Israel atacado

Porta de Brandenburgo, Berlim (Alemanha)
iluminada em apoio ao povo israelense

José Horta Manzano

O ataque desfechado pelos dirigentes do movimento islâmico Hamas ao território israelense deixou o mundo de queixo caído. Os israelenses responsáveis pela proteção do território nacional estão até agora se perguntando como foi possível acontecer uma catástrofe dessas proporções.

Ninguém imaginava que um bando, que costuma ser etiquetado “terrorista”, fosse capaz de ir além de ataques suicidas com bombas amarradas na cintura de mulheres e adolescentes.

O ataque organizado se fez por terra, por mar e por ar, coisa de louco. Por terra, na falta de tanques, vieram homens a pé; por ar, na falta de aviação, vieram parapentes. Uma versão de guerra de segunda categoria, mas que estropia e mata do mesmo jeito.

Os que estavam em solo israelense, gozando um dia feriado com temperatura amena, hão de ter levado o maior susto da vida. Deve ser apavorante você estar à toa na modorra e, de repente, ver chover do céu foguetes explosivos e incendiários.

Em outras terras, seria o caso de demissão coletiva do primeiro-ministro e todos os seus ministros. Mas, com Mr. Netanyahu (também conhecido como Bibi), as coisas não funcionam assim.

O homem parece ter sido atarrachado em sua poltrona. De lá, ninguém o tira, nem choro nem decoro, nem grito nem atrito. Ele afronta a Justiça, faz modificar a lei em seu favor e tornou-se o primeiro-ministro mais longevo da história de seu país.

A imprensa internacional informou, em primeira página, que “o Brasil convocou uma reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU”. Algum distraído pode até achar que Luiz Inácio está de novo se metendo onde não foi chamado. Mas não é isso. O fato é que, no sistema rotativo do C.S., nosso país ocupa atualmente a presidência pro tempore. Daí a iniciativa.

A nota oficial brasileira lamentou ainda o ataque do Hamas. Lula confessou estar “chocado”. O texto se ateve a generalidades e, diplomaticamente, evitou apoiar ou condenar um dos lados. Já está de melhor tamanho do que as declarações estabanadas que o mesmo Luiz Inácio havia dado com relação à guerra na Ucrânia, falas tão tendenciosas que o mandaram pra escanteio quanto a eventuais negociações de paz.

O conflito que estourou ontem é uma guerra assimétrica. De um lado, temos um Israel provido de exército, marinha e aeronáutica de desempenho respeitado. Foram apanhados de surpresa, mas já devem estar se recompondo. De outro, temos um Hamas integrado por homens motivados, sim, mas desprovidos da parafernália que caracteriza as forças armadas modernas.

Além disso – e aqui está o nó da questão – em qualquer guerra, o inimigo deve ser claramente designado. Uma guerra entre Israel e Palestina poderia ser uma etiqueta. Só que há um problema grave: a Palestina não é um Estado independente nem reconhecido no concerto das nações. Oficialmente, a Palestina simplesmente não existe. Como é que se pode guerrear contra um Estado que não tem existência real e só sobrevive na imaginação?

Hamas não constitui um Estado. Como todo grupo sem existência oficial, está geograficamente disseminado por boa parte da região. Alguns dirigentes vivem em território libanês, outros no Egito, outros ramos no Irã.

Pra poder varrê-los do mapa, seria preciso primeiro saber quem são e onde estão. O Hamas não dispõe de um Kremlin, onde se alojam os cabeças do regime. Estão espalhados. Israel vai encontrar tremendas dificuldades para “exterminar” esse grupo.

Na prática, não está claro por que razão o Hamas decidiu fazer esse ataque agora e dessa maneira. Que vantagem Maria leva? O tempo talvez traga a resposta.

Lula e Zelenski

José Horta Manzano


“Ukrainian soldiers are doing with their blood what the U.N. Security Council should do by its voting”.

“Soldados ucranianos estão fazendo com o próprio sangue o que o Conselho de Segurança da ONU deveria fazer pelo voto”.


Essa foi uma das frases mais impactantes do discurso pronunciado ontem por Volodímir Zelenski no púlpito das Nações Unidas.

Não há como discordar. A ONU foi criada, ao final do segundo conflito mundial, justamente com o objetivo de evitar novas guerras. Praticamente todos os países ao redor do globo são membros da organização, dos mais poderosos ao mais desvalidos.

De 1945 para cá, muitos conflitos estouraram. Embora tenham matado muita gente – e cada morte sempre poderia ter sido evitada –, os embates não autorizados pela ONU têm sido relativamente localizados.

Contudo, a invasão da Ucrânia pelo exército russo deu início a uma guerra de grandes proporções, totalmente ilegal e não autorizada pelas Nações Unidas. Assim mesmo, o Conselho de Segurança falhou.

Entender é fácil: a Rússia, que é o país agressor, tem direito de vetar qualquer resolução do C.S. que não lhe agrade, um privilégio concedido unicamente a cinco membros da organização: EUA, França, Reino Unido, China e a própria Rússia.

Esse poder de veto é arma de dois gumes. Por um lado, garante que uma das grandes potências que o detêm bloqueie toda decisão tresloucada ou cabeluda que pudesse ser tomada. Por outro lado, garante que não seja tomada nenhuma decisão que colida com os interesses de um dos cinco membros privilegiados.

No caso da guerra na Ucrânia, uma resolução do C.S. impondo o fim das hostilidades iria contra os interesses russos, eis por que um texto assim não tem chance de passar. Seria vetado pela Rússia.

Não sei se Lula da Silva se deu conta de que sua birra contra o Conselho de Segurança empata com a visão que Zelenski tem dessa instituição. Ambos os dirigentes entendem que passou o tempo em que cinco países tinham o direito de tutelar os demais. Zelenski pede a anulação do direito de veto russo, enquanto Lula pede uma reforma geral do Conselho. Elas por elas, os dois pedem a mesma coisa.

Em vez de bancar o difícil, fazer biquinho e menosprezar o baixinho que dirige a Ucrânia, nosso presidente (que também não é nenhum gigante) devia aproveitar a maré e se associar ao colega de Kiev, pelo menos nessa cruzada em favor de uma repensada geral da “governança mundial” – termo que aquece o coração de Luiz Inácio.

Neste ano e meio de destemida resistência à invasão russa, Zelenski, apesar da cara feia, granjeou um imenso capital de simpatia. Lula, que de cara feia também entende, é outro que (ainda) carrega um balde de simpatia e admiração.

Se se dessem as mãos, juntando o capital de um com o balde do outro, é certo que dariam um passo mais decisivo em direção ao objetivo de ambos: uma boa reformulada do Conselho de Segurança da ONU.

Ânimo, Lula, às vezes precisa fazer um esforço!

Ilha da Fantasia

Sessão de abertura da ONU
Nova York 19 set° 2023

José Horta Manzano

Acabo de escutar o discurso de Lula da Silva na abertura da Sessão Anual da ONU. No final, devo dizer que fiquei aliviado. O pronunciamento foi curto e desapaixonado. Quem esperava frases de impacto e posicionamentos memoráveis voltou decepcionado e de mãos abanando.

O discurso não foi o de um caixeiro viajante, mas o de um promotor turístico. Luiz Inácio vendeu um país invejável, onde a energia elétrica é limpa, o desmate amazônico praticamente acabou, a democracia ressuscitou, o plano Brasil sem Fome corre a pleno vapor, a igualdade salarial entre sexos está alcançando o objetivo, a Bolsa Família voltou pra ficar.

Depois desse discurso, fica a quase certeza de que as massas migratórias que arriscam a travessia do Mediterrâneo para chegar à Europa vão preferir cruzar o Atlântico para ter às costas brasileiras.

Do lado positivo, temos ainda a reafirmação da luta do Brasil de Lula contra a desigualdade, a intolerância, a xenofobia. O mundo agora sabe que, diferentemente dos países hoje mais adiantados, temos a firme intenção de promover um desenvolvimento sem poluir nem destruir o meio ambiente.

O mundo ficou sabendo ainda que Lula é um grande líder do “Sul Global”. Cuida do G20, do Brics e da Agenda de Belém, instituição que congrega 50 milhões de amazônidas (palavra chiquérrima).

