Odette Roitmann

by Igor Dantas, desenhista mineiro

José Horta Manzano

As investigações em torno da quadrilha instalada no Planalto nos tempos do capitão estão apertando. A conspiração se desvenda cada dia um pouco mais e o nome dos bois começa a aparecer. A boiada começa a passar. Por ironia, tudo lembra muito o auge da Lava a Jato, quando as estrelas Moro e Dall’Agnol concentravam a luz dos holofotes e os criminosos, um a um, iam sendo mandados para a Papuda.

Quanto aos conchavos bolsonáricos, a história completa ainda está por ser escrita. Todo bom romance tem de ir até o fim – não termina enquanto a trama não estiver totalmente desenrolada. Em nosso atual “Quem matou Odette Roitmann”, não basta saber quem deu o tiro. Também tem de ficar claro quem comprou a arma, quem adiantou o dinheiro, quem pagou pela munição, quem carregou o revólver, quem catou o cartucho caído no chão, quem escondeu a arma depois de consumado o crime. Tudo tem de ser apurado, nenhum figurante deve escapar “duela a quién duela”, como disse uma vez o ilibado presidente Collor.

Nesta altura dos acontecimentos, ninguém está em condições de contar o drama de A a Z – com exceção dos personagens, evidentemente. Tenho lido numerosas análises da novela. Mas todas só vão até o capítulo atual, sem arriscar palpite sobre o que virá. Todas, não. Encontrei uma, uma apenas, que não só conta o fim de Odette Roitmann como também dá o nome do assassino e dos cúmplices.

Falo do artigo que o Estadão publicou ontem, assinado pela competente jornalista Eliane Cantanhêde. Com boa visão de conjunto e espírito de síntese, a autora dá sua visão do desenrolar do drama daqui para a frente. Vale a pena dar uma olhada.

Copiei e ponho aqui ao dispor dos corajosos leitores que preferiram abondonar o Bloco do Mamãe eu Quero para ler estas linhas. Fica aqui meu agradecimento.

Virada de Mesa.

Um reparo

José Horta Manzano

Faz mais de ano que jornalistas, analistas e comentaristas vêm falando em “tentativa de golpe” quando se referem à sequência de acontecimentos preparados durante o governo do capitão e que culminaram no 8 de janeiro.

Tenho um reparo a fazer. Pelo que as investigações têm deixado cada dia mais claro, estão errados os que falam em “tentativa de golpe”. Não era uma tentativa, mas um golpe de verdade! O chato (para os arquitetos da manobra) é que não deu certo, o navio fez água e a vaca foi direto pro brejo.

Melhor então falar em “golpe fracassado”. Quem preferir, pode usar outro termo: golpe malogrado, abortado, frustrado, falhado. Acho que “gorado” cai como luva. Na verdade, chocaram o ovo sem perceberem que ele não estava fecundado. Resultado: gorou.

Tentativa é que não foi. Naqueles tempos obscurantistas, todos os atores estavam convencidos de estar trabalhando para um golpe com G de general, grandioso, glorioso e ganhador. Na cabeça daquela gente desmiolada, o futuro estava garantido.

Vamos de “golpe gorado” mesmo.

Brasil invadido

José Horta Manzano

O site britânico Statista publica bons mapas históricos. Num artigo de 2021, informa, com indisfarçado ufanismo very British, que, entre os quase 200 países do globo, somente 22 nunca foram invadidos pela Grã-Bretanha. Acompanha um mapa-múndi com os continentes recobertos de azul-marinho (os países invadidos pelos ingleses) e umas manchas de cor cinza, aqui e ali, indicando aqueles que nunca foram invadidos. (Veja ilustração.)

Pensei que, se eles afirmam isso, deve ser verdade. Mas não me lembrava de ter ouvido falar de invasão de ingleses em Pindorama. A única ocasião em que, assim por dizer, britânicos puseram os pés em terras nossas com o fim de tomar posse delas aconteceu na passagem do século XIX para o século XX.

Como sabemos, as Ilhas da Trindade e Martim Vaz hoje fazem parte do estado do Espírito Santo. Mas nem sempre foi assim. Até os anos 1890, nenhum país havia se preocupado em tomar posse do arquipélago. Desabitadas e inóspitas, as ilhas eram terra de ninguém.

Foi quando, em 1893, um sujeito bastante original, de nacionalidade americana, desembarcou em Trindade e fez saber ao mundo que ele era o dono do pedaço. Aquela minúscula ilha havia de se tornar ‘ditadura militar’ submetida a seu comando pessoal. O nome do novo país seria Principado de Trinidad (sic) e ele, o dono, seria conhecido como James I, Príncipe de Trinidad.

A declaração ecoou em Londres e no Rio de Janeiro e soou alarme vermelho. De fato, os britânicos, no auge de seu poder marítimo, entendiam que o local era ideal para instalar uma estação telegráfica. Quanto ao Brasil, considerava que Trindade era parte integrante do território nacional desde a época do descobrimento.

Os britânicos foram os primeiros a acudir ao arquipélago. Com o pretexto de estudos de astronomia, desembarcaram e detiveram o “príncipe”. A partir daí, começou a disputa entre a Inglaterra e o Brasil pela posse das ilhas. A questão não levou muito tempo para se resolver, dado que o interesse inglês não era particularmente forte. Ao final de tratativas diplomáticas, o arquipélago foi atribuído ao Brasil.

Esse é o único episódio em que o olho gordo dos ingleses “invadiu” território nacional. Não me ocorre outra ocasião. Se algum leitor souber de outra invasão britânica, me avise por favor.

Bom, o mapa está aí para a apreciação de vosmicês. Não sou o autor da ideia nem do grafismo. Estou vendendo o peixe pelo mesmo preço que paguei.

Curtidas e likes

O Globo, 3 fev° 2024

José Horta Manzano

Leitores poderão até reclamar que estou me preocupando com coisa de pouco interesse para cidadãos equilibrados. Respondo que não se trata realmente de preocupação, estou é curioso com os comos e os porquês. Mas vamos aos fatos.

Dona Marta Suplicy, que no mês que vem completa 79 aninhos (nem parece!), mudou de partido e voltou ao PT que havia abandonado 9 anos atrás. Por que voltou? Terá mudado o PT ou terá mudado ela? Ninguém sabe. Voltou explicando: “Sou petista raiz”. (Se for verdade, por que, diabos, abandonou seu partido de coração?)

