O fim da escuridão

Você sabia?

José Horta Manzano

Era um meio-dia de janeiro, sol saariano, já faz um bocado de tempo. Eu estava ciceroneando um amigo europeu em sua primeira visita ao Brasil.

De repente, ele se exclama: «― Mas os postes não têm sombra!»(*). Mas é claro, pensei eu, em pleno janeiro, ao meio-dia, não podia ser diferente. O estrangeiro continuava extasiado. Nunca na vida tinha visto aquilo, um objeto exposto ao sol, sem sombra.

Les Neyrolles, França

Les Neyrolles, França

Quem vive entre os dois trópicos, seja no hemisfério norte, seja no sul, está habituado a esse fenômeno. A gente nem repara. Mas pode deixar: para  quem vem de latitudes mais elevadas ― mais afastadas do equador ―é prodígio que não passa despercebido.

Aqueles que ainda trazem alguma lembrança das aulas de Geografia, hão de se lembrar que, devido à inclinação do eixo terrestre, unicamente os habitantes das regiões próximas do equador terrestre podem assistir a esse fenômeno. Quem vive ao norte do Trópico de Câncer ou ao sul do Trópico de Capricórnio nunca verá o sol a pino, bem em cima do cocoruto.

Quanto mais nos afastarmos do equador em direção ao polo ― Polo Norte ou Polo Sul, pouco importa ―, menos alto se avistará o sol do meio-dia. Nas cercanias dos polos, então, a coisa pode ficar preta. No sentido literal. No inverno, durante algumas semanas, o sol não surge no horizonte, é noite o tempo todo. A compensação vem no auge do verão, quando o sol não se põe durante umas boas semanas. É um dia interminável.

Aqui na Europa meridional e central, o fenômeno não chega a esses extremos. Em junho e julho, os dias são bem longos. Se não houver montanhas no horizonte, pode-se admirar o sol até por volta das 22 horas. Ao contrário, no inverno, antes das 17h já é noite negra. Para presenciar o fenômeno de semanas de sol contínuo, precisa viajar para além do Circulo Polar, no extremo norte da Escandinávia.

No entanto, mesmo sem ir tão longe, há lugares curiosos por aqui mesmo. Um exemplo peculiar é um lugarejo chamado Les Neyrolles, um dos mais de 36’000(!) municípios franceses. Fica num vale dos Montes Jura, a uns 50km da fronteira suíça.

O centro da localidade apresenta uma particularidade pouco invejável. De meados de novembro até meados de fevereiro, o sol simplesmente não aparece no céu. Ainda que o tempo esteja claro, céu azul sem nuvens, será impossível contemplar o astro maior. A luminosidade, felizmente, chega, mas o sol permanece abaixo da linha do horizonte.

A razão é uma parede de montanhas plantada bem nas proximidades do burgo, exatamente na direção do sul. No inverno, a mecânica celeste não permite que o sol, fraco e sem força, ultrapasse o cume daqueles montes. O povoado fica muito triste e, principalmente, muito frio. Só vive lá quem não tem outra opção.

Les Neyrolles não é o único lugar habitado a sofrer com essa falta de iluminação direta. Por razões histórico-econômicas ― presença de um rio, passagem de alguma antiga estrada, jazida mineral ―, outros lugarejos se encontram na mesma situação.

Mas alegremo-nos, irmãos! Fevereiro está terminando, os passarinhos já começaram a cantar, e logo o sol voltará a alegrar a natureza de Neyrolles e de outros povoados semelhantes.

Até novembro é garantido. Depois disso, sabe como é…

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(*) Meu amigo se referia à acepção própria de postes: estacas para iluminação pública. Hoje em dia, é verdade, o termo pode prestar a confusão. No Brasil há “postes” sem luz própria.

 

Rapaziada do Brás

Você sabia?

José Horta Manzano

Corria o ano de 1917 quando Alberto Marino (1902-1967) compôs uma valsa. Fosse hoje, é possível que tivesse inventado um rap, mas o gosto musical da época era outro. O autor tinha apenas 15 anos de idade (quinze!). Sua criação era despretensiosa, nem letra tinha. Veio-lhe assim como brotam os primeiros amores adolescentes.

Como bom descendente de italianos, Alberto tinha nascido e crescido no paulistano bairro do Brás, reduto de imigrantes peninsulares. Naqueles tempos, metade da população da cidade era estrangeira e, dessa metade, um vivente em cada dois era italiano. A composição recebeu o nome de Rapaziada do Brás, ou do «Braz», como se usava então.

Não se pode dizer que tenha estourado nas paradas de sucesso. (Para quem não conhece a velha expressão, traduzo para o moderno vernáculo: hit parade.) A primeira gravação, pelas mãos do próprio autor, não se faria senão uma dezena de anos mais tarde. Quanto à letra, só foi acrescentada 40 anos depois, criada pela pluma do próprio filho do compositor.

Pouco importa se estourou nas paradas ou não. A Rapaziada do Brás é lembrada até hoje, passado quase um século. Ficou na memória coletiva como um símbolo do passado da cidade.

Alberto Marino continuou sua carreira na música. Diplomou-se como violinista e, mais tarde, como compositor e regente. O que ele estava longe de imaginar é que, após seu falecimento em 1967, seu nome se elevaria a uma altura de… 30 metros. Não estou brincando: um viaduto foi batizado com seu nome, honraria que não é concedida a qualquer um.

            1950 Porteiras do BrásFlechas azuis: postes ainda existentes

1950 Porteiras do Brás
Flechas azuis: postes ainda existentes

Governantes, figurões da política, seus amigos e familiares transformam-se, muita vez ainda em vida(!), em nome de logradouro público. Já com músicos e maestros, o acontecimento é menos frequente.

Todos os que conheceram a cidade de São Paulo antes de meados dos anos 60, hão de ter visto, ou pelo menos ouvido falar, nas porteiras do Brás. Para os que pularam esse capítulo, conto.

Desde o último quartel do século XIX, estradas de ferro cortavam a cidade. Foram, em grande parte, responsáveis pelo acelerado progresso do acanhado burgo. Enquanto o tráfego urbano se restringia a pedestres, a carroças puxadas a burro e a um ou outro automóvel, as vias férreas não representavam grande empecilho. Quando passava um trem, os que tinham de atravessar para o outro lado esperavam. Sem pressa e orgulhosos que se sentiam com o sinal tangível de modernidade, ninguém reclamava.

Foi assim até meados dos anos 40. A partir de então, o aumento da população expandiu os limites urbanos. O tráfego de automóveis e de caminhões cresceu. A Zona Leste povoou-se rapida e densamente. Muitas fábricas se estabeleceram ao longo da ferrovia. No entanto, imperturbáveis, os trilhos continuaram no exato lugar onde haviam sido assentados.

           2010 Porteiras do BrásO prédio verde perdeu suas venezianas

2010 Porteiras do Brás
O prédio verde perdeu suas venezianas

Nos anos 50, as porteiras do Brás já tinham se tornado um dos maiores pesadelos da cidade. A frequência dos trens crescia e, à passagem de cada composição, as porteiras baixavam, represando o pesado tráfego da importante avenida Rangel Pestana.

Falava-se muito em resolver o problema. Entrava prefeito, saía prefeito, e nenhuma providência era tomada. Foi preciso esperar até o meio dos anos 60 para que, finalmente, durante a gestão do carioca Faria Lima, então prefeito de São Paulo, um viaduto fosse construído. Como presente à cidade ― que faz anos em 25 de janeiro ― a obra foi inaugurada dia 24 de janeiro de 1968.

 Eu já não estava mais no Brasil, mas imagino que deva ter sido uma festa. E um alívio para os que costumavam atravessar a linha férrea, fosse a pé, de carro ou de ônibus.

