Maracanazo

“Maracanazo” – 16 jul° 1950

José Horta Manzano

Señor Ghiggia
O dia 16 de julho tem lugar garantido na História do Brasil. Em 1950, marcou a derrota da seleção brasileira de futebol. Fosse um jogo amistoso, o 2 x 1 em favor do Uruguai teria sido derrota banal, logo esquecida por todos. O drama é que era uma final de Copa do Mundo e, pra mal dos pecados, jogada no Maracanã, com 200.000 espectadores espremidos nas arquibancadas. Nosso país perdeu o caneco.

Em 2015, sessenta e cinco anos depois do jogo, señor Alcides Ghiggia, autor do decisivo gol uruguaio, faleceu. Exatamente num 16 de julho. Durante 64 anos, tinha sido chamado de “algoz” do Brasil. Mais recentemente, um certo 7 x 1 relativizou as coisas. Señor Ghiggia pode descansar em paz.

Maracanazo
Tenho ouvido ultimamente que o Brasil perdeu a Copa de 1950 “no episódio que ficou conhecido como Maracanazo”. A afirmação não é verdadeira. Nunca jamais se utilizou, no Brasil, essa expressão para qualificar o desastre. Foi criação platense e por lá ficou.

A primeira vez que a palavra apareceu no Estadão, jornal brasileiro de referência, foi em 1977, vinte e sete anos depois do jogo. E, assim mesmo, como citação de publicação estrangeira.

Na verdade, foi o traumatizante 7 x 1 que, apelidado de Mineiraço, ressuscitou a expressão Maracanazo (ou Maracanaço) e a espalhou do Oiapoque ao Chuí.

A nova camisa da Seleção: vermelho, paixão e o fim da seca?

José Horta Manzano

Uma polêmica desnecessária tomou conta das redes com o anúncio da nova camisa reserva da Seleção Brasileira. A cor? Vermelho. A reação? Uma enxurrada de interpretações políticas atribuindo ao tom escarlate significados ideológicos que beiram a comédia. Politizar a cor de um uniforme de futebol é comovente demonstração de estupidez.

A camisa, em si, é um símbolo. E o vermelho, longe de qualquer conotação política, representa exatamente aquilo que tem faltado à Seleção nos últimos tempos: alegria, vivacidade e paixão. Uma cor vibrante, que evoca energia e ardor, atributos essenciais para uma equipe que busca o sucesso.

É preciso lembrar que muitos países, alguns de longa tradição futebolística, usam, no uniforme, cor que não aparece em sua bandeira. O azul da Itália, o laranja da Holanda, o amarelo da Austrália e o azul do Japão são exemplos. A escolha da cor de um uniforme de futebol é uma decisão estética e mercadológica, que busca identidade e impacto visual, não uma declaração política.

O vermelho costuma carregar simbolismos históricos e culturais, mas reduzi-lo a uma única interpretação política é ignorar a riqueza de significados que a cor pode representar. No contexto do futebol, o vermelho grita paixão, força, e a busca incansável pela vitória. É uma cor que exalta a torcida, energiza os jogadores e impõe respeito aos adversários.

Após 24 anos sem conquistar a Copa do Mundo, a Seleção precisa resgatar a alegria e a garra que a consagraram no passado. Quem sabe essa nova camisa, com sua cor vibrante e carregada de energia positiva, anuncie o despertar de que a equipe precisa. Quem sabe o vermelho, tão associado à paixão e à luta, seja o ingrediente que faltava para que a Seleção volte a erguer o caneco.

Mais do que uma simples camisa, é uma esperança renovada, uma busca pelo resgate da identidade e da glória de nosso futebol. Que o vermelho, então, não apenas seja uma cor, mas assinale o retorno triunfal do Brasil ao topo do futebol mundial.

Trapaça

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

José Horta Manzano

Futebolista de um time do Rio de Janeiro convocou família e amigos para organizarem, juntos, uma fraude. O objetivo era forjar um rápido enriquecimento ilícito para a numerosa parentada. Apostou-se na certeza de recebimento de cartão amarelo pelo futebolista. Tanto o rapaz fez, que conseguiu chamar a atenção do árbitro. E levou o tal cartão, fazendo feliz a família toda, cada um embolsando o prêmio correspondente a sua aposta.

Numa primeira apreciação do caso, o promotor havia concluído que essa fraude é comum no futebol brasileiro e que não valia a pena repreender.

Sem ser especialista em futebol (e muito menos em aposta esportiva), discordo do promotor. Não me parece normal que um crime, por ser cometido frequentemente e por muitos indivíduos, seja menos grave. Não estamos aqui falando de futebol de várzea, mas de jogo profissional.

Com a prática da fraude, os infratores estão:

  • passando a perna em outros cidadãos que apostaram certinho, sem embuste;
  • frustrando a veracidade daquilo que um dia foi “jogo bonito” e que hoje está mais para “me engana que eu gosto”;
  • incentivando colegas futebolistas, principalmente os novatos, a seguir o mesmo caminho e perpetuar a trapaça como modo de enriquecimento pessoal.

Longe do entendimento do mencionado promotor, entendo que cidadãos como o ora indiciado jogador devem ser punidos com rigor, incluindo algumas semanas de cadeia firme. Entre as ferramentas da prevenção, um exemplo de firmeza das instituições vale mais que mil ameaças.

  • Crime em bando organizado.
  • Crime contra a transparência do esporte nacional.
  • Fraude visando a lograr o grande público.

Vejam que, para tipificar o “malfeito”, denominações não faltam.

