéu?

Interligne 23

In Quadrante (1962), obra coletiva reproduzida em Caminhos de João Brandão, Editora José Olympio, 1970

(*) Carlos Drummond de Andrade (1902―1987), mineiro de nascimento, foi escritor, contista e poeta de tendência modernista.

Nota: Foi mantida a grafia original, mormente no que concerne aos hifens, que atualmente caíram na dança-de-são-guido.

Castelos de cartas

Percival Puggina (*)

«Qualquer idiota com mãos firmes e um par de pulmões funcionando pode construir um castelo de cartas e depois soprar para derrubá-lo.»

O que aconteceu na Boate Kiss teve muito a ver com as afirmações dessa frase de Stephen King. Aquele local de lazer era um castelo de cartas à espera do sopro fatal.

Muitos brasileiros que emigram para o assim dito Primeiro Mundo passam por um período de adaptação. Para uns, é rápido. Para outros, porém, é um tempo de frustração que se encerra com a decisão de retornar às origens.

Na essência da adaptação ao cotidiano dos países mais bem organizados, marcando-a de modo decisivo, está a absorção da seguinte regra geral de convivência: as leis valem para todos e não são inconsequentemente desrespeitadas. Isso costuma ser um choque. A ordem que produz costuma ser vista como enfadonha. Para muitos de nós, o respeito às leis, às regras de condomínio, aos preceitos de um contrato, aos costumes locais, cria uma atmosfera irrespirável.

No entanto, o Primeiro Mundo é o que é, em grande parte, por causa disso. Em virtude de tão fundamental norma alguns países europeus estão fechando presídios. Há cada vez menos pessoas dispostas a aceitar os riscos inerentes à tentativa de prosperar no mundo agindo no submundo.

Em virtude dessa regra certos imigrantes preferem retornar à zorra nacional, aqui onde as leis são feitas para luzirem no papel e não para, de fato, sinalizarem as condutas.

No Brasil, o costumeiro desrespeito às leis, regras e costumes vai construindo castelos de carta em toda parte.

Interligne vertical 14Há castelos institucionais que vemos ser soprados pela falta de racionalidade, desde dentro e desde fora, comprometendo o funcionamento da República. Há castelos de carta estatísticos e contábeis, feitos para iludir, construídos por governos prestidigitadores.

Há castelos de carta empresariais, concebidos para encher o peito de vaidades, de dinheiro os bolsos de alguns, e de problemas a vida de muitos.

Há castelos de carta em políticas públicas, ineficientes ante a realidade para a qual foram concebidas.

E há castelos de carta como a Boate Kiss, à espera do sopro quente da morte, à espera da ignição lançada ao ar na madrugada de 27 de janeiro de 2013.

Irving D. Yalom, no livro “O dia em que Nietzsche chorou”, afirma que, se subirmos suficientemente alto, chegaremos a um nível a partir do qual as tragédias deixam de parecer trágicas. Ele estava errado.

Não há nível a partir do qual deixe de ser pungente o diuturno sacrifício humano nas estradas e ruas do país, nos becos das drogas, nos presídios que o Estado já delegou ao comando dos próprios reclusos, nas filas de espera do SUS, na indigente atenção à saúde pública, no mau agouro enfermiço da falta de saneamento básico. Não há altura nem distância a partir das quais o incêndio da Boate Kiss deixe de nos queimar a todos.

Ele é uma consequência doída, ardida na alma, de uma outra tragédia, que quase não vemos: nosso hábito de dar um jeitinho e driblar a lei. Até que o país nos caia na cabeça.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Imigrante não se engana

Janer Cristaldo (*)

Ano passado, me escrevia um leitor: “às vezes dá vontade de ir embora deste país. Afinal, Janer, se você pôde viver em Paris, Madri e Estocolmo, por que decidiu voltar para esta terra de apedeutas, comunistas, fanáticos, et caterva?”

Expus minhas razões. Saí para não voltar. Não fui expulso do Brasil. Saí e voltei pela porta da frente. O que me irritava era aquela imagem de país do carnaval e do futebol. Em Ponche Verde, narro, em tom de ficção, minha resposta ao policial que me ofereceu asilo na Suécia:

― Ah! Então o senhor quer asilo político?

