As chaves

José Horta Manzano

Hoje terá lugar, na ultrassofisticada Costa do Sauípe ― um balneário padrão Fifa! ― o sorteio das chaves da próxima Copa do Mundo. Todos os países participantes estão pedindo, cada um a seu São Benedito nacional, que os ajude a cair num grupo fácil.

Agora, vamos fazer um esforço. Vamos supor que não haja trapaça no sorteio. Com a Fifa, nunca se sabe, mas não é impossível, pois não? Pois então. Há de haver surpresas, um ou outro ah! de alegria, muitos oh! de decepção.

No fundo, no fundo, pouco importa quais possam ser os times que o Brasil terá de enfrentar. Nossos adversários maiores já são conhecidos. São o atraso, a corrupção, a desigualdade entre os que mandam e os que são mandados, o paternalismo, a ignorância, a inação, a leniência, o descaso dos que poderiam fazer alguma coisa, a desonestidade.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Que o Brasil vença vários adversários e obtenha boa classificação na Copa é secundário. Quer chegue lá ou não, será um momento passageiro.

O mais desalentador é a certeza de que, após o último jogo, quando o último turista tiver embarcado e os garis tiverem varrido o lixo, nossos adversários de sempre continuarão aí, a nos envenenar a existência.

Mas que calô, ô ô ô!

José Horta Manzano

Como a maioria dos esportes, o futebol foi inventado pelos ingleses. Mesmo na Inglaterra, correr uma hora e meia atrás de uma bola não é para qualquer um. Precisa ser jovem e estar bem-disposto.

É esporte feito sob medida para o clima britânico, sempre fresquinho. Campo nevado impede que se jogue. Calor acima dos 25 graus começa a representar empecilho para quem tem de despender tanto esforço. As Ilhas Britânicas, assim como grande parte da Europa, passam 300 dias por ano sem neve e com temperaturas abaixo dos 25 graus. Ideal.

Desde fins do século XIX, o futebol foi transplantado para terras tropicais. Não é seu habitat natural. Aliás, se prestarmos bastante atenção, constataremos que o Brasil é o único país situado na faixa intertropical onde esse esporte é popular. Em nossa faixa climática, nenhum outro país ou território se destaca na prática do futebol. Nem na África, nem na Ásia, nem na Oceânia.

Esporte basicamente europeu, é surpreendente que ele se tenha popularizado tanto em terras tupiniquins. É quase um milagre que essa prática esportiva tenha plantado raízes em nosso solo. Para usar expressão em voga atualmente, deve ser um ponto fora da curva.

Futebol

Futebol

Pois bem, o próximo campeonato mundial de futebol vai-se realizar no Brasil. Deixemos de lado toda consideração política ou econômica. Vamos levar em conta unicamente o fator climático. A coisa está esquentando ― no sentido próprio e no figurado.

Equipes estrangeiras, principalmente as que já experimentaram o bafo equatorial de algumas sedes, mostram-se preocupadas. Argumentam que, se é impossível mudar o clima do País, que se busque pelo menos marcar as disputas para horas em que o termômetro seja mais camarada.

A Fifa, no entanto, baté pé firme. Insiste em manter certos encontros sob sol meridiano em lugares como Fortaleza, Recife, Salvador. Uma crueldade. E por que essa recusa de adaptar horários ao clima? Pelas mesmas razões pelas quais, faz anos, o governo brasileiro cometeu o desatino de eliminar um dos fusos horários do País: a pressão do lobby televisivo.

O grosso dos telespectadores está na Europa. No mês de junho, quando em Brasília são 20h ou 21h, na Europa já é madrugada. Muita gente já foi dormir, há menos espectadores, a receita publicitária míngua, o interesse se desmilíngue. Está aí a razão. A Fifa, como sabemos todos, é uma organização estranha, secreta, altamente suspeita de corrupção, riquíssima e poderosíssima. Portanto, abandonem qualquer esperança de mudança. Os jogos previstos para a uma da tarde não serão desmarcados.

Isso não é nada perto do que espera os astros da pelota em 2022, quando a Copa terá lugar no Catar. No mês de junho, aprazíveis 48° à sombra. Alguém se habilita?

A vida dura dos presidentes

José Horta Manzano

Aparições públicas são momentos de alto risco para governantes. Não falo de risco de vida, falo de risco para a imagem.

Até uns 20 anos atrás, atentados eram moeda corrente em qualquer ponto do globo. Desde Júlio César, enfrentaram essa situação incômoda ― e às vezes mortal ― figuras excelsas como o Mahatma Gandhi, João Paulo II, John F. Kennedy, D. Carlos I (rei de Portugal), Benazir Bhutto (do Paquistão), Ronald Reagan, Indira Gandhi. E muitos outros.

Os 38% de dona Dilma vistos por Jarbas Domingos, desenhista pernambucano

Os 38% de dona Dilma
vistos por Jarbas Domingos, desenhista pernambucano

Hoje em dia acontece menos, talvez porque o aparato de proteção da pessoa física se tenha aperfeiçoado. Mas os descontentes, se não conseguem mais atingir figurões fisicamente, dão a volta por cima. Por vias menos violentas, mas tão contundentes quanto as tradicionais, se valem da internet e das chamadas redes sociais.

Assim mesmo, aparição pública sempre comporta uma dose de risco. Se ficou difícil riscar o personagem da face da Terra, logra-se riscar sua imagem e deixar arranhões que causam tanto dano quanto uma punhalada.

Todos se lembram daquele dia em que, ao preparar-se para discursar no Maracanã, na abertura dos Jogos Panamericanos de 2007, nosso messias ouviu, atônito, uma retumbante vaia. Poucos se lembrarão de seus índices de popularidade na época. Mas ninguém esqueceu os apupos.

Nossa guia atual também já passou pela experiência. Foi bem mais recentemente, na inauguração da copinha de poucos meses atrás, de novo no mesmo Maracanã. Como deve ter sofrido nossa orgulhosa presidente! Para ela também vale a mesma reflexão. Que tenha 30%, 50% ou 80% de popularidade importa pouco. O que ninguém jamais esquecerá são as vaias. Tonitruantes.

