A última democracia?

José Horta Manzano

O site de informação Slate traz ― tanto em sua versão inglesa quanto na francesa ― artigo assinado por Anne Applebaum com interessante visão das futuras Copas do Mundo.

«Será o Brasil a última democracia a organizar uma Copa do Mundo?» ― é a pergunta que encabeça o artigo.

A jornalista constata que as obras grandiosas construídas especialmente para Copas e Jogos Olímpicos tendem a tornar-se elefantes brancos. Estádios sul-africanos, japoneses, sul-coreanos e pequineses, erigidos especificamente para esses grandes encontros esportivos, são hoje subutilizados.

by Paulo Ito

by Paulo Ito

As estruturas de concreto levantadas para os Jogos Olímpicos de Inverno de Sotchi, na Rússia, já começam a trincar. A reciclagem pós-olímpica do leste de Londres, tão anunciada pela mídia, ainda não é realidade. Onde quer que se tenham realizado Copas e Olimpíadas, despesas foram muito superiores ao orçamento.

A única diferença entre outros países e o Brasil é que, para nós, o arrependimento chegou antes. Já faz meses que o povo brasileiro se manifesta contra os gastos irresponsáveis que nosso governo se comprometeu a fazer.

O mundo tem observado a reação dos brasileiros com olhos mais atentos do que se imagina. Estes últimos meses, Alemanha, Suíça, Suécia e Polônia, assustadas com as despesas, retiraram sua candidatura para organizar os JOs de Inverno.

Munique (Alemanha) e Davos-St.Moritz (Suíça) renunciaram na esteira da recusa que seus cidadãos exprimiram nas urnas. O povo de Cracóvia (Polônia) foi o mais radical: 70% dos eleitores rechaçaram os Jogos.

Pelo andar da carruagem, as únicas candidaturas que deveriam se manter para os Jogos de Inverno 2022 são Pequim (China) e Almaty (antiga Alma-Ata, Cazaquistão). Não por acaso, ambas as cidades estão em países autoritários, onde o povo não tem como manifestar sua opinião.

Porto Alegre, 12 jun° 2014 Foto Marki Djurica, Reuters

Porto Alegre, 12 jun° 2014
Foto Marki Djurica, Reuters

A mesma razão parece explicar a escolha das duas próximas sedes da Copa do Mundo: a Rússia e o Catar. Ambos apresentam a garantia de que não haverá contestação nem protesto. Quanto a algum referendo incômodo, nem pensar ― o ordenamento jurídico desses países desconhece esse instrumento.

Como outros derivativos, o esporte é ópio do povo. Dá prestígio e dá lucro. As Copas e os Jogos Olímpicos ― o zênite do esporte mundial ― são hoje em dia controlados por seleta nomenklatura. E, naturalmente, continuam sendo financiados pelos manés que somos nós.

Brasil x México

José Horta Manzano

Lula caricatura 1Abusando de seu senso inato para a delicadeza e para a diplomacia, nosso guia fez recentemente sutil pronunciamento repercutido pelo diário mexicano El Economista.

Declarou que, enquanto o Brasil é uma realidade econômica, o México não passa de uma promessa.

El Economista não hesitou em destilar a frase e fazer dela o título do artigo: «Brasil se envaidece de seu passado; México, de seu futuro».

Bateu, levou.

A ousadia

José Horta Manzano

Ainda que muitos não liguem a mínima pra isso, bato pé firme: não aceito que o meu País se transforme em esconderijo de bandidos, fugitivos de Justiça ou párias internacionais. Já bastam nossos bandidos, nossos fugitivos de Justiça e nossos párias nacionais. Já temos Dirceus e Malufs em quantidade suficiente. Chega, obrigado.

Uma coisa é dar abrigo a perseguidos por razões de raça, de etnia, de religião, de orientação sexual, de opinião política. Outra coisa, bem diferente, é acolher bandidos e fugitivos de Justiça. Coração de mãe não é covil de malfeitores.

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O Brasil mudou muito de uns 5 ou 6 anos pra cá. A economia já não vai tão bem quanto ia, é verdade. Apesar disso ― ou, talvez, por causa disso ― o povo parece ter aberto um olho. Se a proposta de acolher uma futura Copa do Mundo tivesse de ser tomada agora, em 2014, é duvidoso que fosse aceita.

Briga 2O povo descobriu que tem dirigentes. E os dirigentes se deram subitamente conta de que não vivem em círculo fechado. Perceberam que têm um povo por detrás e que essa gente pode até ― ora, vejam só! ― cobrá-los por seus feitos e malfeitos. Francamente, o mundo está de ponta-cabeça.

Pela primeira vez na história dos campeonatos mundiais de futebol do pós-guerra, o Chefe de Estado do país-sede não dirige palavras de boas-vindas aos participantes. Nada, nenhuma saudação! Três pombas se encarregaram de acolher zilhões de telespectadores de olho colado na telinha. Que vexame! Podiam ao menos ter integrado no magro espetáculo de dança uma coreografia de saudação ao mundo. Ficou demonstrado que nossos dirigentes temem o povo.

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Que é que tem acontecido no mundo? No plano internacional, Chávez desceu sete palmos, Ahmadinedjad foi varrido pra fora da arena e nossos belicosos vizinhos de parede ― atolados em problemas ― andam meio apagados. Do lado de cá das fronteiras, o Lula se foi, o Amorim foi mandado pra escanteio, o ‘top top’ Garcia se recolheu à sua insignificância. Dona Dilma está mais é preocupada em se manter de pé num momento em que todos tentam puxar-lhe o tapete.

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O nome do senhor Glenn Greenwald, empresário, advogado e jornalista americano, é bastante conhecido no Brasil. Todos o conhecem por ter anunciado ao mundo que os EUA tinham meios de espionar o planeta.