Família que trapaceia unida permanece unida? Tremai, famílias trapaceiras, tremai!

O quarteto final

José Horta Manzano

Nestes últimos dias de Copa, as ruas de Doha estão se esvaziando. À medida que seleções vão ficando à beira da estrada, os torcedores desapontados vão deixando o país, sem ânimo de assistir aos últimos jogos. Para o torcedor entusiasmado, quando seu time nacional se vai, o campeonato perde a graça.

É verdade, nós também demos adeus ao verde-amarelo. Mas a Terra não parou de girar. O espetáculo prossegue com embates entre os quatro sobreviventes, dentre os quais sairá o campeão do mundo. Que fazer agora? Torcer pra que todos percam? Não faz sentido.

Por minha parte, sigo o raciocínio seguinte. As quatro seleções remanescentes são uma fotografia representativa da distribuição geográfica do futebol atual: sobraram duas equipes europeias, uma sul-americana e uma africana.

A opulenta Liga Europeia, com 53 países membros, tem direito a duas vagas entre os quatro finalistas. O continente americano também merece mandar um representante: desta vez, foi a Argentina. A presença da seleção marroquina simboliza a periferia do futebol mundial, excluída a Europa e a América do Sul; é uma periferia em plena ascensão.

Acho que não vale a pena dar de ombros e desligar a televisão justo agora que se pode apreciar o espetáculo de modo desapaixonado. Por minha parte, torço para a Argentina, último representante de nossa região. Se ganhar, ganhou; se não, tanto faz. Vamos aproveitar, que ainda temos quatro jogos até domingo.

Os golos

José Horta Manzano

Ontem à noite passavam na televisão um jogo de futebol entre Portugal e a Suíça. Com evidente motivação comercial, os cartolas não param de inventar campeonatos. Toda hora tem um novo. Esse de agora se chama Liga das Nações.

Não acompanho como torcedor de verdade. Dou uma espiadinha quando imagino que vai ser um belo jogo. Só que começou a ficar tarde e desliguei a tevê. Hoje de manhã, curioso pra saber o resultado, fui dar uma olhada na imprensa portuguesa. Nossos amigos lusos estão sorridentes: a seleção (deles) ganhou da Suíça por 4 a 0.

Talvez o distinto leitor já tenha lido textos lusos. Costumo dizer que já vêm com sotaque. Não se passam duas linhas sem a gente tropeçar numa palavra. Com frequência, desconhecemos o significado. Pra descobrir, temos de fazer esforço mental ou apelar pro dicionário.

Acho estimulante. Veja algumas frases que colhi hoje na rubrica esportiva da imprensa lusa.

“Depois de ter estado na origem do primeiro tento, o avançado do Manchester United bisou frente à Suíça.”

Tento. Termo pouco usado no Brasil, é da família de talento. Na Roma antiga, talento era uma moeda. No texto é sinônimo de gol.

Avançado. Nós diríamos centroavante.

Bisar. Não usamos com frequência. Significa fazer algo de novo, repetir. Vem de bis.

“O médio do Betis inaugurou o marcador aos 15 minutos, na recarga a uma defesa incompleta do guarda-redes helvético, na sequência de um livre direto de Ronaldo.”

Médio. É o jogador de meio de campo, que dizemos meio-campo ou meio-campista.

Recarga. Para nós, é o rebote.

Guarda-redes. Não usamos essa simpática expressão, mas ela é autoexplicativa. Quem guarda as redes é o goleiro.

Na sequência de. Raramente usada no Brasil, a expressão é importada diretamente da França. É decalque de “à la suite de”. Nós diríamos “como resultado de”, “em decorrência de”, “dando sequência a” ou expressão similar.

Um livre direto. Esse é mais misterioso. Eu sei o que é porque ainda estava assistindo ao jogo quando aconteceu. Um livre direto é uma cobrança de falta em que há possibilidade de mandar a bola por cima da barreira e fazer o gol diretamente. Ontem, Cristiano Ronaldo executou um livre direto, mas o guarda-redes suíço espalmou. A bola quicou. Na recarga, um jogador da equipa lusa chutou e fez o golo.

“Cristiano Ronaldo aumentou para 117 o seu recorde de golos pela seleção, ao bisar na receção à Suíça (4-0).”

Golo. Como é sabido, os portugueses não dizem gol, mas golo.

Receção. Essa me deu dor de cabeça. Estou acostumado a ler sobre recessão, mas descartei por achar que não é exatamente termo futebolístico. Já ia apanhar o dicionário quando veio o estalo. É uma divergência de grafia. Fosse um jornal brasileiro, não estaria escrito receção, mas… recepção! A Suíça era o time visitante, portanto os portugueses receberam os estrangeiros. Fizeram uma recepção.

Essa grafia anômala resulta do famigerado Acordo Ortográfico de 1990, que determinou que letras não pronunciadas deixariam de ser escritas. No Brasil, pronunciamos o P de recepção, por isso ele continua sendo grafado. Já em Portugal, a pronúncia soa a nossos ouvidos como “rr’-cé-ção”. A regra foi impiedosa: baniu o P.

É mais uma mostra dos problemas criados por uma absurda reforma meia-sola, que só serviu para atrapalhar. Deu canseira a muitos e lucro a uns poucos. Por mim, teria ido pro lixo.

Durante o jogo, o presidente da República Portuguesa não estava grudado na tela da tevê. Nem andando de jet ski, nem fazendo motociata. Encontrava-se na Festa do Livro em Belém, manifestação que ele mesmo criou em 2016 e que reúne anualmente editoras, livreiros e autores para diversas conferências e sessões de autógrafos. É como nossa Flip de Paraty.

