VIP por um dia

José Horta Manzano

Karon Grive, súdita britânica, é escritora. Para fugir da umidade e das brumas que envolvem sua Escócia natal no outono, decidiu passar um mês na Grécia, na ensolarada Ilha de Creta. Como não é dada a luxo, a quinquagenária escolheu um voo barato. Domingo último, embarcou em Glasgow, num Boeing da companhia de baixo custo Jet2, para a viagem de 3000 quilômetros até Heraklion. O bilhete custou-lhe 46 libras ‒ menos de 200 reais.

Ao se aproximar do guichê para o check-in, notou que o movimento era baixo. Puxou conversa com o funcionário e perguntou se os passageiros eram numerosos.

«‒ Adivinhe!», responde ele.

«‒ Sei lá. Uns dez, quem sabe?», arriscou.

«‒ Ih, tá frio. Pode baixar.»

«‒ Meia dúzia? Será?»

«‒ Menos. Só esperamos três passageiros!»

Karon Grive: VIP por um dia

Surpreendida, Karon se dirigiu ao salão de espera. Quando saiu a chamada para o embarque, ela reparou que, além dela, ninguém se levantou. Quando as portas da aeronave se fecharam, ela entendeu que era a única passageira. Os outros dois viajantes não se tinham apresentado. Situação insólita.

É verdade que, neste fim de temporada, o número de passageiros diminui, mas dificilmente a esse ponto. Companhias aéreas, quando não conseguem preencher determinado número de assentos, costumam cancelar o voo. Excepcionalmente, a Jet2 decidiu seguir o programado.

A viajante, como se pode imaginar, foi tratada como rainha. Os tripulantes a paparicaram e a chamaram pelo nome ‒ coisa pouco comum. A comandante do aparelho deixou a pilotagem em mãos do copiloto e veio sentar-se ao lado da passageira encantada. Descreveu-lhe o voo, mostrou-lhe paisagens, apontou para o espetáculo de uma tempestade vista do alto. Em suma, a turista fez uma viagem de sonho, sozinha e tratada como VIP num jato concebido para levar 189 viajantes.

A escritora descreveu a situação como surreal. Não é impossível que a experiência singular sirva de inspiração para o romance policial que pretende escrever à beira do Mediterrâneo. É impossível imaginar melhor propaganda para um livro que ainda nem foi escrito. Muita gente, informada pela BBC sobre o acontecido, já está ansiosa para ler a obra.

Black is beautiful

José Horta Manzano

Nenhum excesso é benéfico. Tudo o que é demais faz mal, todo o mundo sabe disso. No entanto, acontece de a gente cair no exagero sem se dar conta. Hoje fiquei sabendo de mais uma.

Folheando o jornal britânico The Telegraph, entre umas notícias sobre o Brexit e outras sobre a família real, encontro artigo surpreendente. Fala do Brasil e de uma polêmica envolvendo uma propaganda de papel higiênico. Pelo que entendi, uma empresa lançou produto de cor diferente do habitual: em vez de brancos, amarelos ou de florzinha, os rolos são pretos.

“Você já viu muito cocô na vida”
Será que este slogan seria mais bem aceito?

Até aí, nada demais. Há quem ache mais bonito o papel de toalete vermelho. Outros preferem o verde, que combina com a cortina do box. Há ainda quem não abra mão do azul com desenhos ‒ igualzinho ao tapete em frente à pia. Preto, realmente, não é comum. Mas… por que não?

Os marqueteiros da empresa hão de ter espremido as meninges pra encontrar um slogan. A propaganda do similar estrangeiro, que apela para palavra vulgar, é dificilmente aplicável em nossa terra. Por seu lado, «Preto é bonito» tampouco cai bem no Brasil do século XXI. Numa terra em que entrega virou delivery e desconto se diz off, expressão em português soa chué. «Le noir est plus beau» ficaria bem nos anos 1920 mas hoje o francês passou de moda. Restou o inglês, que é mais chique. Ficou «Black is beautiful».

Ah, pra quê! A (ainda) não oficial Polícia dos Costumes se alvoroçou acusando a frase de racista. Como é que é? Sim, senhor! Parece que o slogan é marca registrada de uma campanha antirracista em voga na África do Sul nos tempos do regime de apartheid. Usada fora do contexto, ofende. Pode?

Black is really beautiful

Parece que pode. Em nossa terra, hoje em dia, há uma patrulha barulhenta que vê o mal por toda parte. Meter a mão nas burras do erário e encher cuecas, malas e apartamentos de dinheiro do povo não é grave. Mas todo cuidado é pouco ao pronunciar o nome da cor preta. Nem que seja em inglês. É terreno minado.

A meus olhos, a ofensa está em outra parte. Indecente de verdade era o slogan «Brasil, um país de todos», lançado pelo governo federal enquanto rapinava a Petrobrás e promovia catastrófico assalto ao dinheiro de todos. Tem pior ainda. O cúmulo do escárnio foi a «Pátria Educadora» da presidente hoje destituída. Ou não?

Guinada à direita extrema

José Horta Manzano

Estes últimos anos, a Europa tem sido palco de forte afluxo migratório composto pelos que fogem de situações de conflito e pelos que simplesmente buscam um futuro melhor. Nem sempre é fácil fazer a distinção entre os perseguidos pela guerra e os que fogem da fome. Se bem que, no fundo, são todos fugitivos. É legítimo que todo ser humano busque melhores condições de vida.

No entanto, por maior que seja a benevolência, o volume de clandestinos que chegam diariamente é tão elevado que causa problemas. Os recém-chegados desconhecem a língua e os costumes do país que os acolhe. Muitas vezes, professam religião diferente e raramente têm formação profissional. Acabam se sentindo como se tivessem desembarcado noutro planeta. Quanto aos nativos, assustados com a quantidade de novos imigrantes, tendem a rejeitá-los.

Reichstag ‒ o palácio que acolhe o Parlamento alemão

Anos atrás, um primeiro-ministro francês ‒ aliás, membro do Partido Socialista ‒ disse algo como «A França não pode acolher toda a miséria do mundo». Se as palavras não foram exatamente essas, a fala mostrava um certo desalento. Quanta miséria a França pode acolher? A pergunta ficou no ar. E está sem resposta até hoje.

