Collor na cadeia, muito bem. E os milhões?

José Horta Manzano

Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito após a ditadura militar, marcou a história do Brasil de forma trágica ao ser também o primeiro a sofrer um impeachment. Driblou a Justiça por décadas; vê-se agora finalmente na hora do acerto de contas. Condenado em derradeira instância, foi encaminhado para a prisão. É passo importante para um país que tanto clama por responsabilização. Antes tarde do que nunca.

Mas se a prisão de um figurão mostra que, no fundo, ninguém está acima da lei, resta a pergunta que ecoa por ruas e redes: e o dinheiro desviado? Os milhões roubados de cofres públicos e privados, fruto de corrupção, favorecimentos e obscuras transações, serão recuperados? Ou a punição se resume apenas à perda da liberdade, deixando que o apenado saia da cadeia amanhã tão ilicitamente rico quanto entrou? Talvez a informação tenha me escapado, mas não encontrei no noticiário nenhuma menção a confiscação do dinheiro embolsado ilicitamente.

Prender corruptos é necessário, mas tão ou mais importante é assegurar a reparação do dano causado ao erário ou a outrem. O confisco de bens, a devolução de valores desviados e a indenização pelos prejuízos são passos que precisam caminhar junto com a responsabilização penal. Sem isso, a Justiça corre o risco de virar apenas um espetáculo, sem efetivo efeito reparador para a sociedade. Devolução e multa milionária têm de marchar pari passu com a prisão.

O brasileiro comum, que paga impostos diretos e indiretos, que enfrenta fila em hospitais públicos, que vê a educação sucateada, tem todo o direito de querer mais do que o encarceramento de figurões metidos a besta como esse cavalheiro: exige-se o ressarcimento. Não basta punir o corpo; é preciso recuperar e confiscar o patrimônio rapinado. Sem contar a imposição de multa milionária, correspondente ao valor embolsado.

Collor foi para a cadeia, ótimo. Mas que a Justiça vá além. Que também desfaça o que foi construído à custa da corrupção. Só assim poderemos, de fato, torcer o braço à ladroagem que nos circunda e construir uma democracia séria e respeitada.

Sexta-feira da Paixão

José Horta Manzano

As sextas-feiras santas da minha infância eram marcadas pelo som dos sinos das igrejas e pelo perfume das flores frescas que adornavam os altares. Naquela época, a cidade inteira parecia entrar em um estado de contemplação e respeito, enquanto procissões serpenteavam pelas ruas, estreitas e largas, de terra e pavimentadas.

Naquele tempo, todos aprendiam desde pequeninos a diferenciar entre o profano e o sagrado, dois elementos que, como água e óleo, não se podem misturar. Eu me lembro da sensação de reverência que pairava no ar, misturada com a expectativa do sábado de Aleluia, dia em que os maiorzinhos tinham direito a dar com pau num judas de trapo e farrapo, amarrado a um poste. A meninava vibrava e mandava brasa porque tinham todos aprendido que o boneco representava um homem mau que estava ali pagando seus “malfeitos”. E dá-lhe paulada!

Depois vinha o domingo de Páscoa, dia especial em que todos se lançavam um “–Boa Páscoa!”. Eu não entendia bem por que razão os adultos externavam votos de que o dia de festa fosse bom. Pois o dia era, necessariamente, bom! Era domingo, não havia aula e, além de tudo, ganhava-se ovo de chocolate, um acontecimento!

Chocolate, hoje em dia, é mais disponível. Encontra-se em cada esquina e tem preço abordável. Naquele tempo, na venda do Seu Manuel, disponível era só doce de batata doce. E maria-mole.

Nas inchadas metrópoles brasileiras atuais, será que ainda se veem passar procissões?

Trapaça

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

José Horta Manzano

Futebolista de um time do Rio de Janeiro convocou família e amigos para organizarem, juntos, uma fraude. O objetivo era forjar um rápido enriquecimento ilícito para a numerosa parentada. Apostou-se na certeza de recebimento de cartão amarelo pelo futebolista. Tanto o rapaz fez, que conseguiu chamar a atenção do árbitro. E levou o tal cartão, fazendo feliz a família toda, cada um embolsando o prêmio correspondente a sua aposta.

Numa primeira apreciação do caso, o promotor havia concluído que essa fraude é comum no futebol brasileiro e que não valia a pena repreender.

Sem ser especialista em futebol (e muito menos em aposta esportiva), discordo do promotor. Não me parece normal que um crime, por ser cometido frequentemente e por muitos indivíduos, seja menos grave. Não estamos aqui falando de futebol de várzea, mas de jogo profissional.

Com a prática da fraude, os infratores estão:

  • passando a perna em outros cidadãos que apostaram certinho, sem embuste;
  • frustrando a veracidade daquilo que um dia foi “jogo bonito” e que hoje está mais para “me engana que eu gosto”;
  • incentivando colegas futebolistas, principalmente os novatos, a seguir o mesmo caminho e perpetuar a trapaça como modo de enriquecimento pessoal.

Longe do entendimento do mencionado promotor, entendo que cidadãos como o ora indiciado jogador devem ser punidos com rigor, incluindo algumas semanas de cadeia firme. Entre as ferramentas da prevenção, um exemplo de firmeza das instituições vale mais que mil ameaças.

  • Crime em bando organizado.
  • Crime contra a transparência do esporte nacional.
  • Fraude visando a lograr o grande público.

Vejam que, para tipificar o “malfeito”, denominações não faltam.

Família que trapaceia unida permanece unida? Tremai, famílias trapaceiras, tremai!

Imagens que intrigam

José Horta Manzano

Certas imagens me intrigam. Por exemplo, a foto estampada acima, tirada diante do hospital brasiliense que atualmente abriga Jair Bolsonaro.

Quando saiu a notícia de que o antigo presidente estava passando por uma intervenção cirúrgica complicada e de alto risco, muita gente deve ter se recolhido e pedido uma graça a seu santo de devoção. Muitos pediram proteção para o doente. Pode até ser que outros tenham formulado pedido diferente.

É normal e universal que um indivíduo se recolha para conectar-se com suas entidades protetoras. Em princípio, isso se faz em momentos íntimos, num ambiente caseiro e calmo. É nesse ponto que a foto me intriga.

Supõe-se que o retratado seja um apoiador de Bolsonaro em posição de oração. Se eu encontrasse o cidadão, ia fazer-lhe diversas perguntas. São caraminholas que não me saem da cabeça.