O dirigente foi efusivo ao cumprimentar a equipa. Disse que “foram quatro golos, podiam ter sido oito…”. E justificou o entusiasmo: “Termos muitos atletas a competir nos melhores clubes do mundo dá-lhes uma forma espetacular”.

Falou como a gente espera que um presidente decente fale. Nada a ver com o esfarrapado que nos dirige. Pô!

Uma lavada

José Horta Manzano

Pelo campeonato da Liga dos Campeões, enfrentaram-se ontem o Bayern (de Munique, Alemanha) e o Barça (de Barcelona, Espanha), dois times de primeira grandeza. A partida teminou com um inacreditável placar de várzea: 8 x 2 em favor dos alemães. Até parece notícia falsa.

O glorioso Barça, que hoje tem Messi, Piqué e Suárez, já abrigou astros como Cristiano Ronaldo e Neymar num passado bem recente. Ninguém imaginava que pudesse levar uma surra desse tamanho.

Às vezes, o destino parece irônico. O carioca Philippe Coutinho, autor de dois gols em favor do Bayern, na realidade é jogador no Barça; está apenas ‘emprestado’ ao time de Munique.

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

Do lado alemão, Lewandowski também marcou um gol. Falo do Lewandowski deles, não do nosso. Que fique bem claro. Quarenta anos separam os dois.

Muitos comentaristas lembraram de um tristemente famoso 7 x 1, o ‘mineiraço’ imposto pelos alemães aos brasileiros na Copa de 2014.

Fica confirmado o dito popular francês:

«Le football est un sport qui se joue à onze. Et à la fin c’est les allemands qui gagnent.»

«Futebol é um esporte de onze jogadores. E, no final, são os alemães que ganham.»

E estamos combinados.

A regra da não cuspida

José Horta Manzano

Precisou uma epidemia varrer o globo para os dirigentes do futebol acordarem para uma realidade esquisita: jogador é o único esportista que cospe no campo em que está jogando (ou que gospe, como se ouve às vezes na minha terra). Cospe na relva em que ele mesmo vai rolar mais tarde, ou porque se machucou, ou porque está feliz com um gol.

Em virtude do alastramento da covid-19, a CBF está editando novas regras de decoro destinadas aos jogadores. Entre elas, está a recomendação de cortar as unhas. E eu que não sabia que precisava regra escrita pra animar alguém a cortar as unhas! Aparece também a proibição da cusparada. “Não cuspir no chão” – diz a nova regra. Sabendo-se que o que não é proibido é permitido, deduz-se que, na mão, pode cuspir.

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

Por que é que jogador de futebol cospe no gramado? Altos e baixos, escuros e claros, ocidentais e orientais, todos cospem. Às vezes se vê até algum que ‒ desculpem-me os estômagos mais sensíveis ‒ raspa a garganta lá no fundo e escarra bonito.

Alguém já viu jogador de basquete cuspir? Ou jogador de vôlei? Ou tenista? Tentem imaginar Roger Federer acertando o gramado de Wimbledon ou o saibro de Roland Garros com uma cusparada das boas.

A regra da não cuspida foi prevista pra durar enquanto a epidemia não se for. É medida provisória que podia bem ser efetivada antes que caduque.

O jogo

José Horta Manzano

Você sabia?

Imagine o distinto leitor que a Seleção viaje a um país estrangeiro pra enfrentar a seleção local num jogo classificatório de uma copa qualquer. Chega o dia da partida. Estádio repleto, bandeiras desfraldadas, apitos, risos, gritos, torcidas organizadas, ambiente de festa. E de tensão.

Antes do apito inicial, é hora dos hinos. Pelo alto-falante, vem a voz do lucutor: “And now, ladies and gentlemen, please stand for the national anthem of Brazil – E agora, senhoras e senhores, queiram levantar-se para o hino nacional brasileiro”. Os jogadores perfilados, rosto sério, mão no coração, esperam os acordes da introdução. Eis senão quando… soa o hino argentino!

Estupefação geral. Os jogadores se entreolham sem entender. Ninguém sorri, ninguém faz cara feia, todos arregalam os olhos. Na arquibancada, os torcedores brasileiros que acompanharam a Seleção vaiam com estrondo. O hino continua irritantemente a tocar. Vai até o fim. Ninguém aplaude. Em seguida, soa o hino dos donos da casa. O estádio explode de contentamento.

by Kopelnitsky, desenhista ucraniano-americano

O árbitro faz menção de dar início à partida, mas a equipe visitante se nega a jogar. “Não vamos jogar enquanto não tocarem nosso hino!” Os minutos passam sem que os organizadores se deem conta do que está acontecendo. Por que não querem jogar? Demorou até entenderem que tinham tocado o hino errado. E demorou mais ainda até encontrarem o hino certo.

Chega mais uma vez a ordem pra ouvir os hinos. Os jogadores voltam a perfilar-se. “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas” – desta vez, foi. Quando a coisa estava pra entrar nos eixos, a diretoria do estádio decidiu jogar flores na equipe visitante. Ecoa de novo a voz tonitruante do locutor: “Damos as boas-vindas à seleção da Bolívia!”. No alarido do ambiente, poucos se deram conta do disparate. Mas os jornais deram no dia seguinte.

Tem cara de piada, não é? Pois fique sabendo que aconteceu de verdade. Foi ontem à noite, 8 de setembro. Na campanha de classificação para a Eurocopa 2020, a França recebeu a Albânia para um jogo no imponente Stade de France, nas cercanias de Paris. Os fatos se desenrolaram como contei. Em vez do hino albanês, ouviu-se o hino de Andorra – que, aliás, quase ninguém conhecia. E o locutor deu boas-vindas à seleção da… Armênia.

