Assimetria que já não surpreende

José Horta Manzano

Em meio à avalanche diária de informações, certos fatos passam despercebidos não por serem irrelevantes, mas por nos parecerem normais. A naturalização da anormalidade é um fenômeno perigoso, especialmente quando ela envolve a guerra. Um exemplo disso pode ser encontrado no recorte de jornal estampado logo aqui acima:


“Putin faz maior ataque aéreo e acelera nova ofensiva; Kiev alveja base.”


À primeira vista, parece apenas mais uma atualização sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia. Mas, num olhar mais atento, salta aos olhos uma assimetria sutil — e reveladora.

A frase começa com a menção direta ao nome de um líder: “Putin faz maior ataque aéreo”. Não se trata da Rússia, do Exército Russo ou de uma decisão coletiva. É Putin, em pessoa. A manchete atribui a ele, com todas as letras, a responsabilidade direta por uma ação militar de grande escala. Já no segundo trecho, “Kiev alveja base”, a linguagem muda. A capital ucraniana é mencionada de forma impessoal, quase geográfica. O nome de Zelenski, presidente da Ucrânia, sequer aparece.

Por que isso acontece? A resposta talvez seja mais simples — e mais incômoda — do que parece. O mundo já naturalizou a figura de Vladimir Putin como uma espécie de senhor absoluto da guerra, alguém que age conforme a própria vontade, sem freios internos ou externos. A guerra na Ucrânia, nesse imaginário coletivo, não é entre dois Estados, tampouco entre dois projetos políticos. É uma guerra iniciada e sustentada pela vontade de um único homem. E essa percepção está embutida até mesmo nas estruturas linguísticas mais banais, como a escolha de palavras em uma manchete de jornal.

Essa assimetria não é apenas jornalística — ela é política, simbólica e moral. Ao personalizar os ataques russos em Putin, a narrativa constrói uma figura de vilão clássico, quase caricatural. E ao impessoalizar os ataques ucranianos, retira de Zelenski a responsabilidade ativa no conflito, ainda que defensiva. Assim, Putin aparece como o agente solitário da destruição, enquanto Kiev (ou a Ucrânia) surge como vítima reativa, um ente quase sem rosto, que tenta apenas sobreviver.

Não se trata aqui de questionar quem é o agressor e quem é a vítima — para observadores de boa fé, a distinção é clara e óbvia. Trata-se, sim, de observar como, mesmo em detalhes aparentemente neutros, a linguagem revela o quanto já aceitamos certas premissas. A guerra, afinal, não deveria depender da vontade de um homem só.

Sob o risco de ressuscitar os tempos sombrios de Hitler e Stalin, o fato de essa banalização soar hoje natural deveria, no mínimo, nos preocupar.

É o fim da minha vida

José Horta Manzano

O distinto leitor e a graciosa leitora hão de se lembrar da birra que Jair Bolsonaro tinha com a Folha de São Paulo. Birra? Que digo! Era ódio mesmo. Aconteceu mais de uma vez ele mandar expulsar jornalista(s) daquele veículo que ousassem estar presentes numa coletiva de imprensa.

Rei morto, rei posto. As coisas mudaram. Hoje, longe do poder, sem a caneta, sem mandato, sem imunidade, acuado pela justiça penal, Jair tem disfarçado a crista. Não digo que tenha perdido a soberba, mas, vez por outra, deixa de lado a pose de imbrochável (hoje recauchutado e amparado pela ciência) e veste a máscara de coitadinho.

Fez isso estes dias, ao aceitar ser entrevistado por uma jornalista (uma mulher!) da Folha. Com palavras humildes, respondeu às perguntas que lhe fez a moça. Como de costume, safou-se de toda culpa na trama em que é acusado. Não fez nada de errado, não cometeu nenhum deslize, não conspirou, não incentivou, não deu luz verde para nada, viajou para a Florida para não ter de passar a faixa, não sabe de nenhum crime, não invadiu palácio nenhum, não quebrou nada. E pergunta onde está a “prova” de um possível golpe.

Foi indagado sobre as consequências de uma eventual prisão, se isso poderia representar o fim de sua carreira política. A resposta veio de bate-pronto:


“É o fim da minha vida. Eu já estou com 70 anos!”


Eu, que já passei dos 70 faz uns bons anos, fiquei comovido. Me pus a imaginar a figura de um ancião confinado num cômodo de alguma vila militar, possivelmente na capital federal. Com armário, micro-ondas, minibar, tevê mural, banheiro exclusivo. Tudo isso e mais o escambau. Pode parecer o fino da hospedagem, mas não deixa de ser prisão, um lugar onde o hóspede fica confinado e não sai quando deseja.

