Campeões do mundo

Tempo gasto diante da tela do celular
(em horas por dia)
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José Horta Manzano

Quem é que disse que a única área em que os brasileiros são campeões é o agronegócio? Abro parênteses. (Estou aqui rindo sozinho ao lembrar que Elio Gáspari chama os agronegociantes de “agrotrogloditas”.) Fecho parênteses.

Há pelo menos mais um terreno em que os brasileirinhos e brasileirões são campeões do mundo. Como demonstra a ilustração acima, um gráfico publicado no site Datareportal.com mostra o resultado de um estudo levado a cabo em quarenta países importantes. Estudou-se o tempo médio que os cidadãos de cada um desses países gasta todos os dias olhando a tela de seus telefones celulares.

Sabendo-se que a média mundial é de 3 horas e 46 minutos por dia, as diferenças entre países que gastam pouco tempo e os que gastam muito com seus celulares é surpreendente.

Note-se que, quanto mais alto é o PIB do país, menos a população parece se interessar por passar horas navegando. E o contrário é verdadeiro: populações menos afortunadas gastam mais tempo navegando (ou mandando mensagens).

Assim, entre os países estudados, o Japão é o campeão de desinteresse pelo celular. Durante um dia, os japoneses passam apenas 1h e 54min de olho grudado na tela.

Na Europa, há boas diferenças entre países. Os alemães se limitam a 2h 29min por dia, enquanto os portugueses, campeões do continente, gastam 3h 41min do dia na tela.

Os americanos, os chineses e os russos, pouco mais ou menos, estão na mesma faixa, entre 3h 16min e 3h 40min.

Já na América Latina a atração exercida pela telinha parece ser mais forte. Argentina, México, Colômbia e Chile dedicam mais de 4h 30min diárias ao exercício.

E assim chegamos aos campeões do mundo, os povos que, em média, passam mais de 5 horas por dia grudados no celular. Estão no mesmo patamar o Brasil, a África do Sul e as Filipinas. Os três aparecem praticamente empatados, com um score entre 5h 31min e 5h 13min. Alguns diriam que é um verdadeiro despropósito.

Lanço ao ar a dúvida que me assalta.

  • Será que a produtividade nacional é menor por causa do tempo que a populaçâo gasta grudada no telefone?
  • Ou, ao contrário, será que é justamente por falta do que fazer é que a população passa tanto tempo admirando a tela?

Em suma, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Isenção fiscal

José Horta Manzano

Em princípio, todos os cidadãos de um país estão sujeitos a tributação sobre a renda que recebem. Em termos claros, o imposto é para todos. Afinal, essa é a base da sociedade tal como a conhecemos: para financiar a máquina, cada um dá contribuição à sua medida.

Gostar de pagar imposto, ninguém gosta; mas não tem jeito porque é assim que a sociedade funciona. Quem ganhou mais dá mais, quem ganhou menos contribui com menos. Só quem não paga são aqueles cuja renda não atingiu o piso estabelecido.

Todos os cidadãos são iguais. No entanto, confesso que não me lembrava que, no Brasil, em matéria fiscal, alguns cidadãos são mais iguais que outros. Tinha passado fora de de meu radar o fato de “lideranças religiosas” estarem isentas de dar contribuição à bacia comum.

Gostaria de conhecer a justificativa para isso. O que é que faz dessas “lideranças” seres especiais? Serão indivíduos depenados e situados abaixo da linha de pobreza? Sinceramente, não vejo por que razão esses cidadãos têm o direito de usufruir da estrutura financiada pelo Estado, sem ter de dar sua contribuição pessoal.

As Forças Armadas, as polícias, o SUS, as estradas, o sistema escolar nacional, a Embrapa, o IBGE, as agências reguladoras, a rede diplomática e consular – são poucos exemplos das centenas de entidades e instituições financiadas com dinheiro público. Quem dá às “lideranças religiosas” o direito de se aproveitar dessa estrutura sem ter de pagar?

No país em que vivo, a Suíça, todos os cidadãos são taxados sobre seus ganhos. Como é compreensível, há uma classe de pessoas que não atinge o piso e, assim, está isenta de impostos. Fora isso, os outros(*) contribuem sobre a totalidade de seus ganhos, o que me parece justo e normal. O presidente do país está sujeito à mesma regra que o mais humilde dos cidadãos. Diferentemente do Brasil, “lideranças religiosas” (padre, pastor, rabino, imame, pai de santo) pagam imposto de renda como qualquer outro habitante. Ninguém tem nem ao menos parte de seu salário “isenta de impostos”.

Não sei se o Lula, que mexe em vespeiro ao pôr ordem na fiscalidade do país, vai aguentar o tranco. Tem gente muito influente por detrás dessa aberrante isenção concedida às “lideranças religiosas”.

Esperemos que o presidente segure essa e dê um tranco nessa gente folgada. Nos tempos de antigamente, se não houvesse senhoras na sala, a gente dizia que quem quer moleza come… aquilo que vocês estão pensando.

(*) Há na Suíça entre 4000 e 5000 multimilionários estrangeiros enquadrados num regime especial em que a taxação é baseada nas despesas e no valor imobiliário. São condições reservadas a estrangeiros endinheirados que adotam residência na Suíça. Essas pessoas, que só recebem ganhos do exterior, também pagam imposto, só que ele é calculado sobre outras bases que as dos demais cidadãos. É um privilégio concedido a fortes contribuintes, que interessam ao fisco nacional.

Recadinho a Sua Excelência

José Horta Manzano

Prezado Ministro,

Vossa Excelência, ministro Gilmar Mendes, é graduado em Direito pela Universidade de Brasília, além de mestre e doutor pela Universidade de Münster, na Alemanha. Adicione-se a isso a prática adquirida em 35 anos de atividade, dos quais 20 como ministro do STF. Parabéns por ser um dos sobreviventes do tempo em que se escolhia um ministro do STF por seu notório saber jurídico.

