Hitler & Mussolini

José Horta Manzano

Giorgia Meloni é a primeira-ministra da Itália. Afiliada a um partido de extrema-direita, já chegou a ser acusada de enaltecer o fascismo – denúncia que ela hoje rejeita. Chegou à chefia do governo italiano pelo fato de sua coligação ter obtido maioria nas últimas eleições parlamentares.

Em princípio, o que se espera de um governante alinhado com a direita extrema é um distanciamento com relação à guerra na Ucrânia, no estilo que Lula vem adotando. Espera-se uma posição dúbia, hesitante, hipócrita, “em cima do muro” – como o posicionamento de Luiz Inácio, que vem embaçando a lucidez que se espera do governante de um grande país como o nosso.

Pois pasmem! Signora Meloni mostrou que, apesar de seu metro e sessenta, tem coragem pra dar e vender. Na cúpula UE-Celac desta semana,  ao dirigir-se ao plenário, falou da guerra de Putin. Disse que, durante as reuniões da cúpula, ouviu muito falar de “paz”, mas que é importante dar a cada palavra seu verdadeiro significado. Mandou:


“A palavra paz não pode ser confundida com a palavra invasão.”


E continuou, com clareza:


“Considero que a guerra na Ucrânia, além de ser nova guerra colonial, é também uma guerra declarada contra os mais frágeis. E constatamos isso com a não-renovação do acordo de exportação de cereais ucranianos.”


Isso é que é uma fala clara, contundente. A primeira-ministra, apesar de depender do gás russo, posicionou-se nitidamente em favor da pobre Ucrânia. Preferiu o lado civilizado da História.

Está passando da hora de Luiz Inácio meditar sobre a catástrofe humana que ele está apoiando. Seu erro é tão brutal quanto teria sido Getúlio Vargas errar de lado e declarar apoio a Hitler e Mussolini.

Vargas escapou por pouco, mas Lula não fugirá ao veredicto da posteridade.

A dimensão bolsonárica de Lula

José Horta Manzano

Ainda na série “Barbaridades pronunciadas por presidente em viagem ao exterior”, vamos comentar hoje mais uma (grave) patacoada dita por Luiz Inácio quando de seu mais recente passeio no estrangeiro.

Foi esta semana, em entrevista coletiva concedida em Bruxelas ao final da cúpula UE–Celac. Instado a dar sua visão da agressão sofrida pelo ministro Alexandre de Moraes no aeroporto de Roma, Lula mandou ver:


“Nós precisamos punir severamente as pessoas que ainda transmitem ódio, como o cidadão que agrediu o ministro Alexandre de Moraes.”


Até aí, Lula emitiu julgamento severo. Mas não deixou de mostrar esperança de que as coisas mudem, ao se referir aos que “ainda” transpiram ódio. Falou do ódio transmitido por certas pessoas como se falasse de um modismo passageiro. Antes fosse.

Continuou:


“Um cidadão desses é um animal selvagem, não é um ser humano.”


Aí, Luiz Inácio se enrolou. O cidadão é, sim, um ser humano – daí a gravidade do fato. Um animal selvagem age por instinto, não tem noção do bem e do mal. Chamar o cidadão de “animal selvagem” é ofensivo a todos os animais selvagens.

Logo em seguida, veio o pior:


“Essa gente que renasceu no neofascismo colocado em prática no Brasil tem que ser extirpada.”


Extirpada, Luiz Inácio? Extirpada? Será que vosmicê conhece o significado do verbo extirpar? É arrancar, abolir, suprimir, eliminar, extinguir, acabar com – uma imagem de extrema violência. Equivale a “Precisa fuzilar a petralhada!”, frase de triste memória pronunciada por Bolsonaro.

Com esses sentimentos violentos, Lulinha, vosmicê está se equiparando aos “neofascistas” cujo renascimento o incomoda. Está mostrando que, neste triste momento que o Brasil atravessa, as duas pontas da polarização são farinha do mesmo saco, ambas encharcadas de violência e loucas pra acabar com o adversário.

Caro presidente, um conselho: procure diminuir o ritmo de suas viagens ao exterior. Depois de seu posicionamento sobre a invasão russa da Ucrânia, seu Nobel da Paz está perdido de qualquer maneira. Seu brilho pessoal empalideceu. Suas excursões, sempre acompanhadas de suas palavras estranhas, não fazem bem ao Brasil.

Deixe a política externa para profissionais, fique por aqui e procure amenizar os graves problemas que temos internamente. Dá mais certo.

Fominha

by Sam Jovana, desenhista mineira

José Horta Manzano

Como é sabido, chefe de Estado (ou de governo) em passeio fora do país é um perigo. É em ocasiões assim que ele costuma “falar abobrinha”. Não sei qual é o mecanismo que leva dirigentes a se comportarem assim, nem cabe aqui discutir a origem: o fato é que assim é.

Mais uma vez Lula comprovou o perigo dessa tradição. Na viagem à Bélgica, que se conclui nesta quarta-feira, o presidente usou e abusou da liberdade que sente quando está longe da pátria. Vamos falar de um desses deslizes e deixar o outro para uma próxima ocasião.

Na hora de redigir o comunicado final conjunto da cúpula UE-Celac, Luiz Inácio ameaçou não assinar caso o documento mencionasse a Rússia. Diante de sua inflexibilidade, o comunicado foi peneirado para excluir o nome daquele país. Ficou meio sem graça, mas não havia outro jeito.

Gabriel Boric, presidente do Chile, não apreciou a prepotência de Lula e ousou exprimir sua discordância. Como todos os quase 30 países europeus e diversos latino-americanos, ele também achava que o documento devia trazer uma firme condenação da Rússia em razão da invasão da Ucrânia.

Ao saber da reclamação de Boric, Luiz Inácio tomou o ar mais paternalista que conseguiu e desancou o colega chileno. Tratou-o de jovem inexperiente, chamou-o de fominha, explicou que, com o tempo, a experiência virá e que ele se acalmará.

Foi muito feio tratar o colega dessa maneira. Lula mostrou que não consegue conviver com o contraditório. Se alguém não estiver inteiramente de acordo com ele, é porque o outro está errado: Luiz Inácio não erra nunca. Foi um acesso de agressividade em público, pra quem quisesse ouvir.

Com a maior cara de pau, nosso presidente voltou a sacar sua “narrativa” favorita para encerrar qualquer conversa sobre a invasão da Ucrânia. Disse que as hostilidades têm de cessar; só então será possível conversar sobre a paz. “Enquanto tiver tiro, não tem conversa” – voltou a bater na tecla.

A falsidade de nosso guia é comovente. Ele sabe perfeitamente que a Rússia invadiu a Ucrânia e se apropriou de 20% do território. É legítimo e compreensível que o país invadido combata para expulsar o invasor e recobrar o território perdido. Cessar o combate significaria concordar em entregar uma quinta parte do território da pátria ao inimigo.

Qualquer um consegue entender que a guerra não pode tomar essa direção. Qualquer um, menos o Lula. Sua hipocrisia é imensa quando prega um cessar-fogo, que significaria entregar à Rússia boa parte do território da Ucrânia. É como se o Brasil fosse invadido e viesse um país estrangeiro sugerir que os brasileiros parassem de combater e entregassem um naco do território nacional aos invasores. Podia ser o Sul, o Sudeste, o Nordeste. Como se diz, pimenta nos olhos dos outros é colírio.

Lula e seus assessores não podem ser tapados a ponto de não entenderem a situação. O ódio que sentem pelos EUA não parece ser grande a ponto de explicar o raciocínio oficial do governo brasileiro. Ou será?