Já do lado negativo, foi estranho que a única menção nominal de Lula tenha sido a Julian Assange, jornalista australiano atualmente encarcerado na Inglaterra à espera de extradição para os EUA. Nosso presidente asseverou que esse senhor “não deve ser punido”. Independentemente de concordar ou não com Lula, achei que não cabia a um presidente do Brasil adiantar-se às deliberações da Justiça de um país estrangeiro. É como se um líder estrangeiro dissesse que este ou aquele cidadão brasileiro não merece ser condenado. É bola fora.

No capítulo “Palavras Inúteis”, Lula mencionou de passagem os conflitos na Palestina, no Haiti, na Líbia, em Burkina Faso e em outros países africanos. Falou do risco de golpe de Estado na Guatemala, mas silenciou sobre o golpe permanente que há anos vem sendo dado na vizinha Nicarágua por Ortega, ditador atual e amigão do petista.

Não podia deixar de mencionar a Ucrânia. Esperto, deu uma pirueta. Não mostrou ódio nem simpatia por Kiev. Disse apenas que, na Ucrânia, “não conseguimos impor a Carta da ONU”. E logo fugiu do assunto.

Para terminar com fecho de ouro, Lula montou em seu cavalo de batalha: a reforma do Conselho de Segurança da ONU. Assim como Pútin, que desejava entrar para a História como aquele que recompôs o Império Russo, Luiz Inácio tem a pretensão de ser lembrado como aquele que permitiu a entrada do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança.

Só que… nenhum dos dois vai conseguir. Pútin, por problemas evidentes: se não conseguiu nem domar a Ucrânia, como é que se apossaria da meia dúzia de países europeus que faltam para integrar seu império?

Já nosso Lula, faz anos que entretém um sonho furado, sem nenhuma ancoragem na realidade. Por acaso, os cinco membros permanentes do CS são os vencedores da última guerra mundial e – veja a coincidência – as principais potências atômicas do planeta. Partindo do princípio que não teria cabimento o Brasil entrar sozinho no CS e que cada membro atual tem direito de veto, o problema passa a ser ser cabeludo.

A China não aceitaria o Japão como novo membro. A Rússia vetaria a Índia. Se o Brasil entra, por que não o México? A Alemanha seria olhada com desconfiança por meio mundo. Como o distinto pode perceber, o problema é mais que cabeludo: é insolúvel.

É por isso que a reclamação que Lula tirada do bolsinho do colete a cada discurso é maçante, cansativa, estéril como birra de criança que se joga no chão e esperneia. Não serve pra nada.

Resumindo, o discurso não foi tão mal. O contraste com as falas estranhas de Bolsonaro foi flagrante. A plateia aplaudiu em vários momentos – só isso já diluiu as imperfeições.

TPI – Complemento

Aerolula atual

José Horta Manzano

Este texto dá sequência ao post anterior.

A fala idiota de Luiz Inácio provocou um tsunami que varreu todas as chancelarias do planeta. Nosso Lula nacional continua ignorando o alcance de suas palavras. Pela sem-cerimônia com que se exprime, ele parece achar que, como nos tempos do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, seu discurso morre na porta da fábrica. Hoje, com ele presidente, não é mais assim.

Logo depois de se exprimir, todo pimpão, diante das câmeras da tevê indiana, deve ter ouvido reprimenda de horrorizados assessores. Dá pra imaginar o diálogo.

Assessor
Não, Lula! Você não podia dizer que o Pútin não será preso se botar o pé no Brasil!

Lula
Mas por quê? Ele não está na lista vermelha da Interpol, que eu saiba.

Assessor
Não, na lista da Interpol não está. Mas tem ordem de prisão do TPI contra ele.

Lula
TPI? Que que isso? É coisa dos americanos?

Assessor
Não, Lula, não é criação americana. É um tratado internacional de cooperação judicial. O Brasil e mais 120 países assinaram faz 20 anos. Os americanos nem fazem parte. Nem a China nem a Rússia.

Lula
Como é que é? Então é engodo? Só bagrinhos assinaram? Por que que nós temos que respeitar uma ordem se os grandes não respeitam? Aí tem coisa. Semana que vem vamos dar uma estudada nesse tratado daí. Dá pra anular?

Assessor
Acho que vai ser difícil, Lula. Anular um tratado com assinatura de 120 países? Não vai ser possível.

Lula
Não, estúpido! Eu quis dizer anular a participação do Brasil! Sair do tratado.

Assessor
Possível sim, mas acho que vai pegar mal pra caramba.

Lula
Semana que vem nós damos uma olhada.

Enquanto semana que vem não chega, um Lula envelhecido e cada vez mais voluntarioso quer porque quer um avião mais confortável, com cama de casal, chuveiro e escritório particular.

Digo “um Lula envelhecido” porque foi ele próprio quem decidiu pela compra do atual Aerolula, um Airbus modelo 319. Na época, longas viagens não lhe pesavam.

Sem dúvida, há modelos maiores e mais confortáveis. Só que um exemplar de segunda mão custa entre US$ 70 mi e US$ 90 mi. Em reais, dá quase meio bilhão.

É um valor considerável pra quem quer só um chuveiro e uma cama de casal…

TPI – Tribunal Penal Internacional

José Horta Manzano

Em 7 de junho de 2002, o Diário Oficial da União publicou o Decreto Legislativo n°112, pelo qual o Congresso Nacional ratificou a adesão do Brasil ao termos do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. A partir de então, o Brasil é Estado Parte do Tribunal.

O Artigo 86 do Estatuto reza:
“Os Estados Partes deverão, em conformidade com o disposto no presente Estatuto, cooperar plenamente com o Tribunal no inquérito e no procedimento contra crimes da competência deste.”

O objetivo é evidente: um tratado desse teor só pode funcionar se todos os Estados Partes se comprometerem a cumpri-lo. Do contrário, não faria sentido. O Estatuto de Roma congrega hoje 123 Estados Partes. Alguns países preferiram não se comprometer – entre eles, alguns importantes: os EUA, a China, a Rússia.

Em março passado, o Tribunal Penal Internacional emitiu ordem de prisão contra o cidadão Vladímir Valadímirovitch Pútin, presidente da Federação Russa. É coisa séria. Todos os Estados que assinaram o Estatuto têm o compromisso de cumprir a ordem. Não é à toa que Pútin declinou o convite para comparecer à reunião do Brics na África do Sul. Foi avisado que, caso desembarcasse no território sul-africano, poderia acabar preso.


Frase 1
”O que eu posso dizer é que, se eu sou o presidente do Brasil e ele for para o Brasil, não há por que ele ser preso”


Foi o que Lula da Silva declarou no sábado, todo sorrisos, em entrevista a um canal indiano de informação, quando lhe perguntaram se Pútin será preso se for ao Rio de Janeiro para a reunião 2024 do G20. E não parou por aí. Lula garantiu que vai mesmo convidar Pútin para o encontro. E completou seu pensamento:


Frase 2
“Ninguém vai desrespeitar o Brasil, porque tentar prender ele no Brasil é desrespeitar o Brasil”


Análise da Frase 1
O discurso suscita alguma reflexão. Ao pronunciar a Frase 1, Luiz Inácio mostra que acredita ser dono do país. Ele se faz de bobo, como se não conhecesse as atribuições do presidente da República. Vivemos numa democracia em que cada um dos Poderes é autônomo. “Mandar prender” não é assunto da quitanda dele. E ele sabe disso perfeitamente.

Ao se pronunciar assim, Lula deixa em ouvidos estrangeiros a convicção de que o Brasil vive sob um regime de republiqueta de bananas, em que o líder máximo detém poder absoluto sobre todas as instituições. É ele que “manda prender” ou “manda soltar”.

Ao agir dessa maneira, Luiz Inácio faz um desfavor a si mesmo e ao país inteiro. Está agindo como um certo capitão que o antecedeu, aquele que passou quatro anos tentando escantear as instituições. Lula entra de sola em paróquia alheia, o que nunca é muito bom.

Ao anunciar que, em caso de visita do russo, passará por cima da autoridade do TPI (Tribunal Penal Internacional), Luiz Inácio deixa claro que considera seu juízo melhor que o do próprio Tribunal. Os juízes da Haia (Holanda) lançaram mandado de prisão contra um indivíduo, mas Lulinha paz e amor resolveu estufar o peito e dar guarida ao procurado pela justiça.

