Falando difícil

José Horta Manzano

Folha de SP, 25 dez° 2020.

Como será esse “efeito cicatriz”? Fico curioso pra saber.

É que este blogueiro é do tempo em que bastava dizer “Pandemia deixa cicatriz” e todo o mundo entendia. Naquele tempo, o país era pobre e a gente costumava economizar palavras.

Hoje, imagino que todos estejam muito ricos, visto o desperdício. Atirar letra pela janela? Que coisa feia! E se cair na cabeça de alguém?

Réveillon de Natal

José Horta Manzano

Chegou o Natal de um ano pra lá de especial. Natal, temos todos os anos; mas o deste ano parece mais um filme de Fellini, com festa de mascarados e um balé de convidados racionados dançando ao passo da distanciação social. Não é muito alegre, mas é o que temos.

No fundo, até que temos sorte de ainda estar aqui – milhares ficaram pelo caminho. Não deve haver nenhum brasileiro que não conheça alguém que morreu de covid, um parente, um amigo, um vizinho, um colega, um conhecido.

O Natal é a festa maior da cristandade, tanto na Europa ocidental quanto nas antigas colônias, Brasil incluído. Mas este ano, além do significado religioso, o que estamos festejando mesmo são duas coisas: nossa sobrevivência à pandemia e a chegada da tão esperada vacina.

E vamos em frente, de bacalhau com batatas, ou o que lhe apetecer. Com rabanada pra arrematar.

Uma curiosidade vale ser mencionada. Franceses, belgas, suíços e canadenses se preparam hoje para o réveillon de Natal. Para nós, parece esquisito misturar Natal com réveillon, que nos parecem coisas distintas.

Em francês, até o século 19, se usava a palavra réveillon para designar uma refeição tomada tarde da noite, fosse em que dia fosse. Hoje essa acepção saiu de moda. Réveillon se especializou em dar nome aos festejos da véspera de Natal e também da passagem de ano. Pra distinguir, basta especificar: réveillon de Noël (de Natal) ou réveillon de la Saint-Sylvestre (de fim de ano).

Réveillon descende do verbo latino vigilo, que significa estar desperto. Em nossa língua, a parentela é extensa: vigia, vigiar, vigilante, velar, vigília (véspera de certas festas religiosas). Vela e velório fazem parte do clã. Todas essas palavras carregam o sentido de estar desperto para cuidar.

Feliz Natal a todos!

Assédio: adequação vocabular

José Horta Manzano

Desde que o movimento #MeToo ganhou o noticiário mundial, a noção de assédio tem estado presente em todas as conversas. A palavra assumiu conotação predominantemente sexual. Quem diz assédio, subentende assédio sexual.

O verbo assediar é antigo, mas seu uso nessa acepção é relativamente recente. Sua presença crescente no vocabulário do dia a dia é sintoma da evolução da sociedade. Atitudes e gestos que, poucas décadas atrás, passavam ignorados deixaram de ser aceitos. É passo importante em direção a um patamar mais civilizado.

Faz uns dias, um deputado estadual paulista teve a péssima ideia de apalpar o seio de uma colega sem seu consentimento – em público, ao sol do meio-dia e sob o olho das câmeras. Talvez o paspalhão imaginasse que tudo ia ficar por isso mesmo. Não ficou. O país inteiro se inteirou da traquinagem primitiva de Sua Excelência que, agora, corre risco de ver seu mandato encurtado.

Ao comentar o fato, todos os órgãos da mídia falaram (ainda falam) em assédio. Apesar da unanimidade, a mim não parece a melhor palavra pra definir o caso. Vamos ver por quê.

O verbo assediar, presente em todas as línguas latinas, descende do verbo latino sedere (=sentar, parar, postar-se, estar parado). Portanto, assediar contém a ideia de ação contínua, de demora, de repetição, de insistência.

Na acepção original, assédio é termo de guerra. Na Idade Média, quando ainda não havia canhões nem aviões, o único jeito de conquistar uma cidade fortificada era assediá-la, isto é, cercá-la com tropas de modo a não deixar ninguém entrar nem sair. E esperar até que os habitantes não aguentassem mais de fome e se rendessem. Podia levar meses ou até anos, mas um dia a cidade caía.

Assim, para que se possa falar em assédio (sexual, moral ou escolar), é preciso estar presente o fator repetição insistente. No caso da deputada paulista, a não ser que o apalermado indivíduo seja um habitué nas artes de apalpá-la, não se deve falar em assédio. Melhor será utilizar: importunar, incomodar, molestar.

Aquela (ou aquele) que passa dias, semanas ou meses sendo atormentado sexual ou moralmente, esse sim, poderá dizer que foi assediado.

De criança que vive atormentada por coleguinhas, costuma dizer-se que sofre bullying. A importada é chique, mas difícil de escrever e de pronunciar; além disso, a importação é desnecessária por haver similar nacional. Assédio é assédio, seja no trabalho, em casa ou na escola. Assédio escolar diz exatamente o que quer dizer.

Para quem quiser ousar caminhos novos, há outra opção. Acosso ou acosso escolar é expressão rara mas autoexplicativa. Aliás, é a palavra que os espanhóis utilizam pra dizer assédio: acoso.

Ministro fake

José Horta Manzano

Eduardo Pazuello, nosso apalermado ministro-júnior da Saúde, não entende por que é alvo de uma permanente chuva de críticas. Não se deu conta de que é sua submissão canina ao chefe que o põe em situação vulnerável. A plateia nacional nunca assistiu a um militar representando papel tão ridículo como o dele.

