Pensamentos sem suas fontes

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há um princípio geral da neuropsicologia que muitas vezes escapa à nossa atenção: a apreensão da realidade nunca é desprovida de filtragem emocional. Nossos órgãos dos sentidos estão condicionados, sem dúvida, aos estímulos provindos do mundo exterior, mas nem sempre nos damos conta de que eles também estão atrelados às nossas expectativas, princípios, valores e preconceitos. Em certa medida, ouvimos o que queremos ouvir, percebemos os sabores e odores que queremos perceber, temos as sensações táteis que queremos ter.

Blabla 8Os exemplos abundam. Mulheres que acabaram de parir conseguem ouvir os sinais mais sutis de desconforto de seu bebê, quando todos ao redor permanecem indiferentes. A simples visão de uma pessoa suada dentro de um transporte coletivo desencadeia em muitos circunstantes uma sensação olfativa desagradável. Infinitas brigas de casais acontecem quando um dos parceiros não registra conscientemente uma fala qualquer do outro e é acusado de desatenção ou indiferença. Sensações táteis podem ser potencializadas se sentimos admiração, medo ou repulsa pelo que estamos tocando, como a maciez da pele de uma criança, o frio do corpo de uma cobra ou a viscosidade de um verme.

Na área da linguagem humana, o abismo que separa o estímulo emitido e a forma como ele é recebido é sensivelmente mais profundo. Ao escolhermos palavras para manifestar uma opinião, sensação ou sentimento, esquecemos muitas vezes que o outro vai reagir não apenas à intenção que nos moveu, mas fundamentalmente ao peso emocional que cada palavra adquiriu ao longo de sua própria história. Além disso, enfrentamos mais um fator complicador: o tom de voz empregado ao dizer a palavra pode transformar o que pretendíamos ser um elogio em uma ofensa indesculpável.

Blabla 9Só os mais velhos lembrarão de uma frase polêmica dita por Mário Amato, então presidente da FIESP, a respeito da então Ministra da Economia (“Ela é muito inteligente, apesar de ser mulher”) ou de um argumento julgado ainda mais insultuoso usado por Paulo Maluf (“Tá bom, tá com vontade sexual, estupra, mas não mata”). Freud explicando ou não esse tipo de comentário, o que importa é registrar o severo risco de mal-entendidos ao transferir um conteúdo de nosso universo interior para o exterior, sem contextualizá-lo e sem aplicar o filtro da censura social.

Os desafios da comunicação humana já seriam difíceis de superar caso os problemas parassem por aí. Não é o que acontece. A imagem que fazemos da pessoa que fala ou escreve algo, nossas expectativas em relação a ela, a admiração ou desprezo que sentimos por ela também interferem pesadamente.

Blabla 10Há muitos anos, quando eu trabalhava na área de RH de uma grande multinacional, contratamos um consultor externo para ajudar na elaboração de um workshop que enfatizava a importância do planejamento. Para ilustrar o tema, o consultor optou por inserir uma frase de Karl Marx. Era uma ideia simples, sem duplo sentido e até um tanto ingênua, que apontava a diferença entre o homem, capaz de estabelecer um vínculo entre a meta desejada e sua estratégia de ação, e o animal, que se limita a improvisar soluções pontuais.

Para nosso espanto, em todos os grupos submetidos ao treinamento, várias pessoas reagiam com extrema antipatia à frase e muito tempo era perdido para tentar superar seu impacto negativo. Foi então que alguém levantou a hipótese de que a polêmica estivesse centrada na resistência ao contexto “comunista” do argumento. Quando mais tarde a frase foi apresentada aos demais grupos sem identificação da fonte, a hipótese comprovou estar certa: o argumento passou a ser rapidamente absorvido, sem nenhuma forma de contestação.

Blabla 11Talvez seja de bom alvitre levar em consideração a existência de possíveis restrições à fonte nestes tempos bicudos de triunfo da linguagem politicamente correta. A conclusão inescapável diante desse fenômeno é a de que, hoje em dia, não basta usar a palavra certa, o tom correto, nem adotar uma atitude blasée diante do tema a discorrer. É preciso cuidar para a imagem que projetamos não interferir negativamente na compreensão e na aceitação de nossas mensagens.

Valho-me dessas considerações para propor um joguinho descompromissado aos que me leem. É um exercício divertido e revelador ao mesmo tempo, garanto. Abaixo estão elencadas algumas frases de pensadores famosos, de diversos campos do conhecimento. A proposta é que você leia cada frase e gaste alguns segundos refletindo sobre ela, para avaliar seu grau pessoal de concordância e identificação com essas formas de pensar. Não se trata de um teste de conhecimentos gerais, nem de aferição da sensibilidade de cada um. Depois, quando o impacto emocional de cada raciocínio já tiver sido absorvido, você terá acesso ao “gabarito oficial”. Releia então as frases e examine desapaixonadamente o que mudou na sua percepção. Vamos lá:

     Blabla 12     • 1 «Anatomia é destino.»

     • 2 «Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos.»

     • 3 «Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.»

     • 4 «Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a um entendimento de nós mesmos.»

     • 5 «A democracia é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes.»

     • 6 «A vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema.»

     • 7 «O medo é pai da moralidade.»

     • 8 «Nem só de Proust vive uma mulher.»

Daqui a dois dias, identificaremos o autor de cada frase. Por enquanto, o distinto leitor está convidado a fazer a lição de casa. Fica o suspense.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dias certos para sentir

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Sei que vou chocar muita gente com o que tenho a dizer, mas vou dizê-lo mesmo assim. Não sei explicar esse meu gosto mórbido em ser do contra, procurar o avesso de toda intenção, manifestar desconformidade com o clima geral de celebração.

Tudo que sei é que não gosto de sentimentos impostos com data marcada. Acordar num dia que, só por estar marcado em vermelho na folhinha, exige de mim todo um preparo emocional para oferecer risos, abraços e gestos de ternura. Manifestar, mesmo sem sentir o impulso vindo de dentro, alegria ou gratidão ou solidariedade ou generosidade.

Dia das maes 3Se é Natal, é preciso entrar no clima de confraternização em família. Se é Páscoa, é necessário lembrar que todo ciclo chega ao fim e acreditar na eterna possibilidade de recomeçar. Se é o Yom Kipur, é imprescindível destravar o peito, reafirmar que somos todos falíveis e perdoar quem não correspondeu às expectativas. Se, ao contrário, o dia é de tristeza compulsória, como o Dia de Finados, é praticamente impossível resistir à obrigação de fazer cara séria, deixar que uma lágrima furtiva escape ou rememorar as qualidades e os momentos felizes vividos junto à pessoa que sentimos como ausente.

Ontem foi o Dia das Mães. As redes sociais lotaram de postagens festivas dos que ainda têm a mãe por perto para abraçar e de declarações chorosas de quem já não tem mais essa oportunidade. Qual o problema? Em princípio, nenhum. Cada um é livre para expressar seus sentimentos pelo ângulo e da forma que desejar. O que me incomoda não é o desejo de homenagear, mesmo que comercialmente, uma pessoa que, bem ou mal, representa a âncora mais firme de que dispomos para nos lançarmos nas águas revoltas da vida.

Dia das maes 2O que me perturba desde sempre nessas ocasiões é a sensação de estar sendo forçada a aderir a um movimento de massa, que nem sequer se dá ao trabalho de auscultar a própria verdade interior. Não poder dissentir, não poder moderar, não poder temperar o caldo afetivo com sabores exóticos, não poder pintar o cenário com outras cores mais pessoais.

Falar das experiências dissonantes vividas nas relações familiares, amorosas, religiosas ou políticas tem o peso de um dedo rigidamente apontado contra todas as pessoas que se renderam ao clima de festa. Não se integrar de corpo e alma à paisagem emocional à sua volta é aceitar o risco de transmitir uma mensagem ambígua ou oposta: não acredito no Deus redivivo, não compartilho da crença de que o recomeço é possível, não consigo sufocar minhas mágoas, não amo minha mãe, não valorizo a vida eterna.

Dia das maes 4Lembro que um dia, durante uma sessão de psicodrama, o terapeuta me chamou ao palco e pediu que eu representasse o papel de uma histérica para contracenar com um homem que enfrentava conflitos com a esposa. Estranhamente, senti de imediato que meu corpo todo havia se paralisado. Não podia gritar, não podia chorar, não podia gesticular, por mais que minha cabeça assim o ordenasse. O terapeuta, então, aproximou-se devagar pelas minhas costas e prendeu com força meus braços para trás. A reação veio com fúria e de chofre: passei a me debater descontroladamente, a me descabelar, chorar e gritar a plenos pulmões. Só um pensamento ocupava minha mente: libertar-me de qualquer maneira daquela contenção indesejada. A crise só terminou quando, vencida pelo cansaço, me deixei desabar no chão, escapando do confronto pelo meio das pernas do terapeuta.