Apesar da comoção, meu pensamento foi mais longe. Voltei cinco anos no tempo. Tornei a sentir o bafo de desespero que emanou do povo brasileiro naqueles dias de pandemia brava. Lembrei de gente carregando cilindros de oxigênio para acudir parentes morrendo de asfixia em hospitais, vítimas da inépcia do general que comandava o Ministério da Saúde (e que hoje é deputado federal!). Lembrei de um odioso Bolsonaro, que teve a ousadia de arremedar, diante de câmeras e microfones, os estertores da respiração ofegante dos moribundos.

Lembrei de muitas outras situações em que Bolsonaro se posicionou frontalmente contra os interesses vitais do povo brasileiro, que acabou contabilizando cifra assombrosa de mais de 700.000 mortos de covid-19.

Talvez, no futuro, a Ciência consiga estabelecer com certeza quantos óbitos devem ser debitados da conta do capitão, pelas ações tomadas e/ou decididas por ele no enfrentamento da pandemia. Hoje, mesmo não possuindo ainda essa fórmula, é lícito intuir que milhares, dezenas de milhares, quiçá centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se o então presidente quisesse realmente, como ele afirma na entrevista, “o bem do meu país”.

Para Bolsonaro, alguns anos numa prisão de primeira classe serão “o fim da vida”. Isso porque ele já está com 70 anos.

Há milhares de brasileiros, ricos e pobres, bolsonaristas e lulistas, jovens e velhos, para os quais não haverá prisão. Nem de primeira nem de última classe. Estão mortos. Para eles, o “fim da vida” já foi. A covid, associada à pusilanimidade pérfida do presidente, não lhes deu tempo de chegar aos 70 anos. Nunca verão os futuros netinhos.

Bolsonaro, de todo modo, um dia sairá da cadeia e voltará ao convívio dos seus. Suas vítimas, ai delas, não voltarão nunca mais.

Cochilou

Chamada da Folha de São Paulo

José Horta Manzano

O autor da chamada cochilou. O escritor Salman Rushdie não é iraniano. Iraniano era o aiatolá Khomeini, que, em 1989, lançou sentença de morte sobre sua cabeça. A chamada do jornal confundiu sujeito e objeto.

Sir Ahmed Salman Rushdie nasceu em 1947 na cidade indiana de Bombaim, numa época em que a Índia integrava o Império Britânico. Cresceu na Índia e, jovem ainda, estabeleceu-se na Inglaterra.

Desde o ano 2000, vive nos EUA, país do qual adquiriu a nacionalidade em 2016. Tem, assim, as duas cidadanias: britânica e americana.

Butcha

José Horta Manzano

Uma guerra de conquista travada na Europa em pleno século 21, de tão anacrônica e assustadora, não pôde passar despercebida. Repórteres, jornalistas, cinegrafistas do mundo todo estão de olho grudado no desenrolar dos acontecimentos.

Se a intenção de Putin era lançar uma Blitzkrieg (=guerra relâmpago), deu-se mal. Analisando desse ponto de vista, já perdeu. O bumerangue voltou mais rápido e com mais força. Em maior ou menor medida, o planeta inteiro vai sofrer; mas as consequências da insanidade serão ainda mais pesadas para Putin e seu povo.

Filmado por repórteres e sacramentado por imagens de satélite, um massacre foi cometido numa cidadezinha tranquila, situada na periferia de Kiev, povoada por 35 mil pessoas antes da guerra.

Agências internacionais deram a notícia. Como se sabe, despachos vêm em inglês. Sonolentos, alguns encarregados de traduzir para a mídia nacional descuidaram de adaptar para nossa fonética o nome da cidade agredida.

A grafia cirílica Буча, transliterada para o inglês, dá Bucha, sequência de letras que, lida por um inglês, corresponde à pronúncia original. Não sei como o nome está sendo pronunciado pelo rádio e pela tevê no Brasil. O que sei é que boa parte de nossa mídia escrita adotou, sem refletir, a grafia inglesa.

O problema é que, em inglês, as duas letrinhas “ch” são pronunciadas “tch” – coisa que a gente aprende na primeira aula. Portanto, para permitir que um leitor brasileiro pronuncie corretamente o nome da cidade, é preciso escrever Butcha, não Bucha.

Sempre alerta, a Folha de São Paulo entendeu.

Folha de São Paulo

Já os outros dois grandes órgãos da imprensa nacional continuam cochilando.

