Meio cheio, meio vazio

José Horta Manzano

É a velha história do copo meio cheio ou meio vazio.

As últimas pesquisas de popularidade indicam que cerca de 35% dos eleitores consideram o governo de doutor Bolsonaro ótimo ou bom. Devotos do clã presidencial exultam. Que sucesso! É o copo meio cheio.

De um ponto de vista menos fanático, percebe-se que, se 1/3 dos pesquisados considera o governo ótimo ou bom, 2/3 não o consideram nem ótimo, nem bom. Portanto, os descontentes são dois em cada três. Para um satisfeito, há dois insatisfeitos! O dobro! É o copo meio vazio.

Os fanáticos precisam baixar a bola, que não há razão pra tanta euforia. Dizem que o Lula chegou a 80% de popularidade – um nível soviético que me deixa meio desconfiado, mas é o que ficou registrado. Pois bem, se o Lula bateu nos 80% e o Bolsonaro não consegue chegar aos 40%, ainda tem muito chão pela frente. Por enquanto, não há o que festejar. E tomara que nunca haja.

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Tutti buona gente

José Horta Manzano

Dá muito gosto ver que, no exterior, nossos figurões continuam na ribalta, no centro das atenções. Vejam esta que nos vem da China.

China Global Television Network (CGTN) é um dos braços do poderosíssimo conglomerado estatal chinês de informação. Sua versão online em língua inglesa traz uma notícia de Angola.

Revela que a Igreja Universal do Reino de Deus, propriedade do bilionário ‘bispo’ Macedo, está enfrentando sérios problemas com a justiça. Em Angola, um dos 130 países onde está implantada, a empresa está sendo processada pela prática de numerosos crimes, como: associação criminosa, fraude fiscal, exportação ilícita de capitais, abuso de confiança & conexos. Vejam só.

Sexta-feira passada, o procurador-geral do país decretou o confisco de sete templos da empresa, situados em território angolano.

En passant
Doutor Macedo não é aquele amigão de doutor Bolsonaro? Não é aquele que (re)batizou o presidente e teve a honra de aparecer a seu lado no desfile do 7 de setembro? Pois então, diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. Estão ambos sintonizados na mesma frequência. Baixa frequência, naturalmente.

Uma lavada

José Horta Manzano

Pelo campeonato da Liga dos Campeões, enfrentaram-se ontem o Bayern (de Munique, Alemanha) e o Barça (de Barcelona, Espanha), dois times de primeira grandeza. A partida teminou com um inacreditável placar de várzea: 8 x 2 em favor dos alemães. Até parece notícia falsa.

O glorioso Barça, que hoje tem Messi, Piqué e Suárez, já abrigou astros como Cristiano Ronaldo e Neymar num passado bem recente. Ninguém imaginava que pudesse levar uma surra desse tamanho.

Às vezes, o destino parece irônico. O carioca Philippe Coutinho, autor de dois gols em favor do Bayern, na realidade é jogador no Barça; está apenas ‘emprestado’ ao time de Munique.

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

Do lado alemão, Lewandowski também marcou um gol. Falo do Lewandowski deles, não do nosso. Que fique bem claro. Quarenta anos separam os dois.

Muitos comentaristas lembraram de um tristemente famoso 7 x 1, o ‘mineiraço’ imposto pelos alemães aos brasileiros na Copa de 2014.

Fica confirmado o dito popular francês:

«Le football est un sport qui se joue à onze. Et à la fin c’est les allemands qui gagnent.»

«Futebol é um esporte de onze jogadores. E, no final, são os alemães que ganham.»

E estamos combinados.

Implicar: regência

Dad Squarisi (*)

O verbo implicar tem três empregos. Em dois, ninguém tem dúvida. Na acepção de ter implicância, pede a preposição com:

• O diretor implicou com ele.

Na de comprometer, envolver, é a vez do em:

• A secretária implicou o chefe no escândalo.

A dúvida surge no significado de produzir consequência. Aí, implicar implica e complica. O verbo parece, mas não é. No sentido de acarretar consequências, o malandro é transitivo direto. Não suporta a preposição em:

• Autonomia também implica responsabilidade.

• Deflação implica recessão.

• Aumento da taxa de juros implica crescimento do deficit público.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

O velho prefeito

José Horta Manzano

Paul Girod é prefeito do pequeno município de Droisy. Seu vilarejo, de apenas 74 habitantes, fica na França, a 120km de Paris, nas planícies agrícolas do norte do país. Aos 89 anos de idade, Monsieur Girod detém um recorde difícil de ser batido: está no cargo há 62 anos.

Foi eleito pela primeira vez em 1958, quando era um jovem de 27 aninhos, e o mundo era outro. No Brasil, Juscelino Kubitschek ainda tratava de construir Brasília, a futura capital. Em Washington, Eisenhower ocupava a Casa Branca. Em Paris, o reinado de De Gaulle ainda não havia iniciado; o presidente se chamava René Coty.

