Vamos dar nome aos engarrafamentos

Leão Serva (*)

Políticos gostam de dar nome a ruas e avenidas, hospitais e escolas. De tanto fazê-lo, o estoque de vias e prédios públicos se extingue e os governantes ficam tentados a trocar nomes dados no passado. É quando alteram a denominação de lugares como o túnel Nove de Julho (virou Daher Cutait) ou a ponte Cidade Jardim (Roberto Zuccolo), desorientando os moradores.

Para evitar que isso aconteça e para eternizar as obras de verdadeiro impacto dos administradores, em 2014 sugiro implantar uma nova categoria de realizações a serem nomeadas: as vias congestionadas. Proponho dar nome aos engarrafamentos: «Congestionamento Prefeito Fulano».

Normalmente tendemos a ver o acúmulo de veículos como criação coletiva dos motoristas que se dirigem simultaneamente a um mesmo local. Não é. «Grandes obras viárias nas cidades só servem para levar mais rapidamente pequenos congestionamentos até um grande congestionamento», ensinava o decano da engenharia de tráfego Roberto Scaringella, morto em junho. Ao longo das últimas décadas, o fundador da CET viu administradores construírem grandes obras viárias sabendo que cada inauguração marcava o nascimento de um novo congestionamento, à frente ou após um tempo.

Foi o que aconteceu com 23 de Maio, Minhocão, velha e nova Faria Lima, velha e nova marginal Tietê, Água Espraiada, Cebolão, Cebolinha, etc: sem exceção travaram após a abertura.

Congestionamento Crédito: Jodi Cobb

Congestionamento
Crédito: Jodi Cobb

Implantando a ideia, podemos associar para sempre criaturas a criadores. Começaria com o pai de todas as intervenções geradoras de tráfego: as marginais paradas serão denominadas Grande Congestionamento Prestes Maia, defensor da canalização de rios para ocupar várzeas e vales com avenidas.

Em seguida, impõe-se destacar o mais ousado epígono de Prestes Maia: sobre o Minhocão, a placa anunciará o Engarrafamento Elevado Paulo Maluf. Para não dar o mesmo nome a duas realizações do mesmo autor, a fila de carros na av. Roberto Marinho será denominada Congestionamento Celso Pitta, que também, afinal, foi Maluf que fez.

O trânsito pesado da av. 23 de Maio não pode ter outro nome: Congestionamento Prefeito Faria Lima. Na Avenida Aricanduva, uma placa diferente deve informar: «Alagamento e Lentidão Olavo Setúbal», mesmo tipo de anúncio que informará o nome de Mario Covas na av. Pirajussara. E a lentidão no túnel entre o Morumbi e o Itaim? Só pode lembrar seu criador: Engarrafamento Subterrâneo Jânio Quadros.

Uma placa deverá anunciar o Gargalo Permanente Prefeita Marta Suplicy para destacar a morosidade da avenida Rebouças, enquanto outra, da mesma administração, aquela no túnel sob a av. Faria Lima, poderia ter o nome do seu planejador: Congestionamento Secretário Jorge Wilheim, para não repetir o da ex-prefeita.

As novas pistas que ampliaram a marginal Tietê, apinhada de carros só três anos após a inauguração, devem receber a placa: Congestionamento José Serra. Como Marta projetou mas não a completou, sugiro que a lentidão na ponte Estaiada da marginal Pinheiros receba o nome Prefeito Kassab.

E desde já preparemos as placas: engavetada logo no início do governo, a principal promessa de campanha do atual prefeito em algum momento pode ser desarquivada e então receberá o nome «Arco do Futuro Congestionamento Fernando Haddad».

(*) Leão Serva, jornalista e escritor, num relato bem-humorado sobre o flagelo que os congestionamentos representam na capital paulista. In Folha de São Paulo, 6 jan° 2014.