Ramona

José Horta Manzano

Faz muitos anos que não passo por lá. Talvez nunca volte a passar. No lugar deve hoje estar um prédio moderno, todo enjaulado como convém, com porteiro e elevador, daqueles onde só se entra com autorização. A não ser que seja de arrastão. Na época, era um terreno baldio onde o povo costumava jogar trastes velhos que não cabiam na lata de lixo. Não era propriamente um lixão fedido, mas uma espécie de cemitério de objetos indesejados. Consciência ecológica não era matéria muito em voga naqueles anos 60.

Criança ainda, passando um dia por perto, um grande livro me chamou a atenção. Cheguei até lá. Era um álbum encadernado e pesado, de capa dura revestida de couro vermelho. Jazia no meio do terreno, de boca para baixo, aberto numa das páginas que, ao contacto da terra, já estava tingida de cor de barro.

Um livro daquele tamanho jogado no lixo? Fiquei curioso e folheei. Não era um livro de texto, mas de músicas. Continha uma boa centena de partituras de músicas populares antigas, algumas com dedicatória dos anos 20, em grafia da época. Coisas do tipo “‘á gentil senhorinha Fulana, offerece affectuosamente Beltrano”. O repertório ia do Brejeiro ao Despertar na Montanha, passando por valsas, tangos, maxixes e foxtrotes americanos.

Estudante de piano clássico ― embora muito mais interessado por música popular ― não tive dúvida: levei o livro para casa. Afinal, tinha sido atirado ao lixo.

Para evitar reprimenda, não contei nada à professora de piano. Ela era bem capaz de me vedar o acesso às partituras. Eu me sentia como um seminarista que escondesse um gibi debaixo da sotaina.

Pouco a pouco, fui «tirando» as músicas. Uma velharia que só ― as mais recentes datavam dos anos 30. Um dia, tinha acabado de decifrar uma peça chamada Ramona. Minha velha avó, que passava por perto, ficou meio pálida. Ralhou comigo e foi bastante incisiva: «Menino, não toque nunca essa música, que dá azar!». Obediente e respeitoso, como pediam os costumes da época, o menino não perguntou o porquê do pito. Simplesmente evitou tocar de novo aquela melodia. Na presença da avó, naturalmente.

Um velho tio me confirmou, anos mais tarde, que tocar Ramona dava uma uruca danada. O que ninguém jamais soube me explicar foi a origem dessa crença.

Estes dias, mais de meio século depois, lembrei-me do episódio. Naquela época pré-internet, não havia meio de satisfazer esse tipo de curiosidade. Dado que enciclopédia nenhuma trazia a história da maldição de Ramona, a gente tinha de acreditar no que se ouvia. Mas hoje tudo se resolve com alguns cliques. Resolvi clicar. Queria conhecer a origem daquela história de azar.

Não foi difícil encontrar. Não era lenda familiar, mas crença disseminada no País inteiro. A história seria até engraçada, se não fosse tão trágica.

Cartaz do filme Ramona

Cartaz do filme Ramona

Em 1927, foi lançada a canção Ramona, composição americana, que viria a servir de tema para o filme homônimo, estreado no ano seguinte, quando o cinema falado engatinhava. Antes mesmo do aparecimento do filme, a música foi sucesso imediato e mundial. Ganhou versões em várias línguas estrangeiras. Foi parar no topo do hit parade, como diríamos hoje.

No dia 25 de outubro de 1927, o navio italiano de passageiros Principessa Mafalda, apinhado de alguns endinheirados e de muitos imigrantes, foi vítima de um pavoroso acidente ao largo da costa baiana. Foi um desastre que, por suas proporções, lembrou o que tinha acontecido com o Titanic, 15 anos antes. Construído em 1908, o vapor estava já em péssimas condições. Em seus anos de glória, tinha transportado gente famosa como Guglielmo Marconi, Tatiana Pavlova, Arturo Toscanini, Luigi Pirandello. Mas a travessia daquele outubro estava programada para ser a última antes do desmanche. Foi.

Vapor Principessa Mafalda

Vapor Principessa Mafalda

Oficialmente, o navio sofreu uma explosão na casa de máquinas, adernou e soçobrou em pouco tempo. As versões quanto à causa do acidente, contudo, variam. O governo italiano, fascista, fez pressão sobre os meios de comunicação para que a tragédia fosse minimizada e não arranhasse a imagem de força e modernidade do país. O número oficial de desaparecidos é de 314. Mas jornais brasileiros e argentinos da época mencionam até 657 mortos, mais que o dobro.

Garantiram alguns sobreviventes que, enquanto o pânico tomava conta dos passageiros, a orquestra de bordo tocava… Ramona. Ninguém é capaz de confirmar. Seja como for, a história se alastrou de boca em boca pelo Brasil inteiro. Toda uma geração passou a sentir-se abalada à simples menção do nome daquela valsa.

Quem quiser conhecer os detalhes do naufrágio do Principessa Mafalda consulte o artigo publicado pelo engenheiro José Goes de Araujo. Vai ficar sabendo tim-tim por tim-tim. Está aqui. A Wikipédia traz um relato bem pormenorizado. Em italiano, aqui.

