Palhaçada

José Horta Manzano

Não te esqueças que és um palhaço
Faz a plateia gargalhar
Um palhaço não deve chorar

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Em 1951, Nelson Cavaquinho, Washington Fernandes e Osvaldo Martins uniram forças para compor o samba Palhaço ‒ gravado em seguida por Dalva de Oliveira.

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Os versos me vieram hoje à lembrança enquanto assistia à palhaçada montada em pleno Palácio do Planalto, verdadeiro espetáculo de picadeiro de circo decadente. Falo da bufonada organizada para dar a nosso guia posse do cargo de ministro da Casa Civil.

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Foi estonteante ver dezenas de militantes a soldo, mui provavelmente remunerados com nosso dinheiro. Os mercenários vieram vestidos a caráter, várias mulheres de roupa vermelha. A um sinal, todos levantavam o braço, punho cerrado, e gritavam palavras de ordem.

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“Obo, obo, obo! Abaixo a Rede Globo!” foi um dos refrães, repetido numerosas vezes. Outro foi “Dilma! Guerreira! Mulher brasileira!”. Aplausos brotavam a cada suspiro de dona Dilma, numa verdadeira apoteose de aluguel.

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A mídia planetária deu o merecido destaque aos bizarros acontecimentos do Brasil. Saiu em todas as línguas e em todos os dialetos.

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Visivelmente, o refrão contra a Rede Globo é produto do desespero da quadrilha que nos governa. Só um louco varrido se indisporia contra a maior rede de rádio e tevê do país. Imensa maioria de nosso povo tem, no jornal televisivo daquela organização, sua única fonte de informação. Cutucaram a onça com vara muito curta. É suicídio.

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Como se sabe, o marqueteiro do Planalto está fora de circuito, obrigado a ver o sol nascer quadrado. Ah, que falta tem feito!

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Para recordar o samba Palhaço, com Dalva de Oliveira, a Rainha da Voz, clique aqui.

Mosteiro Brasil

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Câmera abre, revelando aos poucos o rico interior da capela de um monastério.
Fumaça de velas e incenso ressaltam o clima místico.
Ao fundo, coral de monges beneditinos entoando suave canto gregoriano matinal.

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Monge auxiliar: Prior, está aí um jornalista querendo lhe falar.

Prior: Faça-o entrar, irmão, e encaminhe-o para meu gabinete.

Jornalista: Bom dia, prior. Vim entrevistá-lo sobre o projeto de abertura do novo mosteiro no Brasil.

Prior: Ah, meu filho, estamos entusiasmados com esse projeto. O prédio está praticamente concluído e já contamos com muitas adesões tanto de patrocinadores quanto de diáconos. Vai ficar uma beleza.

Jornalista: Há detalhes que me intrigam. Ouvi dizer que o mosteiro apenas abrigará leigos recém-convertidos à ordem religiosa. Queria entender o porquê da opção pelo Brasil, justo num período tão crítico de instabilidade política e social, além de aguda crise moral.

Prior: Pois foi exatamente por isso que o escolhemos. Talvez o senhor não saiba, mas os valores cristãos estão renascendo por lá. A providência divina tem operado verdadeiros milagres, principalmente na cúpula política do país. Depois de secular descaso, as virtudes cristãs vicejam novamente, como lírios no pântano.

Monastere 2Jornalista: Como assim? Pode explicar melhor?

Prior: Claro, meu filho. Antes, explico que dar hospedagem a peregrinos e viajantes é princípio basilar de nossa congregação. Serão sempre bem-vindos todos os que demonstrarem continência, obediência, capacidade de servir a Deus pela oração e pelo trabalho em prol da comunidade. “Ora et labora” é nosso lema.

Jornalista: Mas, prior, não há também certos requisitos morais para que leigos atuem como diáconos e possam ser acolhidos no mosteiro?

Prior: Sem dúvida. Nossa tradição exige que sejam homens respeitáveis e de palavra, não inclinados ao vinho nem à ganância sórdida e que guardem o mistério da fé com a consciência limpa.

Jornalista: E o senhor conseguiu encontrar candidatos com esse perfil?

Prior: Surpreendentemente, sim. A primeira pessoa que nos procurou rogando esquecimento de seus desvios do caminho do Senhor e proclamando o desejo de voltar a servir à comunidade foi justamente um dos governantes máximos daquele país. Tivemos uma longa conversa. Ele estava deveras machucado, a alma sangrando por causa da dura perseguição que sofreu. Disse-me que, apesar de tantas e tamanhas injustiças, sentia-se de alma limpa para recomeçar. Alegou mesmo que se considerava a alma mais pura do planeta. Fiquei profundamente comovido com tal capacidade de superação.

