Tico-tico no fubá

Everaldo José dos Santos (*)

Vibrante, buliçoso e ao mesmo tempo sentimental, Tico-tico no fubá é o exemplo perfeito do choro clássico, em três partes, composto na melhor tradição do gênero.

Predestinado ao sucesso, impressionou logo em sua primeira apresentação, em 1917, num baile em Santa Rita do Passa Quatro, quando ganhou o nome de Tico-tico no farelo. Razão do nome: a animação dos pares que dançavam em grande alvoroço, provocando o comentário do autor: “Até parece tico-tico no farelo…”.

Depois, talvez porque já existisse um choro homônimo (de Canhoto), passou a Tico-tico no fubá. No entanto, apesar da estréia vitoriosa, a obra-prima de Zequinha de Abreu só chegaria ao disco quatorze anos mais tarde, gravada pela Orquestra Colbaz, criada e dirigida pelo maestro Gaó. Sucesso absoluto, o disco permaneceu em catálogo até a década de quarenta, época em que a composição alcançou o auge da popularidade.

Tico-ticoContribuiu para isso sua internacionalização comandada pelos americanos que, no curto espaço de cinco anos, a incluíram em cinco filmes: Alô amigos (1943), A filha do comandante (Thousands Cheer, 1943), Escola de sereias (Bathing Beauties, 1944), Kansas City Kitty (1944) e Copacabana (1947). Neste último, foi cantada por Carmen Miranda.

A partir de então, recebeu dezenas de gravações, tornando-se uma das músicas brasileiras mais gravadas de todos os tempos, no país e no exterior. Entre seus intérpretes, salienta-se a organista Ethel Smith (1910-1996), que levou a música ao hit-parade americano.

Tico-tico no fubá é regularmente executada por veteranos pianistas de Nova Orléans, como peça local. Sofre, no entanto, algumas alterações melódicas e rítmicas, que a fazem assemelhar-se a um tango, bem ao estilo da segunda parte de Saint Louis Blues.

Essencialmente instrumental, a peça tem letra brasileira de Eurico Barreiros e Aloísio de Oliveira e versão inglesa de Ervin Drake. Nenhuma das letras vingou, apesar do relativo sucesso das gravações de Ademilde Fonseca, em sua estréia em disco, e das de Carmen Miranda, nos Estados Unidos.

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(*) Everaldo José dos Santos, apaixonado pela MPB da Velha Guarda, edita o blogue Cifrantiga.blogspot.com.br/

O melhor da Copa

José Horta Manzano

Cada um enxerga a Copa com seus próprios olhos. Para um jogador de futebol em começo de carreira, pode ser a vitrine que o vai propulsar ao estrelato mundial. Para um técnico profissional, pode significar a abertura de interessantes oportunidades. Para autoridades nacionais, pode servir de trampolim para angariar simpatia e votos. Para empresários corruptos, é o momento de contar e recontar a fortuna amealhada nas costas dos bobões habituais.

Para indiferentes ― que os há, acredite! ― é hora de tirar uns dias de férias e desaparecer do mundo dos mortais. Para torcedores, é um momento de emoção, de alegrias, de tristezas. E no final ― quem sabe? ― pode até chegar a hora de gozar a alegria suprema de ver a esquadra nacional subir ao degrau mais alto do pódio. A todos, é permitido sonhar.

Como não sou jogador, nem selecionador, nem autoridade, nem empresário corrupto, não lanço à Copa olhar profissional. Aprecio o esporte em si. Gosto muito daquele balé colorido e imprevisível em que a partitura é inventada e reinventada a cada instante.

Um dos atrativos maiores do futebol é justamente essa incerteza quanto ao resultado. Em outros esportes, o melhor costuma vencer. É raro que, em atletismo, o mais rápido ou o mais ágil deixe de levar a medalha. No futebol, não é assim. Já vi a Itália perder para a Coreia do Norte. Aconteceu na Copa de 1966. O resultado deixou trauma que, passado meio século, ainda não se dissipou.

Há momentos mágicos em que um jogador manda a bola por cima de meia dúzia de adversários para aterrissar aos pés de um companheiro que, por sua vez, dá sequência à coreografia. Sejam quais forem os times em campo, o espetáculo é sempre bonito. Se houver emoção, melhor ainda.

Homem com a mão no coração (detalhe) by Frans Hals, pintor flamengo, séc. XVI

Homem com a mão no coração (detalhe)
by Frans Hals, pintor flamengo, séc. XVI

Mas há um momento, nesses jogos internacionais, que ― para mim ― paira acima de todos: é a hora do hino. O nosso é fabuloso. Se hino bonito ganhasse Copa, o nosso teria mais estrelas que a Marselhesa. O nosso é de escutar em pé, mão do coração, nó na garganta.

Recortei e guardo até hoje um artigo que o jornal londrino Guardian publicou doze anos atrás, por ocasião da Copa de 2002. O autor faz esfuziantes elogios ao hino brasileiro dizendo que é o mais gentil, o mais alegre, o mais melodioso, o mais envolvente. Parece escapado de uma ópera de Rossini. Chega a dizer que nosso hino é um dos grandes presentes que o Brasil deu à felicidade humana. É mole?

Parece que a Fifa impõe que a execução do hino de cada país não exceda um minuto e meio. Muitos cabem nessa exigência. O nosso, não. O resultado é que nosso cântico nacional costuma ser truncado, sustado na metade, deixando os jogadores com cara de bobos e o público com um gosto de quero mais.

Hino BrasilEntendo que regra é regra. Leis não são feitas para serem discutidas, mas para serem cumpridas. Mas, convenhamos, nossos (sempre) distraídos congressistas, aqueles que assinaram sem ler a Lei Geral da Copa, deviam ter pensado nesse detalhe.

Posso até entender que se desviem alguns bilhões do dinheiro brasileiro para construir estádios monumentais, mas tenho dificuldade em aceitar que um de nossos símbolos nacionais mais fortes seja desfigurado diante de bilhões de terráqueos.

Os bilhões de dólares, com «arenas» ou sem elas, com «Copa das copas» ou sem ela, seriam desviados de qualquer maneira. Mas truncar o hino, ah, está aí um crime facilmente evitável.

No momento em que escrevo, faltam ainda algumas horas para a abertura do campeonato. Quem sabe uma luz terá baixado nos organizadores? Quem sabe nos deliciaremos com a execução integral da primeira parte do hino?

O futebol é esporte que sempre reserva alguma surpresa. Vamos torcer. Esperemos que seja executado sete vezes. Por inteiro.

Desbancado pelo pagode

José Horta Manzano

Quando Herr Ignaz Pleyel deixou sua Áustria natal e emigrou para a França, lá pelos anos 1780, não imaginava que seu nome seria ainda mencionado na mídia mais de 200 anos depois. Aliás, nem sabia o que era mídia, que essa palavra ainda não havia sido inventada.

Piano Pleyel droit (de apartamento)

Piano Pleyel droit
(de apartamento)

Ao se naturalizar francês, Herr Pleyel tornou-se Monsieur Ignace Pleyel. Músico de formação, foi já com a idade de 40 anos ― respeitável para a época ― que nosso herói decidiu começar a fabricar pianos. Dado que na época não havia BNDES, os inícios foram modestos. A única ajuda com que o corajoso empresário pôde contar foi a de alguns amigos e simpatizantes. Quando faleceu, em 1831, legou ao filho uma fabriqueta.

Os anos passaram e a marca foi adquirindo renome. Numa época em que não havia rádio nem televisão, ter um piano no canto da sala era ponto de honra para toda família de respeito. A produção da firma atingiu 2500 pianos por ano no fim da década de 1880.

A crise de 1929 bateu feio e levou a empresa à falência. Mas a marca era forte demais para rolar com a enxurrada. O banco Crédit Lyonnais adquiriu o nome e continuou a fabricar os instrumentos.

Pelo final dos anos 1990, o número de pianos vendidos pela firma ainda era de dois mil por ano. De lá para cá, infelizmente, a degringolada foi dorida. A crescente concorrência do Extremo Oriente ― primeiro o Japão, depois a Coreia do Sul e principalmente a China ― solapou a empresa. O valor da mão de obra francesa pesava muito no preço final dos instrumentos. Para ouvidos menos experimentados, o que contava era muito mais preço do que pureza de som.