O time francês acabou vencendo a Albânia por 4 a 1. Não se sabe até que ponto os incidentes do início desestabilizaram os visitantes. Compungida, a federação francesa apresentou humilde pedido de desculpa.

Loop, segundo tempo

Eduardo Affonso (*)

Com o empate no tempo regulamentar e na prorrogação, o jogo entre Lula F.C. e o Clube de Regatas L.J. vai para a disputa nos pênaltis.

O goleiro Sérgio Fernando, titular absoluto da L.J. se posiciona. Quem vai bater é Cristiano.

Lá vem Cristiano e… Fora! Cristiano chuta para fora, senhores!

Cristiano reclama com o juiz, diz que o apito tirou sua concentração e pede para bater de novo.

O juiz concede, e lá vai Cristiano – agora sem o apito.

Sérgio Fernando esfrega as mãos, Cristiano corre, dá uma paradinha e… bola na trave!

A torcida da L.J. comemora, mas a comissão técnica do L.F.C. exige que a cobrança seja feita novamente, porque a paradinha de Cristiano atrapalhou sua performance.

O árbitro acata, e lá vai Cristiano em sua terceira tentativa. Toma distância, dá uma bicuda e… Sérgio Fernando espalma com categoria.

Parece que… não, Cristiano exige bater outra vez porque Sérgio Fernando teria adivinhado o ângulo e defendido por pura sorte. Exige uma melhor de três.

O juiz informa que essa já foi a terceira cobrança perdida, mas Cristiano e a torcida da L.F.C. não se dão por vencidos. Apesar de ser uma partida do campeonato local, ameaçam recorrer à à Conmebol e à Fifa.

Nova cobrança é autorizada. Cristiano toma distância, enche o pé, mas Sérgio Fernando é um muro no gol e agarra.

Fim de jogo, amigos do esporte! L.J. é a camp… Não, ainda não. A L.F.C. exige que o árbitro consulte o VAR, porque Sérgio Fernando teria dado um passo para trás e a bola teria ultrapassado a linha.

O árbitro consulta o vídeo. Vamos aguardar seu veredito.

Volta o árbitro, e informa que apenas o calcanhar do goleiro Sérgio Fenando tocou a linha. A bola não entrou.

Cristiano e a comissão técnica cercam o juiz, argumentando que o árbitro de vídeo foi parcial, que a tecnologia não é confiável, que todo o campeonato deve ser anulado e o goleiro Sérgio Fernando suspenso.

Muita tensão no estádio, senhores, com a torcida do L.F.C. subindo no alambrado e ameaçando invadir o gramado.

A proposta apresentada pelos dirigentes do L.F.C. é que Cristiano continue batendo pênaltis indefinidamente, até a bola entrar. Enquanto isso não acontecer, a cobrança não terá validade.

Há um confronto generalizado nas arquibancadas, com as duas torcidas se engalfinhando. A PM se protege no fosso e pede reforços.

O técnico do L.F.C. tenta impugnar a bola, a grama, o tom de branco das linhas de marcação da grande área, a iluminação, a acústica e a localização do estádio, além de apresentar nudes do goleiro Sérgio Fernando, feitos com uma cam escondida no vestiário.

Sérgio Fernando aguarda o desenrolar dos acontecimentos encostado na trave e parece murmurar algo como “Om Mani Padme Hum” – ou “PQP MQGCDC”, segundo nossos especialistas em leitura labial.

Vão ser retomadas as cobranças. E, segundo as regras impostas pelo L.F.C, enquanto a bola não entrar, não vale.

Pode isso, Arnaldo?

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.

No Estádio Azteca

José Horta Manzano

No Brasil, a data passou praticamente em branco. Na Itália, o jornal La Sicilia, quotidiano fundado há 75 anos na ilha de mesmo nome, lembrou. De fato, este 21 de junho marcou o 49° aniversário de um dos mais bonitos jogos da história do futebol.

Foi quando o Brasil de Pelé, ao bater a Itália de Riva por 4 x 1 na final da Copa do Mundo de 1970, tornou-se proprietário definitivo da Taça Jules Rimet.

O dia em que o Brasil de Pelé maltratou a Itália de Riva

Aviso aos navegantes
O artigo traz até um link para um filminho de minuto e meio com os cinco gols da partida. Pra quem aprecia, vale a pena. O link é este aqui, ó.

Falam de nós – 28

José Horta Manzano

Neymar, jogador de futebol, é figurinha conhecida no mundo todo. Mais que os demais países, o Brasil e a França o consideram como alguém de casa. O Brasil, naturalmente, porque o moço nasceu e cresceu aqui. E a França, porque ele está contratado pelo time de Paris – que, de parisiense, tem cada vez menos, dado que é propriedade pessoal de um príncipe do Catar; mas isso não vem ao caso.

No Brasil e na França, as vicissitudes do turbulento rapaz têm ocupado lugar de destaque na mídia. O esbanjamento típico de novo-rico, como o deslumbrante solar em que ele vive nos arredores de Paris, encantam alguns, mas deixam muita gente irritada. A agressividade que o jovem demonstrou outro dia contra um torcedor não ajudou a melhorar sua imagem perante a opinião pública.