Sua tendência a dar pronunciamentos e conceder entrevistas aqui e ali fazem parte do jogo – é assim que arde a fogueira das vaidades. Cidadãos mais recatados podem até se avexar com tal comportamento. Porém, no fundo, que fazer? Na Igreja, é pecado, mas no século passa batido.

Contudo (reparou que tem sempre um mas, um porém, um todavia, um contudo para atrapalhar?). Uma coisa é afagar o próprio ego; outra, bem diferente, é pronunciar-se fora dos autos. Até réu primário, como se vê em filme policial, sabe disso: “só falo na presença de meu advogado”. É que ele entende que palavra lançada ao ar é irrecuperável, não há como voltar atrás. Antes de abrir a boca, máxima prudência é exigida de todo cidadão, em qualquer circunstância.

Contudo, dizia eu, apesar de sua vasta bagagem jurídica, Vossa Excelência declara em praça pública ter convicção formada sobre a culpabilidade de um réu que, muito provavelmente, virá um dia a ser julgado no STF. Isso é um contrassenso. Sergio Moro, ex-Lava a Jato, caiu em desgraça, entre outras escorregadas, por não ter sido imparcial. Vossa Excelência está entrando pelo mesmo túnel. Como vai sair dele?

Um juiz que dá seu parecer antes mesmo do início do processo não está apto a julgar. Se o caso subir até o STF, Vossa Excelência terá de se declarar impedido. Se não se declarar, como é que fica? Teremos de conviver com um Supremo avacalhado, uma casa em que juízes julgam por antecipação, como os esbirros de Putin?

Permita-me a impertinência, ministro. Ouso dizer-lhe que um pouco de recato lhe faria bem. E ao Brasil também.

Saudações de ano novo!

Bolsonaro em Buenos Aires

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José Horta Manzano

Gosto de observar fotografias e tirar minhas conclusões que, se não representam a verdade verdadeira, pelo menos são a verdade como eu a sinto.

Esta de hoje mostra os 34 egrégios personagens que compunham a delegação bolsonarista que viajou a Buenos Aires para espairecer e, ao mesmo tempo, prestigiar a tomada de posse de Javier Milei.

Tomei nota de alguns detalhes interessantes. Vamos lá.

  • A cor azul domina incontestavelmente. Se meus cansados olhos não me enganam, todos o homens vestem camisa azul, com a exceção de um senhor de óculos escuros cuja camisa é de um verde desbotado.
  • Na fila da frente, os figurantes parecem estar cobrindo o goleiro na hora do tiro livre direto. Todos lembraram de cruzar as mãos para proteger as devidas partes, menos um distraído. Cuidado! Pode ser jogador infiltrado do time adversário.
  • Num incompreensível privilégio hierárquico, paletó foi exigido de todos, menos dos caciques: Bolsonaro, Tarcísio e Costa Neto.
  • Osmar Terra (que alguns insistem em chamar “Osmar Trevas”) não tinha levado paletó. Correu apanhar a jaqueta. Não ficou muito chique, mas quebrou um galho.
  • Como sói acontecer em toda foto de grupo, teve um que saiu com meia cara. Teve também um baixinho que, esquecido lá no fundo ao lado de altões, teve de ficar na ponta dos pés.
  • Houve também um participante assaz original, que se apresentou ao lambe-lambe ostentando no cocuruto um discreto chapelão de aba larga, cor negro-graúna. Pra mostrar que não está brincando e quer realmente se destacar dos demais, vestiu uma gravata amarelo canário. O modelito ficou superelegante.
  • Dos 34 figurantes, 31 são do sexo masculino. Para demonstrar que os bolsonaristas não padecem de misoginia, 3 mocinhas foram incluídas no grupo, tímidas, recatadas, esquecidas num segundo plano de onde foram obrigadas a entortar a cabeça pra aparecer no retrato. Quem encontrar as três em menos de três minutos ganha um pedaço de pizza fria pra comer de pé na calçada.

Sem dúvida, o grupo é bolsonarista da gema.

Aproveito esta oportunidade para avisar que vou dar uns dias de descanso a meus distintos leitores. Desejo a todos um feliz Natal, boa passagem de ano e um 2024 com muita saúde e sossego. No finalzinho do ano, interrompo o recesso para publicar meu artigo que sai no Correio Braziliense. Até lá!

Farol da Humanidade

José Horta Manzano

O Lula dá sinais de ter desistido de lutar pra alcançar o almejado posto de “Farol da Humanidade”.

Nos primeiros dois mandatos, seu ego foi acariciado pela boa sorte. Os tempos eram outros, sem Trump, sem um Putin belicoso, sem Xi Jinping. Nem Bolsonaro havia ainda posto as manguinhas de fora. Na política interna, o “terrível” adversário era o suave FHC e seu partido.

Marinheiro de primeira viagem, Luiz Inácio navegou então por águas mansas, com céu de brigadeiro e golfinhos brincando a bombordo e estibordo.

Em 2009, um Obama efusivo apresentou Lula aos presidentes do G20 com um “This is my man, right here! I love this guy.” (Este é o homem, bem aqui! Adoro esse cara.). E acrescentou que Luiz Inácio era “the most popular politician on Earth” (o político mais popular da face da Terra).

Lula deve ter acreditado em cada sílaba. Tanto que, inchado, assumiu o papel de Paladino da Paz e da Justiça. Meteu-se de cabeça no jogo internacional. Aventurou-se até no insolúvel conflito palestino certo de que, com uma partida de futebol, apaziguaria os dois povos. Como se sabe hoje, sua intervenção não foi bem sucedida.

Em versão 3.0, o Lula internacional anda mais travado. Bem que ele tentou, mas falta gás. No espocar da mortífera invasão da Ucrânia pelas tropas russas, deu uma de Salomão: culpou os dois lados igualmente. Levou silenciosa vaia internacional. Na guerra entre Israel e o Hamas, tentou opinar, mas já andava sem ânimo pra essas coisas. Seus vagos pronunciamentos tiveram o condão de irritar ambos os lados do conflito.

