Serviço Secreto de Trump

José Horta Manzano

Me pareceu curioso o artigo da Folha que trata de um “Serviço Secreto de Trump”. Escrito dessa maneira, com maiúsculas, transmite a ideia de que há realmente uma corporação cujo nome oficial é “Serviço Secreto”, que pertence a Donald Trump. Esquisito.

Dizem que o serviço é “secreto”, no entanto, os agentes são inconfundivelmente caracterizados. Assim que Trump foi baleado, em poucos segundos surgiu meia dúzia de agentes de 1m90 de altura, todos devidamente paramentados com terno preto, óculos escuros, fone de ouvido com fio entrando pelo colarinho e cara de poucos amigos. É isso ser agente secreto? No meio daquela multidão colorida, todos vestidos “à la vonté” e carregando um papel com slogan, esse Serviço Secreto é desmascarado fácil fácil.

Quatro presidentes dos Estados Unidos foram assassinados durante o mandato: Lincoln (1865), Garfield (1881), McKinley (1901) e Kennedy (1963). Diversos outros presidentes sofreram atentado. Entre os mais recentes, foram vítimas de tentativa de assassinato os seguintes: Richard Nixon, Gerald Ford (2 vezes), Jimmy Carter, George Bush pai, Bill Clinton (5 vezes), George Bush filho (2 vezes), Barack Obama (8 vezes), Donald Trump (3 vezes) e Joe Biden.

O distinto leitor e a adorável leitora já se deram conta de que a função de presidente dos EUA traz fama e prestígio, mas, por seu lado, é emprego de alto risco. Os eleitos deveriam exigir adicional de periculosidade, como os bombeiros e os limpadores de vidraças de edifícios altos.

Não encontrei estatísticas elencando os atentados cometidos contra candidatos à presidência daquele país. Deve ter havido numerosos. Com razão, o mundo está hoje chocado com o que aconteceu com Trump. O fato de o atentado ter sido filmado – com cores, som e imagem – amplifica o acontecido e apressa a divulgação.

Mais que o Brasil, os Estados Unidos são herdeiros de uma história pautada pela violência armada. Nossa história também viu passarem desbravadores marchando a pé armados de bacamartes, mas a deles está coalhada de bandos a cavalo armados de rifles automáticos, como nos filmes de faroeste. É a violência potencializada, que acabou desembocando numa peculiar sociedade em que os cidadãos de bem levam uma arma à cinta. Nunca se sabe.

Todos os líderes mundiais se precipitaram para esconjurar o atentado sofrido por Trump. De Macron a Lula, de Milei a Xi Jinping, todos se mostraram indignados com o fato de ver conflitos de opinião resolvidos à bala. Esses pronunciamentos me pareceram, em grande parte, um concentrado de hipocrisia. Meio mundo gostaria que a bala que atingiu a orelha de Trump tivesse passado alguns centímetros mais à direita.

Esta não é, naturalmente, a opinião deste escriba. Estou só tentando adivinhar o sentimento de muita gente fina.

Assembleia Francesa: convivência forçada

Nouveau Front populaire = Bloco de esquerda
Majorité présidentielle = Partido macronista
RN et alliés = Agrupamento Nacional (extrema direita)

José Horta Manzano

As eleições passaram mas o caldeirão continua fervendo na França. Por causa das surpresas que só o sistema eleitoral desse país permite, o resultado deixou a todos boquiabertos. Todos, sem exceção, foi espanto total. Até diretores de institutos de pesquisa sentiram o baque.

Até sexta-feira passada, último dia de campanha, o jovem Bardella, presidente do Agrupamento Nacional (extrema direita), já ensaiava o discurso de futuro primeiro-ministro. Imagino até que já tivesse encomendado o terno para a tomada de posse, tão convencido estava de chegar lá rapidinho. Também, os institutos de pesquisa lhe davam corda: todos indicavam que ele e seu partido atingiriam fácil fácil a marca dos 249 deputados, contingente suficiente para garantir-lhe maioria absoluta na Assemblée.