O final melancólico chegou. A firma acaba de anunciar que fechará as portas e encerrará suas atividades no final deste ano. Foram, aos poucos, abandonando o fabrico de pianos populares para dedicar-se aos instrumentos de luxo, de elevado desempenho. Um Pleyel atual pode custar até 200 mil euros.

Pleyel de cauda

Pleyel de cauda

São obras de arte, inteiramente feitos à mão num trabalho que pode levar até um ano. Cada unidade demanda duas mil horas de trabalho de diferentes especialistas, do marceneiro ao afinador, passando pelo laqueador e por outros artesãos. As encomendas não ultrapassam 20 ou 25 pianos por ano, o que não é suficiente para garantir a perenidade da indústria.

A entrega do último instrumento vai tirar o emprego de uns 15 funcionários e vai umedecer os olhos de milhares de músicos ao redor do globo. Que fazer? É o progresso.

Ary, o mineiro de Ubá

José Horta Manzano

Ary Evangelista de Rezende Barroso (1903-1964), mineiro de Ubá, está entre os maiores compositores que o Brasil já conheceu. Compartilha o panteão com Tom Jobim, Baden Powell, Pixinguinha, Nazareth e mais um punhado de gente fina.

Ary Barroso

Ary Barroso

Compositor fecundo, legou-nos algumas centenas de criações desde a Aquarela do Brasil ―  uma das peças musicais mais executadas no planeta, espécie de Hino Nacional bis ― até obras desconhecidas e jamais gravadas.

Da obra de Ary Barroso, nada menos que 321 músicas foram gravadas. Num trabalho beneditino, o pesquisador Omar Jubran, apaixonado pela boa música brasileira, dedicou dez anos de sua vida para descobrir, coletar, analisar e remasterizar essas preciosidades. Seu trabalho está pronto desde 2006, faz 7 anos.

Já dois anos atrás, o carioca Dacio Malta postava em seu blogue um artigo relatando a dificuldade que o pesquisador Jubran estava enfrentando na busca de um patrocínio para publicar seu impressionante trabalho sobre um dos maiores músicos brasileiros. Naquela época, a chegada de Ana de Hollanda ao Ministério da Cultura parecia promissora. No entanto, o máximo que nosso pesquisador conseguiu foi… um diploma de honra ao mérito.

Mais dois anos se passaram. Um artigo de Lucas Nobile, publicado no Estadão de dois dias atrás, nos dá conta de que o obstinado cultor da memória musical brasileira conseguiu algum patrocínio. Infelizmente, não veio tudo o que era necessário. Por conseguinte, somente 1000 exemplares da caixa de cedês poderá ser fabricada, em vez dos 2000 previstos. Nada mais que mil exemplares da obra completa de Ary Barroso! O pobre Ary, lá onde estiver, há de estar bem triste ao ver o pouco-caso com que sua obra vem sendo tratada.

Disco de Ary Barroso & orquestra prensado no Uruguai, anos 50

Disco de Ary Barroso & orquestra
prensado no Uruguai, anos 50

Segundo Jubran, o patrocínio da empreitada representaria dinheiro de pinga para qualquer grande empresa. Mas nenhuma se habilitou. Só para constar, repito a informação que já dei em post anterior: faz pouco mais de um mês, Dona Marta Suplicy, atual ministra da Cultura, concedeu 7 milhões e 400 mil reais(!) a três criadores de moda brasileiros para permitir-lhes promover desfiles em São Paulo, Paris e Nova York. É dinheiro que, gostemos disso ou não, sai de nossos impostos. É o governo promovendo a cultura nacional!

Sem memória, não há cultura. É revoltante constatar a inversão de valores em vigor no ministério que foi justamente criado para cuidar do assunto. É afligente ver um povo varrer sua memória e atirá-la ao lixo como se poeira fosse. E ― frise-se ― sob o olhar de enfado das autoridades.

A razão dá-se a quem tem

José Horta Manzano

Em 1932, Noel Rosa e Ismael Silva compuseram ― e Chico Alves e Mario Reis gravaram ― um samba que ia assim:

Notas musicaisSe meu amor me deixar
Eu não posso me queixar
Vou sofrendo sem dizer nada a ninguém
A razão dá-se a quem tem

De lá pra cá, o Amazonas despejou muita água no oceano, mas certas verdades continuam valendo. A razão dá-se a quem tem.

Meus leitores sabem que sempre me mostrei francamente céptico quanto à competência do Lula de dirigir o Brasil. Nosso messias exibe comportamento demasiado ameboide a meu gosto.

Concordo que cada um adapte seu comportamento a cada situação. Entendo que se possa transigir aqui ou ali. Mas o Lula destes últimos dez anos decepcionou muita gente. Deixou a impressão de que os fins justificam todo e qualquer meio. Tudo serve, desde que se alcance o objetivo. É aí, a meu ver, que a coisa pega. Comportamentos excessivos nunca são bons.

Supremo Tribunal Federal Brasília

Supremo Tribunal Federal
Brasília

No entanto ― e agora voltamos a nosso sambinha ― nada nem ninguém é de todo ruim. O Lula, que pode ser chucro mas bobo não é, às vezes tem umas tiradas que não são de jogar fora.

Aconteceu nesta terça-feira, 1° de outubro. Em cerimônia patrocinada pela OAB em Brasília, o Lula soltou as barbaridades que dele já se esperam. Previsivelmente, voltou a classificar o julgamento do mensalão de «linchamento». Se seu pronunciamento se tivesse resumido a isso, não valia um post.

Não sei se lhe terá sido soprado por algum assessor, mas o fato é que nosso ex-presidente, num lampo de bom-senso ao qual não estamos acostumados, saiu-se com um argumento daqueles que fazem a gente parar e pensar. Propôs que o mandato dos ministros do Supremo passe a ser por tempo limitado, não mais vitalício. Mais que isso, sugeriu que, em lugar de serem nomeados unicamente pelo presidente da República, como é o caso atualmente, a decisão seja colegial e envolva outras instituições.

Falou na mesma linha do que eu já tinha sugerido em meu post Tribunal federal, de 14 de set°. Que o Lula e eu estejamos de acordo é suficientemente raro. Merece rojão e champanhe!

De fato, qualquer dono de mandato vitalício tende a amolecer. Pra que mostrar aplicação quando você tem a garantia de nunca ser despedido? Não há como segurar a motivação, it’s human nature. Mandato por tempo limitado é mais salutar. Como disse o Lula, se presidente, senador, governador, deputado têm de se submeter ao julgamento das urnas periodicamente, por que cargas d’água ministro de STF não teria de passar por reavaliação? Se os atuais ministros tivessem de provar que são suficientemente bons para conseguir renovar o mandato, o resultado do julgamento do mensalão teria seguido rumos bem diferentes. Pode apostar.

JustiçaConcordo plenamente com nosso messias quando sugere que a escolha seja feita não mais pelo presidente da República, mas por um colegiado incluindo bambambãs do ramo, gente de notória erudição e ilibada reputação. Receio que não vá ser fácil encontrar tanta qualidade reunida, mas vale a pena tentar.

Do jeito que está, com ministros do STF nomeados pelo titular da presidência, a Justiça parece não estar no mesmo patamar dos outros dois poderes da República. A continuar assim, é grande o risco de termos um tribunal supremo ao molho bolivariano, dominado pela politicagem, pela ideologia e, pior, pelo partidarismo. Aliás, já estamos no bom caminho.

Se a sugestão do Lula germinar, será coisa boa para ele e para o Brasil. O país aperfeiçoará suas instituições e o ex-presidente poderá acrescentar alguns créditos ao seu currículo que, francamente, anda meio magrinho.

A razão dá-se a quem tem.

Quando o carteiro chegou

José Horta Manzano

ISAURINHA GARCIA
Lá pelo fim dos anos 70, talvez logo no comecinho dos 80, eu estava em São Paulo. Vi anunciado que a Isaurinha Garcia se apresentava por alguns dias num teatro. Nunca a tinha visto, mas sabia, de ouvir falar, que tinha sido uma moça muito bonita. Na minha família, os mais antigos apreciavam a cantora. Fui já predisposto.