Mas por que é que ele não dá demissão? É permitido imaginar que o que está em jogo não é apenas o salário de ministro – afinal, o soldo de general é suficiente pra levar uma vida confortável. Fica no ar a impressão de que debaixo desse angu tem carne. Pra se rebaixar a esse ponto perante seus 200 milhões de conterrâneos, a razão há de ser maior que um mero contracheque mensal. Que será? A cada um, a liberdade de cogitar.

O ministro-júnior deve achar que os brasileiros não gostam dele por causa de seu jeito de sorrir, de se exprimir ou de se vestir, sei lá. Contratou um marqueteiro-mor, um certo senhor Marcos Marques, que prefere ser chamado de Markinhos. Assim, com K, como um certo Kassio. Fica a impressão de que o governo que se proclama ‘nacionalista’ dá preferência a colaboradores que tenham K no nome. Entenda quem puder.

O general parece não ter dificuldade em seguir ordens. Se seguir direitinho as do marqueteiro e modificar seu jeito de comunicar, o general imagina que os problemas estarão resolvidos. Engano. O erro não está no invólucro, mas no conteúdo. Ninguém está incomodado pela silhueta do homem nem pela impostação de sua voz. O que encoleriza são as enormidades que profere.

O pior vem agora. Markinhos, o marqueteiro político contratado por Pazuello, é conhecido pelo perfil beligerante e pelas propostas belicosas. Tentem imaginar o opulento ministro-júnior soltando suas frases sem pé nem cabeça, porém agora num estilo guerreiro, enérgico, agressivo. Aí sim, ele periga afundar de vez.

Onomástico
Pazuello é um sobrenome de evidente origem ibérica. Na língua galega, falada nas províncias do noroeste da Espanha, a raiz latina Palatium evoluiu para pazo, que equivale a nosso paço. Designa um solar, uma casa suntuosa.

Pazuello seria, pois, o diminutivo de pazo = um pequeno solar, um palacete. O nome é curiosamente de formação híbrida. Embora o núcleo seja galego, o sufixo uello é castelhano legítimo. Em galego, faz-se o diminutivo com o sufixo iño, que corresponde a nosso inho. Portanto, seria de esperar um Paziño (Pazo + iño).

Híbrido ou não, neste ponto, surge um problema. O sobrenome é raríssimo. Tão raro que, vasculhando a lista telefônica da Espanha inteira, não se encontra ninguém que o ostente.

No entanto, ele aparece no Dicionário Sefaradi de Sobrenomes, obra compilada por Paulo V. Faiguenboim & alia, ao lado de variantes tais como Pazuelo (com um L só) e Pazuelos (com S no final).

Sefaradis são os judeus espanhóis. Eles foram expulsos do país em 1492 pelos reis católicos, o que explica o desaparecimento do nome na Espanha. É concebível que o general seja descendente de uma dessas famílias forçadas ao exílio quinhentos anos atrás.

Imbecil

José Horta Manzano

O adjetivo imbecil existia em latim sob a forma imbecillus. Na língua dos romanos, seu significado era diferente do que lhe atribuímos hoje. Era usado para indicar fraqueza de corpo. Em vários textos de Cícero, o adjetivo aparece como qualificativo de homem: homo imbecillus = indivíduo fisicamente diminuído.

É daquelas palavras órfãs que não parecem pertencer a nenhuma família. Sua origem é controversa. Alguns cogitam que talvez pudesse ser formada pela partícula in + becillum, uma forma alterada de bacillum, diminutivo de baculum (bastão). Se assim fosse, a palavra imbecil evocaria a imagem do indivíduo que se move apoiado num bastão. Apesar de simpática, a explicação não é geralmente aceita.

As principais línguas latinas utilizam o adjetivo. Até por volta de 250 anos atrás, ele conservava o valor de fraco de corpo. Aos poucos, foi adquirindo o sentido de fraco de inteligência.

Dado que o burro é um animal simpático (e não mais burro que uma galinha, um sapo ou uma girafa), me dói chamar de burro um indivíduo pouco inteligente. Prefiro imbecil, termo que evoluiu até tornar-se hoje perfeito para designar pessoa com forte déficit de inteligência.

Dois dias atrás, pela enésima vez, doutor Bolsonaro avisou que não tomará a vacina contra a covid, seja ela qual for. Logo ele, que tem a pretensão de tornar-se nosso guia!

Seu universo mental é limitado e não lhe permite enxergar a realidade como ela é. Não se dá conta de que sua ostensiva resistência à vacinação vai influenciar boa parte dos cidadãos, que acabarão fugindo da imunização. E os não-vacinados continuarão a infectar-se entre si, prolongando a duração da pandemia. E a economia continuará sem fôlego. Ora, prosperidade econômica é a chave da reeleição! Mas ele não consegue enxergar isso.

O homem está preso a meia dúzia de ideias que vem ruminando há 30 ou 40 anos. São essas e mais nenhuma.

Acredita ter vocação para ditador e acalenta a tola esperança de que o povo se levante numa guerra civil e o consagre como defensor perpétuo da nação. Isso explica sua fixação em distribuir armas à população.

Homem de poucas letras e de cultura geral indigente, tem visão fragmentária do mundo exterior.