Este é um (raro) exemplo de obra pública de nome acertado. Quem mais poderia ter emprestado seu próprio nome a um viaduto que resolveu o angustiante problema das porteiras do Brás?

O desaparecimento das porteiras não nos trouxe de volta a poesia da antiga rapaziada do Brás. A de hoje já não faz mais serestas. Se as fizesse, teriam outro tempero. Sobrou, como consolo, a quase centenária composição. Ainda há de nos encantar por muito tempo.

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Se alguém quiser recordar a valsa, na voz de Francisco Petrônio, que clique aqui.

NOTA: Clique sobre as fotos para ampliá-las.

O homem do saco 2

Você sabia?

José Horta Manzano

«Quando não vai por bem, vai por mal». Desde pequenos, ouvimos essa expressão. Há variantes, entre as quais: «Se não for pelas boas, vai com casca e tudo». Parece lugar-comum dizer isso, mas a sabedoria popular é realmente bem mais profunda do que imaginamos.

Há regras e normas que, por preguiça ou negligência, costumamos ignorar. Todos nós sabemos, por exemplo, que é proibido estacionar um veículo em cima de uma faixa de pedestres. Assim mesmo, não se passa um dia sem que flagremos carros parados bem em cima de faixas protegidas. Por que acontece isso? Será por deficiência visual do motorista? Não acredito. É negligência, fruto da quase certeza da impunidade.

Saco oficial

Saco oficial

Por aqui, faz anos que se incita o povo a triar o lixo doméstico. Nossa sociedade produz montanhas de detritos que precisam, de um modo ou de outro, ser tratados. Que se os incinere, enterre, recicle, algum fim tem de ser dado a todo esse descarte. No passado, já cheguei a ver famílias com vários recipientes em casa, cada um etiquetado para um tipo de despejo. Mas não era muita gente a proceder assim, pois a decisão dependia unicamente da boa-vontade e da consciência ecológica de cada um. As autoridades bem que tentaram fazer que os cidadãos entendessem que nem tudo o que se joga fora é lixo inaproveitável. Desde que se faça uma triagem conscienciosa, muita coisa pode ser utilizada para outros fins. Depois que está tudo misturado, a separação fica difícil, se não impossível.

Pelas boas, não foi. Os conselhos não adiantaram muito. Mentalidades não se mudam assim, da noite para o dia, sem mais nem menos, só com um apelo à consciência de cada um. A parte mais sensível do homem, como se sabe, é o bolso. Como não houve outro meio, restou a maneira forte.

Foi o que relatei num artigo postado em 21 de dezembro de 2012, quando lhes relatei sobre a nova taxa que estava para vigorar no município onde vivo. É a «taxa do lixo» também conhecida como «taxa por saco».

Na época, insurgi-me contra a obrigatoriedade do novo regulamento. Cheguei a fazer referência jocosa à história do «homem do saco», aquela figura inventada pelos antigos para domar, pelo terror, crianças desobedientes. Fiz alguns cálculos apressados e concluí que as novas regras poderiam representar uma despesa extra de 550 dólares anuais para uma família, o que me pareceu desproporcional e injusto.

Já vai para dois meses que a nova regra entrou em vigor. Dado que toda a região a adotou ao mesmo tempo, não dá nem mesmo para fazer «turismo do lixo», ou seja, embarcar o saco de entulho no automóvel para jogá-lo num município vizinho.

Todos os habitantes receberam um livreto de instruções da prefeitura municipal, todo bonitinho, com desenhos coloridos, coisa fina. Estão lá descritos todos os objetos que um cidadão costuma descartar. Começa com remédios vencidos, passa por móveis velhos, pilhas gastas, lâmpadas queimadas, papel, metal, plástico, tecidos, e vai até o lixo orgânico.

Ninguém paga de bom grado 2,50 dólares por um saco de plástico para enchê-lo de lixo. Assim mesmo, todos os habitantes fomos obrigados a nos sujeitar ao novo regime. Pois pasmem, caros e fieis leitores! Constato hoje que a mudança de hábitos foi extremamente salutar. No final, ganham todos.

Temos hoje em casa 7 recipientes, um para cada tipo de descarte. O mais volumoso ― eu não imaginava! ―, é o de plástico. É incrível o que se utiliza de matéria plástica, sobretudo para embalagens.

Temos ainda um recipiente para metais, onde vai o que for de ferro, aço ou alumínio. Não serve para pilhas nem para lâmpadas, que essas têm de ser devolvidas à loja que as vendeu.

Uma outra caixa é para papel e papelão. Uma outra ainda fica reservada para PET, aquele polímero usado para água engarrafada. Antes de descartar, tem-se de pisar a garrafa para tirar o ar e atarraxar de novo a tampinha no bocal. Uma quinta caixa serve para objetos de vidro.

O sexto recipiente é especial: serve para o lixo orgânico, ou seja: resto de comida, casca de fruta, escama de peixe, coisas desse tipo. É conveniente que esse recipiente seja pequeno, de modo a caber no congelador. Se não, ai, ai, ai, vai exalar um cheirinho. É conveniente forrá-lo com um saco de material biodegradável, que será aceito como lixo orgânico. Essa matéria, depois de processada, vai se transformar em adubo. Por caminhos tortuosos, voltará a nossos pratos.

Por fim, sobrou… a antiga lixeira, devidamente forrada com seu novo (e caro) saco. Depois da triagem, pouco ou nada sobra para este sétimo recipiente. Talvez algum saco de aspirador, objetos que contenham plástico e metal ao mesmo tempo, fraldas de recém-nascido, coisas assim.

O depósito de lixo municipal tem caçamba para cada tipo de lixo. Cada habitante do município pode levar seus detritos ao depósito e lançá-los no contêiner adequado. Não pagará nada. As crianças adoram jogar garrafas na caçamba apropriada. Não só as crianças. É um dos raros lugares onde se pode quebrar vidro sem sentimento de culpa. Mas atenção, há um requinte: garrafas brancas, verdes ou marrons vão em recipientes diferentes.Poubelles

Para facilitar a vida dos munícipes, evitando que tenham de visitar o depósito municipal a todo momento, pequenos contêineres de cor marrom estão instalados em pontos estratégicos da cidade, disponíveis o tempo todo. São reservados exclusivamente para lixo orgânico, aquele que ninguém quer guardar muito tempo.

Pode parecer complicadíssimo, mas não é. É questão de costume, acreditem. E é sempre reconfortante saber que cada um está fazendo sua parte na preservação do planeta.

Não deu para introduzir a nova prática pelas boas. Foi pelas más.

Carnaval na Quaresma

José Horta Manzano

Você sabia?

Para nós, acostumados à tradição brasileira, Carnaval é a festa maior. Suplanta São João, dia das Mães e até o Natal. Mas, como tudo o que é bom ― para quem gosta, naturalmente ―, dura pouco. Na Quarta-feira de Cinzas está tudo acabado. Não sei se ainda se usa fazer uma visita à igreja para «tomar as cinzas», um jeito de pedir perdão pelos excessos cometidos.

Você gostaria de dar uma esticadinha, mas não pode porque já estamos na Quaresma, tempo de penitência. São coisas da vida. Mas… Drummond já havia constatado que o mundo é vasto. Que você se chame Raimundo ou não, e se quiser mesmo, vai sempre encontrar um jeitinho de espichar a folia.

Por razões históricas ou simplesmente por respeito a pactos de não concorrência, nem todas as metrópoles, cidades e vilarejos do vasto mundo festejam o Carnaval ao mesmo tempo. Na Suíça, cada cidade é livre de marcar a data que melhor lhe aprouver.