Briga 3Não foi, digamos assim, uma revelação de capital importância. Todos já sabiam disso. Há certas verdades sobre as quais é melhor manter a boca calada. Sabe Deus por que razão, Greenwald passou por cima dessas conveniências. Julgando-se dono da virtude, houve por bem botar a boca no trombone e proclamar bem alto o que todos já sabiam. Causou alguma marolinha, mas nada que abalasse o equilíbrio do planeta. O maior prejudicado foi ele mesmo.

O que menos gente conhece é o passado errático, movimentado e sulfuroso do jornalista. Poucos sabem que já foi até proprietário de um site pornográfico ― atividade pra lá de malvista em sua terra de origem. E que não se justifique como «erro de juventude»: foi 12 anos atrás, quando o advogado já tinha 35 aninhos. O gajo é useiro e vezeiro em matéria de desacato a seu próprio país.

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O senhor Greenwald concedeu entrevista estes dias ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Ele reivindica que o Brasil dê asilo a Snowden ― aquele maluquinho que andou roubando informações secretas de seu país e, procurado por todas as polícias do mundo, há um ano se encontra encurralado nas estepes russas.

A certa altura, o jornalista preconiza que o Brasil ofereça abrigo a Snowden. Segundo ele, «o Brasil não deve ter medo de deixar os EUA zangados, e acho que qualquer país independente vai acolher o Snowden. Na Europa, os países são muito submissos aos EUA e jamais vão fazer algo que os EUA não queiram. A questão é se o governo brasileiro é independente, mesmo.»

Briga 4Inacreditável! Um estrangeiro atreve-se a lançar desafio às autoridades brasileiras! Justamente um forasteiro que vive em nosso território em situação análoga à de um asilado ― não ousa voltar à sua terra por medo de ser preso.

A que ponto chegamos! A escalada da agressividade continua. Hoje, qualquer um xinga a presidente da República, ameaça de morte o presidente do STF, acusa a Justiça de parcialidade, destrói patrimônio público ou privado, e fica por isso mesmo.

Agora temos o que faltava. Um estrangeiro, que, embora esteja sendo aqui acolhido «de favor», ousa desafiar as mais altas autoridades da República com algo do tipo «vamos ver se você é homem».

É insuportável.

Frase do dia — 148

«Lula e Xuxa têm algo em comum além das vogais. Ambos foram personagens com apelidos incorporados a seus nomes, utilizados na construção de um império de entretenimento. O oportunismo nas alianças e na exposição. A ascensão e a riqueza estonteante, a carreira e os vínculos internacionais, a campanha irônica na gangorra real brasileira entre violência e educação.»

Genilson Albuquerque Percinotto, in Tribuna da Internet 12 jun° 2014.

Ignorância e intolerância

José Horta Manzano

Brasileiro tem fama de tolerante e se orgulha disso. De fato, comportamentos olhados de esguelha em outras partes do mundo são, entre nós, aceitos como se naturais fossem.

Aos brasileiros, parece natural:

Interligne vertical 11c* que um casal decida quando é chegada a hora de dissolver a união;

* que gente idosa ou com dificuldade de locomoção tenha assentos reservados e prioridade em certos serviços;

* que qualquer um que declare ter uma gota de sangue subsaariano nas veias passe à frente em determinadas filas, mormente no campo da Educação Pública;

* que, a partir de certa idade, criminosos sejam tratados como se inocentes fossem, e que recebam indulto;

* que compatriotas busquem a sorte no exterior, que por lá se casem, que por lá formem família, que por lá refaçam sua vida;

* que se legalize a situação de duas pessoas de mesmo sexo decididas a juntar os trapos e compartilhar a existência;

* que cidadãos acusados de pesados crimes se apresentem a eleições para cargos elevados. E que sejam eleitos. E que cumpram o mandato;

* que figurões políticos deixem de cumprir o que prometeram, sem que isso acarrete consequência;

* que cada um escolha livremente sua religião, inclusive se isso implicar rompimento com a fé inculcada na infância;

* que qualquer um professe, ao mesmo tempo, duas (ou mais) religiões;

* que mal-intencionados e ignorantes segurem as rédeas do País.

Para os que vivem no exterior, é grande vantagem dispor da cidadania do país que os acolheu. Até uns 20 ou 30 anos atrás, a situação era pouco clara. Brasileiro que ousasse adquirir outra nacionalidade perdia ipso facto a brasileira. Era uma ou outra. Ponto e acabou.

Com o aumento exponencial do número de brasileiros expatriados, o problema se tornou agudo. Foi quando nossos distraídos legisladores se deram conta do absurdo da situação e decidiram que… era chegada a hora de decidir. Ficou então combinado que o brasileiro que adquire, por decisão pessoal, cidadania estrangeira ― visando a facilitar sua vida na nova terra ― será autorizado a conservar a nacionalidade brasileira originária.

Boa parte do público que assistia ontem a um jogo de futebol no estádio de Salvador foi protagonista de um comportamento primitivo e chocante. A cada vez que um certo Diego Costa, jogador do time espanhol, tocava a bola, levava uma vaia. E não é porque jogasse mal. É porque o sergipano ― transferido aos 18 anos para a Espanha, onde acabou se estabelecendo ― adquiriu a cidadania do país onde vive, conforme lhe faculta a norma brasileira.

Constrangido, o comentarista da tevê suíça viu-se na obrigação de explicar a seus ouvintes ― que certamente não compreendiam o que estava acontecendo ― que os frequentadores do estádio não perdoavam ao jovem jogador o fato de ter decidido adotar a nacionalidade do país que o acolheu. Foi vergonhoso.

