É culpa do mensageiro

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, o ofício de mensageiro era pra lá de perigoso. Depois de correr léguas carregando notícia que pudesse desagradar ao destinatário, corria o risco de ser trucidado.

Chamada da Revista Ceará

Chamada da Revista Ceará

Até alguns séculos atrás, embaixador também podia ser profissão de alto risco. Pelas mesmas razões. O emissário, tomado como personalização do soberano que representava, podia sofrer a ira do interlocutor. E pagar pelo que não tinha cometido.

Chamada de InfoMoney

Chamada de InfoMoney

Felizmente, essas práticas desapareceram no mundo moderno. Tirando humilhações públicas, como a que dona Dilma infligiu ao embaixador da Indonésia no começo deste ano(*), portadores de notícias não costumam mais ser alvo do furor dos desagradados. Em princípio. Por que ‘em princípio’?

Chamada de Último Segundo

Chamada de Último Segundo

Porque nem sempre funciona assim. Nossos poderosos, quando apanhados de calças curtas, dão-se a comportamento pouco digno. Em vez de se defender da acusação e de procurar provar a própria boa-fé, procuram metralhar… o mensageiro.

Chamada do Jornal do Brasil

Chamada do Jornal do Brasil

Cometem, assim, na prática, confissão pública. Quem não tem culpa faz o que pode para se defender e provar inocência. Desvela segredos bancários e telefônicos. Apresenta provas documentais e testemunhos idôneos.

Chamada de Zero Hora

Chamada de Zero Hora

No Brasil destes tempos estranhos, temos regredido muitos séculos. Poderosos não admitem ter cometido crimes ou deslizes e não suportam ser denunciados. A estratégia de defesa é sempre a mesma: depreciar o acusador e alegar que ele está mentindo.

Chamada do Estadão

Chamada do Estadão

Quando não funciona, exige-se que o testemunho seja invalidado. Se ainda esse expediente não funcionar, resta minimizar o crime e transformá-lo em simples «malfeito» – coisa que todo o mundo faz, não é mesmo?

Por ingenuidade ou por comodidade, o grande público acaba acreditando. E vamos em frente, que atrás vem gente.

Interligne 18h

(*) Consultar meu artigo A diplomacia do coice.

Cinquenta vezes

Cláudio Humberto (*)

Banco 7O aspone para assuntos internacionais aleatórios da presidência, Marco Aurélio Garcia (aquele do “top-top”), é citado ao menos cinquenta vezes no inquérito que investiga o ex-presidente Lula pela prática do crime de tráfico internacional de influência para beneficiar a empreiteira Odebrecht, com financiamentos do BNDES em obras no exterior. O caso vem sendo investigado pelo Ministério Público.

O protagonismo de Marco Aurélio Garcia no caso Odebrecht poderá levar o assessor presidencial a depor na CPI do BNDES. A investigação do Ministério Público apura a acusação de tráfico de influência internacional do Lula quando era presidente.

E-mails obtidos pelo Ministério Público comprovam que era «Top-top» Garcia quem “garantia” a autoridades os financiamentos do BNDES.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

A catástrofe de Mariana

José Horta Manzano

«Prevenir acidentes é dever de todos» era advertência afixada em lugar bem visível nos bondes de antigamente. O homem ainda estava engatinhando em matéria de desenvolvimento mecânico e tecnológico. Explosões, incêndios, desastres de todo tipo eram muito mais comuns que hoje. Estes últimos 100 anos trouxeram considerável avanço em matéria de prevenção.

Vale Mariana 1Acidentes acontecem, todo o mundo sabe disso. Entre eles, alguns são inevitáveis como raio, incêndio florestal. Contra as forças da natureza, pouco ou nada se pode fazer além de rezar pra Santa Bárbara.

A maior parte dos acidentes, no entanto, entra em outra categoria. São acontecimentos contra os quais podemos – e devemos – nos prevenir. Se precauções não eliminam todos os acidentes, certamente diminuem o risco.

by Paulo Baraky Werner, desenhista mineiro

by Paulo Baraky Werner, desenhista mineiro

Pelo relato dos jornais, a catástrofe de Mariana é resultado de negligência. O estado atual de desenvolvimento da engenharia fornece os elementos necessários para evitar que uma diga ceda. Chuvas torrenciais, corriqueiras em regiões tropicais, não servem como desculpa para esse tipo de acidente. Nem mesmo tremores de terra de pequena magnitude, dado que se produzem no Brasil com certa frequência.