Essa história um tanto indecorosa do desentendimento entre ele e a moça mandada vir do Brasil para fins de namoro rápido anda dando pano pra mangas. Na minha visão pessoal, esse assunto é do foro íntimo dos dois amantes e deveria ser resolvido entre eles. Mas cada um dá às próprias mazelas o tratamento que lhe parece mais adequado.

by Moisés de Macedo Coutinho (1972-), desenhista paulista

Meio boquiaberta, a imprensa francesa tomou conhecimento de que, no caso do pretenso estupro, o presidente do Brasil apoia Neymar. Pátria dos direitos humanos, a França faz questão de repetir, a quem interessar possa, que respeita a presunção de inocência. Ninguém será considerado culpado antes de ser julgado e condenado. Daí o espanto geral ao ver que nosso mandatário-mor não só respalda o acusado, como também vai de visita ao hospital onde ele está internado e ainda tira selfie. O presidente escolheu seu campo antes mesmo de qualquer decisão da Justiça. No entender dele, seja o que tiver acontecido entre os pombinhos, a culpada é a moça. É uma aposta arriscada.

Pra quem não sabe direito o que caracteriza um político populista, aí está mais um elemento de informação. Repetindo o que Lula da Silva fez durante sua longa gestão, doutor Bolsonaro fatura em cima do futebolista brasileiro mais em voga. Até aí nada demais. O que ele não devia fazer é dar apoio ao acusado de um crime que ainda está em fase de investigação. Suponhamos que Neymar seja considerado culpado e acabe sendo condenado – como é que fica? Doutor Bolsonaro vai continuar apadrinhando um criminoso? A imprudência periga custar-lhe caro.

Eco na mídia francesa:
BFM – Canal de televisão
La Croix – Jornal impresso e online
Orange – Portal esportivo

Xô, urubu!

José Horta Manzano

Os franceses estão deslumbrados diante da possibilidade, cada dia mais real, de se tornarem campeões do mundo de futebol pela segunda vez. Mas não estão nada tranquilos.

Semana passada, tinham quase certeza de que, se chegassem à final, iam encontrar a Inglaterra, uma seleção que lhes parecia fácil de encarar. No entanto, deu Croácia, um time aguerrido. Estão engolindo em seco.

Pra complicar, a figura aziaga de Mister Mick Jagger, componente dos Rolling Stones, está ameaçando surgir no horizonte. Pé frio mundialmente reconhecido, o homem é um perigo!

A carreira de azarento de Mister Jagger é pontilhada de insucessos. Dos jovens anos do cantor, pouco se sabe. Certo é que, a partir da Copa do Mundo de 2010, ele nunca desmentiu a fama de beijo frio.

Nas oitavas de final daquele ano, torceu pra Inglaterra ‒ seu país ‒, que deu vexame ao perder de 4 a 1 para a Alemanha e ter de voltar pra casa. Dias depois, a convite da federação americana, assistiu ao encontro EUA x Gana, que terminou com a vitória do país africano por 2 a 1. Nas quartas de final, é enrolado numa bandeira brasileira que testemunhou a eliminação do Brasil diante da Holanda (1 x 2).

Em 2014, a aventura continuou. O homem tranquilizou os italianos ao prever que a Itália passaria tranquilamente às oitavas de final ‒ o país foi eliminado na fase de grupos. Avisou aos portugueses que levantariam a taça ‒ foram eliminados pela Espanha igualmente na fase de grupos. Mais enervante ainda foi a “força” que deu ao torcer pela Seleção no Mineirão naquele terrível 7 x 1.

Nesta Copa da Rússia, o cantor foi visto torcendo por sua Inglaterra quando ela foi derrotada pela Bélgica e perdeu toda esperança de ser campeã do mundo. Visto que ele continua deambulando pela Rússia, jornalistas franceses quiseram saber o que ele acha da final de domingo próximo. Quem vai ganhar? A resposta: «Acho que vai ser a França, mas ainda não tenho certeza».

De dedos cruzados, os franceses andam espalhando sal pela casa. Só não rezam novena porque não dá tempo. Te esconjuro!

Perguntar não ofende ‒ 5

José Horta Manzano

No embalo da Copa, revejo alguns comportamentos recorrentes que sempre me deixam perplexo. Eis alguns deles.

        • by Kopelnitsky, desenhista americano

          Por que é que jogador de futebol cospe no gramado? Altos e baixos, escuros e claros, ocidentais e orientais, todos cospem. Cheguei a ver um outro dia que ‒ desculpem-me os estômagos mais sensíveis ‒ raspou a garganta e escarrou. Alguém já viu jogador de basquete cuspir? Ou jogador de vôlei? Ou tenista? Tentem imaginar Roger Federer acertando o gramado de Wimbledon com uma cusparada das boas.

        • Por que é que tantos jogadores de futebol comemoram gol tirando a camisa? Atualmente, como tirar a camisa dá cartão amarelo, veem-se muitos deles ameaçar tirar a camisa para, logo em seguida, sustar o striptease. Mas a intenção é visível. De novo, pergunto: dá pra imaginar jogador de basquete tirando a camiseta a cada encaçapada?
        • Por que é que jogador de futebol reclama contra decisão do árbitro? Reparem, que é sistemático: a cada decisão, a parte desfavorecida parte pra cima do pobre juiz, uns parlamentando, outros até ameaçando. Não me recordo ter jamais visto árbitro voltar atrás na decisão. Por que a reclamação, então?
        • Por que é que a CBF protocolou recurso junto à Fifa reclamando da arbitragem do jogo do Brasil contra a Suíça? Que pretendem? Que a partida seja rejogada? Se reclamações como essa começassem a ser acatadas, jogo não terminaria nunca. Todos os campeonatos acabariam no tapetão. Esse tipo de reclamação, feito pra satisfazer a galeria, é totalmente estéril na realidade. É risível.