  • Por que razão preferiu prostrar-se em local público, à luz do dia, à vista de todos?
  • Qual o motivo de ter desfraldado nossa bandeira nacional, posicionada como se fosse altar?
  • Numa oração em que o fiel pede graças ao Altíssimo, a palma das mãos dever estar voltada para cima, simbolizando a espera das bênçãos que descem a este vale de lágrimas. Já o cidadão da foto voltou a palma das mãos para o hospital onde jaz o antigo presidente, numa postura que pode fazer escorregar as graças. Por que motivo voltou as mãos para o edifício? Acredita que, em vez de descer do céu, as bênçãos sejam emitidas pelo próprio ídolo recém-operado?

Quem entendeu o propósito do peregrino da foto, que me desculpe. Eu não entendi. Quando uma situação me parece fora dos eixos, gosto de tentar esclarecer.

Ocaso dos populistas

José Horta Manzano

Lula anda se comportando feito barata acuada. Corre pra um lado e pra outro, hesita em trocar ministros, tira da cartola um programinha populista aqui, outro ali, tudo de circunstância, sem consistência. Mostra, a cada dia, não ter programa de governo. Na sua cabeça, que parece ter estacionado no tempo de seus mandatos anteriores, imaginou que pudesse se comportar como Midas moderno, resolvendo todos os problemas com um toque. Não está dando certo.

Bolsonaro é outro que anda deslizando, cada vez mais enrolado. Nos bons tempos em que lhe serviam café quente, vencia todas e agredia sem medo todas as autoridades da república. Pairava, inatingível, acima da ralé e da grã-finada. Hoje o vento mudou. Não entra mais em palácio. Seus comparsas estão presos ou à beira de o ser. Desconcertado, agarra-se a qualquer miragem que lhe pareça poder livrá-lo da cadeia com a qual já tem encontro marcado.

Trump está decepcionando os que dele esperavam um poderoso “abre-te sésamo” que projetasse os EUA num futuro brilhante de riqueza e prosperidade. Suas promessas de campanha andam mal das pernas. A expulsão de 11 milhões de trabalhadores clandestinos está se verificando meta inatingível, fora de qualquer cogitação. O conflito ucraniano, que seria resolvido em 24 horas, foi posto de molho. Bombas continuam explodindo na capital ucraniana. O vaivém dos impostos de importação mostrou, depois de perturbar as finanças do planeta, que não tinha vindo pra ficar, que era só uma ameaça. Caiu mal.

Putin continua lá no seu canto, jururu, sem conseguir vencer a guerra que declarou contra um vizinho bem menor e menos poderoso que ele. Ele também há de estar perdendo a confiança em Trump, aquele que prometia acabar com a guerra em um dia.

Milei, dizem, também anda inconformado. Seu sonho teria sido que a Argentina, e não o Canadá, tivesse sido convidada a se tornar o 51° estado americano.

Marine Le Pen é deputada francesa da extrema direita populista. A cada eleição para a presidência da república, seu nome na urna é tão infalível quanto brigadeiro em festa de criança: está sempre lá. E já faz umas duas ou três vezes que passou para o segundo turno. Pois Madame acaba de receber uma pena de prisão e de cinco anos de inelegibilidade. Em vez de prisão, terá de andar com tornozeleira eletrônica, mas a inelegibilidade é pra valer: não poderá disputar a próxima eleição.

Os que mencionei não são os únicos, há muitos outros líderes populistas no mundo. Falei dos que estão mais próximos de nosso universo. A julgar por eles, este ano da graça de 2025 parece assinalar o fim – ou pelo menos uma pausa – na pestilenta vaga de populismo que nos circunda.

Tomara que a pausa dure bastante tempo. Tomara que as próximas presidenciais brasileiras não tragam nenhum candidato populista na urna. Uma eleição sem Lula e sem Bolsonaro será uma bênção.

São Benedito é santo forte. Não sei se seus braços alcançam Le Pen, Milei, Putin e Trump. Mas sei que têm poder em Brasília.

Sem Lula e sem Bolsonaro(s), por favor, meu Santo!

É o fim da minha vida

José Horta Manzano

O distinto leitor e a graciosa leitora hão de se lembrar da birra que Jair Bolsonaro tinha com a Folha de São Paulo. Birra? Que digo! Era ódio mesmo. Aconteceu mais de uma vez ele mandar expulsar jornalista(s) daquele veículo que ousassem estar presentes numa coletiva de imprensa.

Rei morto, rei posto. As coisas mudaram. Hoje, longe do poder, sem a caneta, sem mandato, sem imunidade, acuado pela justiça penal, Jair tem disfarçado a crista. Não digo que tenha perdido a soberba, mas, vez por outra, deixa de lado a pose de imbrochável (hoje recauchutado e amparado pela ciência) e veste a máscara de coitadinho.

Fez isso estes dias, ao aceitar ser entrevistado por uma jornalista (uma mulher!) da Folha. Com palavras humildes, respondeu às perguntas que lhe fez a moça. Como de costume, safou-se de toda culpa na trama em que é acusado. Não fez nada de errado, não cometeu nenhum deslize, não conspirou, não incentivou, não deu luz verde para nada, viajou para a Florida para não ter de passar a faixa, não sabe de nenhum crime, não invadiu palácio nenhum, não quebrou nada. E pergunta onde está a “prova” de um possível golpe.

Foi indagado sobre as consequências de uma eventual prisão, se isso poderia representar o fim de sua carreira política. A resposta veio de bate-pronto:


“É o fim da minha vida. Eu já estou com 70 anos!”


Eu, que já passei dos 70 faz uns bons anos, fiquei comovido. Me pus a imaginar a figura de um ancião confinado num cômodo de alguma vila militar, possivelmente na capital federal. Com armário, micro-ondas, minibar, tevê mural, banheiro exclusivo. Tudo isso e mais o escambau. Pode parecer o fino da hospedagem, mas não deixa de ser prisão, um lugar onde o hóspede fica confinado e não sai quando deseja.

Apesar da comoção, meu pensamento foi mais longe. Voltei cinco anos no tempo. Tornei a sentir o bafo de desespero que emanou do povo brasileiro naqueles dias de pandemia brava. Lembrei de gente carregando cilindros de oxigênio para acudir parentes morrendo de asfixia em hospitais, vítimas da inépcia do general que comandava o Ministério da Saúde (e que hoje é deputado federal!). Lembrei de um odioso Bolsonaro, que teve a ousadia de arremedar, diante de câmeras e microfones, os estertores da respiração ofegante dos moribundos.

Lembrei de muitas outras situações em que Bolsonaro se posicionou frontalmente contra os interesses vitais do povo brasileiro, que acabou contabilizando cifra assombrosa de mais de 700.000 mortos de covid-19.

