A vergonha fumacenta

José Horta Manzano

Faz semanas que se alevanta a grita pelo impeachment do presidente da República.

Ontem, um Brasil atônito assistiu a um folclórico desfile de fumacentos calhambeques que vagamente lembravam tanques de alguma guerra do passado. Foi espetáculo grotesco capaz de envergonhar o inexistente exército da Costa Rica. Com isso, a temperatura subiu alguns graus.

Ato contínuo, o PDT, partido que já foi de Brizola e hoje é de Lupi, apresentou à PGR pedido de perícia e interdição do presidente Bolsonaro por incapacidade mental.

Erraram. O pedido certo era de interdição por burrice. Acertavam no milhar.

Ensaio geral?

arquivo pessoal deste blogueiro

José Horta Manzano

Este blogueiro, embora fosse bem jovem, já estava em idade de ouvir o zum-zum que correu a cidade na manhã de 1° de abril de 1964. Ouvir e escutar é uma coisa; entender é outra. Acho que, tirando os galardoados que tinham dado as ordens, ninguém entendia direito o que estava acontecendo. Nem mesmo – e principalmente – os que conduziam os brucutus.

Foi no fim da manhã que a voz correu e chegou até nós, povinho ignaro e sem importância. Falava-se em golpe de Estado. Como é que é? De novo? Mais um? Quem foi desta vez? (Sem ser corriqueiro, golpe de Estado não era algo que espantasse naqueles tempos.)

Numa época sem internet, sem redes sociais, com rádio transmitindo em cadeia única e com as raras tevês tocando música, as notícias se arrastavam a passo de tartaruga. Para nós, adolescentes, a novidade não fedia nem cheirava. A vida continuou, a escola pra quem estudava, o trabalho pra quem trabalhava.

Para os mais velhos, especialmente para os que se lembravam dos bombardeios sofridos pela cidade na Revolução de 1924, restou o temor de ver de novo gente sendo esmagada por bombas largadas por aeroplanos. Fora isso, como todos tinham na memória recente os movimentos de 1924, 1930, 1932, 1935, 1945 e 1955, esse não passava de um a mais.

Não foi senão algum tempo depois que nos ensinaram que aquilo não tinha sido um golpe de Estado, mas uma Revolução. Sei que, hoje em dia, pôr na mesma frase as expressões “31 de março” e “Revolução” causa frisson. Mas, na época, ninguém se abalou. Assim foi.

É claro que, “golpe” ou “revolução”, os acontecimentos da madrugada de 1° de abril de 1964 não surgiram do nada, resultado do mau humor de dois ou três generais que houvessem comido salada de pepino à meia-noite. O movimento estava fermentando fazia semanas, meses talvez. Naquela noite, amadureceu e estourou. Só que, como todo levante que se preze, germinou em silêncio, no escurinho dos quartéis, em conciliábulos para meia dúzia de iniciados. Para os demais, boca de siri.

Neste 2021, o capitão que imagina nos governar, sentindo que perde rapidamente o pouco apoio que tinha, determinou que manobras militares ostensivas se realizassem em Brasília, ao vivo e em cores, bem no dia em que o Congresso deve votar uma matéria ultrassensível. Todos interpretaram a exigência presidencial como expediente intimidatório sobre os parlamentares – e sobre a população. Uma espécie de “Quem manda no meu exército sou eu”.

Jair Bolsonaro ainda usava calça curta em 1964. Há de ser por isso que não se dá conta de uma verdade elementar: golpe de Estado não se anuncia de véspera, especialmente pondo brucutus no asfalto. Ele está assumindo um tremendo risco. Sem necessidade, está apostando no tudo ou nada antes da hora. Há dois caminhos possíveis. Só dois, não vejo mais nenhum.

Se os parlamentares se intimidarem com os canhões e votarem como deseja o capitão, ele vai conseguir alguns pontos. Não será o vencedor da guerra, mas terá ganhado uma batalha, o que lhe permitirá continuar no páreo.

Já se os parlamentares não ligarem a mínima para os canhões e derrubarem a medida tão desejada pelo capitão, este último terá perdido o pouco que lhe resta de moral. Todos vão ficar sabendo que o desprezo pelo presidente é tamanho, que nem brucutus no asfalto assustam mais ninguém.

Em matéria de golpe de Estado, não há ensaio nem ameaça – só a ação definitiva conta. E ela tem de ser única, imprevista, radical e certeira. Não há segunda chance.

Voto à antiga

Ascânio Seleme (*)

Beijo na cédula
Veterano mesário de eleições em São Paulo conta a história de um candidato a deputado federal que tinha muito apoio entre as mulheres porque era bonito, dono de grandes olhos verdes e um sorriso cativante. Era o jornalista e advogado Emílio Carlos, que perdeu alguns milhares de votos na sua primeira eleição porque as cédulas vinham borradas por batom de mulheres que beijavam o papel numa prova de ternura. O candidato acabou sendo eleito em 1946 e permaneceu na Câmara até morrer, em 1963. Pode parecer bobagem, mas a história mostra como era fácil anular votos bons num pleito com cédulas de papel.