Dia das maes 6Talvez seja isso, afinal, o que se esconde por trás de todos os meus descompassos emocionais. É o que eu sinto por dentro que me move, não o que se espera de mim por fora. Sinto como agressão o desrespeito à espontaneidade do meu estado de humor. Minha paralisia denuncia então, mesmo a contragosto, o meu não-pertencimento, a vontade que não sinto como minha.

Compreendo, é claro, que minha verdade psicológica não é necessariamente a mesma da de outras pessoas, nem acontece forçosamente em sincronia com qualquer outra. Sei que é possível experimentar conforto mesmo quando a gente se deixa levar por uma onda de afeto programado.

Dia das maes 1O que me constrange é não ser capaz de expressar sem agressividade meu apreço pela liberdade interior que todo ser vivente tem – ou deveria ter – de manifestar suas emoções quando, onde e do jeito que quiser. Pela licença autoconcedida de sentir-se triste quando todos estão felizes. De se perdoar por não ser capaz de se enternecer.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pressão do grupo e adestramento de humanos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um dos experimentos mais interessantes, curiosos e instigantes de que tive notícia sobre a gênese de crenças irracionais foi feito com macacos.

Em linhas gerais, o estudo se propunha a identificar como nasce uma superstição. Para testar a hipótese de que o comportamento de um único indivíduo pode ser associado à ocorrência de um evento ameaçador para todo seu grupo de referência e, a partir daí, disseminar-se como crença, contaminando o comportamento dos demais, foram criadas as seguintes condições experimentais:

Macaco 2Um grupo de macacos era colocado dentro de uma jaula fechada por vidros, que possuía uma plataforma em seu centro. A plataforma era içada para o alto e, sobre ela, depositava-se um cacho de bananas. Todos os macacos eram ingênuos (isto é, nunca haviam estado dentro da jaula em questão) e estavam com fome. Naturalmente, um dos indivíduos, ao sentir o cheiro das bananas, tentava escalar a plataforma para ter acesso a elas. O que nenhum dos macacos sabia era que havia um sistema hidráulico embutido na plataforma que era acionado pelo peso. Tão logo o macaco pioneiro chegava ao topo e se sentava sobre a plataforma para comer as bananas, seu peso acionava uma bomba que inundava toda a gaiola, ameaçando a vida dos que estavam embaixo. Estes, desesperados com a possibilidade de afogamento, gritavam e se agitavam, na tentativa de escapar da jaula. Eventualmente, o macaco que estava em cima da plataforma deixava-se contaminar pelo clima de pânico geral e descia dela. A água parava então de jorrar e passava a ser drenada, pondo fim ao estresse do grupo.

Quando, mais tarde, um segundo macaco faminto escalava a plataforma, o mecanismo era novamente acionado e nova tensão recaía sobre o restante do grupo.  A situação se repetia até que os macacos passassem a associar a escalada com ameaça de morte para todos que não a fizessem. A partir desse momento, qualquer nova tentativa de subir na plataforma era impedida pelos demais, que agarravam o indivíduo afoito e o puxavam para baixo, antes que ele pudesse se sentar sobre ela.

Caixa vidroAssim que esse padrão de conduta tivesse se firmado, um dos macacos era retirado da gaiola e substituído por outro, ingênuo. Se este tentasse escalar a plataforma, era repelido pelos demais, sem que dispusesse de qualquer pista dos motivos que levavam o grupo a fazer isso. Os macacos eram então sucessivamente retirados um a um e trocados por novos indivíduos, até que todo o grupo fosse novamente constituído apenas por ingênuos. O que o experimento constatou foi que, independentemente do fato de desconhecerem os motivos da proibição da escalada e de estarem famintos, todos acabavam repetindo o comportamento “supersticioso”.

Não preciso nem dizer que, desde o dia em que soube desse estudo, fiquei imaginando como o fenômeno da superstição seria desencadeado na espécie humana. Sou filha de um homem extremamente supersticioso que, quando não sabia explicar o porquê de certas proibições, alegava brincando que “seu filho pode nascer sem dentes e sem cabelo”.

Há alguns dias, passeando por uma rede social, vi um vídeo que respondia em cheio às minhas indagações. Segundo as informações constantes da matéria, o estudo foi realizado por pesquisadores de uma universidade inglesa e consistia no seguinte: um grupo de pessoas aguardava sentado por uma consulta na antessala de uma clínica médica. Uma discreta campainha soava a intervalos regulares. Sem que nenhuma instrução fosse dada nesse sentido e sem qualquer comentário das pessoas presentes, a cada toque todos se levantavam por instantes e voltavam a se sentar. Uma jovem, ingênua, chega à clínica e estranha aquele comportamento. Sem saber como se comportar, ela permanece sentada por dois toques consecutivos, mas sucumbe à tentação de imitar o comportamento dos demais no terceiro. Os pacientes vão sendo chamados um a um e, em pouco tempo, só resta a jovem na sala de espera. Nesse momento, chega um rapaz ingênuo e senta-se ao lado da garota. Quando um novo toque de campainha soa, a jovem, mesmo sem a companhia dos que faziam isso anteriormente, levanta-se e volta a sentar-se. O rapaz interrompe a leitura de uma revista e questiona, perplexo, por que ela havia feito aquilo. A garota responde, sem graça, que não sabia exatamente, mas que, por outras pessoas terem agido daquela maneira quando ela chegara, “sentiu que deveria” agir da mesma forma. E acrescenta: “Quando passei a fazer isso, me senti muito melhor”.

Sala de espera 1O rapaz passa, então, a imitar o comportamento da jovem. Outros pacientes ingênuos chegam e, com maior ou menor grau de resistência, terminam todos por repetir o comportamento irracional. Segue-se uma rápida explicação dos pesquisadores a respeito de como nosso cérebro reage à pressão de grupo e como eventuais punições e recompensas vão, aos poucos, constituindo aquilo a que chamam de nossa “educação social”. Nada de muito novo nem espetacular, mas certamente uma descoberta que condensa de forma criativa e simples o desejo humano de inclusão no grupo – como já explicitava desde tempos imemoriais o ditado popular “Em Roma, age como os romanos”.

Não pude deixar de pensar na similitude entre esses dois experimentos e as demandas sociais a que estamos submetidos que corroboram minha tese de adestramento de humanos. Quem nunca hesitou antes de tomar um copo de leite com manga? Quem nunca acreditou que, para ser amado, é preciso ser belo? Quem nunca equiparou sucesso a dinheiro, casamento a felicidade ou solidão a morar só, admiração social a posse dos itens de moda? Quem nunca teve medo de que os céus se abrissem e um raio o fulminasse caso ousasse desrespeitar um credo religioso?

Galileu 1O preço a pagar pela decisão de seguir percurso próprio, mesmo que isso represente andar na contramão da história, pode ser tão alto quanto o de se deixar levar pela vontade de imitar a grande massa sem ouvir a voz do próprio coração. Duvida? Seria aconselhável, neste caso, estudar a biografia de Galileu Galilei, Albert Einstein ou Sigmund Freud. Depois, entrevistar profissionais que fizeram carreiras de sucesso meteórico até serem abatidos em pleno voo por um ataque cardíaco ou uma crise existencial. Ou conversar com uma diva do cinema ou televisão, eleita a mulher mais desejada do planeta, que se interna em uma clínica psiquiátrica na tentativa de aprender a lidar melhor com sua infelicidade no plano sexual e afetivo. Ou, ainda, mais contemporaneamente, aderir por puro cansaço à tese de que há base legal para o impeachment da presidente ou à de que tudo não passa de um “golpe”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Sofismas e atos falhos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Se vivo estivesse e se acionado fosse para nos ajudar a interpretar o cenário brasileiro atual, Sigmund Freud estaria intensamente atarefado por estes dias. Além dos múltiplos atendimentos no divã particular, provavelmente estaria às voltas com um sem número de convites para palestras e aulas magnas nas principais universidades do país.

Einstein e FreudSa correspondência com Albert Einstein estaria ainda roubando preciosos minutos de seu tempo, assim como consultas a livros de mitologia, sociologia, antropologia e religião para tentar responder às questões agudas propostas pelo pai da Relatividade, pertinentes à psicologia das massas e aos tempos de crise na civilização. Freud seria forçado a sair de sua área de especialidade para fazer eco ao alerta de Einstein de que “é reduzido o número daqueles que veem com os próprios olhos e sentem com o próprio coração, mas da sua força dependerá que os homens tendam ou não a cair no estado amorfo para onde parece caminhar hoje uma multidão cega”. Mesmo assim, o velho Freud talvez vibrasse com sua sábia conclusão de que “não podemos desesperar dos homens, pois nós próprios somos homens”.

Sartre 1Se aos dois se juntasse ainda Jean-Paul Sartre, é provável que as conversas sobre nossa inexorável condenação ao inferno da convivência humana e suas tentativas de explicação de nosso sem-destino existencial varassem as madrugadas e durassem semanas.