Talvez, no futuro, a Ciência consiga estabelecer com certeza quantos óbitos devem ser debitados da conta do capitão, pelas ações tomadas e/ou decididas por ele no enfrentamento da pandemia. Hoje, mesmo não possuindo ainda essa fórmula, é lícito intuir que milhares, dezenas de milhares, quiçá centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se o então presidente quisesse realmente, como ele afirma na entrevista, “o bem do meu país”.

Para Bolsonaro, alguns anos numa prisão de primeira classe serão “o fim da vida”. Isso porque ele já está com 70 anos.

Há milhares de brasileiros, ricos e pobres, bolsonaristas e lulistas, jovens e velhos, para os quais não haverá prisão. Nem de primeira nem de última classe. Estão mortos. Para eles, o “fim da vida” já foi. A covid, associada à pusilanimidade pérfida do presidente, não lhes deu tempo de chegar aos 70 anos. Nunca verão os futuros netinhos.

Bolsonaro, de todo modo, um dia sairá da cadeia e voltará ao convívio dos seus. Suas vítimas, ai delas, não voltarão nunca mais.

Liquidificador

José Horta Manzano

Sempre me surpreendeu o comprimento da palavra liquidificador. São seis sílabas: li-qui-di-fi-ca-dor. É muita letra pra designar um aparelho relativamente pequeno. Outras línguas encontraram saídas mais curtas. Nós, não. Preferimos escrever por extenso. Na época em que esse aparelho apareceu, algo como liqüex ou liqüinho talvez soasse um tanto chué pra dar nome a objeto tão revolucionário. Há de ser por isso que preferiram palavra de dobrar a esquina.

Falando nisso, tenho notado que nós, brasileiros, damos preferência a palavras longas em detrimento das mais curtas. Por exemplo, em vez do velho , o somente parece ser mais apreciado hoje em dia. O só está ficando só, abandonado num canto.

Um outro caso é o do antigo verbo pôr que, caído em desuso e quase em via de extinção, foi substituído por co-lo-car. Outro dia li a surpreendente história de uma jovem que, desertada pelo namorado, decidiu “colocar fogo” no apartamento dele. Fiquei imaginando a moça fantasiada de vestal romana subindo as escadarias do templo levando nos braços uma pira com o fogo sagrado para colocá-lo ao pé da estátua de Vulcano, o deus do fogo original. Isso, sim, seria “colocar fogo”. Fora isso, é melhor dizer ‘pôr foto em’, ‘atear fogo a’ ou, melhor ainda, ‘botar fogo em’. Sem falar no familiar ‘tacar fogo em’.

Outra palavra que espichou foi fim, atualmente substituída por final. Ninguém mais deseja um bom fim de semana, mas um excelente “final de semana”. Talvez a palavra mais comprida dê impressão de prolongar o tempo de descanso.

A simpática aeromoça de antigamente deu lugar à não menos simpática comissária de bordo ‒ título menos caseiro e mais pomposo, sem dúvida. E mais comprido também.

E a hora que virou horário então? A hora legal, ditada pela Divisão do Serviço da Hora, do Observatório Nacional, é hoje conhecida como horário: horário de verão, horário de Brasília. Este blogueiro é do tempo em que a palavra horário era reservada para indicar algo que ocorria em tempo ritmado, cadenciado, limitado como em horário de funcionamento, horário de trabalho, horário de saída dos ônibus.

E o problema, que se está transformando em problemática? Vejo aí contaminação vinda de palavras modernas como informática e telemática. Bom, convenhamos: problemática tem um charme e um perfume erudito que problema está longe de ter.

E assim vamos nós, sempre acrescentando penduricalhos, raramente podando, arcados sob o peso crescente. E vamos em frente, que um dia ainda chegamos lá.

Asilo em embaixada

José Horta Manzano

Bolsonaro já deixou entender que, a qualquer momento, com ou sem passaporte, pode pedir asilo numa embaixada em Brasília. Muitos analistas vão nesse sentido e dão crédito ao que diz o capitão. O grande Elio Gaspari já previu que Jair Messias não passará nem um dia atrás das grades porque vai se asilar. Minha visão é menos otimista. Acho importante fazer a diferença entre pedir e obter o tal asilo. Pedir qualquer um pode. Conseguir são outros quinhentos.

Se o distinto leitor acordar um dia disposto a se asilar numa embaixada chique, pode vestir terno de três peças, preparar pequena valise com o necessário para alguns dias e tocar a campainha do imóvel. Em seguida, pode escrever: terá 100% de probabilidade de receber resposta negativa. Não vão nem lhe permitir a entrada.

Bolsonaro imagina-se um ser superior à ralé que o circunda. Acredita que basta se apresentar pelo porteiro eletrônico que um tapete vermelho vai se desenrolar para sua entrada triunfal. Cada um acredita no que quer. Se eu fosse ele, não teria tanta certeza do roteiro.

Todos nos lembramos dos dois dias que ele passou dentro da embaixada da Hungria em fev° 2024. O episódio foi tão escondido que nenhum veículo da imprensa nacional tinha ficado sabendo. Quem revelou o enredo foi o jornal The New York Times, um mês depois – com fotos, que é pra ninguém duvidar.

Quanto a mim, entendi que os acontecimentos tinham sido revelados ao NYT pela própria embaixada a mando do governo húngaro. Valeram-se do jornal mais importante do mundo para deixar claro que o ex-presidente tinha penetrado na embaixada por sua própria conta, que não tinha havido nenhum conluio, que ele havia pedido asilo e que Budapeste havia negado. Bolsonaro já era página virada e a Hungria não tinha interesse em se indispor com o governo brasileiro.

Pois a mesma realidade continua valendo. Desde que o ex-presidente deixou o Planalto, o mundo virou a página Bolsonaro. Bola pra frente. Política se faz com a razão, não com o coração. Os países com embaixada em Brasília pretendem manter boas relações com o Estado brasileiro, sejam quem forem os governantes de turno.

Bolsonaro tornou-se um estorvo, uma batata quente que ninguém quer segurar, um mico do qual cada um quer se livrar. Assim que for julgado e condenado, caso ouse se enfiar em alguma representação estrangeira, ele periga ser incluído na lista dos foragidos da Interpol. Ninguém está disposto a carregar trambolho.

Trisal

José Horta Manzano

A criatividade do brasileiro já foi maior. No século passado, conceitos novos eram quase sempre traduzidos ou adaptados para nossa maneira de falar. O simples mixer deu liquidificador, incômoda palavra de seis sílabas que se enraizou na língua e não se foi. Já hoje, um air fryer se diz air fryer mesmo, cru e com casca. Ninguém se dá mais ao trabalho de traduzir nem de adaptar.