De lá pra cá, Monsieur Girod foi candidato em todas as eleições – e ganhou todas. Está no 12° mandato consecutivo. É de crer que seus munícipes estão satisfeitos com o desempenho do patriarca.

Ele explica que, naquele tempo, as motivações do eleitor eram diferentes do que conhecemos hoje. Recém-diplomado, ele assumiu o comando da propriedade do tio, onde se cultivava a terra e se criavam umas poucas reses. Diminuta para padrões brasileiros, a fazendola era a mais importante do município. Naqueles meados de anos 50, ninguém tinha automóvel no vilarejo. Monsieur Girod foi o primeiro a ter um.

Droisy (Picardia), França

Por razões que a sociologia explica, os eleitores tinham tendência a entregar as chaves da prefeitura ao candidato mais abastado. É que acreditavam que um rico teria mais tempo disponível para se dedicar à coisa pública. É permitido enxergar nessa tendência um resquício da ordem feudal, quando era natural que o rei fosse o mais rico. Ou que o mais rico fosse rei, o que dá no mesmo.

Quando li a explicação do velho prefeito francês, pensei nos coronéis brasileiros que, até hoje, seguram municípios pequenos com rédea curta. Não sei se os munícipes os elegem e reelegem porque acreditam que eles têm mais tempo disponível pra cuidar da administração. Deve parecer natural, aos eleitores, que o coronel-prefeito seja o mais rico.

O problema é que, mantidos na ignorância, eles nem sempre se dão conta de que o mandachuva, distraído, pode estar incorporando uma parte das verbas públicas a seu patrimônio pessoal. Não sei por que, acabo de me lembrar do mensalão e do petrolão. Mas essa é uma outra história.

Lavar, anilar e quarar

José Horta Manzano

Aqui no mundo em que vivo, nem tudo funciona exatamente como no Brasil. A principal diferença, mãe de todas as outras, é o nível de educação cívica. Considerando-se que o Brasil é grande, populoso e atingiu nível razoável de industrialização, é surpreendente que o povo ainda viva como se estivéssemos nos tempos coloniais, cada um por si, num mundo em o mais forte vence, e a garrucha faz a lei. Há algo de anacrônico aí. As dimensões do país e sua economia não combinam com esse embotamento social.

Muita coisa me parece fora de esquadro. Uma delas, problema que ressurge frequentemente no noticiário, é tão fácil de resolver, que eu me pergunto o que estão esperando para modificar as regras. Trata-se de compra de imóvel «em dinheiro vivo». A toda hora, um caso desse tipo deixa todos desconfiados. Mas fica tudo por isso mesmo.

A pergunta é: por que razão um cidadão dispensaria o sistema bancário para pagar com maços de dinheiro? Há nessa opção algo de muito estranho. Se esse tipo de operação ocorresse em outras terras, levantaria uma bandeirinha vermelha e incitaria o fisco a fazer uma devassa na contabilidade dos dois: vendedor e comprador. No Brasil, isso não parece comover ninguém.

Na maior parte da Europa, é simplesmente proibido pagar um imóvel com dinheiro vivo. Tem de ser por via bancária. E tem mais. O vendedor não entrega o dinheiro diretamente ao comprador. O ritual determina que passem por um intermediário; dependendo do país, será um tabelião, um cartório ou um notário. É esse personagem quem recebe o importe em sua conta bancária, retém os impostos devidos ao fisco e entrega o montante líquido ao comprador. Em seguida, cabe a ele notificar o Registro de Imóveis para a averbação do negócio.

Eu me pergunto por que é que não instituem um sistema assim no Brasil. Se for muito complicado, que se proíba pagamento de imóvel em ‘dinheiro vivo’ – já estaria de bom tamanho. Rolos como os que envolvem nosso presidente e seus filhos, por exemplo, desapareceriam.

É verdade que todo bandido é criativo. Acabariam descobrindo outra maneira de lavar, anilar e quarar dinheiro sujo. Mas essa porta, pelo menos, estaria fechada e condenada.

Acho que, lá no alto, ninguém está interessado em resolver o problema. Cá embaixo, esse tipo de traficância é desconhecido, e é por isso que não desperta interesse em ninguém. Afinal, quem é que vai levar malas de dinheiro pra comprar casa?

Portanto, nada há de mudar tão cedo. Enquanto o nível de educação cívica não tiver subido, a lavanderia continua aberta. Só não lava dinheiro quem não tem. Já que a situação atual agrada aos de lá e não atrapalha os de cá, fica tudo como está.

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Colocações

Sérgio Rodrigues (*)

No Brasil, adoramos colocar. Houve um tempo em que púnhamos com mais frequência, para não mencionar todas as ocasiões em que botávamos. Por razões que será preciso investigar melhor, hoje preferimos colocar. E como colocamos!