Estadão

O Globo

 

Passa ser

José Horta Manzano

Não acredito que a pisada na bola seja consequência da intromissão do Bolsonaro no Enem; se bem que, pensando bem, tem um pouco a ver, sim senhor.

Não é de hoje que a Instrução Pública vem sendo mandada pra escanteio “nesse país”, como diria nosso guia. Mas há que reconhecer que, com os personagens peculiares que escolheu para chefiar o Ministério da Educação, o capitão está dando sequência ao que outros já vêm fazendo faz tempo. Tem se esmerado mais que os anteriores, é verdade, mas a linha de conduta é a mesma. O intuito de todos eles é desinformar. Afinal, povo desinformado é mais facilmente manipulado. Ou não?

Aos ouvidos de quem não está acostumado a ler, a expressão “passa a ser”, pode ser entendida como “passa ser”. O escorregão na chamada da Folha não decorre de falta de atenção; é falta de conhecimento mesmo. Os que escrevem “passa ser” são os mesmos que escreveriam “vai começar chover”.

Falta instrução, que só viria com mais leitura. Falta leitura, que teria de ser incentivada pela escola. Falta escola, que teria de ser implantada pelo governo. Falta governo, que teria de ser eleito por um povo instruído. Falta povo instruído… e o círculo vicioso se fecha. Será que um dia vai se romper?

O polemista francês

Eric Zemmour

José Horta Manzano

Monsieur Eric Zemmour é um francês pra lá de especial. Apesar da aparência física pouco graciosa, faz anos que surge aqui e ali, nalgum programa televisivo, sempre com a mesma obsessão. Para ele, os imigrantes são a causa de todos os males da França.

Mas, atenção! Quando fala em imigrantes, leia-se: os árabes originários da Argélia, da Tunísia e do Marrocos, antigas colônias e/ou protetorados franceses). Estrangeiros provindos da Alemanha, da Espanha, da Lituânia ou da Quirguízia não entram na mira do polemista.

Polemista – é essa a palavra. Se são figuras um tanto raras no Brasil, os polemistas existem aos montes na França. Não sei se a origem desse fenômeno é a própria lingua, que se presta a debates metafísicos. Talvez seja simplesmente a tradição, a educação que cada um recebe. Os jovens já entram na adolescência ensaiando os primeiros passos no mundo da polêmica.

Discute-se por um sim ou por um não. Cada um faz questão de dar sua opinião. Atenção: as discussões são animadas, mas a agressividade costuma limitar-se às palavras, sem consequências físicas.

Monsieur Zemmour, jornalista e escritor, fez da troca de ideias sua marca de fábrica. Seja qual for o tema da conversa, não tem jeito: ele sempre acaba acusando seus “imigrantes” de todos os males. É o que alguns chamam de monomania, um defeito que incomoda.

Ele tem dado sinais de que será candidato à Presidência do país, nas eleições de abril do ano que vem. Por enquanto, não confirma, deixa que as especulações borbulhem. Mas é bem provável que, qualquer hora, se declare candidato oficial.

Entrevistado pela Folha de São Paulo(*), mandou respostas por escrito. Naturalmente, foi instado a dizer o que pensa de Bolsonaro, Trump, Marine Le Pen, Macron – uma armadilha atrás da outra. Não deixou nenhuma pergunta sem resposta. No entanto, escorreguento feito peixe ensaboado, limitou-se ao politicamente correto, sem jamais se comprometer.

Segundo Zemmour, o Brasil é exemplo de multiculturalismo que deu certo. Ele parece achar que o simples fato de todos falarem a mesma língua é fator suficiente para atestar que a noção de bem comum está arraigada na alma do brasileiro.

Se vê que o Monsieur não conhece bem nosso país. Os brasileiros têm uma baciada de qualidades, mas a noção de bem comum não está entre elas. E faz uma falta danada. A noção de bem comum anda de mãos dadas com o sentimento de pertencimento, o grande ausente da alma nacional.

Pertencimento não se resume a enrolar-se na bandeira e cantar o Hino. Vai bem mais longe que isso. Começa no respeito ao vilarejo (ou à cidade, ou à metrópole) onde se vive. Continua no comportamento civilizado, em que cada cidadão respeita o próximo e paga seu “dízimo” – sob forma de imposto –, como contribuição para o funcionamento da sociedade.

Estamos a anos-luz da noção de bem comum mencionada pelo polemista francês. No fundo, o país dele, apesar dos mal-amados “imigrantes”, está bem mais próximo da meta do que nós.