Quem tiver realmente vontade de encompridar a festa, que tome nota dos carnavais que ainda estão programados para este ano. Pode ir reservando sua passagem. Mas faça rápido, porque já estão para começar.

Vai aqui abaixo um florilégio de carnavais suíços. Não se esqueça de que, em alemão, Carnaval é Fasnacht:Carnaval Basel

Carnaval de Moudon
(Chamado Brandons)
de 28 fevereiro a 3 de março

Carnaval de Payerne
(Chamado Brandons)
de 15 fevereiro a 18 de março

Carnaval de La Chaux de Fonds
dias 13 e 16 de março

Carnaval de Basiléia
Este é considerado o mais importante carnaval suíço
Estende-se por todo o mês de fevereiro, com ponto alto dia 18

Carnaval de Berna
de 14 a 16 de fevereiro

Carnaval de Biel/Bienne
de 13 a 17 de fevereiro

Carnaval de Lucerna
Este é bem esticado. Vai de 18 janeiro a 15 fevereiro

Carnaval de Sainte-Croix
de 15 fevereiro a 17 março

Carnaval de Winterthur
de 14 a 16 de fevereiro

Basler Fasnacht Guggemusiker

Para quem prefere a França ― eta país chique ―, fica aqui a informação sobre o carnaval mais famoso:

Carnaval de Nice
de 15 fevereiro a 6 março

Importante: Seja qual for seu destino, esqueça o fio dental, a manga curta e o umbigo de fora. Nesta época, faz um frio do cão. Agasalhe-se bem!

NOTA: Debaixo de cada nome de cidade, há um link para o site oficial dos respectivos festejos.

São Valentim

José Horta Manzano

Você sabia?

Em muitos lugares do mundo, no dia 14 de fevereiro se festeja São Valentim, o patrono dos namorados. Que caia numa segunda-feira, numa quinta, num domingo, ou em qualquer outro dia da semana, é festa fixa, será comemorada sempre naquele mesmo dia.

Os franceses e outros europeus não apreciam muito que se diga, mas, segundo vários pesquisadores, a festa de São Valentim é de origem inglesa. Poderia ser alemã, russa ou chinesa, mas parece que é britânica mesmo, desde a Idade Média, que é que se há de fazer?

Alguns autores consideram que o «Valentine‘s day» é o que os romanos chamavam Lupercale, festival dedicado a Lupercus, deus da fertilidade. A demonstração cabal não foi feita, mas faz sentido.

Como sabem todos os meus eruditos leitores, a crueza do inverno no hemisfério norte aperta justamente na virada do ano, dezembro, janeiro, fevereiro, por aí. Diferentemente do Brasil, as diferenças de temperatura e de paisagem são muito marcantes por aqui. A partir de novembro, a temperatura começa a cair, o sol se faz raro, amanhece mais tarde e anoitece bem cedo, as árvores perdem as folhas, os pássaros desaparecem, um lençol branco de neve recobre frequentemente a terra.

Hoje em dia ― é coisa recente, de algumas dezenas de anos para cá ― temos casas aquecidas, máquinas para tirar a neve dos caminhos e das estradas, até rampas de saída de garagem com aquecimento no chão para evitar a formação de gelo. Luxos inimagináveis até há bem pouco tempo. Já houve até quem dissesse que a luz elétrica revogou a noite. Um exagero, certamente. Se bem que…Coração

Reza a tradição que, em meados de fevereiro, quando os dias começam a se alongar, os passarinhos nidificam. Antes disso, naturalmente têm de formar pares, que nenhum pássaro constrói ninho individual. Então, começa aquela cantoria, uns piam, alguns gralham, outros cantam melodias surpreendentes. Tudo isso para seduzir uma parceira. É o que chamamos a «estação dos amores», a vida que renasce.

Faz séculos que os ingleses festejam seu Valentine’s day. No princípio, era uma festa do tipo «liberou geral». Ô, mentes sujas, não é necessariamente o que estão pensando! Era um dia em que os rapazes tímidos se sentiam liberados para declarar sua paixão pela amada. Um bilhetinho, um recado, um sorriso, qualquer um desses sinais valia declaração. Só isso.

Até 40 ou 50 anos atrás,  a festa ainda não representava oportunidade comercial na Europa. Foi a partir dos anos 60 ou 70 que os comerciantes começaram a enxergar aí uma excelente ocasião para aumentar seu movimento. Ainda estes dias ouvi uma entrevista gravada em 1962 com uma florista parisiense. O repórter perguntava se seus negócios aumentavam com a aproximação do dia 14. A resposta foi um «não» redondo ― para ela, não mudava nada.

Hoje muda. E muito. Nos dias que antecedem a festa, as vendas de flores, de chocolates, de joias, de tudo o que possa servir aos que querem declarar seu amor aumentam consideravelmente. E tem mais. Se, antigamente, a ocasião era aproveitada unicamente pelos que queriam se declarar, hoje vale também para os que querem confirmar seus sentimentos pela pessoa amada. Jovens, maduros e velhinhos trocam presentinhos. Os comerciantes aplaudem de pé.

Quanto à origem do santo, do Valentim propriamente dito, a controvérsia é inextricável. Há pelo menos sete versões diferentes. Ele teria existido, não teria existido, seria um mártir, teria morrido de morte natural, seria um eremita, seria um camponês beato. No fundo, hoje em dia, poucos estão preocupados em saber quem foi o santo que emprestou seu nome ao dia.

Não é impossível que nunca tenha existido, que seja apenas uma lenda. Valentim é descendente direto do latino valere, que também deu valor, valente e valioso. O renascer primaveril é vigoroso, vem cheio de promessas. Para quem atravessou o inverno ― frio, longo e desnudado ― tem muito valor.

Objetos e decorações em forma de coração podem não ser tão valiosos, mas são onipresentes por esta época. Aos namorados que apreciam a paz, é recomendado que, por nada deste mundo, esqueçam de comprar uma lembrancinha para a amada.

Os antípodas

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando éramos crianças, qual de nós não ouviu dizer que, se cavássemos um túnel debaixo de nossos pés, bem fundo, bem bem fundo, iríamos sair no Japão? Acho que todos os guris brasileiros aprenderam essa história. Até dicionários vão na onda e citam o País do Sol Nascente como diametralmente oposto ao nosso. O Houaiss e o Aulete fazem isso. Confira o verbete antípoda no Aulete online. Assim, caso você tenha se esquecido do significado desse termo, aproveitará para refrescar a memória. Aqui.

No entanto, sinto dizer-lhes, essa afirmação não corresponde exatamente à realidade. Se conseguissem escavar esse furo interminável e chegar sãos e salvos ao outro lado ― coisa que até hoje ninguém conseguiu ― os brasileirinhos teriam uma grande decepção. Noventa por cento do território brasileiro é antípoda de algum lugar perdido no meio do Oceano Pacífico, pelas bandas do Mar da China.

Globo terrestre com sobreimpressão dos antípodas em verde claro.
crédito: procrastin.fr/blog

Somente alguns poucos habitantes das selvas amazônicas teriam alguma chance de desembocar na ilha de Bornéu, na Indonésia. Quanto aos outros, tchibum! Iriam fazer companhia aos peixes do Pacífico.

O que me inspirou este escrito foi uma competição marítima que se repete a cada 4 anos, na época do verão do Hemisfério Sul, a partir de novembro. Chama-se Vendée Globe, volta ao mundo em barco a vela, com um único marinheiro, sem assistência externa e sem escalas. Começa e termina na localidade francesa chamada Les Sables d’Olonne, na costa Atlântica. A edição deste ano acabou justamente neste 27 de janeiro, com a chegada do vencedor após 78 dias de navegação. É evento muito seguido na Europa, especialmente na França. Lembra vagamente a volta ao mundo em 90 dias imaginada por Júlio Verne.