Bruno Covas
Bolsonaro não foi o único a criticar o ex-prefeito Bruno Covas por ter vindo ao Rio com o filho assistir à final da Libertadores em meio a pandemia. A diferença é que o presidente o atacou depois de morto, para obter um ganho político. Assim é Bolsonaro. Um canalha que desrespeita os mortos e arremeda, rindo, doentes de Covid que não conseguem respirar. Não vale nada mesmo.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 7 agosto 2021.

Bolsonaro é a pedra no sapato

Fernando Gabeira (*)

Com um país tão interessante, não consigo ainda explicar por que tanta confusão converge para sua capital, Brasília.

Essa história da vacina da Davati, por exemplo, é um roteiro de chanchada. Um dirigente de empresa que recebe auxílio emergencial e um cabo da PM que não consegue pagar o aluguel resolvem oferecer 400 milhões de inexistentes vacinas AstraZeneca.

Usam um reverendo para se aproximar do governo. O reverendo é amigo de um homem que se diz super-homem. Sua entidade religiosa falsifica logotipos da ONU, e ele se diz embaixador da paz. Ungido por quem? Por outro reverendo, o famoso Moon. Sua grande missão diplomática foi ir a Israel para unir judeus e árabes, tarefa que, como todos sabemos, alcançou um perene êxito.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 9 agosto 2021.

Os primos ricos

Manchete de O Globo

José Horta Manzano

Há quem diga que boxe, uma variante do soco-inglês, não é esporte, é resquício de briga de neandertais. Há quem diga que nado artístico não é esporte, é balé. Há quem diga que hipismo não é esporte, pois quem dá duro é o cavalo, não o homem. Há ainda quem diga que skate (ou esqueite, forma ignorada, mas que aparece no dicionário) também não é esporte, que é brinquedo de pré-adolescente.

Seja como for, todas essas modalidades são reconhecidas pelo Comitê Olímpico Internacional e têm o direito de aparecer nos Jogos Olímpicos. Portanto, se reclamações há, não briguem comigo. Convém escrever uma cartinha para o Comitê, sediado em Lausanne (Suíça).

Falando em Lausanne, é cidade pela qual tenho carinho, por ter lá passado meus verdes anos. Mas isso já faz muito tempo e não vem ao caso neste momento.

A manchete que reproduzo acima me deixou um tanto surpreso. Informa que o COB, entidade encarregada de supervisionar o esporte olímpico no Brasil, planeja injetar mais dinheiro no skate. O mistério dessa lógica me parece difícil de desvendar.

Metade das 6 medalhas de prata do Brasil foram conquistadas por skatistas. Com ou sem dinheiro do COB, esse esporte já desliza sozinho sobre suas rodinhas. Acho que o Comitê devia mais é se preocupar com os parentes pobres, aquelas modalidades em que nossos atletas tiveram participação modesta ou nula.

No atletismo, há dezenas de modalidades em que nenhum brasileiro participou. No ciclismo, idem. Há ainda a escalada, a esgrima, a ginástica acrobática, o tiro esportivo e com arco – cada um deles comportando diferentes modalidades.

Se o COB, além de colher os louros da vitória, tem real intenção de trabalhar pelo desenvolvimento do esporte no Brasil, devia cuidar dos parentes esquecidos, não somente dos primos ricos.

Umas bobagens e outras

Carlos Brickmann (*)

As bobagens
Desemprego de quase 15% da população? Bobagem: o ministro pôs a culpa no IBGE. Quase 600 mil mortos na pandemia? Bobagem: o ritmo se reduziu, morrem menos de mil por dia, no máximo o equivalente a cinco desastres do avião da TAM em Congonhas. Preços da comida multiplicados? Bobagem: quem comia carne nem lembra mais como era, quem comia frango come ovo, quem comia ovo irá, um dia desses, receber a nova Bolsa Família.

O Governo tem coisas mais importantes a fazer: por exemplo, condecorar a primeira-dama Michelle Bolsonaro com a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz, destinada a pessoas com atuação destacada “no campo das atividades científicas, educacionais, culturais e administrativas” que obtêm “resultados benéficos à saúde física e mental dos brasileiros”. Além de sua esposa, Bolsonaro condecorou seus ministros da Educação, Comunicação, Turismo, Relações Exteriores. Outros beneméritos homenageados são os presidentes da Câmara e do Senado. E que é que fizeram para receber esta bela homenagem, com o nome de Oswaldo Cruz, pai da vacinação no Brasil?

O ministro do Turismo, por exemplo, levou cinco assessores para reunião internacional, onde havia três vagas para o Brasil, incluindo a dele. Um bom passeio é benéfico à saúde física e mental de qualquer pessoa, e os caronas são brasileiros. Foi este ministro que, na sanfona, fazendo a trilha sonora de Bolsonaro, destroçou a Ave Maria, alegrando quem odeia música.