Deu muita pena. Vi, sozinha no palco imenso, uma pequena criatura, maltratada pelo tempo, aparentando bem mais que os cinquenta e poucos anos que tinha. Na plateia, meia dúzia de gatos pingados. Ficava a impressão de que aquela velha senhora não estava ali pela glória, mas para granjear alguns trocados.

Ela mais falou que cantou. Era muito gente, a Isaurinha, gente como a gente, desprovida desses ares de diva inatingível que algumas se dão. Sentou-se numa cadeirinha, num canto do palco, e contou um pouco da sua história, num relato simples como aqueles que se faziam antigamente à mesa da cozinha, na hora do chá da noite. Ou do café com leite, para as crianças.

Isaurinha Garcia

Isaurinha Garcia

CAETANO VELOSO
Até o fim de 1964, tive um professor de música, excelente profissional. Não vou revelar seu nome ― vocês entenderão por quê.

Em 1965, vim para a Europa. Os mais velhos hão de se lembrar, mas aos mais jovens vou contar: mudar-se para a Europa, naquele tempo, equivalia a mudar-se para o planeta Marte hoje em dia. A distância ressentida era bem maior que hoje. Nem se pensava em telefonar, que custava uma fortuna. Não havia internétchi, nem feicibúqui, nem imêiu, nem tevê por satélite. Laços de amizade que não fossem sólidos partiam-se rapidamente.

Durante alguns anos, guardei contacto ― por carta, naturalmente ― com alguns dos amigos e conhecidos que havia deixado no Brasil. Passados dois, três anos, os liames foram-se esgarçando e sobrou somente a família.

Entre as pessoas com quem me correspondi no começo, estava justamente meu professor de música. A cena musical brasileira estava em plena efervescência, com gente do quilate de Elis Regina e Chico Buarque aparecendo. Festivais proliferavam. Foi uma época muito criativa. Meu amigo músico me mandou algumas partituras de artistas novos, que eu desconhecia. Entre eles, havia Roda Viva, composta por Chico Buarque. O impresso veio com uma anotação à mão: «Êste é dos bons!!!», com acento diferencial no êste, como se escrevia à época.

Uma partitura de Tropicália, de Caetano Veloso, veio também. Aquela trazia observação manuscrita menos airosa: «Êste, em minha opinião, é pilantra!!!». Como eu tinha grande admiração pela erudição de meu professor, achei que ele devia ter razão.

Não foi senão uns dez anos mais tarde que, de volta ao Brasil, pude conhecer mais a fundo a obra dos dois jovens artistas, Buarque e Veloso. Tenho de admitir que meu mestre não estava tão errado assim. O Chico era realmente «dos bons», enquanto o outro nunca me entusiasmou.

Quando o carteiro chegou

Quando o carteiro chegou

MENSAGEM (Quando o carteiro chegou)
Sempre achei ― e continuo achando ― que o melhor do Brasil não é seu povo, nem seu clima, nem suas belezas naturais, nem sua língua. O que mais me encanta em Pindorama é a música. Antes da internet, a cada viagem que fazia ao Brasil, eu trazia de volta uma boa quantidade de discos. Primeiro, foram aquelas bolachonas pretas de vinil. Depois, apareceram os cds, bem mais práticos e menos volumosos. Hoje em dia, não precisa mais. Meu rádio recebe o sinal por internet, o que me dá acesso a milhares de estações, desde a Mongólia até a Patagônia.

Outro dia estava sintonizado na Rádio Nacional de Brasília. É uma emissora chapa-branca, daquelas que chamam a presidente de presidenta. Mas tem uma excelente programação, quase exclusivamente musical. Uma coisa compensa a outra. Lá pelas tantas, uma música me pareceu familiar. Não coincidia exatamente com o que eu tinha em memória, mas a parecença era indiscutível.

Não precisei pensar muito. Logo identifiquei que aquilo que estavam tocando era uma quase cópia do samba-canção Mensagem, composto pelos cariocas Cícero Nunes e Aldo Cabral e gravado por Isaura Garcia, na flor de seus 23 aninhos, em 1946. Esperei até o fim da cantoria do rádio. Queria ficar sabendo que música era aquela e quem se apresentava como autor. No fim do bloco, o locutor informou: «Pé do meu samba, de autoria de Caetano Veloso, cantada por Mart’nália». Pra você ver.

Envelope... sem sobrescrito

Envelope… sem sobrescrito

PLÁGIO
Plágio? É difícil dar um veredicto definitivo. Apesar dos mais de 60 anos que separam as duas composições, a linha melódica e a harmonia, pelo menos nos primeiros compassos, é idêntica. É possível até que a velha Mensagem já tenha caído no domínio público deixando, assim, de ser protegida pela legislação sobre direito autoral.

Há atitudes que, embora lícitas, fogem à ética. O senhor Veloso, ao ressuscitar o velho samba-canção, poderia ter revelado a origem de sua inspiração, a parceria póstuma. Teria sido bem mais simpático e não faria mal a ninguém. Ademais, evitaria chocar os ouvidos dos que ainda se lembram «daquela do carteiro». Será que meu bom professor de música tinha razão?

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Quem quiser comprovar a estonteante semelhança, que faça uma visitinha ao youtube, preste atenção e compare:

Mensagem
(a partir do ponto 0:10)

Pé do meu samba
(a partir do ponto 0:33)

As marionetes

José Horta Manzano

Antigamente, costumava-se dizer que «livro é cultura». Com o advento da internet e outros bichos, livro ― pelo menos livro impresso ― anda perdendo o pouco de embalo que já tinha no Brasil.

Não sei, mas acho que o conceito de cultura é entendido de maneira sui-generis em nosso País. A escolha dos titulares da pasta da Cultura estes últimos anos tem deixado uma desagradável impressão de que o setor é de somenos importância. Não passa de um cabide onde se dependuram figuras vistosas, como um Gilberto Gil. Serve também de refúgio temporário para «desempregados» políticos, como é o caso da atual ocupante, dona Marta Suplicy, batida em sua última campanha eleitoral.

Das duas figuras que citei, nenhuma é conhecida por sua excepcional erudição, muito menos por suas qualidades organizacionais. Milagres não existem. Lembro-me de um velho chefe inglês que tive anos atrás. Falando de computador, ele dizia: «You feed shit it, you get shit out», se você puser cocô dentro, só pode sair cocô.

Teatrinho de marionete

Teatrinho de marionete

O nosso é um País de pouca cultura, de escassa erudição. Não se tem notícia de que realizações extraordinárias tenham sido deixadas de herança pelos últimos titulares do ministério. A última façanha de dona Marta Suplicy foi amplamente noticiada duas semanas atrás. Ignorando decisão da CNIC ― Comissão Nacional de Incentivo à Cultura ―, a ministra concedeu por volta de 7,5 milhões de reais a três estilistas de moda, para financiamento de seus desfiles no Brasil e no exterior.

Em matéria de incentivo à Cultura, pareceu a muitos uma decisão esdrúxula. Dona Marta decerto aprecia particularmente o estilo desses artistas. Será, aliás, interessante observar se, daqui para a frente, seu guarda-roupa não incluirá algumas criações exclusivas dos três.

A promoção do Brasil no exterior deveria ser atribuição do Ministério do Turismo. No limite, o Itamaraty deveria encarregar-se. Que o Ministério da Cultura faça as vezes de Ministério da Propaganda Cultural me parece estranho. Evoca instituições do III Reich, de triste memória.

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Vivo em uma cidadezinha que não chega a 12 mil habitantes. Pois saibam os senhores que, enquanto aglomerações brasileiras bem maiores não dispõem nem de um teatro de marionetes, nós aqui temos um teatro de verdade. Com 372 lugares e uma programação pra ninguém botar defeito. A temporada 2012-2013, que começa agora em outubro e vai até abril, propõe não menos de 22 atrações. Teremos peças de teatro, one-man shows (e two-men shows) de artistas cômicos, música coral, música de câmera, concertos de piano. Até uma noitada especial com 7 pianos! Quem tiver curiosidade clique aqui para ver o programa.

Teatro de Gland by E. Baghtchadjan

Teatro de Gland
Fotos de E. Baghtchadjan

Ok, ok. Estou de acordo que não faz sentido construir um teatro em São Nicodemo do Brejo. O povo de lá está mais preocupado em saber se vai poder comer amanhã. Em casos assim, melhor será começar pela instrução pública. Quem sabe, mais tarde, se chegará ao teatrinho de marionetes.