Quando se fala em volta ao mundo, imaginamos que ela se deva fazer pelo equador da Terra, contornando-se os continentes que estiverem no meio do caminho. Pois a Vendée Globe não faz jus a essa crença. Na verdade, poderia bem chamar-se Volta da Antártida. O que fazem os concorrentes, depois de zarpar da França, é atravessar o Oceano Atlântico de alto a baixo, dar a volta ao continente antártico, «subir» de volta o Atlântico de sul a norte, e retornar ao ponto de partida.

Traçado da corrida Vendée Globe

Traçado da corrida Vendée Globe

Mas, convenhamos, falar em volta ao mundo tem muito mais charme do que falar em contornar a Antártida. Ou não?

Nota: Antípoda é palavra formada por duas raízes gregas. Anti = contra, contrário. Podos = pé. Assim, antípoda é aquele que, teoricamente, pisa um chão diametralmente oposto ao nosso.

Brrrr…

José Horta Manzano

Você sabia?

Cada país tem seus encantos e cada um se defende como pode. Chamar a atenção e atrair turistas é sempre importante.La Brévine 1

A Suíça não tem mar, nem coqueiros, nem riquezas minerais, nem indústria pesada. Até as melancias por aqui são raras, o que faz que poucos tenham a chance de passear por aí com uma delas pendurada no pescoço para causar frisson nos transeuntes.

No Brasil, São Joaquim (SC) e Campos do Jordão (SP) são polos de atração de forasteiros, que vêm unicamente para sentir aquele friozinho ― que nem sempre responde presente quando a gente quer. Pois fiquem sabendo que a Suíça também tem sua pequena Sibéria, ora pois!

É um minúsculo município de forma alongada (2km ou 3km de largura por uns 20km de comprimento), povoado por apenas 650 pessoas. Chama-se La Brévine e fica no Cantão de Neuchâtel, encarapitado nos Montes Jura, no noroeste do país. Das localidades habitadas, é a mais fria do país. A Suíça conta, naturalmente, com picos bem mais elevados e muito mais gelados. Mas, como é compreensível, ninguém mora lá.

Comparada com as alturas de São Joaquim e de Campos do Jordão, a altitude da Brévine até que é modesta: não passa muito de 1000m. O que faz a diferença é que o povoado está localizado numa bacia ― uma região côncava cercada de morros ―, situação que lhe confere um microclima pra lá de especial.La Brévine 2

Recordes de frio são frequentemente registrados ali. Principalmente no inverno, embora aconteçam esporadicamente também no verão. A condição sine qua non para que o fenômeno sobrevenha é que a noite tenha sido clara, sem nuvens e sem vento. Tem um nome que soa familiar aos paulistanos: uma inversão térmica. Sem a poluição, sem os gases de escapamento e sem a massa humana apinhada num espaço reduzido, naturalmente.

São episódios caracterizados por uma camada de ar muito frio que estagna no fundo da bacia, enquanto ar mais quente fica por cima. Algumas dezenas de metros acima do fundo do vale, a temperatura pode perfeitamente estar uns 10 graus mais elevada.

Desde que, no dia 12 de janeiro de 1987, os termômetros marcaram ali 41.8° abaixo de zero(!), o minúsculo município ganhou fama nacional e o apelido de Sibéria Suíça.

Todos os anos, desde então, o vilarejo organiza sua Festa do Frio, num sábado de janeiro. Vem gente de longe só para sentir aquela sensação picante. Este ano foi dia 26 de janeiro. Até que não estava tão frio assim: «somente» 22 graus abaixo de zero. Mas já é friagem de bom tamanho, pra ministro nenhum botar defeito.

Talvez por falta de assuntos mais relevantes, até a televisão noticiou o evento. Quem quiser se refrescar com um minuto e meio siberiano, clique aqui. E quem gostar de emoções fortes e não tiver medo de sentir uns calafrios, pode consultar uma lista de temperaturas historicamente baixas já registradas na Brévine. Aqui.Chica-bon

Vai um Chica-bon aí?

No spams!

José Horta Manzano

Avisa-me uma fiel leitora que propaganda indesejada e intempestiva tem aparecido quando se põe a ler meu blogue. Pergunta-me se decidi abrir este espaço a chamadas comerciais. A resposta é um redondo e sonoro NÃO!

Este é um cantinho onde pessoas de boa vontade se reúnem. Não é um encontro de vendilhões. Vem quem quer, não paga nada para entrar, só fica se lhe interessar. Não há nenhuma espécie de reclame, anúncio, propaganda. Nem proselitismo. Digo o que penso, da maneira que sinto, mas ninguém é obrigado a estar de pleno acordo. Para reparos, está aí o campo de comentários.

Também eu já fui vítima desses anúncios que se intrometiam, de repente, no meio de alguma leitura calma. Imaginei que outros internautas também pudessem estar sendo incomodados pelo mesmo tipo de intrusão. Dito e feito. Andei pesquisando em alguns fóruns e me dei conta de que se trata de uma praga que começa a se disseminar. É insidiosa, porque faz o leitor pensar que a propaganda foi inserida com a anuência do site onde aparece. Não é assim.

Os computadores não utilizam todos os mesmos sitemas, as mesmas versões, por isso não lhes posso dar uma receita única para livrá-los dessa coceira. Se essa intrusão estiver acontecendo com vocês, recomendo procurarem conselho em algum fórum que reúna outras vítimas. Não é difícil se desembaraçar desse mal, acreditem. Posso até dar algum bom conselho, mas prefiro não fazê-lo aqui. Se alguém estiver padecendo do mesmo ataque, que me contacte por email, e lhe direi como procedi. O endereço está lá em cima, no menu Contacto.

Este blogue não tem patrocinadores, nem mecenas, nem anunciantes, nem spammers. Não os tem e não deseja tê-los.

Politicamente correto estilo anos 60

José Horta Manzano

Você sabia?

Você acha que essa irritante moda do politicamente correto é novidade, uma importação recente? Pois prepare-se para uma decepção.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Um movimento eclodiu neste Brasil brasileiro muitos anos antes de importarmos essa maneira estranha de nos comunicar, em que cada palavra tem de ser sopesada antes de ser pronunciada.

Um rascunho de cartilha politicamente correta foi apresentado décadas antes de trazermos, de importação, essa novidade tão distante do jeito irreverente de se exprimir de nossa gente.

Mais de cinquenta anos atrás, já havia gente enxergando o mal por toda parte. Na época, a solução preconizada era bem mais radical que hoje. Se, atualmente, certas expressões são apenas desaconselhadas, há meio século a ideia era francamente bani-las, removê-las do dicionário. ¡Vaya radicalismo! ― diriam nossos hermanos.

A capital paulista contou, durante mais de setenta anos, com um jornal de qualidade que, infelizmente, já desapareceu. Chamava-se A Gazeta. Circulou de 1906 a 1979. Quem se interessar em conhecer um pouco da história do jornal pode visitar esta página.

O professor Francisco da Silveira Bueno (1898-1989), filólogo e lexicógrafo, era autor do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, adotado no ensino público.

Em 20 de julho de 1961, o professor Silveira Bueno foi entrevistado por um jornalista da Gazeta. O assunto era justamente a ameaça que sofria seu dicionário de ser amputado de algumas palavras julgadas ofensivas.

Era o prenúncio dos tempos estranhos que vivemos. Já então, confundia-se o recado com o portador. Já então, imaginava-se ingenuamente que, eliminado o mensageiro, estaria automaticamente eliminada a mensagem.

É erro antigo que perdura. A língua é maior que dicionaristas. A língua pertence a seus falantes. Lexicógrafos e dicionaristas nada mais fazem que registrar fatos da língua, não são seus criadores, nem responsáveis por eles.