Uso abusivo de sofismas, atos falhos, lapsos de linguagem, crises de histeria individual e coletiva, mania de perseguição baseada em tramas rocambolescas que dariam inveja aos mais renomados novelistas de costumes, apego à vitimização, personagens megalômanos, psicopatas e sociopatas, compulsão no uso de palavras de ordem, obsessão por temas políticos e judiciais, voluntarismo no desejo de implementação de mudanças, manipulação afetiva e chantagem emocional para atrair aliados, comportamento de horda, etc. – experimentamos em nossa pele a cada novo dia todo um tratado de psiquiatria, psicanálise e psicologia. Tudo isso sem mencionar três síndromes preocupantes: a de Rei Sol ou síndrome Luís XIV (“L’État c’est moi”) e a síndrome de Luís XV, o Amado (“Aprés moi, le déluge”) que grassam entre os governantes, assim como a Síndrome de Estocolmo que se dissemina entre a parcela desassistida da população.

Luis XIVÉsquilo, dramaturgo da Grécia antiga, já havia nos advertido pioneiramente que, em tempos de guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. E foi além, penetrando um pouco mais nos meandros do conturbado psiquismo humano: “Falseando a verdade, a maioria dos homens prefere antes parecer a ser”.

Nietzsche certamente se apressaria em juntar forças com esses pensadores para agregar que “aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro… porque a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não consegue ver o fundo”. Sem dúvida, um poderoso consolo para todos nós que assistimos assoberbados ao presente festival de esgrima verbal, com proliferação de sofismas e atos falhos.

O dicionário pode nos socorrer para entendermos as motivações em curso:

Sofisma
Argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta na realidade uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa; argumentação capciosa, concebida com a intenção de induzir em erro, o que supõe má-fé por parte daquele que o apresenta.

Ato falho
Fenômeno descrito por Sigmund Freud, que se caracteriza por erro na fala, na escrita, na memória ou numa ação física, que permite inferir a existência de desejo reprimido, e a respeito do qual não se pode dizer, portanto, que tenha ocorrido acidentalmente por distração ou cansaço; formação de compromisso entre o inconsciente e o consciente.

Cabe a cada um dos que me leem elencar os casos mais emblemáticos e seus exemplos favoritos em cada uma dessas categorias. Mas, reflitamos um pouco, o que é preciso fazer para colocar um ponto final nessa fase de involução civilizatória e curar nossas doenças anímicas?

Brasil mapa 3Depois de muito pensar, tenho a propor uma solução salomônica: vamos dividir o Brasil ao meio e entregar cada parte a um dos lados da disputa. O objetivo desse novo Tratado de Tordesilhas será, é claro, identificar quem ama mais sua pátria e quem veste melhor o uniforme de estadista. A divisão poderá ser feita horizontalmente, fixando a linha de fronteira por exemplo na altura de Brasília, ou verticalmente, usando a mesma referência. Uma Assembleia Constituinte será naturalmente convocada fora do Congresso, contando com a ajuda especializada de intelectuais de todos os matizes ideológicos para a elaboração das novas cartas magnas. Através de plebiscito, a população escolherá as novas formas de governo e de representação política apresentadas pelos sábios da nação. Aos poucos, definiremos também as formas de convivência mais satisfatórias entre o Brasil do Norte e o Brasil do Sul (ou Brasil do Leste e Brasil do Oeste) e construiremos novos laços com outros países. A definição da moeda, da língua nacional e da preferência por um estado laico ou religioso em cada novo país serão outras preocupações na sequência.

Pensando bem, a principal desvantagem dessa linha de raciocínio é que, além de dar um trabalho danado para recomeçar do zero, continuaríamos divididos. A favor de minha proposta, só o alívio que sentiríamos todos com a reconceituação daquilo em que consiste nossa cidadania.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Mudando de assunto…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dois artigos abordando direta ou indiretamente a relação entre câncer e psiquismo chamaram minha atenção nestes últimos dias.

O primeiro, um vídeo de Dráuzio Varella, no qual ele afirma enfático que “não há nenhuma possibilidade” de que distúrbios de caráter estritamente psicológico possam provocar “mutações genéticas”. En passant, ele ainda discorre sobre a falta de comprovação científica de que a religiosidade ou a espiritualidade possam interferir positivamente para a cura do câncer. Diz ainda, com ar paternalista de desaprovação, que as tentativas de associar o aparecimento de um tumor cancerígeno a aspectos psicológicos e a não resposta ao tratamento à “falta de vontade” do paciente são duplamente cruéis, já que instilam culpa em uma pessoa já combalida pela doença.

Doente 1O segundo, um artigo publicado na Folha de São Paulo por Marcelo Leite, no qual ele contesta asperamente a decisão de juízes do STF e de congressistas no sentido de liberar a produção e distribuição da fosfoetanolamina. Ao longo de seu arrazoado, ele equipara a assim chamada “pílula do câncer” a coisas como barbatana de tubarão, cogumelo do sol e maca peruana e conclui autocraticamente: “São pseudomedicamentos que se aproveitam da credulidade e do desespero dos enfermos e de seus parentes para vender uma esperança desumana”. Mais para a frente, ele argumenta ainda que as pessoas que aprovaram o uso dessa droga sem o aval da Vigilância Sanitária são “os mesmos que não pensam duas vezes antes de desperdiçar milhões do contribuinte quando forçam o SUS a pagar terapias duvidosas com células-tronco e que tais em países asiáticos”.

Um minuto de silêncio para absorver o impacto dessas informações e para lamentar a morte do verdadeiro espírito científico. Tudo isso em dois sentidos principais: o primeiro, aquele que considera que só se pode chamar de “ciência” as investigações quantitativas; o segundo, aquele que ignora que resultados obtidos em um estudo podem ser contestados por outros, dependendo da premissa de base, da acurácia dos instrumentos utilizados e dos conhecimentos vigentes à época de cada estudo. Ai, Santo Einstein, que seria de ti nas mãos desses iluminados?

Doente 3Respeito o desejo que esses doutores manifestam de proteger incautos de curandeiros e de falsas promessas. Não posso deixar, no entanto, que eminências pardas da medicina alopática mexam impunemente num vespeiro do qual faço parte. Reconheço a veracidade desta ou daquela afirmação isolada, admito que sua indignação pode ser legítima, mas pasmo com a ligeireza intelectual com que esses senhores estabelecem conexões entre fatores absolutamente díspares. Para mim, é como alardear que está provado cientificamente que baratas não ouvem pelas pernas, já que um estudo controlado mostrou que elas não saem do lugar quando expostas a ruídos altos, sem mencionar que suas pernas foram previamente arrancadas uma a uma.

Seres humanos não são máquinas de laboratório. Não possuem apenas corpos físicos que podem ser submetidos a estímulos físico-químicos para anotação de reações orgânicas. Gostemos ou não, humanos contam também com todo um aparato psíquico que interage e influencia decisivamente suas reações orgânicas a esses mesmos estímulos. E, pouca gente se dá conta disso, há uma proibição ética universal de testar reações psíquicas em laboratório.

Todo cientista que se orgulhe desse título conhece muito bem o assim chamado “efeito placebo”. Para quem nunca ouviu falar dele, eu explico: o simples fato de estar recebendo uma pílula (de açúcar ou substância inerte) – ou, de forma mais insidiosa, o simples fato de estar recebendo atenção de pesquisadores médicos ‒ pode fazer com que o paciente experimente “cura” de seus sintomas. Em outras palavras, a crença psicológica – ou ato de fé, para religiosos e espiritualistas ‒ de que se está recebendo a resposta desejada para dar fim ao sofrimento humano é tão forte que é capaz de promover alterações orgânicas importantes, na mesma direção da droga que está sendo pesquisada.

Se isso é verdade facilmente constatável no caso de tratamentos experimentais, por qual razão a interferência psíquica não seria verdadeira para determinar o aparecimento de doenças, inclusive as que implicam mutações genéticas, como o câncer? Wilhelm Reich, um médico, psicanalista e cientista natural, dissidente de Freud, dedicou boa parte de sua vida ao estudo da sexualidade humana e do câncer. Já na primeira metade do século 20, ele conceituou o câncer como uma espécie de “desistência” da pessoa frente aos desafios da realidade (os contornos psicanalíticos dessa tese podem ser conhecidos mais em detalhe em seus livros) e afirmou que o órgão afetado será sempre simbólico dessa desistência.

Doente 2Que as emoções humanas interferem no sistema imunológico é fato sabido há mais de meio século. Que depressão e culpa são fatores intervenientes e críticos para o rebaixamento das defesas orgânicas também. Que pacientes acometidos por câncer e outras doenças terminais podem ter expectativas de vida mais altas e maior probabilidade de remissão de seus quadros graças a suas atitudes, crenças, estilos de vida e perspectivas espirituais são outras descobertas científicas relevantes, como o demonstrou à exaustão o médico americano Carl Simonton. A esperança de um futuro melhor é parte constituinte e indissociável do psiquismo humano saudável.