Ano passado, na mesma semana, lemos na Folha que uma cabeçada de Everton Ribeiro “colocou Cássio para trabalhar”, que “a China colocou a culpa dos protestos (de 1989) nos contra-revolucionários” e que Jean Wyllys anunciou medidas contra “a mentira abjeta que colocou nossas vidas em risco”.

São só três ocorrências, entre as incontáveis que nos cercam, em que o arrivista colocar rouba o posto de trabalho de colegas como pôr, botar, meter, pousar, depositar, atribuir, aplicar etc.

Seria absurdo dizer que aquelas frases estão erradas. Contudo, em sua política expansionista, colocar provoca um estrago vocabular equivalente ao do desmatamento de um belo naco da Amazônia.

Não há muito a fazer. É um fato linguístico banal uma notícia como “Homem coloca fogo na própria casa”. Verdade que, a olhos mais cevados na tradição, o fogo, com sua imaterialidade feroz, é um parceiro desajeitado de colocar, verbo a princípio mais técnico.

Acontece que o uso detém a última palavra, as opções coletivas sempre acabam por vencer – cartilhas e ouvidos delicados que se adaptem, ora. A banda toca essa música há séculos. Mesmo assim, é saudável ficar atento a abusos.

 

Coloquei!

Já foi pior. Nossa compulsão colocadora tornou epidêmico, nas últimas décadas do século 20, um vício nascido na linguagem universitária: aquele em que o verbo é (ou era) usado como sinônimo de dizer, sustentar, argumentar: “Entendo a sua colocação, mas gostaria de colocar que…”

Essa praga, se não passou, arrefeceu bastante. No entanto, quando hoje as galinhas optam por colocar ovos e a gente se dá conta de que, se fosse criado neste século, o bairro carioca de Botafogo se chamaria Colocafogo – nesse momento vale a pena parar e pensar.

Vindo do latim “collocare”, isto é, “cum + locare”, pôr em determinado local, colocar é uma palavra nascida no século 15, quando a língua portuguesa se sofisticava. Sinônimo de pôr, botar e meter, estas do século 13 e mais próximas das raízes orais do idioma, representava uma espécie de gentrificação linguística.

Pelo menos a princípio, era um termo mais fino, de maior precisão no onde e no como. O “chute colocado” da linguagem futebolística traduz bem essa ideia. Qual força, então, acabou por fazer de colocar esse irresistível genérico de massa?

A resposta que eu queria deixar como hipótese é: aquela ânsia mal-orientada de formalidade e apuro, quando não de pompa e pedantismo, que é uma marca da cultura brasileira.

Nossa inclinação coletiva pelo termo que parece mais erudito, menos popular, e que portanto imaginamos mais correto e bacana, tem prestado maus serviços à língua. O modismo do verbo possuir empregado indiscriminadamente no lugar de ter é o exemplo clássico.

Há anos temos lido e ouvido, no Brasil, que pessoas possuem resfriados, dúvidas, dores de cabeça, um picolé – como se tais coisas contingentes e fortuitas estivessem inscritas em seu corpo ou lavradas em escritura no cofre de sua casa.

É uma impropriedade vocabular e tanto, diante da qual o mais novidadeiro uso de colocar parece saído de uma página de Machado de Assis. Mas neste momento fica claro que o assunto é amplo demais para ser colocado por inteiro aqui.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Ignorante e encastelado

José Horta Manzano

Ignorante e encastelado, nosso presidente vive em universo minguado. Sua visão não alcança além da ponta do nariz. Os cortesãos, também adeptos do ensimesmamento, não ajudam. Até os (poucos) cujo currículo mostra alguma abertura no passado acabam por curvar-se em oportuno mimetismo: arrogantes e agressivos, imitam o chefe.

O grande desejo de doutor Bolsonaro é que a duração do mandato seja a mais longa possível. Permanecer no trono lhe dá certa proteção contra a prisão. Ele tem atacado muita gente e feito muitos inimigos. Sabe que vingança é prato que se come frio. Sabe que um dia, fatalmente, perderá a imunidade – e teme esse dia. Lembra-se do que aconteceu com Lula da Silva, que, apesar da monumental popularidade com que deixou o governo, teve de purgar ano e meio de cadeia.

Doutor Bolsonaro tem razão de temer. A insistir em dirigir os negócios do Estado brasileiro com tal cegueira, o acúmulo de inimigos ressentidos o levará à Papuda após o fim do mandato.

Primeiro fator
Ele não sabe (e ninguém lhe diz) que o planeta está em rápida mutação; a sensibilidade ecológica, incipiente no Brasil, está crescendo muito depressa mundo afora.

Segundo fator
Ele não percebe (e ninguém lhe conta) a repercussão global causada por sua tresloucada política de destruição da Amazônia, que não combina com a sensibilidade ecológica do século 21. No exterior, é assunto que rende. Não se passa um dia sem que a mídia mundial volte ao assunto. Jornais, rádios e tevês apontam sem parar o bizarro dirigente que promove o aniquilamento da maior floresta equatorial do mundo.