Majestosa sede da Vale Internacional, em St-Prex, Suíça, às margens do Lago Léman Imagens Google

Majestosa sede da Vale Internacional, em St-Prex, Suíça, às margens do Lago Léman
Imagens Google

As instalações de Mariana pertencem a um consórcio em que a mineradora brasileira Vale responde por cinquenta por cento. Essa empresa, gigante mundial no ramo, explora variadas jazidas espalhadas por 30 países.

Em artigo do ano passado intitulado Exportando desleixo, fiz breve relato dos estragos que essa empresa vem causando na Nova Caledônia, território francês do Oceano Pacífico. Exploram ali uma mina de níquel. De 2009 a 2014, causaram nada menos que sete acidentes industriais. Produtos diversos vazaram e contaminaram terras e vidas.

Vale Mariana 2Isso é o que veio a público. Sabe-se lá que barbaridades podem ter ocorrido em outras partes do mundo, especialmente em países menos ciosos da saúde do povo. Quando interesses superiores estão envolvidos, sacumé, notícias ruins têm mais dificuldade para circular.

Essa companhia deverá responder civil e criminalmente pelo desastre de Mariana. Em terras civilizadas, poderiam ir já provisionando alguns bilhões. No Brasil, onde amigos do rei têm direito a tratamento de favor, só Deus sabe como vai terminar. Quem viver, verá.

Gigantesca farsa

Não 1José Horta Manzano

Tudo é questão de hábito. Quem está no centro do palco é, por força dos fatos, personagem do drama sócio-político-econômico que se desenrola no Brasil atual. Assim, não se dá necessariamente conta do grotesco da situação. Para um observador de fora, a percepção é outra.

A escritora e jornalista Lamia Oualalou – autora do livro Brasil: História, Sociedade, Cultura – trabalha como correspondente de jornais franceses. É especializada em assuntos brasileiros e latino-americanos. Seu mais recente artigo, publicado esta semana no portal francês de informação Mediapart, leva o título «Le Brésil se transforme en gigantesque farce» – O Brasil vira farsa gigantesca.

Filme 2Num feliz cotejo, a autora relembra o filme de 1967 A Guide for the Married Man (Diário de um homem casado), dirigido por Gene Kelly. A recomendação subjacente na fita é endereçada a homem casado apanhado em flagrante delito de adultério. Sugere que ele negue a realidade, ainda que pareça absurdo.

Não 2Diante da esposa que o surpreende na cama com outra mulher, o protagonista segue o conselho: nega, nega, nega. Sua denegação da evidência é tão enfática e peremptória que consegue instilar dúvida na cabeça da esposa. Ela chega a imaginar que andou tendo alucinações.(*)

Filme 1Madame Oualalou revela a seus leitores que, no Brasil, a realidade ultrapassa a ficção. E conta a história do presidente da Câmara Federal, acusado de ter recebido 5 milhões de dólares como cota pessoal do roubo à Petrobrás. Explica que não se trata de acusação leviana, mas apoiada em documentação farta liberada pelo Ministério Público suíço. Fico imaginando a incredulidade dos leitores franceses quando a autora assevera que o acusado continua no posto mais alto do parlamento, firme na estratégia de negar, negar, negar.

Não 3A jornalista revela ainda outros capítulos da telenovela (em português no original) que transforma o Brasil, já há alguns meses, em farsa gigantesca. Relata a opinião da ministra da Agricultura, grande proprietária de terras, segundo a qual «a reforma agrária é inútil, pois não há mais latifúndios no Brasil».

Conta também o episódio pitoresco encenado na Câmara Municipal de Campinas (SP), cidade que sedia, por sinal, uma das grandes universidades do país. Explica que os vereadores votaram moção de censura a… Simone de Beauvoir! O qüiproquó deriva da menção feita no Enem de uma frase, considerada sexista, extraída do livro Le deuxième sexeO segundo sexo, obra emblemática da reverenciada Madame de Beauvoir.