É assustador constatar que boa parte de nosso povo, embora viva em grandes aglomerados que ousam chamar metrópoles, ainda guardam visão de mundo atrasada, primitiva, digna de grotões.

Diego CostaAqueles que se revoltaram contra a banana lançada contra um jogador algumas semanas atrás são os mesmos que ontem despejaram uma bananeira inteira contra o jovem Diego.

Ainda falta um bom pedaço de caminho para que os brasileiros se abram ao mundo e entendam que o universo não se limita aos confins de nossa maltratada República.

Nossa Seleção não conta com nenhum jogador de declarada origem ameríndia. São todos, por consequência, descendentes de imigrantes ou de gente que um dia, de uma maneira ou de outra, veio de fora.

Por coerência, proponho que se organize uma vaia coletiva a cada jogo da Seleção, extensiva a todos os jogadores. Afinal, todos deixaram a pátria um dia.

Frase do dia — 147

«Impossibilitada de colher os louros de uma organização à altura das promessas feitas sete anos atrás pelo antecessor, Lula da Silva, Dilma opta por criminalizar o senso crítico da população em relação aos deveres do poder público e a consciência de que a realização da Copa do Mundo no Brasil não é uma dádiva merecedora de gratidão eterna.»

Dora Kramer, em sua coluna in Estadão, 13 jun° 2014.

O raio vívido

José Horta Manzano

Quando escrevi ontem sobre o hino nacional truncado, já tinha o pressentimento de que nossos preclaros dirigentes não houvessem pensado em exigir da Fifa a execução integral da peça. Escrevi para esconjurar, mas era mais desabafo que esperança.

Optimista incorrigível, continuo achando que não precisa procurar muito para encontrar o lado bom de cada acontecimento. Estancado o hino na altura do salve, salve, o povo não se abalou: jogadores, pessoal técnico, cartolas e ― principalmente ― a multidão de espectadores continuou impávida a louvar o sonho intenso e o raio vívido.

Eu assistia à transmissão pela televisão francesa. O comentador, abismado com o estádio cantando a cappella, qualificou a cena de sublime. Deu pra lavar a alma dos ofendidos e pra despejar a água suja por cima dos arrogantes dirigentes da Fifa.

O jogo foi o que foi, assim-assim, meio chinfrim. Todas as resenhas esportivas que consultei foram unânimes em afirmar que o juiz errou feio quando decretou penalidade máxima indevidamente.

Bandeira sorrindoMas tem uma coisa de que os estrangeiros não se deram conta. Numa certa altura, lá pelo fim do jogo, um coro se alevantou do estádio e escandiu repetidamente uma frase de oito sílabas. A grita foi ganhando corpo, como um grito de guerra insistente. Prestei atenção. Não foi difícil me dar conta de que, se grito de guerra era, não se dirigia aos jogadores.

Como outros milhões de brasileiros, ouvi nitidamente uma frase pra lá de ofensiva visando dona Dilma, com aquelas palavras que a gente costuma evitar dirigir a senhoras de fino trato. Seu entourage havia imaginado que, abolindo o discurso, poria a dirigente a salvo de vaias. Conseguiu o intuito, que vaias não houve. Mas quem havia de prever um concerto coral de impropérios, concertado, ritmado e global?

Pobre presidente, que vexame! O padrinho dela, que é arroz de festa mas não é bobo, preferiu nem aparecer. Enfim, se o povo lançou aquele ultraje, por algo será, como dizem os espanhóis. Devem ter lá suas razões.

Para resumir: o espetáculo maior da partida não foi obra dos atores, mas da plateia. O sonho intenso pressentido no Hino Nacional parece cada dia mais perto de se realizar. Basta que um raio vívido ilumine os eleitores em outubro.

O melhor da Copa

José Horta Manzano

Cada um enxerga a Copa com seus próprios olhos. Para um jogador de futebol em começo de carreira, pode ser a vitrine que o vai propulsar ao estrelato mundial. Para um técnico profissional, pode significar a abertura de interessantes oportunidades. Para autoridades nacionais, pode servir de trampolim para angariar simpatia e votos. Para empresários corruptos, é o momento de contar e recontar a fortuna amealhada nas costas dos bobões habituais.

Para indiferentes ― que os há, acredite! ― é hora de tirar uns dias de férias e desaparecer do mundo dos mortais. Para torcedores, é um momento de emoção, de alegrias, de tristezas. E no final ― quem sabe? ― pode até chegar a hora de gozar a alegria suprema de ver a esquadra nacional subir ao degrau mais alto do pódio. A todos, é permitido sonhar.

Como não sou jogador, nem selecionador, nem autoridade, nem empresário corrupto, não lanço à Copa olhar profissional. Aprecio o esporte em si. Gosto muito daquele balé colorido e imprevisível em que a partitura é inventada e reinventada a cada instante.

Um dos atrativos maiores do futebol é justamente essa incerteza quanto ao resultado. Em outros esportes, o melhor costuma vencer. É raro que, em atletismo, o mais rápido ou o mais ágil deixe de levar a medalha. No futebol, não é assim. Já vi a Itália perder para a Coreia do Norte. Aconteceu na Copa de 1966. O resultado deixou trauma que, passado meio século, ainda não se dissipou.

Há momentos mágicos em que um jogador manda a bola por cima de meia dúzia de adversários para aterrissar aos pés de um companheiro que, por sua vez, dá sequência à coreografia. Sejam quais forem os times em campo, o espetáculo é sempre bonito. Se houver emoção, melhor ainda.

Homem com a mão no coração (detalhe) by Frans Hals, pintor flamengo, séc. XVI

Homem com a mão no coração (detalhe)
by Frans Hals, pintor flamengo, séc. XVI

Mas há um momento, nesses jogos internacionais, que ― para mim ― paira acima de todos: é a hora do hino. O nosso é fabuloso. Se hino bonito ganhasse Copa, o nosso teria mais estrelas que a Marselhesa. O nosso é de escutar em pé, mão do coração, nó na garganta.