(*) Se alguém estiver interessado em ler a longa entrevista concedida por Monsieur Zemmour à Folha, faça-me saber por email.

GPS ideológico

José Horta Manzano

No Brasil de Bolsonaro, será que alguém ainda sabe o que é direita e o que é esquerda? Tenho cá minhas dúvidas. Numa sociedade onde ‘direita’ é saudosismo inconfessável,  ‘centrão’ virou insulto e ‘esquerda’ é sinônimo de comunismo, a coisa ficou complicada. De todo modo, entre nós, a posição exata da sensibilidade de cada um no espectro político nunca esteve na ordem do dia.

Na política tradicional brasileira, esse posicionamento sempre foi irrelevante. A personalidade do político costuma contar mais do que sua posição no tabuleiro. Juscelino era de direita ou de esquerda? E Jânio? E Adhemar? E Getúlio? Ninguém se preocupava com isso, nem apoiadores, nem detratores.

Foi nestas últimas décadas, desde que o PT tomou fermento e cresceu até o cargo mais alto, que o grosso da população se inteirou de que aqueles barbudinhos eram de esquerda. (Diferentemente de hoje, deixar crescer a barba não estava na moda, daí a pilosidade dos barbudos chamar a atenção.) No início, eram bem-intencionados, mas o poder é veneno que corrói. Todos sabem no que deu. Como resultado, na cabeça do eleitor médio, cristalizou-se a equação: esquerda = corrupção.

Na última eleição, as portas estavam abertas para a alternância. Em princípio, era vez da direita. Numa sociedade mais organizada que a nossa, é o que ocorreria. Mas nossa falta de traquejo em matéria de posicionamento político falou mais alto. Da equação esquerda = corrupção, o que sobressaiu não foi a esquerda, mas a corrupção. Assim, quem ganhou a eleição de 2018 foi o candidato que encarnou a luta contra a corrupção.

Hoje sabemos que não pode ser arauto da anticorrupção um personagem envolto por uma nuvem de obscuras transações. Para complicar o problema, o homem se diz ‘de direita’. Todo brasileiro pensante há de estar embasbacado. Então, direita é isso? O nó nos miolos é garantido. Estamos chegando a um ponto em que, de tão usadas, certas palavras vão perdendo a força. Direita e esquerda estão entre elas.

Folha de São Paulo: GPS ideológico

Num esforço notável, que deve ter custado um bocado de trabalho, a Folha de São Paulo publicou um estudo sobre a dose de esquerdismo e de direitismo que habita cada um dos 1.800 influenciadores no Twitter em 2020. O trabalho baseou-se num emaranhado de interações tuiteiras do tipo quem segue quem e quem retuíta quem. Como resultado, ficamos sabendo que Moro está à direita, quase colado a doutor Bolsonaro. Verificamos também que Lula está à esquerda mas nem tanto. E outras coisas do gênero.

Fico um pouco desconcertado. Vamos admitir que um jornal importante não perderia tempo caprichando numa matéria se soubesse que seus leitores não estão interessados. Vai daí, me espanta o fato de o brasileiro que lê jornal precisar de um estudo pra ficar sabendo qual é o posicionamento ideológico do tuiteiro que o influencia. Será?

Quer dizer que o eleitor acompanha o pensamento deste ou daquele sem se dar conta de que é um perigoso esquerdista? Ou vai levar um susto quando descobrir que é um execrável direitista? E o que dizer então se o guru escolhido for um centrista – céus, do Centrão?

O distinto leitor não acha esquisito seguir alguém sem saber quem é?

Beijo gay

José Horta Manzano

Às vezes parece que nossas autoridades estão cada vez menos inteligentes. A gente fica com a impressão de que a ignorância é um mal contagioso. (Ou até hereditário, como se vê em determinadas famílias.)

Semana passada, teve lugar no Rio de Janeiro a Bienal do Livro. É evento importante, embora não se possa dizer que, num país que pouco lê, arrebate multidões. Em princípio, o que lá ocorresse não teria passado de nota de rodapé.

Eis senão quando, o prefeito da cidade toma decisão pouco inteligente: manda censurar um gibi que, a seus olhos, enaltecia a homossexualidade. É que a HQ mostrava a imagem de um beijo entre dois rapazes – que apareciam vestidos, frise-se.

Com a decisão, armou-se um fuzuê. A feira foi visitada por patrulhas ideológicas que caçavam livros a cassar. Acionada, a Justiça deu ordem e contraordem. Todos os jornais do país deram a notícia. Em sinal de protesto, a Folha de São Paulo estampou a imagem do beijo incriminado na primeira página, ocupando o espaço de alto a baixo, do cabeçalho ao rodapé. As redes sociais se assanharam comentando o assunto.