Hot dog, iguaria conhecida no mundo inteiro com o nome original, virou cachorro quente entre nós, numa tradução jocosa e genial. Sandwich, que guardou a grafia original por toda parte, se naturalizou como sanduíche em nossa terra. O mesmo aconteceu com as francesas maillot, embrayage e capot, que se tornaram respectivamente maiô, embreagem e capô.

Apesar da aparente preguiça que atinge os habitantes de uma Pindorama (que, acreditem, já foi morna e úmida e não escaldante como atualmente), por vezes uma centelha ilumina a penumbra e nos brinda com uma palavra nova. E original.

É o caso de trisal, que dá nome a uma curiosa composição conjugal que, na minha opinião, é fadada a ter vida curta. Falo da composição conjugal, não da palavra em si. A palavra pode até ser que continue em uso por décadas, mas não acredito que um trisal aguente décadas.

Trisal há de ser conceito recente, visto que meu dicionário Houaiss, que já soprou 23 velinhas, não abona esse termo. É palavra que tem seu charme, goste-se ou não. Imagino que seja produto nacional – pelo menos, nunca vi termo correspondente em outra língua. Como palavra de difícil tradução, entra para o mesmo balaio que saudade e conceitos de igual jaez.

Estes dias, o trisal, deixou o campo lúdico para sapatear no tablado da injúria. A ofensa pessoal gratuita é um vício feio e inútil que, incentivado pelo imediatismo da internet, foi plenamente adotado, não sei por que razão, pela turma da extrema direita. Parlamentares que, vivendo à custa de obesos salários pagos pelo povo, se autorizam criar, do nada, mensagens insultantes e mandá-las ao ar na esperança de “lacrar” não devem ser mantidos no cargo.

Tanto faz que sejam deste ou daquele partido, que se ajoelhem diante deste ou daquele líder, que professem este ou aquele credo. Tanto faz. De elementos assim, nosso Congresso não precisa. Estão ali ocupando uma poltrona que poderia ser confiada a um cidadão mais sério, de espírito menos adolescente. Lugar de gente assim é no boteco, não no Parlamento. Em casos mais graves, que sejam mandados para a Papuda.

A esta altura, percebo que não dei detalhes do caso. É que imaginei que meus espertos leitores já estivessem a par. Trata-se das estrepolias de um deputado de nome Gayer, apoiador do capitão Bolsonaro, afiliado ao PL. A história começou com a estupidez dita por um Lula que atualmente se debate num atoleiro de maionese. A fala de Luiz Inácio, sem ser uma ofensa pessoal, era de um machismo primitivo, não condizente com os dias atuais. O deputado Gayer aproveitou a deixa para descer alguns andares na graduação da baixaria. Sugeriu que se formasse um trisal entre dois parlamentares homens e a presidente do PT. E deu nome aos bois!

Talvez algum fanático seguidor tenha achado graça. Os componentes do trisal mencionados por Gayer não sorriram. Para azar do deputado ofensor, um dos personagens de sua fantasia é o presidente do Congresso, senador Alcolumbre. Furioso, este último prometeu denunciar o desbocado personagem ao Conselho de Ética com vistas à cassação do mandato de Gayer por quebra de decoro parlamentar.

Torço para que o procedimento chegue a bom porto e que o deputado seja cassado. Será bom como exemplo. Quem sabe, depois disso, os parlamentares pensarão duas vezes antes de discursar no plenário debaixo de uma peruca amarela, como fez outro dia um fiel acólito do capitão.

Inelegibilidade

José Horta Manzano

Estava lendo agora há pouco um relato n’O Globo sobre a possível extensão da inelegibilidade de Bolsonaro se, porventura, vier a ser condenado. Explica o texto que a inelegibilidade passa a contar do fim da execução da pena. Se, por exemplo, o ex-presidente viesse a receber a sentença máxima (43 anos), estaria inelegível por 50 anos.

Se essa é a lei atual, cumpre-se. Leis são feitas para serem cumpridas. Mas também são feitas para serem alteradas. Essa história de inelegibilidade temporária me intriga.

Ao condenar Bolsonaro a oito anos de privação do direito de ser eleito, pressupõe-se a expectativa de que, ao final do período de privação de eleição, o antigo presidente se tenha transformado, que sua personalidade volte despida de toda agressividade, que seu comportamento reapareça livre de intenções golpistas.

Ora, sabemos todos que não será assim. Pau que nasce torto não tem jeito, morre torto. Desde a juventude, quando tentou criar o caos no Exército por meio de explosivos, Jair Messias não mudou um milímetro. Assim como entrou na Presidência, saiu. Como é que alguém pode ter a ilusão de que ele se transformará após 8 anos de provação? Que acompanhamento psicológico foi previsto para ele durante esse período de abstinência de votos? Nenhum.

Logo, o período de inelegibilidade é apenas um castigo, uma punição, sem esperança de remissão dos pecados, ou seja, de regeneração da personalidade. Se assim for, parece-me medida inócua, que só protela a volta do malfeitor, carregado dos mesmos defeitos que lhe eram peculiares.

Por seu lado, se um indivíduo é condenado a não mais ter o direito de candidatar-se a cargo público, a mim parece que a pena deveria ser definitiva. Dado que o cidadão foi condenado por defeitos de sua própria personalidade, não faz sentido dar-lhe um castigo temporário. Ao final, voltará com os mesmos defeitos, se candidatará e, caso seja eleito, espalhará os mesmos problemas.

Em resumo, penso que a condenação à inelegibilidade deveria ser definitiva, sem possibilidade de volta atrás. Ou que, caso se acredite na possibilidade de “cura” do apenado, que se o obrigue a seguir os passos médicos ou psicológicos impostos pelo tribunal.

O teto da igreja

by Gilmar de Oliveira Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Parece que, no Brasil, a gente só toma consciência da degradação quando é tarde demais. O incêndio do Museu Nacional, alguns anos atrás, causou comoção na sociedade. Pouca gente sabia que aquele palácio, além de haver abrigado reis e rainhas, encerrava a maior parte da escassa memória nacional. Na fogueira daquela noite, só não se perdeu o que era de pedra, como o meteorito Bendegó, que despencou no céu baiano e lá foi encontrado no século 18. O resto ardeu, virou pó, não volta mais.