Jornalista: E o senhor acreditou nele? Não lhe pareceu exagero retórico?

Moine 1Prior: Acreditei, meu filho. Examinei friamente cada uma das graves acusações que lhe fazem e pedi provas de sua inocência. A minhas perguntas, respondeu sempre com humildade e contrição. Convenci-me de que foi vítima da própria ingenuidade. Veja bem, ele estava comprometido com a missão de tirar milhões da miséria e se descuidou da honorabilidade de seus auxiliares diretos. Ninguém fez mais pelos pobres do país do que ele. Botou comida na mesa dos humildes, ajudou a dar casa e até passagem de avião para visitarem a família. Além disso, colocou-se à nossa disposição para atrair novos investidores para o mosteiro, já que tem grande experiência administrativa e realiza frequentes palestras internacionais.

Jornalista: Mas… E quanto às acusações de que teria recebido privilégios de empresários que tinham contrato com o governo?

Prior: Mais uma acusação que não se sustenta. Sua atuação benemérita junto à classe operária gerou muita gratidão. Tudo o que recebeu de volta dos muitos amigos que fez foram pequenos mimos, como hospedagem gratuita na cidade, no campo ou na praia.

Jornalista: Além dele, o senhor acolheu também como futuros diáconos do Mosteiro Brasil a sucessora desse governante, um senador que foi líder do governo e um ministro de Estado, não é mesmo?

Prior: Perfeitamente. Todos eles imbuídos da mesma boa-fé e da vontade de servir ao próximo, sem reservas. Todos vítimas de incompreensão por terem mexido com os privilégios seculares das elites. A primeira, mesmo tendo multiplicado programas sociais, foi vilipendiada com acusações de incompetência, dificuldade de se expressar, acobertamento de corrupção e interferência nos demais poderes da República. O segundo, só porque, por questões humanitárias, ofereceu ajuda a um empresário encarcerado, foi afastado do cargo e caluniado. O último, vítima de um embaraçoso mal-entendido apenas porque estendeu a mão ao segundo. Meu coração se enche de alegria com esses exemplos. Eles se mostraram capazes de passar por cima dos erros de seus irmãos, numa demonstração de genuína generosidade cristã.

Monastere 1Jornalista: Uma última pergunta. Parece que já há casos de ministros do Judiciário solicitando acolhimento no novo mosteiro. É verdade?

Prior: É verdade, meu filho. Foram acusados de se deixar influenciar por agentes políticos e tomar decisões para favorecê-los. Não nos cabe julgar os insondáveis motivos que levam um ser humano a optar por este ou por aquele caminho, que dirá um juiz. De qualquer forma, ainda aguardamos a decisão final de nossos superiores. Nosso quadro de diáconos deverá estar completo em breve com a chegada de muitos parlamentares brasileiros…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O despertar da montanha

José Horta Manzano

Matterhorn (Monte Cervino), cume emblemático dos Alpes suíços

Matterhorn (Monte Cervino),
cume emblemático dos Alpes suíços

Faz alguns dias que um escândalo pipocou no universo aveludado da política suíça. Descobriu-se que, durante a última campanha eleitoral, um deputado andou fazendo artes. Em busca de novo mandato, Monsieur Voiblet foi fotografado enquanto pessoalmente colava cartazes eleitorais seus por cima de cartazes de outros candidatos. Um assombro!

O «malfeito» provocou terremoto capaz de abalar o Matterhorn. O povo não admite que se brinque com essas coisas. Assim que a história se tornou pública, o deputado recebeu a punição máxima: foi expulso do partido. Analistas já dão por encerrada a carreira política do trapaceiro.

Affiche 1Vale comparar com o que se passa na política do Brasil, especialmente nos palácios de Brasília. Neste momento, um ex-presidente com um pé na cadeia busca homizio junto a sua sucessora. Por sua vez, a mencionada sucessora está à beira de sofrer processo de destituição que pode substitui-la pelo vice. Por sua vez, o dito vice foi citado 11 vezes na delação de um senador encarcerado.

Affiche 2Descendo na hierarquia do poder, vale mencionar que o presidente da Câmara ‒ segundo personagem na linha de sucessão do Executivo ‒ está mais enrolado que fumo de corda. Tem contas a prestar à Justiça penal e dificilmente escapará de uma temporada na Papuda. Enrolados como ele, estão também o presidente do Senado e o ministro da Educação(!).