Na época, era só a França, mas hoje praticamente toda a Europa enfrenta a mesma questão. Que fazer? Fechar fronteiras? Construir muros à moda de Mister Trump? Instalar cercas de arame farpado? Ou deixar entrar quem quiser? Não é fácil encontrar solução. Por mais segura que seja a canoa, a capacidade de receber passageiros é limitada. Ultrapassado o limite, ela periga afundar. Como é que fica, então?

A consequência inevitável desse estado de coisas é o fortalecimento de sentimentos nacionalistas, antieuropeus e xenófobos. Partidos de extrema-direita, que haviam desaparecido desde o fim da Segunda Guerra, ressuscitam revigorados. O fenômeno é visível, já faz alguns anos, na Itália, na França, no Reino Unido. Ultimamente, Hungria, Polônia e República Tcheca acompanham o movimento. Até poucas semanas atrás, a Alemanha se mantinha fora do clube. Isso acabou.

Sessão do Bundestag ‒ os deputados federais alemães

As recentes eleições legislativas deram força à AfD (Alternativa para a Alemanha), partido de extrema-direita. Conseguiram eleger, de uma vez, 92 deputados para o Bundestag, a câmara baixa. É a primeira vez, desde 1945, que a direita extrema logra eleger deputado. O partido tornou-se, da noite para o dia, a terceira força política do país. É pra deixar muito alemão horrorizado. Os fantasmas do passado tenebroso estão saindo do baú.

Abre-se esta semana a nova legislatura do Bundestag. Por tradição, o discurso inaugural é feito pelo deputado mais idoso, seja ele de que partido for. O problema é que, desta feita, o mais velho era justamente um senhor eleito pelo partido de extrema-direita. Pior que isso, Herr von Gottfried (77 anos) é ferrenho adepto da corrente negacionista, daqueles que garantem que as câmaras de gás nunca existiram e que a exterminação dos judeus não passa de um mito.

Às pressas, o regulamento do parlamento foi modificado. O discurso de abertura passou a ser confiado ao deputado mais antigo, não ao mais idoso. A manobra salva as aparências mas, infelizmente, o problema continua tal e qual. A subida de forças nacionalistas de extrema-direita é pra lá de inquietante. Principalmente na Alemanha.

O Lula não mudou

José Horta Manzano

Este domingo, o jornal espanhol El Mundo publicou entrevista concedida pelo Lula. A leitura do documento é aflitiva. Ao final, a gente fica sem saber se o ex-presidente acredita realmente no que afirmou ou se está apenas representando um papel. Talvez as duas opções sejam verdadeiras. As respostas oscilam conforme a pergunta do repórter. Em certos assuntos, ele diz o que acredita ser verdadeiro. Em outros, dá a resposta que imagina que os leitores estejam esperando. No cabeçalho da reportagem, o próprio jornal fez um elenco das respostas mais marcantes. Vale a pena dar uma vista d’olhos.

Candidato em 2018
«Vou-me apresentar, aos 72 anos, porque ninguém sabe, como eu, cuidar do povo mais necessitado»

Observação 1
Nosso guia continua passando por cima da evidência de que presidente não é eleito para cuidar apenas do povo mais necessitado. Recebe mandato para governar o país inteiro ‒ pobres, ricos e remediados.

Observação 2
O país foi dirigido pelo ex-sindicalista, direta ou indiretamente, durante 13 anos. Se soubesse cuidar dos pobres, estes já deveriam ter desaparecido. Em vez disso, o desastre foi tão grande que o povo ‒ incluídos os «mais necessitados» ‒ se rebelou e derrubou a turma toda. Querer voltar agora é demais ousado.

Observação 3
Na época das eleições de 2018, nosso guia já estará completando 73 aninhos, não 72.

Corrupção
«O processo que me movem é uma farsa. Ninguém achou provas.»

Observação
As acusações contra o demiurgo estão entre as mais embasadas. Há toneladas de provas documentais e testemunhais.

Venezuela
«Não entendo por que a Europa se preocupa tanto com Nicolás Maduro. Foi eleito democraticamente.»

Observação
No meu tempo, diríamos que o moço está dando uma de joão sem braço. Está-se fazendo de ingênuo. Todos sabem como funciona o processo eleitoral venezuelano, movido a fraude maciça e a brucutus.

Felipe VI
«Numa situação de tensão como a que se vive na Catalunha, o rei não deveria tomar partido mas mediar.»

Observação
O Lula mostra atroz ignorância. O rei não “tomou partido”, mas lembrou aos súditos que o país tem uma Constituição a respeitar. Nosso guia continua firme na visão conflituosa de mundo: ou se está de um lado, ou se está de outro. Sem nuances. É a mais pura expressão do “nós x eles”.

Catalunha
«Entendo que o nacionalismo catalão vem de longe, mas eu prefiro uma Espanha unida.»

Observação
O Lula não se dá conta de que ninguém está interessado em saber que Espanha ele prefere. Com esta última declaração, ele anulou o pito que havia passado no rei da Espanha na resposta anterior. Quem se considera “estadista” não deve opinar em assuntos internos de outro país.

Como pode o distinto leitor constatar, o ex-presidente não mudou nadinha. Continua exatamente como sempre foi: ego inflado, recalcado, mentiroso, intrometido, presunçoso, demagogo. O passar do tempo não lhe foi benéfico. Que Deus nos livre de ter de aguentá-lo de novo no Planalto.

O país do molha a mão

Carlos Brickmann (*)

A procuradora-geral Raquel Dodge disse, ao tomar posse, que o povo “não tolera a corrupção”. Sua Excelência está certa, mas na frase faltou um pedacinho que lhe daria mais precisão: o povo não tolera “a corrupção dos outros”. O problema não somos nós, mas aqueles safados que condenamos.

Uma entidade séria, a Transparência Internacional, em pesquisa agora divulgada, mostrou que 11% dos brasileiros admitiram pagar propina para ter acesso a serviços públicos como saúde, educação, segurança, emissão de documentos. Detalhe interessante: a pesquisa se realizou na época do impeachment da presidente Dilma Rousseff, com manifestações de massa contra a corrupção do governo. Petrolão, não; mas tudo bem molhar a mão.

As respostas positivas, em que tanta gente confessa não apenas seu hábito de transgredir a lei como o desprezo pelos que protestam contra isso, são obviamente verdadeiras: ninguém mente ao confessar que age fora da lei. Portanto, se as autoridades pensam ter apoio do povo para combater os atos mais comuns de corrupção, podem ir desde logo mudando de ideia.