A razão oficial da volta é conhecida: Madame vai se candidatar a vice-prefeita da capital paulista na chapa do sulfuroso Guilherme Boulos. O motivo verdadeiro do passo ousado é menos comentado. Por que razão uma senhora com currículo exuberante – já foi deputada federal, ministra do Turismo, ministra da Cultura, senadora, vice-presidente do Senado e prefeita de São Paulo – se rebaixa, em fim de carreira, a candidatar-se a substituta do prefeito, cargo de importância secundária?

Que o Lula, aos 77 anos, tenha se arriscado a tentar reconquistar o cargo de presidente, dá pra entender. Afinal, ele queria provar a si mesmo (e ao mundo) que a prisão não tinha acabado com ele. Era pra ser a grande revanche do tipo: “Quiseram me enterrar? Não conseguiram!”. Na verdade, acredito que Luiz Inácio teria se contentado com os louros da vitória, sem o ônus de ter de batalhar quatro anos no cargo de presidente. Depois de subir a rampa, foi-se o sossego e o Lula se tornou prancha de tiro ao alvo – recebe zilhões de críticas e reclamações todos os dias.

Tornar-se famoso e conhecido por amplo público é sonho de muita gente. A vida moderna oferece numerosas possibilidades de chegar lá. Redes sociais, BBBs, canais de influenciador(a) estão aí pra gerar ‘likes’ pra quem quiser. Hoje em dia, cidadão que não consegue um punhado de curtidas por dia sente-se como o infeliz que “passou pela vida, não viveu”.

Na minha humilde opinião, dona Marta (do PT, como dizia Maluf) já é dona de uma robusta coleção de ‘likes’, granjeados durante as décadas que passou na política. Acredito que candidatar-se, a esta altura dos acontecimentos, ao posto mais insignificante de sua vida política não vai glorificar seu currículo.

Se perder a eleição, pior ainda.

Karma

by Carol “Cospe Fogo” Andrade (1983-2023)

José Horta Manzano

Tem gente que acha isso bobagem; outros juram que é verdade. O Brasil tem um carma pesado. Será? A palavra vem do sânscrito, o ‘latim da Índia’, considerado língua-mãe de praticamente todos os falares europeus.

Quer se escreva com k, quer com c, o carma guarda, em todas as línguas, o sentido original que lhe dão os hinduístas. Admitido o princípio da reencarnação, é possível entender a formação do carma individual, a acumulação de fatos e gestos ao longo das vidas passadas. Já o carma de um país me escapa. Dado que países não morrem nem reencarnam, como é que se construiria esse acúmulo de experiências?

Assim mesmo, muitos dizem que sim, que cada país tem seu carma. Será o carma da existência única, imagino. Se assim for, fica confirmado o que escrevi dois parágrafos atrás: o Brasil tem um carma pesado.

Parece que, em vez de evoluir, nosso país involui, regride, anda pra trás. Tomemos a Educação. Cinquenta anos atrás, metade da população era analfabeta. Em compensação, os que tinham a sorte de frequentar a escola recebiam instrução de qualidade bem superior ao que se vê atualmente. Era uma época em que professor ensinava e aluno aprendia. Hoje, há quantidade de doutores diplomados incapazes de compreender um texto simples.

Na política, a involução também é notável. Em 1949, o deputado Barreto Pinto foi cassado por seus pares – nada de intervenção do STF. Seu crime? Numa uma entrevista à revista O Cruzeiro, apresentou-se vestido de fraque (paletó tipo ‘rabo de andorinha’, camisa e gravata), mas sem calça (só de cuecão samba-canção). Em sua defesa, alegou ter sido enganado pelo jornalista, que teria garantido que a foto só ia aparecer da cintura para cima. A desculpa não convenceu a comissão de ética. Perdeu o mandato por quebra do decoro parlamentar.

Poucos anos atrás, um certo Chico Rodrigues, senador da República, estava para embarcar num avião. Os federais detectaram um volume estranho no seu traseiro. Na revista, descobriu-se que ele carregava na cueca grande quantidade de notas de dinheiro, algumas enfiadas naquele lugar normalmente utilizado como porta de saída, não de entrada. Investigado, pediu licença do cargo. Depois de meses afastado, foi voltando aos poucos e continua por aí, transitando por palácios, sem ser incomodado.

Então, as coisas mudaram ou não? Sim, é certo que mudaram. E pra pior!

O povo brasileiro está precisando de aulas que ensinem a viver em sociedade. Já que a meninada nem sempre aprende essas coisas em casa, cabe à escola ensinar o que é certo e o que é errado, o que pode e o que não pode. A impressão que se tem é de que muito brasileiro de hoje não tem essas noções. Pode parecer bizarro, mas não vejo outra explicação.

Quando bandido atual se esconde, não é por sentir vergonha pelo que fez, mas por medo da polícia. Ninguém mais é honesto por acreditar no valor da honestidade; boa parte dos brasileiros de hoje são honestos porque têm medo de ser apanhados com a boca na botija. Não fosse isso, ninguém os seguraria.

Pra mim, pessoalmente, esse estado calamitoso de dissolução da sociedade não tem grande importância: minha quota já está quase completa. Mas para vocês, mais jovens (ou menos idosos), há de ser preocupante. Mais uma ou duas décadas assim, o karma vai ficar tão pesado que o país vai se desintegrar. E aí, salve-se quem puder.

Tabus religiosos

José Horta Manzano

Faz pouco tempo, ficamos sabendo que um hospital da capital paulista se recusa a oferecer procedimentos médicos que visem à limitação de filhos. Alegando seguir à risca os preceitos da doutrina católica, não inserem DIU nem fazem vasectomia. Quem quiser que procure outro estabelecimento, lá não.

Embora me pareça uma linha de conduta de outras eras, posso até aceitar que, em se tratando de hospital particular, tenham lá suas idiossincrasias. O que me incomoda é o fato de, para esse estabelecimento de saúde, o tabu sexual-religioso se limitar a dois únicos procedimentos médicos: DIU e vasectomia.

A lista das proibições, pela lógica, não deveria se limitar a essas duas intervenções. Há outras condições humanas que a Santa Madre Igreja sempre condenou e continua condenando. Por coerência, o pudibundo estabelecimento deveria aplicar os tabus da Igreja em sua totalidade. Vamos ver.

A doutrina católica, embora torça o nariz para o divórcio, costuma olhar para o lado e fingir que não vê; assim, não proíbe a seus fiéis a separação de corpos. Já o recasamento, ó horror!, são outros quinhentos. Nenhum católico tem o direito de se casar em segundas núpcias. Se o fizer, terá de se limitar a fazê-lo no civil, sem véu nem grinalda.