Livro 3Para terminar, a correspondente informa que, de Paris, lhe perguntam se a crise econômica e política brasileira vai ser longa. Ela considera que, como se pode deduzir por essas historietas, não se trata de turbulência passageira. O que acontece no Brasil é bem mais grave do que se imagina.

(*) A cena memorável pode ser revisitada no youtube, neste excerto de um minuto e meio.

Frase do dia — 269

«Políticos e diplomatas estranharam presença do aspone Marco Aurélio Top-Top Garcia – como se fosse o chanceler – na cerimônia em que Dilma recebeu credenciais de embaixadores. Em razão da má influência dessa figura extravagante, o Brasil virou um anão diplomático.»

Cláudio Humberto, jornalista em sua coluna no Diário do Poder, 7 nov° 2015.

Novilíngua – 2

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que árvores se plantavam. Aparentemente, hoje se instalam. Há de ser consequência do desmatamento desenfreado.

Os bolos do doutor Jardim

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 nov° 2015

Os mais jovens podem até duvidar, mas eu lhes garanto: houve tempos em que escola pública, neste país, era sinônimo de bom ensino. Certos estabelecimentos maiores e mais renomados, então, roçavam a excelência. Ofereciam escolaridade completa, do jardim da infância até as portas da faculdade. Eram muito concorridos – não entrava qualquer um.

Escola turma 2Pais inscreviam rebentos na lista de espera. E armavam-se de paciência, que a fila era longa. Muitos acabavam desistindo. Atalhos havia, mas eram reservados aos que dispunham de alguma recomendação. Na época, dizíamos pistolão ou cartucho, mas funcionava exatamente como hoje. Afinal, quem tem padrinho não costuma morrer pagão.

Padrinho, eu não tinha. Mas tinha mãe tenaz e perseverante, que fazia questão de que os filhos fossem escolarizados numa determinada escola pública, considerada a melhor da cidade. Os muitos filhos, as raras vagas e a falta de pistolão tornavam o objetivo quase inalcançável. Que fazer?

Bolo 1Nem só de canhões é feita a guerra. Com doçura, atraem-se mais moscas do que com vinagre. A cada vez que um filho chegava à idade de escolarização, minha mãe, exímia fazedora de doces, assumia o encargo de pelejar pela vaga. Não deixava passar um mês sem fazer uma visitinha de cortesia ao doutor Jardim, diretor da escola.

Não era costume marcar hora para conversar com o doutor. À tarde, ele recebia um por um, na ordem de chegada. Na sala de espera, cadeiras de madeira dispostas contra a parede desenhavam um quadrilátero apinhado de gente que se escrutava discretamente. Fazia muito calor naquelas tardes abafadas dos anos cinquenta. E minha mãe ali, paciente e firme. No colo, aquele volume embrulhado com papel pardo, que ainda não se usavam essas embalagens modernas.

Escola turma 1Quando chegava nossa vez, lá íamos, ela carregando o bolo do doutor Jardim, eu atrás. Se ele apreciava, não sei. Fato é que, educadamente, sempre agradecia e mandava sentar. Minha mãe renovava o pedido de uma vagazinha pra um dos filhos. O velho senhor, muito polido, respondia que, naquele momento, não era possível, que estava tudo lotado. Minha mãe agradecia, mas não desistia. Mês seguinte, lá estava ela de novo, embrulho no colo. Tanto fez, que venceu pela canseira. Um a um, conseguiu matricular toda a penca de filhos.

Em termos crus e formais, não há por onde escapar. A conduta que visa à obtenção de favor mediante oferecimento de vantagem material tem nome feio: é suborno. Para usar termo em voga, é pior: corrupção. Mas qual é a diferença entre bolos oferecidos a diretor de escola e boladas recebidas por figurões da República?