Recortei e guardo até hoje um artigo que o jornal londrino Guardian publicou doze anos atrás, por ocasião da Copa de 2002. O autor faz esfuziantes elogios ao hino brasileiro dizendo que é o mais gentil, o mais alegre, o mais melodioso, o mais envolvente. Parece escapado de uma ópera de Rossini. Chega a dizer que nosso hino é um dos grandes presentes que o Brasil deu à felicidade humana. É mole?

Parece que a Fifa impõe que a execução do hino de cada país não exceda um minuto e meio. Muitos cabem nessa exigência. O nosso, não. O resultado é que nosso cântico nacional costuma ser truncado, sustado na metade, deixando os jogadores com cara de bobos e o público com um gosto de quero mais.

Hino BrasilEntendo que regra é regra. Leis não são feitas para serem discutidas, mas para serem cumpridas. Mas, convenhamos, nossos (sempre) distraídos congressistas, aqueles que assinaram sem ler a Lei Geral da Copa, deviam ter pensado nesse detalhe.

Posso até entender que se desviem alguns bilhões do dinheiro brasileiro para construir estádios monumentais, mas tenho dificuldade em aceitar que um de nossos símbolos nacionais mais fortes seja desfigurado diante de bilhões de terráqueos.

Os bilhões de dólares, com «arenas» ou sem elas, com «Copa das copas» ou sem ela, seriam desviados de qualquer maneira. Mas truncar o hino, ah, está aí um crime facilmente evitável.

No momento em que escrevo, faltam ainda algumas horas para a abertura do campeonato. Quem sabe uma luz terá baixado nos organizadores? Quem sabe nos deliciaremos com a execução integral da primeira parte do hino?

O futebol é esporte que sempre reserva alguma surpresa. Vamos torcer. Esperemos que seja executado sete vezes. Por inteiro.

Lá vêm os holandeses

José Horta Manzano

Aqui na Europa, principalmente nos países mais quentes, a chegada da primavera é anunciada pelo alongamento dos dias, pelo chilrear dos passarinhos, pelas folhas que brotam dos troncos nus das árvores e… pela chegada dos holandeses.

Caramujo 2Todos os europeus dão grande valor à chegada dos dias de sol e calor. É compreensível. Após 7 ou 8 meses de frio, vento, neve, gelo, chuva e céu cinzento, o sol é recebido com reverência.

É costume tirar férias no período que vai de maio a setembro. Quem estiver com a carteira mais recheada toma um avião e embarca para algum destino longínquo, tipo Tailândia ou República Dominicana. Volta com munição para fazer vizinhos babarem de inveja. Quem estiver menos abonado escolhe um pacote para Malhorca ou para a Turquia. O sol e o calor são garantidos e acaba saindo mais em conta.

Por alguma razão que desconheço, os simpáticos holandeses têm especial predileção por deslocar-se com a casa nas costas, feito caramujo. De maio a setembro, as estradas europeias ficam coalhadas de veículos que servem de meio de transporte e de casa ao mesmo tempo. Conforme a língua, têm nome diferente: trailer, motor-home, caravane, camping car, remolque, Wohnwagen, camper. Os portugueses costumam dar-lhe o sugestivo nome de casa móvel.

Caravane 1É incrível como país tão pequeno consegue exportar tantos viajantes, cada um com a família no trailer. Vêm quase todos para o sul: França, Itália, Espanha, Portugal, Grécia, Croácia. São simpáticos, os holandeses. Povo alegre, exuberante, daqueles que falam alto, riem muito, são bons copos em qualquer reunião. Gente alta, corpulenta e extrovertida.

Acampamento holandês

Acampamento holandês

Dizem as más línguas que os comerciantes não os apreciam particularmente. É que parece que, tirando a água e o pão, já trazem todos os mantimentos de casa. Assim, não apresentam grande interesse para quitandeiros, feirantes e hoteleiros. Não posso confirmar, estou-lhe vendendo o peixe pelo preço que paguei.

Fiquei surpreso quando soube que um grupo de bravos batavos(1) havia atravessado o Atlântico para se estabelecer temporariamente em São Paulo a fim de trazer apoio à seleção holandesa de futebol. Ainda mais surpreendido fiquei quando soube que a onda laranja(2) havia montado acampamento à beira da Represa Guarapiranga, nas cercanias da cidade. Acampar em São Paulo!

Enfim, cada um tem direito de armar sua barraca onde bem lhe aprouver. Isso tudo deixa uma certeza: vão faltar alguns holandeses nas estradas europeias este verão.Interligne 18c

(1) Batavo é o outro nome que se dá aos holandeses. Quem quiser variar pode usar também neerlandeses.

(2) Sabe por que o uniforme deles é cor de laranja? Porque os soberanos dos Países Baixos pertencem à dinastia de Orange-Nassau. A origem do nome Orange é bem antiga e tem a ver com a cidadezinha de mesmo nome, situada no sul da França. Mas essa já é uma outra história. Entre orange e laranja, ninguém duvidou: a cor tornou-se símbolo do país. E tingiu o uniforme dos jogadores.

Pardon anything

Gregorio Duvivier (*)

Hello, Gringo! Welcome to Brazil. Não repara a bagunça. Don’t repair the mess. In Brazil we give two beijinhos. Em São Paulo, just one beijinho. If you are em Minas, it’s three beijinhos, pra casar. It’s a tradition. If you don’t give three kisses, you don’t marry in Minas. In the other places of Brazil, you can give how much beijinhos you want. In Rio, the beijinho is in the shoulder.