Conclusão
Ele não enxerga (e ninguém lhe revela) que os importadores de produtos brasileiros estão sofrendo pressões cada dia mais fortes para deixar de comprar do Brasil e passar a importar de outras fontes.

Ao viver na ingenuidade dos ignorantes, doutor Bolsonaro está brincando com fogo. A força das ruas e a bateção de panelas não são nada se comparadas com a potência silenciosa dos grandes exportadores brasileiros. Na hora em que os negócios deles começarem a diminuir, o tom vai mudar. Empresário nenhum aprecia que alguém lhe atravanque o caminho. O que Bolsonaro não consegue ver vai custar caro a todos – a ele e a nós também.

A seguir, um sortilégio de artigos que se recortam todos os dias na imprensa mundial. Recortei comentários indignados até na mídia de Bangkok, na longínqua Tailândia.

Jornal Ouest France, França

Bangkok Post, Tailândia

Agenzia Nova, Itália

Die Zeit, Alemanha

El Observador, Uruguai

Paris Match, França

Taj Mahal

José Horta Manzano

– Puxa, você desapareceu, hein! Tomou chá de sumiço?

– É, andei sumido sim.

– E o que é que andou fazendo?

– Tirei férias e fiz uma longa viagem. Passei anos economizando pra poder realizar meu sonho: uma viagem à Índia. Pode até parecer presunçoso, mas é que eu tinha muita vontade. Resolvi assumir.

– Índia? Fazer o quê? Visitar o Taj Mahal?

– Exatamente! Desde criança, aquele palácio de mármore me fascinou. Quando o assunto era viagem, sempre me vinha à mente aquele suntuoso palácio. Tem gente que prefere Miami; eu optei pela Índia. Meu sonho de consumo agora está consumado.

– Presumo que tenha custado uma fortuna?

– Isso lá é verdade. Escolhi viajar em agosto, no feriado da Assunção, que sai mais barato. Contando o transporte, o alojamento e as refeições, o total é elevado. Resumindo: saiu uma pequena fortuna. Mas agora estou de volta. Segunda-feira que vem, reassumo na repartição. Com a lembrança do curry (do qual sou grande consumidor) e do palácio de mármore.

– Se você for dar outra sumida, avise antes!

Historinha meio boba, né? Foi só um pretexto pra mostrar um fenômeno interessante que se repete vinte vezes por dia sem a gente se dar conta. Sem perceber, usamos palavras da mesma família: descendentes, primas, irmãs até.

De propósito, escolhi uma baciada de descendentes do verbo latino sumere. Na origem, tem o significado de tomar, agarrar. Esse verbo desapareceu em francês e italiano, mas sobrevive nas línguas ibéricas (catalão, espanhol e português). Já seus compostos, mais estáveis, encontram-se não só em todas as línguas latinas, mas também em inglês.

Abaixo vai o mesmo texto. Desta vez, sublinho os membros da mesma família.

– Puxa, você desapareceu, hein! Tomou chá de sumiço?

– É, andei sumido sim.

– E o que é que andou fazendo?

– Tirei férias e fiz uma longa viagem. Passei anos economizando pra poder realizar meu sonho: uma viagem à Índia. Pode até parecer presunçoso, mas é que eu tinha muita vontade. Resolvi assumir.

– Índia? Fazer o quê? Visitar o Taj Mahal?

– Exatamente! Desde criança, aquele palácio de mármore me fascinou. Quando o assunto era viagem, sempre me vinha à mente aquele suntuoso palácio. Tem gente que prefere Miami; eu optei pela Índia. Meu sonho de consumo agora está consumado.

Presumo que tenha custado uma fortuna?

– Isso lá é verdade. Escolhi viajar em agosto, no feriado da Assunção, que sai mais barato. Contando o transporte, o alojamento e as refeições, o total é elevado. Resumindo: saiu uma pequena fortuna. Mas agora estou de volta. Segunda-feira que vem, reassumo na repartição. Com a lembrança do curry (do qual sou grande consumidor) e do palácio de mármore.

– Se você for dar outra sumida, avise antes!

Bochecha com bochecha

José Horta Manzano

Todos os brasileiros não-robotizados têm uma sensação de desconforto quando doutor Bolsonaro solta suas barbaridades. Elas são costumeiras, mas – que remédio? – a gente não se acostuma. Para nós que vivemos longe da pátria, então, o desconforto é maior; chega a ser vergonha. Quando alguém começa a falar do presidente do Brasil, a gente se mexe na cadeira e quer mais é que a conversa se desvie logo pra outro assunto. É muito chato ter de explicar o tempo como é que esse estropício chegou lá.