Mas, convenhamos, entre as marionetes que o povo de São Nicodemo nunca verá e os desfiles de moda ― custeados com nosso dinheiro ― que Paris e Nova York verão, há muito espaço a ser preenchido. Falta competência.

Quanta ingenuidade!

José Horta Manzano

Nascido nas Alagoas em 1956, Aldo Rebelo, o atual ministro do Esporte já teve tempo de sobra para criar juízo. Suas mais recentes declarações tendem a provar que ainda lhe falta um pedaço de caminho a percorrer.

Sua opção pelo partidão (PC do B) fazia sentido quando a ele se afiliou, nos já longínquos anos 1970. Hoje em dia ― após a débâcle da URSS e a transformação da China em economia de mercado ― sua persistência nos mesmos ideais é mais difícil de explicar. Mas cada um tem suas convicções e há que respeitá-las. O ministro é a prova tangível de que, de vez em quando, ainda aparece algum dom-quixote.

Quando deputado, Rebelo apresentou projetos de lei um tanto desfocados. É dele a estranha ideia de coibir o uso de estrangeirismos a fim de «proteger» a língua portuguesa.

Não ocorreu ao nobre deputado que, assim como as gentes, as palavras também migram, vão daqui pra lá e vêm de lá pra cá. É justamente isso que faz a riqueza das falas e lhes dá vigor. Além do que, quando uma língua precisa ser protegida, é sinal de que está moribunda, com um pé na tumba. Não é o caso da variante de português falada no Brasil.

Aldo Rebelo ― Ministro do Esporte

Aldo Rebelo ― Ministro do Esporte

O deputado já tentou também fortalecer o saci-pererê em detrimento de bruxas importadas. Elaborou projeto para instituir o dia oficial do negrinho de uma perna só. Gostaria ele que caísse no 31 de outubro, justamente para resguardar o Brasil contra a insuportável ingerência estrangeira representada pelo Halloween.

Outra travessura do simpático homem político foi tentar, por meio de lei, obrigar que o tradicional pão francês ― aquele tradicional pãozinho de padaria ― passasse a conter uma certa porcentagem de raspa de mandioca misturada à farinha de trigo.

Como se vê por essa sucinta olhadela, o homem é adepto da maneira forte e radical: a imposição vem de cima, por lei, e não se fala mais nisso. Como nos bons velhos tempos do camarada Stalin, ah! que saudades…

O ministro do Esporte é, como se vê, pessoa sensível e sobretudo susceptível. Ano passado, ao captar numa declaração do secretário-geral da Fifa uma alusão ofensiva aos brios do País, não hesitou em proscrever o estrangeiro e em declará-lo persona non grata.

Não se conhecem as circunstâncias claras, mas deve ter levado um puxão de orelhas. Enquadrado, deixou o dito pelo não dito. Razões de Estado costumam ser mais convincentes que susceptibilidades. O secretário-geral da Fifa continua circulando livre e solto pelo País.

Como sabemos todos, o ministro do Esporte está no olho do furacão com relação aos eventos esportivos planetários que terão lugar em futuro próximo no Brasil. Segundo reportagem do Estadão, Aldo Rebelo mostrou sua preocupação com o alto valor cobrado pelos ingressos nos novos estádios ― curiosamente chamados de arenas, num atentado contra a língua digno de empalidecer qualquer ministro.

Ora pois, o idiota devo ser eu. Não posso imaginar que os mandachuvas brasileiros que negociaram a famigerada «Lei da Copa» com os controversos dirigentes da Fifa tenham negligenciado a fixação do preço dos ingressos. Se até na caxirola pensaram, não me parece cabível que tenham esquecido de combinar qual seria o preço das entradas.

Que reflete, então, a fala do ministro? Falsa ingenuidade? Ou, pior, confissão de incompetência?Interligne 35

O ministro reincide
Acabo de ler no Estadão desta quinta-feira notícia que vem bem a calhar. Agora o espantalho são os hotéis. Parece que os organizadores dos eventos se esqueceram de combinar com os hospedeiros também. O ministro adverte que, em caso de preços abusivos, «a mão pesada do poder publico vai agir». Bota peso nisso, coronel!

Primeira consideração: hotéis são entidades comerciais privadas. Praticam os preços que lhes parecerem convenientes. Cada hóspede é livre de alojar-se onde bem lhe aprouver.

Segunda consideração: o ministro não explicou o que vem a ser «preço abusivo». Conviria deixar a coisa mais clara.

O uso do cachimbo

José Horta Manzano

Fala-se muito da anestesia do povo brasileiro que, cada dia mais blasé, não se abala mais com os desatinos cometidos por seu desastrado governo. Os parâmetros estão-se perdendo. Os pés estão escapando do estribo.

Acabam todos com a impressão de que tudo é permitido. Só não pode chamar cego de cego, surdo de surdo, louco de louco, preto de preto. O resto pode.

O governo comete enormidades. Ninguém se choca. Todos se sentem liberados para fazer o que bem entenderem. Diante dessa situação, o governo se sente ainda mais livre para continuar a tomar suas decisões extravagantes. Assim, o círculo vicioso se fecha e se realimenta, num movimento infernal cada dia mais difícil de ser freado com meios suaves.

A vizinha Venezuela está mergulhada num torvelinho semelhante faz mais de 10 anos. Talvez por contar com instituições menos sólidas que as nossas, o encadeamento está lá mais adiantado. Os amigos do rei já dominam praticamente todo o processo decisório do país. Executivo, legislativo e judiciário, já subjugados pelo mandachuva maior, guardam fidelidade aos sucessores do falecido e respeitam seus caprichos.Maduro

A arrogância dos figurões do país vizinho está-se tornando insuportável. Estão convencidos de que, façam o que fizerem, ninguém os poderá atingir. O mais recente exemplo do descomprometimento deles com as regras básicas que regem o mundo civilizado chegou estes dias.

Sem se preocupar em solicitar a devida autorização, utilizaram um trecho da música Detalhes, do capixaba Roberto Carlos para ilustrar uma peça de propaganda política. O compositor, cioso de sua obra, não apreciou. Ficou de cobrar direitos autorais dos usurpadores, com juros e correção.

Señor Maduro ― um tanto verde em matéria de recato ― zombou do ocorrido. Aos olhos do bolivarianismo, propriedade intelectual é noção ultrapassada, coisa de burguês.

Roberto Carlos promete entrar com pedido de indenização. Deve apresentá-lo à Justiça venezuelana. E é aí que a porca torce o rabo. Visto que, naquele país, o poder judiciário virou capacho do executivo, a probabilidade de sucesso do compositor é mínima.

Assim como o uso do cachimbo faz a boca torta, o exercício do poder sem contestação afasta os governantes da realidade. Faz que passem a viver num mundo de fantasia.

Se a boca dos dirigentes brasileiros anda meio oblíqua, a de seus colegas bolivarianos já entortou de vez.

Le der des ders

José Horta Manzano

Vanzolini, 5 nov 2011
com minha irmã

Le dernier des derniers, abreviada em le der des ders é a expressão que os franceses usam para se referir ao derradeiro, ao último dos moicanos, a um acontecimento que assinala o fim de uma era.

Foi o que senti ao tomar conhecimento do desaparecimento de Paulo Vanzolini, aos 89 anos. Não sei que repercussão estará tendo a notícia no Brasil nestes tempos de rap e de funk. Quanto a mim, tenho realmente o sentimento de uma perda derradeira. Foi-se o último dos últimos.

Vanzolini, 24 set 2011
Roda de samba

Com sua partida, fechou-se um ciclo. Isso não quer dizer que não haja gente boa entre os modernos, mas os tempos são outros, o gosto musical mudou, a técnica se alterou, a MPB seguiu novos rumos. Dos sambistas tradicionais, não sobrou nenhum.

Não tenho a pretensão de fazer aqui um necrológio. Disso já cuidaram os jornais. Gostaria de frisar uma característica rara no panorama musical brasileiro: Paulo era um compositor que não dependia de suas músicas para ganhar a vida. Era, no mais puro sentido da palavra, um amador. Compunha por prazer, como queria e quando lhe dava vontade.

Vanzolini, 20 out 2012
De chapéu, como se deve!