As montanhas brasileiras são muito mais resistentes que as suíças. Apesar de todas as «traquinagens» do pessoal do andar de cima, o Pico da Neblina continua lá, estoico e impávido. O Pico da Bandeira também.

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O tango de salão O Despertar da Montanha foi composto por Eduardo Souto cem anos atrás. A versão de Dilermando Reis está aqui.

Querido delegado

José Horta Manzano

Um lapsus calami ‒ erro que escapa por inadvertência ‒ aparece numa chamada do jornal O Globo deste 15 de março.

Nosso guia anda tão desprestigiado que já nem mais tem direito a inicial maiúscula. Seu nome já vem escrito lula, assim mesmo. É sintomático.

Chamada do jornal O Globo, 15 mar 2016

Chamada do jornal O Globo, 15 mar 2016

Iniciativa popular

José Horta Manzano

Você sabia?

Manif 26A democracia suíça se apoia sobre dois pilares. O primeiro, comum a todos os regimes democratas, é a representatividade: o povo escolhe representantes para falarem em seu nome no parlamento. O segundo é específico do país, uma paixão nacional: a democracia direta.

Essa particularidade helvética dá a todos os cidadãos o poder de interferir no processo legislativo sem passar pelos representantes do povo. Claro está que um solitário indivíduo não tem o poder de legislar. Portanto, terá de reunir um número significativo de conterrâneos que pensem como ele. Juntos, podem conseguir o que querem.

O caminho das pedras passa pelo processo que chamamos iniciativa popular. Qualquer cidadão suíço pode lançar o procedimento. Para tanto, basta seguir rigorosamente as regras. Para ser bem-sucedida, a iniciativa terá de coletar, no prazo de 18 meses, pelo menos cem mil assinaturas, cuja validade será atestada pelas autoridades do município de residência de cada um dos que assinaram.

Caso as assinaturas atinjam o quorum e sejam devidamente validadas dentro do prazo, a iniciativa terá sido bem-sucedida. O governo federal terá de submeter o texto ao voto do eleitorado por meio de plebiscito. Caso o povo dê aprovação, a Constituição do país será modificada conforme estipula o novo texto.

Suisse 2Convém esclarecer que, no plano federal, somente são permitidas iniciativas que visem à modificação da Constituição. A lei comum está fora do alcance de iniciativas populares.

A possibilidade de instaurar esse tipo de iniciativa popular no Brasil entra em colisão com uma dificuldade incontornável: como verificar a autenticidade das assinaturas? Os brasileiros não estão registrados no município de residência nem têm sua assinatura depositada ali. Para tornar possível a democracia direta no Brasil, seria imperativo começar pela obrigatoriedade de cada cidadão declarar residência.

É pena que assim seja. Enquanto, no resto do mundo, o povão sai às ruas, grita, manifesta, quebra vitrines, se agita, xinga, briga e agride, o suíço lança uma iniciativa. Com boas chances de chegar lá.

Frase do dia — 293

«O petrolão é apenas a parte visível de um sistema muito mais abrangente, construído com esmero para aniquilar a livre concorrência, ao favorecer um punhado de empresas amigas do governo em licitações viciadas, e para sabotar a democracia, tornando-a mero simulacro sob o qual operam políticos e partidos que se organizam como quadrilhas.»

in Editorial do Estadão, 14 mar 2016.

Impeachment

José Horta Manzano

O termo impeachment ‒ já sacramentado pela Academia ‒ percorreu longo caminho antes de chegar à nossa língua. O latim clássico se servia da palavra pes/pedis para designar o pé.

Na Idade Média, para expressar a ideia de entravar, obstar, emperrar, a solução foi utilizar essa raiz sob a forma impedicare. A nova palavra evoluiu para empechier em francês medieval.

Capa do Estadão, 14 mar 2016

Capa do Estadão, 14 mar 2016

Na bagagem dos invasores franceses, a palavra desembarcou na Inglaterra. A fonética anglo-saxônica a transformou no verbo to impeach, com o sentido de entravar, impedir. Com o passar dos séculos, to impeach foi-se restringindo ao campo político. Já no século XVI, tinha assumido o sentido de acusar um funcionário de mal conduzir-se ‒ que se mantém até hoje.

Portanto, atrás do reclamo de conseguir o impeachment da presidente, está o anseio de entravar-lhe os pés (e as mãos) antes que cause mal maior.