A pesquisa, porém, traz aspectos mais positivos. Dos brasileiros, 81% garantem que, se presenciassem um ato de corrupção, denunciariam. Claro que até agora ninguém o fez, exceto em troca de algum tipo de perdão dos suculentos – em alguns casos, tão bons que vale a pena até assumir a culpa de um crime. Mas é bom sinal. Quem sabe um dia?

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Meu pé de laranja-lima

José Horta Manzano

Nossa língua tem maneira bem prática de dar nome a árvores frutíferas. Partindo do nome do fruto, acrescenta-se a desinência -eiro ou -eira à raiz da palavra. Não funciona em todos os casos, mas dá pro gasto.

Pra compensar, o sistema serve até para alguns arbustos e até para árvores que não dão frutos comestíveis. Assim, temos: manga/mangueira, abacate/abacateiro, goiaba/goiabeira, laranja/laranjeira, tomate/tomateiro. Mas também: paineira, caneleira, magnoleira, palmeira.

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Sabe-se lá por que razão, uma correlação tão simples é cada vez mais ignorada. Em vez de cafeeiro, muitos usam «pé de café». No lugar de abacateiro, «pé de abacate». E ainda «pé de laranja», «pé de pitanga» e por aí vai. Será a lei do mínimo esforço em ação? É uma pena. Acho um empobrecimento.

Ontem, na legenda de uma bela foto, o Estadão explicou que se tratava de uma «fábrica de tijolos». Este blogueiro é do tempo em que esse tipo rudimentar de indústria se chamava olaria. A palavra deve ter-se tornado arcaica. E eu junto.

Uma curiosidade
No caso de fruta, o nome da árvore será sempre do mesmo gênero que o nome da fruta. Assim: pêssego/pessegueiro, ameixa/ameixeira, mamão/mamoeiro, pera/pereira. Há uma única exceção: figo/figueira.

Mudança

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um dos melhores livros que já li leva exatamente esse título. Escrito por três psicólogos americanos, defende a tese de que uma estratégia de mudança, para ser efetiva e duradoura, precisa ser em alguma medida paradoxal. Em outras palavras, ela precisa propor um novo paradigma, um novo enquadramento para a realidade que se deseja alterar, capaz de inspirar soluções alternativas às já tentadas.

Valendo-se da teoria matemática dos grupos, os autores explicam que, se a solução sugerida pertencer ao mesmo grupo do problema, ela perderá eficácia a curto prazo, e os benefícios, se houver algum, terminarão sendo automaticamente anulados com o tempo. Em linguagem matemática, se o problema for representado por +1 e a tentativa de solução por -1, o resultado será sempre zero se ambos pertencerem ao mesmo grupo.

Pense, por exemplo, numa pessoa que sente frio. A tendência universal é recorrer a medidas conceitualmente ancoradas na sensação oposta, ou seja, na ideia de se aquecer. A pessoa pode recorrer de início a alguma fonte externa de calor, como um cobertor, meias de lã ou agasalho. Se não funcionar, ela simplesmente aumenta a dose.

O conforto trazido pode representar um importante alívio dos sintomas, o que induz a pessoa a crer que seu problema está resolvido em definitivo. No entanto, a própria imobilidade do corpo, esmagado sob tantas camadas de roupa e de acessórios, fará com que a sensação de frio volte a incomodar. A pessoa pode, então, experimentar alternativamente alguma forma de geração de calor interno, exercitando-se vigorosamente ou ingerindo alguma bebida quente. Nesse caso, a transpiração levará inexoravelmente de volta a um resfriamento da pele e nova onda de frio será experimentada.

Pense agora na solução implementada pelos esquimós para combater o frio extremo de seu habitat. Os iglus, mesmo construídos com blocos de neve, mostraram ser uma solução engenhosa e eficaz por terem partido de outro conceito-base: o de impedir a circulação dos ventos. Graças a esse novo paradigma, vários outros produtos puderam ser desenvolvidos para combater a hipotermia, como é o caso dos agasalhos térmicos, que incorporam uma camada externa impermeável aos ventos. Até mesmo o frio causado pelo contato com as águas geladas dos oceanos, rios e lagos pode ser minimizado com o uso de trajes de mergulho de neoprene.

Os autores oferecem dezenas de exemplos deliciosos e instigantes de mudanças paradoxais introduzidas com sucesso ao longo da história, tanto em termos comunitários quanto na vida de pessoas comuns. Um dos que mais gosto diz respeito a um oficial francês que recebe ordens de Maria Antonieta para esvaziar a praça em frente ao palácio. Percebendo a enorme desproporção numérica entre seus soldados e a multidão que se aglomera em protesto, ele tem uma súbita inspiração. Sobe num caixote e grita, chamando a atenção da multidão. Em tom respeitoso e sério, ele se dirige aos camponeses e operários dizendo ter recebido ordens de se livrar apenas e tão somente de ‘la canaille’, ou seja, dos indivíduos vis e desprezíveis. Diz ainda que, por não ter como distingui-los a distância, pede encarecidamente a todos os cidadãos de bem que retornem às suas casas. A praça se esvazia em segundos.

Trago de volta essas lembranças inspirada pelo clima geral de final de feira em nossa república. Qual será a estratégia de mudança que teremos de elaborar para pôr fim a tanta desfaçatez, decadência moral e esgarçamento do tecido político, institucional e social em 2018?

Já experimentamos de tudo um pouco: desde intermináveis soluções de força a dirigentes que se proclamam não-políticos como forma de atrair a simpatia de eleitores indignados, passando por toda uma gama de líderes populistas de direita e de esquerda. Fizemos testes com membros da elite e com um da classe operária, com muitos homens e uma única mulher, com figuras públicas afeitas à norma culta da língua portuguesa e outras constrangedoramente donas de raciocínios tortuosos e discurso ilógico e gramaticalmente incorreto. Tivemos até um ditador reconduzido à presidência da república nos braços da população e fervorosamente aclamado como “pai do povo”.

Analisando todos os perfis de dirigentes até onde minha memória alcança, sou forçada a admitir, entretanto, que até hoje não conseguimos pensar fora da caixa. Continuamos elegendo sempre o perfil contrário ao de quem nos desagrada no momento, sem atinarmos com soluções pertinentes a outros grupos conceituais.