François Hollande vaiado 11 nov° 2013

François Hollande vaiado
Paris, 11 nov° 2013

Monsieur Hollande, presidente da França, participou de dois atos públicos importantes nesta segunda-feira. O onze de novembro é feriado nacional, dia em que se comemora o armistício de 1918, aquele que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. O brilho da solene aparição do mandatário nos Champs-Elysées foi embaçado pelas vaias de uma parte da multidão.

Mais tarde, Hollande se dirigiu a uma comemoração menos pomposa, numa cidadezinha do interior. E não é que a coisa se repetiu? Foi de novo vaiado. A cerimônia foi encurtada, e o presidente escafedeu-se.

Bem, é de notar que a popularidade de François Hollande está no patamar mais baixo jamais registrado para um presidente da França desde que esse índice começou a ser medido. Apenas 21% dos franceses avaliam positivamente seu governo. Nem Sarkozy, o antecessor, havia chegado a um número tão pífio.

Pensando bem, dona Dilma pode até sentir-se feliz com seus 38%. Mas vamos ver. Dificilmente ela poderá esquivar-se de discursar na abertura da copona, a do ano que vem. Com bombas de efeito moral, podem-se reprimir alguns arruaceiros, mas… como calar um estádio?

De alto padrão

José Horta Manzano

Uma empresa costuma se parecer com seu dono ou com seu gerente. Se o dirigente é atencioso e gentil com a clientela, os funcionários tendem a seguir a mesma trilha. Quando o chefe é malcriado, fala aos berros uma linguagem entrecortada de palavrões e maltrata os funcionários, estes acabam se deixando contaminar. Em pouco tempo, a atmosfera na empresa estará irrespirável. E a firma vai acabar se transformando numa verdadeira casa de mãe joana.

A mesma coisa se dá com um país. O espírito reinante nas altas esferas acaba escorrendo e contaminando boa parte do povo. Um governo autoritário e paranoico perverte o povo. Aconteceu na antiga Alemanha Oriental de 1945 a 1989, quando um governo acossado por mania de perseguição converteu metade da população em espiões. Pai desconfiava de filho, irmão desconhecia irmão, todos bisbilhotavam a vida de todos.

No Brasil não chegamos ― ainda ― a esse nível de tensão. Mas os oito anos de reino de nosso messias deixaram marcas que levarão muito tempo para esmaecer.

Estádio «padrão Fifa»

Estádio «padrão Fifa»

Em sua visão distorcida de mundo, nosso antigo presidente punha o futebol no topo, a preocupação maior, o bem supremo. Suas parábolas faziam uso frequente de metáforas futebolísticas. Para apaziguar a violência do sofrido Haiti, organizou uma partida de futebol. Naturalmente, não conseguiu resolver coisa alguma. Assim mesmo, não desistiu.

Chegou a propor um jogo no conturbado Oriente Médio, como meio ― infalível, segundo ele ― de pôr fim ao conflito crônico entre árabes e israelenses. Os dirigentes daquela região trataram de enquadrar nosso criativo mandachuva. Como era de esperar, o jogo nunca se realizou.

Durante seu longo governo, o Lula deu pouca atenção a problemas graves como, por exemplo, melhorar o nível de instrução do povo. Mas, deixe estar, fez o que pôde para conseguir o bem supremo: que a Copa do Mundo se realizasse no Brasil. O dia em que a escolha do país-sede foi oficializada há de ter sido um dos mais felizes de sua vida. Deve ter-se sentido como se sentiu Napoleão no dia de sua coroação.

Por mérito de seu líder, o Brasil acabava de chegar ao topo da montanha. O acolhimento da Copa do Mundo de futebol está sendo tratado como um fim em si, o clímax, a consagração, o símbolo maior da era do Lula.

Vitória futebolística pode encher os bolsos de cartolas, mas não enche a barriga do povo. Estamos gastando o que podemos e o que não podemos para construir estádios monumentais, uma parte dos quais servirão para abrigar meia dúzia de jogos e mais nada. Ao mesmo tempo, a implantação de ferrovias está parada, a bifurcação do rio São Francisco se arrasta a passo de lesma cansada, falta o equipamento básico necessário para manter a saúde pública. Em resumo, as tradicionais mazelas do país continuam no mesmo patamar em que o presidente taumaturgo as tinha encontrado.

Grama «padrão Fifa»

Grama «padrão Fifa»

Ainda agora, um artigo do Estadão de 29 de setembro nos conta que mais alguns milhões serão gastos para adequar o gramado dos novos estádios ao «padrão Fifa». Como temos visto nestes últimos anos, o Planalto continua reverenciando mais a Fifa do que os maiores clientes do País, aqueles que compram nossas mercadorias. Mas a notícia é excelente, senhores! Teremos estádios padrão Fifa!

Continuaremos com nossa política externa padrão bolivariano, nosso atendimento médico padrão africano e nossa instrução pública padrão medieval. Mas isso não tem a menor importância.

Miscelânea 11

José Horta Manzano

No calo
A reportagem de 14 páginas publicada pela revista The Economist pisou o calo do Planalto e de nossa orgulhosa presidente.

Para contradizer os argumentos da revista, o ministério de Marketing reativou a participação de dona Dilma nas redes sociais, aqueles canais por onde fluem os mexericos políticos. Preparou para ela um texto curtinho em que, em tom complacente, ela evita entrar em polêmica com The Economist.

Diz apenas que a revista está desinformada (sic). E põe sobre a mesa os parcos argumentos positivos de que dispõe. Diz que a inflação está sob controle ― quando todos sabem que não está. Diz que o dólar se estabilizou, o que é uma falácia. Enfim, brindou-nos com mais do mesmo, como de costume.

Contrassenso
Leis e regulamentos são editados pelos representantes do povo e, em princípio, deveriam ir ao encontro do interesse de todos. Nem sempre é o que acontece. Na França, as normas que regem o horário de abertura dos comércios são um bocado intricadas. Só especialistas entendem do assunto.