Emprestar paternalisticamente à credulidade de leigos alguns resultados favoráveis obtidos no consumo de certas substâncias ou em tratamentos experimentais é uma atitude que, a meu ver, não ajuda a identificar as causas nem a aprender a lidar com o sofrimento físico, a dor psicológica e o desalento espiritual da humanidade. Um pouco de humildade para encarar a complexa estrutura multifatorial humana me parece fundamental para fazer avançar o conhecimento científico. Mal não faz. Como diz um ditado popular, arrogância e água benta cada um pega o quanto aguenta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Revisitando conceitos de psicopatologia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cabeçalho 8

Transtorno de personalidade antissocial
Idiota 3São sociopatas, indivíduos egocêntricos desde a adolescência e que, mesmo na idade adulta, mantêm comportamentos persistentes de desrespeito às normas, regras e leis sociais. Causam prejuízos e transtornos significativos às pessoas próximas em seu círculo social. Frequentemente surgem ocorrências de transtorno de conduta e histórico de problemas em relação conjugal, devido à propensão para adultério e infidelidade. Não desenvolvem empatia e tendem a ser insensíveis, cínicos e a desprezar os sentimentos, direitos e sofrimentos alheios. Impera o egoísmo. Enganam, seduzem, manipulam as pessoas a fim de obter vantagens pessoais ou prazer. São capazes de fingir um comportamento exemplar e se fazer passar por vítima com maestria. Distorcem fatos e acontecimentos verídicos a fim de convencer quem lhes dá atenção.

Interligne 18h

Megalomania
Transtorno psicológico definido por delírios ou fantasias de poder, relevância e onipotência. É caracterizada por uma exagerada autoestima das pessoas nas suas crenças e/ou poderes.

Interligne 18h

Idiota 1Pararresposta
Uma das formas de negativismo verbal (que, por sua vez, consiste em oposição ativa ou passiva às solicitações externas). A pessoa entende a pergunta do entrevistador, porém não responde algo compatível com a pergunta; fenômeno em que a resposta dada a uma pergunta não guarda mínima relação com o que foi perguntado e sim com algo lateral ou próximo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Vem cá, baixinho!

José Horta Manzano

Lula a la català

Lula a la català

Não é a primeira vez, mas vale a pena voltar ao assunto. Razão dá-se a quem tem. Renovo meus parabéns à equipe encarregada de dar nome às operações de busca e apreensão da Polícia Federal. Dão mostra de imaginação fecunda e de saber abrangente ‒ artigo raro no Brasil atual.

Aletheia é o nome da 24ª fase da Operação Lava a Jato, que acaba de ser deflagrada. A palavra vem do grego αλήθεια, que se deve pronunciar alíthia, com acento tônico no . O th soa como no inglês think.

Lula alla romana

Lula alla romana

A operação poderia ter sido chamada “Vem cá, baixinho” ou “Apanhei-te, pilantra”. Preferiram Aletheia. Ponto pra eles.

Na linguagem de todos os dias, aletheia significa verdade. O conceito foi tomado emprestado pela filosofia, de modo especial por Martin Heidegger, pensador alemão que viveu de 1889 a 1976. A psicologia também costuma recorrer a essa palavra.

Mandado de detenção contra o ex-presidente Lula Chamada de La Libre Belgique, jornal belga de referência - 4 mar 2016

Mandado de detenção contra o ex-presidente Lula
Chamada de La Libre Belgique, jornal belga de referência – 4 mar 2016

Em 1889, Dom Pedro II foi destituído por golpe militar. Detido, foi despachado para a Europa no primeiro navio. Não teve de passar pelo vexame de enfrentar interrogatório policial.

Em 1930, Washington Luís Pereira de Souza foi destituído por golpe liderado por Getúlio Vargas. Detido, foi despachado para os Estados Unidos. Não teve de passar pelo vexame de enfrentar interrogatório policial.

Lula a la plancha

Lula a la plancha

O fato de nosso guia, presidente emérito do Brasil, ser levado coercitivamente (= à força) para enfrentar interrogatório policial é acontecimento nunca antes visto na história dessepaiz.

Há momentos em que a História se acelera. Estamos vivendo um deles.

Os problemas da esquerdização mental

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Demorou, mas tive um súbito insight a respeito do que anda acontecendo de errado com o mundo. Não, não estou me referindo a doutrinas políticas de esquerda, como o comunismo e o socialismo. Acredito apenas ter encontrado um fator importante em nossa forma de pensar o mundo capaz de explicar os muitos desarranjos que a humanidade vem sofrendo ao longo das últimas décadas.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

O tema tem ocupado minha mente há muito tempo. Por que, me perguntava eu, a civilização humana – no sentido de cultura e harmonia social – parece estar definhando e involuindo? Se a ciência progride a olhos vistos, apresentando a cada dia novas respostas para problemas que atormentam a sociedade desde priscas eras, por que o grau de alienação e solidão das pessoas parece só crescer? Se a tecnologia desenvolve a cada dia novos ‘gadgets’ que facilitam o cotidiano como nunca havíamos sonhado ser possível, por que eles vêm sendo usados primordialmente para encapsular as pessoas em mundinhos cada vez mais particulares, ao invés de reforçar e ampliar nossos laços afetivos? Por que a violência, a intolerância e o desejo de extermínio dos diferentes ocupam as manchetes dos jornais diariamente, enquanto a solidariedade, a compaixão e a generosidade só fazem perder cada vez mais valor de mercado?

A pista que me faltava veio através de uma frase do poeta Ferreira Gullar: “Só existe generosidade onde há utopia”. O raciocínio pode ser complicado e longo, mas me serviu de ponto de partida crucial para elaborar minha tese. Para explicá-la, preciso recorrer à teoria dos dois cérebros, uma teoria desenvolvida pelo cientista americano e ganhador do Prêmio Nobel de medicina de 1981, Roger W. Sperry. Para os que ainda não a conhecem, descrevo em mais detalhes algumas de suas implicações.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

Segundo os estudos de Sperry, o hemisfério cerebral esquerdo seria aquele que processa de forma linear, analítica, lógica e racional as informações, enquanto o hemisfério direito estaria envolvido nos processos de síntese, intuição e no manejo de sensações, sendo capaz de apreender a realidade de forma global e instantânea.

Em função dessas características, vários mitos foram criados e disseminados ao longo do tempo em torno da teoria. Um exemplo marcante: o hemisfério esquerdo passou a ser descrito como ‘cérebro masculino’ ou ‘cérebro matemático’, já que é nele que ocorre o processamento de palavras e números. O hemisfério direito, por sua vez, passou a ser associado com o universo feminino, uma vez que a matéria-prima com que opera seriam as imagens, as metáforas e a estética.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

A teoria sofreu uma série infindável de revisões e contestações desde que veio a público. Os conceitos de especialização e lateralização das funções mentais eram incômodos demais quando se tratava de explicar de que maneira os dois hemisférios se articulam para atuar de forma coesa no cotidiano de uma pessoa normal. Afinal, confabulavam seus opositores, ninguém pensa com metade de seu cérebro apenas.

Estudos de ressonância realizados posteriormente mostraram ser possível identificar áreas que são ativadas nos dois lobos cerebrais mesmo quando a operação mental é, em princípio, atributo especializado de apenas um deles ‒ como o processamento da fala, por exemplo.

Outra série de pesquisas buscava identificar e explorar eventuais diferenças na forma como destros e canhotos ativam circuitos neuronais para realizar uma mesma operação, considerando que o lado esquerdo do cérebro controla o lado direito do corpo e vice-versa. Essas pesquisas foram fundamentais para destruir vários dos mitos criados em torno da teoria ao determinarem que os hemisférios não atuam de forma autônoma. Razão e emoção caminham de mãos dadas na espécie humana, para o bem e para o mal. Equilíbrio, como sempre ensinaram os orientais, é o único caminho.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

Mesmo assim, voltando à minha tese, senti o impulso de elencar mudanças de paradigma ocorridas principalmente no sistema educacional e no campo científico ao longo do último século que poderiam ter a ver com o uso mais intensivo do cérebro esquerdo. Só para facilitar a compreensão de onde quero chegar, listo alguns exemplos que me ocorreram:

Interligne vertical 16 3Kf• Da valorização e do ensino prioritário da filosofia e das assim chamadas “humanidades” (ciências sociais, qualitativas), avançamos progressivamente para o culto das ciências quantitativas como base mais eficaz para explicar o comportamento humano. Esquizofrenia, depressão, câncer, tendência ao alcoolismo e ao abuso de drogas – só para citar algumas das preocupações contemporâneas – deixaram de ser crivados pela ótica das ciências humanas e sua causa passou a ser buscada em locais específicos dos genes. Escolas passaram a enfocar a transmissão de conteúdos técnicos especializados, deixando em segundo plano a proposição de atividades artísticas (como música, dança, pintura, trabalhos manuais, teatro, etc.);