E Michelle?
A primeira dama é um motivo de orgulho para seu marido presidente. Pois não é que, percebendo como o frio maltratava os moradores de rua, foi à luta e conseguiu 148 agasalhos para doar aos pobres? Como o passarinho jogando água com o bico num dos incêndios da Amazônia, ela fez sua parte. Foi de coração, fez o melhor que pôde. E conseguiu 148 agasalhos (número oficial) sozinha, sem ter sequer um Queiroz para ajudá-la. Tudo sozinha, apenas com os meios de que dispunha: carro oficial, seguranças e motorista.

A patriota
É a terceira condecoração que a esposa de Bolsonaro recebe em seu Governo. Já ganhou a Medalha da Vitória, que normalmente é concedida a quem contribuiu para divulgar a coragem dos soldados que combateram o fascismo na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, participou de conflitos internacionais defendendo o Brasil ou integrou missões de paz. Foi agraciada com a Ordem do Mérito da Defesa, destinada a homenagear quem prestou “relevantes serviços ao Ministério da Defesa ou às Forças Armadas do Brasil”. E agora recebe a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz, categoria Ouro, a mais alta.

O caro leitor não sabe o que foi que Michelle fez para receber as medalhas? Vá pesquisar, uai! Este colunista é que não vai combater sua ignorância sobre o tema – até porque também não sabe. O fato é que Michelle tem mais medalhas do que a olímpica Rebecca.

Inculta Flor do Lácio
O governador João Doria inaugurou o Museu da Língua Portuguesa (uma beleza: bem melhor do que o que pegou fogo, e que já era muito bom) e convidou todos os ex-presidentes da República, mais os presidentes de todos os países de língua portuguesa. Marcelo Rebelo, de Portugal, e Jorge Fonseca, de Cabo Verde, vieram. Angola mandou o ministro da Cultura. Temer e Fernando Henrique compareceram. Sarney teve um problema de saúde. Bolsonaro, Lula, Dilma, Collor? Esse negócio de cultura é chato!

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Imunização coletiva

José Horta Manzano

Ano e meio depois do estouro da pandemia de covid, começam a aparecer estudos de larga escala, baseados na observação da evolução de grande número de casos num longo período. Um deles acaba de ser publicado na Suíça.

No Brasil, a busca pela vacinação tem ocultado aquela parte da população que se recusa a estender o braço. Por certo há, em nosso país também, um certo número de ‘antivax’ obstinados – o maior deles sendo justamente o presidente da República. Mas a massa dos que correm atrás da vacina ainda tem gritado mais alto.

Nos países europeus em que a campanha de vacinação está mais adiantada, os ‘antivax’ já começam a sobressair. Há os que, apesar de um bilhão de humanos já terem sido vacinados, ainda declaram ter receio de ser ‘cobaias’. Há os que, emboram tomem alegremente vacina antimalárica quando viajam a um país africano, não querem saber da anticovídica. Há ainda os que simplesmente têm medo de injeção.

E há os piores, aqueles que são burros e egoístas ao mesmo tempo, e que esperam ser protegidos pelo resto da população. São como o capitão, que não perde ocasião de repetir que “será o último a ser vacinado”. Botam fé no conceito da imunização coletiva, ou “imunidade de rebanho”, como preferem. Em sua fantasia, imaginam que, assim que a maior parte dos habitantes estiver imunizada, os não vacinados vão acabar sendo “contaminados” pela vacina alheia, sem nem mesmo precisar estender o braço.

Estão iludidos. Não é assim que funciona. O estudo suíço comprova que as pessoas não vacinadas têm risco 80% maior de contrair a covid. Como exemplo, na região do país onde ele foi levado a cabo, nas 2 últimas semanas de julho foram declarados 1030 casos novos de covid. Dessas 1030 pessoas, só 9 haviam sido vacinadas – as 1021 restantes não tinham recebido nenhum imunizante. Em outros termos, de cada 100 novos infectados, 99 não tinham sido vacinados. Isso mostra também que os benefícios da vacinação da maioria não “contaminam” nem se propagam aos demais.

Constata-se que essas vacinas anticovid, embora recentes, têm eficácia excepcional. Mas fazer novena não basta: precisa estender o braço e receber a picada. As palavras do chefe da Brigada Científica Suíça Anticovid são categóricas:

“Se os que resistem a se vacinar estão contando com a imunização coletiva pra escapar, estão enganados. Mais cedo ou mais tarde, todos eles apanharão a covid.”

Credulidade

José Horta Manzano

Com o passar dos anos, a gente vai amadurecendo e perdendo certas ilusões. Perder ilusões é chato. O mundo fica mais terra a terra, pão pão queijo queijo. O lado bom disso tudo é que a gente acaba ficando mais blindado contra algumas armadilhas.

Fico impressionado com a credulidade de tanta gente fina. A historinha que li hoje é divertida. Antes de mais nada, precisa saber que Itu, situada a 100km de São Paulo, é conhecida como a cidade dos exageros. Não sei bem quem foi o iniciador dessa legenda urbana, o fato é que funciona como apelo turístico. Todos sabem que Itu é o lugar onde tudo é grande.