The house is yours. Fica à vontade. Qualquer coisa é só gritar. Shout. Mas keep calm. Como é que se fala keep calm em inglês? Here the things demoram. It’s better to wait seated. Everything is atrasado, it’s like subentendido that the person will be atrasada. For a meeting, it’s meia hora. For a party, it’s two hours. For a stadium, it’s one year. For the metrô, it’s forever.

Turismo 2Never say you are a gringo. Yes, people love gringo but people also love money and gringos have money so people vai cobrar de você mais money because you are gringo. Say you are from Florianópolis. People de Florianópolis look like gringo and they have a strange sotaque igual like you. People will believe you are from Florianópolis.

Politics is complicated. We don’t like Dilma because of corruption but I think she don’t rob but people from PT rob and Dilma don’t do nothing to stop people robbing but politics is complicated.

Try this moqueca. Put some farofa. Try this açaí. Put some farofa. Try this chicken we call à passarinho because it looks like a little bird. Now put some farofa. Now put some ovo inside the farofa. Mix with some banana. Delicious. You don’t have farofa in your country? You now nothing, you innocent.

I’m catholic but I’m also budista and I am son of Oxóssi. How do you say Oxóssi in English? It’s the brother of Ogum. You don’t know Ogum? They are guerreiros. And my Moon is in Áries. Ou seja. Imagine the mess.

Try this xiboquinha. It’s cachaça with canela and honey. Try this Jurupinga. It’s cachaça with wine. Or maybe it’s wine and sugar. Nobody knows. It’s delicious. Try this soltinho da Bahia. It’s organic. I only smoke when I drink. But the problem is I drink a lot. Try this brigadeiro. This is called larica. Now put some farofa. Delicious.

This cup passed really fast. Volte sempre. Come back always! Fica lá em casa. We are family now. You like that? You can keep it. It’s your. Faço questão. I make question. Go with god and desculpa qualquer coisa. Pardon anything.

(*) Gregorio Duvivier é ator e escritor.

Conselhos aos turistas

José Horta Manzano

Nos anos 90, a coisa fervia pelos lados da Península Balcânica. Entre sérvios, croatas, bosnianos, a convivência ficou explosiva. Muito guerrearam, muitos mataram, muitos morreram.

Mãos ao alto 1Se, na época, um hipotético viajante tivesse de aventurar-se por aquelas bandas, convinha seguir rigorosas regras de sobrevivência em regiões de conflito. Assim mesmo, por mais obediente que fosse nosso aventuroso turista, regra nenhuma poderia salvá-lo de um míssil ou uma bomba.

A Guerra dos Bálcãs acabou. Hoje, não só a Albânia é uma festa (dixit Jorge Amado), mas toda a península. A Albânia, por sinal, com seus 3 milhões de habitantes, recebe 3 milhões de visitantes a cada ano. A Croácia, país de 4 milhões de almas, acolhe incríveis 10 milhões de turistas! Manuais de sobrevivência saíram de moda.

Oficialmente, o Brasil não está em guerra ― pelo menos no papel. No entanto, a situação de conflagração civil que castiga o país e se agrava ano após ano causa efeitos iguais aos de um conflito tradicional. Talvez até piores.

Numa guerra, pelo menos, há um inimigo declarado, o que facilita sua identificação. Num estado de quase-guerra, como é o caso brasileiro, a ameaça é difusa. O inimigo não ataca necessariamente com bazuca. O leque de armas é mais sutil, bem sortido, traiçoeiro. A ameaça pode vir de onde menos se espera.

Mãos ao alto 2Não é à toa que a Croácia, cujo território ardia inóspito 20 anos atrás, acolhe hoje o dobro de turistas que acolhemos nós no Brasil. Tenha-se em mente que o pequeno país balcânico tem área equivalente à do Estado da Paraíba.

A Suécia não passou pelas eliminatórias e não conseguiu se classificar para a fase final da «Copa das copas». Assim mesmo, alguns apreciadores do esporte decidiram viajar ao Brasil para assistir a alguns jogos. Estive lendo, horrorizado, as recomendações que o governo sueco dá a seus ousados súditos que se estejam dirigindo a nosso paraíso tropical.

Aqui está uma seleção dessas advertências.

Interligne vertical 11cConselhos de segurança

* A vigilância é sua melhor defesa. Procure saber onde você se encontra e preste atenção a toda modificação súbita na composição do grupo. Fique sempre junto a seu grupo ― quanto mais gente, melhor.

* Mulheres não devem viajar sozinhas sob nenhum pretexto.

* Não use transporte público, especialmente depois de escurecer. Viaje somente em táxis munidos de taxímetro. À noite, se estiver sozinho, o melhor mesmo é evitar andar de táxi.

* Não passeie na praia após o pôr do sol. Evite todo e qualquer lugar pouco frequentado.

* Escolha um hotel seguro. Nunca abra a porta do quarto antes de saber quem está batendo. Em caso de dúvida, confirme por telefone com a portaria antes de abrir.

* Seja cauteloso ao comer ou beber em lugares muito frequentados. Nunca aceite comida ou bebida de estranhos.

* Estelionatos e engodos são comuns: seja vigilante se um estranho tentar atrair sua atenção ou distraí-lo.

* Deixe documentos originais no cofre do hotel. Carregue uma cópia, se necessário.

* Planeje com bastante folga traslados entre hotel e aeroporto. Certos percursos são mais arriscados que outros.

* Nunca ofereça resistência a criminoso armado. Guarde a calma e entregue, sem hesitação, seus pertences. Evite olhá-lo nos olhos.

* Não dirija. Se não houver outro jeito, siga as regras de proteção contra assaltos e sequestros.