Como resultado, em vez de tirar de circulação o que lhe parecia impuro, o prefeito bobão provocou efeito contrário: o país inteiro ficou a par da querela e viu as imagens proibidas. As vendas do álbum incriminado hão de ter explodido.

Moral da história
Não se deve cutucar onça adormecida. Nem com vara curta, nem com vara longa.

Moral complementar
Não se deve votar em político ignorante. Isso vale pra todos, de vereador a presidente da República.

Coleção de imprecisões

José Horta Manzano

Logo de manhã, costumo dar uma olhada nas manchetes de meus jornais habituais. Algumas merecem reflexão. As de hoje estão aqui.

Portal BR18, 6 julho 2019

Do Portal BR18
Maia não vê ‘crime’. Fico aqui tentando adivinhar qual teria sido a misteriosa razão que levou o estagiário a proteger a palavra “crime” com um par de aspas. Esses urubus gráficos se usam em citações. Não é o caso. Podem-se também usar pra sublinhar palavra usada em sentido irônico ou desvirtuado. Não parece ser o caso – doutor Maia acredita realmente que a divulgação não constitui crime. Portanto, salvo melhor juízo, as aspas podem voltar pro armário. (De onde nunca deviam ter saído.)

Até agora, falamos da forma. Agora, vamos ao fundo. A manchete diz que doutor Maia não vê crime. E daí? Ainda que ele esteja no topo do Legislativo, não lhe cabe emitir opinião sobre o grau de criminalidade do que quer que seja. A opinião dele vale tanto quanto a minha ou a de qualquer vivente. Quem deve dizer se há ou não há crime é a Justiça. Ponto final.

Estadão, 6 julho 2019

Do Estadão
Quando o político se vê encurralado e sem argumentos convincentes, costuma apelar para a velha saída do julgamento popular. Costumava aparecer ao pé do patíbulo, como última declaração do supliciado. Getúlio Vargas, que se autossupliciou, escreveu que deixava a vida pra entrar na história. Fidel Castro foi pelo mesmo caminho e disse, com voz trêmula, que a história o absolveria. (Até hoje, não ocorreu.) Lula da Silva ressuscitou a formulação do caudilho cubano ao repetir que a história o absolveria. (Por enquanto, continua cumprindo pena na cadeia.) Doutor Bolsonaro, ao lançar mão desse tipo de argumento, está indo pelo mau caminho. (Pode dar azar.)

Estadão, 6 julho 2019

Do Estadão
Maia de olho em 2022! No andar de cima, a compostura anda fazendo muita falta. Doutor Maia é presidente da Câmara. O cargo, pra lá de importante, deveria absorver todo o seu tempo. Sua preocupação deveria ser com o hoje, com o que está acontecendo agora, com os acertos que serão feitos amanhã de manhã. Não é hora de se preocupar com apoios políticos a vigorar daqui a três anos. Doutor Maia deixa claro que não está nem aí para o que acontece hoje na Casa que preside. Parece mais preocupado com assegurar a continuidade da boquinha.

Estadão, 6 julho 2019

Do Estadão
Um esquema de segurança que deixa passar uma mala com 39 quilos de cocaína num avião da frota presidencial não merece o nome que tem. Esse, sim, merece aspas: esquema de «segurança». Estava na hora de reforçá-lo. Assim mesmo, fica a interrogação sobre o que terá acontecido. Quem carregou a mala? Quem entrou com ela no avião? Por que não passou pelo raio X como toda bagagem? Houve cumplicidades? Quem ganhou com isso? A quem seria entregue? Quem forneceu a mercadoria? Saberemos um dia. Ou não.

Folha de São Paulo, 6 julho 2019

Da Folha
De novo, gente de olho em 2022. Será por isso que somos invadidos por essa sensação difusa de que não há governo. Estão todos fixados no que vai acontecer daqui a três anos. E daqui até lá, como é que fica? Continuamos empurrando com a barriga?

O Globo, 6 julho 2019

Do Globo
Por mais bem-intencionado que esteja o secretário da Desestatização, a afirmação é obtusa. As estatais não são corruptas. Nem mesmo a Odebrecht é corrupta. Nenhuma empresa é corrupta. Quem se deixa corromper são os diretores e demais funcionários dessas empresas. Dizer que uma empresa é corrupta, além de incorreto, é perigoso: acaba criando uma imagem distorcida. Durante os governos petistas, a Petrobrás foi conduzida por gente corrupta e criminosa. A empresa, em si, nunca foi corrupta.