Uma recente decisão de Justiça determina que, daqui para a frente, as lojas de bricolagem Leroy Merlin e Castorama que estiverem situadas na região parisiense estão proibidas de abrir as portas aos domingos. A lei tem de ser respeitada.

A intenção do legislador de fazer do domingo o dia de descanso semanal leva em conta o bem-estar do funcionário e tenta contribuir para a paz familiar. Só que o mundo mudou e a sociedade se transformou. Regras de 30 anos atrás já não se harmonizam com os dias de hoje.

Oui! Quero trabalhar aos domingos!

Oui!  Quero trabalhar aos domingos!

Muitos funcionários, cada qual por um motivo pessoal, são voluntários para o trabalho dominical. Há estudantes que, para ganhar um dinheirinho, estão felizes de poder fazer um extra aos domingos. Há pessoas solitárias que preferem trabalhar domingo e ter folga no meio da semana. O legislador não havia previsto essa evolução.

Sindicatos ― que, por definição, estão aí para defender os direitos dos empregados ― estão meio perdidos. Em princípio, deveriam organizar passeatas para exigir o fechamento obrigatório do comércio aos domingos. Mas, no final, quem anda organizando protestos são… os próprios funcionários. Muitos não querem abrir mão do trabalho dominical.

Um mundo de pernas pro ar, não?

Como me ufano
De vez em quando, uma noticiazinha boa não há-de fazer mal. O jornal suíço 20 minutes publicou esta semana um artigo ― com infografia e tudo! ― sobre o novo jato de transporte militar que a Embraer está lançando. Descrevem o novo aparelho como capaz de desempenho superior ao Hercules fabricado pela americana Lockheed. Se você visitar o site do jornal 20 minutes, não deixe de clicar na infografia para ver em tela cheia.

Embraer KC-390 x Lockheed C-130J

Embraer KC-390  x  Lockheed C-130J

E pensar que o inquilino do Planalto imediatamente anterior à presidente atual tentou meter o bedelho no construtor aéreo nacional. Para alívio e satisfação de nós todos, não conseguiu. Escapamos de boa e é melhor assim.

Como chegar?
As obras públicas no Brasil são frequentemente desconexas. Controem-se pontes em lugares desprovidos de estradas. Fecha-se um olho para a urbanização selvagem de regiões inundáveis ou de zonas de manancial. Há muitas incongruências.

Uma das mais flagrantes é a ausência de ligação ferroviária ou metroviária entre o centro das cidades e seu aeroporto ― muitas vezes internacional. Quase 30 anos depois de ser inaugurado, o aeroporto internacional de São Paulo, o mais importante do País, ainda não conta com um transporte que cubra ― com segurança, regularidade e preços accessíveis ― os 30 km que o separam do centro da metrópole.

A Folha de São Paulo publicou esta semana um quadro mostrando a situação em 45 cidades, entre as quais os destinos internacionais mais procurados por viajantes brasileiros. É sintomático. Todos os grandes aeroportos fora da América do Sul contam com ligação ao centro da cidade à qual servem. Em alguns casos, há uma linha de metrô. Em outros, uma linha ferroviária. Todas cobram preços populares.

O caso de São Paulo é dramático por dois motivos. Primeiro, porque mostra o desleixo de todas as autoridades envolvidas com o projeto. Desde os militares que autorizaram a construção do aeroporto, nos anos 80, até os dirigentes atuais. Todos empurraram com a barriga. Hoje só nos resta passar vergonha diante de cada turista que chega e se vê esbulhado por táxis que cobram 100 reais para levá-lo ao centro.

SP - Avenida marginal do rio Tietê by Rodrigo Coca

SP – Avenida marginal do rio Tietê em dia de enchente
by Rodrigo Coca

O segundo motivo é o fato de o trajeto entre o aeroporto e a cidade passar obrigatoriamente pela avenida que margeia o rio Tietê. É uma região onde, por um acidente de tráfego ou por uma chuva mais forte, a circulação de veículos se interrompe. Na época das chuvas, o viajante internacional, para garantir sua chegada ao aeroporto a tempo de se apresentar ao balcão, costuma sair de casa com umas 4 horas de antecedência. Muitas vezes, para um voo de 2 ou 3 horas. Um disparate.

Mas parece que agora vai. Foi tomada a decisão de construir uma ligação férrea. Naturalmente, não estará pronta para quando a Copa chegar. Os visitantes que se danem.

Cheia de encantos mil

José Horta Manzano

Quando o então presidente Luiz Inácio da Silva fez o que devia ― e talvez até o que não devesse ― para conseguir que o Brasil entrasse na rota de grandes eventos esportivos de impacto planetário, estava longe de se dar conta do tamanho da encrenca em que estava nos metendo.

O presidente emérito havia passado 30 anos rodeado por uma corte de áulicos. Diferentemente de certos mandarins que só se impõem pelo terror que inspiram, nosso messias nunca precisou dar murros em cima da mesa para se fazer respeitar. Ele era a locomotiva do partido. Melhor ainda que um enigmático Enéas ou um efêmero Tiririca. Era o abre-alas de uma turma grande.

À medida que o sucesso crescia, novos companheiros foram-se juntando aos camaradas de primeira hora. Formou-se aos poucos uma corte em que todos dependiam do chefe. Cada um tinha seu motivo ideológico ou pecuniário para mostrar submissão e, acima de tudo, jamais contrariar os caprichos do chefe. Numa confraria de viés absolutista, onde reina um único personagem, contestações não são bem-vindas. Os poucos que ousaram contradizer a verdade oficial pagaram caro: foram expulsos do grupo. Ou pior.

Mas todo exagero é perigoso. Cercado de elogios, sem jamais enfrentar o contraditório, o chefe adulado vai aos poucos perdendo o contacto com a realidade. Acaba acreditando sinceramente que, com um estalar de dedos, é capaz de transformar o mundo.