Lula em Bruxelas – II

José Horta Manzano

Pronto, Lula já discursou na Cúpula Celac-UE. Quem aguardava gesticulação tipo político fazendo comício em cima de trio elétrico saiu desapontado. O palavreado foi meio chocho. O Lula entusiasmado e expressivo só aparece em falas de improviso, quando ele costuma dar uma escorregadela aqui, chutar uma bola fora ali, cometer alguma ofensa à cartilha do politicamente correto acolá.

Lula leu o discurso inteirinho, da primeira à última página. O texto soou por vezes artificial, recheado de expressões inabituais na boca do presidente: “combater ilícitos cibernéticos”, “perpetuação da assimetria” e outras tecnicidades geralmente banidas do repertório de todo populista que se preze. Foi uma fala, por assim dizer, pasteurizada.

Diferentemente do que havia anunciado, não deu uma palavra sobre inteligência artificial. Muito menos tocou no tema da Nicarágua e seus perseguidos políticos encarcerados. Talvez volte a fazê-lo em alguma reunião bilateral, mas é de duvidar. O que de importante tivesse de ser posto à mesa já teria sido dito na reunião plenária desta segunda-feira.

O discurso, de pouco mais de 10 minutos, foi composto de platitudes e de generalidades. Nada de novo foi anunciado. Não foi feita menção a nenhuma das pautas sensíveis da atualidade. Nicarágua, Venezuela e Ucrânia ficaram de fora.

A discurso protocolar, aplausos protocolares. Bem diferente da ovação que se costuma reservar a discursos que realmente mexem com a plateia.

Pra se abalar de Brasília a Bruxelas – com tudo o que isso representa de logística, combustível, gastos com a comitiva, segurança, alojamento em hotel de alto luxo e outros detalhes – acredito que não tenha valido a pena. O acordo Mercosul-UE, que aguarda há duas décadas sua finalização, não andou um milímetro.

Se Luiz Inácio tivesse passado estes dois dias descansando no Torto, teria sido mais proveitoso. E uns bons milhões de nosso dinheiro teriam sido poupados.

Lula em Bruxelas

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Neste momento, domingo à tarde (na Europa) ou domingo de manhã (no Brasil), acompanho o voo do Aerolula. O aviãozinho, que leva o presidente a bordo cercado de sabe-se lá quantos assessores e penetras, está a meia hora de aterrissar em Bruxelas. Nessa cidade, Luiz Inácio se juntará a uma trintena de chefes de Estado ou de governo latino-americanos e caribenhos. Vão todos participar de uma cúpula entre a União Europeia e a Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe).

A cimeira se realizará na segunda e na terça-feira. Não haverá tempo útil para debater, pela enésima vez, o acordo comercial UE – Mercosul, que se encontra há mais de 20 anos enredado na burocracia. O máximo que os integrantes das comitivas presidenciais dizem esperar, além de um passeio pela capital da Europa, é “estreitar os laços que unem os países participantes”. É pouco, mas é o que temos para hoje.

Lula espera ser a maior atração da cúpula. Visto que é a figura mais conhecida entre todos os colegas latino-americanos e caribenhos, é de apostar que monopolizará as atenções. Suas palavras serão seguidas com interesse.

Luiz Inácio faz questão de abordar um assunto pelo qual ninguém imaginava que ele fosse se interessar: IA. Se o discurso realmente sair, esse dia periga entrar para a história da humanidade.

Além de falar de IA, Lula deseja também abordar a situação na Nicarágua. Lembremos que o papa lhe pediu, poucas semanas atrás, que interviesse junto ao ditador Ortega para obter a libertação de prelados católicos que mofam nas masmorras do país.

Vai ser interessante acompanhar as falas de nosso Lula nacional. Vamos ver que piruetas vai dar pra falar em liberar prisioneiros políticos e ao mesmo tempo negar que sejam prisioneiros políticos. Prepare-se para um exercício explícito de “cara-de-pauíce” e de contorcionismo verbal.

Pra lá de interessante vai ser sua palestra sobre inteligência artificial. Será que ele vai ler um discurso escrito por… IA? Quem viver verá.

Nota
Nesse vaivém, o Aerolula pousou.

Lula… ambíguo?

O Globo, 8 jul 2023

José Horta Manzano

Li ontem um artigo que discorria sobre a relação mantida por Lula com ditaduras mundo afora, em especial com as latino-americanas. Não contesto o pensamento do autor, o que me incomoda é o título: “Lula é ambíguo com ditaduras”. Não é descrição adequada.

O dicionário esclarece que “ambíguo” é o que desperta dúvida, que admite interpretações diferentes e até contrárias. O comportamento de Lula com relação a qualquer ditadura não é nada ambíguo – é constante, claro e cristalino. Desde quando ele fundou o Foro de São Paulo, trinta anos atrás, sua posição não se moveu nem um milímetro. Todo regime ditatorial desperta sua simpatia.

Há que partir do princípio de que ditadura é ditadura, sem essa de “ditadura de esquerda” ou “ditatura de direita”. Quando se suprimem o direitos dos cidadãos a escolher seus representantes de forma justa, quando a imprensa livre é cerceada ou suprimida, quando a liberdade de ir e vir é entravada, tanto faz que o ditador se proclame de “direita” ou de “esquerda” – sempre ditadura será.

Lula nunca deu o menor sinal de ambiguidade nesse sentido. Nunca escondeu suas simpatias. Com grande desenvoltura, ele outro dia recebeu em palácio o mandachuva da Venezuela.

Ao regressar do Vaticano, pediu, com indisfarçada hipocrisia, que o ditador da Nicarágua libertasse “o bispo”, transmitindo assim um recado do papa. Digo que foi atitude hipócrita porque o mundo inteiro está sabendo que dezenas de membros do clero estão atrás das grades naquele país, todos perseguidos por serem religiosos. Lula, o falso humanista, só falou do “bispo”, com certo enfado, como se os demais não existissem.

A admiração que Luiz Inácio sente por autocratas é forte. Se ainda não foi visitar meia dúzia deles – Putin, Maduro, Ortega, os sucessores dos bondosos irmãos Castro – é porque assessores devem tê-lo retido pela manga.

Não é possível perceber ambiguidade na simpatia que nosso presidente demonstra por ditadores e autocratas em geral. Os Estados Unidos, por seu lado, são o fantasma que vem assombrando sua vida desde a juventude. A forte antipatia que Lula sente pelo grande irmão do norte é palpável, impregnada, inalienável.

Talvez seu cérebro ressentido veja, na proliferação de ditadores ao redor do mundo, uma forma de abalar o país detestado.

A ambulância

crédito: Infodefensa.com

José Horta Manzano

O governo ucraniano não publica estatísticas oficiais dando conta das perdas humanas em decorrência da invasão russa. Na contagem oficiosa, as vítimas se aproximam de 250 mil. E continuam aumentando ao ritmo diário de 500-1000 vidas.

No finzinho de abril, a Ucrânia solicitou que o Brasil lhe vendesse 450 unidades do veículo blindado Guarani em versão ambulância.

Numa guerra de trincheira disputada em terreno minado, como está ocorrendo no conflito ucraniano, uma ambulância comum não dá conta do recado. O governo de Kiev escolheu o Guarani por ser um veículo fortemente blindado, capaz de transportar duas macas com feridos e mais três pacientes sentados. Além disso, cabem também um médico, um enfermeiro, o comandante do veículo e o motorista. O Guarani resiste a tiros, rajadas de metralhadora, estilhaços de grosso calibre e até explosão de minas.

É importante salientar que o blindado em versão ambulância não é dotado de canhão nem do armamento que normalmente integra a versão de combate. A Ucrânia queria que os veículos viessem já pintados com as cores do país e a cruz vermelha que simboliza transporte de feridos de guerra. Era um negócio de 3,5 bilhões de reais.