No entanto, particularidades do sistema eleitoral francês permitem, com certo malabarismo, o erguimento de um cordão sanitário em torno de um partido que não se quer que vença. É, até certo ponto, um desvio de finalidade: induz-se o eleitor a votar contra o partido indesejado em vez de votar a favor do partido preferido. No Brasil, as duas últimas eleições presidenciais já nos tornaram peritos nessa forma de desvirtuar o voto.

O fato é que, quando a boca de urna foi anunciada, o espanto foi geral. Em vez de partido dominante, o Agrupamento Nacional ficou em terceiro lugar. Não foi nenhuma débâcle mas, para quem visava o topo do pódio, foi uma lavada. Com água fria.

Esse foi o tipo de eleição em que ninguém ganhou. Por mais que os barulhentos eleitores da esquerda batam três vezes no peito, subam em monumentos, pichem edifícios públicos e clamem vitória, não ganharam. Ganhar, quando se elegem os deputados, é conseguir metade dos assentos mais um. Ficaram longe disso.

A mesma coisa se pode dizer dos centristas (macronistas) e dos Le Pen (extrema direita). Nenhum deles ganhou. Dos 577 assentos da Assembleia Nacional, o bloco de esquerda ficou com 180 e a “macronia” garantiu 163. Para os ultradireitistas, sobraram 143 assentos. O restante se distribui, picado miudinho, entre a direita moderada e os partidos menores. Como se vê,estão todos bem distante da marca dos 50% do parlamento (289 assentos).

Que vai acontecer agora? No momento em que escrevo, ninguém é capaz de dizer com certeza. O presidente Macron não aceitou a demissão do atual primeiro-ministro. Ao contrário, solicitou-lhe que segure as rédeas por enquanto, despachando as miudezas do expediente até que os parlamentares mostrem ter entrado em alguma espécie de acordo.

De fato, do jeito que está, sem um grupo majoritário, o país fica ingovernável. No Brasil, estamos hiperacostumados a isso. Nosso sistema, por falta de um ou dois partidos dominantes, sobrevive à custa de coalizões. Por um lado, é uma saída para destravar o parlamento; por outro, o risco é que os deputados se sintam suficientemente fortes a ponto de cobrar “pedágios” do governo – por meio de emendas, por exemplo. A longo prazo, isso pode custar caro à nação.

Bem, eles, que são eurodescendentes, que se entendam. A Constituição Francesa impõe prazo mínimo de um ano entre duas dissoluções da Assembleia. Portanto, por um ano, a Casa não será dissolvida e a composição vai ficar como está. Não há outra saída: eles vão ter de se entender e formar uma coalizão para formar maioria estável.

É a melhor maneira de evitar chantagem parlamentar à brasileira.

A França e a extrema direita

Jordan Bardella
possível futuro primeiro-ministro da França

José Horta Manzano

Na Europa, enquanto a extrema direita obtinha sucesso em países pequenos e periféricos, o fenômeno não passava de pequeno incômodo aos olhos dos demais parceiros. Que Hungria ou Eslovênia tivessem um primeiro-ministro extremista, com ideias trancadas e obscurantistas, era realmente um problema menor. A força conjunta dos demais países era suficiente para dar-lhes um “cala a boca” na hora dos votos cruciais para o bom andamento da União Europeia.

Quando a epidemia extremista se estendeu à Itália, a Europa levou um susto e prendeu a respiração. Afinal, estamos agora falando de um membro importante, assinante do Tratado de Roma (1957), que serviu de base para a atual União. No entanto, depois de alguns meses no poder, Giorgia Meloni começou a dar sinais de um certo distanciamento da doutrina rígida de suas origens neofascistas. Não ordenou a expulsão de imigrantes nem renegou a ajuda à Ucrânia invadida, que eram os dois pontos que mais assustavam os governos parceiros.

Ontem à noite, domingo 30 de junho, o mundo ficou sabendo que, após o 1° turno das eleições legislativas, é a França que se encontra à beira de ter um primeiro-ministro e um governo de extrema direita. Desta vez, o susto é maior. Além de também ser membro fundador da União, a França é considerada, junto com a Alemanha, o motor da Europa. Potência econômica, diplomática, militar e nuclear, a França é incontornável entre seus vizinhos. A perspectiva de que o país tenha um governo extremista inquieta a todos.