De alguma viagem que possa ter feito no passado, reteve algumas imagens que gostaria de aplicar ao Brasil. Isso explica:

  • 1) sua insistência em tranformar santuários marinhos em resorts tipo Cancún;
  • 2) sua vontade de fazer ancorar na minúscula ilha de Fernando de Noronha naves de cruzeiro que lá despejarão 6000 passageiros de uma vez;
  •  3) sua afirmação de que ‘na Europa, não há mais florestas’, quando se sabe que a cobertura vegetal do território europeu é bem superior à do Brasil – excluída a selva amazônica.

Para falta de cultura, existe remédio. Se se esforçar, o indivíduo pode até cultivar o espírito através do estudo. Lula da Silva, um dos predecessores de Bolsonaro, é, de certa forma, um exemplo. Mesmo tendo chegado à Presidência ignorantão e não tendo estudado nada durante o mandato, manteve o espírito aberto e conseguiu absorver algum conhecimento. Deixou a Presidência, digamos, menos chucro.

Já o déficit de inteligência é mais cruel. É o caso de nosso doutor. Chegou à Presidência ignorantão e de lá há de sair ignorantão. É a sina dos imbecis.

Realidade paralela

José Horta Manzano

Ao subir à Presidência, doutor Bolsonaro carregou consigo um apanhado de indivíduos. À medida que se passaram os primeiros meses de mandato, como é natural, os elementos que não afinavam com o grupo foram sendo expurgados. Inversamente, como ímã poderoso, o núcleo atraiu adeptos de última hora.

O curioso é que – não, curioso não é adjetivo que caiba aqui; vamos recomeçar. O afligente é que os indivíduos expelidos eram justamente os que, por seu histórico profissional, garantiam seriedade e profissionalismo ao conjunto. Dizem que foi o próprio chefe a expulsá-los, por se sentir ofuscado por eles.

Dessa acomodação, sobrou um conjunto com características surpreendentes. Por um lado, cresceu como se tivesse tomado fermento. Entre assessores de primeiro, segundo e terceiro escalão, são milhares de apadrinhados instalados em sinecuras, a sugar o dinheiro suado da população. Por outro, o grupo é heterogêneo, com gente de variadas origens, unidos por uma característica comum: o descolamento da realidade nacional e a subserviência ao padrinho.

Mais e mais, se tem qualificado o descolamento em que esse pessoal vive de realidade paralela.

Será?
Realidade paralela, expressão traduzida diretamente do inglês, tem sido geralmente aplicada à física quântica, onde convive com noções distantes do homem comum: antimatéria, violação de simetria, universo espelho.

Não me parece expressão adequada para descrever o comportamento dos apadrinhados do doutor. Duas linhas (ou dois pensamentos, ou duas ideias, ou duas vidas) paralelas são aquelas que caminham lado a lado, equidistantes, regulares. Não são esses os modos de nosso presidente nem do cardume que lhe faz escolta. Realidade paralela é conceito elevado demais, inalcançável para aquela gente terra a terra.

A irregularidade ziguezagueante do percurso de todos eles faz mais lembrar um bate-cabeça ou um barata-voa. Se se fizer questão de usar a palavra realidade, que se diga que vivem numa realidade divergente. É bom lembrar que divergir é o oposto de convergir.

O propósito de um grupo coeso, coerente e bem intencionado é sempre a convergência em direção a um objetivo comum. No entanto, a característica marcante de nossos dirigentes é a divergência escancarada, em que interesses pessoais passarão sempre à frente dos interesses do Estado.

Cada um vive a própria realidade, que, de paralela, não tem nada. Essa multiplicidade de interesses pessoais dissonantes, cada um apontando numa direção diferente, resulta em realidades divergentes.

Cada um tem a sua, e vamos em frente, que Deus ajuda. E a pandemia que se lixe.

Embaixador não grato

José Horta Manzano

De onde vem a palavra?
Nosso vocábulo embaixador tem origem um tanto controversa. Os estudiosos se dividem em duas correntes.

Alguns acreditam que a palavra embaixada provenha de uma voz latina ambaxus, que significa servo, servidor.

No entanto, a maior parte dos etimologistas considera que embaixada seja de origem germânica. É parente do termo Amt, que, no alemão moderno, equivale ao bureau francês e ao office inglês. Em português, Amt se traduz por repartição, secretaria, departamento – dependendo do contexto.

Seja qual for a origem, embaixada e embaixador traduzem uma noção de serviço prestado. De serviço prestado ao público, mais precisamente.

Embaixador nos tempos de antigamente

Como atiçar (mais) uma crise
Neste domingo, vazou a notícia de que doutor Bolsonaro proibiu seus ministros de entrarem em contacto com o embaixador da China no Brasil.

Está, portanto, vedado a todos os ministros, assessores e auxiliares do presidente receber o embaixador, visitá-lo ou comunicar-se com ele por qualquer meio que seja. Como já explicou uma vez nosso ministro da Saúde, “um manda e outro obedece”. É de crer que, também desta vez, a ordem presidencial será cumprida. Sem um pio.

É de conhecimento de todos que nosso presidente é ignorante em matéria de relações internacionais. Só que tem uma coisa: ainda que sejam ignoradas, regras são regras e continuam a existir.

A função diplomática é carregada de simbologia. Recusar-se a receber o representante oficial de um país estrangeiro é ofensa grave feita àquele país. Enquanto o desplante é obra de um dos bolsonarinhos arteiros, sempre se pode pôr na conta de desvario de adolescente desocupado. Quando, porém, a afronta vem do presidente em pessoa, a coisa sobe de patamar e se torna oficial.