Quanto aos ministros, enquanto seus insultos não atingem personalidades do exterior, ninguém fala deles. Felizmente. Só entram para o noticiário quando algum, mais ousado ou com mais pressa de agradar ao chefe, agride um país estrangeiro ou um figurão internacional. Aí, de novo, a gente pode ir se preparando para uma sessão desculpa.

Estes dias foi a vez de senhor Guedes, ministro que gere os dinheiros da nação. Em videoconferência patrocinada por The Aspen Institute – uma célula de reflexão frequentada por investidores estrangeiros –, o auxiliar de Bolsonaro rodou a baiana. Ele falou em inglês. Procurei o vídeo em versão original, infelizmente só circula a versão semidublada, aquela em que a voz do locutor cobre a fala original. Portanto, tenho de botar fé na (má) tradução.

O ministro foi instado a dar explicações sobre a política ambiental do governo do qual participa. Em vez de responder, decidiu, malandro, imitar a manjada linha de defesa lulopetista: arreganhou os dentes e partiu para a agressão pra cima dos mensageiros – no caso, os jornalistas. Disse horrores. Esbravejou lembrando que os EUA já tinham matado seus índios e destruído suas florestas, portanto, que nos deixassem e paz pra matar os nossos e destruir as nossas. Classudo, não?

Cheek to cheek
by Romero Britto (1963-), artista pernambucano radicado nos EUA

Acusou os EUA de serem Estado escravagista e racista. Denunciou a política econômica daquele país por estar dançando «de rosto colado» com a China (a tradução, digna de um aplicativo de tradução automática, diz ‘bochecha com bochecha’, mas desconfio que o original fosse mesmo ‘cheek to cheek’). Num insuperável rasgo de elegância, disse que nem um brasileiro bêbado ousaria conduzir o sistema bancário como fizeram os EUA quando da crise bancária de 2008 – repare na classe! Numa passagem um tanto obscura, mencionou o Lula e disse que estaria dando «apertos de mão» a Obama porque havia corrupção e compra de pessoas no Brasil. Esse pedaço, confesso, não entendi.

Entender o que dizem auxiliares de Bolsonaro é tarefa árdua. Esse senhor Guedes não foge à regra. Petulante, rosna e atira insultos assim que um microfone lhe aparece. Se o objetivo era afastar investidores, o sucesso está garantido. Se era resgatar a confiança do empresariado internacional num governo aprumado, o tiro saiu pela culatra. Se era desviar a atenção da criminosa destruição da Amazônia, em cartaz atualmente, conseguiu o efeito contrário: todos se deram conta de que Guedes tentou fugir às respostas. Fugiu às respostas, mas seu chefe não fugirá às consequências.

Aqui na Europa, a conferência não foi divulgada. Melhor para nós, que não teremos de dar explicação. Tenho pena de nossos conterrâneos que vivem nos EUA – e são muitos. Desta vez, a canseira e a vergonha são para eles. Ânimo, patrícios!

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100.000 mortos

José Horta Manzano

“Construiu-se essa tragédia porque desde a eclosão da pandemia no País o presidente Jair Bolsonaro adotou um comportamento aviltante diante da maior dor sofrida pelos brasileiros em mais de um século. Por tudo o que se viu e ouviu, infortúnio maior não houve para a Nação do que ter na Presidência um líder tão incapaz e indiferente em momento tão grave da história nacional.

Capa do Estadão, 8 agosto 2020.

Não se sabe se Jair Bolsonaro um dia sofrerá sanções políticas ou jurídicas por seu descaso. Mas ele deveria temer pelo que pode vir a sofrer se acaso experimentar um despertar de consciência adiante.”

Trecho de editorial do Estadão, 8 agosto 2020.

Extremamente medíocre

José Horta Manzano

A todo momento se ouve comentar que tal coisa ou tal pessoa é «extremamente medíocre». Verdade ou não? No entanto, considerando a filiação da palavra medíocre, a expressão não faz sentido.

Em latim, o termo já era usado com a mesma forma (mediòcris), talvez sem a carga pejorativa que lhe atribuímos. Designava simplesmente quem ou aquele que estava no meio, entre os extremos, entre o muito e o pouco, o bom e o mau, o pequeno e o grande.

A origem é medius (=o meio). Do que está no meio, diz-se medíocre. Nas demais línguas que utilizam a mesma raiz, o termo não é pejorativo como em português. Na pior das hipóteses, a carga pejorativa é leve, nunca pesada como em nossa língua.

by Joe Di Chiarro, desenhista americano

Resumindo, se algo está no meio, está longe dos extremos. Chamar a essa posição “extremamente medíocre” tem ares de contrassenso. A palavra medíocre dispensa qualificativos. Algo (ou alguém) é medíocre; não precisa acrescentar nada. Significa que não é bom nem ruim.

Em rigor, a máxima latina ‘virtus in medio’ (= a virtude está no meio) poderia ser traduzida por ‘a virtude é medíocre’. Estou brincando, distinto leitor. É melhor não traduzir assim. Havia de pegar mal à beça…

Pegar mal? Sei não. Com o copioso e persistente exemplo que nos vem atualmente do andar de cima, vamos acabar nos convencendo de que a mediocridade virou virtude.