Que novos conceitos ainda nos resta explorar? Será que teremos de eleger não o candidato, mas o próprio marqueteiro que cuidou da campanha a peso de ouro? Será que um homem de televisão conseguirá aglutinar em torno de si cérebros privilegiados e corações sinceramente dedicados à nobre tarefa de servir aos interesses da população? Será que um jurista pode nos prometer mais isenção frente aos conchavos partidários e mais idoneidade no trato da coisa pública?

Não tenho as respostas, estou aceitando sugestões, por mais bizarras que elas sejam. Minha capacidade criativa – com o perdão do digno editor deste blog – foi devastada por décadas de irracionalidade e nonsense. No meu cérebro já não nasce nem a grama dos projetos comezinhos de sobrevivência individual. Duvido até da necessidade de lideranças para conduzir nosso imenso e complexo agrupamento social. O caos também é criativo, ora bolas.

Confesso por fim que tenho sentido ímpetos de cortejar a ideia de democracia direta. Alguém mais disposto a embarcar comigo nessa tentação?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Fiquei devastado

José Horta Manzano

Traduzir não é tarefa simples. Frases de aparência inofensiva escondem armadilhas. Uma delas é a contaminação. Basta um instante de desatenção e… catapum! O escriba dá uma escorregadela e troca os pés pelas mãos.

A contaminação se dá quando o termo a traduzir encontra na língua de destino um par que, embora muito semelhante, não dá exatamente o mesmo recado. A tentação é grande de optar pela simplicidade, utilizar a palavra parecida e seguir caminho. Mas nem sempre é a melhor opção. Parecido não é igual.

Quando se sente extremamente chocado com um acontecido, o inglês costuma dizer «I am devastated». Dia sim, outro também, encontramos na mídia nacional a tradução literal: «Fiquei devastado». Errado, propriamente, não está, mas soa esquisito e artificial como filme mal dublado.

Devastar(*) é formado pelo verbo vastar precedido pela partícula de reforço «de». Na origem, significa esvaziar um lugar e transformá-lo em deserto inabitado. Quem preferir traduzir «devastated» por «devastado» que o faça. Proibido não é, mas, convenhamos, um pouco de aplicação não faz mal a ninguém.

Segue aqui abaixo uma lista (não exaustiva) de substitutos. Cada um carrega uma nuance específica, mas giram todos em torno do mesmo tema. Da próxima vez, em lugar do bizarro «Fiquei devastado», experimente:

●  Fiquei arrasado
●  Fiquei abalado
●  Fiquei afetado
●  Fiquei impressionado
●  Fiquei assustado
●  Fiquei perturbado
●  Fiquei abatido
●  Fiquei estremecido
●  Fiquei horrorizado
●  Fiquei aflito
●  Fiquei sensibilizado
●  Fiquei atristado
●  Fiquei entristecido
●  Fiquei compungido
●  Fiquei chocado
●  Fiquei alarmado
●  Fiquei comovido
●  Fiquei aniquilado
●  Fiquei desolado
●  Fiquei aterrado
●  Fiquei destroçado

Não será por falta de opção, não é? Ninguém mais precisa se sentir “devastado”.

(*) Vasto é termo de origem germânica. É parente do inglês waste, do francês gâter, do alemão wüst (deserto), do português gasto.

Basílica de Aparecida

José Horta Manzano

Você sabia?

Este ano, celebrou-se o terceiro centenário do achado da estatueta da Virgem que viria a se tornar padroeira do Brasil. A basílica erigida em Aparecida (SP) ‒ que, com 18 mil metros quadrados de área, é o maior santuário mariano do mundo ‒ levou anos se preparando para a ocasião.

Na previsão das festividades de 2017, o artista plástico brasileiro Cláudio Pastro, hoje falecido, foi incumbido de idealizar a decoração da cúpula do templo. De sua prancheta, saíram 14 mil folhas com os planos detalhados dos mosaicos da obra grandiosa. Afinal, eram 2 mil metros quadrados de superfície a revestir com uma infinidade de pecinhas de poucos centímetros cada uma.

Região do Friúli, Itália

Em 2012, a encomenda foi passada a uma firma italiana especializada no ramo, a Friul Mosaic, localizada entre Veneza e Trieste, na região do Friúli. Essa região fica no nordeste do país e faz fronteira com a Áustria e a antiga Iugoslávia (hoje Eslovênia). O empreendimento exigiu trabalho de oito pessoas, em tempo integral, durante cinco anos. Só a confecção dos mosaicos consumiu 12 mil horas.

Orgulhosa, a firma concedeu entrevista ao portal local Il Friuli. Os dirigentes garantem que as peças ‒ mosaicos de esmalte e ouro ‒ são genuinamente italianas, todas produzidas em Veneza.

Quando se olha de relance, não se imagina quanto trabalho está por detrás de uma obra desse porte. Estão aqui abaixo algumas fotos mostrando a montagem e o trabalho terminado.

Basílica de Aparecida
Revestimento da cúpula

Basílica de Aparecida
Detalhe dos mosaicos da cúpula

Basílica de Aparecida
Revestimento de mosaicos

Basílica de Aparecida
Vista geral da cúpula

 

Binacionais na política

José Horta Manzano

Os imigrantes de um século atrás deixavam a pátria sem esperança de voltar. Quem carregava mulher, filhos, mala e cuia botava uma pedra em cima do país de origem. Passados alguns anos na nova terra, a família acabava adquirindo a cidadania e perdendo a nacionalidade originária. Virava-se a página e não se falava mais no assunto.

Nas últimas décadas, o panorama mudou. Com a facilidade de transporte e de comunicações, o mundo ficou menor. A noção de nacionalidade tornou-se menos nítida. No Brasil, a crise econômica política e social que se arrasta há trinta anos fez que milhões de descendentes de italianos, espanhóis, portugueses se abalassem para reativar a cidadania originária. Como resultado, porção crescente de brasileiros detém dupla cidadania.

Evidentemente, imigração não é exclusividade brasileira. As mesmas comodidades de transporte e de informação estão à disposição do resto do mundo. Também no interior da própria Europa, o movimento de populações é intenso. Uns mais, outros menos, todos os países do continente recebem imigrantes. Às vezes, são vizinhos próximos; em outros casos, vêm de horizontes mais longínquos, como os ucranianos que se estabelecem em Portugal, por exemplo.