* ‘Arrastões’ são uma forma local de crime. Uma gangue pode, por exemplo, bloquear uma rua, uma loja, um bar ou um restaurante e roubar todos os que ficarem encurralados.

Francamente, um guia para intrépidos viajores de malas prontas para Cabul, Bagdá ou Damasco não seria muito diferente. Ou não?

Dá uma vergonha…

Presidentes de antigamente

Venceslau Brás fez uma das mais completas e jovens vidas públicas do País: vereador, prefeito, deputado estadual, secretário de Estado, deputado federal, líder de governo, ministro, vice-presidente e, afinal, presidente da República. E tudo isso antes da idade de 50 anos.

Era mineiro de Itajubá, onde nasceu em 1868 e faleceu em 1966, aos 98 anos.

Presidiu a República de 1914 a 1918. Ao deixar o cargo, com 50 anos de idade, voltou à sua Itajubá, de onde nunca mais saiu. Passava os dias lendo e pescando.

Em 1946, o PSD mineiro precisava de um nome forte e acima das lutas internas para enfrentar Milton Campos, candidato da UDN ao governo. Foram buscar o velho Venceslau em Itajubá, ele aceitou. O partido reuniu-se em convenção numa sexta-feira 13 para homologar.

Benedicto Valladares, receoso de perder a liderança de Minas se o ex-presidente voltasse à ativa, lançou na última hora o nome de Bias Fortes e derrotou Venceslau. O episódio ficou nos anais da política mineira como “a noite da traição”.

Carlos Luz, Mello Vianna e outros, indignados, romperam com Benedicto e com o PSD. Apoiaram Milton Campos e o brigadeiro Eduardo Gomes, e derrotaram Bias Fortes. Milton Campos ganhou. Venceslau continuou lendo e pescando em Itajubá.

Acidente circulacao 2Anos mais tarde, já velhinho, Venceslau continuava dirigindo seu carrinho pela cidade. Um dia, bateu no carro de uns estudantes. Saltou, entregou-lhes um cartão para irem receber as despesas do conserto. O cartão dizia: “Venceslau Brás”.

Os estudantes leram, perguntaram: ― Que número?

Não era rua, era o próprio. A mais longa aposentadoria política do pais.

Interligne 18b

Colhido nos alfarrábios do jornalista Sebastião Nery
http://www.sebastiaonery.com.br/

A cartilha

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 jun° 2014

Pelos anos 60, o mundo não funcionava como hoje. O planeta vivia na base do «nós ou eles» – quem não era de um campo era necessariamente do outro. O adversário era mais temido que odiado.

O espaço capitalista, capitaneado pelos EUA, apreciava ser visto como «mundo livre». Já os dirigentes do universo comunista, liderados pela União Soviética, encarnavam as «forças do progresso». Era claro exagero: nem os capitalistas eram assim tão livres, nem os comunistas sobressaíam pelo progresso civilizatório.

Espanha, Portugal, Brasil, Filipinas e outros integrantes do «mundo livre» eram contidos com mão de ferro por ditaduras ferozes. Albânia, Bulgária, Coreia do Norte, Romênia – dirigidos por «forças do progresso» – contavam entre os países mais atrasados.

«Plebiscito Popular»

«Plebiscito Popular»

Impiedosos, os anos 70, 80, 90 mudaram a face do mundo. O papa polonês, a queda do Império Soviético, o fim das ditaduras ibéricas e latino-americanas, o fracasso de Cuba, o banimento de tiranetes asiáticos, o fortalecimento da União Europeia se encarregaram de redistribuir as cartas e reequilibrar as forças.

A redemocratização do Brasil e a subida do poder aquisitivo condenaram ao baú dos arcaismos expressões como: ligas campesinas, comunismo revolucionário, agricultura de subsistência, luta de classes, esquerda socialista, solidariedade entre os povos.

Numa época como a atual, em que o hedonismo foi elevado à categoria de ideal supremo, antigas expressões de desprendimento e de solidariedade perderam-se num passado ingênuo e deliciosamente démodé.

Os participantes

Os participantes

Démodé? Pois há quem tente realumiar o mundo com fogo extinto. No Brasil, articula-se uma campanha – cujos iniciadores permanecem discretos – que preconiza a convocação de um «plebiscito constituinte», seja lá o que isso queira dizer. Uma cartilha, termo escapulido do baú, está à disposição dos interessados.

O opúsculo, nomeado Cartilha Plebiscito Popular, agride a boa linguagem logo de entrada, na chamativa capa policrômica. Ao qualificar o plebiscito como «popular», demonstra ignorar que, por definição, todo plebiscito é popular. A redundante expressão reaparece, despudorada, 39 vezes ao longo das 40 páginas da «cartilha». E pensar que uma rápida consulta ao dicionário teria evitado o vexame…

Num saboroso anacronismo, o folhetim exuma expressões e conceitos empoeirados. Voltam à cena as classes dominantes, os setores oprimidos, a maioria explorada, a democracia burguesa, os setores reacionários. Ressurge a imperiosa necessidade de estatizar empresas. É um verdadeiro mergulho num mundo que já foi, um libelo romântico em total assintonia com a realidade atual. A cartilha não logra demonstrar a relação de causa e efeito entre o nebuloso «plebiscito popular» e o atingimento do almejado padrão de excelência.

O movimento é prestigiado por 214 instituições entre as quais se contam indefectíveis uniões campesinas, movimentos místicos, grupos revolucionários, frentes pró-cotas, centros de solidariedade aos povos. Sem surpresa, o MST e o Partido Comunista apuseram sua chancela.

Um aderente, no entanto, destoa. Entre os apoiadores do movimento, está… o Partido dos Trabalhadores. Impávido, com todas as letras, bem-comportado, na ordem alfabética. Não fosse este um adjetivo pouco adequado às atribulações da agremiação, eu diria que o partido assinou o manifesto meio envergonhado.