Bolo 2Pra começo de conversa, a diferença de escala é brutal. Com dez merréis se faz um bolo. Propina que se preze, nestes tempos estranhos, se eleva a milhões. Com menos que isso, não se compra nem vereador de vilarejo. No andar de cima, ninguém se verga por migalhas. A inflação que corroeu a moeda nacional estas últimas décadas repercutiu com estrondo no balcão de propinas: por lá, o inchaço foi estratosférico.

Mas a diferença mais chocante é outra. Os bolos com que minha mãe conquistou a benevolência do doutor Jardim não eram feitos com recursos do erário. Farinha, leite e ovos eram comprados com cruzeiros subtraídos do magro orçamento familiar. Não dávamos esmola com chapéu alheio.

Livro 2Já o mesmo não se poderá dizer da prática medonha cujos desdobramentos escabrosos, há mais de ano, fixaram residência nas manchetes do país. Seu nome fica ao gosto do freguês, que a língua é rica. Pode-se chamá-la de propina, gorjeta, molhadura, suborno, jabaculê, lambidela. Ou até de pixuleco, como ensina a novilíngua. Seja qual for o apelido que se lhe dê, a característica principal permanece: é crime de lesa-população, aquele tipo de «malfeito» traiçoeiro que pune, indistintamente, todos os 200 milhões de brasileiros.

Quando empreiteiros mimoseiam figurões com somas polpudas, não pense o distinto leitor que a fortuna terá saído do patrimônio do corruptor. Ele só faz adiantar o numerário. Ao fim e ao cabo, a conta será sempre repassada a nós, povo brasileiro, eternos palhaços de uma pantomima sem graça e sem glória. No frigir dos ovos, os logrados somos nós mesmo. Sempre.

A conduta dos atuais medalhões está a anos-luz dos quindins de antigamente. Também, pudera: faz mais de meio século que os bolos de minha mãe rendiam vaga na escola. O mundo mudou, e a página está virada. De qualquer maneira, os protagonistas já repousam na paz do Senhor e os fatos estão prescritos.

Árvore sem raiz

José Horta Manzano

Quanto mais profunda for a raiz, mais sólida e mais resistente será a árvore. Raiz profunda leva tempo pra crescer. Pede muito cuidado, muita rega e, sobretudo, muito tempo.

Num sentido figurado, a imagem da raiz profunda pode ser transposta às relações humanas. Uma única relação sólida e antiga vale mais que um conjunto de relacionamentos superficiais, efêmeros e de circunstância.

Arvore 4No jogo político, é virtualmente impossível escapar a alianças efêmeras: a cada eleição, fazem-se acertos de circunstância destinados a durar pouco tempo. A regra de ouro, a seguir escrupulosamente, é não se exceder. Nenhum excesso é benéfico. Todo exagero, mais dia menos dia, acaba cobrando a conta.

Ao assumir o posto máximo do Executivo, no já longínquo ano de 2003, nosso guia não tinha experiência administrativa. Um pouco por vaidade, um pouco por ambição, um pouco por mau aconselhamento, deixou-se tentar pelo excesso. Exagerou ao tecer a teia de alianças políticas. Deu prioridade ao número de “amigos” e de “aliados”. Teve a impressão de tricotar, assim, rede de proteção mais eficaz.

Chamada do Estadão, 6 nov° 2015

Chamada do Estadão, 6 nov° 2015

Deu de ombros à regra da raiz profunda, expediente que a sábia natureza já inventou há milhões de anos. Preferiu espalhar um emaranhado de radículas superficiais, desconexas, pouco profundas. A aparência era de solidez. No entanto…

O resultado não podia ser outro. Enquanto durou o bom tempo, a teia sustentou e nutriu a árvore. A mudança radical nas condições ‘atmosféricas’ escancarou a realidade: o labirinto de relações era superficial e carecia de coesão. Partidas e desconectadas, as raizinhas já não garantem sustentação à árvore.

O demiurgo, que muitos incensavam até pouco tempo atrás, periga vir abaixo por excesso de vento e escassez de apoio. E pensar que é justamente ele quem havia dito um dia que, quando deixasse a presidência, ia demonstrar que o mensalão nunca tinha existido e que o respectivo julgamento não passava de uma farsa. Houve quem acreditasse.