Dirão os cínicos: “Quem precisa daquelas velharias, se a IA pode reconstituir tudo, tim-tim por tim-tim?” É, pode-se comparar com o(a) namorado(a) que um dia se vai mas deixa uma foto. Ainda que o retrato seja um holograma em tamanho real, com a boca que se mexe e os braços que se abrem, será sempre uma imagem eletrônica, fria de temperatura e de calor humano. Por minha parte, dispenso a IA e fico com o original.

Aconteceu agora outra desgraça. Desta vez foi na Bahia e a vítima foi a Igreja de São Francisco de Assis, no Pelourinho, templo que também responde pela preciosa alcunha de Igreja de Ouro (ou Igreja do Ouro). Além de ser tombada pelo Iphan, foi eleita uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, junto com outras 6 construções espetaculares espalhadas no mundo todo. Apesar dessas credenciais, parte da alvenaria do teto desabou semana passada. Deixou um morto e meia dúzia de feridos. A igreja continua de pé mas, como se vê, está literalmente caindo aos pedaços. Convém não protelar o início de uma reforma geral das estruturas.

Ao tomar conhecimento do desastre, Lula da Silva aproveitou o primeiro microfone que lhe ofereceram para se pronunciar sobre o assunto. Lamentou o ocorrido e disse que o problema é a facilidade com que se tombam edifícios sem se preocupar em saber se a cada tombamento corresponde uma dotação destinada à manutenção.

Sua Excelência tem razão. O bom senso recomenda que, a cada nova incumbência que se dá ao poder público para zelar por um edifício, deve corresponder a respectiva dotação financeira. É assim que, num mundo ideal, as coisas funcionam. No Brasil, infelizmente, muitas autoridades vivem num país de fantasia, como Alice do outro lado do espelho. Tomba-se o edifício, auferem-se os louros da vitória da boa causa. Mais tarde, é só quando o palácio queima por falta de sprinklers (chuveiros automáticos) ou o teto desaba por falta de manutenção que o mundo vai perceber que não havia verba. Tarde demais.

Lula da Silva tem razâo, mas faltou ir até o fim do raciocínio. O presidente não é um cidadão como os outros. Ele pode mais do que a maioria de nós. Só reclamar da falta de verba, podemos você e eu, mas ele tem de ir além. O bom discurso teria que apontar o problema e a solução.

Sua Excelência tinha de ter dito algo assim: “Amanhã vou encarregar meu ministro da Cultura de preparar um projeto de lei vinculando todo tombamento – municipal, estadual ou federal – à garantia de uma dotação para a respectiva manutenção. Sem verba, não se fará mais nenhum tombamento.”

Pronto, assim o discurso teria sido mais produtivo do que a simples reclamação estéril do cidadão desiludido. Teria mostrado que o bom presidente não foi eleito somente para se lamentar e chorar em público, mas também – e principalmente – para resolver problemas. Ele sempre pode mais que nós.

Coincidências

José Horta Manzano

Certas coincidências são dramáticas e inquietantes. Três dos acidentes aéreos com aparelhos de pequeno porte que mais assustaram e comoveram o país ultimamente aconteceram com o modelo King Air do fabricante americano Beechcraft.

19 janeiro 2017, Paraty (RJ)
Modelo King Air C90GT desapareceu dos radares sobre o mar de Paraty matando 5 ocupantes, entre eles Teori Zavascki, ministro do STF

5 novembro 2021, Caratinga (MG)
Modelo King Air C90A chocou-se contra um cabo de alta tensão e estatelou-se num terreno rochoso. Nenhum dos viajantes sobreviveu. Entre eles, estava a cantora Marília Mendonça.

7 fevereiro 2025, São Paulo (SP)
Modelo King Air F90, por motivos ainda não esclarecidos, precipitou-se numa avenida movimentada da cidade de São Paulo em horário de pico matando os dois ocupantes. Entre eles, estava o dono do aparelho, o advogado gaúcho Márcio Louzada Carpena.

O homem da continência

John Bolton

José Horta Manzano

Na manhã do dia 29 de novembro de 2018, já eleito mas ainda não empossado, Bolsonaro recebeu em sua casa do Rio de Janeiro um emissário do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O visitante era um senhor de cabelo e bigode brancos chamado John Bolton, assessor de Segurança Nacional nomeado por Trump.

Assim que Mr. Bolton apontou no portão do jardim, um entusiasmado capitão, empertigado na soleira da porta de casa, bateu continência ao visitante(!), aquela saudação que um militar deve obrigatoriamente fazer diante de outro militar de grau mais elevado que o seu.

O primeiro a se surpreender com o gesto deve ter sido o próprio americano, desacostumado a ver as regras militares tratadas com leviandade, mas a mídia brasileira tampouco deixou passar em branco. Os comentários foram de espanto com a atitude do novo presidente do Brasil que, assim, deixou clara sua postura de curvar-se diante dos EUA, representados ali pelo emissário. Pegou supermal.

Nem o suco de caixinha e o pão com leite condensado servidos naquele petit-déjeûner em honra ao hóspede tresnoitado foram capazes de atenuar a sombra de mal-estar que pairava no ambiente. Mr. Bolton entregou a Bolsonaro o convite que Donald Trump lhe fazia para visitar os Estados Unidos.

Os anos passaram, Trump perdeu a reeleição, Bolsonaro terminou seu governo calamitoso e também perdeu a reeleição. Agora, depois de quatro anos atravessando o deserto, Donald Trump conseguiu ser de novo eleito para a presidência. Nas 24 horas que se seguiram à tomada de posse, despejou um balde de decretos carregados de ressentimento, raiva, perseguições, intolerância. Desfez medidas que seu antecessor havia implementado. Atirou a torto e a direito.

Um dos projéteis atingiu John Bolton, seu antigo assessor de Segurança Nacional, aquele que havia sido homenageado com a continência de Bolsonaro. O homem aparentemente caiu em desgraça, não se sabe exatamente por que razão.

O que se sabe é o seguinte. Em 2021, o presidente Joe Biden tinha concedido a Mr. Bolton proteção permanente do Serviço Secreto em razão de ameaças de morte proferidas pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Pois ao voltar à presidência esta semana, Trump revogou a proteção policial permanente dada a Mr. Bolton. Supõe-se que tenha feito isso por capricho, só para desfazer o que Biden tinha feito. Veja em que mãos está o governo dos EUA!

Bem, Bolsonaro que se cuide. Assim como ele mesmo faz com seu costume de abandonar amigos e correligionários feridos pelo caminho, Trump leva jeito de fazer igual.

Trump aprecia ganhadores, vencedores, os que ele chama de “winners”. Um Bolsonaro no Planalto podia até interessar Trump, mas um Bolsonaro na rua da amargura, cheio de processos e ameaçado de cadeia, periga ser atirado ao mar para alegria de tubarões e camarões.