• Junto com o novo paradigma das ciências exatas, assistimos extasiados ao florescimento e multiplicação explosiva de novas tecnologias. Inteligência artificial transformou-se aos poucos em sonho de consumo universal. Celulares, computadores e robôs passaram a ocupar uma posição central em nosso cotidiano e, com a criação das redes sociais, muitos passaram a delegar a máquinas a tarefa de registrar suas memórias e seus aprendizados, criar e fortalecer suas relações afetivas. As consequências estão à mostra para quem quiser estuda-las;

• No campo político, o final do século XX decretou o fim das ideologias. O pragmatismo político passou a comer pelas beiradas o desejo de construção de um mundo mais igualitário. O sonho da primavera árabe nunca evoluiu para sonhos de verão. Movimentos terroristas ganharam corpo e fôlego e os danos por eles causados são contados com horror apenas numericamente, sem que políticas de inclusão tenham sido desenvolvidas. Crise de refugiados convive com crise de representatividade dos governantes em todo o mundo. Movimentos de resistência civil crescem e minguam praticamente de acordo com as fases da lua;

• No campo religioso, o pragmatismo também mostrou ser capaz de substituir progressivamente o desejo de transcendência. Mais importante é verbalizar o amor a Deus do que praticar a comunhão entre os homens. Mais decisiva a ideia de garantir a sobrevivência neste plano do que lutar para alcançar a vida eterna.

Em tempo, uma piada circula pela internet: diferentemente do que acontece com outros hinos nacionais que enfatizam a fidelidade canina à pátria, o nosso começa com um descomprometido “ouviram…” como se não tivéssemos nada com isso.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Síndrome de insensibilidade perceptual

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Globo 2Um distúrbio alarmante vem se disseminando como praga nos cinco continentes. Apesar dos esforços empreendidos por pesquisadores científicos em várias partes do mundo, ainda não foi possível determinar sua causa. Embora não represente um fenômeno novo para a neurociência, os cientistas estão intrigados com o rápido alastramento do transtorno.

Sabe-se apenas que o distúrbio atinge indiscriminadamente homens e mulheres, jovens e idosos. Pressupõe-se que os casos mais graves estejam relacionados à negligência afetivo-emocional na tenra infância, ainda que não se descarte a possibilidade de ela ser decorrente também dos altos níveis de estresse nas grandes cidades e da alta competitividade no mundo profissional.

O principal sintoma observado é a incapacidade do portador da síndrome no sentido de perceber as conotações simbólico-afetivas das imagens que visualiza. Alguns estudos indicaram uma possível falha na comunicação entre os neurônios do lobo occipital e os do sistema límbico, que mimetiza lesões nos corpos amigdaloides.

by Shaina Craft

by Shaina Craft, artista americana

É fato conhecido que, entre humanos, uma lesão nas amígdalas do sistema límbico faz com que o indivíduo perca o sentido afetivo da informação vinda de fora, tornando-o indiscriminativo e emocionalmente indiferente. Ou seja, embora do ponto de vista cognitivo o sujeito seja capaz de identificar e categorizar corretamente o objeto visualizado, é-lhe impossível apreender as conotações simbólico-afetivas do mesmo.

Em função dessa indiferença afetiva, pesquisadores ingleses batizaram a síndrome como “Insensitive Perceptual Misjudgement Syndrome” [IPMS]

Alguns dos casos mais recentes e notórios registrados nos últimos meses são os seguintes:

Interligne vertical 17eUm dentista americano realizava um safári no Zimbábue e, ao olhar pela mira de seu fuzil de caça, viu só um leão velho e o matou. Na realidade, tratava-se de Cecil, o amado animal-símbolo de um país e de todo o continente.

Interligne vertical 17dUm colono judeu, buscando retaliar o que entendia ser agressões sofridas pelos seus, atirou uma bomba incendiária pela janela de uma casa e viu só uma residência palestina. Na realidade, tratava-se do lar de um bebê de 1 ano de idade.

Interligne vertical 17cIntegrantes do Isis, o autodenominado Estado Islâmico, entregaram a uma criança a tarefa de justiçar um homem, que viam só como infiel. Na realidade, tratava-se de um grupo de seres humanos.

Interligne vertical 17bNo calor da torcida no estádio de futebol, o homem atirou uma banana em direção a um dos jogadores, já que viu só um macaco. Na realidade, tratava-se de um esportista jovem e hábil, aclamado por seus concidadãos.

Bandeira olhoO ministro Levy e a presidente Dilma dirigiram-se à plateia para explicar a necessidade de ajuste fiscal e viram só contribuintes e analfabetos políticos. Na realidade, eram cidadãos brasileiros.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Convite

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Certa vez participei de uma vivência terapêutica muito interessante. As pessoas presentes, sentadas em círculo no chão, eram estimuladas a olhar para aquela que estivesse imediatamente à sua frente e imaginar seu nome e sua profissão, baseando-se tão somente na aparência, tom de voz e postura corporal. Além de muito divertida, essa experiência mostrou ser também muito reveladora – não tanto pelos acertos e erros nas projeções feitas (que propiciavam boas gargalhadas), mas principalmente pelo que evidenciava a respeito dos preconceitos, estereótipos e valores que povoam nosso próprio universo mental.

Ontem à noite, assistindo a um pronunciamento do ministro Levy, tive um súbito insight. A postura daquele homem, seu olhar cansado, sua voz baixa e seu discurso lento e cuidadoso, como o de quem procura causar o menor impacto negativo possível com o que tem a dizer, evidenciavam sua verdadeira profissão: agente funerário. Podia até visualizá-lo sugerindo um determinado padrão de caixão que supunha estar dentro do orçamento da família e cuidando em fazer pequenas pausas para auscultar se sua indicação era recebida com agrado ou desagrado.

Terapia 1A fantasia me deliciou e decidi estendê-la para outras figuras públicas que têm frequentado o noticiário nacional. Dei tratos à bola para escapar dos parâmetros de estilo de vida já conhecidos e compus os seguintes personagens:

Interligne vertical 14Dilma
Gosta de ser chamada de Dona Terezinha. Contadora de estórias e agente de disciplina num acampamento de férias juvenil. Doceira de mão cheia, olhar curioso e bonachão, preocupa-se em agradar, mas sem abrir mão do desejo de ser respeitada e obedecida.

Interligne vertical 14Lula
É conhecido como Manezinho da Embolada, graças a seus dotes de cantador. Controlador de um salão de bingo. Responsável pela recepção dos convidados, pelo anúncio dos premiados e pela confraternização que segue a entrega dos prêmios. Gosta de se destacar no trabalho mas, na vida privada, é um tanto taciturno e resmungão.

Interligne vertical 14Cunha
Seu nome é Ricardo. Corretor de imóveis de alto padrão, apesar da infância pobre e do baixo traquejo social. Chama a si todas as responsabilidades pelo atendimento pleno dos clientes e esforça-se por demonstrar alta credibilidade, expertise técnica e bom gosto.

Interligne vertical 14Haddad
Amélio é adestrador e passeador de cães. Tem muita experiência acumulada com cachorros difíceis, porte atlético e muita paciência para lidar com filhotes, mas não consegue disfarçar sua desesperança em termos de evolução na carreira profissional. Adoraria poder jogar tudo para o alto, mas falta-lhe energia para recomeçar. Pondera se, afinal, já não estaria em tempo de começar a adestrar os donos dos cães-clientes.

Interligne vertical 14Renan
Prefere ser chamado pelo sobrenome, Machado. Agenciador de modelos e gigolô aposentado. Não gosta de frequentar eventos sociais, preferindo envolver-se com as tratativas comerciais e com o controle disciplinar de suas contratadas. A vida o endureceu um pouco para se envolver com os segredos de alcova.

Interligne vertical 14Celso Mello
Padre Gérson é capelão de uma igrejinha de fazenda e responsável pela doutrinação religiosa dos filhos dos peões. Adora contar parábolas a seus pequenos fiéis, mas sente-se estimulado mesmo quando é convidado a fazer parte dos almoços de domingo na casa grande. Empenha-se com afinco em dissimular a tentação de ceder aos pecados da gula e da luxúria.

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Terapia 2O cansaço que experimentei ao final de algumas horas me fez interromper o jogo de fabulações, embora eu ainda sinta o desejo de explorar outras possibilidades.

Em função disso, quero convidar a todos a me ajudarem com suas percepções a compor o perfil psicológico de outros nomes emblemáticos do cenário nacional e internacional. Aqueles que aceitarem o desafio certamente vão poder se dar conta do quanto este jogo é capaz de estimular nossa sensibilidade, nossa criatividade e nosso senso de humor.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Um TOC de bondade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Criança 3Desculpem-me por destruir algumas ilusões à medida que descrevo minha problemática emocional. Eu não sou boazinha. Nunca fui e nunca quis ser. Apesar de meus pais terem me estimulado durante toda a minha infância a manifestar gestos de solidariedade, nunca correspondi à altura. Medo, covardia e timidez exagerada fizeram de mim uma pessoa voltada para dentro, preocupada mais em me livrar de sensações desagradáveis do que em propriamente estender a mão a quem dela necessitasse.