Intestinos envenenados

Vinicius Torres Freire (*)

Era uma vez um governo que teria dois superministros, Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça). Entraram por uma porta, saíram por outra.

São príncipes transformados em plebeus da Esplanada dos Ministérios pelo caldeirão da política de Jair Bolsonaro, que tem intestinos envenenados, filé de serpente, pelo de morcego, língua de cão e múmias de feiticeiras, como o cozido das bruxas de Macbeth, mas não tem coalizão parlamentar. Fim.

(*) Vinicius Torres Freire tem graduação em Ciências Sociais (USP) e mestrado em Administração Pública (Harvard). O texto é parte de artigo publicado na Folha de São Paulo.

Aprendendo a ser presidente

José Horta Manzano

Em 2003, assim que foi empossado, o novíssimo presidente Lula da Silva fez aparições públicas em eventos variados. Como recém-chegado, foi paparicado à bessa, o que é muito natural. Fotógrafos logo imortalizaram o distintivo que ele insistia em fincar na lapela: um pin com a estrela vermelha do PT, seu partido.

Jornalistas publicaram textos escandalizados com o gesto do novo mandatário. Afinal, ele tinha sido eleito para presidir a República, não para chefiar um partido. Portada ostensivamente, aquela insígnia era sinal hostil lançado aos que não fossem simpatizantes de seu partido. Cargo de presidente exige que o titular se coloque acima de querelas politiqueiras.

Lula da Silva não costumava ler jornais. Mas seus prestimosos assessores se deram conta do reclamo, informaram o chefe, e o pin vermelho cedeu lugar a um mais decente, com as cores da bandeira.

Essa historinha ‒ que é bem real ‒ serve pra ilustrar os tropeços de todo principiante. Todo debutante dá seus foras, seja qual for a profissão ou o cargo, é compreensível. Importantíssimo, no entanto, é que aprenda de seus escorregões e se encaixe na liturgia que a posição exige.

Doutor Bolsonaro deu outro dia um bruta fora. Ressentido com o tratamento que lhe dispensou um jornal de São Paulo durante a campanha, tratamento que ele julga ter sido persecutório e injusto, prometeu fazer desabar raios e relâmpagos sobre o veículo. Errou feio.

Se sentimentos de rancor de vingança já caem mal em mortais comuns, que dirá em figurões da República. Uma bordoada. E pensar que a solução é tão evidente: para casos como esse, a lei prevê caminhos mais civilizados. Se o doutor se sentiu caluniado, que demande reparação por via judicial. Assim, sai tudo nos conformes. Agora, prometer benesses aos amigos e castigo aos adversários ‒ tudo isso com nosso dinheiro ‒ é expediente que não combina com democracia.

Por esta vez, passa, doutor. Da próxima, pense duas vezes antes de abrir a boca. A acumulação de pequenos incidentes como esse pode embaçar sua imagem antes do fim do período de graça.

Jornalismo militante

José Horta Manzano

Às seis e meia da manhã, pela hora de Brasília, abro a edição online da Folha de São Paulo. Desfilando pela primeira página, encontro as seguintes chamadas:

  • Presidente da Gazint disse que Bolsonaro tem que ganhar para ‘não ter que gastar mais dinheiro’.
  • Grupos de WhatsApp pró-Haddad proliferam, e PT desconfia de armadilha bolsonarista
  • TSE abre investigação sobre Bolsonaro e compra de mensagens anti-PT
  • WhatsApp bloqueia contas; TSE e PTF apuram atuação eleitoral de empresas
  • Apoiadores de Bolsonaro começam a migrar grupos do WhatsApp para o Telegram
  • Empresários recuam em onda de apoio a Bolsonaro para não se expor
  • Repórter que descobriu envio de mensagens anti-PT participa do Eleição na Chapa
  • Bolinha de papel na cabeça de José Serra antecipa fake news
  • Roger Waters agradece vaias e chama Bolsonaro de insano. Músico diz que boicotaria o Brasil pela democracia caso candidato seja eleito
  • Comida na ditadura causava horror. Tem político querendo transformar o Brasil no país de 40 ou 50 anos atrás
  • O mercado ignora os riscos de um governo Bolsonaro
  • As reformas da extrema direita bolsonarista para destruir o Brasil

Não temos café
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Juro que é verdade, sem tirar nem pôr. Tudo na primeira página. Não estou tentando criar fake news ‒ pra entrar na moda. É consternante reconhecer que o autoqualificado ‘maior jornal do Brasil’ mais parece um panfleto partidário. O ativismo desse veículo, como diriam os franceses, é cousu de fil blanc ‒ costurado com linha branca. É patente, salta aos olhos. Só não enxerga quem não quer. Para conferir, basta dar uma olhada na sobriedade da primeira página dos outros dois jornais mais vendidos no país, o Estadão e O Globo. A diferença é comovente.