Chamada da Folha de São Paulo, 6 nov° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 6 nov° 2015

Aos poucos, passo a passo, nosso guia é obrigado a recuar. Já não bravateia sobre o mensalão. Muito menos sobre o petrolão. Concluiu pacto fugaz para tentar tirar seus rebentos de situação embaraçosa. Fez mais: ao declarar que não teme a prisão, admitiu implicitamente a possibilidade de passar uma temporada atrás das grades.

Está aí mais uma vez comprovado ensinamento mais antigo que a bíblia. Quem tem o poder e o dinheiro costuma atrair legiões de “amigos” e de “aliados”. Depois de apeado do poder, babau!

O preceito é velho como o mundo, mas cada um tem de aprender por si mesmo.

Quem paga?

José Horta Manzano

«Governo terá que pagar 57 bilhões por pedaladas fiscais.»

Bicicleta 9Foi assim que a Folha de São Paulo deu a notícia. Como sabemos todos, «pedalada» é eufemismo inventado sabe-se lá por quem para evitar palavra que defina, de fato, o que aconteceu. Trapaça, pilantragem, embuste, vigarice, tramoia, trambique dariam o recado mais bem dado. Cada boi tem nome próprio e dispensa alcunha.

Dito isso, garanto-lhes que não é nesses termos que a informação apareceria em países nos quais a população é mais consciente. Quando se menciona «o governo», a grande massa dos brasileiros fica com a impressão de que esse tal de «governo» – pai de nós todos – vai bondosamente enfiar a mão no bolso e tirar de lá 57 bilhões pra resgatar seus pecados.

No Brasil, fica por isso mesmo. Lida a notícia, vira-se a página e passa-se a outro assunto. Em outras plagas, não seria tão simples. Poucos são, entre nossos conterrâneos, os que se dão conta de que a conta será paga por todos.

Chamada da Folha de São Paulo, 4 nov° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 4 nov° 2015

O governo, ao fazer mal seu trabalho, meteu o Estado brasileiro em maus lençóis. O prejuízo é nosso, de todos os brasileiros, do primeiro ao último. Caberá a cada um de nós contribuir para reparar o mal, para tapar o buraco cavado pela vigarice do Planalto.

Uns sentirão no bolso, outros sofrerão na fila do SUS. Há quem receberá formação escolar ainda mais precária que de costume. Serviços públicos funcionarão de forma ainda mais primitiva. O policiamento enfraquecido aumentará a insegurança de todos os cidadãos. Estradas ganharão mais buracos. A carestia vai se agravar. Todos pagarão.

Distraída, a grande imprensa ainda não se deu conta da força das palavras e do impacto das frases. Em vez de anunciar que «o governo» pagará bilhões, melhor seria afirmar:

«Brasileiros pagarão 57 bilhões por trambiques do governo.»

Legado desastroso

Estatísticas 2O PIB per capita em dólares deve cair de US$ 11.566 em 2014, para US$ 8.490 em 2015 e para US$ 7.900 em 2016.

A renda dos brasileiros estará cada vez mais distante do padrão de países desenvolvidos – mesmo aqueles que enfrentam brutais dificuldades, como a Grécia, cujo PIB per capita é de US$ 21.682.

Esse é, em resumo, um dos grandes legados do lulopetismo, a ser sentido por gerações, e que só poderá ser superado por meio de uma grande mobilização nacional em torno de um projeto de país radicalmente distinto das fantasias irresponsáveis criadas por Lula & companhia bela.

Trecho de editorial do Estadão, 4 nov° 2015.

O Brasil e a pobreza da Guiné

José Horta Manzano

Confesso que sinto dificuldade pra acompanhar a linha de ação de nossa diplomacia.

Levando em conta o princípio básico de que diplomacia é prerrogativa do Estado – a cujos interesses deve servir – a atuação bipolar de nosso governo de turno é desconcertante. Ressalve-se que ‘bipolar’ é expressão moderna e chique. Até alguns anos atrás, diríamos que o Itamaraty age ‘de veneta’, de forma lunática, em zigue-zague.