Nosso guia chegou a imaginar que, com um jogo de futebol e alguns afagos, conseguiria resolver em dois tempos o imbróglio entre israelenses e palestinos, emperrado há muitas décadas. Inexplicavelmente, seu chanceler Amorim ― dono de inegável experiência na carreira diplomática ― foi incapaz de enxergar o ridículo da situação e o fracasso anunciado. Como aos demais cortesãos, faltou-lhe ousadia para divergir do chefe.

Logo oficial ― JO Rio 2016

Logo oficial ― JO Rio 2016

Alguns anos atrás, quando Copa do Mundo e Jogos Olímpicos foram atribuídos ao Brasil, a franja pensante da população intuiu que não era hora de assumir compromissos tão caros e complexos. Mas a corte não ousou passar essa advertência ao chefe. E fomos em frente alegremente.

Jamil Chade, correspondente do Estadão na Suíça, nos dá conta do conteúdo de um relatório confidencial do CIO (Comitê Internacional Olímpico) sobre o andamento das obras em vista dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O relato é estarrecedor. Melhor do que transcrevê-lo aqui, convido os leitores a uma visita ao Estadão.

Apesar do discurso tranquilizador proferido pelas autoridades brasileiras, o atraso no planejamento e na realização das obras é catastrófico. O problema atinge todas as áreas que, de algum modo, dizem respeito aos Jogos Olímpicos. Infraestrutura, transporte, alojamento dos atletas, hotéis para visitantes, plano B para emergências, aeroportos, todas as obras estão atrasadas.

A impressão que fica é a de que o Brasil teve o olho maior que o estômago, como diz o outro. Comprou um peixe enorme e pagou por ele. Agora, não sabe direito como escamá-lo. E ainda falta limpar, temperar, cozer, servir. Os convidados já estão apontando na esquina.

Culpa do rei? Em parte. Maior responsabilidade pesa sobre os que, mais esclarecidos, titubearam e se omitiram. De qualquer maneira, quem pagará a conta somos nós.

A frase do dia – 10

“Portugal construiu dez estádios “padrão Fifa” para a Eurocopa de 2004. Sete anos depois o país estava falido. A Grécia cometeu iguais loucuras para as Olimpíadas do mesmo ano. Teve a honra de falir primeiro. Lição? Grandes acontecimentos desportivos nem sempre dão o retorno esperado.”

João Pereira Coutinho, escritor e colunista português in Folha de São Paulo online.

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Vamos ver como evolui

José Horta Manzano

Desta vez, não deu

Não se sabe bem quem terá tido a ideia. O marketing foi deixado aos cuidados de um músico baiano que costuma se apresentar com a cabeça encimada por uma touca que lembra a de um mestre-cuca. Um pouco menos elegante, é verdade.Touca mestre-cuca

Inventaram um dispositivo meio esquisito, parecido com brinquedo de criança, feito de plástico, recheado de bolinhas, com alças laterais onde se encaixam os dedos. Para rimar com ecologia, anunciaram que seria feito a partir de cana-de-açúcar. Para rimar com nacionalismo, foi tingido de verde.

Na hora de escolher o nome, fizeram um esforço especial para escapar do ridículo. Quiseram compensar a escolha infeliz do apelido dado ao simpático tatuzinho que simboliza a Copa (mas não só…), o pobre Fuleco. Chamaram o novo brinquedinho de caxirola. Não ocorreu a ninguém que os estrangeiros pronunciarão caksirôla. Faltou aconselhamento.

Para reforçar o marketing, distribuíram a novidade ― de graça! ― num recente jogo de futebol. Cinquenta mil exemplares. Que desastre! Torcedores descontentes com o desempenho de sua equipe não pensaram duas vezes. Tomados pela decepção e pela raiva, lançaram sobre o gramado o que traziam na mão. Era justamente nossa caksirôla em fase de teste. Centenas delas terminaram no gramado, perturbando o jogo. A história não diz se o dispositivo foi aprovado como instrumento. Contudo, o teste detectou que é excelente projétil.

Resultado: autoridades baianas baniram o aparelhinho das partidas que vierem a ser disputadas em Salvador. É de imaginar que outros Estados sigam o exemplo, a não ser que… bem, sabemos todos que os argumentos da Fifa costumam ser convincentes.

Vamos ver como evolui.Interligne 4f

Brincando com a saúde… dos outros

Uma mafia de falsificadores de leite foi flagrada no Rio Grande do Sul estes dias. Por ganância, batizavam o alimento com substâncias comprovadamente cancerígenas. O detalhe sórdido é que um dos criminosos mandava separar uma parte do leite bom para consumo de sua família. A adulteração vinha em seguida. Mateus, primeiro os teus!Vache 2

Em 2008, escândalo semelhante estourou na China. Uma gangue mafiosa explorava o mesmo filão. Acrescentavam melamina ao leite. Apanhados, foram presos e julgados. O caso rendeu duas penas de morte e mais uma de prisão perpétua. As penas capitais já foram executadas em 2009. A firma de lacticínios ― a maior da China ― foi à falência.

Voltemos ao Rio Grande. Dos 8 presos, um já foi solto. Seis ― bem orientados por seus defensores ― declararam que só se pronunciarão em juízo. O oitavo falou. Disse que não sabia de nada.

Que pena merecem os que vendem gato por lebre e expõem crianças, velhos e doentes ao câncer?

Vamos ver como evoluiInterligne 4i

Com ditadura é mais fácil

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 maio 2013

«L’important dans la vie ce n’est point le triomphe, mais le combat.
L’essentiel n’est pas d’avoir vaincu, mais de s’être bien battu.»

O importante na vida não é o triunfo, mas o combate.
O essencial não é vencer, mas lutar bem.

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Que me perdoem pela longa citação. É a famosa máxima ― geralmente mencionada truncada ― do barão Pierre de Coubertin, aquele que, 120 anos atrás, ressuscitou os Jogos Olímpicos. Achei importante citá-la na íntegra.