Vale notar que ter a maior circulação entre os jornais do país não significa ser ‘o maior’. São conceitos diferentes. Na Alemanha, o Bild tem, de longe, a maior circulação. Bate, com folga, qualquer concorrente. No entanto, com seu estilo de tabloide sensacionalista, está longe de ser ‘o maior’. Aliás, nem reivindica essa posição. É apenas o mais vendido, basta. A mesma coisa acontece com a Folha, que costumava ser jornal sério, mas está se perdendo.

A mídia tradicional tem visto seus leitores sugados pela internet. Cada veículo tenta solução própria para compensar a diminuição das vendas. “O maior jornal do país” parece ter escolhido caminho original. Mas é sempre perigoso vender a alma ao diabo. Como ensina o Conselheiro Acácio, as consequências vêm depois.

Aspas merecidas

José Horta Manzano

Como sabem meus cultos leitores, as aspas são usadas principalmente em citações e para denotar ironia. Há outros casos, menos comuns, em que alguns usam os dois pares de urubus enquanto outros preferem a escrita em itálico, aqueles caracteres inclinados. Fazemos isso quando utilizamos neologismos, gírias, estrangeirismos, termos ou expressões regionais.

A mídia impressa costuma abusar das aspas. Por um sim, por um não, tascam o sinal gráfico aqui e ali sem que nada justifique a escolha. No entanto, vez por outra, acertam em cheio.

Foi o caso desta chamada da Folha de São Paulo de hoje. Esse «talvez» cercado de urubus escancara a ironia da frase.

Chamada da Folha de São Paulo, 21 ago 2017

Gentílicos compostos

José Horta Manzano

Entre outras acepções, o termo GENTÍLICO é usado para indicar nacionalidade ou origem (de gente ou de coisa, conforme o caso). Brasileiro, argentino, francês, japonês, congolês, australiano são gentílicos que designam detentores de cada um desses passaportes. Ou ainda objetos e fatos originários desses países ou acontecidos neles.

Em casos especiais, seja por questão de fonética, seja por questão de tradição, alguns gentílicos são abundantes, quer dizer, têm duas formas: uma longa e outra curta. Esta última é especialmente usada em gentílicos compostos.

  • Alguns exemplos:
    Francês = franco
    Alemão = teuto
    Português = luso
    Chinês = sino
    Japonês = nipo
    Espanhol = hispano
    Inglês = anglo
    Italiano = ítalo
    Áustria = austro
    Albanês = albano
    Finlandês = fino
    Grego = greco

Chamada Folha de São Paulo, 6 jun 2017

Há outros. O vocabulário da Academia Brasileira de Letras aceita ‘brasilo’ como forma curta para brasileiro. Pessoalmente, acho esquisito e prefiro evitar. Não me soa bem «brasilo-argentino» ou «brasilo-peruano». Que cada um faça como quiser.

Quanto aos gentílicos curtos tradicionais, use à vontade.

  • Assim, teremos:
    Tratado teuto-brasileiro
    Acordo nipo-canadense
    Guerra franco-prussiana
    País hispano-americano
    Relações fino-suecas

E, diferentemente do que escreveu a Folha, terrorista ÍTALO-MARROQUINO.

Il gelo che dà foco

José Horta Manzano

No segundo ato da ópera Turandot, última obra de Giacomo Puccini, os libretistas inseriram um verso que diz: «il gelo che dà foco» ‒ o gelo que dá fogo.

Na ópera, é mera imagem poética. Em nosso país, é a dura realidade. Não fosse trágico, seria cômico.

Chamada Folha de São Paulo, 1° maio 2017

As tralhas da princesa

José Horta Manzano

«O bisneto da princesa Isabel quer se livrar de tralha.»

É assim que começa artigo publicado pela Folha de São Paulo de 19 abr 2017. A primeira reação de quem lê tende a ser: «E eu com isso?» As linhas seguintes do texto explicam. Ensinam que «tralha»(*), no caso do descendente da princesa, não tem o significado que normalmente atribuímos ao termo. Tralha de plebeu é móvel com estofado arrebentado, sapato gasto, rádio que não toca, bola furada, tapete rasgado, panela sem cabo, telefone que não fala, copo trincado. Plebeu não chama antiquário pra organizar venda de objetos sem utilidade. Quando nos livramos de velhos objetos, não sai no jornal.