Agora, parece ter desistido de vez. Nas últimas ocasiões em que teria podido dar diretivas à humanidade, subtraiu-se. Quando o venezuelano Maduro e seu par, o presidente da Guiana, anunciaram reunião numa ilha caribenha, não quis conduzir os trabalhos. Em seu lugar, mandou Amorim, “assessor especial”.

Outra ocasião foi quando Zelenski, presidente da Ucrânia, a caminho da Argentina para a posse de Milei, teve de pousar em Brasília para reabastecimento. Apesar do convite do ucraniano, Lula preferiu declinar de encontrar-se com ele.

Será por cansaço devido aos anos vividos? Será para não se expor ao risco de novos fracassos? Ele é quem sabe a razão, mas tudo indica que já não se empenhará para tornar-se o Pacificador das Gentes.

Se isso significa que vai dedicar mais tempo e esforço para enfrentar nossos problemas internos, aplaudiremos de pé.

Imagem roubada

José Horta Manzano

Uma imagem roubada da tela do celular do senador Sergio Moro foi estampada na manchete de toda a mídia. A foto, tirada durante a sabatina de Flávio Dino, eterniza uma conversa entre Moro e um correpondente misterioso identificado como “Mestrão”. (De lá pra cá, já foi identificado, mas não vem ao caso.)

Moro acabava de dar um abraço em Dino diante das câmeras que transmitiam ao vivo. Logo depois, “Mestrão” envia mensagem a Moro para prevenir que “o coro está comendo nas redes” e que não convém publicar declaração de voto a favor do sabatinado, sob pena de espichar o assunto e perder o controle da situação. Foi nessa altura que a foto foi tirada.

Os dois devem se conhecer bem, dado que “Mestrão” chama o senador pelo prenome e o trata por ‘você’. Um detalhe: “Mestrão” põe vírgula depois do vocativo, mostrando que pelo menos completou o ensino médio.

Dia seguinte, diversos articulistas da grande mídia comentaram o ocorrido. “Quem será o Mestrão?” – indaga um deles. “Veja só, o que as redes mandam, Moro faz” – se surpreende um outro. O que cresceu foi a fofoca. Me lembrou os mexericos da Candinha.

Não me lembro de ter visto nenhum articulista preocupado com a licitude da imagem. Tirar uma foto por cima dos ombros de alguém, captar um trecho de conversação particular e espalhar a imagem me parece configurar um ilícito. No mínimo, é violação de correspondência. É como abrir (e ler) a carta do vizinho. (Hoje já ninguém manda carta, mas o princípio continua de pé.)

Quem agiu assim fez exatamente o que se acusa Moro de ter feito: escarafunchar a intimidade de seus investigados para melhor acusá-los.

Não sou fã de Sergio Moro, personagem pouco recomendável a meu ver. Mas uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

Neste caso, é outra coisa.

Lula e a Instrução Pública

José Horta Manzano

Faz poucos dias, Lula foi o participante de honra da cerimônia de credenciamento do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Na ocasião, o instituto foi promovido a “instituição de ensino superior” – como se fosse indispensável organizar esse tipo de cerimônia para elevar o Impa ao patamar em que qualquer faculdade de beira de estrada está. Só o nome do instituto já informa que, em matéria de estudo, lá não se brinca.

Luiz Inácio, que deve ter ouvido falar do papelão que o Brasil continua a fazer na classificação Pisa (e que se repete a cada ano), resolveu ralhar. (Não sei se esse verbo ainda é conhecido ou se já foi para o arquivo morto.) Ralhar é sinônimo de “passar um pito”, embora com sentido mais intenso. Dizer que “o professor ralhou comigo” significava contar que o mestre tinha me dado “um esculacho” (expressão que, acredito, esteja ainda em uso).

Luiz Inácio, portanto, resolveu dar um esculacho. Não na Matemática, que não ia ficar bem. Preferiu desancar os cursos de Direito assim como os formados nesses cursos. Apoiado em estatísticas (o que mostra que a fala não foi de improviso, mas estava já programada), colocou o Brasil entre os países que mais formam advogados. Disse que nem juntando todos os advogados da China e da Índia, países de volumosa população, se chega ao número de advogados brasileiros.

Parece inadequado um presidente falar mal de um ramo de estudos diante de uma plateia composta por gente de outro ramo. Não é pecado o que ele fez, mas ficou esquisito. Tem até gente achando que nosso presidente é fofoqueiro. Não é minha opinião.

Talvez para suavizar a relhada, Lula acrescentou: “Nada contra formar advogados. Mas é preciso que a gente forme mais em matemática, engenharia, física”. Mais adiante, com a voz trêmula e uma lágrima querendo apontar no canto do olho, Luiz Inácio não resistiu à tentação do autoelogio e lembrou ao distinto público que foi durante seus mandatos que o Brasil “construiu o maior número de universidades da História”.

Eu disse “autoelogio”? Deveria ter acrescentado “o que Lula acha que é autoelogio”. Luiz Inácio, que sofre de um (pequeno) complexo de sem-diploma, não costuma perder ocasião para ressaltar que saiu do nada e, sem ter feito estudos formais, chegou à Presidência – o que lhe parece motivo de orgulho. Talvez para compensar essa falta de estudo, Lula se empenhou, sobretudo no primeiro e no segundo mandatos, na criação de faculdades de ensino.

Faculdade pública, por oferecer ensino gratuito, atrai muitos alunos. Os cursos de Direito, que têm fama de serem menos puxados que os demais, atraem mais gente ainda. Dado que não existe um controle nacional do tipo “numerus clausus”, para limitar o acesso a carreiras já superconcorridas, as escolas de Direito formam, sim, muitos bacharéis. Como prova de que a maioria não alcança o nível de conhecimentos que se espera de um futuro advogado, sabe-se que nove entre dez formados são reprovados no exame da Ordem.

Há advogados demais no país? Não sei, é possível. Se já há quem reclame agora, fico a imaginar como seria o quadro sem o exame da Ordem. Sem exame, o número de profissionais seria multiplicado por dez.