Se o embaixador está em Brasília a representar seu país, é porque foi acreditado pelo governo brasileiro, ou seja, recebeu o que em francês diplomático se diz “agrément”.

Ao rejeitar esse senhor e privá-lo do exercício de suas funções, o governo brasileiro o está descredenciando, o que equivale a declará-lo persona non grata (= pessoa indesejável), um convite a deixar rapidinho o território nacional.

Talvez o governo chinês, que é pragmático, consinta em engolir (mais) essa cobra. Mas pode até ser que estejam de paciência esgotada. Se reagirem expulsando o embaixador do Brasil em Pequim, que ninguém se surpreenda.

Gênero das frutas

José Horta Manzano

Você sabia?

Em nossa língua, com uma única exceção, nome de árvore tem o mesmo gênero do nome da fruta. Assim, temos:

a banana   a bananeira
o mamão    o mamoeiro
a maçã     a macieira
o abacate  o abacateiro
a cereja   a cerejeira
o pêssego  o pessegueiro

A única exceção é esta:

o figo     a figueira

Coronavoucher

José Horta Manzano

O Instituto PoderData publica sua mais recente pesquisa sobre a percepção do eleitor quanto ao trabalho de doutor Bolsonaro. A opinião de 2500 cidadãos representativos da população brasileira, distribuídos nas 27 unidades da Federação, é incontestável: a popularidade do doutor cai. As curvas se cruzaram, mostrando que a desaprovação (48%) supera a aprovação (42%).

Analistas atribuem a queda de aprovação a diversos fatores. Entre eles, está a chegada da vacina, fato que contraria a postura de um Bolsonaro descaradamente hostil, sobretudo em se tratando da vacina chinesa. O crime do Carrefour é outro acontecimento que, tendo em vista o silêncio do presidente, convence o eleitor de que o governante é racista, ensimesmado e distante do país real. Por último, o mais importante: o fim anunciado do coronavoucher.

O fracasso de quase todos os candidatos a prefeito apoiados pelo presidente já era sintoma do declínio de sua influência – se é que um dia ela foi benéfica. Ao fim e ao cabo, vai ficando claro que a subida do nível de aprovação é que foi o ponto fora da curva. Bolsonaro está retornando ao fundo das estatísticas. A Lei da Gravitação, cláusula pétrea da Constituição do planeta, ensina que tudo aquilo que sobe acaba descendo um dia.

Coronavoucher
Quando a situação aperta e o fim do mês está longe, o funcionário pede um vale por conta do salário. O passado recente da nação está salpicado de outros vales: vale-transporte, vale-gás, vale-brinde, vale-refeição.

Curiosamente, na hora de dar nome ao auxílio especial ligado à epidemia, poucos disseram vale-corona. A expressão que se firmou foi coronavoucher. Minha hipótese é de que o termo coronavírus, já no ouvido de todos, terá contaminado.

Voucher era um verbo do francês medieval, usado em textos administrativos. Significava chamar, dar nome a e tinha as formas vochier/vogier. Nos anos 1300, atravessou o Canal da Mancha e foi enriquecer o inglês.

É interessante que o termo desapareceu da língua francesa, enquanto permanece vivíssimo em inglês. O pai de família é o verbo latino vocare. Em nossa língua, temos numerosos descendentes: vogal, vocábulo, vocação, advogado, convocar, evocar, invocar, provocar, revogar, equívoco, provocação. Há inúmeros outros.

Covid e as novas expressões

José Horta Manzano

Dos seres humanos que estão hoje vivos, nenhum jamais presenciou pandemia com as dimensões da atual. Houve a Gripe Espanhola de 1918-1919(*), é verdade. Mas os que, à época, estavam em idade de entender já se foram.

Nestes cem anos, a humanidade fez progressos incríveis. De uma época de comunicações precárias, quando nem rádio havia, passamos a uma fase buliçosa, em que todos falam com todos, em que tribunais informais berram em silêncio nas redes sociais, em que cada indivíduo condena ao fogo do inferno quem não lhe for simpático. Será que a precariedade antiga era melhor que a agitação de hoje? Taí uma boa pergunta pra futuros filósofos.

A pandemia gerou realidades novas. E foi preciso dar nome a elas. Rápidos no gatilho, anglo-saxões mergulharam na língua riquíssima e maleável que têm. E de lá sacaram nome perfeito pra cada fato novo. Agências de notícias traduzem despachos redigidos em inglês. Vai daí, a urgência (e a preguiça) optam pela facilidade: alguns termos são transplantados com raiz e tudo. São adotados como eram no original.

Há casos em que, para descrever a mesma realidade em nossa língua, precisaria de uma linha e meia, o que complica a vida; quando é assim, o remédio é adotar o termo original. Há outros casos, porém, em que basta um pouco de imaginação para encontrar termo equivalente. Vamos ver.

by Emmanuel Chaunu (1966-), desenhista francês

Homeschooling
Já falei sobre este termo em outro post. A mim parece que escola em casa é tradução perfeita. Tem a vantagem de evitar o vexame de pronunciar palavra inglesa com sotaque estrangeiro. Romi-iscúlim, por exemplo.

Coronavirus
Essa questão está resolvida. Ficou combinado adotar a forma inglesa com um acentozinho pra dar um ar tropical. Em vez de vírus corona, que tem mais ares nossos, vamos de coronavírus mesmo.