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Repercussão
Bigode 1«Dis donc, ça n’a pas l’air de s’arranger au Brésil avec l’équipe de bras cassés que vous avez mis au pouvoir et qui se comporte comme à la belle époque des révolutions légendaires sud-américaines. Ne nous décourageons pas et mettons dehors tous ces voleurs!»

«Então, pelo jeito, as coisas não dão sinal de entrar nos eixos no Brasil, com a equipe de incapazes que vocês puseram no poder e que se comporta como nos velhos tempos das legendárias revoluções sul-americanas. Não nos desencoragemos ‒ vamos botar fora todos esses ladrões!»

Trecho de mensagem que recebi esta manhã de uma amiga francesa. Como o distinto leitor se pode dar conta, Oropa, França e Bahia já estão começando a entender que o atual nó brasileiro não se enquadra no formato esquerda x direita. Será mais bem traduzido pela imagem de honestos cidadãos x malta de ladrões.

Perspectivas caninas

Reflexões para um 13 de março

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Manif 4Como sabem todos que me são próximos, a convivência com minhas cachorras ensinou-me muitas coisas. A lição mais comovente e mobilizadora que aprendi com elas foi a surpreendente capacidade de distinguir e reagir à qualidade da energia de quem as cerca. Meu coração se enche de esperança de que um dia nós, humanos, estejamos igualmente habilitados a nos valermos dessa estratégia de formação de vínculos.

Explico melhor aonde quero chegar: nossos pets são, sabidamente, capazes de perceber e responder de pronto ao que os espiritualistas chamam de “energias sutis” de seus donos. Se o dono está triste, o animal vai se deitar a seus pés e permanecer imóvel e em silêncio por muitas horas. Se o dono está alegre, ele vai procurar todos os estímulos à volta para propor brincadeiras e passatempos agradáveis. Se o dono está nervoso ou irritado, é muito provável que o animal se agite também e lata sem parar, reproduzindo em escala animal o grau de tensão que sente no ar. Se o dono está combalido, deprimido ou se sentindo impotente, o mais provável é que o animal busque máxima proximidade corpórea e durma com a cabeça apoiada sobre o peito ou joelhos de seu dono, dando e recebendo o calor do contato.

Manif 13Hoje o dia pareceu-me ter amanhecido com um misto intrigante de céu de brigadeiro e nuvens carregadas indicativas de que uma chuva benfazeja estava sendo gestada. Sem saber como reagir às nuances climáticas deste dia histórico e apostar se este seria um dia de celebração geral ou de conflagração generalizada, resolvi consultar minhas cachorras para descobrir como o mundo animal está enxergando as perspectivas que se descortinam para nosso país.

Molly, minha cachorra mais velha e filósofa por natureza, aprumou-se, cruzou as patas dianteiras como uma verdadeira “lady” e deu início às suas considerações. Como de hábito, suas palavras vinham embaladas por sua profunda veia poética:

Crédito: Yogi.centerblog.net

Crédito: Yogi.centerblog.net

“Nós, os cães, não conhecemos passado e futuro. Vivemos apenas o momento presente, com tudo o que ele carrega consigo em termos de possibilidades em botão. O que para vocês soa como limitação, para nós é música libertadora. Graças a essas diferentes condições, talvez seja mais difícil para vocês enxergar o rumo a ser tomado a cada dia se se deixarem contaminar pelos ressentimentos do passado e pela ansiedade de fazer o novo acontecer. O único conselho que posso lhe dar é: não se deixe impressionar em demasia por palavras e números. Eles são importantes, sim, mas podem ser enganadores, na própria medida em que distraem das mensagens que seu coração dita. É preciso prestar atenção também à direção dos ventos, aos odores que impregnam o ar, às cores e sons da natureza, assim como ao brilho e às sombras nos olhos dos que estão à sua volta. Depois, é necessário indagar-se por quais motivos você faz – ou não – parte desse panorama. Você bem sabe que é preciso coragem para não submergir sob a força esmagadora das crenças da maioria, bem como para engolir a dor terrível de se saber minoria. Por tudo o que você já me disse, está claro que o principal trunfo do Brasil é sua enorme diversidade étnica, racial, geográfica, econômica, religiosa e política. Se, historicamente, nada disso foi capaz de abalar a união da nação, me parece que há pouco a temer doravante. Lembre-se que as divergências humanas funcionam como um fermento, tanto para inspirar o crescimento do diálogo e da tolerância quanto para iluminar os meandros escuros das próprias convicções. A convergência, por outro lado, só pode ser entendida pontualmente. Insistir na busca de unanimidade de pontos de vista, na luta pelo triunfo do pensamento único, é indicativo de miopia e alienação”.