Lula está terminando seu nono ano como presidente do Brasil. Nove anos é muita coisa. De 1889 pra cá, só o ditador Vargas conseguiu ficar tanto tempo assim no topo. Com essa bagagem toda, é surpreendente que Luiz Inácio não tenha entendido que o problema maior da Instrução Pública no Brasil não se encontra no ensino superior.

O nó que impede os brasileirinhos de avançar é o baixo nível da escolaridade obrigatória. Podem-se abrir dúzias e dúzias de institutos de Matemática que não vai adiantar. Enquanto o estudo Pisa continuar jogando na nossa cara que, em Matemática, nosso país foi classificado em 59° lugar entre 73 pesquisados, raros serão os jovens a desenvolver gosto por essa ciência.

É verdade que, ao se autoagradar lembrando que foi o presidente que mais criou faculdades no Brasil, Lula tem certeza de que a História lhe reservará um lugar especial.

E a avaliação Pisa, Lula? Pfff, isso não conta! É coisa de países ricos que tentam nos rebaixar e humilhar! Vamos continuar abrindo faculdades!

Repeteco

2010 – Dona Marisa recebe a Ordem de Rio Branco das mãos do marido

José Horta Manzano

Luiz Inácio aprecia honrarias. Títulos de doutor “honoris causa” e condecorações estrangeiras, tem aos montes. Quando pode, estende também aos parentes as honras que recebe.

Todos ainda devem se lembrar que, em 31 de dezembro de 2010, último dia de seu segundo mandato, distribuiu passaporte diplomático a todos os membros de sua família – esposa, filhos e agregados. No dia seguinte, quando já não era presidente, criou uma situação de absoluta excepcionalidade: foi passar férias com a família no Forte Militar dos Andradas, litoral de São Paulo, à nossa custa. Ficou por isso mesmo. (Depois a gente reclama do Bolsonaro.)

Naquele mesmo 2010, aproveitando sua staliniana cota de popularidade, que roçava então os 80% de aprovação, fez uma bufonaria. Concedeu a Ordem de Rio Branco, mais alta honraria do Itamaraty, a Dona Marisa, sua esposa. E não deixou por menos: outorgou-lhe a ordem no mais alto grau, o de Grã-Cruz. A faixa com a medalha foi entregue pessoalmente por Lula em cerimônia oficial.

A imprensa se encarregou de difundir a notícia, que rodou o país e causou espanto. Proibido não é, mas é chocante por contrariar a ética e o decoro presidencial.

21 Nov 2023 – Chamada da Folha de São Paulo

O tempo passou. Ontem, 13 anos depois da jactância de 2010, Lula reincidiu. Enviuvado e recasado, concedeu à atual esposa a mesma honraria com que tinha mimado dona Marisa. Janja da Silva acaba de ser agraciada com a Ordem de Rio Branco, no grau Grã-Cruz. Só que desta vez, pra fugir a eventuais reprimendas, Lula preferiu fazer a entrega numa cerimônia discreta, privada, sem imagens. Nem mesmo as fotos do Ricardo “Stuquinha” Stucker, fotógrafo pessoal do presidente, circularam.

Lula é malandro. Não corrigiu a agressão à ética, mas aprendeu a camuflá-la. Numa época em que tudo passa pelas redes sociais, imagem é crucial. Sem imagem, não há notícia. Ninguém mais lê informação de texto. Se a Globo não der (e como vai dar notícia sem imagem?), ninguém vai ficar sabendo.

Assim, fica o dito pelo não dito. E estamos entendidos.

Espírito universalista

José Horta Manzano

O universalismo é conceito básico de todas as correntes de pensamento socialistas, comunistas e social-democratas.


Proletarier aller Länder, vereinigt euch!
Proletários de todos os países, uni-vos!


O manifesto lançado, século e meio atrás, pelo alemão Karl Marx não conclamava os proletários alemães a se unirem. Nem mesmo os colegas europeus. Seu chamado se dirigia aos proletários de todos os países, sem exceção.

Luiz Inácio só abraçou a doutrina com meio braço. Seu espírito universalista não é amplo nem irrestrito. Está inquieto apenas pelos reféns latino-americanos. Os demais? Que se lixem!

Num surto de deslumbramento, Lula fala com o presidente de Israel como se tivesse recebido mandato dos países latino-americanos para defender seus interesses. Dado que não recebeu procuração nenhuma, soa esquisito. Dá impressão de uma forçada de barra pra se autoeleger líder regional na marra.

De outra vez, nosso presidente deve mostrar interesse por todos os reféns, sem excluir os “louros de olhos azuis”. Todos os sequestrados caíram na mesma arapuca e merecem benevolência planetária, pouco importando a cor dos olhos ou do passaporte.

Se Luiz Inácio for incapaz de alargar seu horizonte, será melhor não tocar no assunto. Melhor ainda, será falar com quem manda. Em Israel, o presidente é figura decorativa. Netanyahu, o primeiro-ministro, é quem dá as ordens.

Parece que Lula só divulgou o telefonema pra sair no jornal.

Bom-dia a cavalo

by Gerson Kauer, desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Quem fala demais dá bom-dia a cavalo. Doutor Flávio Dino, nosso ministro da Justiça (e candidato ao STF), é homem sem dúvida inteligente. Inteligente e instruído, conjunção de qualidades raras no mundo político brasileiro atual. Mas ninguém é perfeito. Apesar das qualidades, o doutor tem um defeito: padece de uma compulsão irrefreável a manifestar sua opinião em qualquer ocasião.

A personalidade de nosso atual ministro da Justiça o leva a sentir-se obrigado a mostrar que sabe tudo, que tem resposta a tudo, em todas as ocasiões, seja qual for o assunto. Deve parecer-lhe inconcebível permitir que outra pessoa possa dar um fecho a qualquer conversa – a palavra final tem de ser dele. Essa compulsão, inofensiva e compreensível quando o ministro tem de fato opinião formada, torna-se perigosa quando ele não domina o tema.

Recentemente, o doutor andou dando bom-dia a cavalo. Distraído, esqueceu que é ministro da Justiça e decidiu comentar um vídeo meio besta que circulou pelas redes, no qual uma portuguesa insultava uma brasileira, em Portugal, e a mandava voltar para o Brasil. Coisa de gente malcriada.