Estes dias, um jovem resolveu fazer uma brincadeira. Postou nas redes uma foto com seu cartão de vacinação. Disse que tinha ido a Itu tomar vacina e que lhe tinham dado um cartão enorme. Na montagem, realmente o documento cobre metade do corpo do rapaz. E não é que muita gente acreditou?

A postagem ‘viralizou’, como se diz. Pelo que conta o jovem, “algumas pessoas disseram até que dava pra ter comprado mais vacina com o valor gasto na impressão da carteira de vacinação”.

Pode um negócio desses? Dá até medo de ver a que ponto o povo acredita em tudo o que contam. É comovente, mas também inquietante. A gente começa a entender a razão pela qual tanta gente bota fé nas lorotas do capitão.

Como é que se faz pra ensinar à juventude que não convém acreditar em tudo o que se vê, nem em tudo o que se ouve ou lê? É urgente encontrar solução.

Do jeito que está, vamos direto pro buraco. Com fábricas de notícias falsas brotando por toda parte (inclusive e principalmente no Planalto), a juventude vai estar cada vez mais desorientada.

Que há de novo?

José Horta Manzano

Bolsonaro está se comportando exatamente como aquele louco de hospício surtado, que, mesmo contido por camisa de força, continua berrando que é Napoleão. Agora, algemado por inquérito aberto pela superior magistratura, continua a espernear, afirmar que tem provas de fraude nas eleições, ameaçar botar “seu” exército nas ruas de brucutu e tudo, sublevar o povo, incendiar o país. Blá blá blá. É reprise de filme antigo.

Essa é a parte folclórica. Que o capitão não bate bem da bola, já é de conhecimento geral. Que ele não tem prova nenhuma de fraude em eleição, o Brasil já entendeu faz tempo. Que ele não vai botar exército algum em rua nenhuma, estamos carecas de saber. Então, que há de novo?

Nesse dramalhão, o que começa a alterar a disposição das peças no tabuleiro é a entrada em cena de novo personagem. Até agora, o presidente tinha estrebuchado sozinho, ator único de monólogo incoerente. Só que o palco era defeituoso e os únicos coadjuvantes eram acólitos tipo Pazuello. A alta magistratura do país, representada pelo STF e pelo TSE, decidiu mostrar a que veio, e botou pé no palco. Entrou firme. Mandou logo um “alto lá!” que foi ouvido ‘do Oiapoque ao Chuí’, como se dizia. Já não era sem tempo.

Não sei quais serão as consequências, no Brasil, do aparecimento de um protagonista de peso. Por aqui, o efeito foi imediato. E positivo. Logo de manhã, tanto a rádio suíça quanto a francesa abriram o jornal falado com a notícia do dia. Em meio ao relato de vitórias nos Jogos Olímpicos, todos aqui ficaram sabendo que Monsieur Bolsonaro está sendo investigado pelos persistentes ataques ao sistema eleitoral de seu país”.

À primeira vista, não parece um crime repugnante, como os que outros dirigentes autoritários cometem. Nada a ver com o russo Putin que envenenou um oponente, com o bielo-russo Lukachenko que sequestrou avião de linha pra apanhar um dissidente, com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita que assassinou um jornalista bisbilhoteiro no recinto de um consulado do país no estrangeiro.

Assim mesmo, repugnante ou não, crime sempre é crime. É reconfortante ver que o mundo está começando a entender que, apesar dos esforços de Bolsonaro e seus ministros para rebaixar nossa condição, nosso país não se tornou um pária entre as nações, nem uma republiqueta bananeira.  Nem há de se tornar.

Continuamos dando provas de que nossa democracia está viva, que é sólida e que funciona. Ainda temos instituições para contrapor a aprendizes de ditador. Alguém imaginaria Putin, Lukachenko ou o príncipe saudita “sob inquérito” aberto pela mais alta magistratura do país deles?

Ânimo, Brasil decente! Nem tudo está perdido!

Alfa, Beta, Gama, Delta

José Horta Manzano

Antes de começar, um preâmbulo. Palavras como mutação, mutante, mutatório, mutabilidade estão no dicionário. Até mutacionista, mutacismo, mutável e mutança estão lá. São substantivos e adjetivos. Mas o principal, que é o verbo, não aparece. Qual é a qualidade do que é mutatório? E do que é mutável? E daquilo que sofre mutação? Falta o verbo.

Não vejo por que razão não se usaria o verbo mutar. Ainda mais nestes tempos de pandemia, em que o vírus evolui constantemente, o verbo anda fazendo muita falta. Dizem que é o falante que faz a língua, pois não? Então vamos nos apropriar do verbo mutar antes que algum aventureiro lance mão.

Uma das características de todo vírus é mutar constantemente. Desde que surgiu a primeira cepa do Sars-Cov-2 (o nome oficial do vírus da covid), já foram registrados milhares de mutações. Felizmente a quase totalidade delas não provoca alterações fundamentais na composição do vírus, nem diminui a eficácia das vacinas.