Convite e menu do último baile da Ilha Fiscal, uma das peças leiloadas

Pedro de Alcântara de Bourbon de Orléans e Bragança (o distinto leitor há de perdoar mas, por falta de espaço, omiti sete prenomes) é o proprietário das tranqueiras postas à venda. Na qualidade de legítimo dono, tem direito a dispor delas. Não é aí que reside o pecado.

Acontece que os bens à venda, ainda que incluam sapatos gastos ou copos trincados, são objetos singulares. Cada um deles carrega um pedacinho da história do país. O cardápio do último baile da Ilha Fiscal, ocorrido dias antes do golpe que derrubou o Império, faz parte deles. Uma coroa, serviços de jantar, condecorações também fazem parte da venda coordenada por um antiquário do Rio de Janeiro.

Brasão do Brasil imperial, uma das peças leiloadas

Calcula-se que a venda dos quase 400 lotes atinja um milhão de reais. Um milhão de reais… Num país e numa época em que bilhões mudam de mão em mão viajando dentro de malas e de cuecas, pensar que estamos assistindo à dispersão das poucas peças que restam de nosso (escasso) patrimônio histórico dá muita tristeza. E tudo isso por um milhãozinho.

Não é uma questão de saudosismo, monarquismo ou passadismo. A história de um povo é feita de toda espécie de memória: momentos bons e ruins, vitórias e derrotas, períodos alegres e tristes, dirigentes sublimes e péssimos. Passamos por momentos de euforia e de depressão. Em qualquer país civilizado, o governo já teria negociado com o descendente da princesa para arrematar todos os lotes e integrá-los ao patrimônio nacional. O lugar deles não é na sala de visitas de endinheirados, mas em museu aberto à visitação pública.

Pintura original de D. Pedro II menino, uma das peças leiloadas

Receio que já seja tarde demais. O leilão estava previsto para 19 e 20 de abril ‒ ontem e hoje ‒ num estabelecimento especializado situado em Copacabana, no Rio. Como dizia o outro, a cada quinze anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos quinze anos anteriores. A venda de relíquias de uma época confirma nosso menosprezo a tudo o que constitui a formação da nação.

Se eu fosse rico, compraria o acervo inteiro e o doaria ao museu que melhor pudesse cuidar dele. Meu dinheiro não dá. É pena. Grandes empresas enroladas com a Lava a Jato, que poderiam aproveitar a ocasião para um gesto vistoso, tampouco devem ter caixa sobrando. Os cofres, antes abarrotados, estão sendo rapidamente esvaziados para pagar honorários de advogados.

(*) Tralha
Etimologicamente, a palavra faz parte de extensa família. O parentesco mais próximo é com um artefato medieval chamado tragula, constituído de um gancho amarrado a uma corda. Lançava-se o gancho para agarrar algo e, em seguida, com ajuda da corda, puxava-se de volta o objeto agarrado.

Indo mais longe nas origens, chega-se ao étimo latino trahere (trazer), relacionado com o verbo alemão tragen e com o inglês drag, ambos com sentido de puxar ou arrastar. Trator, extrair, dragar, atrair, tratar e numerosas outras palavras de nossa língua descendem da mesma raíz. Até o trem. O trem da história, que acaba de passar e no qual esquecemos de embarcar.

Vai acabar

José Horta Manzano

Como é que é? ‘Nuestra América’ tem 31% das mortes mundiais? Eta manchete mal estruturada!

Chamada da Folha de São Paulo, 18 jan° 2017

Chamada da Folha de São Paulo, 18 jan° 2017

Se for assim, não precisa ser acadêmico pra vislumbrar o futuro da região: a esse ritmo de mortalidade, em poucos anos a América Latina deixará de existir. Por absoluta falta de habitantes.

Ninguém mentiu

José Horta Manzano

Sem apelar para a mentira, a mesma notícia pode ser dada de maneiras diferentes dependendo da intenção do mensageiro e do impacto que se quer causar. Veja o distinto leitor como dois dos maiores diários do país deram, ao mesmo tempo, a mesmíssima notícia.

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Manchete do Estadão online,
manhã de 19 dez° 2016:

2016-1219-01a-estadao

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Manchete da Folha de São Paulo online,
manhã de 19 dez° 2016:

2016-1219-02a-folha

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É bem verdade que, tendo em vista a folha corrida do personagem, tanto faz. Assim mesmo, fica esquisito.