Pois doutor Dino não se segurou. Passou por cima do fato de a senhora portuguesa se encontrar em estado visivelmente alterado – não se sabe se temporaria ou permanentemente. Num erro de apreciação indigno de um ministro de Estado, tomou as palavras daquela senhora como se representassem o clamor da totalidade do povo português. E fez questão de dar resposta.

Em vez de ficar quieto ou mandá-la catar coquinho, declarou que concordaria com o banimento dos brasileiros que vivem em Portugal desde que os portugueses “devolvessem o ouro que levaram de Minas Gerais”. Nessa altura, o doutor não só deu bom-dia ao quadrúpede, mas já estava batendo papo com o dito cujo.

Em primeiro lugar, fica muito feio um ministro imprudente se meter em briga de rede social. E se o bate-boca entre as duas mulheres não passasse de mise en scène, de gozação para ganhar likes? Quem é que ia passar carão, hein? Imprudência…

Além disso, o doutor deu flagrante mostra de não ter retido as aulas de História do Brasil recebidas de dona Leocádia. Na época da exploração do ouro das Gerais (século 18, anos 1700), nosso país ainda não tinha existência independente. As terras onde hoje vivemos eram as possessões portuguesas da América. Portanto, a corrida do ouro se deu em terras lusas. O “roubo” não foi roubo. Quem rouba o que já lhe pertence, a Deus convence.

Não se pode acusar os portugueses de terem levado “nosso” ouro. Não faz sentido. Quem diz isso se esquece de que seus antepassados talvez nem tivessem ainda emigrado para estas terras. Ou, quem sabe até, seus ancestrais eram os próprios portugueses que viviam na colônia. Não é impossível que o doutor seja descendente dos “ladrões” do ouro.

Só se pode falar de “nosso ouro” ou de “nossa terra” a partir da Independência, quando o Brasil passou a ter existência reconhecida pelo resto do mundo. Antes, isto aqui não passava de uma extensão de Portugal.

A meu ver, doutor Dino escorregou duas vezes. Quando se meteu em briga alheia e tomou a ofensa malcriada como se emanasse do povo português inteiro. E resvalou de novo ao considerar que o Brasil já existisse como terra independente um século antes do Grito do Ipiranga.

O discurso é prata, o silêncio é ouro. Se não… bom dia, senhor cavalo!

Le rouge et le noir

O Capital, de Karl Marx
1a. edição – 1867

José Horta Manzano

Contava-se esta historinha nos tempos da censura que nossa ditadura militar nos impôs.

Um sargento é encarregado de vasculhar um centro estudantil e de recolher todo material subversivo. Chegando lá, deu uma olhada na estante dos livros, leu o título de cada um e estancou diante de um exemplar de “Le rouge et le noir”(*), romance do francês Stendhal, publicado em 1830.

Naquela época, diferentemente de hoje, todo cidadão com ginásio completo (escola média) tinha noções básicas de língua francesa. O sargento arregalou os olhos ao ver o livro que ostentava um título ousado. “Como é que é?”, pensou ele, “Vermelho? Só pode ser comunista.” E apreendeu o volume.

Lembrei da historieta ao ler a notícia de que a Secretaria da Educação de Santa Catarina, sem expor seus motivos, mandou recolher uma dezena de títulos das bibliotecas de escolas públicas de todo o estado. A lista das obras é tão heterogênea que parece rol de lavadeira: cuecas, cachecóis e camisas sociais, tudo se mistura lá dentro.

Entre os livros banidos há um best-seller assim como um clássico como Laranja Mecânica. Lá estão também quatro obras que, desconfio, entraram no rol por causa do título (ao estilo de Le Rouge et le Noir): Coração Satânico, Demonologistas – arquivos sobrenaturais, Exorcismo, O Diário do Diabo.

Fica a impressão de que essa proibição foi apenas balão de ensaio. Pela (falta de) lógica da amostragem, a lista integral almejada pelo governo catarinense deve ser quilométrica, capaz de esvaziar todas as bibliotecas escolares do estado.

Criar um index – um repositório de obras banidas – é ideia tão velha quanto a invenção da imprensa. Aliás, é até anterior: na Idade Média, livros manuscritos já eram condenados ao Index Librorum Prohibitorum, o elenco das obras proibidas. É que, naquele tempo, quem mandava era a Igreja. Hoje não é mais assim, mas tem gente que não foi avisada.

Nesse sentido, o governo de SC não está inventando a pólvora. Inventando, não está, mas está acendendo o estopim, manobra arriscada.

Toda proibição de obra literária é sintoma palpável de que a sociedade está descambando para o autoritarismo, ladeira traiçoeira que se desce fácil mas que dificilmente se sobe sem ajuda externa.

Povo atento e escolado, os catarinenses deveriam dar um basta curto e grosso a essa operação de solapamento da formação do espírito crítico da juventude. Que os jovens leitores sejam alertados para trechos obscuros de determinadas obras é boa decisão. Que eles sejam orientados para entender certos livros e analisá-los no contexto da época em que foram escritos é procedimento excelente. Agora, simplesmente esconder textos, como se esconde o pote de geleia dos guris menorzinhos, é medida contraproducente.

Os primeiros autos de fé promovidos pelo regime nazista na Alemanha tiveram lugar já em 1933. Todos sabem como terminou a aventura. Não convém seguir o mesmo caminho.

Um espirituoso poderia até argumentar que, finalmente, chegou o incentivo que faltava para fazer a criançada voltar a ler. De fato, tudo o que é proibido é mais saboroso…

Temos que abrir o olho, que com essas coisas não se deve brincar. Essa moda que começou banindo palavras do dicionário e agora se dedica a banir livros da biblioteca é perigosa. Não leva a bom porto.

(*) Stendhal nunca revelou a razão do título “Le rouge et le noir”. Muitas conjecturas já se fizeram. A mais aceita é a de que o vermelho simboliza o exército, enquanto o preto representa o clero.