No governo, o primeiro a tomar conhecimento do pedido de compra foi o ministro brasileiro da Defesa. Rapidamente foram informados também o ministro das Relações Exteriores, o assessor Amorim e o próprio Lula.

A partir daí, entrou em ação a visão distorcida de geopolítica que caracteriza o lulopetismo. Figurões do PT se puseram a dar palpite. Consideraram que as Forças Armadas brasileiras estavam muito saidinhas, tratando de fazer “política externa independente”. Com o PT, pode não. E veio o bloqueio: o governo Lula vetou o que teria sido o maior negócio de exportação da indústria bélica nacional.

O mal disfarçado apoio que o lulopetismo dá à Rússia de Putin fez mais um estrago. Em nome de uma suposta “neutralidade” no conflito, o Brasil, que podia ajudar a salvar milhares de vidas, acovardou-se. Os ucranianos não nos pediam dinheiro, nem armas, nem presença militar, nem apoio a sanções econômicas – queriam apenas ambulâncias. E estavam dispostos a pagar.

Para que conste: a Suíça, país tradicionalmente neutro desde 1815, declarou que neutralidade não rima com indiferença. Desde o início da guerra, tem ajudado a Ucrânia com remédios, equipamento médico, material de primeira necessidade para a população civil, doações de todo tipo. Esse tipo de ajuda não atenta contra a neutralidade.

Além disso, nada impede que o Brasil, caso houvesse interesse por parte dos russos, vendesse ambulâncias medicalizadas também para eles. É o tipo de negócio que não quebra a neutralidade. Não quebra na cabeça de gente normal, é claro. Quando temos, no comando das Relações Exteriores, barbudinhos empacados em mágoas e ressentimentos, a coisa muda.

Com isso, se descobre que a empatia com o sofrimento alheio, base de toda doutrina socialista, era só pra inglês ver.

E os feridos e mutilados de guerra ucranianos, nessa mixórdia, como é que ficam? Que se virem, ora.

O boleto

Parlamento suíço

José Horta Manzano

A firmeza de opinião não está entre as qualidades maiores do brasileiro. Em detalhes do dia a dia e em acontecimentos importantes, gente simples e gente complicada tem reações semelhantes.

Vivendo há décadas longe de Pindorama, aprendi que sim é sim, e não é não. Só que isso pode valer em determinadas regiões do mundo. No Brasil, a afirmação e a negação não são necessariamente antagônicas.

Nunca lhe aconteceu de oferecer um favor ou uma simples gentileza a alguém e receber em troca um “Ah, não precisa!”? Na verdade, é um “não” que quer dizer “sim”, o que me deixa desconcertado. Para mim, parece simples: quando a gente quer, responde que sim; quando não quer, diz que não. Ficar no meio do caminho me soa estranho.

O fenômeno permeia toda a sociedade e atinge os altos círculos das “pessoas politicamente expostas”, que é a nova denominação da classe política. Habituados a flutuar entre opiniões, políticos trocam de partido como trocam de camisa. Abrem a boca pra soltar bobagem, na certeza de que, dia seguinte, poderão consertar, deixar o dito por não dito. E segue o barco.

Acredito que Lula, ao proferir disparates sobre a Ucrânia invadida pela Rússia, estava exercendo seu direito ao arrependimento posterior: toda asnice proferida pode ser consertada mais adiante, caso seja mal recebida. Tanto é assim que suas falas se “suavizaram”, sem todavia se encaixarem nos trilhos que o mundo civilizado esperava dele.

Com essas poucas falas calamitosas, Luiz Inácio destruiu a própria imagem, aquela que lhe tinha custado anos para construir e que era admirada e respeitada no planeta. A confiança que o mundo desenvolvido depositava no velhinho “pai dos pobres” foi-se embora pelo escoadouro.

A expressão que Lula usou – Clube da Paz – pode até tornar-se realidade daqui a algum tempo, dependendo de como os combates evoluírem. Só que ele, Lula, não será chamado a organizar nem a chefiar as tratativas. Talvez nem o aceitem no Clube.

A prova? Pois ontem às 14h (hora da Europa Central), os parlamentares suíços se empertigaram para ouvir o discurso de Volodimir Zelenski, que falava ao vivo, diretamente de Kiev, por vídeo em telão.

A Suíça é país tradicionalmente neutro. Assim, o presidente ucraniano evitou tocar em temas militares (armas ou munições). Em vez disso, agradeceu pelos bons serviços que a Suíça tem prestado (acolhida de refugiados, assistência médica aos feridos).

E aproveitou para detalhar seu próprio plano de paz. Sua ideia é reunir a expertise de diferentes chefes de Estado, cada um contribuindo com sua experiência em áreas como: questões nucleares, remoção de minas, proteção de crianças (milhares de crianças ucranianas foram deportadas para a Rússia contra sua vontade).

Zelenski fez um único pedido. Convidou a Suíça a organizar “uma cúpula sobre a paz mundial”. E acrescentou: “É justamente nesse ponto que a Suíça é especializada”. Foi ovacionado de pé.

Como o distinto leitor e a graciosa leitora podem perceber, Lula e seu “Clube da Paz” estão desde já descartados. A língua ferina e principalmente o raciocínio de Luiz Inácio, aprisionado em ressentimentos que lhe cristalizaram a alma, já fez seu efeito e já passou fatura. Não dá mais pra voltar atrás. Agora, o jeito é pagar o boleto. Sem chance de mudar de ideia.

Conversa de surdo

Ursula von der Leyen & Luiz Inácio da Silva

José Horta Manzano

O funcionamento das instituições da União Europeia é complexo, totalmente diferente do sistema vigente em cada um dos 27 países membros. Cada uma das instituições tem sua própria organização e colabora com as demais instituições segundo um esquema bem definido.

As instituições da UE são sete:

  • O Conselho Europeu
  • A Comissão Europeia
  • O Conselho da União Europeia (ou “o Conselho”)
  • O Parlamento Europeu
  • O Tribunal Europeu de Contas
  • O Tribunal de Justiça da União Europeia
  • O Banco Central Europeu

Como em qualquer governo, cada instituição é independente, mas todas trabalham em harmonia.

O presidente Lula recebeu ontem a visita de Ursula von der Leyen, 14ª presidente da Comissão Europeia, com mandato de 5 anos. Essa comissão é o órgão executivo da UE. Para esclarecimento, o cargo da senhora von der Leyen equivale ao de Lula da Silva, dado que ambos são chefes do Executivo.

Não sei se Luiz Inácio foi avisado (espero que sim) que ele e a visita estavam falando de igual para igual, sendo ambos chefes do Executivo. Lula não recebeu a visita de uma funcionária qualquer.

A julgar pela foto, von der Leyen parece sentir-se mais à vontade do que Lula. Ela exibe um sorriso resplandecente enquanto ele faz cara de quem comeu e não gostou. Talvez excessos cometidos no almoço lhe tenham provocado engulhos. O paletó desabotoado poderia ser a confirmação dessa tese.

Quanto ao debate entre os dois, há de ter sido conversa de surdo. A visitante veio tentar, pela enésima vez, explicar a Lula que ficar em cima do muro, no caso da invasão russa da Ucrânia, é opção furada, que, além de não o enobrecer, o coloca como cúmplice de ditadores sanguinários. Isso pode trazer-lhe consequências inesperadas e desagradáveis.

Lula, não tendo apreciado voltar a esse assunto, preferiu cobrar a conclusão do tratado entre UE e Mercosul. Quem sabe von der Leyen tenha até se comprometido a mexer os pauzinhos. Só que ela não tem nenhum poder nessa decisão, que depende de ratificação do texto em cada um dos 27 parlamentos nacionais da UE. Mas talvez Luiz Inácio nem esteja a par desse detalhe.