Esse incremento de transumância faz aumentar o número de indivíduos com dupla nacionalidade. Enquanto se limitam a exercer atividades correntes ‒ no comércio, na indústria, nos serviços ‒, o fato de pertencer a duas nações não atrapalha. O problema surge quando algum deles decide lançar-se na política.

O caso suíço
Como sabem meus distintos leitores, o Executivo suíço não é representado por uma única pessoa, como na maioria dos países. O poder não é chefiado por um só indivíduo (presidente ou primeiro-ministro), mas por um colegiado de sete membros. As decisões são tomadas pelos sete sábios a portas fechadas e, em seguida, anunciadas ao público sem revelar qual foi o “voto” de cada um.

Mês passado, na sequência da aposentadoria de um dos sete membros do colegiado, novo integrante teve de ser escolhido pelo parlamento. Três candidatos se apresentaram, dois dos quais binacionais. Como a lei é muda nesse particular, cada um se posicionou conforme a própria consciência. Um dos candidatos, julgando que não ficava bem que um membro do Executivo fosse «meio» estrangeiro, decidiu renunciar à nacionalidade forasteira. Quanto ao outro, não vendo nenhum empecilho, manteve a dupla cidadania.

No Brasil, certos cargos são privativos de brasileiros natos (presidente e vice-presidente, presidente da Câmara, presidente do Senado, ministro do STF entre outros). A lei silencia quanto à binacionalidade. É que, à época em que a Constituição foi outorgada, os casos eram relativamente raros. Qualquer dia, o Artigo n°12 da lei maior terá de ser adaptado aos novos tempos. O legislador decidirá como lhe parecer, o importante é que fique claro.

Nota
Embora pouco se tenha noticiado, o caso já se produziu no Brasil. Doutor Eduardo Cosentino da Cunha, que já presidiu a Câmara Federal (e que hoje goza merecido descanso atrás das grades) tem dupla cidadania ítalo-brasileira. Dado que a lei não prevê essa eventualidade, a binacionalidade de doutor Cunha não o impediu de exercer o cargo. O moço caiu por outras razões.

Gerúndio criminalizado

Criminalizar gerúndio por causa do gerundismo é uma bobagem atroz

Sérgio Rodrigues (*)

Outro dia recebi de um conhecido uma mensagem que primeiro me fez sorrir, mas logo me deixou triste. O sujeito dizia que, refletindo sobre um conjunto de dados, tinha chegado a determinada conclusão.

Dados e conclusão não vêm ao caso. O que merece atenção aqui é a cunha que o meu conhecido achou importante meter no texto, entre parênteses: “Analisando (desculpe o gerundismo!) as informações disponíveis, concluo que…”.

Pensando por alguns segundos, concluí que precisava pensar por mais alguns segundos. Foi aí que a graça inicial daquilo (como assim, chamar um gerúndio perfeitamente funcional de “gerundismo”, com exclamação e tudo?) deu lugar a uma certa tristeza.

O cara não está entendendo bem o que se passa, e tem numerosa companhia. Muita gente no Brasil ouviu cantar o galo gerundista do telemarketing e concluiu que toda forma verbal terminada em “-ndo” é um ruído, um arroto, uma gafe.

Trata-se de uma bobagem atroz. O gerúndio é bacana. Versátil, vem sendo usado desde o nascimento da língua portuguesa para expressar ideias de continuidade ou frequência e criar outras modulações de tempo, modo e causa.

Embora também possam ser encontradas assumindo outras formas no vasto mundo da língua, essas ideias muitas vezes têm no gerúndio sua expressão mais elegante e concisa.

“Senhor, esteja aguardando na linha que vamos estar informando quando o senhor vai estar recebendo o produto” é uma frase ridícula, óbvio. No entanto, partir daí para condenar todos os gerúndios equivale a responsabilizar a bola pelo 7 a 1.

O que se chama de gerundismo é o vício canhestro de tratar como frequentativas –isto é, habituais, que se repetem– todas as ações do mundo. Mesmo a construção que esse modismo terminou avacalhando tem o seu lugar: “Nos próximos meses não vou viajar, estarei estudando para o Enem”.

Sendo o Brasil um país pouco letrado, com índices de leitura capazes de precipitar monges taoístas em abismos de angústia e revolta, não surpreende que tantas vezes o pessoal acabe se confundindo com a fronteira entre o abuso e o uso razoável de determinado recurso.

Quando sabemos que sabemos pouco, é natural que nossa insegurança transforme a liberdade de escolha, valor fundamental da ética e da estética, em campo minado. Daí o velho apego brasileiro à hipercorreção e a regras autoritárias em letras garrafais: isso está CERTO, aquilo está ERRADO, fim de papo.

Juntando-se a esse quadro um dos mais clássicos mal-entendidos da lusofonia, a trama se adensa. “Ah, os portugueses não usam o gerúndio” é uma ideia falsa. Essa forma nominal do verbo tem emprego firme em certas regiões de Portugal.

Ainda que fosse verdadeira, supor que a “brasilidade” rebaixaria de alguma forma o gerúndio é pura vira-latice. “A dizer” não tem nada de intrinsecamente superior a “dizendo”. Na verdade, poderia até ser visto como um uso bárbaro por um conservador radical que tomasse o português camoniano como padrão-ouro do idioma.

Com seus “reis que foram dilatando a fé, o Império, e as terras viciosas de África e de Ásia andaram devastando”, tirem o gerúndio de Camões e verão Os Lusíadas se desfazendo em milhares de caquinhos.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista. O artigo reproduzido foi publicado originalmente na Folha de São Paulo.

Santa Helena

José Horta Manzano

Você sabia?

Santa Helena é uma ilha perdida no meio do Atlântico Sul. Um dos lugares mais isolados do planeta, fica entre América do Sul e África, na latitude do sul da Bahia, a 3300km do Brasil e 1800km das costas de Angola. Um fim de mundo.

Avistada por navegadores ibéricos na época das grandes descobertas, não despertou grande interesse a não ser como ponto de parada no caminho entre Europa e Índia. Como era costume na época, os portugueses soltaram cabras na ilha para garantir uma reserva de carne fresca em futuras passagens. Sem predadores, as cabras se multiplicaram e devastaram a cobertura vegetal da ilha. A vegetação atual é resultado do que foi plantado mais tarde, depois da eliminação do último caprino.