Social distancing
Fixou-se a expressão distanciamento social. Errado, não está. Eu teria adotado distanciação social. Distanciação é genuína palavra nossa, já dicionarizada. Apresenta a vantagem de ser raramente utilizada, excelente argumento pra servir de nome para um conceito novo.

Self isolation
Não tenho visto esta expressão utilizada no Brasil, nem no original, nem traduzida. Talvez o conceito esteja sendo confundido com lockdown (confinamento). Tem a ver, mas é mais específico. Está em auto-isolamento o cidadão que se isola por conta própria, sem ser obrigado pelas autoridades.

Key worker (ou keyworker)
Tendo em vista a balbúrdia em que se transformou o enfrentamento da pandemia no Brasil, essa expressão pouco aparece na mídia nacional. Key workers são os funcionários essenciais, os únicos autorizados a circular nas ruas em caso de confinamento rigoroso. São funcionários de hospital, supermercado, transporte em comum, corpo de bombeiros, polícia & assemelhados.

Protective distance
Não vi ninguém cair na tentação de dizer “distância de proteção”. A expressão protective distance vem sendo corretamente traduzida por distância de segurança.

Home office
Não resta dúvida: o original inglês é pra lá de chique. Dá impressão de que a gente está no 85° andar de uma torre envidraçada, apreciando a paisagem do Rio Hudson. Mesmo assim, ainda prefiro nosso teletrabalho, uma expressão que dá a ilusão de que nossa língua aboliu aquele castigo de Deus que é o hífen. Quem diz home office deixa a impressão de ter trazido o escritório para casa. Já o teletrabalho separa bem as coisas: o escritório e a residência ficam cada um no seu lugar; o funcionário é que espicha os braços, faz o trabalho que tem a fazer, depois encolhe os braços e volta pra casa. Há ainda a possibilidade de utilizar trabalho remoto, expressão a ser usada com cuidado, visto que remoto é termo ambíguo, que pode também significar antigo, remoto no tempo.

Lockdown
A perfeita tradução de lockdown é confinamento. Informa que o indivíduo (ou a população inteira) está obrigado, queira ou não, a ficar trancado num determinado espaço confinado. Antes do covid, o termo era usado em tempo de guerra ou para prisioneiros que, em caso de mau comportamento, são condenados a passar um tempo na solitária. Quem está sob lockdown fica confinado. Que diga lockdown quem quiser; mas, se for pra pronunciar “loquidáũ”, recomendo adotar confinamento mesmo. Soa mais natural.

(*) A ‘Espanhola’ não era espanhola. Levou esse nome porque, naqueles tempos de guerra mundial, a Espanha era um dos raros países em que informações sobre a epidemia puderam ser livremente publicadas. Fora daquele país, ninguém falava da doença. Com isso, fixou-se a informação falsa de que a doença era espanhola. Veja o alcance (secular) que um fake news pode ter!

Causada por um vírus da família H1N1, a gripe fez estrago feio. Segundo o Instituto Pasteur, o saldo de mortos situa-se entre 20 milhões e 50 milhões. Avaliações mais recentes chegam a mencionar 100 milhões de vítimas, ou seja, um morto para cada 20 habitantes do planeta. Uma enormidade.

Problema de tradução

José Horta Manzano

Ah, ninguém segura esses estagiários que escolhem facilidade aparente na hora de traduzir!

Este blogueiro é do tempo em que, quando alguém recebia violento golpe emocional, ficava arrasado. Podia também dizer que tinha ficado abalado ou abatido.

O que fica devastado é um prédio atingido por um míssil, uma cidade após um terremoto, um pasto depois do estouro da boiada. Gente devastada? Não é comum.

Segundo turno curto?

José Horta Manzano

Chamada Folha de São Paulo

Com referência ao segundo turno de votação, já li em numerosos veículos que será “mais curto”, “extremamente curto”, “o mais curto da história”. Bobagem.

Os eleitores depositaram o voto na urna dia 15 de novembro: esse foi o primeiro turno da eleição. Primeiro e único em quase todos os municípios. Naqueles poucos que se enquadram nas condições fixadas pela lei, os eleitores estão convocados a se dirigirem à urna de novo, dia 29 de novembro, para um segundo turno de votação.

A realização de um segundo turno de votação já entrou nos hábitos. O que nunca se viu antes é um intervalo tão curto entre o primeiro e o segundo.

Bobeia quem diz que o segundo turno “será mais curto”. O que será mais curto é o intervalo entre as votações, abreviado de 4 para 2 semanas.

Vox populi

José Horta Manzano

Acontece com todos os personagens importantes. Quando chegam lá, atraem inevitavelmente uma tropa de aduladores, cuja ocupação principal é achar graça em qualquer bobagem que o chefe disser, achar genial qualquer ideia que ele tiver, aprovar toda medida que ele decidir tomar. Isso cria uma realidade paralela, tão forte, que o chefe acaba acreditando ser onipotente e estar acima do bem e do mal.

Já tinha ocorrido com Lula da Silva. Agora, não foi diferente com Bolsonaro. Bobinho, acreditou num carisma e num poder que não tinha, e se expôs durante a campanha eleitoral para as municipais. Não precisava, que era melhor ter-se preservado. Mas como ninguém teve a coragem de avisar, fez.

Deu no que deu. O que antes estava no terreno das suposições, agora tem o peso da vox populi – a voz do povo. As urnas falaram, como diria o outro. E não tem como fingir que não viu. O resultado está aí pra quem quiser ver.

Assim como o veredicto deixa um presidente diminuído, o lulopetismo também sai das urnas achatado, desmilinguido e sem gás. A situação é pra lá de péssima para ambos, Bolsonaro e Lula.