Generosa talvez eu tenha sido em algumas ocasiões. Se estou diante da escolha de fazer o bem a quem me pede algo com delicadeza ou reagir com indiferença e virar as costas, opto no mais das vezes por aceder ao convite do meu lado generoso. Mas, que fique bem claro: desde que isso não me custe nada!

Ser apontada como uma pessoa boa é algo que me causa desconforto, me constrange e me envergonha. O elogio soa sempre aos meus ouvidos como sinônimo de trouxa, de pessoa que aceita de bom grado ser usada.

Criança 2Sei que não sou boa porque detecto sinais claros de irritação dentro de mim sempre que alguém, que já me pediu outras coisas várias vezes anteriormente, me coloca diante de um beco sem saída para negar o favor pedido. É isso, aceitei no passado ser usada por terceiros porque não queria macular minha imagem. Imagem de quê? De boazinha, é claro. Como qualquer outra pessoa na mesma situação, achei que poderia atrair afeto se me comportasse segundo as expectativas. E, quando a primeira pessoa me elogiou em resposta, isso virou um vício, uma obsessão, uma compulsão.

A coisa só começou a mudar quando percebi que, quando essa mesma pessoa não estava precisada de outros favores, ela deixava de manifestar afeto por mim. Eventualmente, algumas até se recusavam a me fazer favores em retribuição. E eu não podia retrucar, não podia cobrar nada porque estava implícito que eu havia acedido graciosamente.

Em resumo, foi então que me dei conta de que eu havia me tornado refém das migalhas de afeto que podia recolher pelo caminho se parecesse boazinha. O que eu não havia percebido desde o início era que as pessoas devem ser amadas pelo que são e não por qualquer coisa que possam fazer.

Papai Noel 2Quando a luz se fez, já era tarde. Meu TOC [transtorno obsessivo-compulsivo] já estava instalado. Como me afirmar e dizer não a novos pedidos se imediatamente começava a imaginar mil desgraças prontas a recair sobre minha cabeça caso a recusa se concretizasse? Culpa da formação religiosa católica de minha família, sem dúvida. Se você não for bondosa, não vai ganhar o céu. Se você não se comportar direitinho o ano todo, Papai Noel não vai lhe trazer nenhum presente.

E lá ia eu, mais uma vez, mesmo contrariada, me forçar a fazer o que não queria. Sufocar minha revolta no peito e na garganta, abaixar a cabeça e colocar um sorrisinho amarelo no canto da boca. Tentar afastar do meu cérebro a pergunta angustiante: até quando, meu Deus?

Jovem 1Não me entendam mal. Quero, sem dúvida, ser útil, poder me colocar a serviço de outras pessoas, mas não tenho estômago para me comportar como uma gueixa ou como um simulacro de Madre Teresa de Calcutá. Não aspiro à santificação e não tenho nenhum apego ao masoquismo. Quero aprender a me doar com a alegria das pessoas livres, com a leveza das borboletas, com a ingenuidade das crianças. Acima de tudo, quero acreditar no poder transformador da minha própria integridade.

Tentando fazer o bem a quem está fora, tornei-me cruel com o que está dentro. Deus e o diabo numa disputa feroz encenada na arena que sou eu. Que mérito haverá, me pergunto, na bondade exercida de má vontade, à contre-cœur? Não seria melhor, mais justo, ser maldosa de alma limpa?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Quem poderá contestar a moralidade do desejo?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Acabo de ler uma obra-prima. Refiro-me ao romance Crime e castigo na Escola Caetano de Campos, escrito por Wilma Schiesari-Legris que, como eu, é caetanista(1) orgulhosa.

Wilma 1Sei que o critério usado para definir uma obra de arte é subjetivo. Pode-se gostar ou não dela, achá-la feia ou bonita, aprovar ou desaprovar a forma pela qual seus contornos foram estabelecidos. Seja como for, dela não se pode apenas dizer que é mentirosa. Ela retrata a sensibilidade do autor para apreender a realidade – talvez nem sempre a realidade do que se passa no mundo externo – mas certamente a realidade dos valores, sonhos, fantasias e desejos presentes no mundo interior de quem a concebe.

Posso afirmar sem medo de errar que o livro extrapola em muito o universo de interesses de quem estudou na Caetano. A leitura da obra pode funcionar muito bem como aula hipnótica de História, de Filosofia, de Ética, de Direito, de Sociologia e de Psicologia. Extrapola também o contexto social de uma época e de um local específico. É um retrato apaixonado da alma humana.

No centro da trama, o perpétuo embate entre moralidade e moralismo. Mesmo sem querer ser desmancha-prazeres, impedindo leitores em potencial de descobrirem por si mesmos os detalhes do roteiro e de se deliciarem com eles, preciso dizer que os protagonistas são uma jovem interiorana que vem para a capital estudar e é acolhida na residência de seu tutor e padrinho. Não é difícil imaginar os muitos percalços e desvios de rota que se abatem inexoravelmente por aqueles que ousam se aventurar por terrenos não trilhados antes – as dúvidas e hesitações diante do confronto entre a alegria da descoberta e os limites autoimpostos com antecedência.

Crime e castigo na Escola Caetano de Campos Noite de autógrafos – 2 dez° 2014

Crime e castigo na Escola Caetano de Campos
Noite de autógrafos – 2 dez° 2014

Saboreei cada minúscula contingência do roteiro. Me entediei com os detalhes burocráticos do caso. Senti minha temperatura subir ao entrar em contato com as minúcias dos encontros amorosos nos landaus de aluguel. Suei frio com a tensão dos desdobramentos da trama. Me angustiei na tentativa de antecipar os desfechos.

Ao terminar a leitura, alívio e gozo. Estranhamente, me senti leve, muito leve. Percebi que havia embarcado numa fascinante viagem ao passado – não só ao passado da escola, da cidade e da sociedade paulistana, mas principalmente ao meu próprio passado. Fui levada, com suavidade, a revisitar minhas aventuras e desventuras de adolescência, meus sonhos profissionais, meus imensos desafios na longa jornada para penetrar e sondar os mistérios do psiquismo humano.

Por tudo isso, convido quem quiser se deixar enredar por esse delicioso passeio pelo que há de mais delicado dentro de cada um de nós a procurar (e comprar, é claro) este livro ou, no mínimo, a buscar uma aproximação com a autora(2).

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Escola Caetano de Campos, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo – inaugurado em 1894

Escola Caetano de Campos, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo – inaugurado em 1894

(1) “Caetanistas” é como se autointitulam ex-alunos da Escola Caetano de Campos, antigo e tradicional estabelecimento público paulistano, que ocupou durante quase 80 anos prédio imponente, na Praça da República, onde atualmente funciona a Secretaria da Educação.

(2) Wilma Schiesari-Legris é escritora. Radicada em Paris há várias décadas, edita o o blogue IECCmemorias.wordpress.com. Seu livro mais recente, Crime e castigo na Escola Caetano de Campos, foi lançado esta semana pela Editora Luna, São Paulo. Para entrar em contacto com a autora, vá por este endereço: W.Legris@gmail.com.

Por que me ufano de meu país

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Perdoem-me a falta de números precisos. É que sempre estive do lado das ciências qualitativas e, por isso, desaprendi a me importar com estatísticas. Em nosso curso de Estatística na Faculdade de Psicologia, circulava até mesmo uma piada a respeito da importância das análises baseadas na quantificação: “A estatística mostra tudo, menos o essencial”.

Estatísticas 3Se você puder abandonar por um instante a expectativa de dimensionar a importância real das circunstâncias abaixo, provavelmente vai se surpreender com a face oculta dos feitos nacionais, quando filtrados por olhos de qualidade. Acredito que, uma vez elaborado o impacto dessas constatações, será possível recorrer a sites especializados para obter os números que você necessitar.

Um alerta importante: não há nada de novo ou original neste condensado de motivos para nos orgulharmos de nossa pátria. Tudo já foi dito e repisado ad nauseam e a emoção contida originalmente nas palavras foi se perdendo ao longo do tempo. Assim, por favor, entenda este arrazoado como uma simples tentativa de resgatar a pulsação emocional de nossos concidadãos.

Eu me ufano de meu país porque:

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● Somos um dos países com a maior carga tributária do planeta e campeões absolutos em não retornar à população os serviços essenciais de que ela necessita e pelos quais pagou.

● Estamos na liderança das nações mais corruptas do planeta, se considerados em conjunto nossos governantes, nossos parlamentares, nosso sistema judiciário, nossos empresários, nossa elite social, nossa elite religiosa e boa parte de nossos cidadãos comuns.

● Estamos na vanguarda das maiores concentrações de renda dentre os países ditos civilizados do mundo contemporâneo.