Santa Helena ‒ aeroporto
crédito: google

O território é minúsculo. A área, de apenas 120km2, equivale à de um pequeno município como São João da Mata (MG) ou Arroio do Sul (RS). Quatro mil e quinhentas pessoas vivem na ilha onde praticamente todos se conhecem. Faz três séculos e meio que faz parte das possessões britânicas de ultramar.

Na Europa, Santa Helena é conhecida por ter servido de prisão ao travesso Napoleão. Derrotado em Waterloo, o general francês foi levado pelos ingleses para bem longe. Escolheram um lugar de onde seria impossível escapar. De fato, aquele que tinha sido imperador da França lá viveu seus últimos seis anos até expirar em 1821.

Santa Helena ‒ povoado de Jamestown

Nos tempos modernos, o abastecimento dos ilhéus tem sido feito por barco. Um único navio faz a rotação entre Santa Helena e a Cidade do Cabo, na África do Sul. A travessia leva 5 dias. Assim, o barco atraca na ilha cerca de 30 vezes por ano. Pouco mais de dez anos atrás, Londres decidiu construir um aeroporto na ilhota. A intenção era possibilitar acesso rápido ao continente quando necessário fosse.

Depois de anos de obras e 250 milhões de libras de investimento (cerca de um bilhão de reais), o pequeno aeroporto ‒ que as más línguas qualificam de aeroporto mais inútil do mundo ‒ ficou pronto. O primeiro voo comercial teve lugar neste sábado 14 de outubro. Uma única linha regular liga Santa Helena ao continente. É operada pela South African Airways e faz o trajeto até a Cidade do Cabo uma vez por semana.

Santa Helena ‒ forte de High Knoll

A ideia inicial era utilizar um Boeing 737. No entanto, testes indicaram que esse aparelho não tinha condições de enfrentar os ventos que açoitam continuamente o aeroporto. O único avião a passar pelos testes foi o Embraer E190. Por que me ufano! Assim mesmo, por questão de segurança, ficou definido que cada voo não poderá levar mais que 76 passageiros em lugar dos 99 habituais.

Os helenenses podem se considerar mimados. Não é todos os dias que se investe um bilhão de reais para servir a 4500 pessoas.

Na lata

José Horta Manzano

Cesare Battisti, em declaração ao Estadão:
«Vão me entregar à morte!»

Bruno Vespa (jornalista, escritor e figura da televisão italiana):
«Purtroppo no. Siamo un paese civile che gli assassini li mette solo in galera.»
«Infelizmente não. Somos um país civilizado que se contenta em mandar os assassinos para a cadeia.»

Psiconeuroimunologia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Passeando pela seção de ciências de um conhecido jornal, dei de cara com esse palavrão. Curiosa, fui investigar do que se tratava. De início, uma certa decepção. Era apenas a designação dada a um campo interdisciplinar de estudos científicos que se propõe a revelar as conexões entre a psicologia, a neurologia e o sistema imunológico.

Fiquei intrigada. Que as emoções interferem na saúde geral do corpo é fato comprovado cientificamente há mais de meio século. Muito já se estudou a respeito do papel dos neurotransmissores na promoção de sensações de bem-estar, assim como sobre a influência potencialmente deletéria de alguns hormônios ligados ao estresse sobre a imunidade. Nada de novo, portanto.

Por que, então, querer agrupar antigas áreas de pesquisa científica e rebatizar o conjunto, emprestando a ele ares de um novo campo do saber? Pelo que entendi, ainda faltava desvendar mais precisamente através de quais mecanismos os processos mentais atuam sobre a saúde. Ou seja, descobrir como o sistema nervoso central influencia e é influenciado pelo sistema endócrino e de que maneira os dois se articulam com as instâncias psíquicas para gerar a resposta imune. Uma vez conhecidos os vetores, ainda era preciso investigar de que forma o psiquismo humano pode se tornar um aliado estratégico para reforçar a imunidade do corpo. Ou, inversamente, como evitar que ele se posicione como força motriz para o aparecimento de doenças autoimunes, como o câncer, o diabetes e a aids.

Não foi nada disso, entretanto, o que aguçou minha curiosidade. O que me encantou mesmo foi saber como tudo começou. A estória é banal e demonstra, mais uma vez, a importância do acaso para o avanço do conhecimento científico. Tudo teve início em 1986, quando um professor de psicologia teve a ideia de pedir a seus alunos que escrevessem sobre o maior trauma de suas vidas ou, se não tivessem passado por nenhum, sobre o momento mais difícil que haviam vivido.

O professor insistia para que eles fossem o mais fundo possível na reminiscência de cada detalhe e colocassem no papel seus pensamentos e sentimentos mais profundos, mesmo que nunca tivessem ousado compartilhá-los antes. A tarefa foi repetida por vários dias consecutivos, para que os participantes pudessem dar vazão plena aos meandros de seu conturbado universo emocional interior. ara dar validade científica ao experimento, foi formado também um grupo de controle, ao qual se atribuiu a tarefa de registrar pensamentos e sentimentos a respeito de eventos cotidianos neutros, pelo mesmo número de sessões.

Segundo relato do próprio pesquisador, vários alunos choraram durante as sessões e afirmaram que ficar remoendo o passado havia feito com que eles se sentissem, de início, ainda pior. Curiosamente, no entanto, quando indagados se preferiam abandonar o experimento, todos expressaram o desejo de continuar. Nos seis meses seguintes, o professor monitorou a frequência com que os estudantes iam ao médico. Descobriu, sem muita surpresa, que aqueles que haviam se envolvido com o que hoje é chamado de “escrita expressiva” haviam se consultado muito menos vezes do que os colegas “neutros”.

Ele acreditava que o efeito benéfico sobre a saúde se devia apenas à catarse. Ou seja, pelo fato de terem se livrado de uma carga emocional pesada, os participantes provavelmente estavam apenas colhendo os frutos de uma menor preocupação com sintomas de desconforto físico. Mas a pesquisa não parou por aí. Vários outros experimentos foram realizados na sequência, enfocando quais áreas da saúde eram mais impactadas positivamente, desde problemas simples, como disfunções respiratórias, até os mais complexos, como o câncer.