Com essa ideia escrachada – um triste repeteco do caso Cesare Battisti –, Lula informa que o Brasil continua sendo um país acolhedor para fugitivos da justiça, mas pouco confiável no geral, visto não respeita nem a própria assinatura em tratados internacionais.

Análise da Frase 2
“Tentar prender ele no Brasil é desrespeitar o Brasil”. Como é que é? A princípio, achei que Lula quisesse dizer que o Brasil deixaria de ser um país de respeito se prendesse o ditador russo. Achei até que a ideia trazia um propósito patriótico, de um presidente preocupado com a imagem do país.

Só que não era isso. Ao reler, me dei conta de que Luiz Inácio não parece ter ideia do que seja um mandado de prisão internacional. As palavras que ele pronunciou mostram que ele teme que “alguém” (uzamericânu?) vá prender Putin em território brasileiro, o que seria “desrespeitar o Brasil”.

É urgente que alguém avise ao presidente que o temor dele é infundado. Nenhum comando armado até os dentes vai singrar as águas da Baía de Guanabara no mormaço noturno, todos vestidos de preto, para sequestrar o ditador russo e despachá-lo para a Holanda. Não é assim que costuma funcionar.

Conclusão
Por um lado, Lula acredita que “alguém” pode abduzir o visitante e fazê-lo desembarcar diante dos magistrados do TPI. Por outro, o mesmo Lula garante que o ditador russo pode vir tranquilo, que nada lhe acontecerá.

Ora, se a ameaça de sequestro vem de fora, Lula não tem como garantir a integridade física do visitante.

Enquanto isso, Pútin, que não é ingênuo e sabe os perigos que corre, não irá rever os encantos de nossa terra tropical. E será melhor assim.

Se livrar do dólar?

José Horta Manzano

Mês de abril passado, em visita a Pequim, Luiz Inácio entrou no palco pisando duro. O estilo era pra ser “O Brasil está de volta”, mas os modos estouvados estavam mais pra elefante em loja de porcelana.

Num dado momento, exibiu seu ar mais ingênuo e lançou ao ar uma pergunta retórica que o fez parecer um adolescente que começa a descobrir como o mundo funciona mas ainda não entendeu bem.


“Toda noite me pergunto por que todos os países estão obrigados a fazer o seu comércio em dólar? Quem decidiu que é o dólar a moeda depois que desapareceu o ouro como paridade?”


Com certeza, a candura de Lula é fingida. Não dá pra acreditar que, depois de ter presidido “essepaiz” por quase 9 anos, ele ainda não tenha entendido os passos básicos do balé das trocas internacionais.

Ele deve saber que ninguém “decidiu” que a moeda das transações internacionais seria o dólar americano. Para funcionar, certas coisas não carecem de leis ou de regras. Funcionam da maneira que satisfaz aos usuários.

E assim continua enquanto os atores estão satisfeitos. A partir do momento em que as condições deixam de satisfazer ao distinto público, tendem a ser modificadas.

Desde o final da década de 1960, o dólar está ocupando o lugar de principal moeda nas trocas internacionais. No passado, franco francês e libra esterlina já tinham sido moedas de referência. Apesar dos 50 anos decorridos desde que o dólar passou a ser referência, a erosão vem sendo muito lenta. Metade das transações mundiais continuam sendo feitas em moeda americana.

Por seu lado, 59% das reservas internacionais que praticamente todos os países possuem está garantida em dólares. Essa porcentagem tem baixado – 25 anos atrás eram 71% – mas a moeda americana continua resistindo. Atualmente, a segunda moeda que abriga reservas internacionais é o euro, que responde por apenas 20% dos depósitos.

Indagado, Monsieur Julien Vercueil, professor de Economia no Instituto Inalco (França) considera que “Apesar dos inconvenientes, o dólar constitui hoje a melhor opção, para a maioria dos operadores, de quitar suas transações internacionais. E, para os bancos centrais, de investir suas reservas internacionais.” E isso dura há meio século.

Mas, enfim, o dólar vai exercer para sempre o papel de moeda de referência nas compensações internacionais?

A situação atual certamente não é eterna, que tudo tem um fim. Um dia, o dólar perderá sua força e será aos poucos substituído por outra(s) moeda(s). Só que isso não vai ocorrer “porque o Lula quer”. Será realidade no dia em que a maioria dos operadores se sentir desconfortável e decidir mudar de quitanda.

Assim como ninguém impôs o dólar, difícil será expulsá-lo das trocas internacionais.

Cúpula de Belém

José Horta Manzano

Abriu-se ontem em Belém uma reunião de cúpula, convocada por Lula, reunindo chefes de Estado dos países amazônicos. Respondem a essa qualificação os países cujo território inclui uma fração da floresta tropical. A mídia disse e repetiu que são oito os países amazônicos. Está errado, a conta não bate.

Na verdade verdadeira, os países amazônicos são nove. E por que razão todos falam de apenas oito? É porque a Guiana Francesa, território francês vizinho de parede de nosso Amapá, apesar de ter a totalidade de sua área coberta pela floresta amazônica, não enviou representantes de alto escalão.

Bem que Luiz Inácio convidou pessoalmente seu colega Emmanuel Macron (que, aliás, está de férias neste momento, descansando num forte pertencente à Marinha e situado na Côte d’Azur). Monsieur Macron não veio nem mandou nenhum de seus ministros. Preferiu enviar representantes de segundo escalão. E por quê?

Evidentemente, Paris não deu a verdadeira explicação, que a linguagem diplomática não permite. Nessas horas, apesar das férias de Macron, alega-se que há “problemas de agenda”. Aos observadores, resta especular. E não é difícil descobrir.

Em primeiríssimo lugar, Macron está profundamente desapontado com a atitude de Lula diante da guerra na Ucrânia. Paris imaginava que, mais vivido e experiente que seu antecessor, Lula tivesse facilidade de compreender a mecânica do mundo. Macron pensava que Lula entendesse que, nesse conflito, há um agressor e um agredido. A obstinação de Luiz Inácio em pôr os dois beligerantes no mesmo balaio e se recusar a condenar Putin pela agressão criou um ambiente de desconfiança e desagrado. Tendo sido um dos primeiros a apoiar Lula e parabenizá-lo pela vitória, Macron decepcionou-se com o apoio que Lula deu (e continua dando) a Putin. Em Paris, a atitude de Lula soou como traição.

Em segundo lugar – e essa foi a gota d’água – a França não foi convidada a participar da cúpula de Belém como país amazônico, mas como Estado associado. Em suma, como participante de segunda classe, daqueles que a gente convida de favor. Se o chefe de Estado francês tivesse vindo, teria sido percebido como uma espécie de penetra. Diante dessa condição inaceitável, Macron não veio.

Luiz Inácio fez mal em não prestigiar o colega francês. Não se deve maltratar gratuitamente os amigos, especialmente aqueles que te deram a mão num momento difícil. Além de mostrar mau-caratismo, o descaso pode custar caro e fechar portas.

O Brics

Da Folha de São Paulo

José Horta Manzano

O clube chamado Brics não passa de fantasia sem qualquer consistência. Esse acrônimo foi bolado vinte anos atrás por um economista do banco Goldman Sachs. O rapaz teve a ideia de enfileirar a letra inicial de cada um dos países que, segundo a bola de cristal daqueles tempos, dominariam a economia global por volta de 2050. Brasil, Russia, India, China. Deu: Bric. Anos mais tarde, talvez na intenção de incluir um país africano no elenco, foi acrescentada a África do Sul (South Africa) e o acrônimo virou Brics.

Como se vê, entraram na mesma sacola países que quase nada têm em comum além do fato de serem promessas para o futuro. A Rússia tem tanto a ver com a África do Sul quanto a China tem a ver com o Brasil. No fundo, a qualidade comum aos membros do clubinho é ter uma população importante, se bem que a África do Sul nem tanto.