A África conta com três países que incluem Guiné no nome. Para fazer a diferença, é costume dizer: Guiné-Bissau (antiga colônia portuguesa), Guiné-Conakry (ex-colônia francesa) e Guiné Equatorial (minúsculo território cujo dono anterior era a Espanha). Esta última é aquela onde o Lula foi perguntar ao ditador (e dono) atual como é que se faz pra ficar 38 anos no poder. Não minto: foi nosso guia mesmo quem contou.

Guiné 1A Guiné-Conakry, com território equivalente ao do Estado de São Paulo, já conheceu turbulência no passado. Atualmente, vive período de calma relativa. Assim mesmo, falta um bocado pra atingir patamar aceitável de desenvolvimento.

Seu portal de informação – GuineeNews –publica entrevista com o embaixador do Brasil em Conakry. Num acesso de soberba, o diplomata declara que é «difficile de comprendre que vous soyez si pauvres»difícil entender que vocês sejam tão pobres.

Ora, todos sabem que as riquezas naturais e o trabalho da África sub-saariana, antes confiscados pelo colonizador, estão sendo abocanhados por ditaduras sangrentas, ávidas e insaciáveis. O diplomata faz cara de paisagem para os espoliadores atuais. Prefere fixar-se nos antigos rapinantes. Faz questão de deixar claro que o Brasil não tenciona se apoderar de riquezas guineanas. «O Brasil não precisa tomar o que a Guiné tem» – declara ele. E continua: «Vocês têm ouro, nós temos ouro. Vocês têm bauxita, nós também.»

E não pára por aí. O embaixador faz questão de remexer a faca na ferida. Ele se pergunta como é possível que o Brasil tenha chegado lá enquanto a Guiné ainda engatinha. Ao final, emite o julgamento: segundo ele, os guineanos precisam “organizar-se para ver a luz no fim do túnel”.

Blabla 2Santo Deus, quanta arrogância! Não precisa ser especialista pra entender que o Brasil chafurda num mar de lama, desorganizado, bagunçado, rapinado, depredado, longe de ver a luz no fim do túnel.

O representante de um país que mal consegue manter em dia o pagamento de contas de manutenção de suas embaixadas não está em condições de dar lições a quem quer que seja. Fosse eu guineano, me sentiria incomodado.

Fica a impressão de que os quadros do Itamaraty andam fazendo pronunciamentos sem sentido nem utilidade, só pra bater cartão. Se há alguma intenção oculta por detrás disso tudo, não identifiquei. Só espero que não tenha nada a ver com financiamento de grandes obras pelo BNDES. Já basta.

Crise não chegou ao Planalto

Jorge Oliveira (*)

As viagens da Dilma para o exterior são infrutíferas, não trazem benefícios ao país. Servem para ela fugir da crise e gastar R$ 2 milhões por ano apenas com comida a bordo do avião presidencial, dinheiro do contribuinte que, como idiota, continua sustentando o luxo dela e bancando suas despesas em bons e sofisticados restaurantes lá fora.

Banquete 3O jornalista José Casado, do Globo, fez levantamento minucioso dos gastos da estrutura presidencial e chegou a números espantosos. Foram R$ 9,3 bilhões no ano passado para sustentar o entourage que gira em torno dela com alimentação, vestuário, viagens aéreas, servidores, jardinagem, deslocamentos internos e externos, carros, combustível, cartões corporativos, vigilância privada e órgãos à sua disposição.

(*) Jorge Oliveira é jornalista e assina coluna no Diário do Poder.

Falam de nós – 15

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Violência em foco
Assalto 1Ao dar a notícia do enésimo tiroteio ocorrido no Rio de Janeiro este ano, a RTBFRadio Televisão Belga de expressão francesa – dá ênfase ao fato de estarmos a menos de um ano da abertura dos Jogos Olímpicos de verão. Que terão lugar, como todos sabem, na cidade de São Sebastião.

O artigo ressalta que nosso país, com média de 29 assassinatos anuais por 100 mil habitantes, é um dos mais violentos do mundo. Pela definição da ONU, taxa superior a 10 homicídios por 100 mil habitantes indica violência endêmica.

O Rio que se prepare. Durante estes meses que nos separam da abertura dos JOs, suas tripas estarão expostas à análise planetária.

