O bem da família

Carlos Brickmann (*)

Quando Bolsonaro quis nomear seu filho Eduardo “Bananinha” (apelido que lhe foi dado pelo vice, general Mourão) para a Embaixada do Brasil em Washington, disse que era natural que entregasse o filé-mignon para sua família. Pois é. Já para a população em geral, ele recusou a oferta de vacinas da Pfizer; optou por entrar com a cota mínima no consórcio internacional que garantiria vacinas mais baratas; votou na ONU contra a quebra de patentes das vacinas, o que teria permitido que vários países as produzissem, garantindo a imunização de muito mais gente em muito menos tempo; disse que quem tomasse a vacina da Pfizer podia virar jacaré; desprezou a vacina do Butantan por achar que os chineses não sabiam fazer coisa boa, chamou-a de “vachina”.

Mas sua mãe, o presidente mandou vacinar. E sua nora, esposa do senador Flávio Bolsonaro, o filho 01, foi vacinar-se no dia 2. Família merece sempre maior atenção.

Já dizia Chico Anysio que o povo é apenas um detalhe.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Butantan

José Horta Manzano

Fundado no fim do século 19, o Instituto Butantan trabalhou em silêncio por mais de um século. Produtor de vacinas há 120 anos, já prestou valiosos serviços. Embora reconhecido por cientistas do mundo todo, nunca chegou a ter uma projeção comparável à do Instituto Pasteur (Paris) ou do Instituto Max Planck (Munique). A seu favor, diga-se que o orçamento que lhe tem sido dedicado é incomparavelmente mais modesto que o de seus congêneres europeus ou norte-americanos.

A pandemia de covid-19 e a desesperada busca por vacina subitamente giraram os holofotes para o Butantan. Nosso sabido presidente tentou menosprezá-lo, mas o tiro saiu pela culatra: apesar dos muxoxos do capitão, o instituto passou a ser nacionalmente conhecido e olhado com respeito.

Duas curiosidades linguísticas cercam o nome do instituto. A primeira é de ordem etimológica. De onde vem essa palavra? Pela sonoridade, dá pra adivinhar que vem da língua tupi, como grande parte de nossos topônimos – rios, morros, vilarejos, cidades e até alguns estados.

A versão mais difundida ensina que Butantan é composto por bu (=terra) + tata (muito dura). Há variantes para o adjetivo: tata, tatã, tãta, tãtã.

Outra versão pretende que seja corruptela de m’boy (=cobra) + tata (=fogo), ou seja, boitatá = cobra de fogo, personagem de antiga lenda indígena. Se assim for, compartilha o étimo com a cidade paulista de Batatais, cujo nome também poderia ser uma variante de boitatá.

Desde que, lá pelo fim dos anos 1700, o último bandeirante aprendeu o português e esqueceu o tupi, a antiga lingua franca definhou até praticamente desaparecer. Assim, será difícil estabelecer com segurança a origem do nome do local onde foi instalado o instituto.

A segunda curiosidade tem a ver com a grafia Butantan. A norma de 1943 diz que os topônimos conservarão a forma que lhes atribuiu a «tradição  histórica secular». E cita um único exemplo – Bahia –, deixando a questão em aberto. Tirando a região da cidade de São Paulo, em que excursões escolares costumam levar os pequerruchos a conhecer o serpentário do Butantan, é difícil encaixar o nome do instituto no conceito de «tradição histórica secular».

Assim sendo, a grafia da palavra deveria seguir a regra comum das palavras de origem tupi, ou seja, Butantã, com ã no final. No entanto, o que se lê por toda parte é Butantan, com um improvável an no final. Tenho minha ideia quanto à origem dessa anomalia.

Acredito que a palavra vem sendo escrita tal como foi entalhada, 100 anos atrás, no frontispício do instituto. A reforçar essa grafia, está o site oficial do instituto, que adota Butantan em detrimento de Butantã.

Sabem de uma coisa? Desde que o sedento mercado brasileiro seja logo inundado com as esperadas vacinas, que cada um use a grafia que lhe apetecer. Pra acompanhar a corrente, vamos de Butantan mesmo!