Na minha visão, teria sido melhor que a presidente da Comissão Europeia tivesse conversado com Celso Amorim, o assessor especial de Lula para assuntos externos. Em matéria de relações exteriores, o posicionamento de nosso presidente tem trazido as digitais de Amorim.

Luiz Inácio nasceu dogmático, e há de morrer dogmático. Para ele, posicionar-se no campo oposto ao dos EUA é ponto de honra, coisa que não se discute. Que remédio?

Pra que serve um ministério?

Reunião ministerial

José Horta Manzano

Nossa Constituição não é específica ao falar de ministérios e de seus titulares. Parece partir do princípio que as funções desses auxiliares do presidente da República são de conhecimento de todos, portanto não vale a pena se estender em explicações detalhadas.

Vivemos num país de forte tradição cartorial. Já reparou nas intermináveis linhas de palavrório que aparecem na escritura de um lote de 10m x 10m situado num grotão qualquer? É um blablá tão comprido que te dá a impressão de estar comprando um castelo.

O fato é que essa fixação em dar a volta completa, abarcar um tema inteirinho e trancar a porta, sem deixar brecha para interpretações divergentes, acaba sendo perniciosa. Quando uma lei ou um regulamento não vem já esmiuçado, os cidadãos acabam raciocinando de forma extravagante: “Se não é proibido, forçosamente é permitido”.

Pela Lei Maior, a única condição para atribuir a chefia de um ministério é que o titular seja brasileiro. Explicitamente, não há limite de idade, não há exigência de notório conhecimento da área, não há proibição de nepotismo, não há imposição de reputação ilibada, não há obrigação de apresentar certidão negativa de antecedentes criminais.

Segundo nossa percepção, o que não está explicitamente proibido, só pode ser permitido. A razoabilidade não está entre as qualidades principais de nosso andar de cima. Eis por que o ministério do presidente – não só de Lula, mas de todos os predecessores – lembra mais um amontoado de figuras díspares, saídas não se sabe de onde, manifestamente incompetentes para assumir o encargo que lhes foi confiado.

A escolha de ministros não segue um padrão lógico, que vise a colocar o melhor especialista em cada área. Lula, como Bolsonaro, tem distribuído cargos de ministro segundo critérios que pouco têm a ver com qualificação do titular. Amizade pessoal, cumprimento de promessa de campanha, “indicação” de alguém, afiliação a este ou àquele partido – esses são os parâmetros. Como resultado, o conjunto dos ministros dá contribuição importante para que o país continue bloqueado e parado no tempo.

Lula tem ministro encrencado com a justiça, ministro incompetente, ministro apadrinhado por figurão, ministro que requisita avião da FAB para ir a leilão de cavalos. É uma pilha de figurinhas repetidas, daquelas que não têm valor. Há muita figura decorativa com título de ministro.

Como consertar a situação? A solução mais rápida e certeira só pode vir do Congresso, afinal são os parlamentares que fazem as leis. Teriam de ser especificados (e gravados na pedra) os critérios obrigatórios para a nomeação de ministro de Estado. Em país cartorial, as regras têm de ser explicitadas tim-tim por tim-tim.

Quem te viu, quem te vê ‒ 3

José Horta Manzano

Saiu hoje no Diário Oficial a indicação de Cristiano Zanin para preencher a vaga aberta pela aposentadoria de Ricardo Lewandowski. Como é de conhecimento geral, Zanin é amigo pessoal do presidente Lula da Silva. Vem defendendo o atual presidente desde há muitos anos, tendo notadamente enfrentado o auge dos processos da Lava a Jato. Um amigo valioso.

O jornalista Lauro Jardim lembrou, em sua coluna n’O Globo, da declaração feita por Lula durante a campanha eleitoral de seis meses atrás. Quando de um debate na Band, o ora presidente foi veemente:

“Estou convencido que mexer na Suprema Corte para colocar amigo, para colocar companheiro, para colocar partidário é um atraso, um retrocesso que a República brasileira já conhece muito bem. Eu sou contra.”

Não diga! É contra mesmo?

O distinto está surpreso? Pois não devia. Nesse particular, Lula é reincidente. Durante seus primeiros mandatos, já tinha incorrido no mesmo pecado ao indicar para o STF seu amigo Ricardo Lewandowski.

Na época, muitos criticaram a escolha, não tanto pelo nepotismo explícito como pelo fato de o indicado não ser dono de notável saber jurídico como exige a Constituição. Passou na sabatina assim mesmo.

Zanin, o atual indicado, tampouco é personagem carregado de diplomas. Vai passar do mesmo jeito.

Afinal, estamos no Brasil, país onde a palavra de um figurão público vale menos que um bilhete corrido.

Maduro e o script

by Patrick Chappate (1964-), desenhista suíço

José Horta Manzano

A reunião de dirigentes sul-americanos desta terça-feira em Brasília está dando que falar. Já li um punhado de análises que especulam qual seria o objetivo de juntar em torno da mesa uma dezena de figurões de nosso subcontinente.

Como está – um conciliábulo de um único dia sem pauta específica – lembra um grupo de vizinhos reunidos para se conhecerem melhor, em torno de uma mesinha de centro com café e bolo. Vão conversar do quê? Se nada ficou combinado antes, só pode sair fofoca.

Há quem acredite que é isso mesmo: uma confraternização entre coproprietários, celebrada no apartamento mais espaçoso do prédio, sem maiores pretensões. Quem ganha é o ego do proprietário dessa cobertura, orgulhoso de mostrar sua estupenda vivenda aos vizinhos.

Já outros veem na reunião uma estratégia do governo Lula para proclamar ao mundo que o Brasil voltou – no sentido de potência regional. Para melhor representar seu papel de chefe, está mostrando que tem trânsito livre e que conversa com todos os países das redondezas.

Há quem veja um plano ainda mais ousado. Lula estaria afirmando ao mundo que é o Brasil quem manda no pedaço, antes que intrusos como China e Rússia façam por aqui o têm feito na África, ao implantar feudos e colônias.

Quanto a mim, penso que há razão em todos os argumentos citados. Creio que a cúpula tenha sido bolada com múltiplas finalidades. Não deixa de ser confraternização entre vizinhos. Mas é também afirmação da influência do Brasil no seu entorno. E ainda mostra os músculos, no esforço de barrar veleidades de neocolonialismo chinês e russo.

A ideia é boa. Dá alívio ver que o Itamaraty está revivendo, depois de ter passado encolhido durante o calamitoso quadriênio bolsonárico. Dá satisfação perceber que ainda há cabeças pensantes nos altos círculos da República, inteligências geopolíticas que tinham sido caladas na gestão anterior.

Até aqui, tudo são flores. Agora é que vem a hora de a onça beber água, ou seja, o momento em que, ao entrar em campo, a teoria vira prática.

O tema de convidar (ou não) Maduro há de ter sido objeto de discussão no Itamaraty e na Presidência. Se não o convidasse, o Brasil daria a impressão de não ter relações fluidas com toda a vizinhança. Não era o que Brasília queria. Se o convidasse, o Brasil mostraria que fala com todo o mundo, regimes de esquerda e de direita, ainda que a Venezuela, no conceito planetário, seja vista como ditadura.

Já conhecemos o fim da história: Caracas foi convidada. Só que o comitê de organização do encontro teve a ideia bizarra de tirar Señor Maduro da naftalina e fazê-lo vir um dia antes dos demais. O resultado foi que o ditador venezuelano, sozinho, único sobre o palco, abafou e foi o centro das atenções, com todos os holofotes sobre sua cabeça. Observado pela mídia estrangeira, foi a vedete do dia.