Dirigentes do Brics se reúnem com certa frequência e tomam decisões de pouca relevância. A heterogeneidade dos membros é tão grande que até o nome do clube flutua no entendimento de cada um. Veja a imagem reproduzida no alto deste artigo: a própria Folha de SP, que costuma ser cuidadosa nos detalhes, hesita entre “os Brics” e “o Brics”.

É verdade que aquele “s” no final parece indicar plural. Mas é só impressão. Como Mercosul, Brics é um nome coletivo, não admite plural. Quem diz “os Brics se reúnem” deveria também dizer “os Mercossuis se reúnem”. Não se deixe impressionar pelo “s” final.  O Brics é suficiente, assim como o pires e o lápis.

A associação é atualmente composta por 5 países: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Desses cinco, dois são ditaduras autoritárias (China e Rússia) e um está a caminho (Índia). Pior que isso: o ditador russo está na lista vermelha da Interpol com ordem de captura emitida pelo Tribunal Penal Internacional. Para ele, é temerário botar um pé fora de suas fronteiras.

A população da Índia é 25 vezes maior que a da África do Sul. O PIB da China, pelo conceito ppp, é 3 vezes maior que o da Índia, 7 vezes maior que o do Brasil ou da Rússia, 30 vezes maior que o da África do Sul. A assimetria econômica entre os membros é paralisante.

O distinto leitor e a encantadora leitora hão de convir que, com sócios díspares e sem um objetivo comum, a associação tem chances magras de prosperar. A continuar assim, vai acabar se tornando um agrupamento de países-súditos da China.

Caso o Brics aceite novos membros nos próximos anos, a ascendência chinesa sobre todos vai se tornar ainda mais evidente. O Brasil deveria combater vigorosamente toda expansão do clube.

Não sei se o lulopetismo já se deu conta de que o preço a pagar para levar seu antiamericanismo às últimas consequências é jogar-se nos braços da China. É bom que comecem a pensar nisso com urgência porque, sabendo ou não, é o que estão fazendo.

A sabedoria popular ensina que não se deve trocar o certo pelo duvidoso.

Hitler & Mussolini

José Horta Manzano

Giorgia Meloni é a primeira-ministra da Itália. Afiliada a um partido de extrema-direita, já chegou a ser acusada de enaltecer o fascismo – denúncia que ela hoje rejeita. Chegou à chefia do governo italiano pelo fato de sua coligação ter obtido maioria nas últimas eleições parlamentares.

Em princípio, o que se espera de um governante alinhado com a direita extrema é um distanciamento com relação à guerra na Ucrânia, no estilo que Lula vem adotando. Espera-se uma posição dúbia, hesitante, hipócrita, “em cima do muro” – como o posicionamento de Luiz Inácio, que vem embaçando a lucidez que se espera do governante de um grande país como o nosso.

Pois pasmem! Signora Meloni mostrou que, apesar de seu metro e sessenta, tem coragem pra dar e vender. Na cúpula UE-Celac desta semana,  ao dirigir-se ao plenário, falou da guerra de Putin. Disse que, durante as reuniões da cúpula, ouviu muito falar de “paz”, mas que é importante dar a cada palavra seu verdadeiro significado. Mandou:


“A palavra paz não pode ser confundida com a palavra invasão.”


E continuou, com clareza:


“Considero que a guerra na Ucrânia, além de ser nova guerra colonial, é também uma guerra declarada contra os mais frágeis. E constatamos isso com a não-renovação do acordo de exportação de cereais ucranianos.”


Isso é que é uma fala clara, contundente. A primeira-ministra, apesar de depender do gás russo, posicionou-se nitidamente em favor da pobre Ucrânia. Preferiu o lado civilizado da História.

Está passando da hora de Luiz Inácio meditar sobre a catástrofe humana que ele está apoiando. Seu erro é tão brutal quanto teria sido Getúlio Vargas errar de lado e declarar apoio a Hitler e Mussolini.

Vargas escapou por pouco, mas Lula não fugirá ao veredicto da posteridade.

Fominha

by Sam Jovana, desenhista mineira

José Horta Manzano

Como é sabido, chefe de Estado (ou de governo) em passeio fora do país é um perigo. É em ocasiões assim que ele costuma “falar abobrinha”. Não sei qual é o mecanismo que leva dirigentes a se comportarem assim, nem cabe aqui discutir a origem: o fato é que assim é.

Mais uma vez Lula comprovou o perigo dessa tradição. Na viagem à Bélgica, que se conclui nesta quarta-feira, o presidente usou e abusou da liberdade que sente quando está longe da pátria. Vamos falar de um desses deslizes e deixar o outro para uma próxima ocasião.

Na hora de redigir o comunicado final conjunto da cúpula UE-Celac, Luiz Inácio ameaçou não assinar caso o documento mencionasse a Rússia. Diante de sua inflexibilidade, o comunicado foi peneirado para excluir o nome daquele país. Ficou meio sem graça, mas não havia outro jeito.

Gabriel Boric, presidente do Chile, não apreciou a prepotência de Lula e ousou exprimir sua discordância. Como todos os quase 30 países europeus e diversos latino-americanos, ele também achava que o documento devia trazer uma firme condenação da Rússia em razão da invasão da Ucrânia.

Ao saber da reclamação de Boric, Luiz Inácio tomou o ar mais paternalista que conseguiu e desancou o colega chileno. Tratou-o de jovem inexperiente, chamou-o de fominha, explicou que, com o tempo, a experiência virá e que ele se acalmará.

Foi muito feio tratar o colega dessa maneira. Lula mostrou que não consegue conviver com o contraditório. Se alguém não estiver inteiramente de acordo com ele, é porque o outro está errado: Luiz Inácio não erra nunca. Foi um acesso de agressividade em público, pra quem quisesse ouvir.

Com a maior cara de pau, nosso presidente voltou a sacar sua “narrativa” favorita para encerrar qualquer conversa sobre a invasão da Ucrânia. Disse que as hostilidades têm de cessar; só então será possível conversar sobre a paz. “Enquanto tiver tiro, não tem conversa” – voltou a bater na tecla.

A falsidade de nosso guia é comovente. Ele sabe perfeitamente que a Rússia invadiu a Ucrânia e se apropriou de 20% do território. É legítimo e compreensível que o país invadido combata para expulsar o invasor e recobrar o território perdido. Cessar o combate significaria concordar em entregar uma quinta parte do território da pátria ao inimigo.

Qualquer um consegue entender que a guerra não pode tomar essa direção. Qualquer um, menos o Lula. Sua hipocrisia é imensa quando prega um cessar-fogo, que significaria entregar à Rússia boa parte do território da Ucrânia. É como se o Brasil fosse invadido e viesse um país estrangeiro sugerir que os brasileiros parassem de combater e entregassem um naco do território nacional aos invasores. Podia ser o Sul, o Sudeste, o Nordeste. Como se diz, pimenta nos olhos dos outros é colírio.

Lula e seus assessores não podem ser tapados a ponto de não entenderem a situação. O ódio que sentem pelos EUA não parece ser grande a ponto de explicar o raciocínio oficial do governo brasileiro. Ou será?

Lula em Bruxelas – II

José Horta Manzano

Pronto, Lula já discursou na Cúpula Celac-UE. Quem aguardava gesticulação tipo político fazendo comício em cima de trio elétrico saiu desapontado. O palavreado foi meio chocho. O Lula entusiasmado e expressivo só aparece em falas de improviso, quando ele costuma dar uma escorregadela aqui, chutar uma bola fora ali, cometer alguma ofensa à cartilha do politicamente correto acolá.

Lula leu o discurso inteirinho, da primeira à última página. O texto soou por vezes artificial, recheado de expressões inabituais na boca do presidente: “combater ilícitos cibernéticos”, “perpetuação da assimetria” e outras tecnicidades geralmente banidas do repertório de todo populista que se preze. Foi uma fala, por assim dizer, pasteurizada.

Diferentemente do que havia anunciado, não deu uma palavra sobre inteligência artificial. Muito menos tocou no tema da Nicarágua e seus perseguidos políticos encarcerados. Talvez volte a fazê-lo em alguma reunião bilateral, mas é de duvidar. O que de importante tivesse de ser posto à mesa já teria sido dito na reunião plenária desta segunda-feira.