Quando o barão pronunciou essas palavras, todos fingiram acreditar. Mas elas seguem um raciocínio contrário à natureza humana. Não tivessem nossos antepassados vencido, e não estaríamos nós aqui. É importante lutar, mas vencer é o objetivo natural de toda contenda. Ninguém compete pelo simples prazer de renhir. Dizem alguns biógrafos, aliás, que nem o próprio barão acreditava na frase que havia pronunciado.

Há mentiras e meias-verdades em que a gente faz que acredita. Nem que seja só para evitar discussão. Um antigo presidente de nossa República, quando ainda exercia o cargo, disse certa feita que a Venezuela padecia de excesso de democracia. Todos fizeram cara de acreditar. Pra que discutir?

François Hollande, quando ainda candidato à presidência da França, garantiu que consertaria a economia do país já no primeiro ano de mandato. Alguns eleitores acreditaram, outros só fizeram cara. O homem foi eleito. Um ano depois, a economia continua a mergulhar num abismo que parece não ter fim, enquanto a taxa de desemprego sobe à estratosfera. Estes dias, Monsieur Hollande voltou a prometer que, daqui para o fim do ano, sem falta, estará tudo dominado e o país terá entrado nos eixos. Agora, vai. A gente faz que acredita. Pra que discutir?

No Brasil, ao término de um processo conhecido como mensalão, alguns figurões de alto coturno foram considerados culpados e, ato contínuo, condenados por crimes vários. Curiosamente, alguns dos anjos caídos ― justamente os que mais alto se situavam na hierarquia ― continuam a jurar não ter jamais cometido os crimes pelos quais foram sentenciados. Alegam ter sido vítimas de uma farsa grotesca e garantem que uma corte internacional de arbitragem reconhecerá a iniquidade da condenação. Todos fazemos de conta que acreditamos. Pra que discutir?

De vez em quando, um medalhão nos surpreende com alguma declaração fora de esquadro. Semana passada, por exemplo, o secretário-geral da Fifa nos brindou com uma pérola. Em tom de queixa contra a burocracia brasileira, afirmou que «um nível mais baixo de democracia é preferível para organizar uma Copa do Mundo». Trocando em miúdos, o mandarim insinuou que, na hora de preparar um campeonato mundial, nada se compara a uma boa ditadura.

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

Crédito: Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br

O secretário-geral tem tudo para se sentir blindado. No ano passado, depois de fazer um de seus desastrados pronunciamentos, foi declarado persona non grata pelo Ministro dos Esportes do Brasil. Sabe-se lá por que milagre, o incêndio foi apagado rapidinho e o episódio foi esquecido. Monsieur Valcke voltou a ser persona grata em nossas terras.

De novo incensado, sentiu-se livre para reclamar da quantidade de interlocutores com os quais é obrigado a dialogar no Brasil. Gostaria de ter uma só pessoa com quem conversar. Se essa pessoa for o mandachuva maior, melhor ainda.

O secretário-geral mostrou-se nostálgico da Copa de 1978, aquela que serviu de vitrina para os ditadores argentinos mostrarem ao mundo a excelência do regime. Na época, naturalmente ninguém mencionou o lado sombrio e as dezenas de milhares de desaparecidos.

Para coroar, o figurão não se privou de formular votos para que a Copa seguinte, a da Rússia, seja mais do seu feitio. Chegou ao despudor de mencionar o nome de Putin. Mostrou-se seguro de que o tsar de todas as Rússias ainda estará firme no poder, e de que, com ele, o diálogo será mais fluido. Ninguém duvida.

O relacionamento entre a Fifa e o governo brasileiro é complicado, difícil de delinear. O que parece nem sempre é. A riquíssima Fifa é organização notoriamente corrupta. A elite política brasileira também está habituada a lidar com muito dinheiro e não costuma mostrar especial empenho em coibir a corrupção por estas bandas.Copa 14 logo 2

Mas cada turma tem seus métodos, seu jeito de operar. Mal comparando, costurar um acordo entre a Fifa e os governantes brasileiros é tentar conciliar, digamos, capos da Máfia siciliana com chefes da Camorra napolitana. Para chegar lá, precisa ter boa vontade e paciência. Muita paciência.

Nosso consolo é que, no fim, o esporte vencerá. Afinal, o importante é competir. Pra que discutir?

De vento

José Horta Manzano

Quais são as grandes firmas alemãs? Qualquer um será capaz de recitar uma meia dúzia de nomes, de Mercedes-Benz a Bayer, passando por Hoechst, Lufthansa & companhia. E as grandes da França, quais são? Sem dúvida, Renault, Peugeot, L’Oréal e Vuitton estão entre elas. E na Itália, quem são as grandes? E nos Estados Unidos? E no Japão? Todos conseguiremos desfiar, sem dificuldade, uns 10 ou 20 grandes nomes.

Agora vamos mudar de registro. Vamos parar, por um momento, de fazer perguntas retóricas. Façamos uma pergunta séria. Alguém acredita que a grandeza e a riqueza desses países se baseia nessas 10 ou 20 firmas gigantescas? Se acredita, está iludido.Construção 2

Sem menosprezar a importância das grandes firmas, a força maior da França, da Alemanha, da Itália e dos outros países altamente desenvolvidos não reside unicamente nessas marcas mundialmente conhecidas. Longe disso.

O combustível que move as economias mais avançadas ― sem prescindir de conglomerados gigantescos, evidentemente ― é representado pela pequenas e médias empresas. A Câmara de Comércio Alemã nos informa que, só na região de São Paulo, estão implantadas mais de 800 firmas alemãs. Oitocentas! De origem francesa, são quase 500. Para completar o quadro, temos milhares de sociedades de origem americana, centenas de japonesas, italianas, suecas, espanholas, canadenses e até portuguesas.

Até aqui, só falamos de empresas que, mesmo sem ser enormes, têm cacife para se estabelecer no exterior. Se adicionarmos as menores, as que (ainda) não abriram sucursais no Brasil, a calculadora periga explodir. São milhares e milhares de Firmen, de sociétés, de ditte, de compañias, de bolagen. São elas que marcam o compasso e conferem dinamismo e diversidade à economia de seus respectivos países.