Portanto, nosso pudico hospital, para estar nos conformes com a doutrina, não poderia aceitar pacientes casados em segundas núpcias, dado que vivem no pecado. No limite, podem até ser atendidos em caso de urgência, naturalmente. Para evitar quiproquó, a pergunta sobre eventual concubinato teria de ser feita antes de qualquer internação. É desagradável expulsar pacientes no meio do corredor, a caminho da sala de operação.

A Igreja Católica, que às vezes parece ter empacado no século XIX, põe atos homossexuais no catálogo das aberrações contra a natureza. Repare que, até hoje, não estendem o sacramento do matrimônio a casais do mesmo sexo. No máximo, uma bençãozinha na sacristia, mais nada.

O mesmo rigor, portanto, deveria guiar o comportamento do hospital paulistano. Antes da admissão, a pergunta teria de ser feita a todo futuro paciente: “Vive em concubinato com pessoa do mesmo sexo?”. Em caso de resposta positiva, o cidadão (ou a cidadã) deveria ser gentilmente encaminhado(a) a outro estabelecimento.

Quando se adota a doutrina de determinada fé, deve-se adotá-la por inteiro, com suas larguezas, mas também com suas proibições e seus tabus.

Nota
A recusa de efetuar procedimentos de limitação de filhos combinava com o Brasil de 100 anos atrás, vazio, despovoado, uma imensidão que precisava de braços para a lavoura e a indústria balbuciante. Uma natalidade abundante era desejável e desejada. Hoje o quadro mudou.

Com o país povoado por duzentos milhões de conterrâneos, a política natalista saiu de moda. Temos gente suficiente. O que falta é dar saúde e educação a todos a fim de mitigar o abismo entre os que têm e os que não têm nada.

Na contramão do que está fazendo o hospital paulista, procedimentos de limitação de nascimentos deveriam, sim, ser incentivados. E por propaganda institucional.

Gente bem

by Alexandre Cechetto Beck (1972-) desenhista catarinense

José Horta Manzano

Uma vez, quando eu era criança, um coleguinha (ou uma coleguinha, não me lembro bem) me perguntou: “Teus pais são gente bem?”. Não sei se dei alguma resposta, o fato é que não entendi a pergunta. Nunca tinha ouvido a expressão e fiquei com vergonha de perguntar o que era.

Anos mais tarde, aprendi que gente bem são os cidadãos que pertencem à alta sociedade, à elite. São os “bem-nascidos”.Se assim for, minha resposta teria sido “Não, meus pais não pertencem à alta sociedade”.

Em 1957, a cantora Dolores Duran lançou um samba composto por Billy Blanco, bem chacoalhado, chamado Estatuto de boate. Começava assim:

Gafieira de gente bem é boate
Onde a noite esconde a bobagem que acontece
Onde o uísque lava qualquer disparate
Amanhã, um sal de fruta e a gente esquece

Faz tempo que não ouço essa expressão “gente bem”. Acho que envelheceu, foi aposentada e hoje goza de merecido repouso na gaveta do esquecimento.

Por seu lado, há outra, bem parecida, mas de significado diferente. É gente de bem. Essa, parece, surgiu durante o regime militar, lá pelos anos 1970. Incentivada sabe-se lá por quem, estigmatizava todo oponente à ditadura. Gente de bem era o cidadão ‘normal’, de bons costumes, vida regrada, se possível cristão e, sobretudo, apreciador do regime (ou, pelo menos, conformado de viver numa ‘democracia relativa’). Quem não fosse gente de bem levava, fácil fácil, o carimbo de terrorista.

Aqueles tempos sombrios passaram. Faz alguns anos, porém, um cidadão egresso das trevas decidiu reativar aquela expressão velhusca e dar-lhe uma segunda vida. A expressão é gente de bem e o cidadão, Jair Bolsonaro. Em suas falas, volta e meia o capitão soltava um “gente de bem” ou, melhor ainda, um “cidadão de bem”. O novo significado, sem surpresa, é bem próximo do que vigorava nos tempos ditatoriais: o cidadão de bem é aquele que adere à tortuosa ideologia da extrema direita ou, pelo menos, que se resigna calado.

O antigo “gente bem” passou. O “gente de bem” da ditadura também se foi. O “cidadão de bem” bolsonárico já está passando.

Tudo passa. Amanhã, um sal de fruta e a gente esquece.

Se eu morresse amanhã de manhã

Antônio Maria Araújo de Morais (1921-1964)
compositor e jornalista pernambucano

José Horta Manzano

Início de ano é tempo de resenhas. Há listas dos principais fatos políticos do ano que acabou. Há relações dos melhores filmes. Num registro um pouco mais tétrico, há quem leia (e aprecie) o relato cru das piores tragédias dos últimos 12 meses, com número de mortos e feridos e até com vídeos. As músicas mais tocadas do ano também são objeto de resenhas. Há muita gente que busca na rubrica “People” quem se casou com quem, quem se divorciou, quem trocou de cônjuge – casamento e descasamento de astro, estrela e influenciador é sempre mais interessante que o casamento da vizinha.

Sem que eu estivesse à procura, me caiu no colo uma resenha – que proseia e tem feição, ou seja, com som e imagens – dos falecidos em 2023. Está lá uma centena de personalidades. Conheci bem alguns deles e soube de outros só de ouvir falar. Alguns eu nem sabia que ainda estivessem vivos. E há ainda aqueles (muitos) de quem nunca tinha ouvido falar. Mas acho que é normal. Assim como um adolescente de hoje não sabe quem foi Francisco Alves, o rei da voz, nós, os veteranos, temos alguma dificuldade em acompanhar a trajetória artística de um DJ da atualidade.

Me ocorreu que, assim como a imensa maioria dos terráqueos, nunca terei a honra de aparecer em nenhuma resenha póstuma. Devo dizer que esse nunca foi meu objetivo maior. Mas não chego ao pessimismo de um Antônio Maria que, em 1953, escreveu um samba-canção que dizia assim:

Se eu morresse amanhã de manhã
Minha falta ninguém sentiria
Eu seria um enterro qualquer
Sem saudade, sem luto também

Aí, já é fossa demais. O fato é que, tirando personagens públicos, a lembrança dos que se foram só perdura na mente dos que conheceram o falecido pessoalmente. Em princípio, ninguém tem saudade de um antepassado que não chegou a conhecer. Você se lembrará de sua vovozinha e talvez guarde até um sentimento por ela, mas é evidentemente incapaz de se lembrar do avô que era já falecido quando você nasceu.