O discurso, de pouco mais de 10 minutos, foi composto de platitudes e de generalidades. Nada de novo foi anunciado. Não foi feita menção a nenhuma das pautas sensíveis da atualidade. Nicarágua, Venezuela e Ucrânia ficaram de fora.

A discurso protocolar, aplausos protocolares. Bem diferente da ovação que se costuma reservar a discursos que realmente mexem com a plateia.

Pra se abalar de Brasília a Bruxelas – com tudo o que isso representa de logística, combustível, gastos com a comitiva, segurança, alojamento em hotel de alto luxo e outros detalhes – acredito que não tenha valido a pena. O acordo Mercosul-UE, que aguarda há duas décadas sua finalização, não andou um milímetro.

Se Luiz Inácio tivesse passado estes dois dias descansando no Torto, teria sido mais proveitoso. E uns bons milhões de nosso dinheiro teriam sido poupados.

Lula em Bruxelas

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Neste momento, domingo à tarde (na Europa) ou domingo de manhã (no Brasil), acompanho o voo do Aerolula. O aviãozinho, que leva o presidente a bordo cercado de sabe-se lá quantos assessores e penetras, está a meia hora de aterrissar em Bruxelas. Nessa cidade, Luiz Inácio se juntará a uma trintena de chefes de Estado ou de governo latino-americanos e caribenhos. Vão todos participar de uma cúpula entre a União Europeia e a Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe).

A cimeira se realizará na segunda e na terça-feira. Não haverá tempo útil para debater, pela enésima vez, o acordo comercial UE – Mercosul, que se encontra há mais de 20 anos enredado na burocracia. O máximo que os integrantes das comitivas presidenciais dizem esperar, além de um passeio pela capital da Europa, é “estreitar os laços que unem os países participantes”. É pouco, mas é o que temos para hoje.

Lula espera ser a maior atração da cúpula. Visto que é a figura mais conhecida entre todos os colegas latino-americanos e caribenhos, é de apostar que monopolizará as atenções. Suas palavras serão seguidas com interesse.

Luiz Inácio faz questão de abordar um assunto pelo qual ninguém imaginava que ele fosse se interessar: IA. Se o discurso realmente sair, esse dia periga entrar para a história da humanidade.

Além de falar de IA, Lula deseja também abordar a situação na Nicarágua. Lembremos que o papa lhe pediu, poucas semanas atrás, que interviesse junto ao ditador Ortega para obter a libertação de prelados católicos que mofam nas masmorras do país.

Vai ser interessante acompanhar as falas de nosso Lula nacional. Vamos ver que piruetas vai dar pra falar em liberar prisioneiros políticos e ao mesmo tempo negar que sejam prisioneiros políticos. Prepare-se para um exercício explícito de “cara-de-pauíce” e de contorcionismo verbal.

Pra lá de interessante vai ser sua palestra sobre inteligência artificial. Será que ele vai ler um discurso escrito por… IA? Quem viver verá.

Nota
Nesse vaivém, o Aerolula pousou.

A ambulância

crédito: Infodefensa.com

José Horta Manzano

O governo ucraniano não publica estatísticas oficiais dando conta das perdas humanas em decorrência da invasão russa. Na contagem oficiosa, as vítimas se aproximam de 250 mil. E continuam aumentando ao ritmo diário de 500-1000 vidas.

No finzinho de abril, a Ucrânia solicitou que o Brasil lhe vendesse 450 unidades do veículo blindado Guarani em versão ambulância.

Numa guerra de trincheira disputada em terreno minado, como está ocorrendo no conflito ucraniano, uma ambulância comum não dá conta do recado. O governo de Kiev escolheu o Guarani por ser um veículo fortemente blindado, capaz de transportar duas macas com feridos e mais três pacientes sentados. Além disso, cabem também um médico, um enfermeiro, o comandante do veículo e o motorista. O Guarani resiste a tiros, rajadas de metralhadora, estilhaços de grosso calibre e até explosão de minas.

É importante salientar que o blindado em versão ambulância não é dotado de canhão nem do armamento que normalmente integra a versão de combate. A Ucrânia queria que os veículos viessem já pintados com as cores do país e a cruz vermelha que simboliza transporte de feridos de guerra. Era um negócio de 3,5 bilhões de reais.

No governo, o primeiro a tomar conhecimento do pedido de compra foi o ministro brasileiro da Defesa. Rapidamente foram informados também o ministro das Relações Exteriores, o assessor Amorim e o próprio Lula.

A partir daí, entrou em ação a visão distorcida de geopolítica que caracteriza o lulopetismo. Figurões do PT se puseram a dar palpite. Consideraram que as Forças Armadas brasileiras estavam muito saidinhas, tratando de fazer “política externa independente”. Com o PT, pode não. E veio o bloqueio: o governo Lula vetou o que teria sido o maior negócio de exportação da indústria bélica nacional.

O mal disfarçado apoio que o lulopetismo dá à Rússia de Putin fez mais um estrago. Em nome de uma suposta “neutralidade” no conflito, o Brasil, que podia ajudar a salvar milhares de vidas, acovardou-se. Os ucranianos não nos pediam dinheiro, nem armas, nem presença militar, nem apoio a sanções econômicas – queriam apenas ambulâncias. E estavam dispostos a pagar.

Para que conste: a Suíça, país tradicionalmente neutro desde 1815, declarou que neutralidade não rima com indiferença. Desde o início da guerra, tem ajudado a Ucrânia com remédios, equipamento médico, material de primeira necessidade para a população civil, doações de todo tipo. Esse tipo de ajuda não atenta contra a neutralidade.

Além disso, nada impede que o Brasil, caso houvesse interesse por parte dos russos, vendesse ambulâncias medicalizadas também para eles. É o tipo de negócio que não quebra a neutralidade. Não quebra na cabeça de gente normal, é claro. Quando temos, no comando das Relações Exteriores, barbudinhos empacados em mágoas e ressentimentos, a coisa muda.

Com isso, se descobre que a empatia com o sofrimento alheio, base de toda doutrina socialista, era só pra inglês ver.

E os feridos e mutilados de guerra ucranianos, nessa mixórdia, como é que ficam? Que se virem, ora.

O discurso

Cúpula de Paris – 23 junho 2023
Foto de família

José Horta Manzano


“Depois de tudo o que ouvi ontem, mudei o discurso que tinha preparado. Não vou ler.”


Foram as palavras iniciais do pronunciamento que Lula fez hoje na cerimônia de encerramento do Novo Pacto de Financiamento Global, cúpula realizada em Paris e ciceroneada pelo presidente Emmanuel Macron. Ninguém jamais saberá o que havia no discurso que nosso presidente descartou.

Assim que Lula informou que falaria de improviso, seu entourage deve ter começado a empalidecer e suar frio. Até este escriba se mexeu na cadeira: “Ai, o que é que vem por aí?”. Todo o mundo sabe que Luiz Inácio, quando cata um microfone, é capaz do melhor, mas também do pior.

Não houve nenhuma catástrofe. A invasão da Ucrânia não estando na pauta, o risco de novo escorregão feio amainou. Mas nosso presidente nunca perde ocasião de se distinguir, seja pelas declarações sensatas, seja pelas inquietantes.

Lula falou por mais tempo que qualquer outro participante à cerimônia. Discursou por quase 40 minutos. Esquecido de que não cabe a cada governante criticar seu antecessor, disse que o Brasil tinha tido um “governo fascista” estes últimos quatro anos. Faz coro à declaração que Bolsonaro deu um dia na ONU, quando informou ao mundo que ele “tinha salvado o Brasil do socialismo”. Como se vê, os dois dirigentes jamais perdem a elegância.

Cúpulas desse tipo são organizadas para discutir o que virá, não o que já foi. Incorrigível, Lula continua a culpar terceiros pelas dificuldades que ele tem de enfrentar. Em 2003, chamou a herança recebida de FHC de “maldita”. E agora reincide, ao avaliar seu predecessor como “fascista”. Pode até ser verdade, mas roupa suja se lava em casa, não no exterior, diante de um palco iluminado e pouco interessado nessas rusgas.

Com a Ucrânia fora da pauta, ressurgiu o Lula “pai dos pobres”, o defensor perpétuo dos pequeninos. Ele discorreu sobre as insuportáveis desigualdades (financeiras, religiosas, raciais, de gênero) que mancham a imagem do planeta.