Na verdade, a presença de Maduro esvaziou a importância da reunião. A meu ver, apartar Maduro dos demais dirigentes não foi boa ideia. No final, passou a imagem de que o Brasil tem especial apreço pela ditadura do vizinho. O amparo dado ao autocrata vizinho é tão grande, que ele teve direito a uma homenagem exclusiva de um dia inteiro.

Como nada é perfeito, o comitê de organização se esqueceu de recomendar a Lula da Silva que não saísse do script e que não soltasse frases de improviso. O ímpeto de estrela de nosso presidente foi mais forte. Não se ateve ao discurso preparado, mas deu opiniões desastrosas em assunto sério e ultrassensível.

Deu a entender que, se a Venezuela está no buraco é por culpa das sanções econômicas dos EUA. (O argumento é falso, visto que o país já estava de pires na mão nos tempos de Hugo Chávez, quando não havia sanção nenhuma.)

Sugeriu ao ditador que inventasse uma narrativa que seja só dele e que sirva de contra-argumento para combater a difusão da informação sobre a verdadeira realidade da Venezuela.

Não deu um pio sobre presos políticos, oposição perseguida, imprensa calada à força, fome generalizada, milhões de cidadãos que têm fugido do país nos últimos anos.

Quem teve a ideia da cúpula não deve ter apreciado nadinha essas incômodas entorses ao roteiro traçado. Esses deslizes acabaram desvirtuando a causa e mostrando um Brasil conivente com o pior regime da América do Sul na atualidade.

Ninguém é incontrolável. Deve ser difícil refrear os ímpetos do antigo sindicalista que virou presidente, mas impossível não é. Está faltando quem lhe mostre que, se continuar a tirar pitacos do bolso da camisa, Lula vai continuar arruinando os melhores planos da diplomacia brasileira.

Já fez isso no G7, está fazendo agora e vai continuar a fazer.

Ecos do G7

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 27 maio 2023


“Nós, os líderes do Grupo dos Sete (G7), […] estamos tomando medidas concretas para apoiar a Ucrânia pelo tempo que for necessário em face da guerra ilegal de agressão da Rússia.”


Essas são as primeiras palavras do comunicado final da cúpula do G7, havida recentemente em Hiroshima. O longo texto, firmado pelos dirigentes das democracias que integram o grupo, se estende por 19.000 palavras distribuídas em 66 tópicos. A abrangência do documento é vasta: valores comuns, não proliferação de armas nucleares, tensões na região indo-pacífica, economia global e dezenas de outros pontos. Assim mesmo, a menção à “guerra de agressão da Rússia” em primeiríssimo lugar mostra a importância que ela assumiu aos olhos das democracias mais maduras.

O Brasil, em nome de sabe-se lá que doutrina, está em dissonância com a unanimidade exibida pelas três dezenas de países que compõem o dito “Ocidente”. Em março passado, comentando decisões estabanadas do governo brasileiro, uma agência de notícias comentou: “Nas últimas semanas, o Brasil de Lula enviou uma delegação à Venezuela, recusou-se a assinar uma resolução da ONU condenando as violações dos direitos humanos na Nicarágua, permitiu que navios de guerra iranianos atracassem no Rio de Janeiro e recusou-se a enviar armas para a Ucrânia, em guerra com a Rússia”. Como se vê, depois do calamitoso quadriênio Bolsonaro, o Brasil é escrutado com atenção.

Quanto à guerra na Ucrânia, Lula permanece mergulhado num negativismo obstinado, incapaz de enxergar a realidade cristalina: a Ucrânia, país independente, livre e soberano, foi brutalmente invadida por tropas russas, em guerra de conquista territorial. Parece que Luiz Inácio (e assessores) são os últimos que resistem a admitir isso. Nosso presidente insiste em enroscar-se com declarações tiradas do bolso do colete. Já disse que “a decisão pelo conflito foi tomada por dois países”, um descalabro. Referindo-se à Crimeia, já declarou que “a Ucrânia, também, não pode querer tudo”, outra barbaridade. “Não cabe a mim decidir de quem é a Crimeia ou o Donbas”, declarou um Lula esquecido de que o Brasil foi um dos primeiros, trinta anos atrás, a reconhecer a Ucrânia, dentro de suas fronteiras oficiais.

Luiz Inácio persiste em apregoar sua crença num mundo multipolar, sem potência dominante. Sua guerra particular contra o dólar americano mostra isso. Quer Lula goste ou não, sua sonhada utopia está cada dia mais longe. A impressionante evolução da China, impensável vinte anos atrás, embaralhou as cartas do jogo mundial. Os EUA não estão em declínio, apesar do que Lula da Silva possa almejar. A Rússia, essa sim, tem decaído. Portanto, não é preciso consultar uma bola de cristal para saber como será o equilíbrio de forças nas próximas décadas: teremos a volta da guerra fria – que já aponta na esquina. De um lado, a China e seus aliados; de outro, os Estados Unidos e o “Ocidente”.

O país de Putin, empobrecido, desprestigiado e privado de projeção internacional, será fatalmente atraído para a órbita da China, país do qual está se tornando vassalo. Sem o amparo chinês, a Rússia teria enorme dificuldade para sobreviver. Essa nova e previsível divisão do equilíbrio mundial entre dois polos (EUA e China) está por trás da intensa movimentação da diplomacia comercial mundial destes últimos anos. Países de peso territorial, populacional e econômico estão sendo cortejados. Está aí a razão do convite de participação estendido a Brasil, Vietnã, Indonésia, União Africana, Coreia do Sul e outros.

Lula já deu um grande passo ao declarar, em discurso oficial no G7, que o Brasil condena a violação do território da Ucrânia. Por fim, um posicionamento menos inquietante. O bom senso informa que nosso país, por sua história, língua e cultura, faz parte do mundo ocidental. Por mais que respeitemos a civilização chinesa e a russa, não descendemos de lá. A árvore genealógica de nosso povo nos prende ao mundo atlântico, na encruzilhada África, Europa e América.

Lula e o Itamaraty precisam reconhecer que um país invadido por tropas estrangeiras tem o direito (e o dever) de se defender. Ajudá-lo a repelir o invasor não é “tomar um lado”; é respeito ao direito internacional.

Presidente! Deixe de lado a vaidade de ser aquele que pôs fim à guerra – quimera que não se realizará. Mostre empatia para com os infelizes ucranianos e reponha o Brasil nos trilhos da civilização! O futuro vai lhe agradecer.

Goiabada basta

by Arend van Dam, desenhista holandês

José Horta Manzano

Virada a página Bolsonaro e passado o 8 de janeiro, acreditei que as coisas melhorassem. Nem esperava um definitivo “desta vez, vai!”, mas já me contentaria com um esperançoso “parece que sossegou”. Pra quem é, goiabada basta – como diziam os antigos. Do jeito que as coisas estavam, um pouco de silêncio já seria um bálsamo.

No entanto (tem sempre um porém pra atrapalhar), as coisas não parecem estar se endireitando. Se não, vejamos.

Em política externa, Lula se esmerou em escolher o lado errado na crise russo-ucraniana, que chacoalha o mundo.

Em política interna, já manteve no cargo ministro malandro que assalta os cofres do Estado para visitar feira equina. Já catou pelo braço o chefe do MST e deu-lhe a honra de viajar à China de aerolula, afago reservado a poucos.

Apesar de ter jurado retornar à decência republicana, Luiz Inácio, até agora, falhou. O cidadão esperançoso que aguardava nítida melhora desde o 1° de janeiro ficou com a goiabada mesmo. Sem queijo.

É verdade que acabaram ataques às urnas, às instituições, à mídia e às minorias. Por seu lado, porém, conchavos, condescendência para com assessores duvidosos e posicionamentos do lado errado da História continuam na ordem do dia. Como nos tempos do capitão.