Inseri no post de hoje a entrevista de 1961. Ela se explica por si mesma, dispensa maiores comentários.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Naquele começo dos anos 60, os Estados Unidos ― grande democracia ― ainda viviam tempos de segregação. Ainda se construíam banheiros públicos separados para pretos e para brancos, ainda se reservavam lugares para não brancos no fundo dos ônibus.

Está aí a prova do pioneirismo de nosso País. Para dizer a verdade, eu bem que preferia que tivéssemos sido os primeiros em outros campos mais proveitosos para a população, mas ― que fazer? ― não se muda a História.

Só mais um detalhe picante. Quem tiver a paciência de ler a entrevista de Silveira Bueno verá que a birra da época era contra a palavra negro, considerada, então, pesada e ofensiva. Os descendentes de africanos haviam de ser chamados de pretos, essa era a forma suave, delicada e correta.

O tempora, o mores!

Estalactite

Estalactite 2José Horta Manzano

Você sabia?

Estalactite, sabemos todos o que é. Damos esse nome àquelas curiosas formações encontradas principalmente no interior de grotas úmidas. São como colunas, como cones invertidos ― de cabeça para baixo, com a base presa no teto.

O nome, que soa tão científico, entrou na língua pela via erudita. Começou a ser mencionado cerca de 200 anos atrás, mas só foi dicionarizado bem mais tarde. Provém de uma raiz grega ― stalaktos ― que significa gotejante, aquilo que escorre gota a gota.

No dia a dia, usamos palavras descendentes dessa mesma família. Entre outras, instilar e destilar. Ambas trazem embutida a ideia de gota a gota, pouco a pouco.

Nas grutas, as estalactites são formadas por precipitação de matéria calcária. Muito lentamente, gotículas de água escorrem pelas colunas. Com o passar do tempo, a água evapora e o cálcio solidifica. Resultam imagens um tanto fantasmagóricas, mas, ainda assim, belíssimas. Daquelas que nos remetem a antigos desenhos animados.

Nestes tempos em que crianças não hesitam em trucidar criaturas monstruosas em jogos de computador, uma floresta de estalactites não deve mais assustar ninguém. Mas garanto-lhes que esses cones invertidos já cumpriram seu papel atemorizante na mente de muitos dos adultos em que nos convertemos.Estalactite 4

Não é só em grutas e cavernas que se encontram formações desse tipo. No inverno, caprichos climáticos de latitudes mais frias proporcionam às vezes espetáculos impressionantes.

Após uma boa nevada, às vezes o sol aparece. Seus raios, embora tênues, podem ser suficientes para derreter uma parte da neve acumulada. O resultado é um filete d’água que goteja de telhados, de amuretas, de rochedos. Quando não há vento, as gotículas vão-se congelando à medida que escorrem. Formam-se então estalactites de gelo, de muita beleza.

Não resistem muito tempo, mas encantam os olhos. O que é bom dura pouco.Estalactite 5

Curso de inglês grátis

José Horta Manzano

Você sabia?

Na França, há uma estação de rádio de informação contínua, que irradia durante 24h por dia. Difunde um jornal completo a cada meia hora e repete as manchetes a cada quinze minutos.

No meio dessa enxurrada de notícias, sobram alguns minutinhos aqui e ali, que são recheados com entrevistas curtas e outras amenidades. Aos sábados, quando o perfil dos ouvintes se modifica, até receitas culinárias são apresentadas.

Todas as manhãs, dois minutos são reservados a Jean-Pierre Gauffre, que tece uma crônica sobre algum acontecimento do momento. O homem é humorista fino. Sua arte está a milhas de distância do humor escrachado e escatológico que costuma dominar os espetáculos destinados a provocar o riso. Enfim, a cada artista, seu público. E vice-versa.

O tema de hoje girou em torno das aulas grátis de inglês e de espanhol que o Senac de Belo Horizonte está oferecendo. Trata-se de um curso básico dirigido especificamente às prostitutas da cidade. A intenção é prepará-las para acolher os clientes que a Copa-14 certamente trará.

Crédito noticias.r7.com

Crédito noticias.r7.com

A notícia é verdadeira, não foi invenção do cronista. Confira no site R7 de notícias. Monsieur Gauffre trata o tema com a necessária delicadeza. Pela seriedade da elocução, parece até estar lendo uma notícia qualquer. Mas lá no fundo se percebe uma fina ironia. Ele chega a propor ao presidente da França que se inspire nesse exemplo para enriquecer programas de formação profissional contínua já existentes no país.

Se alguém se dispuser a gastar dois minutos ouvindo a crônica de hoje, o endereço está aqui. O site de France-info funciona mais ou menos como um caraoquê: o texto e voz aparecem na tela ao mesmo tempo. É prático para desempoeirar velhos conhecimentos de língua francesa.

E a gente fica aqui a matutar por que cargas d’água certas iniciativas úteis ― não falo apenas de cursos de línguas para profissionais do sexo ― são tomadas somente na iminência de eventos considerados importantes, tais como eleições, copas do mundo, visita de estrangeiros ilustres.

Um ditado resume bem a situação: limpa-se somente por onde passa a procissão. É aforismo antigo, mas continua firme e forte. Valia ontem e continua valendo hoje.

A origem e o biscoito

José Horta Manzano

Você sabia?

Os documentos suíços nunca mostram o lugar de nascimento do cidadão. Para nós, parece estranho, não é? Vou-lhes dizer o porquê.

Antes de ser cidadão suíço, um indivíduo terá de ser cidadão de um município suíço. Como cada município está inserido num cantão, a pessoa terá também a cidadania daquele cantão. A cidadania suíça nada mais é que a consequência, o coroamento, a consagração.

Em outras palavras: a Confederação Helvética não concede cidadania a ninguém. Ela apenas reconhece o direito daqueles que já possuem a cidadania de um município e de um cantão. Cidadania de um município é também conhecida como burguesia. Um cidadão de Berna é um burguês de Berna, detém a burguesia bernesa.

Portanto, claro está que o candidato à nacionalidade suíça terá de começar por obter a burguesia de um município. As leis não são uniformes e podem variar um pouco de um cantão a outro. Em geral, exige-se do candidato que tenha vivido 12 anos no país, dos quais os 3 últimos no município do qual solicita a burguesia. E que tenha residido durante os 5 últimos anos no respectivo cantão.

É um percurso longo e complicado. Costuma levar 3 anos. Começa por um período de «inquérito de vizinhança», durante o qual a polícia vai visitar pessoalmente vizinhos do candidato, para saber o que pensam dele, quais são suas qualidades e seus defeitos conhecidos, se está bem inserido na sociedade local, coisas desse tipo.

Alguns meses depois, autoridades municipais virão visitar o postulante. Com dia e hora marcada, naturalmente. Querem conferir com seus próprios olhos onde e como vive o estrangeiro. Farão perguntas de caráter pessoal: que livros a pessoa lê, que tipo de comida come, quais são suas atividades de lazer, quem são seus amigos. É a continuação do inquérito, só que desta vez o inquirido é o próprio candidato.

Em certos cantões, há mais um passo: o exame oral. O candidato será chamado diante de uma banca examinadora composta de vereadores para responder a perguntas sobre a organização política do país.

Seus conhecimentos serão então julgados, ao mesmo tempo que se avaliarão seus conhecimentos da língua local. Eu já soube de gente que, sentindo-se humilhada num ambiente que lembra um tribunal, abandonou o recinto. E desistiu da naturalização.