Vez por outra, porém, uma mutação gera uma cepa mais perigosa. Logo que surgiram, as primeiras ficaram conhecidas pelo nome do país ou da região onde tinham sido detectadas. Tivemos a variante britânica, a brasileira, a indiana, a sul-africana.

Para evitar a estigmatização do local de descoberta, a OMS decidiu atribuir a essas variantes uma letra do alfabeto grego. De fato, apontar sistematicamente o nome do lugar ou do país poderia até inibir a notificação de novas cepas. Ninguém quer ver o nome de seu país associado a um inimigo mortal da humanidade.

A OMS classifica as mutações pelo critério de periculosidade. Atualmente, quatro variantes estão na lista das mais preocupantes: Alfa, Beta, Gama e Delta. Alfa é a antiga variante britânica. Beta foi detectada na África do Sul; Gama costumava ser conhecida como variante de Manaus ou do Brasil; Delta é a variante indiana – atualmente a mais inquietante.

A maior preocupação das autoridades sanitárias mundiais é que o vírus mute mais uma vez e dê origem a uma variedade resistente à vacinação. Já pensou? Teria de começar tudo de novo: desenvolvimento de nova vacina, testes, aprovação pelas Anvisas do mundo todo, plano de vacinação, máscaras, distanciação social, confinamento. Tudo de novo. Cruz-credo!

Daí a insistência para que cada indivíduo mantenha comportamento prudente e responsável, com vistas a limitar o risco de alastramento da doença. Quanto menos o vírus circular, tanto menor será o risco de aparecer alguma cepa perigosa. Será melhor para todos nós.

Já foram detectadas outras variantes, felizmente menos virulentas. Todas têm nomes do alfabeto grego: Épsilon (EUA), Zeta (Brasil), Eta (diversos lugares), Teta (Filipinas), Iota (EUA), Kappa (Índia), Lambda (Peru). Espera-se que os vírus resultantes dessas variantes não mutem de novo para criar cepas ainda mais perigosas. Todo cuidado é pouco, que nada é garantido.

Uma preocupação colateral se refere ao alfabeto grego. Só faltam 13 letras para o Ômega, a última letra. Se chegarmos lá (o que ninguém espera), como é que fica? Por favor, cartas para a OMS, Avenue Appia 20, Genebra.

Semipresidencialismo?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 julho 2021

Nestes tempos de desordem climática, o planeta vem sendo castigado por fenômenos extremos. Calor escaldante onde costuma fazer frio, inundação onde pouco chove, geada em terra tropical – nunca se sabe quais surpresas desagradáveis estão por vir. Os alemães, normalmente tão habituados a ver chover, foram surpreendidos este mês por precipitações diluvianas. Tanto choveu e por tanto tempo, que campos se encharcaram, rios transbordaram e casas ruíram. Ruas viraram rios e estradas foram tragadas. Cerca de 200 pessoas perderam a vida, um desastre nacional.

Impôs-se evitar semelhante tragédia no futuro. Mas é impossível segurar as forças da natureza. Se, em tempos normais, já não era simples, numa era de desarranjo atmosférico ficou ainda mais difícil. Já que não se pode afastar o perigo, o jeito é estar atento e prevenido. Ficou combinado que o método tradicional de alerta por toque de sirenes será pouco a pouco aposentado. O novo sistema, mais em conformidade com nosso tempo, alertará a população por SMS. Com essa providência, todos os cidadãos serão avisados, onde quer que estejam, com mais antecedência e maiores detalhes. Quando não se pode parar a chuva, convém abrir o guarda-chuva.

O capitão que, um tanto desastradamente, o povo escolheu para dirigir o Brasil tem soprado nas brasas desde o dia em que tomou posse do cargo. Manipulando, sôfrego, a pá e o bafo, ele tem alimentado o braseiro: a pá leva o carvão; o bafo calibra o sopro. Qual flama olímpica sem brios, o foguinho vai virando fogueira que periga incendiar o país. Agora, que todos estão cientes de suas intenções insurrecionais e de seus métodos putschistas, o sinal de alarme começa a soar.

Soluções para pôr fim ao problema têm sido tiradas do chapéu, uma atrás da outra, como se coelhinhos fossem. A proposta mais recente é a adoção do semipresidencialismo, caminho que o Brasil ainda não trilhou. Embora aventada há pouco, a hipótese já conta com apoio de muita gente fina. O sistema vigora há décadas na França e em Portugal. Pode-se até, num futuro, pensar em implantá-lo entre nós. Agora, não. A afobação não é boa conselheira. Solução adotada no ponto alto de uma crise periga parecer deslocada quando a crise desincha.

O problema urgente do Brasil, que se saiba, não está no sistema de governo. Não é o regime que está transtornando o andamento da vida nacional. Nosso distúrbio nacional é provocado por um elemento perturbador, que todos conhecem de sobejo: Jair Bolsonaro. Com seu comportamento irresponsável, o presidente responde sozinho pela gravidade da disfunção.