Então, salvo se trate de personalidade muito famosa, a lembrança de alguém que faleceu segue sempre o mesmo esquema: dura enquanto não se forem todos os que conheceram pessoalmente o falecido. Quando não sobrar mais nenhuma testemunha visual, a lembrança se apagará. Retratos e histórias familiares prolongarão um pouco a memória. Depois disso, o tempo vai fazer sua obra e a lembrança vai virar poeira.

Todos temos de ir embora pra deixar espaço para os que virão. É assim que funciona a natureza.

Campeões do mundo

Tempo gasto diante da tela do celular
(em horas por dia)
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José Horta Manzano

Quem é que disse que a única área em que os brasileiros são campeões é o agronegócio? Abro parênteses. (Estou aqui rindo sozinho ao lembrar que Elio Gáspari chama os agronegociantes de “agrotrogloditas”.) Fecho parênteses.

Há pelo menos mais um terreno em que os brasileirinhos e brasileirões são campeões do mundo. Como demonstra a ilustração acima, um gráfico publicado no site Datareportal.com mostra o resultado de um estudo levado a cabo em quarenta países importantes. Estudou-se o tempo médio que os cidadãos de cada um desses países gasta todos os dias olhando a tela de seus telefones celulares.

Sabendo-se que a média mundial é de 3 horas e 46 minutos por dia, as diferenças entre países que gastam pouco tempo e os que gastam muito com seus celulares é surpreendente.

Note-se que, quanto mais alto é o PIB do país, menos a população parece se interessar por passar horas navegando. E o contrário é verdadeiro: populações menos afortunadas gastam mais tempo navegando (ou mandando mensagens).

Assim, entre os países estudados, o Japão é o campeão de desinteresse pelo celular. Durante um dia, os japoneses passam apenas 1h e 54min de olho grudado na tela.

Na Europa, há boas diferenças entre países. Os alemães se limitam a 2h 29min por dia, enquanto os portugueses, campeões do continente, gastam 3h 41min do dia na tela.

Os americanos, os chineses e os russos, pouco mais ou menos, estão na mesma faixa, entre 3h 16min e 3h 40min.

Já na América Latina a atração exercida pela telinha parece ser mais forte. Argentina, México, Colômbia e Chile dedicam mais de 4h 30min diárias ao exercício.

E assim chegamos aos campeões do mundo, os povos que, em média, passam mais de 5 horas por dia grudados no celular. Estão no mesmo patamar o Brasil, a África do Sul e as Filipinas. Os três aparecem praticamente empatados, com um score entre 5h 31min e 5h 13min. Alguns diriam que é um verdadeiro despropósito.

Lanço ao ar a dúvida que me assalta.

  • Será que a produtividade nacional é menor por causa do tempo que a populaçâo gasta grudada no telefone?
  • Ou, ao contrário, será que é justamente por falta do que fazer é que a população passa tanto tempo admirando a tela?

Em suma, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Isenção fiscal

José Horta Manzano

Em princípio, todos os cidadãos de um país estão sujeitos a tributação sobre a renda que recebem. Em termos claros, o imposto é para todos. Afinal, essa é a base da sociedade tal como a conhecemos: para financiar a máquina, cada um dá contribuição à sua medida.

Gostar de pagar imposto, ninguém gosta; mas não tem jeito porque é assim que a sociedade funciona. Quem ganhou mais dá mais, quem ganhou menos contribui com menos. Só quem não paga são aqueles cuja renda não atingiu o piso estabelecido.

Todos os cidadãos são iguais. No entanto, confesso que não me lembrava que, no Brasil, em matéria fiscal, alguns cidadãos são mais iguais que outros. Tinha passado fora de de meu radar o fato de “lideranças religiosas” estarem isentas de dar contribuição à bacia comum.

Gostaria de conhecer a justificativa para isso. O que é que faz dessas “lideranças” seres especiais? Serão indivíduos depenados e situados abaixo da linha de pobreza? Sinceramente, não vejo por que razão esses cidadãos têm o direito de usufruir da estrutura financiada pelo Estado, sem ter de dar sua contribuição pessoal.

As Forças Armadas, as polícias, o SUS, as estradas, o sistema escolar nacional, a Embrapa, o IBGE, as agências reguladoras, a rede diplomática e consular – são poucos exemplos das centenas de entidades e instituições financiadas com dinheiro público. Quem dá às “lideranças religiosas” o direito de se aproveitar dessa estrutura sem ter de pagar?

No país em que vivo, a Suíça, todos os cidadãos são taxados sobre seus ganhos. Como é compreensível, há uma classe de pessoas que não atinge o piso e, assim, está isenta de impostos. Fora isso, os outros(*) contribuem sobre a totalidade de seus ganhos, o que me parece justo e normal. O presidente do país está sujeito à mesma regra que o mais humilde dos cidadãos. Diferentemente do Brasil, “lideranças religiosas” (padre, pastor, rabino, imame, pai de santo) pagam imposto de renda como qualquer outro habitante. Ninguém tem nem ao menos parte de seu salário “isenta de impostos”.

Não sei se o Lula, que mexe em vespeiro ao pôr ordem na fiscalidade do país, vai aguentar o tranco. Tem gente muito influente por detrás dessa aberrante isenção concedida às “lideranças religiosas”.

Esperemos que o presidente segure essa e dê um tranco nessa gente folgada. Nos tempos de antigamente, se não houvesse senhoras na sala, a gente dizia que quem quer moleza come… aquilo que vocês estão pensando.

(*) Há na Suíça entre 4000 e 5000 multimilionários estrangeiros enquadrados num regime especial em que a taxação é baseada nas despesas e no valor imobiliário. São condições reservadas a estrangeiros endinheirados que adotam residência na Suíça. Essas pessoas, que só recebem ganhos do exterior, também pagam imposto, só que ele é calculado sobre outras bases que as dos demais cidadãos. É um privilégio concedido a fortes contribuintes, que interessam ao fisco nacional.

Recadinho a Sua Excelência

José Horta Manzano

Prezado Ministro,

Vossa Excelência, ministro Gilmar Mendes, é graduado em Direito pela Universidade de Brasília, além de mestre e doutor pela Universidade de Münster, na Alemanha. Adicione-se a isso a prática adquirida em 35 anos de atividade, dos quais 20 como ministro do STF. Parabéns por ser um dos sobreviventes do tempo em que se escolhia um ministro do STF por seu notório saber jurídico.