● No plano social, não perdemos para ninguém no mundo em termos de desassistência às populações de rua, aos idosos, às crianças e aos cuidados materno-infantis.

Pobreza 1Interligne vertical 10● Nosso sistema educacional nos enche de orgulho por figurar nas primeiras colocações dentre aqueles que ainda não conseguiram universalizar o acesso ao saber e à tecnologia de ponta, e no qual a desautorização e o desrespeito aos mestres são os grilhões que nos prendem à era medieval.

● Nosso sistema público de saúde bem poderia ser usado para ilustrar textos científicos sobre a forma como a medicina era praticada nos burgos feudais. Poderia também servir de referência para análises científicas a respeito da qualidade do atendimento médico e psicossocial em países conflagrados por guerras civis.

● Nosso sistema judiciário é líder planetário no que tange à lentidão na distribuição da justiça, ao foco em tecnicalidades legais, ao tratamento desigual dispensado aos cidadãos de maior e menor renda e aos privilégios concedidos a certas autoridades e a certas categorias profissionais.

Atoleiro 1Interligne vertical 10● Nossa capacidade de investimento em infraestrutura é campeã em atraso na aprovação e execução de projetos, na má distribuição dos recursos disponíveis, na burocracia e no desvio de dinheiro público.

● Nossa segurança pública é das mais combalidas em todo o planeta. Atingimos o primeiro lugar honrosamente graças à má gestão na seleção, treinamento e remuneração tanto dos oficiais de nossas forças armadas quanto de nossas polícias estaduais e federal. Mais importante, devemos esse galardão à forma como nossos governantes voltam as costas para nossas demandas de participação na administração.

● Nossa capacidade de dar acolhimento a ex-ditadores, ex-governantes corruptos e a fugitivos da justiça de toda espécie não encontra paralelo em nenhum outro país. Ao mesmo tempo, nos excedemos em não dar abrigo a cidadãos de outros países atingidos por cataclismas naturais, guerras ou perseguição religiosa e ideológica.

Assalto 1Interligne vertical 10● Nosso potencial para atingirmos a excelência em diversas outras áreas, como, por exemplo, o patrocínio oficial a atividades culturais, é gigantesco e consolida em definitivo nosso epíteto de “país do futuro”.

● Finalmente, porque somos um país de dimensões continentais que se rege por um único idioma oficial. Mesmo assim, ganhamos o campeonato mundial de distância entre a linguagem culta e a linguagem das ruas. Graças a essa soberana característica nacional, impedimos que o cidadão comum absorva intelectualmente os ditames políticos, o jargão usado por especialistas de todas as áreas – em especial médicos e juristas – e nos confraternizamos com expressões compartilhadas por todos: “É nóis na fita, mano! kkkkkkkk”

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(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Juízes são humanos?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma questão tão sensível quanto esta requer, sem dúvida, uma análise criteriosa e demorada. Precisamos examinar o tema sob a ótica de múltiplos fatores. Comecemos pelo mais prosaico deles: o corpo, a matéria física.

JustiçaÉ inegável afirmar que juízes desfrutam de um aparato físico completo, em tudo semelhante ao de quaisquer outros exemplares da fauna humana. A diversidade de formas que seus corpos assumem também reproduz a que podemos encontrar entre profissionais de diversas outras categorias. Há juízes altos e baixos, gordos e magros, atléticos e sedentários, velhos e jovens, homens e mulheres.

A imagem caricatural com que magistrados vêm sendo representados há séculos em todos os continentes é, no entanto, a de sujeitos atarracados, de costas encurvadas, ancas largas, barriga proeminente, pernas frágeis e sem músculos salientes, rostos flácidos e edemaciados, mãos finas e dedos longos, olhos pequenos, o mais das vezes auxiliados por óculos posicionados na ponta do nariz.

Os analistas mais sensíveis poderão objetar quanto a esse padrão corporal caricato: “Ora, é sabido que o uso do cachimbo deixa a boca torta”. Verdade, instados que são ao longo de sua vida estudantil e profissional a permanecer longas horas sentados examinando pastas com centenas de páginas e documentos com letras muito pequenas, tendo de registrar à mão inesgotáveis anotações e pareceres, não lhes restam muitas alternativas para escapar dessa configuração global. Entretanto, voltando à pergunta inicial, mesmo que não se aprecie esse enquadramento físico, a resposta será sempre a de que juízes indubitavelmente têm, sim, um corpo humano. Ponto para eles.

Examinemos agora o aspecto psicológico da questão. A magistratura é, sem dúvida, uma profissão solitária. Relacionar-se, formar vínculos afetivos, confraternizar-se podem não ser os pontos mais fortes desses profissionais. Para conhecer as percepções e opiniões de seus colegas de cátedra, por exemplo, juízes precisam se isolar em seus gabinetes e recorrer a…. papéis. Por outro lado, também haverá, é claro, ao longo da vida profissional, ocasiões em que eles poderão desfrutar de animados intercâmbios de opiniões, como quando da realização de algum congresso acadêmico, a posse de um colega de classe na Ordem, algum evento social que desperte o interesse de outros juristas, além de figuras emblemáticas da República. Alguém poderá observar quanto a isso: “Mas, em todas essas ocasiões, os juízes estarão revestidos da imponência de sua figura pública, portanto seus comentários estarão sempre atrelados ao poder da toga”. Mais uma vez, verdade.

Justiça 4E perguntemo-nos como será então a vida anímica desses servidores da Justiça no recôndito de seus lares e nas relações cotidianas com simples mortais? Parece não haver qualquer evidência em contrário de que, também nesses aspectos, juízes podem vir a ser categorizados como maníacos, fóbicos, esquizóides, equilibrados, autocentrados, paranóides, bem como todas as demais formas de funcionamento psíquico, tudo isso sem considerar que também estarão expostos a surtos, traumas diversos, desequilíbrios temporários.

Dessa forma, goste-se ou não de seu perfil psicológico padrão, forçoso é reconhecer que juízes também dispõem de uma psique. Será sempre possível identificar juízes curiosos, afetivos, sensíveis, autoritários, agressivos, extrovertidos, ensimesmados, etc. Outro ponto que os aproxima da espécie humana.

Se juízes têm corpo e têm alma, onde estarão, então, os pontos que podem nos levar a suspeitar de que eles se afastam da envergadura psicossocial comum de outros humanos? Gastei muitas horas refletindo sobre isso e cheguei à conclusão de que é na simples convergência de seus aspectos físicos, emocionais e sociais que reside a grande dificuldade de afirmarmos que juízes se enquadram plenamente na moldura humana padrão.

Explico melhor: todos nós sabemos ― e sentimos ― como um determinado componente de nossa configuração humana influencia outros. Se acordo com alguma indisposição gástrica ou intestinal, meus pensamentos tornam-se mais lentos, minha lucidez fica diminuída, meu estado de espírito prejudicado para o acolhimento de outras ideias ou de outras pessoas. Da mesma forma, se é um resfriado o que me incomoda, minha disposição para formar ou aprofundar laços afetivos tende a ser dissipada junto com os perdigotos que escapam em velocidade de meu nariz. Enxaquecas, dores lombares, vista cansada, artrites e artroses, tonturas, febres ― enfim, pode-se afirmar com certeza que toda essa miríade de distúrbios físicos atinge também e interfere pesadamente no raciocínio de magistrados.

TribunalInversamente, se o que me aflige é uma discussão acirrada em família, uma preocupação com o bem estar físico, psicológico ou espiritual de um parente ou amigo, um estado depressivo que toma conta de todo meu organismo ou, ainda, uma grande onda de excitação amorosa ou raivosa que precisa ser descarregada, minha isenção de julgamento escorre para o ralo imediatamente. Conflitos dessa ordem parecem ser mesmo inevitáveis sob o prisma estritamente humano.

A mesma similaridade pode ser identificada entre juízes e cidadãos comuns no plano social. Nenhum argumento racional pode eliminar a hipótese de juízes estarem sujeitos a tentações e desvios de conduta social. Há casos famosos, ao menos por aqui, de juízes que vendem sentenças, desviam recursos públicos, favorecem certas elites e até daqueles que assumem sem pudor sua homofobia e discriminam certas crenças religiosas.

Tribunal 1Por que, então, juízes parecem ignorar solenemente a existência de interrelação entre uma instância e outra de sua constituição humana ao emitirem seu parecer final numa causa? Será que o cachimbo da razão pura deixou a boca de seus afetos torta? Será que a energia libidinal represada ― ou, em bom português, seu tesão de viver inexoravelmente perdido ― os incapacitou para a dúvida, para a relativização e para o discernimento entre o que é legal e o que é moral?