― Oh não, jag ska tacka nej(1), como pode muito bem ver Herr Konstapel(2), nesse formulário peço apenas uma permissão de estada, agradeço a generosa oferta, que aliás é pertinente. Meu país vive uma ditadura, sei disso, os dias não são os melhores para quem pensa e escreve o que pensa. Mas antes de fugir de ditaduras, Herr Konstapel, estou fugindo do país todo, fujo exatamente daquilo que para vossos patrícios é sinônimo de charme e exotismo, fujo do carnaval e do futebol, do samba e da miséria, da indigência mental e da corrupção, quero tirar umas férias do subdesenvolvimento, viver em um território onde o homem sofre os problemas da condição humana e não os da condição animal. Muito antes de os militares tomarem o poder, min Herr(3), eu já não suportava os civis.

Imigração 3― Veja o senhor, meu povo morre de fome e todos sorriem felizes e desdentados quando um time de futebol bate outro, se bem que a coisa não é assim tão tétrica como a pinto, veja bem, lá também existe luxo, requinte, hotéis que talvez fizessem inveja aos de vosso rico país, mansões de sonho isoladas da miséria que as envolve por arames farpados, guardas e cães, há cronistas sociais que acendem charutos com notas de cem dólares e homens catando no lixo restos de podridão para comer. E não fujo só do Brasil, Sr. Policial Superdesenvolvido, fujo também de minha condição de jornalista, pertenço a uma classe que se pretende de esquerda e entorpece multidões com doses cavalares de… futebol.

― Em minha cidade ― não sei se o chateio com estes dados ― há questão de uma década um sociólogo calculou em trinta mil o número de prostitutas, só não sei se havia repertoriado em suas estatísticas meus colegas de ofício. Penso até mesmo que a profissional de calçada tem mais dignidade, ela aluga por instantes o corpo, mantendo o espírito livre, enquanto nós vendemos corpo, alma e opiniões, o mais livre dos jornalistas não é livre coisa alguma, o jornal pertence ao chefe, nossos pensamentos também, os mais nobres ele os joga na cesta de lixo, publica os lugares comuns humanísticos na página dos editoriais e posa de liberal. Sim, sei que isto não vem caso neste pedido de permissão de estada, bosätningstillstand como dizem os senhores, é que para expor minhas razões tenho de dar-lhe uma idéia do Brasil, pretensão aliás inviável, já que nem eu entendo aquele país.

Imigração 2Acabei voltando, apesar do carnaval, copa e miséria. Em primeiro lugar, havia uma mulher que me chamava poderosamente no Brasil. Ela valia mais, para mim, que a Europa toda. Há quem troque uma pessoa querida por um país. Eu não troco.

Em segundo, os suecos me queriam para trabalho de imigrante, o que meu orgulho me impedia. Não lavo pratos nem em minha casa, não iria lavar pratos para o Primeiro Mundo. Disputei uma vaga como jornalista na Sveriges Radio. Tinha dois cursos universitários, dois anos de trabalho em jornal. A vaga é minha, pensei.

Não era. Eu não era de esquerda. Se não conseguia trabalhar em profissão decente, melhor voltar. Considero que ganhar pouco no Brasil em um trabalho compatível com as próprias capacidades é bem melhor ― e mais digno ― do que fazer tarefa de imigrante no estrangeiro, mesmo ganhando mais. Há quem prefira ganhar mais. Não é meu caso.

Em terceiro, em país estrangeiro, você será sempre um cidadão de segunda categoria, ainda que viva melhor que no Brasil. Sempre que criticar o país ― e críticas, você sempre as terá ― poderá ouvir de bate-pronto: por que então você não volta para seu país?

Havia uma outra razão, e das mais estranhas. Era como se eu necessitasse, naquele país habitado por deusas, de um pouco de feiura e imperfeição. Saudades de uma negra gorda carregando um balaio na cabeça. Nem sempre são inteligíveis os ímpetos que acometem um ser humano.

(*) Janer Cristaldo Ferreira Moreira (1947-), escritor, romancista, ensaísta e tradutor gaúcho. Edita o site cristaldo.blogspot.com

Dicas minhas:
(1) Jag ska tacka nej = Não, obrigado
(2) Herr Konstapel = Senhor Agente (de polícia)
(3) Min Herr = Meu Senhor

O ninho vazio

Ruy Castro (*)

Uma amiga está triste porque sua filha se mudou para Nova York. Foi estudar na Universidade Columbia e não deve voltar tão cedo. O filho mais velho, também há pouco, foi trabalhar em outra cidade. Os dois moravam com ela. De repente, minha amiga ficou sozinha em casa. Está passando pela “síndrome do ninho vazio”, uma figura da psicologia para definir a depressão que se apossa de alguns pais –ou, quase sempre, mães– quando seus filhos vão à vida.