Sua tendência a dar pronunciamentos e conceder entrevistas aqui e ali fazem parte do jogo – é assim que arde a fogueira das vaidades. Cidadãos mais recatados podem até se avexar com tal comportamento. Porém, no fundo, que fazer? Na Igreja, é pecado, mas no século passa batido.

Contudo (reparou que tem sempre um mas, um porém, um todavia, um contudo para atrapalhar?). Uma coisa é afagar o próprio ego; outra, bem diferente, é pronunciar-se fora dos autos. Até réu primário, como se vê em filme policial, sabe disso: “só falo na presença de meu advogado”. É que ele entende que palavra lançada ao ar é irrecuperável, não há como voltar atrás. Antes de abrir a boca, máxima prudência é exigida de todo cidadão, em qualquer circunstância.

Contudo, dizia eu, apesar de sua vasta bagagem jurídica, Vossa Excelência declara em praça pública ter convicção formada sobre a culpabilidade de um réu que, muito provavelmente, virá um dia a ser julgado no STF. Isso é um contrassenso. Sergio Moro, ex-Lava a Jato, caiu em desgraça, entre outras escorregadas, por não ter sido imparcial. Vossa Excelência está entrando pelo mesmo túnel. Como vai sair dele?

Um juiz que dá seu parecer antes mesmo do início do processo não está apto a julgar. Se o caso subir até o STF, Vossa Excelência terá de se declarar impedido. Se não se declarar, como é que fica? Teremos de conviver com um Supremo avacalhado, uma casa em que juízes julgam por antecipação, como os esbirros de Putin?

Permita-me a impertinência, ministro. Ouso dizer-lhe que um pouco de recato lhe faria bem. E ao Brasil também.

Saudações de ano novo!

Bolsonaro em Buenos Aires

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José Horta Manzano

Gosto de observar fotografias e tirar minhas conclusões que, se não representam a verdade verdadeira, pelo menos são a verdade como eu a sinto.

Esta de hoje mostra os 34 egrégios personagens que compunham a delegação bolsonarista que viajou a Buenos Aires para espairecer e, ao mesmo tempo, prestigiar a tomada de posse de Javier Milei.

Tomei nota de alguns detalhes interessantes. Vamos lá.

  • A cor azul domina incontestavelmente. Se meus cansados olhos não me enganam, todos o homens vestem camisa azul, com a exceção de um senhor de óculos escuros cuja camisa é de um verde desbotado.
  • Na fila da frente, os figurantes parecem estar cobrindo o goleiro na hora do tiro livre direto. Todos lembraram de cruzar as mãos para proteger as devidas partes, menos um distraído. Cuidado! Pode ser jogador infiltrado do time adversário.
  • Num incompreensível privilégio hierárquico, paletó foi exigido de todos, menos dos caciques: Bolsonaro, Tarcísio e Costa Neto.
  • Osmar Terra (que alguns insistem em chamar “Osmar Trevas”) não tinha levado paletó. Correu apanhar a jaqueta. Não ficou muito chique, mas quebrou um galho.
  • Como sói acontecer em toda foto de grupo, teve um que saiu com meia cara. Teve também um baixinho que, esquecido lá no fundo ao lado de altões, teve de ficar na ponta dos pés.
  • Houve também um participante assaz original, que se apresentou ao lambe-lambe ostentando no cocuruto um discreto chapelão de aba larga, cor negro-graúna. Pra mostrar que não está brincando e quer realmente se destacar dos demais, vestiu uma gravata amarelo canário. O modelito ficou superelegante.
  • Dos 34 figurantes, 31 são do sexo masculino. Para demonstrar que os bolsonaristas não padecem de misoginia, 3 mocinhas foram incluídas no grupo, tímidas, recatadas, esquecidas num segundo plano de onde foram obrigadas a entortar a cabeça pra aparecer no retrato. Quem encontrar as três em menos de três minutos ganha um pedaço de pizza fria pra comer de pé na calçada.

Sem dúvida, o grupo é bolsonarista da gema.

Aproveito esta oportunidade para avisar que vou dar uns dias de descanso a meus distintos leitores. Desejo a todos um feliz Natal, boa passagem de ano e um 2024 com muita saúde e sossego. No finalzinho do ano, interrompo o recesso para publicar meu artigo que sai no Correio Braziliense. Até lá!

Farol da Humanidade

José Horta Manzano

O Lula dá sinais de ter desistido de lutar pra alcançar o almejado posto de “Farol da Humanidade”.

Nos primeiros dois mandatos, seu ego foi acariciado pela boa sorte. Os tempos eram outros, sem Trump, sem um Putin belicoso, sem Xi Jinping. Nem Bolsonaro havia ainda posto as manguinhas de fora. Na política interna, o “terrível” adversário era o suave FHC e seu partido.

Marinheiro de primeira viagem, Luiz Inácio navegou então por águas mansas, com céu de brigadeiro e golfinhos brincando a bombordo e estibordo.

Em 2009, um Obama efusivo apresentou Lula aos presidentes do G20 com um “This is my man, right here! I love this guy.” (Este é o homem, bem aqui! Adoro esse cara.). E acrescentou que Luiz Inácio era “the most popular politician on Earth” (o político mais popular da face da Terra).

Lula deve ter acreditado em cada sílaba. Tanto que, inchado, assumiu o papel de Paladino da Paz e da Justiça. Meteu-se de cabeça no jogo internacional. Aventurou-se até no insolúvel conflito palestino certo de que, com uma partida de futebol, apaziguaria os dois povos. Como se sabe hoje, sua intervenção não foi bem sucedida.

Em versão 3.0, o Lula internacional anda mais travado. Bem que ele tentou, mas falta gás. No espocar da mortífera invasão da Ucrânia pelas tropas russas, deu uma de Salomão: culpou os dois lados igualmente. Levou silenciosa vaia internacional. Na guerra entre Israel e o Hamas, tentou opinar, mas já andava sem ânimo pra essas coisas. Seus vagos pronunciamentos tiveram o condão de irritar ambos os lados do conflito.

Agora, parece ter desistido de vez. Nas últimas ocasiões em que teria podido dar diretivas à humanidade, subtraiu-se. Quando o venezuelano Maduro e seu par, o presidente da Guiana, anunciaram reunião numa ilha caribenha, não quis conduzir os trabalhos. Em seu lugar, mandou Amorim, “assessor especial”.