Falou de Amazônia. Prometeu reunir-se com os demais países amazônicos para, juntos, porem de pé uma agenda comum para o desenvolvimento sustentável das florestas tropicais. Descreveu as diversas ameaças que pesam sobre a região, como garimpo e desmatamento ilegal. Prometeu esforçar-se para pôr ponto final, antes do fim de seu mandato, ao desmate fora da lei.

Falou da fome no Brasil e no mundo. Disse que os governos de seu partido (dele e de Dilma) tinham tirado o Brasil do mapa da fome. E queixou-se de ter encontrado, ao assumir o Planalto pela terceira vez, um país de novo mergulhado no desonroso elenco dos esfomeados. Naturalmente, acusou o governo “fascista” que lhe precedeu.

Luiz Inácio lembrou que está com 77 anos, mas vigor de um jovem de 30. Convidou todos os presentes a comparecerem à COP30, a realizar-se em 2025 em Belém do Pará. Prometeu mostrar a todos o resultado de sua política de desmatamento zero.

Houve um ponto em que a fala de Lula pareceu surreal. Foi quando ele insistiu no advento de uma “governança mundial”. Em sua visão, isso se traduz pela criação de um organismo supranacional que toma decisões aplicáveis a todos os países sem necessidade de ratificação pelo Parlamento de cada país.

Essa afirmação é muito surpreendente. Entra em choque com outro cavalo de batalha de Luiz Inácio – aliás repetido no mesmíssimo discurso de hoje. Como tem feito em outras ocasiões, nosso presidente aproveitou essa cúpula para mostrar-se irritado de ter de utilizar o dólar americano como moeda internacional de trocas comerciais.

Como se vê, o desprendimento de quem está disposto a abrir mão de uma parte da soberania nacional para entregá-la a uma hipotética “governança mundial” entra em conflito com o ressentimento encruado de quem se sente humilhado por ter de utiliizar a moeda americana na hora de comerciar com o mundo.

Lula disse que se sentiria à vontade de comerciar em yuan com a China, em peso com a Argentina, em libra com a Inglaterra, desde que não tivesse de “comprar dólar” para fechar as mesmas operações. É puro antiamericanismo.

Antes de concluir, Lula foi esperto e disse considerar a União Europeia um “patrimonio democrático da humanidade”. Afirmou que gostaria de ver uma réplica na América do Sul.

Da primeira à última palavra, Luiz Inácio foi Luiz Inácio. Não chegou a chorar ao falar em pobreza, mas fez aquele tipo de discurso impecável, que, se não agrada, não chega a desagradar ninguém. As inconsistências passam despercebidas.

O pronunciamento foi daquele tipo que, décadas atrás, a gente chamava de “diálogo flácido para acalentar bovinos” – conversa mole pra boi dormir.

O boleto

Parlamento suíço

José Horta Manzano

A firmeza de opinião não está entre as qualidades maiores do brasileiro. Em detalhes do dia a dia e em acontecimentos importantes, gente simples e gente complicada tem reações semelhantes.

Vivendo há décadas longe de Pindorama, aprendi que sim é sim, e não é não. Só que isso pode valer em determinadas regiões do mundo. No Brasil, a afirmação e a negação não são necessariamente antagônicas.

Nunca lhe aconteceu de oferecer um favor ou uma simples gentileza a alguém e receber em troca um “Ah, não precisa!”? Na verdade, é um “não” que quer dizer “sim”, o que me deixa desconcertado. Para mim, parece simples: quando a gente quer, responde que sim; quando não quer, diz que não. Ficar no meio do caminho me soa estranho.

O fenômeno permeia toda a sociedade e atinge os altos círculos das “pessoas politicamente expostas”, que é a nova denominação da classe política. Habituados a flutuar entre opiniões, políticos trocam de partido como trocam de camisa. Abrem a boca pra soltar bobagem, na certeza de que, dia seguinte, poderão consertar, deixar o dito por não dito. E segue o barco.

Acredito que Lula, ao proferir disparates sobre a Ucrânia invadida pela Rússia, estava exercendo seu direito ao arrependimento posterior: toda asnice proferida pode ser consertada mais adiante, caso seja mal recebida. Tanto é assim que suas falas se “suavizaram”, sem todavia se encaixarem nos trilhos que o mundo civilizado esperava dele.

Com essas poucas falas calamitosas, Luiz Inácio destruiu a própria imagem, aquela que lhe tinha custado anos para construir e que era admirada e respeitada no planeta. A confiança que o mundo desenvolvido depositava no velhinho “pai dos pobres” foi-se embora pelo escoadouro.

A expressão que Lula usou – Clube da Paz – pode até tornar-se realidade daqui a algum tempo, dependendo de como os combates evoluírem. Só que ele, Lula, não será chamado a organizar nem a chefiar as tratativas. Talvez nem o aceitem no Clube.

A prova? Pois ontem às 14h (hora da Europa Central), os parlamentares suíços se empertigaram para ouvir o discurso de Volodimir Zelenski, que falava ao vivo, diretamente de Kiev, por vídeo em telão.

A Suíça é país tradicionalmente neutro. Assim, o presidente ucraniano evitou tocar em temas militares (armas ou munições). Em vez disso, agradeceu pelos bons serviços que a Suíça tem prestado (acolhida de refugiados, assistência médica aos feridos).

E aproveitou para detalhar seu próprio plano de paz. Sua ideia é reunir a expertise de diferentes chefes de Estado, cada um contribuindo com sua experiência em áreas como: questões nucleares, remoção de minas, proteção de crianças (milhares de crianças ucranianas foram deportadas para a Rússia contra sua vontade).

Zelenski fez um único pedido. Convidou a Suíça a organizar “uma cúpula sobre a paz mundial”. E acrescentou: “É justamente nesse ponto que a Suíça é especializada”. Foi ovacionado de pé.

Como o distinto leitor e a graciosa leitora podem perceber, Lula e seu “Clube da Paz” estão desde já descartados. A língua ferina e principalmente o raciocínio de Luiz Inácio, aprisionado em ressentimentos que lhe cristalizaram a alma, já fez seu efeito e já passou fatura. Não dá mais pra voltar atrás. Agora, o jeito é pagar o boleto. Sem chance de mudar de ideia.

Conversa de surdo

Ursula von der Leyen & Luiz Inácio da Silva

José Horta Manzano

O funcionamento das instituições da União Europeia é complexo, totalmente diferente do sistema vigente em cada um dos 27 países membros. Cada uma das instituições tem sua própria organização e colabora com as demais instituições segundo um esquema bem definido.

As instituições da UE são sete:

  • O Conselho Europeu
  • A Comissão Europeia
  • O Conselho da União Europeia (ou “o Conselho”)
  • O Parlamento Europeu
  • O Tribunal Europeu de Contas
  • O Tribunal de Justiça da União Europeia
  • O Banco Central Europeu

Como em qualquer governo, cada instituição é independente, mas todas trabalham em harmonia.

O presidente Lula recebeu ontem a visita de Ursula von der Leyen, 14ª presidente da Comissão Europeia, com mandato de 5 anos. Essa comissão é o órgão executivo da UE. Para esclarecimento, o cargo da senhora von der Leyen equivale ao de Lula da Silva, dado que ambos são chefes do Executivo.

Não sei se Luiz Inácio foi avisado (espero que sim) que ele e a visita estavam falando de igual para igual, sendo ambos chefes do Executivo. Lula não recebeu a visita de uma funcionária qualquer.

A julgar pela foto, von der Leyen parece sentir-se mais à vontade do que Lula. Ela exibe um sorriso resplandecente enquanto ele faz cara de quem comeu e não gostou. Talvez excessos cometidos no almoço lhe tenham provocado engulhos. O paletó desabotoado poderia ser a confirmação dessa tese.

Quanto ao debate entre os dois, há de ter sido conversa de surdo. A visitante veio tentar, pela enésima vez, explicar a Lula que ficar em cima do muro, no caso da invasão russa da Ucrânia, é opção furada, que, além de não o enobrecer, o coloca como cúmplice de ditadores sanguinários. Isso pode trazer-lhe consequências inesperadas e desagradáveis.