Respirei fundo quando Molly parou de falar, na tentativa de absorver ao menos parcialmente tantas questões. Voltei-me, então para a Aisha, minha cachorra mais nova e espevitada, que a tudo assistia parecendo um tanto amuada. Quando a incentivei a manifestar suas impressões, aproximou-se de mim com delicadeza, abanando o rabo e, de cabeça baixa, num quase resmungo, começou a falar:

Cachorro 7“Você quase nunca pergunta minha opinião quando o assunto é sério. Me incomoda um pouco que você só dê ouvidos à voz da Molly, por ela ser mais formal e contida. Eu posso parecer alienada e fútil, mas também tenho muita coisa a dizer. Por outro lado, alegra-me o fato de você não colocar sobre minhas costas o peso das reflexões compulsórias. A seriedade para encarar o mundo pode ser necessária às vezes, mas a leveza e o bom humor também são indispensáveis. Eu não gosto de fazer de conta que sou educada, culta e comportada só para inglês ver. Para mim, a vida tem de ser vivida com alegria. Você sabe que o que torna meus dias felizes é saracotear por aí, encontrar pessoas – principalmente as crianças que têm uma energia parecida com a minha – e brincar com outros cachorros. Não me sobra muito tempo para filosofias de botequim. O bom da vida é poder dançar conforme a música. Se pudesse, eu voaria junto com as borboletas e os passarinhos e me juntaria aos golfinhos e às baleias para viajar para longe, conhecer outros mundos. Quando não há mais ninguém por perto, eu me viro para me entreter sozinha com outras coisas. Não é lá muito agradável, mas dá para passar o tempo. Agora, o que dá sentido mesmo para minha vida é poder brincar junto. Se lhe vale de alguma coisa meu conselho, levante-se, vá para a rua e faça o máximo de barulho que puder junto com todo mundo que lá está. Se não adiantar, pelo menos você vai voltar para casa cansada e vai poder dormir o sono dos anjos”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Todos na rua

José Horta Manzano

Há quem tenha espírito jogador. É gente que acredita firme que vai tirar a sorte grande. Os meios de chegar à fortuna variam conforme o gosto de cada um: jogo do bicho, corrida de cavalos, carteado, loteria, roleta. A característica comum a todo jogador é a certeza obstinada de que vai ganhar um dia destes. Se não for hoje, será amanhã. Garantido.

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

Respeito esse traço de personalidade, mas não comungo com ele. Não me parece aconselhável entregar as rédeas do destino, sem mais nem menos, a mãos alheias. Convém segurá-las com firmeza enquanto for possível.

Para este 13 de março, estão marcadas manifestações de protesto em todo o país. As reivindicações, embora cubram amplo espectro, concordam em um ponto: basta de corrupção e de incompetência. A expectativa de ver multidões pelas ruas vem sendo acirrada por redes sociais e pela mídia. Como prova, o principal editorial do Estadão de hoje leva o título Chegou a hora de dizer: basta! ‒ exatamente assim, com ponto de exclamação. Lembra chamamento revolucionário.

Acho uma temeridade pôr tanta ênfase num acontecimento sujeito a tantos tropeços e a tantos imprevistos. Pode chover. Pode fazer friozinho. Pode não vir tanta gente quanto se espera. O medo de confronto com baderneiros pode fazer que muitos hesitem. Podem certos «institutos» desonestos contabilizar o número de participantes com erro a menor. Em resumo: o resultado das passeatas está à mercê de fatos aleatórios.

Bandeira olho 2Fazer demonstração em praça pública ‒ pacifica e civilizadamente ‒ para exprimir anseios é atitude positiva. Exibe a maturidade do povo e dá prova das liberdades que a democracia lhe concede. Já o fato de atribuir tamanha importância a uma determinada passeata é arriscado. Pode falhar, e aí, como é que fica?

De qualquer modo, alea jacta est ‒ a sorte está lançada. Vou parando por aqui, que é pra não carregar na consciência o peso de ter atrasado algum distinto leitor já paramentado de verde-amarelo. Tomara que não chova.

Interligne 18h

Coincidência
Manif 2Observe-se que o Comício da Central do Brasil, protagonizado pelo presidente Jango Goulart, soou o dobre fúnebre do regime. O presidente cairia 18 dias mais tarde. O comício teve lugar num 13 de março, faz hoje exatamente 52 anos.