Implantar novo regime para curto-circuitar um mau dirigente equivale a caçar passarinho com canhão, uma medida extremada, desnecessária e de eficácia duvidosa. Não precisamos disso. É o tipo de decisão de consequências duradouras, mas sem garantia de favorecer nosso avanço civilizatório. Não é mudança que se deva fazer de afogadilho. Tudo o que é feito às pressas tende a ser mal costurado. Uma decisão desse calibre, mal ajambrada, pode nos castigar por muito tempo. Além do mais, todos sabem que o capitão é daquele tipo de dirigente com potencial de pôr tudo a perder, seja qual for o regime. Nosso ordenamento jurídico prevê medidas de contenção para refrear arrebatamentos do presidente – inclusive para apeá-lo do cargo. São medidas amplamente suficientes. Basta usá-las.

Há quem acredite que uma tentativa de “autogolpe”, desferido pelo presidente, poderia até dar certo. Não é meu caso. Todos conhecem o caráter movediço, imprevisível e insidioso de Bolsonaro. Com exceção de seus familiares, ninguém pode atestar que terá lugar garantido à mesa dos vencedores em caso de aventura putschista vitoriosa. Isso vale até (e principalmente) para seus assessores mais próximos, civis ou militares. Os que apoiam o presidente por motivos venais devem fazer as contas; chegarão à conclusão de que o risco de se darem mal é maior que o sonhado butim.

Adular o capitão sai barato. Já acompanhá-lo numa louca empreitada são outros quinhentos. Ninguém é besta.

Os milicos que se cuidem

Ruy Castro (*)

Foi num dia de semana à tarde, em 1970, auge da ditadura —me contaram. Um garoto de seus 15 anos ganhou uma flautinha de plástico e foi à praia com ela. Sentado na areia, numa Ipanema vazia, tentou tirar o Hino Nacional —afinal, ouvia-o todo dia. Ao extrair algo parecido com a frase inicial, percebeu uma sombra entre ele e o Sol. Olhou para cima e viu um sujeito forte, bronzeado, de cabelo reco. O homem rugiu: “Por que está tocando isso?”. O garoto, surpreso, ficou mudo. Não havia resposta. O homem emendou: “Estou ali naquela barraca escutando tudo. Se continuar com gracinha vai se dar mal!”. Um vendedor de mate sussurrou para o garoto: “Coronel do Exército”.

É típico das ditaduras se apoderarem dos símbolos nacionais. O Brasil de Médici era uma diarreia verde-amarela. Uma geração de escolares foi submetida a anos de bandeira e hino diários, de pé, no pátio do colégio. Talvez por isso, um garoto de cabelo comprido tocando o Hino Nacional na praia pudesse ser um deboche, uma contestação.

O governo Bolsonaro não é uma ditadura – ainda. Mas, em algumas matérias, já se comporta como. Assenhorou-se, por exemplo, das cores nacionais e de conceitos como “povo”, “democracia” e “liberdade” e da expressão “homem de bem”. São “homens de bem” os que, contra a corrupção do PT, apoiam o extermínio de brasileiros pela Covid, promovido por ele.

Mas, agora, Bolsonaro se superou. Apropriou-se daquele que se considera o detentor do monopólio dos símbolos – o próprio Exército. Do mais tosco soldado ao mais empafiado general, Bolsonaro embolsou-os com benesses, empregos, cargos e uma ideologia intangível, em nome da qual passou a ditar-lhes o regulamento e fazê-los abdicar até de uma de suas cláusulas pétreas: a disciplina.

Os milicos que se cuidem. Um dia, ainda veremos Bolsonaro de dedo no nariz de um deles por tocar o Hino numa flautinha de plástico.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Desleixo

José Horta Manzano

Para os saudosistas, volta e meia a tevê francesa passa algum trecho de programa dos primórdios da televisão, programas dos anos 1950 ou 1960. As imagens são em preto e branco e não têm a nitidez das atuais, mas são retrato saboroso de uma época.

A construção da identidade de uma nação se faz a partir desse tipo de memória. Sem a imagem, ficamos na conjectura. Aprender com o passado, quando não há desenho, nem estampa, nem figura, fica complicado – especialmente para as jovens gerações, que nasceram num mundo de imagens.

França, Alemanha, Inglaterra, Suíça, Itália e os demais países da Europa ocidental têm todo o acervo de programas televisivos gravado e conservado desde que os primeiros aparelhos de videotape permitiram, lá pelo final dos anos 1950. O mesmo vale para todas a emissões de rádio, devidamente registradas e arquivadas desde que os meios técnicos permitiram a realização de gravações.

Quando a gente vê imagens com cenas de rua de Londres, Paris e Berlim de um século atrás, é de ficar babando. Há quantidade desses filmes que mostram a vida como ela era, não só nas cidades, mas também nos vilarejos. Das nossas principais cidades – que, no entanto, já eram grandinhas no começo do século XX – não há praticamente nada. A conservação da memória através da imagem nunca foi uma preocupação nacional.