Faz poucos dias, Lula deu a entender que quer porque quer furar poço de petróleo na região amazônica. Nos tempos atuais, é decisão estapafúrdia, que renega as juras de parar de agredir a fabulosa natureza brasileira, promessas feitas por um Lula candidato. Muita gente tinha acreditado – inclusive e principalmente no exterior.

Está também no capítulo agressão à natureza o “desconto” concedido a comprador de carro novo. Na verdade, desconto não é, pois não passa de supressão de imposto. E imposto, se não for pago por este, terá de ser pago por aquele. Do bolso do presidente é que não sai. O mundo se dirige a um futuro descarbonado, e eis que o Brasil incentiva a compra de carros de motor térmico. Faria sentido dar desconto para carro elétrico (ou a hidrogênio, ou a vento), mas desconto pra carro tradicional não tem cabimento.

Na mais recente façanha do andar de cima, há participação atuante do Congresso. Como todos já sabem, nossa política para o meio ambiente, cujo melhor trunfo foi a nomeação de Marina Silva, está sendo suprimida e sucateada por nossos próprios parlamentares. Numa operação nada sutil, estão desidratando os poderes dos ministérios onde se decidem as ações dedicadas ao desenvolvimento sustentável e respeitoso do meio ambiente. Francamente, contando, ninguém acreditaria.

O Brasil de 2023 está se saindo parelho ao Brasil de 2019. Cara de um, focinho do outro. Quem deseja ver as coisas mudarem de verdade vai ter de esperar 2027 e torcer pra que o estropício atual não seja reeleito e que o estropício anterior não volte. Nem um, nem outro, nem nenhum de seus respectivos capangas.

Clube de amigos?

José Horta Manzano

Está difícil captar a lógica de Lula da Silva no caso da guerra que a invasão da Ucrânia por tropas russas provocou. Analistas de todos os quadrantes – inclusive este escriba – têm atribuído o bizarro comportamento de Lula a diferentes causas: antiamericanismo primário, desejo de ficar na história como aquele que parou uma guerra, necessidade de ser visto como pacificador planetário.

Talvez as palavras e os gestos de nosso presidente reflitam um pouco de cada uma dessas razões. Mas tem mais. Um curto vídeo rodado na abertura da reunião da qual participaram todos os líderes (os do G7 e os de países convidados) revela que, à entrada de Zelenski, todos se levantaram e se dirigiram para acolhê-lo. Lula, fingindo estar entretido na leitura de um documento, nem ergueu a cabeça. Ficou sentado como se tivesse entrado a moça do café.

Lula da Silva não é homem culto. Mas também bobo não é. Se ele tivesse a intenção sincera de “levar a paz” àquela região e minorar o sofrimento de seus inocentes habitantes, sua atitude certamente seria outra. Ao ver, a dois metros de distância, entrar o líder de um dos países em conflito, teria se levantado imediatamente para saudá-lo, apertar-lhe a mão e soprar-lhe no ouvido: “Logo mais, vamos conversar”.

Não foi o que ele fez. Ao se fazer de estátua enquanto o resto dos líderes recepcionava o visitante, deu um recado: “Não vou porque não quero”. Pode-se traduzir por uma frase que criança usava antigamente: “Não sei quem é esse aí, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”.

Em suma, o desaforo que Lula fez a Zelenski não foi gratuito. Tem um motivo, mas qual?

Lula aparenta ter ficado extremamente irritado com a presença do convidado surpresa. Zelenski, popstar conhecido e famoso no mundo todo, ofuscou o papel de protagonista que Lula imaginava assumir. Roubou-lhe a cena. O mau humor de Luiz Inácio é a face visível do ciúme e da raiva que lhe roem a alma.

Dá pra imaginar que, no fundo, o “clube de amigos” que poria fim à guerra na Ucrânia não era o objetivo maior de Lula. Se fosse isso, Luiz Inácio teria agarrado a ocasião de dar um forte abraço no líder do país invadido. O grande objetivo de Lula era dominar a cena do festival, como fazia nos bons tempos em que era “o cara” de Obama. No fundo, para quem dizia querer criar um “clube de amigos”, o procedimento de Lula foi inamistoso e revelou sua falta de sinceridade.

Pois é, os tempos mudaram, mas Luiz Inácio esqueceu de evoluir. A continuar assim, periga nem ser convidado para o G7 do ano que vem.

O capital de simpatia de Luiz Inácio

Visite a Rússia
Antes que Putin visite você

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 29 abril 2023

Não há que reclamar. Em certos aspectos, o passar do tempo tem sido benéfico a Luiz Inácio da Silva. Aquela barba escura e aquele cabelo farto dos jovens anos branquearam e rarearam, conferindo-lhe aspecto de um Papai Noel bonachão ao qual só falta o roupão vermelho. A natural fragilidade de um homem de quase 80 anos enternece os olhares, induz ao respeito e refreia a agressividade de todo interlocutor. O fato de ter-se casado em idade madura com uma senhora jovem e sorridente passa a impressão de estar de bem com a vida, o que é muito positivo.

No entanto, esses fatos são cosméticos: modificam a aparência sem bulir na essência. No fundo, Lula não mudou nem um tico. Continua empacado em algum ponto do século passado, num tempo em que era de bom tom execrar os Estados Unidos e tudo que orbitasse em torno do “grande irmão”.

De lá pra cá, o mundo mudou muito. A União Soviética desapareceu. O urso siberiano já não encarna o “perigo comunista”. Putin, o líder que se senta hoje no trono que um dia foi de Stalin, alarma o planeta, sim, mas não pelo comunismo. Decidido a restaurar o império tsarista, invadiu a Ucrânia numa guerra de conquista territorial. Com palavras agressivas, em que a ameaça de guerra nuclear é insinuada com insistência, o susto agora é outro: as falas de Putin anunciam o Armagedom.

Refestelado nas poltronas macias do Planalto ou do avião presidencial, a milhares de milhas do palco das atrocidades que Putin está provocando, nosso presidente não está em condições de sensibilizar-se com a tragédia que abala a Europa e angustia o mundo. Dificilmente um brasileiro comum será capaz de apontar a Ucrânia num mapa-múndi. Um Lula atarantado com o acúmulo de problemas internos não há de ter tempo para se informar sobre um drama que não o afeta. Esse fato, aliado a falhas de sua assessoria, está criando a dificuldade que Luiz Inácio tem de se inteirar dos comos e porquês desse conflito alucinante que já matou meio milhão, aleijou outro tanto e deslocou 10 milhões de ucranianos.

Para meio bilhão de europeus, a importância do que está acontecendo na Ucrânia é de outra magnitude. Berlim, a capital da Alemanha, está a apenas 800 km de Lviv (Ucrânia). Zurique (Suíça) está mais perto de Kiev (Ucrânia) do que São Paulo está de Brasília. Mesmo Portugal, que é o país europeu mais distante da Ucrânia, não está tão longe assim: a distância entre Lisboa e Lviv é menor que a distância entre Belém e Florianópolis. É essa proximidade trágica que alimenta o temor dos europeus. Foi ela que deu um solavanco nos princípios de defesa do continente. Países antes despreocupados acordaram para o novo perigo vindo do Leste. Suécia e Finlândia aderiram à Otan. Alemanha dobrou seu orçamento militar. Todos os demais países aumentaram suas despesas com defesa. Todos cederam parte de seu arsenal à Ucrânia para ajudar a conter a agressão russa. Os europeus sabem que, se o urso siberiano não for detido agora, eles podem bem ser as próximas vítimas.