Toda alusão ao comunismo que pudesse ser imputada a Stendhal seria anacrônica. De fato, quando Karl Marx publicou o primeiro volume de sua obra maior, “O Capital”, já fazia vinte e cinco anos que Stendhal havia falecido.

Smog in Manaus

José Horta Manzano

Às vezes, o governo brasileiro parece considerar que os “louros de olhos azuis” (= estrangeiros de países adiantados) são todos meio abobados. Ou meio tantãs, como se costumava dizer nos tempos de antigamente.

Nossos burocratas esfregam estatísticas no olho de jornalistas internacionais com números impactantes de queda do desmate da Amazônia. Proclamam que nunca antes “nesse paiz” se desflorestou tão pouco. Garantem que, no próximo par de anos, mais nenhuma árvore cairá e nenhum bicho-preguiça morrerá queimado.

De repente, a natureza resolve atrapalhar a mise en scène. A chuva pára. Sem água, as queimadas se tornam mais evidentes e, imperiais, encobrem o sol e fazem do dia, noite. De repente, um fotógrafo indiscreto bate uma chapa como esta aqui abaixo.

Smog em Manaus

Catapimba, o mundo caiu! Mas o mal está feito. A foto aparece em toda a mídia do planeta. Como se sabe, uma imagem vale mil palavras. O blá-blá-blá oficial vai pro ralo. O que fica é a prova de que a situação está cada dia pior.

E os de olhos azuis continuam a se perguntar como é possível que o governo de um país tão importante não consiga fazer cumprir a lei em seu próprio território. Se o desmate está proibido, por que é que os fora da lei continuam a agir impunes?

São mistérios tropicais, insondáveis para não iniciados.

O combate às milícias

José Horta Manzano

Não sou grande conhecedor do mundo das milícias. Pelo que tenho lido, são organizações paramilitares especializadas em negócios escusos, como por exemplo achaque à população civil a fim de extorquir dinheiro de cidadãos indefesos, extorsão feita sob ameaça de retaliações. Entendo também que são muitos e que estão especialmente presentes na cidade e no estado do Rio de Janeiro.

Às vezes chego a acreditar que jornalistas também possam estar enfronhados nesses assuntos, tal é a familiaridade com que falam do “Abelha”, do “Zinho”, do “Faustão” e de outros milicianos de alto coturno. Como é que se faz pra conhecer o nome dos integrantes de um bando de elementos fora da lei?

Há suspeitas de que nosso ex-presidente Bolsonaro e seus filhos tenham ligações bastante chegadas com milicianos. Nada foi ainda provado, mas a desconfiança permanece. Talvez nunca se venha a saber. Quando figurões estão envolvidos, mais vale uma bela mentira que a feia verdade.

Há mais do que suspeitas da existência de ligações promíscuas entre milicianos, políticos e até militares.Testemunhos reforçam essas conexões. Volta e meia, os próprios fatos se encarregam de corroborar esse convívio – contra a natureza, diga-se – entre delinquentes e os que, em tese, deveriam dar-lhes voz de prisão.

Estes dias, após o assassinato pela milícia de um grupo de médicos que visitavam o Rio para um congresso profissional, a população sentiu o tranco. Enquanto as vítimas são pobretões de quem se extorque uma “comissão” pelo direito de usar água ou eletricidade, a boa sociedade olha para o outro lado e faz que não viu. No dia em que quatro doutores são abatidos com rajadas de metralhadora na porta de um hotel estrelado, a coisa muda.

O governo Lula estuda enviar a tropa para “erradicar” milicianos da paisagem carioca. É permitido, desde já, apostar todas as fichas no fracasso da missão. Não faz sentido.

Em primeiro lugar, tropa não é polícia. Militares são formados para defender nossas fronteiras e para operar na selva, longe do habitado. Resolver crises urbanas não é especialidade deles.

Em segundo lugar, até os mosaicos de pedra portuguesa de Copacabana sabem que será impossível “erradicar” as milícias enquanto elas estiverem contaminadas (e protegidas) por políticos politiqueiros e policiais indignos do uniforme que vestem.

O melhor caminho para a erradicação de grupos milicianos começa pelo combate à promiscuidade que os envolve com políticos de baixa extração e policiais sem caráter. É menos vistoso e bem mais complicado que mandar recrutas, mas é esse o caminho. Sem isso, o envio da tropa será apenas inócua ação de fachada para impressionar a galeria.

Uma rara história feliz

José Horta Manzano

A mídia nacional não deu grande importância à história que vou contar. Pode ser que o preconceito tenha atrapalhado, não sei. Encontrei o relato em numerosos veículos estrangeiros, todos baseados num despacho da AFP – Agência Francesa de Notícias.

É a história de Dyhan Cardoso, 19 anos, preto e pobre. O jovem vive com os pais e uma irmã em Aglomerado da Serra, uma das maiores favelas de Belo Horizonte. Desde criancinha, inexplicavelmente, se encantou pela dança clássica. É verdade que favelado e bailarino clássico são termos que não costumam aparecer juntos.

Conseguiu uma bolsa e se inscreveu numa escola de balé. Enfrentou preconceito. “Nas aulas, sempre fui o único menino, o único preto e o único pobre. Confortável não era, mas eu não ligava” – foi o que declarou o jovem. É preciso muita coragem e determinação para enfrentar tal situação, especialmente quando se é adolescente.

Dyhan nunca se deixou desanimar. Nem piadas maliciosas, nem associações de dança com “as elites” conseguiram abalá-lo. “Se você tem um sonho, tem que ir atrás e conquistá-lo”, é o que afirma.

A escola de dança fica situada “na parte rica” da cidade. O rapaz conseguiu ser admitido por intermediação de uma cliente do restaurante onde sua mãe é cozinheira.

Mês passado, Dyhan se apresentou para um teste de dança em BH. Sua intenção era só ficar sabendo quais eram seus defeitos e como devia se exercitar para evoluir. A vida lhe reservava uma surpresa.