Santana é nosso!
Rumores corriam na Argentina de que o ‘mago’ João Santana, marqueteiro titular do Partido dos Trabalhadores, estaria fazendo um bico na campanha de señor Scioli, candidato kirchnerista à presidência da república hermana.

O diário portenho La Nación traz a resposta firme e peremptória vinda do Brasil: «Nem João Santana nem ninguém de sua equipe estão participando da campanha de Daniel Scioli.»

O esclarecimento vem em boa hora. Señor Macri, candidado de oposição, tem boas chances de vencer o pleito. Marqueteiro nenhum deseja carregar no currículo uma eleição perdida.

2015-1103-01 La NacionNunca é tarde pra consertar
A veneranda BBC dá destaque ao pedido de destituição da presidente da República, apresentado por Hélio Bicudo. Como sabem todos, o doutor Bicudo é petista pentito. Pentito é termo italiano usado para designar todo aquele que, tendo feito parte de organização criminosa, se regenerou.

Desigualdade social
O diário Tages Anzeiger, um dos maiores jornais suíços, faz um balanço das perspectivas turísticas do país. Tendo em vista que o câmbio atual sobrevaloriza o franco suíço, uma temporada nas montanhas francesas ou austríacas sai bem mais em conta.

Nada se pode fazer contra a cotação da moeda, é verdade. Mais vale ir buscar categorias de turistas com poder aquisitivo suficiente para enfrentar um passeio pelas neves helvéticas.

Promotores turísticos espicham o olho para essa clientela afortunada. E onde é que vão buscar essas pérolas raras? Especialmente em dois improváveis países: na China e… no Brasil. Quem diria, hein!

Expo 1Brasil leiloado
Fim de semana passado, depois de seis meses, a Exposição Universal de Milão (Itália) fechou as portas. Pouco comentada no Brasil, a feira italiana atingiu o incrível patamar de 20 milhões de visitantes, uma cifra enorme. Cada país montou pavilhão, como é costume. O do Brasil foi um dos mais visitados, tendo recebido 5,3 milhões de pessoas.

O que mais chamava atenção no pavilhão brasileiro era uma rede suspensa sobre a qual o público podia caminhar. Não sei se a intenção dos organizadores terá sido transmitir a sensação de areia movediça e de insegurança que caracteriza nosso país. Será apenas coincidência.

Fato é que, terminada a exposição, os pavilhões foram a leilão. Orgulhoso, o jornal La Provincia di Lecco, da cidade homônima situada a 65km de Milão, informa que o pavilhão brasileiro foi arrebatado por uma empresa local especializada em montagem de eventos. O lance final foi de um milhão e oitocentos mil euros, bem abaixo do custo de construção.

Manif 10Cada qual como lhe convém
A emissora estatal venezuelana de tevê Telesur, também conhecida como «tevê do Chávez», dá em manchete, com visível alívio, a notícia de que o Exército Brasileiro descarta toda possibilidade de golpe de Estado contra dona Dilma.

A tevê destaca que os militares não têm intenção de se alevantar, em que pesem os continuados escândalos de corrupção.

Fiel a sua missão de guardiã do bolivarianismo – mas um tanto esquizofrênica –, a emissora inclui fotos e vídeos de manifestações em que alguns gatos pingados, vestidos de vermelho, protestam contra o ajuste fiscal decidido pelo próprio governo de dona Dilma. Vá entender…

Desculpe o transtorno. Estou em reforma.

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não dava mais para adiar uma reforma radical do meu edifício psíquico. O ar de decadência já havia tomado conta de tudo e deixado claro que não adiantaria reestilizar o ambiente. Era preciso derrubar todas as paredes e recomeçar do zero.

Conserto 2Bem que eu tentei continuar convivendo com as velhas estruturas que ainda estavam de pé dentro de mim, mas a verdade inescapável era que minha vida anímica tinha perdido muito de sua funcionalidade. Eu já tinha improvisado alguns remendos de caráter, redecorado ítens de personalidade, feito um puxadinho emocional para acomodar meu desconforto de lidar com tarefas rotineiras. Tinha construído mais um andar para servir de depósito para todos aqueles projetos que eu ia empilhando para quando chegasse o dia certo de realizar. Não adiantou.