E o barco segue.

Tu não te manca?

by Laerte Coutinho (1951-), desenhista paulista
via Folha de S. Paulo

José Horta Manzano

Chega a ser irritante a insistência do ex-presidente Bolsonaro em fazer de conta que ainda é o que já deixou de ser. De fato, um indivíduo que foi apeado do poder há dois anos e que é hoje inelegível e indiciado em um balaio de crimes deixou de ser um cidadão comum, como a maioria de seus concidadãos. Ele é hoje uma pessoa suspeita de ter praticado crimes e tem, portanto, contas a prestar à justiça.

Você e eu não vivemos sob “medidas cautelares” impostas pela justiça do país. Não temos de bater o ponto na delegacia; não precisamos pedir licença para visitar quem nos dê na telha; não estamos de passaporte retido pelas autoridades, impedidos de pôr o pé fora do país. Bolsonaro não pode dizer o mesmo. Suas liberdades estão cerceadas. É um indivíduo a um passo da infâmia de tornar-se réu da justiça criminal.

Apesar disso, ele volta e meia dá uma de joão sem braço e manda seus advogados solicitarem ao STF favores aos quais não faz jus. Sua proeza mais recente foi pleitear lhe concedessem autorização especial para reaver o passaporte e partir para uns dias de vilegiatura em Washington (EUA). A-do-ra-ria prestigiar(?) os festejos da tomada de posse de Donald Trump como presidente do país. Se conseguisse tirar uma selfie ao lado do empossado, então, seria a glória, a consagração.

Ó Bolsonaro, tu não te manca não, cara? – é assim que a gente costumava arrematar uma ousadia desse calibre. É impressionante como certos caras se consideram importantes como se fossem figurinha carimbada, enquanto não passam de reles figurinha rasgada. Não ornam mais nem álbum de criança.

Por que, raios, a justiça concederia favores especiais a um sujeito que passou os quatro anos de seu mandato a invectivar as instituições da república, o Judiciário em particular?

Que ele curta o empossamento de seu amigo Donald pela tevê, como todo o mundo, sentado no sofá da sala. Que aproveite, porque, quando estiver em cana, talvez nem direito a televisão lhe concedam.

Fique esperto!

José Horta Manzano

Este escriba é do tempo em que produtos alimentícios não eram etiquetados com data de validade. Nenhum artigo tinha data, nem mesmo garrafas de leite fresco. E como é que se fazia pra sobreviver sem se envenenar neste mundo tão cheio de perigos?

Pra começar, o mundo era menos perigoso, pelo menos é a lembrança que guardo. Por seu lado, visto que nunca ninguém tinha ouvido falar de etiqueta de validade, estávamos todos preparados pra resolver esse tipo de problema com nossos próprios meios.

Peixe no mercado ou na feira? Um rápido exame do olho do bicho nos indicava se era fresco ou se já começava a passar. Frutas e legumes? Um exame visual também era suficiente. Congelados? Não havia. De todo modo, ninguém tinha congelador. Leite, manteiga, queijo? Quem detectava o estado do artigo era o nariz do freguês. Uma cheirada bastava para dar o veredicto. Em vez de etiqueta com data, tínhamos o conhecimento familiar, transmitido de mãe para filha (e de pai para filho também).

Desde que a data de vencimento passou a ser indicada nos produtos, esses reflexos antigos começaram a se perder. Hoje a gente vai buscar os óculos, torce o pescoço e vira a embalagem de todos os lados até encontrar a data. A ninguém mais ocorre recorrer aos métodos antigos. Talvez o conhecimento milenar legado de geração em geração desde o tempo das cavernas, esteja se perdendo, atropelado pela comodidade da etiqueta de validade, que nada mais é que um nariz alheio cheirando nossa comida.


O planeta anda desacorçoado porque aquele bilionário cujo nome lembra um pão de açúcar, dono de Facebook e Instagram, decidiu abolir, ou pelo menos afrouxar, a restrição de notícias falsas que circularem por suas redes. Muita tinta tem sido gasta em comentários e catastróficas previsões sobre o futuro das redes. Sobreviverão, perguntam-se muitos, ou a rede vai virar uma cacofonia dos diabos, um imenso mercado persa em que todos gritam e ninguém se entende?

Olhe, com ou sem controle de “fake news”, eu diria que o ambiente já é caótico, um universo onde a gritaria é tanta que acaba impedindo a circulação da boa informação.

Muitos dos que estão há tempos mergulhados nesse universo sobreviveram até hoje e já provaram ser capazes de viver na tormenta, com mar revolto e ondas gigantescas. Para esses, a eliminação da censura prévia não fará quente nem frio. De toda maneira, sabiam se virar sozinhos.

Para os que se sentirem perdidos, meu conselho é adotarem o sistema da vovó. Não é complicado, é mais ou menos como expliquei nos primeiros parágrafos. Já que vão eliminar todas as etiquetas de validade, o que nos resta é sopesar cada pedaço de informação e só então aceitar ou rejeitar. É bom se desacostumar a engolir como verdade absoluta tudo o que vem escrito.

O novo esquema nos tira uma comodidade (o material não vem mais depurado de vícios e inverdades) porém nos abre largas possibilidades de desenvolver nosso espírito crítico. Agora podemos julgar por nós mesmos, situação que faz bem ao espírito.

No começo, não vai ser fácil. Uma vez passado o tempo de aprendizado, vai ficando mais fácil distinguir o verdadeiro do falso. No fundo, se os frequentadores das redes aproveitarem a oportunidade para aprender a mastigar a própria comida, o clima de liberou geral das redes terá sido uma dádiva.

Obrigado, Mr. Musk, Mr. Pão de Açúcar e quem mais vier!

A fonte da juventude

José Horta Manzano

Outro dia, estava lendo a incrível história de um magnata americano, homem de meia idade, que enfiou na cabeça a ideia de permanecer jovem para sempre. Diz ele que despende milhões todo ano – ele pode, ora – com medicamentos, práticas de cultura física, ingestão de moléculas experimentais. Tem-se submetido a protocolos agressivos de tratamentos anti-envelhecimento (em português: “anti-aging”). A troca de plasma intergeneracional com o filho de 18 anos faz parte da bateria de procedimentos.

A busca da eterna juventude está em pauta desde o alvorecer da humanidade. Cada civilização acrescentou um tijolo na construção do conjunto de lendas que ilustram esse sonho.