E tudo indica que continua não sendo. A perda do Museu da Língua Portuguesa pelo fogo, faz sei anos, mostrou que o descaso para com um dos pilares da formação de nossa nação é mal de raiz. Três anos atrás, repeteco: a pavorosa destruição pelo fogo do Museu Nacional deixou evidente que nada havia mudado, e que continuávamos a desdenhar daquelas “velharia inúteis que não dão camisa a ninguém”.

A tristeza mais recente é a ruína de parte do acervo da Cinemateca Brasileira, de novo pelo fogo, perpetrada estes dias. Antes de tirar o lenço pra chorar a perda, é bom preparar a raiva. Fique-se sabendo que, nos últimos 60 anos, a Cinemateca já foi parcialmente destruída por 5 incêndios e uma enchente! Bota descaso nisso!

Os incêndios precedentes tinham ocorrido em 1957, 1969, 1982 e 2016. Em 2020, foi a vez da água da enchente, que inutilizou 113 mil DVDs.

A gestão(?) Bolsonaro não tem a culpa pelo que aconteceu no passado, sejamos justos. Mas tem responsabilidade – e como! – pelo que acontecerá daqui pra frente. As consequências do pouco caso da atual administração federal hão de se fazer sentir por décadas.

Se a destruição da memória nacional continuar no ritmo atual, os brasileirinhos dos anos 2100 vão se sentir como nós hoje, privados de memória visual do passado. Terão de contar com a transmissão oral, como nas civilizações que ainda não atingiram o estágio da escrita.

É fome?

José Horta Manzano

Quando um competidor está louco, vidrado, desesperado pra ganhar, se diz que está com “fome de vitória”. Mas é metáfora, força de expressão. Na hora de comer, há quem goste de feijão, há quem prefira pizza, outros não abrem mão de um hambúrguer. Já engolir metal é mais raro. Por que será então que tantos esportistas medalhados fazem pose mordendo a medalha diante das câmeras? Será fome?

É um costume bizarro, de origem obscura, talvez comparável ao (mau) hábito que quase todo futebolista tem de cuspir no gramado, comportamento nunca visto em esportista de nenhuma outra modalidade. (Exceção feita, talvez, dos ases da natação que, ao terminar a prova, encostam na parede da piscina, olham firme em direção ao painel eletrônico e aproveitam pra soltar pela boca um líquido que uns juram ser água clorada, enquanto outros asseguram que não é.)

Voltando às medalhas mordidas, por que fazem isso? A CNN se interessou pelo assunto e resolveu explorar. Constataram que não é somente em provas olímpicas que isso acontece. Um grande tenista como Rafael Nadal, por exemplo, é habitué de uma dentada no troféu. Morde cada prêmio com gosto, como se pretendesse tirar um pedaço.

Um tanto alarmados com o que têm visto, os dirigentes do comitê organizador dos Jogos Olímpicos de Tokyo resolveram lançar um alerta. Veio a bordo de um tuíte bem-humorado:

“Gostaríamos de confirmar oficialmente que as medalhas de #Tokyo2020 não são comestíveis!

Nossas medalhas são feitas de material reciclado a partir de aparelhos eletrônicos doados pelo público japonês.

Portanto, convém não morder… mas sabemos que vocês vão continuar mordendo.”

A melhor explicação para o estranho hábito de morder medalha ao posar para foto foi dada por um perito da Sociedade dos Historiadores Olímpicos. Diz ele que os atletas fazem isso numa tentativa de contentar a mídia. No início, foi uma solicitação de fotógrafos correndo atrás de uma foto sensacionalista. Com o tempo e com a insistência de mais e mais fotógrafos, acabou por se tornar tradição, uma passagem obrigatória.

Sabemos que a imensa maioria dos atletas olímpicos são estrangeiros. Todos eles conhecem o sushi, mas não estão familiarizados com a exótica culinária japonesa. Mas daí a comer medalha… precisa ter bons dentes.

A visita da duquesa

José Horta Manzano

Beatrix Amelie Ehrengard Eilika von Storch, duquesa de Oldenburg, é uma mulher política alemã. Nascida em 1971, tem sólida formação jurídica adquirida nas Universidades de Heidelberg (Alemanha) e de Lausanne (Suíça). Foi eleita deputada junto ao Parlamento Europeu em 2014 num grupo conservador. Três anos mais tarde, tendo sido eleita para o parlamento alemão, renunciou ao mandato europeu. A essa altura, já estava afiliada a novo partido.

Fundado em 2013, o novo partido da duquesa se chama AfD (=Alternativa para a Alemanha). O agrupamento segue um ideário rigoroso, que inclui: descrença na União Europeia, ultranacionalismo alemão, populismo de direita, negacionismo climático, oposição à imigração, anti-islamismo, antifeminismo. Propagam a saída da Alemanha da UE, a expulsão dos estrangeiros, a perseguição aos muçulmanos, a abolição de políticas feministas. Como se vê, os afiliados são gente fina.

A duquesa, que segue linha mais dura que a do partido, vai mais longe. Costuma ser descrita como “reacionária descomplexada”, homofóbica, violentamente contrária a tudo o que não for alemão. É o protótipo da xenófoba caricatural. É vista como anti-islamista militante, desejosa de “empreender uma cruzada contra o Islã”.