«Duro de ouvido», sem formação musical, autor de compassos de pé quebrado, Vanzolini não era um músico que se interessava por lagartos. Cientista de formação, era um renomado zoólogo ― mais precisamente um herpetólogo, especialista em répteis ― que fazia uma musiquinha aqui, outra ali. Mas que musiquinhas!

Não foram centenas, mas as poucas que chegaram a ser gravadas são verdadeiros monumentos. Além das ultraconhecidas Ronda e Volta por cima, há preciosidades. Amor de trapo e farrapo, Cravo branco, Samba erudito, Praça Clóvis, Mulher que não dá samba são grandes composições.

Vanzolini, 15 set 2012
Roda de samba

Maior ainda que a musicalidade inata, o talento do Vanzolini letrista era excepcional. «Inveja é a raiva do pó contra quem o pisa», fragmento do samba Inveja está, a meu ver, no mesmo patamar do célebre «Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima».

Vanzolini, 5 mai 2011
com minha irmã e o neto dela

Ultimamente, embora debilitado pelo passar dos anos, Paulo Vanzolini conservava absoluta lucidez. Costumava frequentar um boteco na avenida Lins de Vasconcelos, em São Paulo, perto de seu Cambuci natal. Tinha lá sua mesa reservada. Vinha sempre acompanhado de dois ou três amigos para uma roda de samba improvisada.

Em algumas dessas ocasiões, familiares meus tiveram a sorte de passar momentos amigos com ele. Algumas fotos acompanham este post .

Oxalá outras mentes inspiradas e privilegiadas como a de Vanzolini possam surgir. Que descanse em paz.

Paulo Vanzolini
Citação

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Entre as dezenas de artigos que li estes últimos dias sobre Paulo Vanzolini, sobressai o escrito Cobras e lagartos, publicado por Cláudio Ângelo em seu blogue Curupira.

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Clique nas imagens para ampliar.

Ramona

José Horta Manzano

Faz muitos anos que não passo por lá. Talvez nunca volte a passar. No lugar deve hoje estar um prédio moderno, todo enjaulado como convém, com porteiro e elevador, daqueles onde só se entra com autorização. A não ser que seja de arrastão. Na época, era um terreno baldio onde o povo costumava jogar trastes velhos que não cabiam na lata de lixo. Não era propriamente um lixão fedido, mas uma espécie de cemitério de objetos indesejados. Consciência ecológica não era matéria muito em voga naqueles anos 60.

Criança ainda, passando um dia por perto, um grande livro me chamou a atenção. Cheguei até lá. Era um álbum encadernado e pesado, de capa dura revestida de couro vermelho. Jazia no meio do terreno, de boca para baixo, aberto numa das páginas que, ao contacto da terra, já estava tingida de cor de barro.

Um livro daquele tamanho jogado no lixo? Fiquei curioso e folheei. Não era um livro de texto, mas de músicas. Continha uma boa centena de partituras de músicas populares antigas, algumas com dedicatória dos anos 20, em grafia da época. Coisas do tipo “‘á gentil senhorinha Fulana, offerece affectuosamente Beltrano”. O repertório ia do Brejeiro ao Despertar na Montanha, passando por valsas, tangos, maxixes e foxtrotes americanos.

Estudante de piano clássico ― embora muito mais interessado por música popular ― não tive dúvida: levei o livro para casa. Afinal, tinha sido atirado ao lixo.

Para evitar reprimenda, não contei nada à professora de piano. Ela era bem capaz de me vedar o acesso às partituras. Eu me sentia como um seminarista que escondesse um gibi debaixo da sotaina.

Pouco a pouco, fui «tirando» as músicas. Uma velharia que só ― as mais recentes datavam dos anos 30. Um dia, tinha acabado de decifrar uma peça chamada Ramona. Minha velha avó, que passava por perto, ficou meio pálida. Ralhou comigo e foi bastante incisiva: «Menino, não toque nunca essa música, que dá azar!». Obediente e respeitoso, como pediam os costumes da época, o menino não perguntou o porquê do pito. Simplesmente evitou tocar de novo aquela melodia. Na presença da avó, naturalmente.

Um velho tio me confirmou, anos mais tarde, que tocar Ramona dava uma uruca danada. O que ninguém jamais soube me explicar foi a origem dessa crença.

Estes dias, mais de meio século depois, lembrei-me do episódio. Naquela época pré-internet, não havia meio de satisfazer esse tipo de curiosidade. Dado que enciclopédia nenhuma trazia a história da maldição de Ramona, a gente tinha de acreditar no que se ouvia. Mas hoje tudo se resolve com alguns cliques. Resolvi clicar. Queria conhecer a origem daquela história de azar.

Não foi difícil encontrar. Não era lenda familiar, mas crença disseminada no País inteiro. A história seria até engraçada, se não fosse tão trágica.

Cartaz do filme Ramona

Cartaz do filme Ramona

Em 1927, foi lançada a canção Ramona, composição americana, que viria a servir de tema para o filme homônimo, estreado no ano seguinte, quando o cinema falado engatinhava. Antes mesmo do aparecimento do filme, a música foi sucesso imediato e mundial. Ganhou versões em várias línguas estrangeiras. Foi parar no topo do hit parade, como diríamos hoje.

No dia 25 de outubro de 1927, o navio italiano de passageiros Principessa Mafalda, apinhado de alguns endinheirados e de muitos imigrantes, foi vítima de um pavoroso acidente ao largo da costa baiana. Foi um desastre que, por suas proporções, lembrou o que tinha acontecido com o Titanic, 15 anos antes. Construído em 1908, o vapor estava já em péssimas condições. Em seus anos de glória, tinha transportado gente famosa como Guglielmo Marconi, Tatiana Pavlova, Arturo Toscanini, Luigi Pirandello. Mas a travessia daquele outubro estava programada para ser a última antes do desmanche. Foi.

Vapor Principessa Mafalda

Vapor Principessa Mafalda

Oficialmente, o navio sofreu uma explosão na casa de máquinas, adernou e soçobrou em pouco tempo. As versões quanto à causa do acidente, contudo, variam. O governo italiano, fascista, fez pressão sobre os meios de comunicação para que a tragédia fosse minimizada e não arranhasse a imagem de força e modernidade do país. O número oficial de desaparecidos é de 314. Mas jornais brasileiros e argentinos da época mencionam até 657 mortos, mais que o dobro.

Garantiram alguns sobreviventes que, enquanto o pânico tomava conta dos passageiros, a orquestra de bordo tocava… Ramona. Ninguém é capaz de confirmar. Seja como for, a história se alastrou de boca em boca pelo Brasil inteiro. Toda uma geração passou a sentir-se abalada à simples menção do nome daquela valsa.

Quem quiser conhecer os detalhes do naufrágio do Principessa Mafalda consulte o artigo publicado pelo engenheiro José Goes de Araujo. Vai ficar sabendo tim-tim por tim-tim. Está aqui. A Wikipédia traz um relato bem pormenorizado. Em italiano, aqui.

Ainda se ouve Ramona hoje em dia, mais em versão orquestral, tipo «música de elevador». A trilha sonora original do filme está no youtube, aqui. (*)

Não acredito muito em bruxaria, mas devo confessar que, até hoje, prefiro não cantarolar Ramona. Evitar acidentes é dever de todos.

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(*) O escrevinhador não se responsabiliza por consequências infaustas que possam advir do fato de ouvir a canção. Antecipadamente, agradeço pela compreensão.

Rapaziada do Brás

Você sabia?

José Horta Manzano

Corria o ano de 1917 quando Alberto Marino (1902-1967) compôs uma valsa. Fosse hoje, é possível que tivesse inventado um rap, mas o gosto musical da época era outro. O autor tinha apenas 15 anos de idade (quinze!). Sua criação era despretensiosa, nem letra tinha. Veio-lhe assim como brotam os primeiros amores adolescentes.

Como bom descendente de italianos, Alberto tinha nascido e crescido no paulistano bairro do Brás, reduto de imigrantes peninsulares. Naqueles tempos, metade da população da cidade era estrangeira e, dessa metade, um vivente em cada dois era italiano. A composição recebeu o nome de Rapaziada do Brás, ou do «Braz», como se usava então.