Lula se dá conta – se é que ainda não tinha caído a ficha – de que seu tempo passou. O que está feito, está feito. Mais não haverá. Quanto a Bolsonaro, assiste ao desmanche do (falso) enredo de ser ele o bastião que vai purificar o Brasil, livrando-nos do petismo.

Por um lado, o PT já não é ameaça para ninguém. Por outro, a extrema esquerda representada pelo PSOL desponta como força ascendente. E os temidos psolistas surgem nos braços do povo, situação espinhosa para Bolsonaro.

O ‘centrão’, que de bobo não tem nada, já se deu conta da nova paisagem. Num estalar de dedos, podem todos saltar fora do bonde e deixar o presidente falando sozinho. Se isso ocorrer, a cotação do doutor no mercado vai cair. Será caminho espinhoso que pode levar ao encurtamento de seu mandato.

Vox populi
É expressão latina que se traduz por voz do povo. Aparece já na Bíblia mas, como toda citação das Escrituras, tem de ser tomada com precaução. Termos bíblicos atravessaram muitos séculos e foram objeto de muitas traduções, às vezes malfeitas. De todo modo, o original não teria o significado que lhe atribuímos hoje.

A expressão completa utilizada atualmente é: Vox populi, vox DeiA voz do povo é a voz de Deus. É o enunciado sobre o qual repousa a noção de democracia.

Mais irreversível?

José Horta Manzano

Irreversível é qualidade do que não pode ser revertido. Dizer «mais irreversível» ou «menos irreversível» equivale a dizer «mais grávida» ou «menos grávida». É tolice. Irreversível, assim como grávida, é situação absoluta, suficiente a si mesma. Assim como ninguém pode estar ‘meio grávida’, nenhuma situação será ‘meio reversível’. Ou é ou não é. Ou está ou não está.

O general quis dizer que a vitória de Biden está cada vez mais difícil de reverter ou cada vez mais próxima da irreversibilidade. Assim que se tornar irreversível, pronto, acabou, não volta mais.

Na expressão «mais irreversível», o ‘mais’ sobra. Quanto à vitória de Mr. Biden, o general cochilou, mas todos entendemos. E esperamos que ele tenha razão. Let’s keep fingers crossed!

Inefável presidente

José Horta Manzano

Pessoas públicas – em especial as que ocupam cargos majoritários, como prefeito, governador e presidente – vivem sob os holofotes. É natural. Se quisessem passar a vida incógnitos e abrigados pela sombra discreta de uma mangueira, não se candidatariam.

Uma vez eleitos, conquistam privilégios e mordomias que não são accessíveis à plebe. Em compensação, sua existência perde a privacidade garantida aos demais mortais. Daí dizermos que são ‘pessoas públicas’. Antigamente bastava dizer homens públicos, mas a a linguagem politicamente correta de hoje quer que se mencionem todos os gêneros, sem deixar nenhum de fora; a palavra ‘pessoa’ cumpre a exigência.

Personagens públicos têm agenda pública, são vigiados da manhã à noite, seus deslocamentos são acompanhados. Até suas férias são esquadrinhadas. Ainda que andem na linha, serão analisados e criticados. Se saírem do bom caminho, então, serão alvo de uma torrente de críticas, que podem tomar o rumo perigoso da destituição do cargo.

Políticos mais espertos, que conseguem ser discretos, escapam desse olhar desconfiado e inquiridor. Já os outros, estabanados, se expõem demais da conta. Nesta última categoria, está nosso inefável(*) presidente da República.

Se fizesse um esforço pra conter a língua, seus defeitos, que são incompatíveis com o exercício do cargo, ficariam na sombra. Ao não se dar conta disso, o moço tropeça em perna de cadeira, procura casca de banana pra escorregar, se aventura de chinelão em solo ensaboado. Resultado: dia sim, outro também, tropica. E se esborracha que dá gosto.

Idade Média: vassalo prestando juramento a seu suzerano.

Com a perda de seu mentor americano, ficou ‘aborrecido’ – é o que disse a mídia. Tenho a impressão de que o buraco é bem mais profundo que um simples aborrecimento. Para doutor Bolsonaro, a queda de Donald Trump é a notícia mais pavorosa que podia ter ouvido. Ele há de estar se sentindo muito, mas muito, deprimido.

Basta uma rápida comparação para ver que, entre os dois, há numerosos pontos comuns. ‘Falem bem, falem mal, mas falem de mim’ – é o lema de ambos. Os dois não toleram ser contraditos; assessor que não lhes disser amém será demitido. Em matéria de política externa, nenhum deles tem a mais remota ideia do que seja o frágil equilíbrio entre as nações; vai daí, tratam o assunto a bofetadas. Têm ambos a desagradável tendência a só falar para seus devotos, alheios ao fato de terem de governar todo um país. Poderia enfileirar mais uma dúzia de convergências entre eles.

Há, no entanto, um ponto em que divergem: é o olhar que cada um dirige ao outro. Trump sempre guardou altivez no trato com Bolsonaro, mostrando pouco-caso pelo brasileiro e deixando claro quem é que manda no pedaço. Já nosso presidente visitou o colega americano quatro vezes, sendo que, na última delas, ficou hospedado ‘de favor’ na propriedade particular do anfitrião – um cúmulo de despudor. Trump nunca se dignou de vir ao Brasil.