Outra ocasião foi quando Zelenski, presidente da Ucrânia, a caminho da Argentina para a posse de Milei, teve de pousar em Brasília para reabastecimento. Apesar do convite do ucraniano, Lula preferiu declinar de encontrar-se com ele.

Será por cansaço devido aos anos vividos? Será para não se expor ao risco de novos fracassos? Ele é quem sabe a razão, mas tudo indica que já não se empenhará para tornar-se o Pacificador das Gentes.

Se isso significa que vai dedicar mais tempo e esforço para enfrentar nossos problemas internos, aplaudiremos de pé.

Imagem roubada

José Horta Manzano

Uma imagem roubada da tela do celular do senador Sergio Moro foi estampada na manchete de toda a mídia. A foto, tirada durante a sabatina de Flávio Dino, eterniza uma conversa entre Moro e um correpondente misterioso identificado como “Mestrão”. (De lá pra cá, já foi identificado, mas não vem ao caso.)

Moro acabava de dar um abraço em Dino diante das câmeras que transmitiam ao vivo. Logo depois, “Mestrão” envia mensagem a Moro para prevenir que “o coro está comendo nas redes” e que não convém publicar declaração de voto a favor do sabatinado, sob pena de espichar o assunto e perder o controle da situação. Foi nessa altura que a foto foi tirada.

Os dois devem se conhecer bem, dado que “Mestrão” chama o senador pelo prenome e o trata por ‘você’. Um detalhe: “Mestrão” põe vírgula depois do vocativo, mostrando que pelo menos completou o ensino médio.

Dia seguinte, diversos articulistas da grande mídia comentaram o ocorrido. “Quem será o Mestrão?” – indaga um deles. “Veja só, o que as redes mandam, Moro faz” – se surpreende um outro. O que cresceu foi a fofoca. Me lembrou os mexericos da Candinha.

Não me lembro de ter visto nenhum articulista preocupado com a licitude da imagem. Tirar uma foto por cima dos ombros de alguém, captar um trecho de conversação particular e espalhar a imagem me parece configurar um ilícito. No mínimo, é violação de correspondência. É como abrir (e ler) a carta do vizinho. (Hoje já ninguém manda carta, mas o princípio continua de pé.)

Quem agiu assim fez exatamente o que se acusa Moro de ter feito: escarafunchar a intimidade de seus investigados para melhor acusá-los.

Não sou fã de Sergio Moro, personagem pouco recomendável a meu ver. Mas uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

Neste caso, é outra coisa.

Lula e a Instrução Pública

José Horta Manzano

Faz poucos dias, Lula foi o participante de honra da cerimônia de credenciamento do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Na ocasião, o instituto foi promovido a “instituição de ensino superior” – como se fosse indispensável organizar esse tipo de cerimônia para elevar o Impa ao patamar em que qualquer faculdade de beira de estrada está. Só o nome do instituto já informa que, em matéria de estudo, lá não se brinca.

Luiz Inácio, que deve ter ouvido falar do papelão que o Brasil continua a fazer na classificação Pisa (e que se repete a cada ano), resolveu ralhar. (Não sei se esse verbo ainda é conhecido ou se já foi para o arquivo morto.) Ralhar é sinônimo de “passar um pito”, embora com sentido mais intenso. Dizer que “o professor ralhou comigo” significava contar que o mestre tinha me dado “um esculacho” (expressão que, acredito, esteja ainda em uso).

Luiz Inácio, portanto, resolveu dar um esculacho. Não na Matemática, que não ia ficar bem. Preferiu desancar os cursos de Direito assim como os formados nesses cursos. Apoiado em estatísticas (o que mostra que a fala não foi de improviso, mas estava já programada), colocou o Brasil entre os países que mais formam advogados. Disse que nem juntando todos os advogados da China e da Índia, países de volumosa população, se chega ao número de advogados brasileiros.

Parece inadequado um presidente falar mal de um ramo de estudos diante de uma plateia composta por gente de outro ramo. Não é pecado o que ele fez, mas ficou esquisito. Tem até gente achando que nosso presidente é fofoqueiro. Não é minha opinião.

Talvez para suavizar a relhada, Lula acrescentou: “Nada contra formar advogados. Mas é preciso que a gente forme mais em matemática, engenharia, física”. Mais adiante, com a voz trêmula e uma lágrima querendo apontar no canto do olho, Luiz Inácio não resistiu à tentação do autoelogio e lembrou ao distinto público que foi durante seus mandatos que o Brasil “construiu o maior número de universidades da História”.

Eu disse “autoelogio”? Deveria ter acrescentado “o que Lula acha que é autoelogio”. Luiz Inácio, que sofre de um (pequeno) complexo de sem-diploma, não costuma perder ocasião para ressaltar que saiu do nada e, sem ter feito estudos formais, chegou à Presidência – o que lhe parece motivo de orgulho. Talvez para compensar essa falta de estudo, Lula se empenhou, sobretudo no primeiro e no segundo mandatos, na criação de faculdades de ensino.

Faculdade pública, por oferecer ensino gratuito, atrai muitos alunos. Os cursos de Direito, que têm fama de serem menos puxados que os demais, atraem mais gente ainda. Dado que não existe um controle nacional do tipo “numerus clausus”, para limitar o acesso a carreiras já superconcorridas, as escolas de Direito formam, sim, muitos bacharéis. Como prova de que a maioria não alcança o nível de conhecimentos que se espera de um futuro advogado, sabe-se que nove entre dez formados são reprovados no exame da Ordem.

Há advogados demais no país? Não sei, é possível. Se já há quem reclame agora, fico a imaginar como seria o quadro sem o exame da Ordem. Sem exame, o número de profissionais seria multiplicado por dez.

Lula está terminando seu nono ano como presidente do Brasil. Nove anos é muita coisa. De 1889 pra cá, só o ditador Vargas conseguiu ficar tanto tempo assim no topo. Com essa bagagem toda, é surpreendente que Luiz Inácio não tenha entendido que o problema maior da Instrução Pública no Brasil não se encontra no ensino superior.

O nó que impede os brasileirinhos de avançar é o baixo nível da escolaridade obrigatória. Podem-se abrir dúzias e dúzias de institutos de Matemática que não vai adiantar. Enquanto o estudo Pisa continuar jogando na nossa cara que, em Matemática, nosso país foi classificado em 59° lugar entre 73 pesquisados, raros serão os jovens a desenvolver gosto por essa ciência.

É verdade que, ao se autoagradar lembrando que foi o presidente que mais criou faculdades no Brasil, Lula tem certeza de que a História lhe reservará um lugar especial.