Lula, não tendo apreciado voltar a esse assunto, preferiu cobrar a conclusão do tratado entre UE e Mercosul. Quem sabe von der Leyen tenha até se comprometido a mexer os pauzinhos. Só que ela não tem nenhum poder nessa decisão, que depende de ratificação do texto em cada um dos 27 parlamentos nacionais da UE. Mas talvez Luiz Inácio nem esteja a par desse detalhe.

Na minha visão, teria sido melhor que a presidente da Comissão Europeia tivesse conversado com Celso Amorim, o assessor especial de Lula para assuntos externos. Em matéria de relações exteriores, o posicionamento de nosso presidente tem trazido as digitais de Amorim.

Luiz Inácio nasceu dogmático, e há de morrer dogmático. Para ele, posicionar-se no campo oposto ao dos EUA é ponto de honra, coisa que não se discute. Que remédio?

Maduro e o script

by Patrick Chappate (1964-), desenhista suíço

José Horta Manzano

A reunião de dirigentes sul-americanos desta terça-feira em Brasília está dando que falar. Já li um punhado de análises que especulam qual seria o objetivo de juntar em torno da mesa uma dezena de figurões de nosso subcontinente.

Como está – um conciliábulo de um único dia sem pauta específica – lembra um grupo de vizinhos reunidos para se conhecerem melhor, em torno de uma mesinha de centro com café e bolo. Vão conversar do quê? Se nada ficou combinado antes, só pode sair fofoca.

Há quem acredite que é isso mesmo: uma confraternização entre coproprietários, celebrada no apartamento mais espaçoso do prédio, sem maiores pretensões. Quem ganha é o ego do proprietário dessa cobertura, orgulhoso de mostrar sua estupenda vivenda aos vizinhos.

Já outros veem na reunião uma estratégia do governo Lula para proclamar ao mundo que o Brasil voltou – no sentido de potência regional. Para melhor representar seu papel de chefe, está mostrando que tem trânsito livre e que conversa com todos os países das redondezas.

Há quem veja um plano ainda mais ousado. Lula estaria afirmando ao mundo que é o Brasil quem manda no pedaço, antes que intrusos como China e Rússia façam por aqui o têm feito na África, ao implantar feudos e colônias.

Quanto a mim, penso que há razão em todos os argumentos citados. Creio que a cúpula tenha sido bolada com múltiplas finalidades. Não deixa de ser confraternização entre vizinhos. Mas é também afirmação da influência do Brasil no seu entorno. E ainda mostra os músculos, no esforço de barrar veleidades de neocolonialismo chinês e russo.

A ideia é boa. Dá alívio ver que o Itamaraty está revivendo, depois de ter passado encolhido durante o calamitoso quadriênio bolsonárico. Dá satisfação perceber que ainda há cabeças pensantes nos altos círculos da República, inteligências geopolíticas que tinham sido caladas na gestão anterior.

Até aqui, tudo são flores. Agora é que vem a hora de a onça beber água, ou seja, o momento em que, ao entrar em campo, a teoria vira prática.

O tema de convidar (ou não) Maduro há de ter sido objeto de discussão no Itamaraty e na Presidência. Se não o convidasse, o Brasil daria a impressão de não ter relações fluidas com toda a vizinhança. Não era o que Brasília queria. Se o convidasse, o Brasil mostraria que fala com todo o mundo, regimes de esquerda e de direita, ainda que a Venezuela, no conceito planetário, seja vista como ditadura.

Já conhecemos o fim da história: Caracas foi convidada. Só que o comitê de organização do encontro teve a ideia bizarra de tirar Señor Maduro da naftalina e fazê-lo vir um dia antes dos demais. O resultado foi que o ditador venezuelano, sozinho, único sobre o palco, abafou e foi o centro das atenções, com todos os holofotes sobre sua cabeça. Observado pela mídia estrangeira, foi a vedete do dia.

Na verdade, a presença de Maduro esvaziou a importância da reunião. A meu ver, apartar Maduro dos demais dirigentes não foi boa ideia. No final, passou a imagem de que o Brasil tem especial apreço pela ditadura do vizinho. O amparo dado ao autocrata vizinho é tão grande, que ele teve direito a uma homenagem exclusiva de um dia inteiro.

Como nada é perfeito, o comitê de organização se esqueceu de recomendar a Lula da Silva que não saísse do script e que não soltasse frases de improviso. O ímpeto de estrela de nosso presidente foi mais forte. Não se ateve ao discurso preparado, mas deu opiniões desastrosas em assunto sério e ultrassensível.

Deu a entender que, se a Venezuela está no buraco é por culpa das sanções econômicas dos EUA. (O argumento é falso, visto que o país já estava de pires na mão nos tempos de Hugo Chávez, quando não havia sanção nenhuma.)

Sugeriu ao ditador que inventasse uma narrativa que seja só dele e que sirva de contra-argumento para combater a difusão da informação sobre a verdadeira realidade da Venezuela.

Não deu um pio sobre presos políticos, oposição perseguida, imprensa calada à força, fome generalizada, milhões de cidadãos que têm fugido do país nos últimos anos.

Quem teve a ideia da cúpula não deve ter apreciado nadinha essas incômodas entorses ao roteiro traçado. Esses deslizes acabaram desvirtuando a causa e mostrando um Brasil conivente com o pior regime da América do Sul na atualidade.

Ninguém é incontrolável. Deve ser difícil refrear os ímpetos do antigo sindicalista que virou presidente, mas impossível não é. Está faltando quem lhe mostre que, se continuar a tirar pitacos do bolso da camisa, Lula vai continuar arruinando os melhores planos da diplomacia brasileira.

Já fez isso no G7, está fazendo agora e vai continuar a fazer.

Dois pra lá, dois pra cá – 2

Chamada – Folha de São Paulo

José Horta Manzano

Nem toda notícia sai nos jornais. A não ser que haja vazamento, comunicações “top secret” entre personagens dos altos círculos do poder (nacional ou internacional) passam longe das manchetes.

O caso dos falsos atestados de vacinação está aí para provar. A grande dúvida sempre foi se Bolsonaro tinha ou não tinha tomado vacina. Foi preciso a Polícia Federal quebrar certos segredos para descobrir o que ninguém jamais havia imaginado: no andar de cima, as autoridades que deviam cuidar do país estavam forjando atestados falsos de vacinação, como num filme noir francês em que falsários trabalham num subsolo, à meia-luz, fabricando dinheiro ilegal.

As inacreditáveis declarações de Lula sobre a guerra na Ucrânia horrorizaram os países democráticos. Em seguida, elas sumiram das manchetes. Mas não se engane! Nossos parceiros norte-americanos e europeus não se esqueceram nem pretendem deixar barato. Pressões irresistíveis devem estar atazanando Luiz Inácio, exortando-o a reconsiderar sua posição.

E é o que ele está tentando fazer. A contragosto, diga-se. Anda de banda feito caranguejo. Nessa matéria, age como quem fala mais por obrigação que por convicção. Percebe-se que está acuado, encostado à parede. Suas bravatas de moleque estão lhe custando caro.

Com meia dúzia de frases de botequim, Lula conseguiu destruir a imagem simpática e amena que o planeta havia guardado dele após dois mandatos e uma passagem pela casa prisão. Foi uma pena. Aquelas frases desgraçadas ecoaram forte e fizeram soar o alerta vermelho na chancelaria de todos os países democráticos.

Como é que é? Lula, o simpático pai dos pobres, que se posiciona do lado da Rússia de Putin e da China de Xi Jinping? Lula, o humanista, que desdenha a gravidade da invasão da Ucrânia e o sofrimento da população bombardeada? De repente, o posicionamento esdrúxulo de Luiz Inácio virou pesadelo para muitos dirigentes estrangeiros. E agora? Como encarar um Brasil que desliza para o lado obscuro da História?

Num primeiro momento, imaginei que, ao pronunciar as frases desconcertantes, nosso presidente estivesse num momento de mau humor ou talvez inebriado por estar de novo viajando de aerolula em terras estrangeiras. É incrível como dirigentes, quando estão longe de casa, se sentem à vontade para dizer besteira, na crença de que não haverá consequências.