Doutor Bolsonaro sempre se conformou em ocupar posição submissa, de admirador servil, de lambe-botas do americano. Todos se lembrarão do dia em que se fez fotografar quando assistia, orgulhoso, a uma aparição do ídolo na televisão.

É por isso que, muito mais que ‘aborrecido’, Bolsonaro há de estar deprimido, aterrorizado, catastrofado. Como diria o outro, sente-se perdido como cãozinho caído do caminhão de mudança. Deve estar pensando: ‘Se aconteceu com ele, pode acontecer comigo também’. Essa ameaça é de tirar o sono.

Bolsonaro não tem jeito, que fazer? Como dizia o Barão de Itararé, «de onde menos se espera, daí é que não sai nada».

(*) Inefável é aquilo que não pode ser descrito com palavras. O termo é perfeitamente adequado a nosso presidente. A descrição de seu comportamento e de suas falas não cabe em palavras. Embora extenso, o vocabulário da língua portuguesa é finito; a imbecilidade do doutor, infelizmente, é infinita.

O termo inefável pertence a vigoroso tronco com muitas ramificações. Provém do verbo latino fari, que significa falar, dizer, conversar. Além de inefável (que não pode ser descrito com palavras), a família tem outros membros em nossa língua: afável (pessoa de conversa cortês), fama / famoso / famigerado (coisa ou pessoa falada), infante/infantil (que ainda não fala), ênfase (conceito proferido com destaque), fábula (narração inventada), fonético (que é próprio da voz), difamar / infame (falar mal, mal falado). A lista não é exaustiva.

Derrota concedida

José Horta Manzano

Uma expressão estrangeira mal traduzida é um problema. Se ela for repetida e repetida, dia após dia até a exaustão, torna-se um problemão.

Donald Trump, o irritante personagem que (ainda) preside o Executivo americano, tanto fez, que acabou perdendo uma reeleição que parecia uma barbada.

Nos EUA, faz duzentos anos que o candidato perdedor, por mais grosseiro que seja, apeia do cavalo, deixa de lado seus modos de caubói e cumprimenta o vencedor, desejando-lhe boa sorte.

Mas Trump é mais caubói que os outros. Além de tosco, mostra ser pouco inteligente, ao não se dar conta da imagem que deixará nos livros de história. Recusa-se a cumprimentar o vencedor.

Todos os artigos que li na mídia dizem que ele se recusa a «conceder a derrota». Bobeiam feio.

Em nossa língua, o verbo conceder não tem valor idêntico ao que tem em inglês. Não há lógica em dizer “conceder derrota”. O original «to concede defeat» será traduzido por reconhecer a derrota.

Quem preferir, pode usar também: admitir a derrota ou assumir a derrota. Ou entregar os pontos, metáfora esportiva que diz a mesma coisa.

O fim

José Horta Manzano

A agilidade da informação, porporcionada pela internet, é responsável por profundas mudanças no comportamento dos indivíduos e na organização da sociedade.

É verdade que a Revolução Francesa já tinha mostrado o caminho. Só que não é fácil promover mudança quando se vive sob regime repressivo. Durante os séculos 19 e 20, praticamente todos os povos do planeta viviam sob regime autoritário – uns mais, outros menos. Nas Américas, com exceção dos EUA, golpes de Estado e ditaduras estavam na ordem do dia. Na Europa, o tom foi dado por dirigentes de mão de ferro, como Napoleão, Salazar, Stalin, Hitler, Mussolini, Franco, pra citar os mais importantes.

Atualmente, a impressionante penetração da informação, se não eliminou, pelo menos reduziu o risco de ruptura das instituições e de surgimento de salvadores da pátria.

A queda de Donald Trump, derrubado graças à resistência da grande imprensa e à circulação da informação pelas redes sociais, serve de alerta para todos os candidatos a ditador, sejam eles quais forem. Se caiu Trump – figura marcante que exalava autoconfiança e infundia segurança –, qualquer um pode cair.

Restolho

A derrota do exótico dirigente americano deve-se, sim, ao vigor das instituições de seu país; mas teria sido praticamente inviável se ainda estivéssemos meio século atrás, num tempo em que a informação circulava a passo de tartaruga.

É um alívio constatar que o surgimento desse tipo de personagem mal-intencionado está ficando cada dia mais difícil. Quanto mais adiantado for o país, menor será o risco. Trump já se foi, assim como o italiano Salvini já tinha ido. A Rússia e a China não têm jeito. São países que nunca conheceram a democracia; vai demorar.

Aqui no Brasil, sobrou um restolho(*). O risco de uma guinada autocrática desse estropício fica cada dia mais distante. Aos poucos ele vai se esbagaçar. Com o passar dos meses, vai revelando ser apenas um péssimo governante que faz malabarismos para escapar da cadeia. Já vimos esse filme e sabemos como acaba. The End.

Nota 1
(*)Restolho, palavra pouco utilizada atualmente, aparece há mil anos em textos portugueses. É termo ligado à agricultura, atividade que, a nossa civilização urbana, parece distante. Restolho é a palha seca que sobra no campo depois de terminada a ceifa. Vem de um hipotético latim vulgar *restuculum, através do espanhol restojo.

Foi usada aqui em sentido metafórico com o sentido de o resto, o que não tem serventia, o que não serve mais pra nada. É sinônimo de rebotalho.

Casa com telhado de colmo (restolho)

Nota 2
Não é verdade que restolho não sirva mais pra nada. Durante milênios, serviu para cobrir a casa dos camponeses. Ainda hoje, há muito cottage e muito chalé charmoso coberto com essa palha. Na função de telhado, o restolho se diz colmo.