Crédito: Irina Tischenko

Crédito: Irina Tischenko

O Estadão de 22 de abril traz uma excelente reportagem sobre o BNDES, assinada por três colaboradores. E incrementada com uma entrevista com Luciano Coutinho, presidente do banco.

O texto deixa bem claras as diretivas que foram dadas àquela instituição seis anos atrás, durante a gestão do então presidente da República. A meta era fazer o que necessário fosse para elevar uma meia dúzia de empresas nacionais à categoria de «campeãs».

Se considerarmos que nossos mandachuvas vêm dando maior importância a ações de marketing político do que a diretivas de longo prazo, faz sentido. A embalagem tornou-se mais importante que o conteúdo. Nossos ingênuos dirigentes acreditaram que, se pudéssemos mostrar ao mundo algumas empresas «campeãs», a cortina de fumaça encobriria as mazelas que se ocultam por detrás.

Na mesma linha de pensamento, o governo brasileiro fez das tripas coração para conseguir acolher os Jogos Olímpicos e a fase final da Copa do Mundo. Se esses grandiosos eventos pudessem coincidir com a eclosão de firmas brasileiras gigantescas, o milagre da transfiguração imediata estaria completo. Daríamos ao mundo a impressão de um País rico, dinâmico, feliz, digno de admiração.Construção 1

Na entrevista concedida ao Estadão, o presidente do BNDES reconhece ― ainda que com meias palavras ― que o potencial de nossas maiores empresas ainda não lhes permite galgar os degraus da fama planetária. Para quem tiver preguiça de ler a entrevista inteira, recomendo dar uma olhada na 13a. pergunta feita pelos repórteres. E, naturalmente, na resposta do entrevistado.

Quanto aos JOs e à Copa-14, continuamos torcendo para que os que aqui vierem não se assustem demais com a realidade que encontrarão. Mas não se pode garantir. Milagre, ninguém faz.

E pensar que, enquanto os amigos do rei podem contar com o apoio e os préstimos de nosso principal banco de fomento, tantos pequenos empresários brasileiros sofrem o inferno de uma burocracia sufocante e de nossos impostos escorchantes.

Dá muita pena ver tanto potencial desperdiçado. Não me cansarei nunca de repetir que, para construir um edifício sólido, há que fincar alicerces robustos. Não se começa pelo telhado.

Saco vazio não para em pé. Não se vive de vento nem de aparência.

A imagem do Brasil

José Horta Manzano

A imagem do Brasil no exterior vai sofrer um baque estes próximos anos.

Os turistas e os jornalistas que visitarão o País por ocasião da Copa das Confederações, da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos não são extraterrestres nem super-homens. São gente como você e eu.

Serão milhares de pessoas a constatar in loco o descaso do povo e de suas autoridades, a feiura e a ineficiência de nossas instalações, as desigualdades sociais escancaradas pelos helicópteros particulares cruzando ares poluídos por sobre pedintes maltrapilhos. Verão centros comerciais onde a polícia impede a entrada de bandidos. Verão também favelas onde bandidos impedem a entrada da polícia.

São coisas às quais os brasileiros já não prestam atenção, acostumados que estão a vê-las todos os dias. Os turistas se assustarão. Os jornalistas redigirão suas reportagens com os olhos impregnados por imagens que, a eles, não hão de escapar.Ponte quebrada

Um edifício resistente tem de ter estruturas sólidas. Nossa modernidade é de aparência, não tem fundamento. A Instrução Pública, que começou a perder qualidade nos anos 70, chegou hoje a um estado de descalabro. Escolas ditas superiores continuam a conferir diplomas a semiletrados.

Políticos populistas e despreparados dirigem o circo. As medidas tomadas não visam necessariamente ao bem-estar público. Os mandachuvas valem-se continuadamente de molecagens, de artimanhas e de “geniais” jogadas de marketing com o objetivo de satisfazer sua vaidade e seus interesses pessoais. O povo? Ora, o povo…

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A Folha de São Paulo traz um informe que ilustra perfeitamente o desmazelo que, de tão habituados, já não enxergamos. Que não se nutram falsas esperanças. Nada disso passará despercebido a olhos estrangeiros.

A reportagem traz imagens da passarela que serve ao Aeroporto de Congonhas, um dos mais movimentados do País. É a ponte que, simbolicamente, liga a mais rica metrópole brasileira ao resto do Brasil e ao mundo. Serve de cartão de visita para quem chega à megalópole tropical. Vale a pena dar uma conferida. Aqui e aqui.

A série de fotos mostra o viaduto, já em estado de quase ruina em 2004. Nove anos depois, novas fotos provam que tudo pode piorar. Até o que já estava muito mal.

Resta-nos invocar São Cristóvão, o patrono dos viajantes, para que, ao desabar, a estrutura não atinja nenhum vivente.

Vexame anunciado

José Horta Manzano

Quanto mais importante for a pessoa, maior será o respeito com que a tratarão. Uma pessoa importante é vista como modelo. É às vezes até seguida como guru.

Como se costuma dizer, não existe almoço grátis: tudo tem sua contrapartida. O figurão importante tem de retribuir a deferência com que é tratado. Tem de dar o bom exemplo, mostrar o caminho certo a seus seguidores. Desgraçadamente, não é sempre assim que acontece.

Estádio Maracanã

Estádio Maracanã

A presidência da República é, sem sombra de dúvida, um cargo elevado. Foi ocupado, até recentemente, por um personagem peculiar. Esperto, soube explorar ao máximo o espírito paternalista que rege nossos costumes. Distribuiu mimos, presentes e agrados aos que o rodeavam. Se deu bons exemplos e deixou um rastro de conduta ética… a História não registrou.

Em contrapartida de sua prodigalidade para com os mais chegados, pôde sempre contar com uma corte fiel, formada por gente que, ao sair da sala do chefe, suponho chegasse a caminhar para trás, a fim de nunca dar as costas ao pater familias. Viveu seus anos de glória cercado por uma corte de áulicos, todos de olho firme nas vantagens pessoais que pudessem auferir da proximidade com o rei.