Onde vão parar nossos impostos

José Horta Manzano

Todos os cidadãos têm direito de saber como é utilizado o imposto. Afinal, somos nós que ‒ através de impostos, taxas, tributos e emolumentos ‒ financiamos o país. É legítimo que nos sejam dadas contas do destino de nossa contribuição para o bem comum.

Restaurant Grand Véfour, Paris

Restaurant Grand Véfour, Paris

A Procuradoria-Geral da República acaba de contribuir para o esclarecimento do contribuinte ao tornar pública a denúncia contra senhor Cunha, presidente da Câmara. O homem é acusado de corrupção, evasão de divisas, ocultação de patrimônio e outros delitos do gênero.

Durante anos, o político manteve, principalmente na Suíça, dezenas de contas bancárias abastecidas com somas polpudas por caudaloso propinoduto. Essa cachoeira de propinas é o caminho paralelo pelo qual escoa parte dos impostos que o distinto leitor costuma pagar. É dinheiro subtraído ao erário e desviado para o bolso de ladrões.

Restaurant Guy Savoy, Paris

Restaurant Guy Savoy, Paris

Em rápida passagem de cinco dias por Paris, ano passado, Senhor Cunha torrou milhares de dólares. Numa refeição no restaurante Grand Véfour, gastou 1200 dólares. Em outro ágape gastronômico no afamado restaurante Guy Savoy, foram mais 1300 dólares. Para dormir ‒ que ninguém é de ferro ‒ a despesa chegou a 15800 dólares no ultraluxuoso Hotel Plaza Athénée, perto de sessenta mil reais.

Nas festas de fim de ano 2012-2013 passadas na Florida, esse senhor, cujo salário não chegava a 18 mil reais, desembolsou quantias ainda mais elevadas. Entre hotel, restaurantes e lojas de grife, foram 170 mil reais no cartão de crédito.

Hôtel Plaza Athénée, Paris

Hôtel Plaza Athénée, Paris

Estamos falando do terceiro personagem da República, o segundo na linha de sucessão da presidência. Caso dona Dilma e o vice saiam de cena, o leme do barco será entregue a ele. A perspectiva é afligente, embora não destoe no cenário ao qual estamos acostumados.

Reproduzo abaixo um trecho de artigo de Guilherme Fiuza, publicado no jornal O Globo deste 12 março 2016.

«O Brasil disse ao filho do Brasil: “Meu filho, um dia tudo isso será seu”. Até os pedalinhos de Atibaia já sabem que o herdeiro tomou posse de tudo.

Solidário, pegou a maior empresa de papai e despedaçou-a para enriquecer a família e os amigos. O filho do Brasil não pensa só em si. Seus filhos — os netos do Brasil — enriqueceram também. E seu compadre, seu advogado, sua amante, seu churrasqueiro, seus amigos de fé, seus correligionários, enfim, todo mundo se deu bem, porque o patrimônio de papai era colossal. Mas, e os brasileiros? Ora, esses são filhos da outra. Todo mundo sabe que o Brasil só teve um filho.»

Valei-nos, São Benedito!

Frase do dia — 292

«Em 2002 já foi difícil vencer com o “Lulinha paz e amor”. Em 2018 será impossível vencer como jararaca. Um candidato não se identifica com uma cobra peçonhenta. Nem se considera a alma mais honesta do Brasil. Verdade que seu marqueteiro está na cadeia. Mas onde está a intuição política que sempre lhe atribuem?»

Fernando Gabeira, jornalista, em artigo publicado no Estadão de 11 mar 2016.

O mingau

José Horta Manzano

O pedido de prisão de nosso guia, feito pelo MP de São Paulo, está dando pano pra mangas. A notícia apanhou meio mundo de surpresa. Todos imaginávamos que viria um dia, mas ninguém acreditava que o pedido fosse feito agora. Até a televisão suíça dedicou um bloco ao assunto.

Analistas, que ainda não tiveram tempo pra digerir a notícia, emitem opiniões contrastadas. Há os entusiastas incondicionais, que aplaudiram de pé. Há os moderados, que enxergam nessa informação um lado bom mas um caminho pedregoso. Há, por fim, os reticentes, que acreditam que o pedido de prisão foi intempestivo, despropositado. Quanto a mim, não me encaixo em nenhuma das categorias, muito pelo contrário!…

Mingau 1Acredito que, se o pedido for excessivo, o juiz designado não o acolherá. Muitos cogitam que a súbita intromissão do MP paulista possa “enfraquecer” a Operação Lava a Jato ‒ seja lá o que isso possa querer dizer.