Muitas expedições de conquistadores ibéricos sofreram triste desencanto ao não conseguir localizar, depois de anos de busca em terras americanas, o almejado Eldorado, lugar fantástico todo feito de ouro, onde não se envelhecia.

A fonte da juventude é tema recorrente em lendas europeias. O pacto com o diabo para obter a juventude eterna é ideia que, volta e meia, também reaparece, em poemas, romances e como tema de ópera.

De maneira subjacente, a conservação da juventude é tema latente de uma lenda como a da Bela Adormecida, que narra a história de uma jovem que, após um século de letargia, desperta garbosa e sorridente, com a mesma idade que tinha ao adormecer.

Sem querer ser desmancha-prazeres, devo dizer aos que acreditam na eterna juventude que estão iludidos. Se isso fosse possível, já estaríamos sabendo, sobretudo agora que as redes sociais liberaram geral e que cada um pode cuspir veneno como bem lhe aprouver.


“Limitar o consumo de café a um único período do dia reduz o risco de morte

diz a manchete jornalística reproduzida na entrada deste artigo.


A afirmação é falsa, é pura fake news. Nem o papa, com seus bilhões de fiéis; nem o Musk, com seus bilhões de dólares; nem Trump, com seus bilhões de mentiras; nenhum deles tem poder de reduzir o risco de morte de quem quer que seja. Os seres humanos, como todos os seres vivos, hão de morrer um dia. Mais cedo ou mais tarde, não tem como escapar. É um risco que não há como reduzir. É uma certeza.

Portanto, tome café quando quiser e não acredite nessa balela de redução do risco de morte. A indesejada das gentes virá um dia, armada com sua foice, e nos levará a todos, um por um.

Viva o café, produto que sustentou nossa economia durante pelo menos dois séculos! Ele faz parte de nossa cultura e de nossa constituiçâo física.

Perigos da praia

José Horta Manzano

A foto que ilustra este artigo mostra, ao fundo, uma beira-mar de águas cinza chumbo, um dia de pouca luz, uma praia sem sequer uma palmeira para abrigar os frequentadores nos dias de calor. Em primeiro plano, ocupando 4/5 da fotografia, um apinhado de espigões de concreto armado, dando um toque de “exotismo” ao todo.

O ser humano é animal terrestre. Caminhar no chão seco é com ele mesmo. Já se meter na água é outra história. Para nós, a água é, por natureza, um mundo estranho e cheio de perigos.

Não sei se são justamente esses perigos que atraem homens, mulheres e pequerruchos; assim que chegam os dias mais quentes, correm todos para as águas mais à mão: banho de cachoeira, passeio de barco (ou jetski para os afortunados), banho de mar – ainda que na orla estejam plantados mil espigões de concreto.

Tirando os mais excêntricos – e mais abonados –, poucos se animarão a fazer uma viagem de avião para um banho de cachoeira na África tropical. São menos ainda os que voarão para um passeio de jetski nas águas da Laguna de Veneza. Já os banhos de mar estão ao alcance de mais gente. Quem pode, não hesita.

Entre as primeiras providências, estão aquelas que nos protegem contra os perigos que a proximidade das águas representa. Bloqueadores de UVs indesejados. Repelentes contra mosquitos, muriçocas e pernilongos. Escolha de praia livre de perigosas correntes, torrentes, borbulhões, correntezas e rodamoinhos. Escolha de praia distante da foz de rios e riachos que possam estar contaminados.

No mundo todo, praias são lugares potencialmente perigosos. Dependendo da natureza do perigo, as autoridades fazem a lista dos riscos que cada ponto representa. Há praias com crocodilos, com imensas aranhas passeando pela areia, com medusas venenosas colorindo o mar, com tubarões farejando pernas apetitosas. Há praias contaminadas com mercúrio, com coliformes fecais, com material radioativo residual.

Painéis costumam ser fincados em atenção a banhistas arrojados: “Não nade aqui!”, “Poluição química!”, “Cuidado, medusas!”. É assim por toda parte. Em cada lugar, os perigos locais são anunciados. É natural. O visitante não é obrigado a saber tudo.

O Estadão bolou uma ferramenta interativa que indica as praias mais perigosas do estado de São Paulo. Curioso, fui ver o que era e como funcionava. Nada a reclamar contra a ideia nem quanto ao mecanismo. Só que o perigo não era o que eu tinha imaginado. A ferramenta não alerta contra tubarões, medusas, vórtices ou contaminação química. O objeto do estudo é a presença da criminalidade nas praias.

Criminalidade nas praias! Algumas décadas atrás, essa expressão só poderia referir-se a roubo de toalha: “Se for entrar no mar, não deixe sua toalha sem ser vigiada”. O pior que podia acontecer era o cidadão, ao voltar, ter o desapontamento de descobrir que sua toalha havia batido as asas.

Já hoje a criminalidade perdeu a ingenuidade. Se o honesto cidadão tem direito a férias, a bandidagem também tem. Por coincidência, os dois grupos de população escolhem as mesmas praias. Como resultado, o meliante continua exercendo seu ofício mesmo durante os períodos de recesso enquanto o honesto cidadão, durante as férias, continua a correr de bandido.

Faz sentido. Todos se sentem em casa e a vida segue.

Que marca é?

O Globo online, 2 jan 2025

 

Folha online, 2 jan 2025

 

Estadão online, 2 jan 2025

José Horta Manzano

Quando eu era adolescente, tínhamos uma brincadeira especial que precisava de dois comparsas. Ficavam os dois sentados na calçada, um de frente para o outro de modo que cada um só podia enxergar os carros que vinham de uma das pontas da rua. Cada um tinha de adivinhar, só pelo ruído do motor, a marca de cada automóvel que vinha vindo às suas costas.

Na verdade, não era muito complicado visto que, naqueles tempos recuados, grande maioria dos carros eram Chevrolet e Ford, que tinham motor de ronco reconhecível. Mais difícil era quando surgia um Pontiac, um Studebaker ou um Lincoln.

E a gente continuava:

“É um Chevrolet!”
“É um Ford!”
“É um Austin!” (Este fazia barulho de motor fraquinho)

E assim por diante. Jamais nos veio à ideia dizer: “É um carro da Ford!” ou “É um carro da Chevrolet!”.

Acho que ainda se fala igualzinho, não é?

Pois hoje, ao ler a notícia de um atentado com carro-bomba ocorrido em Las Vegas (EUA), me dei conta de que os automóveis fabricados pelas indústrias do neopolítico Elon Musk fogem ao antigo costume que vale para todos os concorrentes. Nenhum dos três maiores jornais do país relatou a explosão de “um Tesla”; todos eles contaram a explosão de um carro da Tesla.