Ainda se ouve Ramona hoje em dia, mais em versão orquestral, tipo «música de elevador». A trilha sonora original do filme está no youtube, aqui. (*)

Não acredito muito em bruxaria, mas devo confessar que, até hoje, prefiro não cantarolar Ramona. Evitar acidentes é dever de todos.

.

(*) O escrevinhador não se responsabiliza por consequências infaustas que possam advir do fato de ouvir a canção. Antecipadamente, agradeço pela compreensão.

Rapaziada do Brás

Você sabia?

José Horta Manzano

Corria o ano de 1917 quando Alberto Marino (1902-1967) compôs uma valsa. Fosse hoje, é possível que tivesse inventado um rap, mas o gosto musical da época era outro. O autor tinha apenas 15 anos de idade (quinze!). Sua criação era despretensiosa, nem letra tinha. Veio-lhe assim como brotam os primeiros amores adolescentes.

Como bom descendente de italianos, Alberto tinha nascido e crescido no paulistano bairro do Brás, reduto de imigrantes peninsulares. Naqueles tempos, metade da população da cidade era estrangeira e, dessa metade, um vivente em cada dois era italiano. A composição recebeu o nome de Rapaziada do Brás, ou do «Braz», como se usava então.

Não se pode dizer que tenha estourado nas paradas de sucesso. (Para quem não conhece a velha expressão, traduzo para o moderno vernáculo: hit parade.) A primeira gravação, pelas mãos do próprio autor, não se faria senão uma dezena de anos mais tarde. Quanto à letra, só foi acrescentada 40 anos depois, criada pela pluma do próprio filho do compositor.

Pouco importa se estourou nas paradas ou não. A Rapaziada do Brás é lembrada até hoje, passado quase um século. Ficou na memória coletiva como um símbolo do passado da cidade.

Alberto Marino continuou sua carreira na música. Diplomou-se como violinista e, mais tarde, como compositor e regente. O que ele estava longe de imaginar é que, após seu falecimento em 1967, seu nome se elevaria a uma altura de… 30 metros. Não estou brincando: um viaduto foi batizado com seu nome, honraria que não é concedida a qualquer um.

            1950 Porteiras do BrásFlechas azuis: postes ainda existentes

1950 Porteiras do Brás
Flechas azuis: postes ainda existentes

Governantes, figurões da política, seus amigos e familiares transformam-se, muita vez ainda em vida(!), em nome de logradouro público. Já com músicos e maestros, o acontecimento é menos frequente.

Todos os que conheceram a cidade de São Paulo antes de meados dos anos 60, hão de ter visto, ou pelo menos ouvido falar, nas porteiras do Brás. Para os que pularam esse capítulo, conto.

Desde o último quartel do século XIX, estradas de ferro cortavam a cidade. Foram, em grande parte, responsáveis pelo acelerado progresso do acanhado burgo. Enquanto o tráfego urbano se restringia a pedestres, a carroças puxadas a burro e a um ou outro automóvel, as vias férreas não representavam grande empecilho. Quando passava um trem, os que tinham de atravessar para o outro lado esperavam. Sem pressa e orgulhosos que se sentiam com o sinal tangível de modernidade, ninguém reclamava.

Foi assim até meados dos anos 40. A partir de então, o aumento da população expandiu os limites urbanos. O tráfego de automóveis e de caminhões cresceu. A Zona Leste povoou-se rapida e densamente. Muitas fábricas se estabeleceram ao longo da ferrovia. No entanto, imperturbáveis, os trilhos continuaram no exato lugar onde haviam sido assentados.

           2010 Porteiras do BrásO prédio verde perdeu suas venezianas

2010 Porteiras do Brás
O prédio verde perdeu suas venezianas

Nos anos 50, as porteiras do Brás já tinham se tornado um dos maiores pesadelos da cidade. A frequência dos trens crescia e, à passagem de cada composição, as porteiras baixavam, represando o pesado tráfego da importante avenida Rangel Pestana.

Falava-se muito em resolver o problema. Entrava prefeito, saía prefeito, e nenhuma providência era tomada. Foi preciso esperar até o meio dos anos 60 para que, finalmente, durante a gestão do carioca Faria Lima, então prefeito de São Paulo, um viaduto fosse construído. Como presente à cidade ― que faz anos em 25 de janeiro ― a obra foi inaugurada dia 24 de janeiro de 1968.

 Eu já não estava mais no Brasil, mas imagino que deva ter sido uma festa. E um alívio para os que costumavam atravessar a linha férrea, fosse a pé, de carro ou de ônibus.

Este é um (raro) exemplo de obra pública de nome acertado. Quem mais poderia ter emprestado seu próprio nome a um viaduto que resolveu o angustiante problema das porteiras do Brás?

O desaparecimento das porteiras não nos trouxe de volta a poesia da antiga rapaziada do Brás. A de hoje já não faz mais serestas. Se as fizesse, teriam outro tempero. Sobrou, como consolo, a quase centenária composição. Ainda há de nos encantar por muito tempo.

.

Se alguém quiser recordar a valsa, na voz de Francisco Petrônio, que clique aqui.

NOTA: Clique sobre as fotos para ampliá-las.