É, até certo ponto, compreensível que nosso presidente não consiga se compenetrar da premência de ajudar a infeliz Ucrânia a enxotar os russos de seu território. Assim mesmo, é bizarro que sua veia socialista e universalista não lhe tenha despertado compaixão para com a sorte das vítimas do surreal ataque conduzido pelo autocrata de Moscou.

Prefiro acreditar que Luiz Inácio esteja mal informado do que se passa nessa Europa que acreditava ter atingido a paz permanente. Prefiro supor que, ao dizer que “quando um não quer, dois não brigam”, Lula estivesse apenas distraído da gravidade de suas palavras. Reduziu a agressão russa a uma briga de moleques de rua.

Lula guarda o trauma das vaias que recebeu no Maracanã, na abertura dos Jogos Panamericanos de 2007. Desde então, tem evitado situações em que possa ser alvo de manifestação de desapreço. Os protestos que enfrentou na Assembleia Portuguesa esta semana devem tê-lo feito refletir.

É bom que ele se emende e nunca mais volte a tratar o meio milhão de mortos da guerra na Ucrânia como variável de ajuste. O que está dito, está dito. Com algumas frases infelizes, Lula minou o imenso capital de simpatia de que gozava na Europa. Antes de recobrá-lo, ainda há de ouvir muito protesto. Daqui por diante, é bom refletir antes de falar. O próximo escorregão pode ser fatal para o resto de apreço que a Europa ainda lhe dedica.

A gravata

José Horta Manzano

Madame Da Silva esteve na Europa para uma vilegiatura de 5 dias em Portugal, mais um dia de lambuja na Espanha. Enquanto o marido tratava com gente séria e soltava alguma bobagem (mas só de vez em quando), Madame não tinha muito que fazer.

Um dia, levantou da cama decidida. Convocou um batalhão de seguranças e dirigiu-se a uma franquia da rede Ermenegildo Zegna, aquela loja de adereços masculinos que marca presença nos bons centros comerciais (=shopping centers) ao redor do planeta.

Lá encantou-se por um modelito de gravata rajada azul e branco – uma graça! Não ficou claro se Madame perguntou o preço. Mandou embalar e voltou para o hotel com a compra debaixo do braço.

Jornalistas curiosos foram atrás de informações. E descobriram que o mimo adquirido por Madame custou a bagatela de 195 euros (cerca de R$ 1.100).

Ok, concordo que cada um gasta seu dinheiro como quer. Se Madame Da Silva não se importa de investir um patrimônio numa gravatinha de grife, o problema devia ser dela, não nosso.

Só que tem uma coisa. Se o distinto leitor entrar numa boutique Zegna e comprar uma gravata de mais de mil reais, a notícia não vai sair nos jornais. Agora, quando se é a primeira-dama do Brasil, é diferente. Todo gesto, toda palavra, todo ato é escrutado, analisado, pesado, medido e… publicado. Assim como o presidente deveria tomar mais cuidado com suas declarações, a primeira-dama deveria prestar mais atenção a certos gastos ostentatórios.

Em primeiro lugar, há o perigo de muita gente pensar que a compra foi debitada no cartão corporativo, ou seja, que o gasto foi pra conta do povão. Essa ideia é evidentemente falsa. Mas pega mal.

Em seguida, tem o alcance do gesto. Madame Da Silva, que é socióloga, está sem dúvida sabendo que 33 milhões de conterrâneos passam fome. Esse contingente foi confirmado por seu marido em fala recente. Convenhamos: quem compartilha com o marido o topo da escala de poder não deveria dar demonstração pública de esbanjar dinheiro num país em que um em cada sete habitantes sofre cronicamente o flagelo da fome. Pega muito mal.

De uma próxima vez, não custa encarregar um assessor de ir até a loja e trazer a caixinha. A hipocrisia será a mesma, mas ninguém vai ficar sabendo.

As falas do Lula viajante

Journal de Montréal
“A propaganda nauseante e escandalosa do Brasil”

José Horta Manzano

É sabido que chefes de Estado ou de governo, quando viajam para fora do país, correm risco de fazer pronunciamentos embaraçantes. Já aconteceu com o papa, o presidente da França, o presidente dos EUA, o primeiro-ministro da Itália. Ninguém consegue explicar as razões desse fenômeno curioso. Talvez seja porque os líderes se sentem mais à vontade, sem a pressão da mídia do país natal.

Em sua recente viagem à China com passagem pelo Oriente Médio, Lula mostrou que a regra continua válida – ele também deu declarações controversas. No Brasil, país em que Lula foi eleito sobretudo para afastar Bolsonaro, suas falas estranhas não ecoaram dramaticamente. Pelo menos, Lula não destratou soberanos nem fez comício em dia de enterro.

Ele tratou de Rússia, Ucrânia, China, G20 e G7, temas que não frequentam o dia a dia do brasileiro. Ucrânia e os países visitados por Lula nos parecem distantes, exóticos, do outro lado do mundo, fora da realidade brasileira. G7 e G20, então, são noções abstratas, que não reverberam em nossa mente.

No entanto, em lugares do mundo em que a invasão da Ucrânia pelos russos é vista como ameaça global, as falas de Luiz Inácio repercutiram. Lula é personagem conhecido e admirado por muita gente. Suas declarações, que no Brasil passaram quase batidas, representam um golpe em seu prestígio internacional.

Os comentários que tenho lido e ouvido vão neste sentido: “Puxa, eu tinha grande simpatia por Lula, mas fiquei chocado com o que ele disse sobre a guerra. Ele caiu muito na minha estima!”.

O editorial do jornal suíço Le Temps desta segunda-feira relembra que a eleição de Lula foi um alívio para os que torciam pela democracia no Brasil. Conta ainda que, em Pequim, nosso presidente defendeu a ideia de um “clube da paz”, conceito que parece razoável. Menos razoável, no entanto, é apontar o dedo para a Europa e os EUA, acusando-os de “alimentar a guerra”. Essa tirada assustou. A tijolada final chegou quando Lula garantiu que “compartilha a visão de mundo de Xi Jinping”.

Li também um artigo no canadense Journal de Montréal, desta mesma segunda-feira. Esse é mais categórico.

“O presidente brasileiro acaba de fazer declarações ultrajantes sobre a guerra na Ucrânia. Para ele, a responsabilidade pela guerra recai sobre a Ucrânia e a Rússia. Ele também acusa a Europa e os Estados Unidos de não fazerem nada para impedir a guerra. Cereja em cima do bolo, ele propõe a mediação do Brasil, junto com a China e os Emirados Árabes Unidos. Há um limite para tomar as pessoas por imbecis.”

E continua:

“Dizer que a Europa e os Estados Unidos não estão fazendo nada para parar a guerra é ecoar a propaganda russa, que gostaria que a Ucrânia deixasse de receber armas para ser conquistada mais rapidamente.”

E termina, veemente:

“Sugerir que ditaduras como as da China e dos Emirados Árabes sirvam de árbitro para um povo que busca liberdade e democracia é cínico e repugnante.”

Como se pode ver, as falas de Luiz Inácio viajando podem parecer blá-blá-blá no Brasil, mas no exterior o efeito é devastador. É pena que ele não consiga fechar a boca. Calado, poderia até tomar as mesmas iniciativas sem levantar esse auê internacional.

Geopolítica segundo Lula

José Horta Manzano

Geopolítica, francamente, não é o forte de Luiz Inácio. Ele tem razão quando percebe que o caminho para transformar o Brasil de país grande em grande país passa obrigatoriamente pelo reconhecimento que as grandes nações nos dedicam. Seu diagnóstico é acertado; o problema é como chegar lá.

Uma forte agenda de encontros com dirigentes estrangeiros, tanto no exterior quanto em Brasília, é um bom passo. Nesse particular, Lula está se saindo bem. Já esteve na Argentina, em Portugal, nos EUA, na China, nos Emirados. Cada aperto de mão é mais um caco recolado nas relações que o presidente anterior tinha estilhaçado. Ponto para Lula, que está no caminho certo.