A adesão do PT atropela o bom senso. Senão, vejamos: o desenho da página 11 da cartilha deixa claro que chegou a hora de cuidar da saúde, da educação, da moradia, da reforma agrária, do salário. Sabemos todos que o partido que ocupa o poder federal há 12 anos controla todos os patamares do governo da República. Executivo, Legislativo, estatais, agências reguladoras, nenhum degrau lhe escapa.

As reclamações

As reclamações

Se não impuseram, em quase três lustros de poder, as reformas que ora pleiteiam, difícil será acreditar que o venham a fazer na rabeira de um «plebiscito popular». Apesar dos ventos favoráveis e da confortável e submissa maioria congressual, reformas importantes nunca foram feitas, donde a persistência do descalabro na Educação, na Saúde Pública, na infraestrutura.

A sugestiva capa da cartilha é ilustrada por uma horda de manifestantes, municiados com bandeiras vermelhas, pressionando um Congresso de onde parlamentares fogem intimidados. É a tradução gráfica da substituição de representantes eleitos por bandos raivosos.

Ninguém discorda do fato de que nossos eleitos deixam a desejar – e muito! Mas será que escorraçá-los e substituí-los por hostes revolucionárias será a melhor solução?

A Hora do Brasil

José Horta Manzano

Nos anos quarenta, a grande distração das famílias, depois do jantar, era o rádio. Espetáculos ao vivo, radionovelas, concertos preenchiam o espaço que vai da última garfada ao primeiro bocejo.

radio 3Programas caipiras contavam com boa audiência. (Naquele tempo, a gente ainda podia dizer «caipira», que a palavra «sertanejo» ainda não era obrigatória.)

Alvarenga & Ranchinho eram os reis do gênero. Mas havia outros, alguns atuando em dupla, outros a solo. Entre estes últimos, estava o Nhô Totico, de quem minha avó não perdia uma apresentação. Ele ia além do estereótipo. Precursor no gênero one man show, criou numerosos personagens que retratavam o quotidiano da São Paulo e do Brasil de seu tempo. Tinha boa audiência.

Certa noite, logo antes de encerrar o programa, Nhô Totico ousou dizer algo como: «E agora, desliguemos nossos radinhos, que vem aí a Hora do Brasil»(*).

Ai, ai, ai… Do Catete, Getúlio Vargas mandou o cacete. O humorista até que se saiu relativamente bem. Não apanhou, não foi preso, só levou uma suspensão de alguns dias. Doutor Getúlio, no fundo, devia se dar conta de que a difusão daquele programa diário e obrigatório ― criado por ele mesmo ― era maçante, uma pedra no sapato para a maioria dos radio-ouvintes.

É verdade que, naqueles anos sem internet e sem tevê, não havia outra maneira eficaz de fazer chegar aos rincões mais afastados as notícias das atividades oficiais da Corte. O tempo se encarregou de alterar o quadro.

Nhô ToticoHoje, com multimídia, multicomunicação, multirelacionamento, enxurradas de informação chegam instantaneamente a qualquer lugar. A Hora do Brasil ― que, desde então, foi rebatizada como A Voz do Brasil ― perdeu sua razão de ser. É melancólico constatá-lo, mas chegou a hora da aposentadoria. Merecida.

Em consideração à paixão que muitos brasileiros demonstram pelos jogos da Copa do Mundo ― especialmente aqueles de que o Brasil participa, tudo indica que o horário de transmissão do programa oficial será flexibilizado estas próximas semanas. Atenção, não se cogita eliminá-lo! Apenas deslocá-lo para um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde.

Acredito que, assim como a gente sabe a hora de começar uma atividade, sabe também quando é hora de encerrá-la. Salvo melhor juízo, chegou a hora de dizer adeus à Voz do Brasil. Foi bom enquanto durou, mas o ciclo, no meu entender, se extinguiu.

Que se encerrem as transmissões. E que se injetem os fundos assim poupados na criação ou no adensamento de programas de ensino à distância. Será dinheiro mais bem empatado.Interligne 37i

(*) Hora do Brasil era o nome que então se dava à atual Voz do Brasil.

Caminho traçado

José Horta Manzano

Fascismo 4Lúcida e interessante é a visão do escritor boliviano Juan Claudio Lechín(*) sobre as diferenças entre ditadura e fascismo. Seu livro Las máscaras del fascismo, publicado em 2011 por Plural Editores (La Paz, Bolivia), corajoso e didático, põe o dedo na ferida. O livro traz subtítulo sugestivo: Castro, Chávez, Morales, um ensaio comparativo.

Um decálogo (dodecálogo seria melhor dito) elenca as principais características do perfeito caudilho fascista.

Interligne vertical 11c1. O caudilho fascista é messiânico, carismático e de origem plebeia.

2. Os braços do caudilho são o partido e a tropa de choque, seja paramilitar, seja militar ― com forte componente de aventureiros descompromissados e de delinquentes.

3. A língua do caudilho: a propaganda política.

4. A fé do caudilho: uma fantasiosa promessa política redentora.

5. O ouvido do caudilho: serviços de inteligência repressiva, espiões e delatores.

6. O caudilho toma carona na refundação da pátria e/ou na mudança do nome; na reforma constitucional e/ou na modificação da constituição e em novos símbolos do Estado.

7. O caudilho dedica-se a destruir atos eminentemente liberais ― valores e instituições.

8. O caudilho é antiliberal e antiamericano.

9. O caudilho transforma em igualdades políticas os seguintes conceitos: caudilho = partido = Estado = nação = pátria = povo = história épica.