Passarinho 1

Lola & Lolita

Estava pensando nisso quando, pouco antes do Natal, percebi certos movimentos alados no terraço. Uma rolinha ia e vinha, com matinhos no bico, e pousava numa viga alta do caramanchão. Mesmo à distância, constatei que estava construindo um ninho. No Natal, o ninho ficou pronto. Ela sossegou e sentou-se nele pelos dias seguintes. Batizei-a de Lola, a Rola, e saboreei a expectativa de, em breve, ser avô.

Não entendo de passarinhos, mas calculei que, por sua circunspecção no ninho, Lola devia estar sentada sobre três ou quatro ovos –e, se assim fosse, merecia respeito pelo que lhe devia ter custado botá-los para fora. Mas Silvania, minha funcionária, aproveitou-se da temporária ausência de Lola –numa das poucas vezes em que ela saiu, certamente para ir às compras–, subiu a um banquinho, espiou o conteúdo do ninho e me informou de que eu era avô de um único ovo.

Bem, não sejamos soberbos, um já estava bom. Dias depois, constatamos que, em certos momentos, o rabo e a cabecinha para fora do ninho eram menores. O bebê nascera. Dei-lhe o nome de Lolita, a Rolita, e esperei que ela e sua mãe nos brindassem com algumas piruetas, mesmo desajeitadas, como parte do aprendizado aéreo de Lolita.

Que nada. Ontem, Lola, a Rola, e Lolita, a Rolita, foram embora bem cedo. E sem se despedir. Agora entendo a síndrome do ninho vazio.

Interligne 18b

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor e jornalista. O texto acima transcrito foi publicado pela Folha de São Paulo em 17 jan° 2014.

Às autoridades da República!

Percival Puggina (*)

Eu acuso!

Eu acuso!

Excelências. Li, de capa a capa, o volumoso livro de Romeu Tuma Júnior que leva o sugestivo título “Assassinato de reputações”. A obra ganhou uma espécie de lançamento nacional através da revista Veja, no início de dezembro último, e consta entre as mais vendidas no país. Presumo, por isso, que milhares de cidadãos a estejam lendo. Assim como eu, hão de estar perplexos e alarmados com as denúncias que faz.

É na condição de cidadão que redijo esta carta. Parece-me conveniente fazê-lo assim, aberta, para tornar pública a inquietação da maioria dos leitores que já percorreram as exaustivas páginas desse livro. Dirijo-a às autoridades porque são várias as que podem agir neste caso. Não alinharei, aqui, as acusações e denúncias descritas em “Assassinato de reputações”. De um lado porque muito pouco sei sobre o autor e, como simples cidadão, não tenho como averiguar a autenticidade do que dele se diz e do que ele relata. De outro, porque a honra alheia não encontra em mim alguém disposto a assassiná-la. A prudência exige que sobre ela só se emita juízo público negativo após sentença transitada em julgado.

Eu acuso!

Eu acuso!

No entanto… milhares estão lendo esse livro. Como eu, se fazem perguntas civicamente inquietantes. Por que persiste, decorrido um mês inteiro de seu lançamento, o perturbador e coletivo silêncio de quantos deveriam agilizar-se para contestá-lo? Por que, mais grave ainda, as próprias instituições tão fortemente atacadas e apontadas como objeto de aparelhamento político-partidário não bradam em sua própria defesa? As denúncias são graves e, se verdadeiras, descortinam a gênesis de um Estado policial e totalitário. Há crimes noticiados no livro. E o de prevaricação não me parece o maior deles.

Em meio ao inquietante silêncio de quem deveria falar, as solitárias reações que encontro ao explosivo texto são disparos laterais dirigidos ao seu autor, que se apresenta, na obra, como uma das vítimas dos assassinatos em série que menciona. Convenhamos que desacreditar o livro com uso do argumentum ad hominem, mediante ataque pessoal ao autor, não é satisfatório ou suficiente ante a torrente de denúncias que formula, relatando episódios que diz ter pessoalmente vivido. Aos cidadãos brasileiros interessa saber se o que está dito no livro é verdade ou não. E quais as providências adotadas por quem as deve adotar. Inclusive contra o autor se for o caso. Num Estado de Direito, os fatos descritos exigem investigação e cabal esclarecimento. Não podem ser varridos para baixo do espesso tapete do tempo. Não são, também, prevaricação, o silêncio de quem deveria falar e a omissão de quem deveria agir?