Como se não bastasse, Frau von Storch é visceral e agressivamente contrária à contracepção, ao aborto voluntário e ao casamento homossexual. A distinta senhora não esconde o fato de ter “chorado de alegria” assim que foi anunciado o Brexit. No seu raciocínio, era o prenúncio do desmanche da Europa unida.

Como se pode imaginar, já se declarou contrária à presença de jogadores não-descendentes de pura estirpe alemã na seleção nacional de futebol. Traduzindo em miúdos, fica assim: pretos, árabes e descendentes de estrangeiros… fora!

Pelo lado materno, é neta do conde Schwerin von Krosigk (1887-1977), jurista e homem político, que foi ministro das Finanças da Alemanha durante todo o período nazista. Com a derrota da Alemanha, o conde foi acusado de crimes de guerra, julgado em 1949 e condenado a 10 anos de cadeia. Dois anos mais tarde, no bojo de uma anistia, foi liberado.

Resumi o percurso de vida do avô só pra constar. Acredito que ninguém deva pagar pelos crimes de um outro, ainda que seja seu avô. Além do mais, o homem foi julgado e pagou a pena.

Contei a historinha de Frau Storch só pra dar ao distinto leitor umas pinceladas sobre a personalidade da deputada alemã que um sorridente capitão recebeu outro dia em palácio – fora da agenda, registre-se. Nosso presidente, conhecemos. Agora que temos melhor ideia de quem é a convidada, o encontro dos dois me faz pensar num abraço de afogados.

Chacoalhada na Alemanha em razão de seu extremismo, a duquesa precisava aparecer numa foto com o presidente de um país grande. Pouco importa que fosse Bolsonaro; quem está na situação dela não escolhe.

Chacoalhado no Brasil pelo conjunto de sua obra e visto pelo mundo como um pestilento do qual ninguém quer passar perto, o capitão precisava aparecer numa foto com uma personalidade estrangeira. Pouco importa que fosse uma duquesa extremista; quem está na situação dele não escolhe.

Ambos se equivalem. O marketing está de bom tamanho. Como dizia minha avó, “Pra quem é, goiabada basta”.

Esguicho

José Horta Manzano

O brasileiro é um povo criativo. A toda hora, dá pra sentir a força da inventividade de uma gente que nem sempre conta com instrução formal, nem com meios adequados. Quando a gente não sabe, sacumé, tem de ser esperto. Esperteza é o que não falta em nossa terra.

No entanto, na hora de dar nome às coisas e fatos novos, parece que há um engasgo. Não costumava ser assim. Até meio século atrás, talvez pelo isolamento de um mundo sem tevê e sem viagens, o engenho de nossa gente era mais ativo.

As brincadeiras que conheci nos anos 1960, por exemplo, embora viessem dos EUA, tinham o nome imediatamente adaptado a nossa fonética. O hula hoop, aquele anel que a criançada balançava em torno da cintura, guardou seu nome original na maioria das línguas. Na nossa, não: chamou-se bambolê. Foi febre naquela época e, dizem, responsável por traumatismo renal nos aficionados mais ferrenhos.

Há baciadas de exemplos de nomes adaptados para uso nacional. Hoje, parece que o empenho desapareceu. Toma-se a expressão inglesa no original, nua e crua. Por exemplo, ninguém diz escola em casa, mas “homeschooling”. O mesmo vale para o importado “homeoffice”, usado em vez de um simples e eficaz teletrabalho. Parece que a criatividade entrou em letargia. Quem sabe, um dia acorda.

Nestes dias de Jogos Olímpicos, temos muita notícia do Japão. Li outro dia esta frase: “Em diversas instalações, como no centro principal de mídia, há esguichos de água, que parecem jogar uma garoa.

Pela volta que o repórter deu pra descrever os “esguichos de água”, fico imaginando que ele nunca tenha visto nada parecido. Logo logo essas engenhocas chegam ao Brasil, se é que já não estão no porto, à espera de desembaraço alfandegário.

Taí uma excelente oportunidade de dar nome a esse dispositivo novo. Esguichos assim existem na Europa há alguns anos. Quando o calor era raro, não havia necessidade. Estes últimos tempos, porém, com as temperaturas saarianas que temos tido, tornaram-se imprescindíveis. São ligados no verão, naturalmente. E servem para amenizar o sufoco dos dias tórridos.

Os franceses, que gostam de dar nome a tudo, já decidiram: entre eles, esse esguicho é conhecidos como brumisateur. É simples, a palavra deriva de bruma (névoa, nevoeiro) e designa o aparelho que produz bruma. Fica a dica.

Quem sabe a criatividade brasileira acorda, esquece “esguicho” ou “chuveirinho” e opta por brumizador. Ou talvez nebulizador. Ou até um sofisticado garoizador. Seja qual for, sempre vai ficar melhor que “esguicho de água que parece jogar uma garoa”.