Curiosidade 1
Tanto em latim quanto nas línguas da Europa ocidental (francês, alemão, italiano, inglês, espanhol, sueco) a palavra é paroxítona, com acento no ó (mediócre/mediôker). Em nossa língua, a tônica pulou uma sílaba pra trás. Sem dúvida, ficou com jeitão mais culto.

Curiosidade 2
Na liturgia católica, a depender do momento do ofício, há três graus de curvatura do tronco na hora de prestar vênia: a pequena reverência, a média e a profunda. Em italiano, a reverência média se diz “inchino mediocre” (=inclinação medíocre). Sem um pingo de sentido pejorativo.

Qualquer semelhança…

José Horta Manzano

“As promessas mirabolantes tiveram êxito e deram nisso que aí está: na chefia do governo, um demagogo incompetente e atrabiliário, que só vive de aparências, pois, na realidade, nada de útil e de bom fez para o povo.

Ao contrário, tem se notabilizado pela maldade, pela prepotência e pela intolerância com que governa um povo pacífico e bom. Só é notado pelos atos de perseguição e de vaidosa exibição de um cabotismo doentio.

Sem os amigos, que traiu com a maior sem-cerimônia deste mundo, só lhe restam a inveja e a ambição que alimentam seu personalismo soberbo e delirante.”

Se você leu a citação acima, sabe quem é o alvo do discurso. Não precisa nem dizer o nome. Certo?

Errado, distinto leitor, errado. Não se trata do doutor que nos preside. Neste caso, qualquer semelhança será mera coincidência.

O texto foi escrito há 63 anos, numa época em que Bolsonaro ainda usava fralda. O autor, Martinho di Ciero, era deputado estadual paulista na legislatura 1955-1959. O artigo foi publicado no jornal O Dia (do Rio de Janeiro) e repicado na Folha da Manhã (de São Paulo).

O objeto da fúria do parlamentar era Jânio Quadros, então governador do estado. E pensar que, apesar de toda a incompetência já flagrante, o homem se tornaria presidente da República menos de quatro anos mais tarde. Iludir o bom povo sempre foi fácil.

Como se vê, doutor Bolsonaro não é o primeiro dirigente a carregar um «personalismo soberbo e delirante». Nem será o último, infelizmente.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

Visita ao Piauí

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro visitou o interior do Piauí. Visita de médico, rapidinha. E pensar que médicos fazem falta por aquelas lonjuras. Talvez a população gostasse mais de receber um doutor de verdade, daqueles que examinam e dão remédio. Mas remédio que cura, não desses fajutos que a gente vê por aí, pô!

by Antônio Carlos Nicolielo (1948-), artista paulista

Visita de doutor de araque é como chuva no sertão. Vem de repente, faz um barulhão e deixa todo o mundo alegre. Mas vai-se embora logo, deixa a terra mais seca que antes, não tem serventia. É mera ilusão, que hoje responde pelo nome mais sofisticado de marketing eleitoral.

Curiosidade
Você sabia que a palavra piauiense reúne 5 vogais grudadas umas nas outras? Em nossa língua, está aí a mais extensa coleção de vogais, em sequência, numa só palavra.

Outras línguas ostentam impressionantes sequências de consoantes. O alemão, por exemplo, tem o sobrenome Schürch, um cacho de 6 consoantes para uma vogalzinha. Enquanto isso, o gênio do português é conviver com fileiras de vogais. E ninguém se assusta com isso. Uai, é? Ô, é e é, uai!

Mapa macabro

José Horta Manzano

O ESRI (Environmental Systems Research Institute) é uma entidade americana que gere poderosa plataforma cartográfica de análise. Alimentada pelos dados da Universidade Johns Hopkins, o instituto mantém um mapa interativo da propagação da covid-19 no planeta.

O mapa mostra a mortalidade, não em números absolutos, mas por 100.000 habitantes, uma abordagem que reflete melhor o estrago provocado pela doença. De fato, algumas centenas de óbitos num pequeno país podem representar uma baixa relativamente mais importante do que centenas de milhares de mortes num país mais populoso.