10. O adeptos do caudilho: adesão popular militante. Retorno à servidão.

11. A perpetuação do caudilho no poder: governo vitalício, com ou sem eleições. Monarquia plebeia.

12. Valores medievais: coragem militar, arrojo, prestígio de morrer combatendo, valores marcadamente viris (machistas), senhoriais e homofóbicos. Inflamar a militância com inflamados discursos de confrontação, lutar por um ideal santo, contra o herege irreconciliável.

Com base nas características elencadas, o autor não reconhece o chileno Augusto Pinochet nem o argentino Jorge Rafael Videla como fascistas, apesar de seus crimes. Comandaram ditaduras, mas não fascismos.

A essência do pensamento de Lechín está resumida nestas poucas linhas:

Fascismo 3«El fascismo es un modelo pragmático para la toma absoluta del poder por parte de un caudillo mesiánico, por medio de la seducción o el crimen, las urnas o los fusiles, el discurso o el golpe, la nacionalización o la privatización y cualquier otro instrumento eficaz para el objetivo absolutista. En este concepto se inscriben todos los caudillos, cada uno ciertamente impulsado o frenado por las características de su propia realidad; de ahí que muestren diferentes desempeños aunque subyazca la misma naturaleza.»

Traduzindo, fica assim:

«O fascismo é modelo pragmático para a conquista absoluta do poder por parte de um caudilho messiânico por meio da sedução ou do crime, das urnas ou dos fusis, do discurso ou do golpe, da nacionalização ou da privatização, e de qualquer outro instrumento eficaz para alcançar o objetivo absolutista. Nesse espírito, inscrevem-se todos os caudilhos, cada um, por certo, estimulado ou freado pelas características de sua própria realidade. Eis por que, embora o modus operandi possa diferir, a mesma natureza esteja sempre latente.»

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Qualquer parecença com a realidade brasileira destes últimos anos pode não ser mera coincidência.

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(*) Juan Claudio Lechín Weise (1956-) é homem de letras e pensador boliviano, agraciado em 2004 com o Premio Nacional de Novela. Seus estudos começaram em seu próprio país e prosseguiram na Itália, no Peru, na Venezuela e nos Estados Unidos. Diplomado cum laude em Economia pela Universidade de Boston.

De jegue

José Horta Manzano

Burro 2O dia já começou bem. Em seu noticiário matinal, as estações de rádio europeias anunciaram, entre as manchetes, que os empregados do metrô paulistano estavam em greve.

Explicaram que o metrô é a maneira mais prática de chegar ao estádio onde terá lugar o jogo inicial da « Copa das copas ». Insinuaram que, a prosseguir a paralisação, torcedores terão de se dirigir ao estádio a pé.

Ninguém ousou mencionar lombo de burro.

Tchau, mãe! ― 2

José Horta Manzano

A fraca disseminação, por todo o território nacional, de uma cena cultural diversificada faz muita falta ao brasileiro. Em nosso País, fora das grandes metrópoles, viceja um deserto cultural. Em terras mais civilizadas, qualquer aglomeração de parcos milhares de almas oferece a seus habitantes um leque de opções pra ministro nenhum botar defeito.

Televisor com imagem adequada

Na cidadezinha onde vivo, cuja população vai pouco além de 12 mil pessoas, temos um teatro de verdade, com quase 400 lugares. Até artistas estrangeiros vêm representar aqui. Temos concertos, recitais, peças de teatro, one-man shows, espetáculos infantis.

Em diversos pontos do município organizam-se, ao longo do ano, exposições, sessões de cinema ao ar livre, festas musicais, reuniões para jovens, encontros de idosos, bailes populares, festa de Natal para solitários, palestras, jantares de confraternização, feiras de artesanato, festivais de canto coral, brechós, jogos de futebol e de outros esportes, quermesses.

Tem pra todos os gostos. Na maior parte das manifestações, a entrada é grátis. Em outras, paga-se um preço accessível. Só não vai quem não quer.

Tevê: não me identifico

No Brasil, as prioridades são outras. Na hora de decidir o destino a ser dado ao dinheiro que sobra nos cofres públicos ― depois do sangramento provocado pela corrupção ―, preferência é dada a gastos que possam garantir votos. Autoridades gastam de olho nas próximas eleições. Se, por acaso, algum benefício real chegar realmente à população, terá sido mero efeito colateral.

O resultado dessas práticas deturpadas é que, no Brasil, um único braço da mídia esmaga todos os outros: a televisão. Na falta de outro caminho, a tevê é passagem obrigatória para políticos, autoridades, artistas, cientistas, esportistas, aventureiros. Se a tevê não mostrar, ninguém vai ficar sabendo. Para os brasileiros, essa prática passa batida, como se normal fosse. Não é. É uma baita limitação.

Na falta de espaço adequado para fazê-lo, todos anseiam por aparecer na telinha. Desde as autoridades maiores da República até o cidadão mais humilde. Quando digo todos, não estou exagerando. Figurões cujas funções exigem discrição, recato e comportamento apagado fazem o que podem para aparecer na tevê. Juízes de variadas instâncias e até ministros do STF dão pronunciamentos, opiniões, entrevistas. Fazem revelações. Exprimem-se sobre processos em andamento. Um espanto.

Televisão ― o começo

Quem fala muito acaba dizendo o que não deve. Todo excesso cobra sua conta. O Estadão nos informa que as autoridades judiciárias suíças, exasperadas pelo vazamento de informações de processos em andamento, decidiram bloquear a cooperação com o Brasil. Até segunda ordem. Só voltarão a colaborar caso recebam explicações convincentes para as fugas de informação que, na Suíça, são consideradas fato gravíssimo.

À Justiça, basta ser justa. Resquícios da medieval Justiça-espetáculo apenas vigoram em bolsões incivilizados ― Irã, Afeganistão, China. No Brasil, não cai bem.