E a avaliação Pisa, Lula? Pfff, isso não conta! É coisa de países ricos que tentam nos rebaixar e humilhar! Vamos continuar abrindo faculdades!

Repeteco

2010 – Dona Marisa recebe a Ordem de Rio Branco das mãos do marido

José Horta Manzano

Luiz Inácio aprecia honrarias. Títulos de doutor “honoris causa” e condecorações estrangeiras, tem aos montes. Quando pode, estende também aos parentes as honras que recebe.

Todos ainda devem se lembrar que, em 31 de dezembro de 2010, último dia de seu segundo mandato, distribuiu passaporte diplomático a todos os membros de sua família – esposa, filhos e agregados. No dia seguinte, quando já não era presidente, criou uma situação de absoluta excepcionalidade: foi passar férias com a família no Forte Militar dos Andradas, litoral de São Paulo, à nossa custa. Ficou por isso mesmo. (Depois a gente reclama do Bolsonaro.)

Naquele mesmo 2010, aproveitando sua staliniana cota de popularidade, que roçava então os 80% de aprovação, fez uma bufonaria. Concedeu a Ordem de Rio Branco, mais alta honraria do Itamaraty, a Dona Marisa, sua esposa. E não deixou por menos: outorgou-lhe a ordem no mais alto grau, o de Grã-Cruz. A faixa com a medalha foi entregue pessoalmente por Lula em cerimônia oficial.

A imprensa se encarregou de difundir a notícia, que rodou o país e causou espanto. Proibido não é, mas é chocante por contrariar a ética e o decoro presidencial.

21 Nov 2023 – Chamada da Folha de São Paulo

O tempo passou. Ontem, 13 anos depois da jactância de 2010, Lula reincidiu. Enviuvado e recasado, concedeu à atual esposa a mesma honraria com que tinha mimado dona Marisa. Janja da Silva acaba de ser agraciada com a Ordem de Rio Branco, no grau Grã-Cruz. Só que desta vez, pra fugir a eventuais reprimendas, Lula preferiu fazer a entrega numa cerimônia discreta, privada, sem imagens. Nem mesmo as fotos do Ricardo “Stuquinha” Stucker, fotógrafo pessoal do presidente, circularam.

Lula é malandro. Não corrigiu a agressão à ética, mas aprendeu a camuflá-la. Numa época em que tudo passa pelas redes sociais, imagem é crucial. Sem imagem, não há notícia. Ninguém mais lê informação de texto. Se a Globo não der (e como vai dar notícia sem imagem?), ninguém vai ficar sabendo.

Assim, fica o dito pelo não dito. E estamos entendidos.

Espírito universalista

José Horta Manzano

O universalismo é conceito básico de todas as correntes de pensamento socialistas, comunistas e social-democratas.


Proletarier aller Länder, vereinigt euch!
Proletários de todos os países, uni-vos!


O manifesto lançado, século e meio atrás, pelo alemão Karl Marx não conclamava os proletários alemães a se unirem. Nem mesmo os colegas europeus. Seu chamado se dirigia aos proletários de todos os países, sem exceção.

Luiz Inácio só abraçou a doutrina com meio braço. Seu espírito universalista não é amplo nem irrestrito. Está inquieto apenas pelos reféns latino-americanos. Os demais? Que se lixem!

Num surto de deslumbramento, Lula fala com o presidente de Israel como se tivesse recebido mandato dos países latino-americanos para defender seus interesses. Dado que não recebeu procuração nenhuma, soa esquisito. Dá impressão de uma forçada de barra pra se autoeleger líder regional na marra.

De outra vez, nosso presidente deve mostrar interesse por todos os reféns, sem excluir os “louros de olhos azuis”. Todos os sequestrados caíram na mesma arapuca e merecem benevolência planetária, pouco importando a cor dos olhos ou do passaporte.

Se Luiz Inácio for incapaz de alargar seu horizonte, será melhor não tocar no assunto. Melhor ainda, será falar com quem manda. Em Israel, o presidente é figura decorativa. Netanyahu, o primeiro-ministro, é quem dá as ordens.

Parece que Lula só divulgou o telefonema pra sair no jornal.

Bom-dia a cavalo

by Gerson Kauer, desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Quem fala demais dá bom-dia a cavalo. Doutor Flávio Dino, nosso ministro da Justiça (e candidato ao STF), é homem sem dúvida inteligente. Inteligente e instruído, conjunção de qualidades raras no mundo político brasileiro atual. Mas ninguém é perfeito. Apesar das qualidades, o doutor tem um defeito: padece de uma compulsão irrefreável a manifestar sua opinião em qualquer ocasião.

A personalidade de nosso atual ministro da Justiça o leva a sentir-se obrigado a mostrar que sabe tudo, que tem resposta a tudo, em todas as ocasiões, seja qual for o assunto. Deve parecer-lhe inconcebível permitir que outra pessoa possa dar um fecho a qualquer conversa – a palavra final tem de ser dele. Essa compulsão, inofensiva e compreensível quando o ministro tem de fato opinião formada, torna-se perigosa quando ele não domina o tema.

Recentemente, o doutor andou dando bom-dia a cavalo. Distraído, esqueceu que é ministro da Justiça e decidiu comentar um vídeo meio besta que circulou pelas redes, no qual uma portuguesa insultava uma brasileira, em Portugal, e a mandava voltar para o Brasil. Coisa de gente malcriada.

Pois doutor Dino não se segurou. Passou por cima do fato de a senhora portuguesa se encontrar em estado visivelmente alterado – não se sabe se temporaria ou permanentemente. Num erro de apreciação indigno de um ministro de Estado, tomou as palavras daquela senhora como se representassem o clamor da totalidade do povo português. E fez questão de dar resposta.

Em vez de ficar quieto ou mandá-la catar coquinho, declarou que concordaria com o banimento dos brasileiros que vivem em Portugal desde que os portugueses “devolvessem o ouro que levaram de Minas Gerais”. Nessa altura, o doutor não só deu bom-dia ao quadrúpede, mas já estava batendo papo com o dito cujo.

Em primeiro lugar, fica muito feio um ministro imprudente se meter em briga de rede social. E se o bate-boca entre as duas mulheres não passasse de mise en scène, de gozação para ganhar likes? Quem é que ia passar carão, hein? Imprudência…

Além disso, o doutor deu flagrante mostra de não ter retido as aulas de História do Brasil recebidas de dona Leocádia. Na época da exploração do ouro das Gerais (século 18, anos 1700), nosso país ainda não tinha existência independente. As terras onde hoje vivemos eram as possessões portuguesas da América. Portanto, a corrida do ouro se deu em terras lusas. O “roubo” não foi roubo. Quem rouba o que já lhe pertence, a Deus convence.