Não se pode dizer que tenha estourado nas paradas de sucesso. (Para quem não conhece a velha expressão, traduzo para o moderno vernáculo: hit parade.) A primeira gravação, pelas mãos do próprio autor, não se faria senão uma dezena de anos mais tarde. Quanto à letra, só foi acrescentada 40 anos depois, criada pela pluma do próprio filho do compositor.

Pouco importa se estourou nas paradas ou não. A Rapaziada do Brás é lembrada até hoje, passado quase um século. Ficou na memória coletiva como um símbolo do passado da cidade.

Alberto Marino continuou sua carreira na música. Diplomou-se como violinista e, mais tarde, como compositor e regente. O que ele estava longe de imaginar é que, após seu falecimento em 1967, seu nome se elevaria a uma altura de… 30 metros. Não estou brincando: um viaduto foi batizado com seu nome, honraria que não é concedida a qualquer um.

            1950 Porteiras do BrásFlechas azuis: postes ainda existentes

1950 Porteiras do Brás
Flechas azuis: postes ainda existentes

Governantes, figurões da política, seus amigos e familiares transformam-se, muita vez ainda em vida(!), em nome de logradouro público. Já com músicos e maestros, o acontecimento é menos frequente.

Todos os que conheceram a cidade de São Paulo antes de meados dos anos 60, hão de ter visto, ou pelo menos ouvido falar, nas porteiras do Brás. Para os que pularam esse capítulo, conto.

Desde o último quartel do século XIX, estradas de ferro cortavam a cidade. Foram, em grande parte, responsáveis pelo acelerado progresso do acanhado burgo. Enquanto o tráfego urbano se restringia a pedestres, a carroças puxadas a burro e a um ou outro automóvel, as vias férreas não representavam grande empecilho. Quando passava um trem, os que tinham de atravessar para o outro lado esperavam. Sem pressa e orgulhosos que se sentiam com o sinal tangível de modernidade, ninguém reclamava.

Foi assim até meados dos anos 40. A partir de então, o aumento da população expandiu os limites urbanos. O tráfego de automóveis e de caminhões cresceu. A Zona Leste povoou-se rapida e densamente. Muitas fábricas se estabeleceram ao longo da ferrovia. No entanto, imperturbáveis, os trilhos continuaram no exato lugar onde haviam sido assentados.

           2010 Porteiras do BrásO prédio verde perdeu suas venezianas

2010 Porteiras do Brás
O prédio verde perdeu suas venezianas

Nos anos 50, as porteiras do Brás já tinham se tornado um dos maiores pesadelos da cidade. A frequência dos trens crescia e, à passagem de cada composição, as porteiras baixavam, represando o pesado tráfego da importante avenida Rangel Pestana.

Falava-se muito em resolver o problema. Entrava prefeito, saía prefeito, e nenhuma providência era tomada. Foi preciso esperar até o meio dos anos 60 para que, finalmente, durante a gestão do carioca Faria Lima, então prefeito de São Paulo, um viaduto fosse construído. Como presente à cidade ― que faz anos em 25 de janeiro ― a obra foi inaugurada dia 24 de janeiro de 1968.

 Eu já não estava mais no Brasil, mas imagino que deva ter sido uma festa. E um alívio para os que costumavam atravessar a linha férrea, fosse a pé, de carro ou de ônibus.

Este é um (raro) exemplo de obra pública de nome acertado. Quem mais poderia ter emprestado seu próprio nome a um viaduto que resolveu o angustiante problema das porteiras do Brás?

O desaparecimento das porteiras não nos trouxe de volta a poesia da antiga rapaziada do Brás. A de hoje já não faz mais serestas. Se as fizesse, teriam outro tempero. Sobrou, como consolo, a quase centenária composição. Ainda há de nos encantar por muito tempo.

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Se alguém quiser recordar a valsa, na voz de Francisco Petrônio, que clique aqui.

NOTA: Clique sobre as fotos para ampliá-las.

O cantor das multidões

José Horta Manzano

Os mais jovens hão de me perdoar. Que é que se há de fazer? Cada um tem sua história, cada um se lembra daquilo que conheceu, cada um tem seus ídolos.

Se um dia eu lhes falar de Noel Rosa ou de Chiquinha Gonzaga, estarei relatando o que li ou o que ouvi dizer. Não fomos contemporâneos neste vale de lágrimas. Assim como meu sobrinho nascido em 2012 ― tenho um, não é figura de expressão ― aprenderá pelas coletâneas de músicas antigas quem foi Roberto Carlos ou o que cantava Beyoncé. Assim é a vida.

Eliete Negreiros escreveu um belo artigo publicado no dia 15 de fevereiro na Revista Piauí. Traz algumas pinceladas de Orlando Silva (1915-1978). Aquele que um dia foi o cantor das multidões teve uma existência de altos e baixos. Quem quiser conferir, que faça uma visita por aqui.

Não se pode dizer que Orlando fosse um deus de beleza, não era nenhum Apolo. Sua estrela começou a brilhar, como a de tantos outros, no rastro de um encontro fortuito, obra do acaso. Não tivesse havido aquele vis-à-vis com Chico Alves ― o inconteste rei da voz ―, jamais o jovem teria sido projetado no cenário musical brasileiro. Ele trazia um único predicado: sua voz. Melodiosa, afinadíssima, potente, um tiquinho anasalada, inimitável.

Para Chico, o indiscutível rei da época, 17 anos mais velho, o modesto novato despontava como uma promessa de continuidade. Não lhe pareceu ― como nunca foi ― um concorrente ou uma ameaça. Dizem que Francisco Alves, inteligente e arguto, era pessoa muito generosa.

Orlando teve uma fase de ouro fértil e festejada, mas, infelizmente, demasiado curta para alguém de tamanho talento. Não durou mais que uns dois ou três anos, nos idos de 1937, 1938. Minha mãe contava que chegou a presenciar alguma de suas apresentações. Na época, o espetáculo ocorria ao vivo, no superlotado auditório da Rádio Record, rua Quintino Bocaiúva esquina com rua Direita, em São Paulo ― o prédio ainda está lá. Ao final, as mocinhas sacavam tesouras de suas bolsas e se acotovelavam para cortar um pedaço da gravata do artista. Queriam levar para casa uma relíquia, um troféu.

O desastre de que o cantor foi vítima, relatado no artigo de Eliete, obrigou-o a longo tempo de hospitalização, quando recebeu doses de morfina para alívio das dores. O medicamento cavalar amenizou-lhe os sofrimentos, mas desgraçou-lhe a existência.

Orlando Silva - 1960    Crédito: jhm

Orlando Silva – 1960
Crédito: jhm

Como todos os opiáceos, a potente morfina induz à adição. Nosso desventurado Orlando Silva desceu aos abismos da dependência. O entorpecente, alidado ao consumo de bebidas alcoólicas, afastou o cantor de seu público. O ostracismo durou mais de uma dúzia de anos.

Quando Orlando tentou uma volta à ribalta, muito tempo havia passado, já estávamos nos anos 50. A valsa tinha saído de moda e o samba-canção começava a ocupar lugar na preferência dos ouvintes, já prenunciando a bossa-nova.

A voz do cantor também já não era a mesma. Não que tivesse envelhecido, não tinha ainda 40 anos de idade, mas o lampejo cristalino da juventude havia desaparecido.

Por teimosia, ou mais provavelmente por necessidade, Orlando persistiu. Gravou ainda alguns discos, mas as mocinhas já não disputavam retalhos de sua gravata.

Por mero acaso, tive ocasião de vê-lo pessoalmente, numa viagem que fizemos juntos num ônibus da Cometa, de Águas da Prata a São Paulo. Foi de relance, em janeiro de 1960. Munido de minha máquina fotográfica caixotinho, como se usava na época, tirei uma foto do cantor através do vidro. Estávamos esperando pela partida do coletivo. Foi de novo minha mãe quem exclamou: «Olha, aquele é o Orlando Silva!».

Na época, eu estava mais interessado em Ray Charles e Chubby Checker, mas assim mesmo bati a chapa. Saiu meio desajeitada, meio desfocada, mas fiz questão de inseri-la aqui no artigo.

Orlando Silva não estava mais portando gravata, que a moda tinha passado. Ainda que estivesse, já fazia tempo que as gentes haviam esquecido o cantor das multidões. Não foi senão muitos anos mais tarde que aprendi a conhecer e a apreciar sua arte.