Quando foi que morreram os algarismos?

José Horta Manzano

Tudo aquilo que nasceu há de morrer um dia. Isso vale não só para seres que respiram, mas também para criações do intelecto.

Palavras, por exemplo, são criadas para designar fatos humanos. Na medida que esses fatos continuam a existir, elas permanecem vivas; assim que o fato sai de cena, elas tendem a desaparecer. Se não desaparecem, ficam guardadas numa gaveta tão funda que ninguém mais lembra de espichar a mão pra encontrá-las.

Uma palavra que sempre me pareceu simpática é algarismo. Talvez os mais jovens nem saibam o que significa. Algarismos são a base da representação aritmética. São dez sinaizinhos que se combinam para formar todos os números. O número 12, por exemplo, é formado por dois algarismos: o 1 e o 2. O número 79 é composto pelos algarismos 7 e 9. O jovem distinto leitor já deve ter entendido: estou falando do que hoje se conhece por dígito.

Quando frequentei a escola, faz muito tempo, algarismo se chamava algarismo. A palavra dígito não passeava pela linguagem do dia a dia. Fiquei curioso em saber quando e por que uma substituiu a outra. Andei pesquisando os jornais dos anos 1950, 1960 e 1970 e encontrei.

Até fins da década de 1960, dígito praticamente não aparece, a não ser como palavra técnica ou como substituto chique para dedo. No finzinho da década de 60 e, sobretudo, na década seguinte, há uma ‘explosão digital’, se assim me posso exprimir. Menções do termo dígito se decuplicam, marcando o ponto em que a curva da história da língua virou a seu favor e mandou algarismo para escanteio.

A partir de 1970, os algarismos praticamente desapareceram. Chego a me perguntar se um jovem medianamente instruído conhece hoje o significado dessa palavra. Me pergunto também como é que se chamam hoje os algarismos romanos. Serão dígitos romanos?(Cartas para a redação, por favor.)

Anúncio de calculadora publicado em set° 1978

Como nada acontece por acaso, tentei descobrir qual foi o responsável pela substituição das palavras. Acho que descobri. No finzinho da década de 1960, como resultado da miniaturização, começaram a aparecer no mercado brasileiro as primeiras calculadoras de bolso. Substituíam as antigas, de mesa, mecânicas e pesadonas. Na época, o preço era bastante elevado; nesse sentido, embora fossem ‘de bolso’, essas calculadoras pesavam no bolso.

Nos jornais, principalmente aos domingos, aparecia anúncio. Entre as qualidades da nova maravilha, estava o número de algarismos que a tela comportava – apresentados como dígitos, num possível decalque do original inglês.

Essa é a irônica história de como a maquineta que enfiou a matemática no bolso de todos conseguiu aposentar os algarismos e substitui-los por dígitos. Sabendo que dígito vem do latim digitus, que significa dedo, é permitido dizer que a ultramoderna maquininha reintroduziu o velho cálculo ‘com os dedos’.

Tudo passa
O tempo corre
Passa o tempo
E tudo morre

Banguecoque e Estugarda

José Horta Manzano

«A firma me propôs um estágio de três meses em Amesterdão. Fui e gostei muito de lá. Aproveitei para viajar um pouco. Conheci Copenhaga, Helsínquia e até Bordéus. Uma viagem e tanto.»

O enésimo acordo ortográfico que entrou em vigor faz alguns anos se propunha a encurtar a distância entre a escrita lusa e a nossa. Se o vão era de quilômetros, o acordo encurtou alguns centímetros, se tanto. O grosso da questão continua aberto.

O Acordo Ortográfico de 1990 é, a meu ver, o menos feliz de todos os que já conhecemos nos últimos cem anos. Incomodou a todos, sem resolver o problema de ninguém. Serviu, isso sim, para acentuar a insegurança ortográfica que nos persegue desde sempre. Os hífens, então, são uma catástrofe. Os que escrevem com frequência, como é meu caso, têm de conviver com um dicionário aberto e pronto a ser consultado a cada instante. Uma chateação.

Bem, desabafo feito, gostaria de ressaltar uma discrepância entre os falares de lá e de cá. Trata-se de certas cidades estrangeiras cujo nome se fixou de maneira diferente em Portugal e no Brasil. Pelo costume luso, sempre se escreveu Nova Iorque, enquanto, no Brasil, usa-se Nova York. No fundo, onde está o problema, se todos entendem?

Conheça Estugarda!

O exemplo que pus no cabeçalho deste artigo é uma amostra do nome que os portugueses costumam dar a cidades pra lá de conhecidas. São diferenças que resistem a todo engessamento produzido por acordos ortográficos.

Vai aqui uma lista longe de ser exaustiva:

Portugal       Brasil
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Telavive       Tel Aviv
Banguecoque    Bangkok
Orleães        Orleans
Nova Orleães   New Orleans
Amesterdão     Amsterdã
Nova Iorque    Nova York
Bilbau         Bilbao
Helsínquia     Helsique
Zagrebe        Zagreb
Copenhaga      Copenhague
Nuremberga     Nuremberg
Moscovo        Moscou
Marraquexe     Marrakech
Bordéus        Bordeaux
Estugarda      Stuttgart

Tanto lá quanto cá, alguns nomes, por inusitados, surpeendem. Falta de hábito, nada mais. No final, a gente acaba se acostumando.