Afinal, considerando que o conceito de humanidade pressupõe necessariamente a existência de imperfeições e limitações, parece que a dura conclusão a que devemos tristemente chegar é a de que juízes escapam, ainda que por poucos milímetros, da órbita comum dos seres humanos. Comportando-se como semideuses, posicionando-se acima das atribulações peculiares à espécie, eles nos deixam com uma sensação amarga de impotência. Se até na astronomia já se admite a “equação pessoal do observador” para dar credibilidade e caráter científico a eventuais descobertas individuais, será que já não está na hora de os senhores juízes incorporarem a “equação pessoal do julgador” em suas interpretações pessoais da lei?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Entre a misantropia e a filantropia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Tem gente que não gosta de gente. Dentre esse tipo de pessoas, há aquelas que buscam nos animais uma espécie de compensação afetiva para estabelecer relacionamentos e escapar da solidão.

Tem também gente que ama gente. Já dentre essa classe de pessoas, há aquelas que vivem reclamando de quem dá preferência à adoção de animais, ao invés de crianças carentes.

No meio dos dois tipos, há ainda pessoas que se satisfazem com relacionamentos cotidianos tanto com humanos quanto com animais.

Na linguagem comum das ruas, é habitual usar a expressão “Fulano é muito humano” para designar uma pessoa portadora de sensibilidade, generosidade ou solidariedade. Por outro lado, também é comum indignar-se quando um exemplar da raça humana transgride algum código de ética ou de convivência social dizendo que “Fulano é um animal”.Homem animal

De que lado está a verdade? Humanos são mesmo seres sensíveis, generosos e solidários enquanto os animais são geneticamente incapazes de se comportar de acordo com as regras da boa convivência humana? Claro que você já sabe a resposta: existe gente chegada a atitudes “animalescas” e existem animais tão sensíveis de quem se poderia dizer que já são um pouco “humanos”.

A frequência estatística de cada um desses tipos? Bem, eu diria que, se deixados em seu estado natural ― isto é, sem que grandes traumas tenham ocorrido em seu percurso geneticamente programado ― a chance de encontrar animais humanizados e pessoas animalizadas estaria próxima da do acaso, ou seja, 50% para cada lado.

Inútil negar a evidência de que somos todos humanos e animais ao mesmo tempo. Na nossa espécie, o cerne biológico é recoberto por uma camada de racionalidade que age como uma espécie de tampão para inibir a expressão de instintos primitivos. Quase sempre dá certo, mas não há garantia de espécie alguma de que um acontecimento inusitado e com uma carga energética maior do que a que estamos habituados não possa burlar a vigilância do ego e irromper com força máxima no terreno da animalidade.

O problema está na nossa dificuldade em admitir que existe, em estado latente, dentro de cada um de nós o potencial de visitar qualquer um desses extremos a qualquer momento e sem que possamos antecipar isso. Nossa censura interna apenas se esforça em comprovar que isso jamais acontecerá conosco.

O inferno são os outros

Tudo seria simples se todos os comportamentos humanos fossem plenamente conscientes ― e não são. O motivo que aparece em nossa consciência para justificar uma determinada atitude nossa nem sempre corresponde à realidade de nossa emoção. Como fomos adestrados pacientemente desde muito cedo para a expressão de sentimentos positivos e para a repressão dos negativos, nos deixamos cegar para a crueldade de muitas de nossas intenções. “O inferno são os outros”, já dizia Jean-Paul Sartre. Se não tivéssemos de conviver com pessoas que adotam outros estilos de vida, outros códigos de conduta e outros valores, nossa existência seria plácida como a superfície de um lago em dia sem vento.

Já na contramão dessa crença, Freud nos alertou em muitos de seus escritos para a violência contida no “retorno do oprimido”. Se tivermos sido extremamente eficientes ao longo de nossa vida para conter a livre expressão de instintos selvagens, podemos ter esticado tanto a corda que inadvertidamente nos colocamos a apenas um passo de uma explosão devastadora.

Duas canoas by Liz Zahara

Duas canoas
by Liz Zahara

Para domesticar a fera humana e incorporar a doce espontaneidade animal, precisamos simplesmente ter consciência de que temos um pé em cada canoa o tempo todo. É, pois, a delicada tensão dinâmica entre nossa humanidade e nossa animalidade o princípio-guia que rege uma existência saudável, a meio caminho entre a misantropia e a filantropia.

Para tratar daquelas pessoas que sentem dificuldade em encontrar o caminho do meio, lancei há pouco tempo o conceito de “adestramento de humanos”. Se você se interessa em saber mais a esse respeito, entre em contato comigo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga.
Email: msvac@uol.com.br

Rito de passagem

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° março 2014

O senso comum enxerga a evolução como um percurso contínuo, retilíneo e, em princípio, ascendente. A tecnologia, os indivíduos, as ideias, os conceitos progridem. Países e civilizações também. Mas as coisas nem sempre são simples. O mais das vezes, o caminho é lento, as pedras são muitas, há altos e baixos, retrocessos e avanços. Há momentos em que precisa recuar para melhor saltar.

Desenvolvimento não costuma fluir em reta ascendente ― está mais para escadaria que para rampa. Desde tempos imemoriais, os humanos intuíram que a evolução se dá por patamares. Estabeleceram ritos de passagem. Tradições religiosas e leis seculares definem o momento em que o indivíduo é considerado apto a galgar mais um degrau.

Na impossibilidade de aferir o grau de desenvolvimento de cada fiel, o legado judaico-cristão fixou uma idade a partir da qual é permitido passar a estágio superior. A lei retomou essa mesma noção de avanço por patamares. Estabeleceu-se que certas idades são mais significativas que outras. É o caso dos 7 anos, dos 14, dos 18, dos 21. A cada um desses degraus, corresponde o abandono de um estágio e o acesso a um grau mais elevado.

Mas toda mudança implica um momento de transição. Em alguns casos, a passagem ao novo estatuto é rápida, fluida, indolor, imperceptível. Já em outros, a metamorfose é lenta, hesitante, penosa. Isso tanto vale para indivíduos quanto para sociedades, países e civilizações.

Os gregos antigos valeram-se do radical «kríno» para referir-se a essas fases agudas em que é preciso retroceder para avançar melhor. Da raiz grega, herdamos um vocábulo já quase gasto de tanto uso: a crise.

Embora se atribua hoje um sentido negativo a esse termo, a crise, no sentido originário, é o momento que separa duas maneiras de ser ― uma antiga e uma nova. Quando uma pessoa ou uma instituição passa por uma crise, temos tendência a prestar mais atenção aos sintomas do que ao horizonte novo que se está descortinando. É postura compreensível, mas pouco perspicaz.

Psicólogos estão familiarizados com a crise da adolescência. Astrólogos conhecem os solavancos que o returno de Saturno causa a quem passa pela crise de seus 28-29 anos. No entanto, quando um país inteiro atravessa um momento de crise, temos mais dificuldade em analisá-la racionalmente. Conceda-se o desconto: crises de adolescência e eventos estelares são mais frequentes que transformações nacionais.

Acredito que nós, brasileiros, andamos exagerando no pessimismo. Anda muito difundida a percepção de que a ladeira que estamos descendo nos conduzirá a uma inevitável catástrofe. Não é um sentimento produtivo.

Depois da tempestade, vem a bonança

Depois da tempestade, vem a bonança

É verdade que os tempos atuais são estranhos. É verdade que a violência se tornou tão banal que já deixou de ser notícia ― só aparece no jornal se o falecido tiver sido pessoa importante, se não, nem nota de rodapé vai merecer. É verdade que a corrupção, que levava vidinha recatada e discreta desde 1500, passou a se exibir, despudorada, como se instituição nacional fosse.

É verdade que não é mais necessário ser doutor em Ciências Políticas para se dar conta de que a governança anda errática, que promessas não se cumprem, que se aplicam emplastros em perna de pau. É verdade que protestos de rua se avolumam, cada vez mais descontrolados. É verdade que barbáries que nenhum filme de horror ousaria imaginar ocorrem dentro de cadeias. É verdade que autoridades de alta patente se desafiam, com gestos vulgares, diante de câmeras de tevê ― e que tudo fica por isso mesmo.

É assustador? Sem dúvida. A percepção de caos tem-se acentuado? Tem. É sinal do fim dos tempos? Depende.

Se, por «fim dos tempos», nos referimos ao fim de uma era, a resposta é afirmativa. Mas temos de aguentar mais um pouco, que não chegamos ao fim da ladeira. Para erguer um futuro mais civilizado, há que esconjurar o passado e consumi-lo até a última gota. Nosso país está atravessando, aos trancos, uma crise. Fazemos mal em passar nosso tempo a nos lamuriar. Mais vale olhar para a frente e preparar um futuro menos nevoento.

Se já atingimos o paroxismo? Se já tocamos o fundo do poço? Ninguém sabe. Talvez ainda falte um bocado, pouco importa. Sobre os erros do passado, constrói-se a sabedoria do futuro. Vamos dar aos acontecimentos a relevância que eles têm. O importante não é a crise atual ― dela sairemos qualquer dia destes. Fundamental é entender que este rito de passagem nos está fazendo subir um degrau na escala da civilização. Ânimo, minha gente!