 

Tá no bolso!

José Horta Manzano

A carreira do meia francês Emmanuel Petit como jogador de futebol profissional se estende de 1989 a 2004. Foi uma das revelações da Copa do Mundo de 1998, a única que seu país venceu.

Emmanuel Petit (1970-), antigo meia francês

Quando da final daquela Copa, Petit marcou o terceiro gol da vitória da França sobre o Brasil por 3 a 0. Foi um gol simbólico: a estatística assinala que era o milésimo do país em partidas internacionais.

Hoje longe do gramado, Monsieur Petit reconverteu-se em consultor e comentarista esportivo para a tevê. Também publicou, em 2008, um livro de memórias intitulado À fleur de peau ‒ À flor da pele. No texto incisivo, o jogador acerta contas antigas.

Emmanuel Petit não se furtou a dar a público seus prognósticos para a Copa da Rússia. Na final, ele vê o Brasil enfrentar… a Bélgica! Surpreendente, não? Enfim, quem batalhou como profissional em campo foi ele, não nós.

clique para ampliar

Segundo as previsões, o Brasil bate o México nas oitavas para, em seguida, mandar a Inglaterra de volta pra casa nas quartas de final. Na semifinal, encontra Portugal e vence por 1 a 0. Na final, dá de cara com a Bélgica e, com vitória por 2 a 0, leva a taça.

São profecias de Monsieur Petit. O homem deve saber o que está dizendo.

Lewandowski

José Horta Manzano

Eu estava muito animado pra ver toda a equipe atuando, especialmente o Lewandowski, sempre excelente e certeiro em sua função.

No começo dos embates, o conjunto até que desempenhava bem. Parecia que o resultado da peleja ia ser satisfatório.

No entanto, à medida que o tempo foi passando, o trabalho de cada um se arrastou, diminuiu de intensidade. Lewandowski, pouco a pouco, murchou e decepcionou. No final, não deu outra: sua turma perdeu por 2 x 1.

Para que fique bem claro: falo aqui de Robert Lewandowski, futebolista de origem polonesa, que atua no Bayern Munique. Referi-me ao encontro entre Bayern e Real Madrid ocorrido ontem.

Não é, portanto, o Lewandowski nosso, mas o deles. O nosso não decepciona nunca, não falha nunca. Sua atuação é totalmente previsível.

Apocalipse

José Horta Manzano

«Apocalisse! ‒ Apocalipse!», «Vergogna! ‒ Vergonha!», «Fuori tutti! ‒ Fora, todos!», «Delusione! ‒ Desilusão!», «Fine! ‒ É o fim!». Essas são algumas das manchetes da imprensa italiana desta manhã de terça-feira. Sem conseguir vencer uma inexpressiva Suécia, os italianos estão privados de Copa do Mundo. Na península, a eliminação da seleção nacional de futebol fez o efeito de um terremoto. Desde que conquistou a Copa do Mundo por duas vezes seguidas, nos anos 1930, a Itália nunca tinha deixado de participar da fase final do torneio. A única exceção foi em 1958, um acidente de percurso já quase esquecido.

by Guillermo Mordillo Menéndez (1932-), desenhista argentino

A perspectiva de não poder estar na Rússia em 2018 é um drama nacional. Para ter uma ideia, basta o distinto leitor imaginar que o Brasil estivesse na mesma situação. Do Oiapoque ao Chuí, a catástrofe chocaria mais que mensalão e petrolão somados. Ou não? Pois é o que estão sentindo os italianos neste momento.

Com todo o respeito que se deve ao esforçado time da Suécia, que superou ‒ sem grande talento, é verdade ‒ a «Squadra Azzurra», a ausência dos italianos na Rússia tira parte do brilho da competição. Copa do Mundo que se preze tem de contar com Brasil, Argentina, Alemanha e Itália. O resto é o resto. A ausência de um desses quatro transforma o torneio em cão de três patas.

A par do baque emocional, a perda financeira é considerável. Estatísticas mostram que ganhar o Campeonato do Mundo é favorável aos dinheiros da nação. Senão, vejamos. Em 1982, o PIB italiano tinha crescido 0,7%. Na sequência da vitória na Copa, o ano seguinte registrou aumento de 1,4%. O fenômeno se repetiu anos mais tarde. Em 2006, o PIB do país tinha crescido 2,2%. Em seguida à vitória na Copa, o ano seguinte registrou aumento de 4,1%.

mordillo-3

by Guillermo Mordillo Menéndez (1932-), desenhista argentino

A perda vai mais longe. A Fifa paga a todas as seleções participantes da Copa a quantia de 9,5 milhões de euros, independentemente de resultados. O campeão do torneio leva 38,5 milhões. Os patrocinadores da «squadra» certamente hesitarão na hora de renovar contrato, o que privará a federação italiana de dezenas de milhões.

Os direitos de retransmissão dos jogos diminuirão drasticamente, visto o desinteresse do público. Apostas esportivas também vão se ressentir, resultando em menor recolhimento de impostos. Por baixo, estima-se que a não participação da Itália na Copa ocasione perda direta de 100 milhões de euros, quantia considerável. Sem contar o abatimento dos torcedores, que tende a provocar diminuição da produtividade.

Dessa, o Brasil escapou. Estaremos na Rússia em 2018. Resta torcer para que a corrupção de proporções bíblicas que nos castiga e o comportamento errático e inepto de nossos dirigentes não continuem estragando a festa.