A palavra de ordem era nunca contrariá-lo. Por mais asneiras que ele dissesse ou cometesse, era importante sempre concordar, elogiar e aplaudir. Assim foi quando, em sua ingenuidade, o antigo presidente fez o que pôde ― e até o que não devia ― para conseguir que o Brasil fosse designado como sede da Copa do Mundo de futebol de 2014. Deve ter-lhe soado como a coisa mais importante que poderia ocorrer em nosso País.

Recuso-me a acreditar que, entre os membros da corte, não houvesse alguns mais instruídos e mais realistas. Esses, justamente, devem ter-se dado conta de que imensos problemas nos esperavam. Hão de ter entendido que o empreendimento esbanjaria o dinheiro de um povo que já não possui muito. Podem até, sabe-se lá, ter percebido que aqueles bilhões todos poderiam ser mais bem empregados em aperfeiçoar nossa decrépita infraestrutura. Devem ter sentido que aquela dinheirama seria mais rentável se investida na Instrução Pública. Mas assim mesmo, ai!, aplaudiram a genial ideia do guia. Como é que ninguém tinha pensado nisso antes?

Só os tolos acreditaram que a organização de tal evento se faria sem trapalhadas, trambiques, erros e contratempos. Só por grande ignorância ou pesada má-fé poderia alguém acreditar que as coisas iam funcionar no Brasil da mesma maneira que costumam funcionar em país organizado. Sabemos que não é assim.

Um exemplo? Em 2011, um ano antes do início dos Jogos Olímpicos de 2012, Londres já estava dando os retoques finais à estrutura que ia receber o evento. Tudo estava praticamente pronto.

Estádio Corinthians

Estádio Corinthians

Em 2013, a um ano da Copa do Mundo e às portas da Copa das Confederações, a triste realidade tupiniquim vai-se encancarando. Estádios não ficarão prontos. Linhas de transporte expresso não foram construídas. A infraestrutura aeroportuária continua na mesma indigência dos tempos do “relaxa e goza”.

E pensar que esse investimento poderia ter sido destinado a elevar o nível do ensino público do País, melhor maneira de despachar para a lata de lixo da História o vexaminoso sistema de quotas.

Enquanto sonhamos com dias melhores, vamo-nos preparando para o fiasco. Aos olhos do mundo, passaremos do estatuto de republiqueta de bananas direto para o de ex-país emergente.

O Estadão nos dá conta do desastre que se prepara. Aqui.

A Folha de São Paulo vai pelo mesmo caminho. Aqui.

Vamos ajudar a Fifa

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que o exemplo vem de cima. Parece-me uma evidência, de baixo é que não poderia vir. Outro dito popular ― adoro ditados e provérbios ― afirma que quem semeia vento colhe tempestade. Em geral, é o que acontece.

Há corrupção no futebol em vários países! Que surpresa! O correspondente do Estadão deu a inacreditável informação, publicada na edição online de 17 de janeiro. Na mesma linha, seguiram o Globo, Terra e outros sites noticiosos.

Todos relatam que a Fifa, um dos organismos mais endinheirados do planeta, precisa de ajuda para coibir a propagação da corrupção. É mais ou menos como se uma raposa, presa num galinheiro, pedisse ajuda às galinhas para escapar.

Ora, pois. Não é segredo para ninguém que a Fifa, além de ser dona de cofres abarrotados, é composta de elementos altamente suspeitos de corrupção. Não falo de ladrões de galinhas, mas de raposas, de criminosos de alto coturno. Daqueles cujo balcão de negócios faria empalidecer de inveja certos congressistas tupiniquins. Dos mais graduados!Corrupção

Pouca gente arriscaria a pele para assaltar a pobre vendinha de seu Zé. Já onde há dinheiro, a tentação é, evidentemente, maior. Para eliminar ― ou, pelo menos, reduzir ― a corrupção no «esporte das multidões», a retidão tem de começar no topo. O exemplo vem de cima. Uma associação (mais que) suspeita de pesados malfeitos não tem moral para exigir de seus afiliados aquilo que não exige de si própria.

Mas que se aquietem todos, nada de pânico! A corrupção, os árbitros vendidos, as trapaças em todos os escalões do futebol ainda têm dias risonhos à frente. Estamos ainda em plena semeadura de vento. As borrascas de verdade só virão mais tarde.

Falando nisso, ainda não consegui entender por que raios o Catar (ô nome esquisito, prefiro Qatar, mais exótico) foi designado para acolher a Copa do Mundo de 2022. Se o Japão e a Coreia, poucos anos atrás, tiveram de unir forças para abrigar uma evento de tal magnitude, como é possível que alguns quilômetros quadrados de deserto possam montar a tenda, receber o circo e garantir o espetáculo? Tudo indica que, nessa história, os palhaços somos nós.

Onde tem fumaça, tem fogo. Tá ruço.

Em boca fechada…

José Horta Manzano

Artigo da Folha online de 29 de janeiro nos dá conta de uma palestra proferida por um coronel. Em sua fala, o militar exprime temor de que ataques cibernéticos possam «acabar com a Copa do Mundo de 2014».

Tenho dois reparos a fazer. O primeiro vem perfeitamente expresso por um velho provérbio italiano: «certe cose no si dicono, si fanno», certas coisas não se dizem, se fazem.Psiu 1 Nós outros temos também um refrão, muito popular, que dá o mesmo recado. Costumamos dizer que «o segredo é a alma do negócio». No frigir dos ovos, os dois ditados vão na mesma direção. Lá, como aqui, a sabedoria popular costuma pairar acima de atitudes impensadas.

Anunciar aos quatro ventos que um hipotético malfeito pode até vir a realizar-se não ajuda ninguém, nem esconjura o perigo. Pelo contrário, pode até dar más ideias aos que, mal-intencionados, não tinham pensado nisso. É atitude contraproducente.