Eu acuso!

Eu acuso!

Bem sei que a promiscuidade entre as funções de governo e as de Estado decorre do vício institucional que as vincula ao mesmo centro de poder. Nosso lamentável presidencialismo faz isso. É tentador, nele, confundir os espaços partidários (por isso provisórios) próprios do governo, com os espaços permanentes (e por isso não partidários) da administração pública e do Estado. No entanto, por mais que o modelo favoreça o aparelhamento das instituições, não é aceitável a ideia de que vivemos num país onde algumas delas servem para investigar ou não investigar, dependendo do lado para onde sopra o vento das más notícias. Gerar dossiês por encomenda política é coisa de Estado policial, totalitário.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Houve um tempo

Percival Puggina (*)

Verdade que era um Brasil ainda muito rural. Metade da população vivia no campo. A elite nacional tinha menos “celebridades”, menores quadros e cultura superior. Havia apenas quatro brasileiros para cada dez de hoje. As capitais estaduais compunham razoáveis espaços de convivência. A tevê recém surgia e o processo de formação da cultura e das opiniões passava principalmente pela Educação, pela transmissão oral e pela leitura. O mundo acadêmico era de acesso mais restrito e assim, com menos gente, a qualidade ganhava densidade. O país ainda não fora infestado pelas pragas do relativismo moral e das drogas, e os pais zelavam pela formação do caráter dos filhos. Os religiosos tinham plena consciência de sua função no mundo. Tudo isso é verdade. Era um tempo em que não se metia a mão nos recursos públicos para uso e fins privados com a facilidade proporcionada nestes nossos dias.

Leio, escandalizado, as notícias que chegam da Corte ao cair a primeira chuva de 2014. O destaque é dado ao uso e abuso na utilização dos jatinhos da FAB pelos ministros da nossa desatenta e estabanada “gerentona”. Nos últimos seis meses de 2013, um pequeno grupo de 40 pessoas, com cargo ou hierarquia equivalente à de ministros de Estado, realizaram mais de 1,4 mil voos nessas custosas aeronaves supostamente adquiridas para atender demandas da segurança nacional. Todos os voos, informam os requisitantes, são realizados a serviço de suas pastas. Arre gente com serviço externo, que não esquenta cadeira no ministério!

José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, por exemplo, realizou 80 dessas viagens em 180 dias e entra para o Guiness Book. Solicita avião a jato com a mesma sem cerimônia que a gente acena para a lotação ou chama o taxi. Imagino o desagrado com que oficiais da FAB assumem o papel de mordomos das regalias aeronáuticas brasilienses. Por outro lado, a revoada dos ministros de Dilma evidencia um admirável amor ao torrão natal. Seus ministros parecem ter muito a fazer em casa e pouco em Brasília e no resto do país. Voam tais quais pássaros, sem pagar passagem nem combustível, mas reconheça-se, são generosos. Fornecem carona como se fossem caminhoneiros da Força Aérea, transportando amigos e companheiros.

Bem sei o quanto são desconfortáveis nossos aeroportos e aeronaves. Mas as coisas andariam melhores também nisso, se os figurões da República enfrentassem como o populacho a dura realidade dos voos domésticos brasileiros.

Avião da alegria

Avião, que alegria!

Então, como eu dizia, houve um tempo em que as coisas não eram assim. Ministros e secretários de Estado viajavam em estradas de pó e barro, nas “carroças” definidas como tais por Collor de Mello. Hospedavam-se em casas de amigos. A verba era curta para todos e as diárias não cobriam as despesas. O governador Peracchi Barcellos, que usava um velho Aero Willys quando já circulavam nas ruas os veículos mais luxuosos da época, os cobiçados Ford Galaxie, demitiu um membro do governo que lhe pediu autorização para adquirir um deles.

Era diferente a mentalidade dos governantes daquele tempo, como demonstra a conhecida recusa do presidente João Figueiredo quando outro João, o Havelange, lhe propôs realizar uma Copa do Mundo no Brasil: “Você conhece uma favela do Rio? Você já viu a seca do Nordeste? Você acha que eu vou gastar dinheiro em estádio de futebol?”