Estes dias, dei de cara com o recorte que reproduzi acima, na entrada deste artigo. O jornal cita uma fala de Celso Amorim, nosso inoxidável “assessor especial de política externa”. Com a arrogante superioridade de quem está pra perder a paciência, o assessor informa que o Brasil pode até se dignar de socorrer os beligerantes, mas só o fará quando ambos “se cansarem da guerra”.

Além de exalar soberba, a frase é de uma maldade inominável. Amorim renega seu passado de diplomata de alto nível e desce ao nível do chefe. Luiz Inácio disse que “quando um não quer, dois não brigam”. Agora vem seu “assessor especial” prometer ajuda quando país agressor e país agredido “se cansarem de guerra” – frase terrível de desdém pela infelicidade de um povo agredido. Uma falta de empatia tão grande choca.

Meditei. O que estará ocorrendo? Será que as tristes falas de Lula já refletiam, desde o começo, o ponto de vista do “assessor especial”? Se assim for, Lula agiu como papagaio de Amorim. Ou será que, para agradar ao chefe, o “assessor especial” é que teria jogado ao lixo os ensinamentos angariados nos tempos em que era diplomata, para adotar o antiamericanismo primitivo de Luiz Inácio?

Seja como for, o retrato é dramático. Um presidente escorrega feio, leva um pito internacional e tenta recuar andando de costas com visível desconforto. Na contramão, um “assessor especial” volta de uma visita a Kiev requentando as besteiras do chefe e colocando-as de volta no balcão das “commodities” brasileiras. Para que todos vejam.

São dois pra lá, dois pra cá. Até que não seria dramático se o papel de nosso país na cena internacional fosse dançar bolero. Mas, na medida que o Brasil abandona aliados e se aproxima de Estados criminosos, nosso desempenho está mais pra valsa do adeus.

De quem é a Crimeia?

José Horta Manzano

Acabo de assistir à coletiva de imprensa que Lula e Pedro Sánchez, o chefe do governo espanhol, deram na saída de uma conversa a portas fechadas. Em virtude do pouco tempo disponível, só foram permitidas duas perguntas, uma de uma jornalista brasileira e uma de um jornalista espanhol.

Ambas as perguntas foram múltiplas, com três ou quatro subperguntas embutidas, mas o tema principal das duas foi o mesmo: a guerra na Ucrânia. Está confirmado que as declarações contraditórias que nosso presidente tem dado nos últimos tempos retumbaram na Europa.

Uma das perguntas deixou Lula em saia apertadíssima. À queima-roupa ouviu: “Na sua opinião, presidente, a Crimeia e o Donbas pertencem a que país?”. Luiz Inácio engasgou. Disse que não tinha entendido a pergunta. O repórter repetiu pausadamente. O presidente do Brasil continuou reclamando que não havia entendido.

O chefe do governo espanhol se meteu na conversa, e Lula teve de entregar os pontos. Admitiu que tinha entendido. Mas logo se esquivou alegando que não cabia a ele responder a essa pergunta. Não lhe compete decidir quem é o dono da Crimeia e do Donbas. Espichou um pouco mais o raciocínio, mas acabou mudando de assunto.

Lula está gravemente enganado. Sua resposta está longe da realidade. Ao escapar por essa portinha estreita, ele mostrou que seus conhecimentos não lhe permitem meter-se em política internacional sem dar vexame.

Só para recordar, a Ucrânia era uma república integrante da União Soviética. Com o desmonte da URSS, o país tornou-se independente em 1991. Em dezembro daquele ano, o Brasil reconheceu a Ucrânia como país independente dentro de fronteiras soberanas e universalmente reconhecidas. O território incluía a Crimeia e a bacia do Rio Don, o Donbas. O próprio Lula visitou Kiev em 2009, como presidente do Brasil, quando o país estava inteiro e ninguém discutia a propriedade do território.

O fato de a Rússia ter invadido a Crimeia em 2014 e parte do Donbas em 2022 não altera o tabuleiro: essas duas regiões continuam fazendo parte integrante da Ucrânia. Portanto, a resposta que se esperava de Luiz Inácio era que, até que eventual novo tratado modificando fronteiras internacionais venha a ser assinado e reconhecido pelo mundo todo, o território ucraniano inclui, sim, a Crimeia e o Donbas.

Se um líder estrangeiro, indagado sobre quem é o dono do Acre, desse uma resposta à la Lula – “não cabe a mim decidir a que país pertence o Acre” –, causaria fúria em Brasília e indignação no resto do mundo. E com razão, pois não?

Escapar à pergunta, como fez Lula da Silva, é levar água ao moinho de Putin. Somente o ditador da Rússia põe em dúvida o que ficou acertado e sacramentado 30 anos atrás. Lula mostra que continua mal preparado para enfrentar as consequências de suas falas desastradas.

Que se prepare para as próximas vezes, que virão certamente.

As falas do Lula viajante

Journal de Montréal
“A propaganda nauseante e escandalosa do Brasil”

José Horta Manzano

É sabido que chefes de Estado ou de governo, quando viajam para fora do país, correm risco de fazer pronunciamentos embaraçantes. Já aconteceu com o papa, o presidente da França, o presidente dos EUA, o primeiro-ministro da Itália. Ninguém consegue explicar as razões desse fenômeno curioso. Talvez seja porque os líderes se sentem mais à vontade, sem a pressão da mídia do país natal.

Em sua recente viagem à China com passagem pelo Oriente Médio, Lula mostrou que a regra continua válida – ele também deu declarações controversas. No Brasil, país em que Lula foi eleito sobretudo para afastar Bolsonaro, suas falas estranhas não ecoaram dramaticamente. Pelo menos, Lula não destratou soberanos nem fez comício em dia de enterro.

Ele tratou de Rússia, Ucrânia, China, G20 e G7, temas que não frequentam o dia a dia do brasileiro. Ucrânia e os países visitados por Lula nos parecem distantes, exóticos, do outro lado do mundo, fora da realidade brasileira. G7 e G20, então, são noções abstratas, que não reverberam em nossa mente.

No entanto, em lugares do mundo em que a invasão da Ucrânia pelos russos é vista como ameaça global, as falas de Luiz Inácio repercutiram. Lula é personagem conhecido e admirado por muita gente. Suas declarações, que no Brasil passaram quase batidas, representam um golpe em seu prestígio internacional.

Os comentários que tenho lido e ouvido vão neste sentido: “Puxa, eu tinha grande simpatia por Lula, mas fiquei chocado com o que ele disse sobre a guerra. Ele caiu muito na minha estima!”.

O editorial do jornal suíço Le Temps desta segunda-feira relembra que a eleição de Lula foi um alívio para os que torciam pela democracia no Brasil. Conta ainda que, em Pequim, nosso presidente defendeu a ideia de um “clube da paz”, conceito que parece razoável. Menos razoável, no entanto, é apontar o dedo para a Europa e os EUA, acusando-os de “alimentar a guerra”. Essa tirada assustou. A tijolada final chegou quando Lula garantiu que “compartilha a visão de mundo de Xi Jinping”.

Li também um artigo no canadense Journal de Montréal, desta mesma segunda-feira. Esse é mais categórico.

“O presidente brasileiro acaba de fazer declarações ultrajantes sobre a guerra na Ucrânia. Para ele, a responsabilidade pela guerra recai sobre a Ucrânia e a Rússia. Ele também acusa a Europa e os Estados Unidos de não fazerem nada para impedir a guerra. Cereja em cima do bolo, ele propõe a mediação do Brasil, junto com a China e os Emirados Árabes Unidos. Há um limite para tomar as pessoas por imbecis.”

E continua:

“Dizer que a Europa e os Estados Unidos não estão fazendo nada para parar a guerra é ecoar a propaganda russa, que gostaria que a Ucrânia deixasse de receber armas para ser conquistada mais rapidamente.”

E termina, veemente:

“Sugerir que ditaduras como as da China e dos Emirados Árabes sirvam de árbitro para um povo que busca liberdade e democracia é cínico e repugnante.”

Como se pode ver, as falas de Luiz Inácio viajando podem parecer blá-blá-blá no Brasil, mas no exterior o efeito é devastador. É pena que ele não consiga fechar a boca. Calado, poderia até tomar as mesmas iniciativas sem levantar esse auê internacional.