Certos riscos podem ― e devem ― ser sopesados, avaliados, considerados no âmbito de comitês, círculos e departamentos criados justamente para esse fim. Não é prudente subir ao telhado e gritar ao povo o nome do perigo e a estratégia que será usada para combatê-lo. Pouco estímulo já basta para que mentes malfazejas passem do plano ao ato.

Piratas, que antes arriscavam a pele ao atacar caravelas a fim de subtrair-lhes o precioso carregamento, hoje se ocultam por detrás da tela anônima de seus computadores. E podem ser tanto ou mais maléficos do que foram seus predecessores. A ver meu, a prudência impõe a discrição em assuntos sensíveis como esse de que o coronel tratou.

O segundo reparo que tenho a fazer é ainda menos alentador. Tantos são os possíveis ― e altamente previsíveis ― problemas que atropelarão nosso País durante a Copa e os Jogos Olímpicos, que a venda de bilhetes falsos parece um mal menor, se é que assim me posso exprimir.

Psiu 2Logística, acomodação, alimentação, intercompreensão, criminalidade corriqueira não dependem de especial malevolência de mentes tortuosas. São empecilhos que já estão aí e que atormentam nacionais e estrangeiros a cada dia. Com toda certeza, estorvarão também as manifestações esportivas previstas. A fala do militar só veio borrifar um pouco mais de combustível às brasas que dormitam.

Às vezes, é melhor trabalhar calado.

Absoluto e relativo

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 agosto 2012

Tudo é relativo. Está aí uma daquelas frases feitas que todos usamos regularmente. De fato, números e quantidades não têm valor intrínseco. Se lhe perguntarem, assim de chofre, sem preâmbulos: oito é muito? Qualquer resposta sua será puro chute. Oito o quê? Oito pessoas num elevador com capacidade máxima para quatro é muito, evidentemente. Oito assistentes num teatro lírico previsto para mil espectadores é, claro, pouquíssimo.

Assim mesmo, grandes quantidades e grandes números impressionam, ainda que só tenham existência no papel e estejam fora da cogitação de mortais comuns. As pessoas mais abastadas possuem fortunas estimadas em dezenas de bilhões. Bilhões em qualquer moeda, tanto faz. Muito poucos, ainda que espremamos as meninges, seremos capazes de imaginar a diferença entre possuir 30 bilhões e ser dono de 50 bilhões. É a mesma coisa. No entanto, mesmo sem conceber exatamente o que significam esses números, tendemos a respeitá-los.

Nós, brasileiros, somos propensos a admirar grandes números absolutos sem nos perguntar se, no frigir dos ovos, são tão significativos quanto parecem. Acontece com frequência que, relativizados e trocados em miúdos, certos números impressionantes deixem de ser tão grandes como pareciam.

Tenho visto muita gente, peito inflado, afirmar que somos a sexta economia do planeta. Dito assim, sem referencial, parece deveras impressionante.Mas o que geralmente se omite (ou não se sabe) é que nosso país ocupa o quinto lugar em população. Logo, nossa economia deveria ser a quinta, não a sexta. Se ainda lá não chegamos, não há razão para ufanismo. No dia em que nossa economia for não a sexta, nem a quinta, mas a quarta, aí sim! Será chegada a hora de abrir aquele champanhe que jaz no fundo da geladeira há anos.

Vivemos estes dias os Jogos Olímpicos. O mundo está impressionado com o número de medalhas obtidas pela China. Mas relativizemos, caro leitor, relativizemos. Com a população que tem, o país asiático teria de obter 4,3 vezes a quantidade de galardões obtidos pelos EUA. E mais de nove vezes as medalhas russas. E mais de 20 vezes as francesas. Dificilmente alcançará tal excelência.

Falando em Olimpíadas, cá entre nós, quem podia bem fazer um esforçozinho é nosso País. Principalmente em vista dos próximos jogos, no Rio. Nosso melhor desempenho olímpico até hoje — pelo critério de classificação com relação ao número de habitantes — deu-se nos Jogos de Pequim, de 2008, quando ocupamos o 68° lugar entre 88 países medalhados. Em 2004 tínhamos ficado em 67° lugar entre as 74 nações condecoradas. Pouca coisa, não?Absoluto e relativo image

Mas nem tudo é negativo, há que ser otimista, que faz bem ao fígado. Há pouco realizou-se a Eurocopa 2012, uma espécie de Copa do Mundo sem Brasil e Argentina. A Polônia e a Ucrânia foram encarregadas da organização. Antes do torneio, muita gente estava preocupada. Diziam que nenhum dos dois países estava preparado para empresa tão importante. Temia-se o caos. No final, o que é que se viu? Os milhões de telespectadores nada viram além de filmes de propaganda turística, olas, vistas espetaculares dos diferentes estádios tomadas de helicóptero. E, naturalmente, as partidas, que era o que realmente interessava. Será que a organização estava perfeita? Será que os visitantes conseguiram se locomover em trens decentes e em aviões pontuais? Será que a fluência em inglês dos garçons de restaurante deixou a desejar? Ninguém falou nisso. Ninguém ficou sabendo. O que ficou na memória foi o essencial: os jogos e seus resultados.

No Brasil, muitos andam preocupadíssimos com a imagem que o país vai dar daqui a dois anos, quando do próximo Campeonato Mundial de Futebol. Preocupação boba. Assim como ocorreu na Polônia e na Ucrânia, os bilhões de telespectadores que acompanharão os embates não verão senão filmes de propaganda turística, olas, vistas espetaculares dos diferentes estádios tomadas de helicóptero. E, naturalmente, as partidas. As agruras — se houver — ficarão circunscritas à memória individual daquela meia dúzia de visitantes que ousarão vir ver as coisas in loco.

Longe de mim a intenção pérfida de incentivar os responsáveis pela organização da Copa 2014 a fazer corpo mais mole do que já estão fazendo. Continuemos a trabalhar como se nos preparássemos para um julgamento severo. Mesmo se, no fundo, sabemos que não será assim. O marketing atual faz milagres. Ao mundo, só as maravilhas serão mostradas. Quem tiver de ganhar dinheiro ganhará. Como sabemos todos, o Brasil é uma festa.