Não se pode acusar os portugueses de terem levado “nosso” ouro. Não faz sentido. Quem diz isso se esquece de que seus antepassados talvez nem tivessem ainda emigrado para estas terras. Ou, quem sabe até, seus ancestrais eram os próprios portugueses que viviam na colônia. Não é impossível que o doutor seja descendente dos “ladrões” do ouro.

Só se pode falar de “nosso ouro” ou de “nossa terra” a partir da Independência, quando o Brasil passou a ter existência reconhecida pelo resto do mundo. Antes, isto aqui não passava de uma extensão de Portugal.

A meu ver, doutor Dino escorregou duas vezes. Quando se meteu em briga alheia e tomou a ofensa malcriada como se emanasse do povo português inteiro. E resvalou de novo ao considerar que o Brasil já existisse como terra independente um século antes do Grito do Ipiranga.

O discurso é prata, o silêncio é ouro. Se não… bom dia, senhor cavalo!

Le rouge et le noir

O Capital, de Karl Marx
1a. edição – 1867

José Horta Manzano

Contava-se esta historinha nos tempos da censura que nossa ditadura militar nos impôs.

Um sargento é encarregado de vasculhar um centro estudantil e de recolher todo material subversivo. Chegando lá, deu uma olhada na estante dos livros, leu o título de cada um e estancou diante de um exemplar de “Le rouge et le noir”(*), romance do francês Stendhal, publicado em 1830.

Naquela época, diferentemente de hoje, todo cidadão com ginásio completo (escola média) tinha noções básicas de língua francesa. O sargento arregalou os olhos ao ver o livro que ostentava um título ousado. “Como é que é?”, pensou ele, “Vermelho? Só pode ser comunista.” E apreendeu o volume.

Lembrei da historieta ao ler a notícia de que a Secretaria da Educação de Santa Catarina, sem expor seus motivos, mandou recolher uma dezena de títulos das bibliotecas de escolas públicas de todo o estado. A lista das obras é tão heterogênea que parece rol de lavadeira: cuecas, cachecóis e camisas sociais, tudo se mistura lá dentro.

Entre os livros banidos há um best-seller assim como um clássico como Laranja Mecânica. Lá estão também quatro obras que, desconfio, entraram no rol por causa do título (ao estilo de Le Rouge et le Noir): Coração Satânico, Demonologistas – arquivos sobrenaturais, Exorcismo, O Diário do Diabo.

Fica a impressão de que essa proibição foi apenas balão de ensaio. Pela (falta de) lógica da amostragem, a lista integral almejada pelo governo catarinense deve ser quilométrica, capaz de esvaziar todas as bibliotecas escolares do estado.

Criar um index – um repositório de obras banidas – é ideia tão velha quanto a invenção da imprensa. Aliás, é até anterior: na Idade Média, livros manuscritos já eram condenados ao Index Librorum Prohibitorum, o elenco das obras proibidas. É que, naquele tempo, quem mandava era a Igreja. Hoje não é mais assim, mas tem gente que não foi avisada.

Nesse sentido, o governo de SC não está inventando a pólvora. Inventando, não está, mas está acendendo o estopim, manobra arriscada.

Toda proibição de obra literária é sintoma palpável de que a sociedade está descambando para o autoritarismo, ladeira traiçoeira que se desce fácil mas que dificilmente se sobe sem ajuda externa.

Povo atento e escolado, os catarinenses deveriam dar um basta curto e grosso a essa operação de solapamento da formação do espírito crítico da juventude. Que os jovens leitores sejam alertados para trechos obscuros de determinadas obras é boa decisão. Que eles sejam orientados para entender certos livros e analisá-los no contexto da época em que foram escritos é procedimento excelente. Agora, simplesmente esconder textos, como se esconde o pote de geleia dos guris menorzinhos, é medida contraproducente.

Os primeiros autos de fé promovidos pelo regime nazista na Alemanha tiveram lugar já em 1933. Todos sabem como terminou a aventura. Não convém seguir o mesmo caminho.

Um espirituoso poderia até argumentar que, finalmente, chegou o incentivo que faltava para fazer a criançada voltar a ler. De fato, tudo o que é proibido é mais saboroso…

Temos que abrir o olho, que com essas coisas não se deve brincar. Essa moda que começou banindo palavras do dicionário e agora se dedica a banir livros da biblioteca é perigosa. Não leva a bom porto.

(*) Stendhal nunca revelou a razão do título “Le rouge et le noir”. Muitas conjecturas já se fizeram. A mais aceita é a de que o vermelho simboliza o exército, enquanto o preto representa o clero.

Toda alusão ao comunismo que pudesse ser imputada a Stendhal seria anacrônica. De fato, quando Karl Marx publicou o primeiro volume de sua obra maior, “O Capital”, já fazia vinte e cinco anos que Stendhal havia falecido.

Smog in Manaus

José Horta Manzano

Às vezes, o governo brasileiro parece considerar que os “louros de olhos azuis” (= estrangeiros de países adiantados) são todos meio abobados. Ou meio tantãs, como se costumava dizer nos tempos de antigamente.

Nossos burocratas esfregam estatísticas no olho de jornalistas internacionais com números impactantes de queda do desmate da Amazônia. Proclamam que nunca antes “nesse paiz” se desflorestou tão pouco. Garantem que, no próximo par de anos, mais nenhuma árvore cairá e nenhum bicho-preguiça morrerá queimado.

De repente, a natureza resolve atrapalhar a mise en scène. A chuva pára. Sem água, as queimadas se tornam mais evidentes e, imperiais, encobrem o sol e fazem do dia, noite. De repente, um fotógrafo indiscreto bate uma chapa como esta aqui abaixo.

Smog em Manaus

Catapimba, o mundo caiu! Mas o mal está feito. A foto aparece em toda a mídia do planeta. Como se sabe, uma imagem vale mil palavras. O blá-blá-blá oficial vai pro ralo. O que fica é a prova de que a situação está cada dia pior.

E os de olhos azuis continuam a se perguntar como é possível que o governo de um país tão importante não consiga fazer cumprir a lei em seu próprio território. Se o desmate está proibido, por que é que os fora da lei continuam a agir impunes?

São mistérios tropicais, insondáveis para não iniciados.