Em números absolutos, os EUA e o Brasil são os mais atingidos pela epidemia. Porém, em número de mortos por 100.000 habitantes, o quadro se modifica. Excluindo casos anômalos, como San Marino, Andorra e outros micropaíses, a lista macabra dos 10 mais atingidos é a seguinte:

Mortes por 100.000 habitantes
Bélgica       85,7
Reino Unido   71,5
Peru          63,8
Espanha       58,3
Suécia        57,7
Itália        56,6
Chile         54,6
EUA           47,6
Brasil        45,7
França        45,2

clique para ver o original

A maioria de nossos vizinhos sul-americanos está em situação bem mais confortável que a nossa:

Mortes por 100.000 habitantes
Peru          63,8
Chile         54,6
Brasil        45,7
Equador       35,4
Bolívia       29,0
Colômbia      23,1
Argentina      8,6
Suriname       4,6
Guiana         2,9
Uruguai        1,1
Paraguai       0,8
Venezuela      0,8

Observa-se que o confinamento precoce parece ter contido, em certa medida, o avanço da epidemia. Países que, num primeiro momento, deram de ombros às medidas de distanciação social estão pagando conta mais salgada – é o caso do Reino Unido e da Suécia. A Alemanha, que deu resposta rápida à ameaça, exibe quota menos trágica: 11,37 mortos por 100.000 habitantes.

Essa era a situação em 4 de agosto. O problema é que, enquanto o contágio caiu na Europa, continua feroz nas Américas. Fica evidente que as trapalhadas (ordens e contraordens, confinamento e desconfinamento, quarentena vs circulação livre), além de repercutir mal no exterior, contribuíram e continuam contribuindo para a subida incessante dos números.

O link para o mapa interativo original é este.

A pandemia e as próximas décadas

José Horta Manzano

Que seja ou não do agrado de Mr. Trump, a Organização Mundial da Saúde, agência da ONU criada em 1948, é referência planetária em matéria de saúde, o bem mais precioso de que o homem dispõe. No mundo moderno, onde longas viagens são corriqueiras, micróbios viajam também. Os bichinhos não respeitam fronteiras: entram de contrabando sem pedir licença.

Todo dirigente dotado de um mínimo de bom senso entende que é importante apoiar uma organização que cuida da saúde do planeta. Quanto menos doentes houver, menor será o risco de vírus, bactérias e outros micróbios circularem. Quanto mais sadia forem as populações, melhores serão, especialmente para os países industrializados, as perspectivas de vender seu peixe em escala planetária.

Não serão os arroubos arrogantes e ignorantes do inquilino atual da Casa Branca que vão mudar alguma coisa. A OMS está no comando de programas de vacinação, de luta contra a pobreza, de campanhas de erradicação de doenças endêmicas. Os países mais pobres são os maiores beneficiários de suas ações.

Seu orçamento é financiado pelos quase 200 países-membros. As contribuições são fixadas levando em conta o PIB e população de cada um. Além disso, está em aumento o apoio financeiro proveniente de entidades privadas. O maior contribuidor são ainda os Estados Unidos, mas o segundo – é interessante notar – não é um país, mas uma entidade privada: a Fundação Bill & Melinda Gates, que participa com mais de meio bilhão de dólares por ano.

Numa época em que nosso país ainda estava longe de ser representado no exterior por indivíduos do estilo Weintraub, a organização foi dirigida por um ilustre conterrâneo. O médico carioca Marcolino Candau presidiu a OMS durante 20 anos (1953-1973), eleito e reeleito por quatro mandatos consecutivos – uma longevidade inigualada até hoje.

Sede da OMS, Genebra (Suíça)

Atualmente, 7.000 funcionários, baseados em 149 países, tocam uma centena de programas. Cuidados com a saúde de recém-nascidos, erradicação da poliomielite, prevenção da cegueira, pesquisa de doenças tropicais, resistência antimicrobiana, estudos sobre ebola – são alguns desses programas.

Estes dias, a OMS anunciou que a crise sanitária decorrente do coronavírus vai produzir efeitos «durante as próximas décadas». O quadro não é nada encorajador, antes, é bastante assustador. Mas não adianta tentar se esquivar: a realidade é como é, nem sempre como gostaríamos que fosse.

A contragosto, dirigentes ao redor do mundo começam a se dar conta de que teremos de conviver com esse fato novo por muitos anos. Uma doença nova, contagiosa, mortal e (por enquanto) sem vacina e sem cura anda solta e pode pegar qualquer um. Doutor Bolsonaro não é o único dirigente a torcer o nariz para essa situação desagradável, que atrapalha os planos de qualquer poderoso. É hora de parar, pensar e planejar. Hora de espremer as meninges e tentar organizar o amanhã.

Portanto, em vez de agitar embalagem de remédio duvidoso para emas, nosso presidente devia deixar de se comportar como avestruz – por sinal, parente das moradoras do gramado do palácio. Não adianta enfiar a cabeça na areia pra fingir que não viu as nuvens escuras. Melhor deixar de molho a cura miraculosa, arregaçar as mangas e abrir passagem para cientistas, pensadores e técnicos encarregados de esboçar o Brasil dos anos pós-covid. Não o fazendo, o doutor pode até escapar da cadeia, mas será irremediavelmente degredado para o limbo dos governantes amaldiçoados. Para todo o sempre.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

A luva

José Horta Manzano

No ano de 1967, este escriba estava na Suécia para alguns meses de trabalho. Tendo deixado o ninho pouco tempo antes, o conhecimento das coisas da vida ainda era escasso. A experiência de usos e costumes europeus, então, não dava nem para o gasto.