Eram tantas divisórias que eu já não podia mais circular livremente. Havia também espaços emocionais que estavam vazios ou subutilizados. O espaço da família, por exemplo, que era gigantesco e imponente, foi se apequenando com o tempo e hoje as visitas são raras. O espaço dos amigos, antigamente o mais frequentado da casa, estava sempre cheio de risos, música e ruído de conversas. Aos poucos, as risadas foram perdendo colorido, a música tornou-se inaudível de tão baixa para não atrapalhar as conversas e estas foram sutilmente se transformando em troca de comentários ocasionais. Depois, os amigos foram rareando e o espaço acabou sendo convertido em balcão de recepção de mensagens eletrônicas, curiosas talvez, mas sem substância para alimentar a alma.

Limpeza 1A cozinha deixou de ser espaço de experimentação. Meus alimentos preferidos, os livros e os discos, foram sendo deixados de lado em função da dificuldade em mastigar e absorver os nutrientes de tantas novas informações. O cardápio repetitivo e a execução burocrática terminaram afugentando convivas em potencial e eu mesma fui ficando cada vez mais inapetente.

O quarto de despejo estava lotado até o teto de raivas impotentes, ressentimentos, mágoas e fantasias de grandeza que eu bordava no passado e nunca tive ocasião de usar. A área dos medos tinha se avolumado e invadido os cantinhos ao redor. Eram muitos: o medo da morte, da velhice, da solidão e, o maior deles, o medo da própria vida. Já não dava mais para abrir as janelas e arejar o ambiente. O odor nauseante de mofo espalhou-se por todo o meu ambiente anímico, trazendo irritação, mau humor e desesperança.

Foi só quando o atravancamento e a sensação de sufocamento atingiram o ponto máximo que a ideia de uma reforma libertadora começou a se delinear. O atulhamento era tão grande que eu inconscientemente havia optado por me encolher, prendendo o diafragma e tentando expandir o mínimo possível os pulmões para não detonar uma avalanche emocional. O medo do soterramento era mais forte do que meu desejo de abrir os braços, esticar o peito, endireitar a postura e reivindicar meu direito a uma cota satisfatória de oxigênio.

Loft 1Vislumbrei o projeto arquitetônico da reforma no exato instante em que o esforço para respirar provocou o destravamento do diafragma. A energia vital recomeçou a circular e meu corpo psíquico começou a vibrar novamente. Resolvi transformar o apartamento numa espécie de loft onde a ausência de barreiras permitiria que tudo pudesse se comunicar com tudo: o espaço dos amigos integrado ao espaço dos ideais de vida, o espaço da vida diretamente conectado ao espaço da arte. A nova cozinha, integrada à sala, vai se transformar na alma da casa. Vou testar novos ingredientes pessoais e uma receita nova de relação a cada dia.

Conserto 1Para restabelecer a funcionalidade do ambiente, todos os medos terão de ser desalojados. Vou doar todas as fantasias irrealizadas para uma instituição de caridade que atenda crianças e jovens. Eles saberão o que fazer com elas e, se julgarem que alguma não tem mais serventia, poderão se desfazer dela com o desapego que eu não pude ter.

Também não haverá mais divisão entre espaços de serviço e espaços sociais. Todos que frequentarem uns estarão autorizados a usufruir dos outros. A inexistência de regras de coexistência e convivência certamente vai devolver todo o dinamismo que me fazia tanta falta. Estou apostando alto na transmutação de todo conhecimento em sabedoria.

Janela 1Do passado, só mantive um estratagema: continuo não querendo que a tecnologia ocupe o lugar do humano no meu psiquismo. Nada de aplicativos de celular para controlar as funções da casa e nada químico para incrementar a sensação de potência orgânica. A natureza vegetal e a natureza humana continuarão sendo meus mais fortes aliados.

Você está convidado a conhecer meus novos recintos anímicos. Vamos organizar uma comilança para celebrar os novos tempos. Traga consigo suas esperanças, sua leveza de alma e sua disposição para o diálogo. As portas estarão sempre abertas para pessoas como você.

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.