Passaporte suíço

Passaporte suíço

Depois disso tudo, os vereadores (aqui chamados conselheiros municipais) se reunirão para decidir, com base em todo o processo, se concedem ou não a cidadania municipal ao pretendente. Se anuírem, o processo sobe ao nível cantonal. A partir daí, o andamento é mais burocrático. Uma vez a aceitação confirmada pelo cantão, o processo sobe ao nível da Confederação. Alguns meses depois, o novo cidadão será chamado a prestar juramento numa sessão solene.

Pronto, agora dá para entender por que o lugar de nascimento não aparece nos documentos suíços, não é? Simplesmente porque não tem a menor importância. Os filhos de suíços herdam automáticamente a burguesia do pai, que, essa sim, aparece nos documentos.

Com o passar dos séculos e a mobilidade da população, chega-se hoje a situações interessantes, onde um cidadão é originário de um município no qual nunca pôs os pés. E provavelmente nunca os porá.

A vantagem de se conservar essa noção de lugar de origem é que todos os atos e acontecimentos da vida civil são duplamente registrados: onde ocorreram e também no município do qual o cidadão detém a burguesia. Assim, uma rápida consulta ao arquivo do lugar de origem basta para se obter todo o histórico familiar: nascimentos, casamentos, divórcios, nascimento de filhos, falecimentos.

O lugar de nascimento não tem nenhuma incidência nesse sistema e não altera a origem de cada um, daí não ser mencionado em nenhum documento suíço. Com a sabedoria dos antigos, já dizia um velho tio meu que «gato que nasce no forno não é biscoito».

Madame ou Mademoiselle?

Você sabia ?

José Horta Manzano

Por mais que se considerem progressistas e ‘prafrentex’, os franceses são bastante conservadores. No trato com terceiros, a coisa sobressai. Há dois níveis de tratamento: tu e vous, ambos da segunda pessoa.

O tu, mais íntimo, é utilizado em família, entre camaradas de escola, entre adolescentes. É usado também no círculo de algumas associações sindicais ou profissionais, ainda que às vezes soe forçado. Tu denota intimidade. Quando a gente se dirige a alguém com quem não tem intimidade, o tu soa artificial, obrigatório. O vous, mais formal, usa-se nos demais casos ― a maioria.

O uso da terceira pessoa, em voga até um século atrás, é hoje considerado preciosismo démodé. Simbolizava um excessivo respeito que já passou de moda. Frases como «Madame est servie» (A Senhora está servida = o jantar está na mesa), dita por serviçais, só é ouvida hoje em dia em filmes históricos. De toda maneira, poucos são os que ainda se podem dar ao luxo de pagar empregados domésticos.

As regras de uso de tu e de vous são muito rígidas. Há casos, comuns por aqui, que deixariam qualquer brasileiro boquiaberto. Suponhamos que um seu colega de escritório se sente habitualmente à mesa ao lado da sua. Se a empresa funcionar, como a maioria, à moda antiga, você e seu colega perigam passar 20 anos sentando-se todos os dias um ao lado do outro e chamando-se reciprocamente de vous mais o sobrenome. Bonjour, Monsieur Dupont! Bonjour, Monsieur Dubois! Esquisito para nós, não? Imagine só: bom dia, senhor Silva! Bom dia, senhor Souza!

Se o ambiente de trabalho for menos rígido, talvez você se sinta autorizado a chamar seu colega pelo nome. Nesse caso, teremos: Bonjour, Jean! Bonjour Paul! Mas não se engane: continuarão a se dizer vous até o fim dos tempos. Jamais ousarão transpor o muro invisível que retém as pessoas e as impede de entrar na intimidade da outra.

O que acabo de descrever é o caso genérico, representativo do estado de espírito mais disseminado. Evidentemente, há situações particulares em que o relacionamento pode funcionar de outra maneira.Bagues 1

Um homem será sempre chamado Monsieur. Basta haver saído da adolescência. Pouco importa se é casado ou não. Será sempre Monsieur. Já o mesmo não ocorre com uma mulher, não me pergunte por quê. Chegada à idade adulta, ela se apresentará como Madame, se já for casada. Ou como Mademoiselle, se não o o for. E assim será chamada. Atenção: esse termo de tratamento será sempre seguido pelo sobrenome. Se não, fica parecendo nome de vidente ou daquelas que os antigos chamavam «mulheres de vida fácil».

Mas o tempo passa e os costumes mudam. Faz anos que movimentos feministas denunciam a flagrante diferença de tratamento entre homens e mulheres. Por que todos têm de saber se uma mulher é casada ou não? Por que os homens escapam a toda inquirição sobre seu estado civil?

Depois de muita luta, senhoras e senhoritas conseguiram que uma lei fosse votada para acabar com essa diferença. Embora já estivesse em vigor desde fevereiro do ano passado, o instituto legal só alguns dias atrás foi definitivamente referendado pelo Conseil d’Etat, a mais elevada jurisdição administrativa do Estado francês.

Uma lei, por mais que queiram seus instigadores, não consegue mudar mentalidades da noite para o dia. Não se pode proibir que formas consagradas por anos de uso popular desapareçam por encanto. O que o novo regulamento determina é que, nos documentos oficiais, seja abolida a diferença entre casadas e solteiras. A partir de agora, todas as mulheres serão chamadas Madame. Ponto e basta.

Isso vale para o Imposto de Renda, a conta de eletricidade, o IPTU, documentos de identidade, passaporte, carteira de motorista, enfim, tudo o que for documento oficial. A notícia saiu no jornal 20 Minutes de 28 de dezembro. Para quem quiser conferir, está aqui. Em francês.

Para mudar as mentalidades, ainda vai levar um tempinho. Modos de pensar não se mudam por decreto.

It’s human nature

Dilma 1

Você sabia?

José Horta Manzano

Ano-novo é época de balanços, resenhas, retrospectos. Um artigo do Estadão nos informa que nossa presidente atual faz menos discursos que o mandatário anterior. Não precisa ser doutor em Ciências Auditivas para já ter percebido isso.

Outra verdade evidente: ela fala menos que o antecessor. Usa menos palavras. Longe de mim insinuar que seu vocabulário seja menos extenso ― talvez simplesmente não tenha o dom de falar em público. Terá outros, sem dúvida.

O mais interessante da pesquisa é a contagem paciente de quantas vezes a senhora Rousseff pronunciou, em seus discursos, o nome do padrinho. Deve ter custado aos autores um trabalhão digno de beneditinos. Chegaram à conclusão que, em 2011, a presidente se referiu nominalmente a seu guru 96 vezes. Já em 2012, foram apenas 67 vezes, ou seja, 29 menções a menos.

A ser mantido o mesmo abatimento anual, o santo nome deverá ser articulado apenas 38 vezes em 2013. E nada mais que minguadas 9 vezes em 2014.

It’s human nature, como dizem os ingleses. Longe dos olhos, longe do coração. Rei morto, rei posto. A mesma água não passa duas vezes debaixo da ponte.

C’est la vie…

O mofo nobre

Vinhedo de Bordeaux

Vinhedo de Bordeaux: denominações de origem controladas

Você sabia?

José Horta Manzano

Mofou, tem de jogar fora. Tem mesmo? Nem sempre. Há males que vêm para bem.

Na Idade Média, uma das atividades favoritas dos senhores feudais era a guerra. Por um sim, por um não, juntavam seus vassalos e partiam para medir forças com um outro senhor.

O século XVI já anunciava outros tempos, mas certos hábitos antigos continuavam arraigados. Conta uma lenda que, por aqueles tempos, um proprietário de terras de Sauternes, região de Bordeaux (França) foi à guerra. Como imaginava estar logo de volta, deixou ordens claras: fazia questão de que esperassem sua chegada para iniciar a vindima, a colheita das uvas.