A língua falada por cada um – 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Se é verdade que os esquimós dispõem de mais de uma dezena de palavras diferentes para se referir à neve por simples questão de sobrevivência, que expressões frequentam mais regularmente o linguajar cotidiano dos brasileiros?

Seria, sem dúvida, muito interessante e iluminador fazer uma pesquisa de âmbito nacional para descobrir isso. Tiradas as expressões mais regionais, deve haver alguma mais emblemática que desvele o cerne da alma tupiniquim.

Por coincidência, um sociólogo holandês, que foi meu chefe, decidiu fazer um levantamento por conta própria, ainda que desprovido de rigor científico, encantado que estava com as diferenças de atitude entre o cidadão holandês médio e o homem brasileiro do povo. Para meu supremo espanto, encontrou mais de vinte expressões usadas em todo o país, com uma surpreendente característica comum: todas começando com a palavra “tudo” e comunicando sensação de domínio e bem-estar.

Tudo bom, tudo bem, tudo sob controle, tudo azul, tudo em paz (ou tudo na santa paz), tudo em ordem, tudo nos conformes, tudo indo, tudo como dantes no quartel de Abrantes, tudo como manda o figurino, tudo de vento em popa, tudo junto e misturado, e por aí vai. Garanto que, se você pensar um pouquinho, vai conseguir contribuir e muito para o enriquecimento dessa lista.

O que isso revela sobre nós? Pessoalmente, acredito que duas coisas chamam mais a atenção: a primeira, a referência à nossa capacidade de generalização, expressa na abrangência do “tudo” (no sentido positivo) ou talvez, mais tristemente, à nossa incapacidade de discriminação, de separar o joio do trigo, o desejo de tapar o sol com peneira e não entrar em contato com o lado ruim da realidade nacional.

A segunda, nosso caráter hedônico, a crença ‒ ou ilusão ‒ de que somos um povo afeito à inventividade, à improvisação e de que o resultado sempre será satisfatório se o trabalho for feito com alma e com paixão. Aí estão o futebol, o carnaval e as novelas para provar que podemos ser imbatíveis se não forem impostas restrições externas a nossos talentos e prazeres naturais.

O jeitinho brasileiro, cantado em verso e prosa dentro de nossas fronteiras e olhado com desconfiança por estrangeiros, parece ser mesmo nosso farol máximo. Só elogiamos nossa própria capacidade de superação depois de fazermos referência implícita ou explícita à habilidade de contornar toda forma de obstáculos, venham de onde vierem. Inflação, desemprego, corrupção, violência, falta de assistência médica, falta de educação de qualidade, nada é grave o suficiente para detonar uma revolta popular radical. Ao mesmo tempo, todos os entraves são sentidos como motivação para exibirmos nosso jogo de cintura e criarmos soluções caseiras alternativas.

Não temos pressa também de encontrar respostas para os desafios nacionais. O país é grande, temos terras, gente e recursos naturais suficientes para recomeçar uma vez e outra, se necessário for. Por isso, podemos até mesmo nos dar ao luxo da procrastinação, de empurrar com a barriga o encontro de uma solução definitiva. Uma hora qualquer, tudo acaba entrando nos eixos, é só questão de paciência. No país das revoluções sem sangue, em que as leis pegam ou não pegam, em que as regras são alteradas da noite para o dia, depois de começado o jogo, tudo nos induz a lidar com as emergências como se elas tivessem apenas caráter provisório. Os conflitos podem ser resolvidos, dispersando populações inteiras de uma região para outra, afastando as favelas dos centros urbanos ou desenvolvendo atrações em bairros periféricos. Somos campeões na criação de cenários conotativos de paraíso tropical, ainda que saibamos que, em última instância, eles sejam só “para inglês ver”.

Até na religião se manifesta nossa secular sede de inclusão de “tudo” e de “todos”. O sincretismo é nosso jeito especial de multiplicar possíveis bases espirituais de apoio, de conciliar os interesses da elite e do povo, de dizer que a verdadeira felicidade não está neste plano. Para quê, então, esfalfar-se na lida diária, sob um sol inclemente, se o homem põe e Deus dispõe?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Falam de nós – 23

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Chamada jornal AS (Madrid), 10 ago 2017

Elefante branco
O portal espanhol As, especializado em esportes, repercute anúncio feito por senhor del Nero, presidente da Confederação Brasileira de Futebol. «Brasil no jugará en Maracaná porque está abandonado» ‒ é a declaração do cartola, referindo-se à partida Brasil x Chile prevista para outubro próximo.

Quando se leva em conta que, doze meses atrás, o estádio carioca fervilhava com numerosas competições dos Jogos Olímpicos, a notícia é de pasmar. Bastou um ano para o Maracanã se tornar um elefante branco, imprestável para acolher um simples jogo de futebol.

Quem são os culpados? Estão por aí, passeando, ricos, sorridentes, livres e soltos. A vergonha fica por nossa conta.

 

Chamada The Guardian (Londres), 10 ago 2017

Um problema esconde outro
O inglês The Guardian estampa a pergunta que está em todos os lábios: Por que, empacado nos distúrbios da Venezuela, o mundo ocidental ignora os problemas do Brasil?

E discorre longamente sobre as atribulações de doutor Temer, sem esquecer doutora Dilma, a corrupção, o Congresso, o Partido dos Trabalhadores, a taxa de desemprego difícil de explicar, o atraso do pagamento de salários de funcionários públicos. Um balaio de gatos.

É verdade que a desordem venezuelana, que é bem mais espetacular e que já coleciona quase 150 mortos, chama a atenção. Vista da Europa, ofusca o que possa estar acontecendo nos países vizinhos. Vista do Brasil, não é bem assim. Mas o Guardian não é obrigado a saber.