Como costumava dizer minha avó:

Tudo passa
O tempo corre
Passa o tempo
E tudo morre.

Segredo é pra quatro paredes

José Horta Manzano

Já faz um tempinho que se fala menos de Julian Assange, aquele que andou bisbilhotando mensagens confidenciais do governo americano e espalhando o resultado da façanha pela internet.

Muita gente aplaudiu. O homem foi, por um breve tempo, elevado à categoria de herói, uma espécie de Robin Hood dos tempos modernos, aquele que rouba segredos dos poderosos para distribui-los aos sem poder. Não é minha visão.

Mala diplomática 1Um bonito samba-canção de Herivelto Martins e Marino Pinto que Dalva de Oliveira gravou em 1947 (*) dizia justamente que «segredo é para quatro paredes». Naqueles tempos recuados, as paredes já tinham ouvidos, mas o som não ia muito além do quarto ao lado. O pior que podia acontecer é que algum maldizente espalhasse a fofoca pela vizinhança. Hoje não é mais assim.

A internet e os novos meios de difusão da informação abriram caminhos que nós, pioneiros, estamos ainda longe de conceber aonde vão levar. Hoje em dia, um sussurro emitido em Singapura será ouvido instantaneamente em Sydney, em Helsinque e até em Ushuaia. Quem joga informações na rede deve estar bem consciente dessa nova realidade. E o senhor Assange certamente estava quando decidiu divulgar dados obtidos por meios fraudulentos.

Na primeira metade dos anos sessenta, foi assinada a Convenção de Viena sobre as Relações Diplomáticas. É aceita por praticamente todos os países. Até Cuba e a Coreia do Norte são membros do clube. Entre outras determinações, a Convenção de Viena reitera e regulamenta o antigo princípio da mala diplomática.

Tradução portuguesa da expressão valise diplomatique, a mala chegou, realmente, a ser uma espécie de baú. Os países signatários da convenção comprometeram-se a deixá-la passar, sem violá-la e sem controlar seu conteúdo. O nome ficou, mas a mala, nos dias atuais, se desmaterializou.

Mensagens diplomáticas transitam agora por internet. A mudança de meio de transporte, no entanto, não invalidou o princípio da inviolabilidade do conteúdo. Violá-lo continua sendo um crime. Difundir por internet o produto do crime, a informação surrupiada, é duplamente repreensível.

Os tempos do faroeste passaram. As leis são feitas para serem obedecidas. A ninguém ― salvo, naturalmente, a alguns figurões brasileiros «especiais» ― é dado desobedecer a elas. Quem o fizer, terá de prestar conta de seus atos.Mala diplomática 2

O senhor Assange cometeu um ato de pirataria. C’est plus bête que méchant, diriam os franceses, está mais para tolice que para malvadeza. Seja como for, o ato foi leviano e deu pano pra mangas. Agora, para coroar, o pirata mostra que sua coragem só funcionava quando se sentia protegido por um biombo, perdão, por uma tela de computador. Desmascarado, exposto e procurado por polícias do mundo inteiro, amoita-se num cômodo acanhado da embaixada londrina de uma pequena República sulamericana.

Na entrevista que teve a fineza de conceder a um correspondente do Estadão, Assange fez questão de se apresentar fantasiado de jogador de futebol. Uniformizado como se fosse dos nossos. É receita certeira para embevecer muita gente. Veja aqui e aqui.

Plugado e conectado, o hóspede da exígua embaixada deve estar a par da acolhida peculiar que o governo brasileiro costuma dispensar a refugiados. Deve saber que, durante a Segunda Guerra, nossas representações diplomáticas estavam instruídas a negar visto de entrada a judeus. Deve saber também que o último grande bandido internacional extraditado pelo Brasil foi Tommaso Buscetta, um mafioso pentito (arrependido), faz 30 anos. Deve ter estudado tim-tim por tim-tim o caso Battisti.

Em resumo, sabe que não poderá ― nunca mais ― atravessar fronteiras e circular livremente. Se tiver a sorte de se safar da embaixada onde se encontra encurralado, imagino que trocará o apertado Equador(2) por um refúgio no espaçoso Brasil. À beira-mar, se possível.Mala diplomática 3

Nesse particular, não tem muito a temer: muito provavelmente será aceito. Talvez de braços não tão abertos, dado que seu crime não foi de sangue, mas, assim mesmo, lo recibiremos de corazón.

Seus feitos combinam com o clima de malandragem e de traição.

(1) Quem quiser recordar o samba-canção, siga por aqui.

(2) Quem quiser assistir a um pouso no aeroporto de Quito, clique aqui.

Plágio? (parte 2)

José Horta Manzano

O artigo de ontem rendeu pano para mangas. Dizem que os adolescentes querem todos ser diferentes vestindo-se todos da mesma maneira. Com gente grande não funciona exatamente do mesmo jeito.

É bem verdade que há gente de comportamento um tanto excêntrico ― antigamente, diríamos esquisito ― , que elege um modelo e passa a vida tentando imitá-lo, mas a maioria não chega a tal extremo de mimetismo.

Falei em plagiato porque me surpreendeu a semelhança entre duas canções populares, nada mais. O caso me deixou a impressão de ir além de uma simples coincidência.

Nunca tinha dado maior atenção a esse assunto, mas uma boa amiga e fiel leitora me chamou a atenção para outros casos tanto ou mais contundentes do que o que citei.Notas musicais

Andei pesquisando e me dei conta de que há muito mais plágios entre céu e terra do que sonha nossa vã filosofia. Peraí!  O que eu acabo de dizer não é plágio, é citação, coisa bem diferente. Citação (ou paródia) é uma piscadela, uma reminiscência que se insere aqui e ali para florir um texto ou uma melodia. Copiar trechos inteiros de obra alheia e assinar embaixo são outros quinhentos.

Uma rápida busca me revelou inúmeras acusações de plágio. Há material para livros inteiros, um artiguinho não basta. Quero só apontar alguns casos mais flagrantes.

O ‘rei’ Roberto Carlos foi acusado, anos atrás, de se apoderar de uma canção de um músico diletante. Processado pelo autor, defendeu-se. Passou uns 15 anos interpondo recursos, mas não houve jeito: foi condenado. Veja aqui.

O crítico de arte Luís Antônio Giron  já publicou diversos artigos apontando trechos de composições de Tom Jobim que se assemelham estranhamente a obras de outros autores. Os cinco últimos parágrafos deste artigo publicado na Gazeta Mercantil são edificantes.

Lúcio Ribeiro e Pedro Alexandre Sanches, em texto estampado na Folha de São Paulo, vão pelo mesmo caminho. Lançam uma sombra de dúvida sobre a autoria de Águas de Março.

Tem um caso que merece a palma de prata. É a parecença entre o Prelúdio n°4 de Frédéric Chopin e A Insensatez de Antônio Carlos Jobim. As peças são gêmeas univitelinas. Veja o inteligente entrelaçamento.

And the winner is….  A palma de outro vai para… Lamartine Babo! Torcedor fanático do América Futebol Clube, não hesitou em copiar a canção americana Row Row Row e transformá-la em hino de seu time. Sem tirar nem pôr.Violino

Confira:

Row Row Row, de Joy Hodges

Hino do America F.C., de Lamartine Babo

Vamos copiar o Ai, se eu te pego, assinar embaixo, e entrar numa grana firme? Que tal?

Plágio?

José Horta Manzano

Os dicionários informam que plágio é o ato de apresentar, como de sua própria autoria, obra intelectual produzida por outra pessoa. Tanto faz que seja texto, pintura, desenho, música, foto. Há que convir que a definição é ao mesmo tempo precisa e vaga.

Sua precisão está na clareza: apresentar como seu algo que foi feito por outro, não resta dúvida, é apropriação indébita, roubo.radio 1

No entanto, quando nos referimos a obras musicais, entram dois complicadores: a inspiração e o tempo de execução da obra. Não é impossível que dois compositores tenham na mesma época inspiração semelhante e que, em toda honestidade, escrevam peças musicais muito parecidas. Há mais: existem casos em que apenas trechos de uma peça guardam certa semelhança com passagens de obra alheia.