Botrytis 1

Botrytis Cinerea, o mofo nobre

As coisas não correram exatamente como pensava o senhor. A contenda se prolongou e não lhe foi possível voltar a tempo para a colheita. Intimidados, seus camponeses não ousaram tocar nas uvas enquanto o patrão não tivesse retornado.

Quando finalmente voltou a suas terras, o proprietário constatou que as uvas, ainda não apanhadas, estavam já meio mofadas. Perdido por perdido, decidiu que a vindima se fizesse assim mesmo.

As uvas foram colhidas, pisadas, e o processo de vinificação foi lançado. Alguns meses depois, a abertura da primeira barrica trouxe uma surpresa muito agradável: o vinho, habitualmente medíocre e bastante ácido, desta vez parecia um néctar feito no céu. Licoroso, docinho, frutado, um luxo!

Os proprietários da região logo se deram conta de que o fato de haver esperado que as uvas mofassem tinha provocado aquela magia. Empiricamente, adotaram a nova técnica.

Passaram-se os séculos, e se manteve a técnica de só colher as uvas depois de engrouvinharem, adquirindo aspecto de uva-passa. Os enólogos têm hoje explicação científica para a miraculosa transmutação de um vinho à toa em delícia rara. Descobriram que, sob certas condições de umidade e temperatura, colônias de fungos microscópicos do gênero Botrytis Cinerea podem se formar. O microclima da região de Sauternes se caracteriza justamente por nevoeiros úmidos no início do outono, um pouco antes da época da vindima.

Esse fungo, quando afeta outras frutas, é catastrófico: toda a colheita pode estar comprometida. No entanto, quando ataca as vinhas, faz que a água dos bagos se evapore, aumentando a concentração de açúcar. Provoca o chamado mofo nobre. O resultado é um vinho naturalmente doce e ligeiramente licoroso. A cor da bebida também se altera, tornando-se um elegante amarelo alaranjado. Ambré, como dizem os franceses.

Como acompanhamento de um queijo roquefort, um gole de Sauternes é uma dádiva. O sabor ligeiramente açucarado suaviza a aspereza do queijo de ovelha. É um fecho excelente para uma refeição de réveillon.

A consumir com moderação, naturalmente.

Sauternes

Sauternes de diversos viticultores

Ao vencedor, as batatas!

Pdt 2Você sabia?

José Horta Manzano

A batata ― que antigamente chamávamos batata-inglesa, por oposição a batata-doce ― é originária da América do Sul, mais precisamente das encostas da Cordilheira dos Andes. Ainda hoje é a base da alimentação de populações inteiras naquela região.

Os primeiros europeus que visitaram a América se interessaram por aquele estranho tubérculo que alimentava tanta gente. Levaram mudas e se surpreenderam com a facilidade com que a nova planta se aclimatava às condições europeias. Não precisou muito tempo para que a batata se tornasse apreciada por todos os povos do Velho Continente. Seu consumo logo se equiparou ao do pão, chegando até a suplantá-lo na Europa do Norte.

Entre 4500 e 5000 variedades de batata estão inventoriadas pelos organismos dedicados à classificação dessa solanácea. Em muitos países, entre os quais a França, sua produção é rigorosamente controlada. Para que a comercialização de uma variedade qualquer seja autorizada, ela tem obrigatoriamente de estar inscrita Catálogo Oficial francês.

Em 2010, apenas 214 variedades estavam oficialmente registradas. Assim, somente elas tinham o direito de ser comercializadas. Antes do plantio, o agricultor prudente consulta a lista oficial. Caso tente vender uma variedade não autorizada, estará cometendo infração. Portanto, Pdt 1sujeito às penas da lei. É possível inscrever uma nova variedade no catálogo oficial, mas não é fácil. O caminho é longo e a burocracia, pesada.

Espantado? Eu também fiquei no dia em que soube da existência da lista oficial e, principalmente, da proibição de escapar dela. Mas o problema é só de princípio, tem pouca influência sobre a vida de todos os dias. Os comércios, mesmo as épiceries fines, não oferecem mais que 10 ou 15 variedades. São amplamente suficientes para o consumo da população.

Não resta dúvida, é interessantíssimo saber que, entre as nativas e as manipuladas, 5000 variedades já foram identificadas. Para o cidadão comum, no entanto, não passa de mera estatística.

Nota: caso você tenha curiosidade em se aprofundar no assunto, visite o site especializado seguindo este link (em francês).

O homem do saco

Você sabia?

José Horta Manzano

Homem do saco

Homem do saco

Quando éramos crianças, ouvíamos palavras estranhas sem entender direito o que significavam.

Dorme, Nenem
Se não a cuca vem
Papai foi na roça
Mamãe saiu também

Quem é essa tal de cuca? Até hoje não descobri.

Tem um outro que nos assustava mais ainda. Quando alguma das crianças era impertinente, como se dizia, a mãe vinha logo com a chantagem: «Menino, sossega, se não o homem do saco vem e te pega!».

As crianças não sabiam direito quem era esse homem do saco, mas a perspectiva de ser atirado dentro de um embornal e carregado no escuro para lugar desconhecido, longe de casa, costumava ser eficaz. A criança birrenta se acalmava. Pelo menos, por algum tempo.

A imagem do saco já não assusta como antes. O que atrapalha os adultos que agora somos não é mais o medo do saco ― é o preço dele. Explico.

Estes dias, todos os habitantes do município suíço em que vivo receberam um aviso da prefeitura. Estamos avisados que, a partir de 1° de janeiro de 2013, um esforço financeiro será exigido de todos, com vistas a financiar a incineração ou a reciclagem do lixo doméstico.

Taxa do lixo

Taxa do lixo

Por um lado, uma taxa anual de 70 francos (85 dólares) será cobrada de cada habitante maior de 18 anos. E não adianta espernear. Não escaparão nem os que, porventura, tiverem apenas uma casa de campo no município. Todos terão de contribuir, é de lei.

Por outro lado ― e essa é mais doída ― uma segunda taxa será cobrada. Essa outra mordida será já incluída no preço dos sacos plásticos que já faz anos que somos obrigados a usar para o lixo doméstico. O valor irá às alturas: o saco mais utilizado, de 35 litros, passa a custar 2 francos cada (2.50 dólares), preço salgado.

Para uma família de dois adultos que utilize, digamos, 3 sacos por semana, a conta final vai sair por uns 450 francos/ano (550 dólares). É muito.

É muito? Pode ser. Mas foi a maneira encontrada para forçar a população a fazer a triagem do lixo doméstico. Andaram estudando a composição do lixo do município e se deram conta de que, em média, apenas 28% do que é coletado nos sacos é realmente lixo alimentar (cascas de legumes, restos de comida). O resto é reciclável, principalmente embalagens de papel e papelão, plásticos, vidro.

Os antigos diziam que, quando não vai por bem, vai por mal. Para aqueles em cuja cabecinha a consciência ecológica não havia ainda despertado, a nova fórmula será radical. Vão aprender rapidinho.

Como sabemos todos, a parte mais sensível do ser humano é… o bolso.

Lunfardo

Você sabia?

José Horta Manzano

Lunfardo é a gíria que nasceu e cresceu em Buenos Aires, na malavita portenha, no submundo dos fora da lei. Com o passar das décadas, um número cada vez maior de expressões foi caindo, digamos assim, no “domínio público”. Palavras e expressões antes reservadas a bandidos são hoje utilizadas no dia a dia por pessoas comuns.