Achei estranha essa hesitação em dar nome aos bois. Se se trata de um carro e se o fabricante é Tesla, é um Tesla. Como seria “um Ford” ou “um Mazda” ou “um Toyota”. Por que razão se faz essa diferença com os automóveis de Mr. Musk?

A firma é nova
Não me parece argumento válido. Uma firma fundada em 2003 (22 anos atrás) não entra nesse conceito de “nova”.

O dono é bilionário
E daí? Por que, diabos, uma marca automobilística deveria ser tratada com maior ou menor respeito segundo a fortuna do proprietário? Mr. Ford e Mr. Chevrolet também nadavam em dinheiro.

O carro é elétrico
Há elétricos de outras marcas, mas todos entram na regra comum. Só Tesla escapa.

Tesla não soa como nome de montadora
Concordo que Tesla soa mais como marca de secador de cabelo. Mas uma coisa não justifica a outra. Gurgel, marca efêmera de automóveis nacionais que existiu pelos anos 70 e 80, também parecia mais ser nome de família da alta burguesia próxima ao imperador; assim mesmo, ninguém dizia “um carro da Gurgel”, mas sim “um Gurgel”.

Em resumo, não encontrei razão sólida que justifique tratar com tão reverenciosa distância os automóveis do futuro ministro de Trump. Se alguém souber, por favor mande cartinha para a redação.

Tenho mais uma observação. Antigamente se dizia que o acidente “deixou um morto” ou “fez um morto”. Dava-se por entendido que o morto era um humano, não um animal. Hoje vejo que é preciso especificar que o acidente “deixou uma pessoa morta”.

Por que escrevem assim? Para deixar mais claro? Não acredito. Concluo que a intenção oculta, nesse caso, é o respeito à ditadura do politicamente correto.

Falar de “um morto” pode até dar a entender aos ingênuos e delicados ouvidos modernos que se trata de um homem morto, não de uma mulher. Para clareza absoluta, usa-se a forma neutra “pessoa”.

“Uma pessoa morta” tanto serve para um defunto como para uma defunta. Sinal dos tempos. A sexualidade nos persegue além-túmulo.

O general e o caviar

José Horta Manzano

O Globo informa que o general Braga Netto está detido na 1ª Divisão do Exército, na Vila Militar (Rio de Janeiro). Acrescenta que o preso tem à sua disposição uma suite individual (quarto com banheiro exclusivo), armário, geladeira e televisor.

Tem gente que, ao saber da notícia, se indignou, bateu o pé no chão, cuspiu pra cima, jogou sal pra trás do ombro. Como assim? Com os presos comuns amontoados em celas de 40 indivíduos, esse aí vive como num Palace Hotel?

Pois eu digo que o importante não são as condições de detenção do graduado. O principal é ele ter sido abatido em pleno voo, apesar de todas as estrelas que carrega no ombro e da soberbia que lhe acalenta a personalidade. Lembre-se que, em qualidade de grã-general, Braga Netto tem direito a mais regalias.

A qualquer momento, pode mandar um ordenança até a banca da esquina comprar os jornais do dia. E as notícias vão martelar-lhe no ouvido a revelação de obscuras transações ora expostas à execração do distinto público.

Não há de ter perdido tampouco a edição deste domingo do Fantástico, que lhe reservou um bloco. Com ou sem cara feia do interessado, o Brasil está sabendo do comportamento criminoso de que o general é acusado.

Tem ainda a vergonha diante de todos os residentes e frequentadores do enorme (e belo) edifício onde ele se encontra: todos têm permissão para sair à rua quando de folga, só ele não tem.

A razão é simples: ele está preso, ora veja só.

Em matéria de conforto carcerário, todo o mundo sabe que os chefões de máfias e facções, embora presos, levam vida de sultães. Caviar, foie gras e champanhe fazem parte do regime, iguarias que não costumam ser servidas com frequência à mesa dos oficiais da Vila Militar.

Não se perca fazendo continha de mesquinho. Lembre-se que o general está preso, fora de circulação, tolhido de seu direito de ir e vir. Está no xilindró.

Pra coroar uma carreira 4 estrelas, não há castigo pior.

O general na cadeia

José Horta Manzano

Nosso país conserva normas que criam privilegiados. Desde os tempos em que ainda não havia regras nesta América portuguesa, o aventureiro branco vindo d’além-mar tinha automática ascendência sobre os gentios. Era o direito habitual, que dispensa leis escritas e é por todos reconhecido como natural.

Escritas ou não, normas discriminatórias continuam a favorecer castas privilegiadas até hoje. Entra governo, sai governo, estoura revolução, baixa a poeira, ensaia-se golpe de Estado, acalmam-se as coisas – mas os privilégios permanecem.

Me parece justo que um militar de profissão, tendo cometido crime durante seu engajamento na tropa, esteja sujeito à lei militar e seja por ela julgado. Se for condenado a pena de privação de liberdade, é compreensível que a cumpra em prisão militar.

Já um militar reformado que se veja diante de justiça civil por malfeitos cometidos deverá, no meu entender, ser submetido a destino semelhante ao de seus concidadãos civis: será julgado por tribunal civil e, em caso de condenação, comprirá a pena em prisão civil.

Por essas e outras, tenho certa dificuldade em entender que nosso ex-futuro vice-presidente da República, general reformado Braga Netto, esteja recolhido ao aconchego de uma prisão militar. A estas alturas, ele já deve ter sido entregue ao Comando Militar do Leste, onde estará abrigado sob custódia do Exército Brasileiro.

Não é difícil imaginar o general de quatro estrelas sendo atendido por cabos e sargentos solícitos e reverentes que lhe levam o rango, arrumam a cama, varrem o chão, limpam o banheiro, engraxam os sapatos de manhã e trazem os chinelos à noite.

Não acho que o general estrelado, apesar do tenebroso crime de que é acusado, devesse mofar numa masmorra escura e úmida, sem julgamento, pelo tempo que lhe resta de vida. Acho simplesmente que ele deveria ser tratado como seus concidadãos comuns. Vista a idade e o histórico de vida do encarcerado, acredito que deveria ter direito a cela individual. Fora isso, nenhum privilégio extra.

O que é perturbante é saber que Braga está num universo em que todos os que o servem são hierarquicamente inferiores a ele. É situação esdrúxula, que não resiste a uma análise mais profunda.

Sosseguemos. Antes que a tinta deste texto seque, é bem capaz de o general já ter sido solto por conta de alguma manobra jurídica. Afinal, temos tantas à disposição…