Certa feita, eu caminhava por uma rua residencial. Algumas casas eram de madeira, outras de alvenaria, mas todas tinham um jardinzinho. A maioria das janelas não tinha veneziana nem cortina, a indicar que os moradores não se incomodavam de ser observados por quem passasse pela rua. Acho até que ninguém, além de mim, havia de prestar atenção ao que ocorria dentro das casas.

Alguns jardins eram delimitados por uma cerca viva baixinha, plantada junto à rua. De repente, enxergo uma luva dormindo no topo de uma cerca viva podada rentinho. Não era um par de luvas, era uma só. Conjecturando o que é que aquela peça de vestuário estava fazendo ali, mostrei a quem me acompanhava.

A explicação veio na hora. Tratava-se certamente de uma luva que algum passante tinha deixado cair sem se dar conta. Quem veio atrás, ao encontrar o objeto e sem saber a quem pertencia, apanhou-o do chão e pousou-o em cima da cerca. Quando se desse conta do ocorrido, o dono da luva provavelmente refaria o percurso; e acabaria encontrando o objeto perdido.

Foi uma de minhas primeiras surpresas na Europa. Muitas viriam mais tarde, mas essa marcou. Tanto é verdade, que, passado tanto tempo, me lembro ainda. Na hora, fiquei imaginando que, fosse na minha terra, não viria à cabeça do dono da luva refazer o caminho pra buscar o objeto perdido. Ainda que, esperançoso, refizesse o percurso, a luvinha teria desaparecido antes de ele chegar.

Luva – etimologia
Os dicionários informam que luva é palavra de origem gótica. (O gótico era um dialeto germânico, falado pelos godos.) Na origem, a palavra designava a palma da mão.

Na difusão desse nome entre as línguas da Europa ocidental, deu-se um fenômeno interessante e pouco comum. As línguas latinas – italiano, francês, catalão, espanhol – adotaram filhotes da mesma palavra para designar esse objeto: guanto / gant / guant / guante. O termo também é germânico, só que oriundo de outro dialeto, o frâncico, falado pelos francos. (É o povo que deu origem ao nome da França.) Todas as línguas irmãs foram por um lado, só o português é que foi por outro.

Note-se outra curiosidade: luva é da mesma família do inglês glove.

Engraçado mesmo é o termo que alemães e escandinavos usam para dar nome à luva. Em alemão, é Handschuh, literalmente: sapato de mão. Sueco, dinamarquês e norueguês usam a mesma imagem.

Pra finalizar, note-se mais um fato interessante. É verdade que, divergindo das línguas irmãs, demos preferência a luva. Mas a raiz guanto / gant / guant / guante não foi banida de nossa língua. Está presente na nossa fala de todos os dias, sim, senhor! O digno representante é o verbo aguentar, descendente da mesma fonte. De fato, traduz a ideia de ‘aferrar, tomar um objeto com violência e agarrar forte’.

Dois sustos

José Horta Manzano

Você sabia?

Primeiro susto
Se alguém, na França, lhe propuser visitar uma maison troglodytecasa troglodita, o distinto leitor não deve se assustar. Não imagine que o cicerone vá conduzi-lo a lugar não recomendável a pessoas de boa família.

Troglodita 3

A língua francesa atual reserva o adjetivo troglodita para construções – em geral habitáveis, mas não necessariamente – que têm a particularidade de serem escavadas no flanco de parede rochosa. Corresponde ao que, na Espanha, chamam cueva. Têm a particularidade de manter temperatura constante ao longo do ano.

Troglodita 2

Ideal para os sem-teto medievais, abrigos desse tipo vêm sendo aproveitados para acolher turistas em busca de alojamento fora do corriqueiro. Quando bem ajeitadas, as casas trogloditas podem exibir charme incomum.

Na Idade Média, até castelos trogloditas foram construídos. Em vales estreitos, o aproveitamento da parede rochosa fazia ganhar espaço. Era prático: os fundos do imóvel já estavam prontos, só faltava construir a frente. Duro mesmo devia ser a escavação no muque para acrescentar um cômodo, quando a família crescia.

Segundo susto
Falando ainda da França, se alguém se apresentar como personne ordinairepessoa ordinária, não tome isso como sincericídio de criminoso. No francês de hoje, tudo o que não for extraordinário é ordinário. Portanto, ordinário significa comum, corriqueiro, usual. A pessoa que se qualifica como ordinária está simplesmente informando que é pessoa comum, sem atributos especiais.

Croissant 1

Se você entrar, por exemplo, numa boulangerie e pedir um croissant, virá a pergunta incontornável: beurre ou ordinaire? – de manteiga ou comum? Encomende o que lhe apetecer. No entanto, gordura por gordura, mais vale ficar com o de manteiga. Já que o destino é engordar, que seja com mais gosto.