O país mudou. E em vários sentidos não mudou para melhor. O povo até gosta dessas ostentações (quem muito gasta, supostamente muito pode dar). Mas a revoada de jatinhos da FAB levando ministros para lá e para cá bem que podia, ao menos, se expressar em qualidade de gestão, em rigorosa fiscalização dos demais gastos, em menos corrupção e menor uso de recursos públicos com finalidade estritamente pessoal, política e eleitoral. Ganhar eleição assim, não tem graça. Nem mérito.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Vamos dar nome aos engarrafamentos

Leão Serva (*)

Políticos gostam de dar nome a ruas e avenidas, hospitais e escolas. De tanto fazê-lo, o estoque de vias e prédios públicos se extingue e os governantes ficam tentados a trocar nomes dados no passado. É quando alteram a denominação de lugares como o túnel Nove de Julho (virou Daher Cutait) ou a ponte Cidade Jardim (Roberto Zuccolo), desorientando os moradores.

Para evitar que isso aconteça e para eternizar as obras de verdadeiro impacto dos administradores, em 2014 sugiro implantar uma nova categoria de realizações a serem nomeadas: as vias congestionadas. Proponho dar nome aos engarrafamentos: «Congestionamento Prefeito Fulano».

Normalmente tendemos a ver o acúmulo de veículos como criação coletiva dos motoristas que se dirigem simultaneamente a um mesmo local. Não é. «Grandes obras viárias nas cidades só servem para levar mais rapidamente pequenos congestionamentos até um grande congestionamento», ensinava o decano da engenharia de tráfego Roberto Scaringella, morto em junho. Ao longo das últimas décadas, o fundador da CET viu administradores construírem grandes obras viárias sabendo que cada inauguração marcava o nascimento de um novo congestionamento, à frente ou após um tempo.

Foi o que aconteceu com 23 de Maio, Minhocão, velha e nova Faria Lima, velha e nova marginal Tietê, Água Espraiada, Cebolão, Cebolinha, etc: sem exceção travaram após a abertura.

Congestionamento Crédito: Jodi Cobb

Congestionamento
Crédito: Jodi Cobb

Implantando a ideia, podemos associar para sempre criaturas a criadores. Começaria com o pai de todas as intervenções geradoras de tráfego: as marginais paradas serão denominadas Grande Congestionamento Prestes Maia, defensor da canalização de rios para ocupar várzeas e vales com avenidas.

Em seguida, impõe-se destacar o mais ousado epígono de Prestes Maia: sobre o Minhocão, a placa anunciará o Engarrafamento Elevado Paulo Maluf. Para não dar o mesmo nome a duas realizações do mesmo autor, a fila de carros na av. Roberto Marinho será denominada Congestionamento Celso Pitta, que também, afinal, foi Maluf que fez.

O trânsito pesado da av. 23 de Maio não pode ter outro nome: Congestionamento Prefeito Faria Lima. Na Avenida Aricanduva, uma placa diferente deve informar: «Alagamento e Lentidão Olavo Setúbal», mesmo tipo de anúncio que informará o nome de Mario Covas na av. Pirajussara. E a lentidão no túnel entre o Morumbi e o Itaim? Só pode lembrar seu criador: Engarrafamento Subterrâneo Jânio Quadros.

Uma placa deverá anunciar o Gargalo Permanente Prefeita Marta Suplicy para destacar a morosidade da avenida Rebouças, enquanto outra, da mesma administração, aquela no túnel sob a av. Faria Lima, poderia ter o nome do seu planejador: Congestionamento Secretário Jorge Wilheim, para não repetir o da ex-prefeita.

As novas pistas que ampliaram a marginal Tietê, apinhada de carros só três anos após a inauguração, devem receber a placa: Congestionamento José Serra. Como Marta projetou mas não a completou, sugiro que a lentidão na ponte Estaiada da marginal Pinheiros receba o nome Prefeito Kassab.

E desde já preparemos as placas: engavetada logo no início do governo, a principal promessa de campanha do atual prefeito em algum momento pode ser desarquivada e então receberá o nome «Arco do Futuro Congestionamento Fernando Haddad».

(*) Leão Serva, jornalista e escritor, num relato bem-humorado sobre o flagelo que os congestionamentos representam na capital paulista. In Folha de São Paulo, 6 jan° 2014.