“Será que estou sonhando?”, foi sua reação ao ouvir a tradução dos elogios feitos a ele, em inglês, por um senhor estrangeiro. Seu físico esguio e privilegiado lhe permite fazer passos muito difíceis com qualidade e beleza estética fora do comum.

Menos de um mês depois, veio o convite. A companhia americana Atlanta Ballet, do estado da Geórgia (EUA), fez uma proposta a Dyhan para integrar seu corpo de bailarinos.

Ele partiu outro dia para os Estados Unidos. Foi com os olhos cheios de estrelas e, no bolso, uma passagem de ida simples, sem data para voltar.

Entrevista de 2 min. concedida pelo jovem bailarino à AFP.

No topo do mundo

O Globo online, 20 out° 2023

José Horta Manzano

Quando li o título da chamada, quase caí da cadeira. Com que então, 1.300 brasileiros estão entre os melhores pesquisadores do mundo? Que notícia estupenda! Nossos complexos de inferioridade logo estarão redimidos.

No entanto, uma curiosidade me fazia cosquinhas: quantos pesquisadores aparecem na lista geral? No finzinho do artigo, vem a resposta.

A lista integral contém exatamente 210.198 cientistas. Fazendo as continhas, os 1.297 brasileiros representam uma porcentagem magrinha: são apenas 0,6% do total.

Ainda não chegou a hora de estourar champanhe.

Carro elétrico

José Horta Manzano

Em 2019, quando Romeu Zema (governador de Minas Gerais) concedeu a cidadania honorária do estado a Jair Bolsonaro, o governo do capitão estava apenas começando. Ainda não se falava em covid, nem em cloroquina, nem em jet ski, nem em pizza na calçada. Era admissível que alguns cidadãos ainda tivessem esperança de ter um governo decente.

Em 2023, encerrada a era bolsonárica, as ilusões já haviam morrido. Não era mais permitido dar ao capitão o benefício da dúvida, porque dúvida já não havia: seu governo havia sido calamitoso.

Senhor Zema, reeleito governador das Gerais em 2022, não precisava dar vexame, mas deu. Com a cumplicidade da Assembleia Legislativa, organizou uma festa em homenagem ao cidadão honorário. Em agosto passado (dois meses atrás), recebeu Bolsonaro com pompa e entregou-lhe o diploma. Não era obrigado a fazê-lo. Podia ter deixado o título honorífico continuar dormindo na gaveta do esquecimento. Se levou o caso até o fim, foi porque quis.

Vê-se que, para Romeu Zema, o 8 de Janeiro, as joias contrabandeadas, a minuta do golpe, a fuga para Orlando, o escândalo da covid, as vacinas sonegadas, a propaganda de remédios falsos, as bíblias negociadas contra barras de ouro – tudo isso não foi suficiente para mudar sua ideia. Para ele, Jair Bolsonaro continua merecedor da honra de ser declarado mineiro.

De um homem com essa mentalidade, pode-se esperar tudo. Até essa barbaridade que aparece no recorte acima.

Assim como a mentalidade estreita de Bolsonaro via no confinamento da covid apenas uma ameaça à economia nacional, Zema vê no carro elétrico “uma ameaça aos nossos empregos”. Sua visão afunilada não consegue vislumbrar o futuro. Não deve estar a par da determinação de numerosos países de simplesmente proibir o emplacamento de veículos com motor a combustão a partir de 2025 ou 2030.

Se estivéssemos no fim do século XV, esse senhor estaria denunciando a perda de emprego dos copistas medievais suplantados pela imprensa de Johannes Gutenberg.

Mas deixe estar. Não será um sabujo qualquer que vai fazer o mundo parar de girar. Quer doutor Zema goste ou não, o futuro da indústria automobilística estende os braços aos veículos elétricos e a hidrogênio. E isso vai acontecer antes do que ele imagina.

Uns que vão, outros que vêm

Na volta ao solo pátrio, brasileiros em êxtase por terem escapado à morte.

 

José Horta Manzano

Milhares de cidadãos brasileiros se encontravam em solo israelense sábado passado, quando a investida sangrenta do Hamas começou. A grande maioria é constituída de binacionais. São pessoas que nasceram no Brasil e se transferiram a Israel, mas também indivíduos nascidos em Israel e que conservaram a nacionalidade herdada de pais brasileiros.

Além desses, havia algumas centenas de brasileiros de passagem. Uns estavam em peregrinação religiosa, outros a serviço ou em turismo padrão.

Os que estão sendo repatriados pela FAB pertencem a este segundo grupo: os de passagem, que não vivem em Israel.

A operação de repatriação não se destina a residentes naquele país. Além do mais, os que residem por lá não estão necessariamente interessados em abandonar o país e se refugiar no Brasil.

Ainda ontem, a revista Time publicava o seguinte relato:

“Nestes tempos angustiantes, alguns cidadãos israelenses que vivem no exterior não estão fugindo da guerra, mas para ela. De Atenas a Nova York, estão correndo para os aeroportos e entrando em grupos de bate-papo online atrás de ajuda, desesperados para chegar ao país após o ataque do Hamas.”

De fato, aeroportos fechados e voos cancelados afetam quem quer sair do país mas também quem quer entrar. Os israelenses, conscientes da fragilidade da pátria e condicionados desde a infância a defendê-la, não pensam em se refugiar no exterior numa hora grave como a atual.

A mesma ansiedade que aperta a garganta de turistas impossibilitados de sair, aperta a de cidadãos impossibilitados de voltar. Assim é a vida.

Vanitas

José Horta Manzano

“Esperteza, quando é muita, come o dono” é bordão atribuído a Tancredo Neves. O velho político mineiro tinha razão de sobra. Toda característica humana, pra ser útil ao dono, tem de ter medida. Qualidade em excesso, ainda que não chegue a “comer o dono”, acaba dando prejuízo a ele. Até traços de personalidade de menor potencial agressivo, quando são excessivos, deixam de ser qualidade para tornar-se defeito.

Penso nos desvairados que engrossaram aquela turba do 8 de Janeiro em Brasília. Como milhares de conterrâneos, assisti ao vivo àquela desmoralizante demonstração de primitivismo. Imantado, segui até o fim, até repórteres cederem lugar a comentaristas.