Alguns resultados mostraram-se decepcionantes, seja por não apresentarem relevância estatística, seja por não perdurarem no tempo. Havia uma área, entretanto, em que os exames de laboratório mostravam resultados positivos mais consistentes e duradouros: o da cicatrização de ferimentos. Alguns voluntários foram até mesmo recrutados para se submeterem a um ferimento intencional (corte no braço e retirada de uma pequena amostra de pele) para analisar como e porque isso acontecia.

Foi então que o pesquisador decidiu investigar o tipo de linguagem usada na escrita expressiva e correlacioná-la com a melhora na saúde. Descobriu que aqueles cujos ferimentos saravam mais rápido haviam iniciado seus relatos usando mais vezes a palavra “eu” e, ao longo do tempo, migraram para o uso mais frequente de relatos em terceira pessoa, o que seria um indicador de mudança sutil de perspectiva na análise dos eventos traumáticos.

Além disso, essas pessoas recorriam mais vezes à palavra “porque”, o que sugeria que elas estavam aprendendo a dar um sentido aos acontecimentos e os alinhavando numa narrativa mais pessoal e estruturada.

Não estou sugerindo com essas divagações que estamos diante de uma revolução na ciência. Claramente, ainda não há nada de muito espetacular nas descobertas feitas até aqui. O que me é altamente estimulante, porém, é saber que ainda há um campo fascinante e muito extenso de investigação científica a ser explorado pelas futuras gerações.

Meu interesse pela área da psiconeuroimunologia fica ainda mais despertado quando penso na dificuldade que os jovens de hoje em dia, educados pelo e no mundo virtual, sentem de lidar com a linguagem escrita. O “internetês” criado por eles – os kkkkk e os rsrsrs para expressar divertimento, o recurso aos emojis para comunicar emoções e aos likes para manifestar concordância ou apoio – deixa em mim uma sensação amarga de retrocesso da capacidade humana de criação de vínculos.

Em psicanálise, costuma-se dizer que um dos sinais indicadores de desenvolvimento de maturidade psíquica surge quando a pessoa aprende a dar nome aos próprios sentimentos e emoções. Mais tarde, a interlocução afetiva efetiva vai depender em grande parte da precisão dessa linguagem interior.

Outra coisa que me preocupa e assusta é que o século 21 parece ter trazido consigo uma recusa maciça das novas gerações de se aventurarem livremente nos processos de interiorização. Passamos a viver na periferia de nós mesmos, incapazes de delinear os contornos de nossa subjetividade, voltados para fora e interessados apenas em garantir nossa aceitação na comunidade virtual.

É em função de tudo isso que ouso sugerir uma nova explicação para os fenômenos de cura observados através da escrita expressiva. Talvez seja reservando um tempo para meditar e lamber nossas feridas internas que possamos, finalmente, restabelecer as fibras de nosso tecido anímico, social e existencial.

A pesquisar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Codinome

José Horta Manzano

Estante e prateleira são sinônimos? Sim e não. A linguagem popular não faz muita diferença, usa um pelo outro. Mas o fundo das coisas é o seguinte: estante é um móvel composto de certo número de prateleiras. Portanto, stricto sensu, não são sinônimos exatos.

Estada e estadia são sinônimos? À primeira vista, sim. Acontece que cada um desses dois termos se especializou. Quando recebemos uma visita, dizemos que ela veio para uma estada de três dias. Se deixamos o automóvel num estacionamento, pagaremos um montante correspondente à duração da estadia do veículo. Navios também fazem estadia no porto. Convém, portanto, usar estada para gente e estadia para veículos.

Às vezes se ouve que um personagem qualquer do mundo das artes se apresenta sob o codinome tal. Nome, codinome, apelido, alcunha, cognome, denominação, epíteto são termos semelhantes, mas estão longe de ser sinônimos perfeitos. Cada um deles tem valor e peso próprios. Para não trocar os pés pelas mãos, convém respeitar essas particularidades.

Nome, apelido, denominação e epíteto são neutras, não trazem embutida nenhuma ofensa. O apelido de Roberto é Beto. Chamar Antônio Carlos Jobim de Tom não incomoda ninguém. Já o mesmo não se dá com os outros aparentes sinônimos.

Alcunha(*) e cognome são termos com forte carga depreciativa, que caem bem na linguagem policial. Tirofijo era a alcunha de um dirigente terrorista colombiano, desaparecido alguns anos atrás. Beira-mar é o cognome de conhecido traficante.

Por último, sobrou o estranho codinome. Não se pode cobrar de jovens jornalistas o conhecimento profundo de uma realidade que não viveram. Mas vale a pena aprender. Nos anos 1970, pequenos grupos, às vezes armados, se insurgiam contra o poder central. Na tentativa de burlar a repressão, seus membros ocultavam o nome de batismo e adotavam nome(s) de fachada, nome(s) de código. Foi nessa época que o vocábulo codinome se popularizou.

Aos remanescentes daqueles indivíduos — alguns dos quais chegaram, mais tarde, a ocupar postos de mando na República — não agrada que se tragam à tona símbolos que marcaram fortemente aqueles tempos duros. Um desses símbolos é justamente a palavra codinome.

É bom tomar cuidado com esse termo. Falando de bandido (ou de ex-bandido), use o termo que mais lhe agradar. Quando se referir a gente honesta, evite palavras depreciativas. Pega mal pra caramba.

(*) Nota
O presente artigo baseia-se nos costumes brasileiros. Em terras lusas, o peso e até o significado de determinadas palavras podem ser diferentes. Os portugueses chamam apelido o que chamamos sobrenome. Já quando dizem alcunha, referem-se simplesmente ao apelido de alguém. Sem carga pejorativa naturalmente.

Votaron cuatro veces!

José Horta Manzano

«Hay ciudadanos que votaron cuatro veces!» ‒ foi uma das observações que contribuíram para desqualificar o plebiscito realizado pelo governo provincial da Catalunha no dia primeiro de outubro. Determinados eleitores são acusados de ter votado diversas vezes. De qualquer maneira, a consulta não havia sido autorizada pelo governo espanhol, fato que a tornou ilegítima e mesmo ilegal.