Já houve quem acusasse o grande Tom Jobim de plagiar o não menos grande Cole Porter. De fato, os primeiros compassos do Samba de uma nota só lembram muito o início de Night and day. No entanto, algumas notas mais adiante, as obras seguem caminhos tão diversos que fica afastada a ideia de pura e simples cópia. Por mim, Jobim está absolvido.

Os mais antigos talvez se lembrem de uma canção de autoria de Dolores Duran (1930-1959), composta em 1958. Chamava-se Castigo. O nome é pouco evocador, mas muita gente deve se lembrar da letra: «A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer, briga pensando que não vai sofrer (…)». Marisa Gata Mansa foi a primeira a gravar. Maysa ― que ainda era Maysa Matarazzo ― fez do samba-canção seu cavalo de batalha.

Fiquei conhecendo, algum tempo atrás, um bolero mexicano composto por Wello Rivas (1913-1990). Ok, ok, a simples menção ao termo bolero, hoje, incomoda. Nossa estética musical se modificou. Mas não vamos perder de vista que a própria Dolores Duran ― que, apesar do nome artístico hispanizante, se chamava Adiléia Silva da Rocha ― iniciou sua carreira cantando… boleros.

A composição a que me refiro se chama Llegaste tarde. Por mais que tenha procurado, não consegui encontrar o ano de lançamento. Quando ouvi pela primeira vez a composição de Rivas, fiquei um bocado surpreso. A primeira parte guarda semelhanças intrigantes com o Castigo de nossa Dolores. Mesma linha melódica, mesma harmonia.

Será coincidência ou plágio? Se for cópia, quem terá copiado quem? Dolores já se foi há mais de meio século. Rivas também já fez sua travessia faz mais de 20 anos. Llegamos demasiado tarde. Não saberemos nunca.radio 3

Para quem quiser conferir, há registros no youtube. O caminho é este aqui:

Gravação de Castigo, por Taiguara

Gravação de Llegaste tarde, por Amparo Montes

Gravação de Castigo, por Roberto Luna

Gravação de Llegaste tarde, por Los Soberanos

Arrombada a porta, põe-se a tranca

José Horta Manzano

Nos idos de 1967, eu estava trabalhando na Suécia. Travei conhecimento com uma senhora muito simpática. Poliglota e inteligente, teria ali pelos 40 anos. Tinha nascido no Brasil, mas, casada com um sueco, vivia em Malmö fazia já vários anos. Vamos chamá-la senhora Almgrén, mas não posso garantir que fosse esse o nome. Passou muito tempo e já não tenho certeza.

Uma música francesa, gravada por Sacha Distel (1933-2004), estava nas paradas de sucesso, como se dizia na época. Na crista da onda, muito popular. Era ― como explicar? ― um «samba europeu». Um ritmo um tanto desengonçado que grande parte do povo do Velho Continente acreditava ser música brasileira. Aliás, muitos ainda acreditam, acreditem.

O compasso da canção, divertida e bem animada, hesitava entre cumbia, conga e rumba. Chamava-se «L’incendie à Rio», o incêndio no Rio. Meu conhecimento de francês, precário à época, não me permitia entender a letra.

Comentei com a senhora Almgrén que eu gostava muito daquela música. Maliciosamente, ela me replicou que, se eu entendesse a letra, por certo gostaria menos. Fiquei um tanto perplexo. “Ué” ― pensei ― “e por quê?”

Sacha Distel

Sacha Distel

Indulgente, minha amiga explicou que a letra relatava um incêndio imaginário numa torrefação de café no Rio de Janeiro. E descrevia a atrapalhação dos bombeiros que não encontravam as mangueiras, nem o esguicho, nem a escada. Somente no final da noite, quando todo o quarteirão estava reduzido a cinzas, os petrechos foram encontrados. Assim mesmo, os bombeiros continuavam não podendo sair do quartel porque o caminhão estava enguiçado e ninguém sabia onde estava a manivela para dar partida no motor.

Uma zombaria total, como se vê. Retratava nosso País como era visto pelos europeus, um lugar muito alegre e animado, mas totalmente bagunçado. Quem quiser recordar (ou conhecer) L’incendie à Rio, pode dar uma espiada aqui. Vem com vídeo, música e letra.

O bem informado blogue de Sonia Racy, alojado no Estadão, nos informa neste 30 de janeiro que a Câmara Federal do Brasil não tem brigadistas de incêndio. Pior que isso, a Casa não dispõe sequer de servidores treinados para casos de incêndio(!). Não acredita? Pois confira aqui.

Quando a canção de Sacha Distel fez sucesso, fazia 3 ou 4 anos que se encerrara a «Guerra da Lagosta», um daqueles conflitos sem batalha e sem sangue. Foi nessa época, dizem, que De Gaulle teria pronunciado a célebre frase «o Brasil não é um país sério». Dizem outros que jamais o general teria cometido tal afronta. Ele nunca confirmou. Tampouco desmentiu. Vamos deixar para voltar ao assunto noutra ocasião.

Neste finzinho de janeiro, passados alguns dias do pavoroso drama de Santa Maria, aparecem outros podres, aos borbotões: casas de espetáculo funcionando sem alvará, proteção contra incêndio inexistente, pessoal não treinado. Em resumo: é a ganância de braço dado com a irresponsabilidade. Se nem a Câmara ― a casa dos representantes do povo brasileiro! ― escapa do descaso, imagine o resto. Nossos 513 deputados devem, realmente, estar totalmente ocupados com outros assuntos.

É urgente que os poderosos que mandam no Brasil tomem um banho de integridade e de probidade. Queira o destino que o inconcebível drama gaúcho tenha sido a última tragédia decorrente de desleixo aliado ao descaso e à cupidez. Já está na hora levar as coisas a sério.

Que o clichê sublinhado pelo irreverente Incendie à Rio possa ser atirado à lata de lixo do passado. Para nunca mais voltar.

No spams!

José Horta Manzano

Avisa-me uma fiel leitora que propaganda indesejada e intempestiva tem aparecido quando se põe a ler meu blogue. Pergunta-me se decidi abrir este espaço a chamadas comerciais. A resposta é um redondo e sonoro NÃO!

Este é um cantinho onde pessoas de boa vontade se reúnem. Não é um encontro de vendilhões. Vem quem quer, não paga nada para entrar, só fica se lhe interessar. Não há nenhuma espécie de reclame, anúncio, propaganda. Nem proselitismo. Digo o que penso, da maneira que sinto, mas ninguém é obrigado a estar de pleno acordo. Para reparos, está aí o campo de comentários.

Também eu já fui vítima desses anúncios que se intrometiam, de repente, no meio de alguma leitura calma. Imaginei que outros internautas também pudessem estar sendo incomodados pelo mesmo tipo de intrusão. Dito e feito. Andei pesquisando em alguns fóruns e me dei conta de que se trata de uma praga que começa a se disseminar. É insidiosa, porque faz o leitor pensar que a propaganda foi inserida com a anuência do site onde aparece. Não é assim.

Os computadores não utilizam todos os mesmos sitemas, as mesmas versões, por isso não lhes posso dar uma receita única para livrá-los dessa coceira. Se essa intrusão estiver acontecendo com vocês, recomendo procurarem conselho em algum fórum que reúna outras vítimas. Não é difícil se desembaraçar desse mal, acreditem. Posso até dar algum bom conselho, mas prefiro não fazê-lo aqui. Se alguém estiver padecendo do mesmo ataque, que me contacte por email, e lhe direi como procedi. O endereço está lá em cima, no menu Contacto.

Este blogue não tem patrocinadores, nem mecenas, nem anunciantes, nem spammers. Não os tem e não deseja tê-los.

É sol, é sal, é sul!

José Horta Manzano

Muito melhor que eu, Everaldo José dos Santos conta a história da marchinha Allah-la-ô, gravada por Carlos Galhardo em 1941, nos tempos áureos do carnaval de rua.

Ao saber dos quase 41 graus registrados hoje no Rio de Janeiro, não pude deixar de me lembrar da composição de Haroldo Lobo e Nássara.

Crédito: Yann Arthus-Bertrand

Crédito: Yann Arthus-Bertrand

O calor tropical não devia ser muito mais suave que o de agora na então Capital Federal. Mas as praias eram menos frequentadas, o que certamente amenizava a temperatura. A coabitação era, digamos assim, menos íntima e o calor humano menos invadente.

Melhor que tudo: não havia arrastão!