Quanto a mim, não acredito que o que ocorreu ontem tenha influência nas investigações diligenciadas desde que a Lava a Jato foi lançada. Não me parece que nosso guia saia desse episódio reconfortado. As evidências e os indícios de crimes e de ilegalidades acumulados até agora são uma baciada.

IMingau 2Isso tudo me faz lembrar esses filmes americanos em que aparece briga de soco. Nenhum dos contendores vai a nocaute com um golpe só. Um dá um soco, o outro cai, levanta-se, revida, o primeiro cai, levanta-se, revida. E assim por diante. A cada pancada, o bandido vai ficando mais fraquinho. No final, o mocinho sempre vence. Pelo menos, nos filmes.

Ainda que nosso guia não vá para trás das grades desta vez, o golpe não há de lhe ter feito bem. Se ainda não se esborrachou no chão, está cada dia mais combalido. O personagem que já foi visto como semideus vai-se dessacralizando inexoravelmente.

Como se diz nas Minas Gerais, mingau se come pelas bordas. Não convém enfiar a concha no meio da gamela, que o perigo de se queimar é tremendo. Vamos com calma que, aos pouquinhos, o prato se vai esvaziando.

Desalento

José Horta Manzano

Linguistas divergem sobre a origem da palavra desalento (des + alento). Boa parte acredita que venha da mesma raíz que o verbo latino halare, que significa expirar, soltar o ar dos pulmões. Faz sentido. Um dos sinais característicos do indivíduo desalentado e desesperançado é o suspiro.

A crer nos resultados da pesquisa que o Instituto Paraná Pesquisas acaba de publicar sobre a Operação Lava a Jato, o brasileiro dá sinais fortes de desalento. Indagados sobre como imaginam o futuro da corrupção no Brasil depois da Lava a Jato, nossos concidadãos deram resposta nada otimista.

Pesquisa 6

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Dos entrevistados, mais de 61% acreditam que, terminado o jateamento, a corrupção vai continuar como está ou vai até aumentar. Arredondando os números, de cada três conterrâneos, apenas um acha que esse festival de obscenidades vai dar trégua. Os outros dois não botam fé na regeneração do panorama político.

Desalento 1A constatação é ‒ sem trocadilhos ‒ desalentadora. Como é que ficam aquelas pesquisas que classificam os brasileiros entre os mais otimistas do planeta? Há flagrante contradição aí.

Otimismo por um lado, desalento por outro. Para conciliar as duas afirmações, só enxergo uma tenebrosa hipótese: os brasileiros são felizes e otimistas independentemente de viverem mergulhados num universo de corruptos. Em outras palavras, a corrupção onipresente não incomoda. Será isso?

Frase do dia — 291

«A visita de Dilma ao antecessor em solidariedade por sua condução coercitiva pela força-tarefa da Lava a Jato não deixa dúvidas de que a chefe do governo apoia o líder dos investigados na operação policial. E não os investigadores.»

José Nêumanne Pinto, escritor e jornalista, em artigo publicado no Estadão de 9 mar 2016.

S.M.J.

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Era assim que um antigo colega de trabalho colocava o ponto final em todos os seus comunicados, fossem eles dirigidos a seus subordinados, pares ou superiores. Mineiro das antigas, pernóstico, de fala empolada e escrita mais ainda, ele fazia questão de evidenciar seus conhecimentos jurídicos, apesar de não trabalhar na área. Talvez quisesse também ressaltar sua humildade e liberalidade no trato com os demais.

SMJ 5Muita gente que recebia seus escritos ficava se perguntando que raios significavam aquelas três letrinhas. Não querendo passar recibo da própria ignorância, faziam de conta que aquilo era apenas mais uma de suas esquisitices e calavam-se. Até que um dia um subordinado recém-contratado resolveu perguntar a um colega qual era o significado de S.M.J. Tentando evitar o constrangimento de admitir que não sabia, o colega riu e acrescentou, aprofundando o mistério: “Isso é coisa dele”. A resposta só fez aumentar a curiosidade do rapaz e logo a investigação dos reais motivos da inserção daquelas três letras espalhou-se pelo departamento todo como um rastilho de pólvora.