Vi aquele mundaréu de gente – quantos milhares?. Vi também uma fila de algemados sendo levados a algum centro de triagem. Pensei: “Com essa meia dúzia de policiais, nunca vão conseguir fichar toda a multidão!”. Depois fiquei sabendo que, assim mesmo, tinham conseguido pegar uns mil abilolados. Com o passar dos meses, a maioria foi liberada.

O que eu não imaginava é que, quase um ano mais tarde, ainda estariam buscando, encontrando e prendendo invasores. São pessoas que, embora tendo conseguido escapar ao flagrante no dia do golpe fracassado, deixaram todos os elementos de uma autoincriminação voluntária.

Estou falando das “selfies” que todos fizeram questão de fazer. Houve até quem tenha feito transmissão ao vivo sentado na poltrona de ministro do STF! No meu tempo, além de bandido, a gente diria “folgado”.

Ô gente de pouca inteligência! Depois de passar anos vivendo dentro de uma bolha e se informando por grupos de uótisápi, taí o resultado: acreditando na babozeira que circulava entre os devotos, estavam convencidos de ter vencido a parada. Pra você ver o mal que essa gente que vive à margem da sociedade real faz a si mesma. Acabam se tornando marginais, pessoas que vivem na marginalidade.

A característica que une todos esses que hoje continuam sendo colhidos pela PF – em casa, ao despertar – é uma só: o excesso de vaidade. A vaidade é característica de toda a humanidade. Quem é que não gosta de ver apreciadas suas qualidades e seus méritos? Em excesso, porém, é perdição.

Não fossem os “selfies” e as “laives”, os que não foram colhidos na rampa de saída no dia das invasões dificilmente seriam identificados e presos. Foram alcançados pela enorme vaidade e pela inacreditável bobeada.

Vaidade (do latim vanitas, vanitatis) é a qualidade do que é vazio, vão. Vão é um espaço onde não há nada. A vaidade é vazia e, como todo saco vazio, não pára em pé.

Ministra negra no STF

José Horta Manzano

Não sei a você, caro leitor, mas a mim, uma demanda do tipo “Queremos uma ministra negra no STF!” soa igualzinho à fala de um ex-presidente (de triste memória), que um dia se decidiu por um ministro “terrivelmente evangélico”. Cara dum, focinho do outro.

E olhe que não é difícil entender o que está em jogo. A Constituição reza que cada novo integrante do Supremo seja um(a) cidadão(ã) de ilibada reputação e notório saber jurídico. É simples, não?

A cor da pele, a origem étnica, o sexo, as convicções políticas, a fé religiosa não são critérios adequados para a escolha de magistrados do STF. Não se está a escolher um dirigente de torcida organizada.

Afinal, o cargo de ministro do Tribunal Maior não é (ou não deveria ser) um prêmio que se confere a um amigo. É encargo que se impõe a uma pessoa que, em princípio, passará o resto de sua vida profissional ajudando a segurar as rédeas da nação. Não é pra qualquer um.

Nunes, Mendonça e Zanin

José Horta Manzano

Vale a pena anotar como se comporta profissionalmente cada um dos três ministros do STF entronizados mais recentemente. Refiro-me a Nunes e Mendonça, nomeados por Bolsonaro, e a Zanin, nomeado por Lula.

Logo ao emitir seus primeiros votos, Zanin deixou a plateia de queixo caído. Seu posicionamento em matéria de entorpecentes, de homofobia e de furto famélico foi ducha fria para os ardores progressistas da militância lulopetista. Quem esperava dele um comportamento de ‘pasionaria’ deu com os burros n’água.

Já os indicados por Bolsonaro, que oficiam há mais tempo no STF, jamais surpreenderam ninguém. Desde o primeiro voto, posicionaram-se rigorosamente na linha de interesse daquele que os nomeou. Como cães de guarda, servem aos interesses do bolsonarismo.

Os votos de Mendonça e Nunes costumar divergir do voto dos colegas. Os dois não parecem se importar em se posicionar às vezes contra o bom senso. A obediência cega a um chefe destituído surge como objetivo obstinado, atitude que, no distinto público, levanta certa inquietação.

Cabe a curiosidade de saber por que razão, apesar de estarmos na era pós-bolsonárica, Mendonça e Nunes persistem na reverência ao antigo “chefe”. Será por convicção ou por outro motivo?

E Zanin, por que razão ousa se posicionar no campo oposto ao do cliente (Lula), que ele defendeu por tantos anos? Será por convicção ou por outro motivo?

Quanto a Zanin, me parece que ele aposentou a vida de advogado. Ela entrou no passado e a página está virada. Agora, abrigado sob o manto de magistrado, seus votos são ditados pela consciência, sem conexão sistemática com o ideário de antigos clientes. Daí a disparidade de vistas entre o velho lulismo e o nascente “zanismo”.

Quanto a Mendonça e Nunes, seus votos mostram persistente apego ao antigo chefe. É compreensível que, no geral, apoiem causas conservadoras, mas o julgamento dos atos do 8 de Janeiro é outra coisa. O que está em jogo estes dias não tem a ver com pautas de costumes, como homofobia, racismo ou aborto. Está-se avaliando a que ponto a depredação dos palácios do governo revelou-se parte de um amplo projeto de golpe de Estado – fracassado.

É perturbante a insistência com que Mendonça e Nunes tentam desconstruir a tese aceita por todos os outros ministros. Fica evidente que a tentativa de minimizar os acontecimentos e apresentá-los como um passeio dominical é uma estratégia para beneficiar o chefe que, mais dia menos dia, estará no banco dos réus pelo mesmo motivo.

Em resumo, a atitude dos que foram nomeados pelo capitão é a de quem deve favor a alguém mais importante. Agem como agiriam integrantes de uma estrutura mafiosa, baseada em fidelidade canina e submissão absoluta, regime no qual o menor sinal de infidelidade pode ser punido com rigor.

Ainda bem que são só dois.