Surpreendentemente, muitos desses termos de argot argentino passaram ao português brasileiro. Não se sabe direito se atravessaram a fronteira ou se vieram de contrabando embutidos na letra de velhos tangos. Talvez um pouco de cada. O fato é que usamos, sem saber, gíria importada. Para os ultranacionalistas, pode até parecer um escândalo. No fundo, é simplesmente um aporte a mais, uma contribuição para a riqueza de nossa fala.

by Oskar Weiss (1944-), artista suíço

Aqui está uma pequena coletânea de expressões lunfardas e suas correspondentes brasileiras

Lunfardo       Brasileiro
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Machete          Macete (ajuda-memória)
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Malandro         Malandro
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Pirao                 Pirado
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Mamado            Mamado (bêbado)
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Campana         Campana (ajudante de ladrão que vigia)
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Mancar             Se mancar (compreender)
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Cana                 Cana (prisão)
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Matina              Matina (manhã cedo)
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Mortadela         Presunto (cadáver)
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Patota               Patota (bando)
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Punga              Punguista (batedor de carteira)
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Vivo                  Vivo (astuto)
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Bacanazo         Bacana (refinado)
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Bancar               Bancar (pagar)
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Dar bola           Dar bola (prestar atenção)
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Bronca             Bronca (raiva)
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Chupado         Chupado (bêbado)
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Burro                Burro (ignorante) (1)
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Tira                   Tira (investigador de polícia)
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Labia                 Lábia
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Mina                 Mina (moça)
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Llenar               Encher (aborrecer)
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Lleno                Cheio (mal-humorado)
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Cabrero            Cabreiro (furioso)
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Mangos            Reais (dinheiro)
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Caradura          Caradura
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Catinga             Catinga (mau cheiro corporal)
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Manyado           Manjado (conhecido)
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Chumbo            Chumbo (bala de revólver)
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Pechar               Peitar
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Coco                  Coco (cabeça)
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Gozar                 Gozar (zombar) (2)
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Grupo                Grupo (mentira, história inventada)
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Gurí                    Guri (criança) (3)
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(1) Normalmente, burro é usado para qualificar alguém cabeçudo
(2) Os espanhóis usam gozar com o sentido de passar um bom momento. Para dizer zombar, preferem mofarse
(3) Alguns etimólogos atribuem a essa palavra origem tupi, o que explicaria que se encontre no castelhano platino e também no português do Brasil

European Song Contest

Você sabia?

José Horta ManzanoEurovision

Em meados dos anos 50, os países membros da UER – EBU (União Europeia de Radiodifusão ― European Broadcasting Union) não chegavam a dez. Mas o avanço técnico das telecomunicações já permitia transmissões de televisão entre os países membros.

Em 1956 foi organizado o primeiro Concurso Eurovisão da Canção. Teve lugar em Lugano, na Suíça. Apenas seis países concorreram. A Suíça ganhou aquela primeira edição.

A manifestação dura até hoje, mas mudou muito. Nestes quase 60 anos, a tevê em preto e branco ganhou cores. A orquestra desapareceu e deu lugar a uma fita pré-gravada, embora o canto seja obrigatoriamente ao vivo. O cantor solitário vestido de smoking ou a cantora bem aprumada num longo muito chique saíram de moda: hoje quase todas as canções são emolduradas por coreografia e efeitos cênicos. (As más línguas dizem que as coreografias são acompanhadas por cantores.)

A obrigatoriedade de cantar na língua oficial de cada país caiu. Cantam hoje quase todos em inglês. Até o nome do concurso, que começou como Concours Eurovision de la Chanson tornou-se European Song Contest. Ninguém contesta.

O número de países membros da EBU aumentou muito. São quase 50 hoje em dia, abrangendo até nações que, geograficamente, não são propriamente europeias, tais como Israel, Azerbaijã, Armênia, Turquia.

O grande número de participantes impôs novas regras ao concurso. Antigamente inscrevia-se quem quisesse, mas hoje semifinais têm de ser organizadas para peneirar um pouco. Somente 26 países sobram. Cada um apresenta sua canção na noite da grande finale, sempre no mês de maio.

O concurso perdeu sua antiga solenidade. Hoje parece mais um festival de música pop. Para quem, como eu, já vem de outros carnavais, as músicas todas se parecem. Não têm mais a personalidade própria que cada uma costumava ter. Fica difícil distinguir umas das outras.

Mas surpresas ainda acontecem. A canção que representará a Suíça no próximo mês de maio foi escolhida neste 16 de dezembro. Traz duas particularidades: pela primeira vez, uma canção será apresentada por músicos do Exército da Salvação ― vestidos a caráter, sim, senhor! E a segunda curiosidade: o contrabaixista do grupo é o artista mais velho que jamais se apresentou no concurso. Está com 94 anos de idade.

Que continue em boa saúde até lá!

O pioneirismo helvético

Você sabia?

José Horta Manzano

A Suíça tem território pequeno, mas geograficamente bastante complexo. Montanhas altas e intransponíveis, lagos, vales profundos, geleiras eternas, paredes íngremes, canyons apertados. Essa configuração, queira-se ou não, é uma das razões da existência do país. Mas voltaremos a esse assunto numa outra ocasião. A história que eu queria lhes contar hoje é outra.

No final dos anos 20, surgiram as primeiras estações de rádio, uma maravilha técnica para a época. O impacto deve ter sido imenso, difícil de avaliar hoje. Talvez tenha impressionado mais do que o aparecimento dos telefones de bolso que conhecemos hoje. Imaginem só: num mundo cuja musicalidade só se exprimia, até então, pelo coro da igreja aos domingos, surgiu um meio mágico de trazer a orquestra para dentro de casa. E as notícias, e as entrevistas, e as novelas. Há de ter sido u1936 Receptor Biennophonema revolução.

É, mas nem todos os cidadãos podiam participar da festa. A configuração geográfica particularmente acidentada do território impedia que as ondas  radiofônicas chegasse ao fundo de vales mais profundos ou atrás de montes mais imponentes.

Não era justo. Todos faziam parte da mesma sociedade, cumpriam suas obrigações, pagavam seus impostos. Por que, então, os habitantes de regiões afastadas seriam privados de usufruir essa novidade que encantava todo o mundo? Eram todos filhos do mesmo Guilherme Tell. Uma solução tinha de ser encontrada.

Quem procura, acha. E nem precisou muito tempo. Já em 1931, a concessionária nacional de telefones implantou um sistema que permitia levar as ondas do rádio a todos os rincões do país. Desde que o pretendente dispusesse de uma linha telefônica. Fixa, naturalmente. Por estas bandas, o telefone já era bastante difundido à época ― era, aliás, o cordão umbilical que ligava regiões recuadas aos grandes centros.

Não foi, portanto, difícil levar o som do rádio aos grotões. Utilizou-se um sistema análogo ao moderno adsl: o mesmo cabo transporta dois feixes de ondas (telefone e rádio), cada um numa frequência diferente. Hoje parece evidente, mas 80 anos atrás era uma conquista e tanto!1968 Receptor Biennophone

O novo sistema recebeu o nome de Telefonrundspruch em alemão. Como é hábito no país, a palavra foi adaptada para as outras duas línguas oficiais. Ficou télédiffusion en francês e filodiffusione em italiano. Seis canais eram transmitidos, dois em cada língua. Havia para todos os gostos: música clássica, variedades, música popular. A recepção era perfeita, sem chiado, sem interferência. Não havia hotel que não dispusesse daqueles radinhos, um em cada quarto. Restaurantes, estabelecimentos comerciais, salas de espera, aquele som aveludado estava por toda parte. Muitas casas particulares, ainda que se encontrassem em grandes centros, apreciavam a pureza do som e tomavam assinatura.

O sistema foi mantido até o fim dos anos 90, quando deixou de fazer sentido. Assim que milhares de estações de rádio e de televisão passaram a estar disponíveis via satélite, o velho sistema de 6 canais fixos entrou em rápido declínio. Ninguém mais se interessou por ele. Foi descontinuado.

O sistema era simples, mas prático e simpático. Deixou saudade.