 

Chamada Ynetnews (Israel), 10 ago 2017

Terra de asilo
Cria fama e deita-te na cama, diz o provérbio. Muita gente, ao redor do mundo, continua acreditando no clichê: o Brasil é terra de asilo para bandidos. Às vezes, funciona. Para um certo senhor Elitzur, falhou.

O israelense, condenado a 20 anos de cadeia por um assassinato cometido em 2004 em seu país, conseguiu escapar para a Alemanha. É que, sendo duplo nacional, dispunha de passaporte germânico. De lá, embarcou para o Brasil, onde logrou viver anos tranquilos sob falsa identidade.

Em 2015, com ajuda da Interpol, a polícia brasileira acabou localizando o indivíduo em São Paulo. Levado à prisão, está há dois anos esperando a tramitação do processo de extradição.

Mostrando que não está lá unicamente para julgar políticos, o STF acaba de aceitar o pedido do Estado de Israel. O cidadão será extraditado dentro em breve para cumprir o resto da pena no país de origem. Parte da opinião pública israelense gostou.

 

Chamada South China Morning Post (Hong Kong), 11 ago 2017

Trump & Bolsonaro
A fama de doutor Bolsonaro já deu a volta ao mundo. O South China Morning Post, jornal publicado em Hong Kong, dá conta da ambição presidencial do deputado e o retrata como «Brazil’s Trump» ‒ o Trump brasileiro.

Dá, em seguida, um breve currículo do quase futuro candidato descrevendo-o como “versão brasileira” do nacionalismo e do conservadorismo que se espalham pelo mundo. Explica que é contrário ao aborto e aos direitos dos gays, mas favorável às armas e aos militares. Esclarece que os brasileiros, exaustos de conviver com a corrupção e com um Estado ausente, tendem a dar ouvidos à fala de doutor Bolsonaro.

Teremos um Trump tropical?

Salve a Seleção!

José Horta Manzano

Até não faz muito tempo, um jogo de futebol entre Brasil e Argentina, ainda que amistoso, ofuscaria todo e qualquer acontecimento e faria a manchete unânime da mídia. Dizem até as más línguas que, entre nossa Seleção e a dos hermanos, não existem partidas «amistosas», que são todas pra valer.

O mais recente encontro entre as duas, realizado hoje do outro lado do planeta, terminou há pouquinho. Curioso, vim conferir o resultado. Abro o Estadão online. Está lá uma manchete em letras enormes com o placar. Placar do jogo? Não, senhores. O placar do voto de Suas Excelências sobre o julgamento do pedido de cassação do presidente em exercício. Aliás, nem placar é, que não passa de projeção.

Dão nome, foto, idade e currículo da «seleção» de magistrados, exatamente como nas figurinhas de futebolistas que se colavam nos álbuns de antigamente. Exatamente como se descrevessem a expectativa de desempenho de cada jogador, dão a probabilidade de voto de cada um dos magistrados. A diferença mais notável entre os astros do gramado e os do tribunal é que aqueles são onze, enquanto estes não passam de sete. No mais, o entusiasmo pelo julgamento é o mesmo.

Vou descendo o elevador do jornal online à cata do resultado do jogo. Depois da manchete principal, vem uma notícia sobre a inflação de maio. Em seguida, nova manchetinha falando de acordos de leniência possíveis entre instituições financeiras e o Banco Central. Mais abaixo, uma chamada para os editoriais do dia informa que um deles discorre sobre o caráter pedagógico do julgamento.

Só depois disso é que aparece o resultado do jogo de futebol. Fico sabendo que o Brasil foi derrotado. Um pensamento me ocorre: se tivesse vencido, será que a notícia teria subido um ou dois degraus na ordem de apresentação do jornal? Nem Nostradamus tem resposta.

Bom, talvez seja eu o único a me surpreender com o que acabo de escrever. É possível que pareça natural a uma maioria de conterrâneos que a permanência ou não de doutor Temer na chefia do Executivo seja o assunto mais importante. Quanto a mim, não vejo com esses olhos, que fazer? Cada um enxerga através das próprias lentes.

Será que ‒ realmente ‒ faz alguma diferença que o presidente seja A, B ou C? Que Temer fique, que Temer caia ou que Temer balance, no fundo, que vantagem Maria leva? O que é que há de acontecer de tão importante para cada um de nós? Espremendo bem, analisando sem paixões, qualquer um chegará à mesma conclusão: nada vai mudar. É muito difícil, pra não dizer impossível, encontrar um homem público sem manchas no currículo. Qual deles nunca deu uma carteirada, nunca pegou carona num jatinho amigo, nunca empregou um parente, nunca inchou uma nota de despesa, nunca deixou a Casa no meio do expediente, nunca furou uma fila, nunca usou nenhum centavo de dinheiro público para fins pessoais?

Vai ser difícil encontrar a pérola rara, o imaculado, o honesto absoluto. Mas tem pior. Se, por um milagre do Espírito Santo, encontrassem o homem providencial, quem garante que fosse bom administrador? Honestidade e retidão não são necessariamente sinônimos de boa capacidade política e administrativa.

Em vez de insistir no «Fica, Temer!» ou no «Fora, Temer!», deveríamos pensar no «E depois de Temer?». Parlamentarismo? Voto distrital? Presidente da República desprovido de poder? Monarquia? O debate importante tem de passar por cima de querelas passageiras e enxergar mais longe. Pra frente, Brasil! Salve a Seleção!