SMJ 1aReunidos na hora do almoço ou em torno do café, os funcionários daquela figura exótica se revezavam sugerindo possíveis interpretações, a maioria das quais era prontamente descartada. O importante, alegavam eles, era encontrar um significado que não pudesse ser facilmente desmentido, nem mesmo pelo próprio. Foi quando um dos participantes daquelas divertidas reuniões lembrou de certas características físicas do chefe que, se aliadas à sua postura formal, jogavam alguma luz para a solução do quebra-cabeça: o queixo alongado, a boca grande com dentes pontiagudos, a pele enrugada, os olhos saltados e o hábito de dormitar várias vezes por dia. Foi o que bastou. O mistério estava resolvido: daquele dia em diante, assumiu-se oficialmente que as três letras significavam literalmente “Sua Majestade, o Jacaré”.

SMJ 4Ontem, ao assistir ao pronunciamento de nossa estimada mandatária-mor, durante o qual, sem pestanejar e sem corar, ela afirmou que “a oposição não pode sistematicamente dividir o país”, lembrei-me da estória acima e concluí um tanto a contragosto que, numa democracia, cada um pode adotar a óptica que quiser para interpretar os fatos. Faz parte do psiquismo humano o desejo de nos isentarmos de responsabilidade por eventuais atuações catastróficas e projetar em terceiros ‒ ou em certas circunstâncias da realidade externa – a culpa pelo mau jeito.

Em psicologia, isso tem até nome próprio: egodistonia. Em palavras comuns do cotidiano, significa apenas que não reconhecemos como nossas características psicológicas que são condenadas socialmente ou que nos envergonham diante do tribunal de nossa consciência.

SMJ 2Outra lição básica e tradicional da psicologia diz respeito à necessidade de recorrer frequentemente a autoelogios. Nos manuais da profissão, esse impulso é sempre associado ao traço de baixa autoestima. Quando sentimos que não recebemos o reconhecimento devido por aquilo que julgamos mérito e, do lado de dentro, não encontramos nada para amenizar a dor da rejeição alheia, adiantamo-nos aos fatos e proclamamos nossa superioridade moral, intelectual ou sensitiva. Infelizmente para a pessoa que utiliza a estratégia, o resultado quase sempre é o de reforçar a resistência de terceiros e, indiretamente, aprofundar ainda mais a sensação de desvalia e isolamento. Isso é evidenciado até mesmo no ditado popular que diz que “elogio em boca própria é vitupério”.

SMJ 3É muito provável que você seja capaz de identificar em seu círculo mais próximo de relações pessoas que parecem ter o poder de desequilibrar emocionalmente todos à sua volta. Embora, à primeira vista, pareçam ser gentis e afáveis, esse tipo de personagem revela rapidamente sua alma tosca e cínica tão logo algum julgamento mais crítico seja lançado contra ele. Com voz calma e pausada, respiração tranquila, meio sorriso estampado nos lábios, eles contra-atacam com pesado sarcasmo a qualquer acusação, o que, com o passar dos minutos, acaba provocando total descontrole emocional e agressividade crescente em quem está diante deles.

Quando isso acontece, essas criaturas perpetram sua façanha final: você é quem passa a receber olhares de desaprovação e a enfrentar o ônus de ser considerado histérico, desequilibrado, descompensado, desqualificado para a convivência harmônica com desiguais. Uma tática infalível em qualquer circunstância.

SMJ 6Já passei por esse tipo de situação e sei o quanto dói. Escapar da armadilha requer a perseverança de um verdadeiro Hércules. Por isso, engolindo em seco e me esforçando para me posicionar acima dos humores da galera, preciso fazer um comunicado: sinto que está sendo gestada uma tentativa de golpe contra as instituições democráticas de nosso país. É, é isso mesmo que você leu. Sem querer relativizar o impacto de minha afirmação, digo “tentativa” porque não acredito que nenhum golpe venha a ser concretizado de fato. De qualquer forma, creio que muito sangue, suor e lágrimas ainda vão rolar sob o céu azul anil de nossa pátria. Confrontos violentos me parecem inevitáveis, ainda que me pareçam um preço justo a pagar pela verdade que liberta.

O que virá depois? Talvez, provavelmente, a simples constatação de que “o inferno são os outros”. Salvo Melhor Juízo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Frase do dia — 290

«Em solitária noite de domingo, Dilma mandou funcionário do Alvorada à única pizzaria em Brasília que fornece cardápio da dieta Ravenna, que ela segue como religião. No deslocamento, o coitado foi atormentado ao telefone a cada minuto, indagado aos gritos onde estava. A pizza chegou quente, claro.

Quem trabalha com Dilma merece ganhar adicional de insalubridade. E de periculosidade.»

Cláudio Humberto, em sua coluna do Diário do Poder, 8 mar 2016.