O presidente quer mostrar que o Brasil já está grandinho e maduro para sentar-se à mesa dos grandes e participar da governança mundial, com carteitinha de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. A ideia é excelente. De fato, se for atendida, essa reivindicação só poderá melhorar a visibilidade do Brasil.

O que importa é mostrar que amadurecemos e que nos tornamos um país sério e responsável. Nesse ponto, a visceral detestação que Lula guarda para com os EUA lhe está sendo má conselheira. As caneladas públicas que tem dado em Tio Sam ao longo dessa viagem à China indicam que ele está levando perigosamente o Brasil a uma troca de idolatrias: abandona-se a antiga veneração a Washington e dá-se início à adoração à China. Nesse ponto, Lula está exagerando sem necessidade.

Assinar acordos e protocolos com o gigante asiático é importante. O Brasil não pode ignorar seu principal parceiro comercial. Só que as caneladas nos EUA sobram. Não havia razão para dizer que “Ninguém vai proibir o Brasil de aprimorar sua relação com a China”. Ficou esquisito. Pareceu brado de independência de país oprimido ou desabafo de adolescente: “Agora ninguém manda mais em mim!”. É o tipo de recado inútil, uma flechada em Washington sem nenhum benefício para nós.

Lula gostaria que fosse aceita sua proposta de formar um “clube da paz” para intermediar o fim da guerra da Ucrânia. Quem é que não aplaude a ideia? Só que falar é fácil, pôr o projeto em prática é que são elas. Mas uma coisa é certa: se o Brasil pretende sentar entre os dois beligerantes para tentar apaziguá-los, o melhor será manter atitude e comportamento neutro, sem demonstrar simpatia nem antipatia por nenhum dos lados. Não é o que Lula tem feito.

Apesar de convidado pessoal e publicamente por Volodímir Zelenski para visitar a Ucrânia, Lula não marcou prazo para respirar os ares de Kiev. No entanto, está recebendo em Brasília, esta semana, o inarredável Serguêi Lavrôv, chanceler russo há mais de 20 anos.

Luiz Inácio já disse que atacar a Ucrânia foi um “erro histórico de Putin”, declaração que não deve ter caído bem no ouvido do ditador russo. Chegou a tratar Putin de “presidente”, enquanto reservou um desdenhoso “o Zelenski” para o presidente ucraniano – desenvoltura que não deve ter sido apreciada “pelo” Zelenski. Na mesma frase, afirmou que ambos os lados são culpados pela guerra, opinião que deve ter desagradado a ambos.

Em suma, quem é que vai aceitar um intermediário que, antes mesmo do início das tratativas, já andou dando cotovelada nos dois adversários?

A viagem de Lavrôv
Na viagem que faz às Américas esta semana, o inoxidável Serguêi Lavrôv, ministro das Relações Exteriores de Putin, visita não somente o Brasil, mas também: Venezuela, Cuba e Nicarágua. O Brasil de Lula se presta à jogada de Moscou para humilhar os EUA.

G7
Lula desdenhou o G7, um clube sem importância a seus olhos. Na mesma frase, reverenciou o G20, esse sim, clube respeitável. Esse é o tipo de observação sem propósito, que não ajuda ninguém mas que pode trazer dissabores. Os integrantes do G7 hão de ter apreciado. Luiz Inácio deveria se abster de cuspir no prato do qual amanhã pode ter de comer.

Huawei
Luiz Inácio fez questão de visitar Huawei, gigante chinesa que fabrica equipamento de telecomunicação. Por receio de serem espionados em benefício de Pequim, meia dúzia de países desenvolvidos – entre os quais os EUA, a Inglaterra, o Canadá e a Itália – já baniram compras dessa firma. Outras nações pensam em aderir ao boicote. Tirando a faceta bravateira, não vejo razão para justificar a visita de Lula a essa firma. É recomendável ser prudente antes de fazer negócio com eles.

Ingratidão
Quanto ao descaso que vem demonstrando pelos EUA, Lula está pecando por ingratidão. Joe Biden, o sorridente velhinho que preside os States, foi o primeiro dirigente estrangeiro a cumprimentar efusivamente Lula pela vitória de outubro, puxando assim a fila de dezenas de cumprimentos internacionais. Nem que fosse só por isso, nosso presidente poderia ter evitado dar cutucões inúteis nos EUA.

O tapete vermelho

José Horta Manzano

O sistema de governo chinês – fechado, autoritário, repressivo, implacável – há de ser oprimente para os cidadãos do país, tanto para gente comum quanto para os graduados do regime, que temem a todo momento cair em desgraça. Para o brasileiro, é inimaginável viver sob um regime assim. Nem nos tempos mais duros de nossa ditadura, o rolo compressor do governo militar chegou a esmagar a população com o rigor e o método com que a ditadura do partido único faz com os chineses.

Assim mesmo, toda moeda tem duas faces. Apesar do hermetismo das decisões da cúpula dirigente chinesa, o planejamento do futuro do país continua em marcha. Com dança de cadeiras ou sem elas, os dirigentes seguem rigorosamente a política de Estado traçada para as próximas décadas. Estabelecido a longo prazo e cumprido com precisão metódica, é esse planejamento que permitiu à China, nos últimos 30 anos, galgar posições em numerosas áreas.

Lula está na China, acompanhado por caudalosa comitiva (que lotou dois Airbus). À sua chegada, o tapete vermelho não foi estendido só na pista: subiu as escadas até a porta do Aerolula. Esse afago é reservado aos grandes visitantes.

Analistas estrangeiros enxergam a visita de Lula como uma jogada de mestre no tabuleiro mundial, com o objetivo de valorizar o Brasil na disputa entre a China e os EUA. Pode até ser. Primeiro, precisa ver se Lula entendeu isso ou se está só sendo traído por seu antiamericanismo.

Estamos diante de um caso curioso. Não acredito que nosso presidente morra de amores por Pequim. Durante seus dois primeiros mandatos, Lula mostrou que, em matéria de política internacional, seu interesse se concentra na América Latina. Fora das Américas, o mundo lhe parece longínquo e de parco interesse. É minha análise pessoal.

A birra do ex-metalúrgico é com os Estados Unidos. Desde a juventude, Lula encasquetou que sua missão era tentar se opor à potência e à interferência dos americanos (de olhos azuis, lembra?), tanto em nossas vizinhanças quanto no resto do planeta. O mundo mudou muito nesse meio século, mas Lula persiste.

Presidente de novo, Lula retomou a cartilha antiga. Começou afirmando que, na invasão da Ucrânia pelos russos, os dois lados eram culpados. Curiosa acusação para alguém que pretende ser o mediador do conflito. Na pressa de mostrar a língua aos EUA, acabou desagradando a russos e ucranianos.

Pequim dispõe de bons analistas de geopolítica. A cúpula do país entendeu que nosso país é uma peça importante no xadrez mundial, e que convém afagar e conquistar como aliado. Por seu lado, Luiz Inácio também entendeu que a ascensão da China no panorama internacional desbancou qualquer pretendente ao pódio. Nem Rússia, nem Índia, nem Europa. Os dois grandes são agora os Estados Unidos e a China.

Para os dirigentes chineses, conquistar o Brasil não é tarefa inatingível. Um tapete vermelho bem fofo e uma recepção sorridente e calorosa fazem milagres – não precisa nem colar de diamantes. Quanto a Lula, entendeu que Pequim será excelente aliado em sua cruzada antiamericanista.

Temos, assim, o casamento da fome com a vontade de comer. Eu te ajudo, você me ajuda. Não é uma beleza, este mundo?