A organização do plebiscito, sua execução, o cômputo dos votos e a proclamação dos resultados foi feita pelo mesmo grupo de independentistas, sem controle externo. Eles próprios, ao anunciar o total de votantes, admitiram que menos da metade do eleitorado havia comparecido. Ainda que houvesse uma nesga de legitimidade, a consulta padeceu de falta de quorum. Voto descontrolado nunca dá bom resultado. Mas esses são problemas espanhóis. Vamos aos nossos.

Urna transparente

A Secretaria de Tecnologia da Informação do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) andou fazendo um levantamento no cadastro de eleitores. Descobriu irregularidades ‒ surpreendente mesmo seria não descobri-las…

Um dos casos mais emblemáticos é o de um cidadão goiano que tinha 52 títulos de eleitor, 52 identidades, 52 CPFs. Cinquenta e dois exemplares de cada documento! Esse não fez as coisas pela metade. Um caso desse quilate deixa possuidores de «apenas» dez, vinte ou trinta títulos em segundo plano. Os indivíduos que têm nada mais que duas ou três identidades, então, passam despercebidos.

Essa notícia reforça a desconfiança que tenho ‒ e não sou o único ‒ na confiabilidade do voto eletrônico. Se, com fichas de papel e arquivos, que têm existência física e podem ser consultados a qualquer tempo, cidadãos conseguem manter múltiplas identidades, a urna eletrônica potencializa o perigo de fraude. De fato, na ausência da cédula de papel como comprovante, quem garante que cada voto foi computado corretamente? Em caso de litígio, como recontar?

Ouvi, ainda hoje, que piratas informáticos da Coreia do Norte invadiram sites militares da Coreia do Sul e sugaram zilhões de dados ultraconfidenciais. Ora, quem consegue entrar na casa dos outros e roubar informação deve também ser capaz de modificar dados. A meu ver, o debate vai além da segurança garantida pelo cadastramento biométrico. O que está em jogo é aquela torrente de dados que, embora ninguém veja, correm, anônimos, pelos cabos informáticos e determinam a vitória ou a derrota de cada candidato.

O risco de manipulação e de fraude maciça é bem maior que o perigo de um ou outro bugre votar 52 vezes. Um cavalo de troia introduzido no sistema eletrônico de apuração não altera 52 votos: pode adulterar 5 milhões. Ou mais.

Tomataço

José Horta Manzano

Uma coisa que me revolta é desperdício de comida. Quando de recente visita que doutor Gilmar Mendes, ministro do STF, fez a São Paulo, um grupo de manifestantes se valeu da ocasião para demonstrar desagrado com determinadas decisões do magistrado. Para isso, não encontraram melhor maneira que lançar tomates em frente ao edifício onde se encontrava o referido doutor.

Num país onde parte significativa da população ainda depende de uns caraminguás da bolsa família para sobreviver, a iniciativa é mais que escandalosa: é indecente. Jogar comida fora quando tem gente passando necessidade? É surreal.

Na China e em outras regiões do mundo que trazem na memória coletiva o terrível espectro de séculos de fome e privações, jamais viria à mente de um cidadão desperdiçar alimento. Seria ato impensável, de uma estupidez inimaginável. Por que razão isso não deixa ninguém indignado no Brasil?

Chamada Estadão, 9 out° 2017

Mesmo se fôssemos ricos ‒ o que está muito longe de acontecer ‒ já seria irrespeitoso. Quando se sabe que, a algumas centenas de metros do local do «tomataço», famílias vegetam debaixo de viadutos, abrigadas por pranchas de papelão e cobertores ralos, é incompreensível.

Ainda que o magistrado fosse o único culpado pela miséria nacional ‒ o que não é verdade ‒ o desbaratamento de gêneros alimentícios não se justificaria.

É questão de coerência e de bom senso. Que se manifestem com bandeiras, cartazes, passeatas. Que gritem palavras de ordem, que berrem ao megafone. Que se unam em «tuitaço» de repúdio. Que organizem petição de reclamação. Há mil maneiras civilizadas de protestar. Desperdiçar comida num país como o nosso? É pecado mortal. Não tem alcance e só serve pra dar trabalho extra a mal pagos garis.

Nota
Não sou advogado do magistrado. Aliás, estou frequentemente em desacordo com posições dele. Nem por isso acho correto atirar-lhe tomates, ovos ou qualquer outro tipo de comida.

O distinto leitor há de se lembrar do dia em que, diante das câmeras do mundo inteiro, um manifestante atirou um maço de cédulas falsas sobre o então presidente da Fifa. Achei fantástico. Aquela chuva de «dinheiro» doeu mais que uma tomatada. E fez efeito: pouco tempo depois, o dirigente pediu as contas.

Família rapidinha: abreviaturas

Dad Squarisi (*)

Se o falante tem ânsia de brevidade, a língua não o deixa na mão. Colabora. Por isso, inventou a abreviatura. Reduz um palavrão a poucas letras. Doutor vira dr.; Apartamento, ap.; Quilômetro, km. Mas a ajuda tem preço. São as regras para usar as pequeninas. A mais importante: ter pena do leitor. A redução precisa ser familiar, facilmente entendida.

Não só. As abreviaturas formadas pela diminuição de palavras têm três manhas.

●   Uma: exigem o ponto final.

●   A outra: não abrem mão do s do plural.

●   A última, igualmente importante: mantêm o acento original.

Exemplos:
capítulo (caps.),
companhias (cias.),
páginas (págs.),
século (séc.),
código (cód.).

Tal como na vida, na língua há os privilegiados perante a abreviatura. É o caso do símbolo de hora, minuto, segundo, metro, quilo, litro e respectivos derivados (quilômetro, mililitro). Eles são sem-sem – sem o ponto abreviativo e sem o s indicador de plural: 5h30; 3h30min14; 4,5m; 20kg; 10ml.

Pragas aparecem de vez em quando. A mais recente atingiu a nobre figura do professor. Os manuais dizem que a abreviatura do mestre é prof. Mas, por alguma razão alheia à vontade de Deus e dos homens, começaram a brindá-lo com um ozinho (profº). O intruso aparece até em cartazes de faculdade. É a receita do cruz-credo.

A língua detesta redundância. O masculino não precisa do o. O feminino, sim, pede a. O plural, s. Compare: professor (prof.), professores (profs.), doutor (dr.), doutores (drs.), professora (profª), doutora (dra.), professoras ( profªs), doutoras (dras.).

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.