No original, o partido de direita extrema de Madame Marine Le Pen se chama Rassemblement National. Não há tradução oficial em nossa língua. Para o termo “rassemblement”, tenho visto diversas versões na mídia: reunião, ajuntamento e reagrupamento são as mais frequentes. Quanto a mim, prefiro Agrupamento Nacional – é simples e diz o que tem de ser dito.

O miolo do pensamento dos extremistas de direita é sempre o mesmo: estão à cata do super-homem que venha salvar o povo e conduzi-lo a um futuro radioso. O inimigo varia conforme a época. Até a Segunda Guerra, o judeu preenchia essa pouco invejável condição de ser o culpado pela desgraça do país. Logo, a solução parecia simples: eliminando os judeus, os problemas nacionais desapareceriam.

Hoje, os extremistas de direita continuam tão antissemitas quanto sempre foram, só que já não é permitido exprimir essa tendência em público. Na Europa, em especial na França, o imigrante tomou o lugar do judeu. Trabalhadores originários do norte da África e da África Negra passaram a ser considerados culpados por todos os males da França.

Além de salvacionistas e racistas, os extremistas de direita são também isolacionistas. Está em seu programa político a retirada da França da União Europeia, o fechamento das fronteiras, o abandono do euro e a volta ao franco francês, a diminuição drástica das importações e o fechamento do país ao mundo.

Os franceses, ao votarem nos candidatos desse partido, parecem ter ficado loucos. Será que todos querem mesmo assistir ao isolamento do país, à expulsão de estrangeiros e a volta do velho franco francês?

Não é bem assim. Racistas, todos são. Ou quase todos, como em qualquer parte do mundo, ainda que ninguém admita que é. Mas não é o racismo que move a maioria do eleitorado do Agrupamento Nacional. Os franceses estão descontentes – com bastante razão – com seu salário. Considerando que o custo de vida no país é elevado, a remuneração do assalariado médio é baixa. Muitos cidadãos têm dificuldade em fazer o dinheiro render até o fim do mês. Frequentemente têm de fazer escolhas, porque o dinheiro não dá pra tudo. E essa situação, que perdura há décadas, vai chegando ao ponto de ebulição.

O voto extremista, portanto, tem pouco a ver com o ideário dos seguidores de Marine Le Pen, e muito mais com a esperança de uma melhora do poder aquisitivo.

Para a família Le Pen, foi um achado encontrar Jordan Bardella, que teve ascensão fulgurante e é hoje presidente do partido. Filho e neto de imigrantes italianos, o rapaz é bastante jovem (28 anos), bem apessoado, com pinta de galã de cinema. Discreto, sabe falar, e sabe evitar o palavrório agressivo e desdenhoso de Madame. Apesar de suas origens modestas, sabe comportar-se como cria de boa família.

Filho de pais divorciados, cresceu na periferia de Paris, com a mãe, num bairro pobre, em meio a pequenos traficantes. Duas vezes por semana, tinha direito a passar com o pai, num bairro chique nas proximidades de Paris. O pai, em melhores condições financeiras que a mãe, presenteou o filho com carro novo (para seus 18 anos) e viagens a Miami. (Bardella não costuma se espichar nesses detalhes.) Acredito que a boa-pinta do rapaz seja responsável por boa parte do sucesso eleitoral do partido.

O modo de eleger deputados na França é bastante complexo. O voto é distrital. O país é dividido em 577 distritos, que correspondem às 577 cadeiras de deputado na Assembleia Nacional. Cada distrito manda um só deputado a Paris. A eleição se faz em dois turnos. Elege-se quem tiver 50% dos votos já no 1° turno em cada distrito. Se não, os dois ou três mais bem colocados voltam para um segundo turno. Aí, será eleito aquele que tiver mais votos.

Entre o primeiro e o segundo turno, pode haver desistências, que ocorrem quando se quer evitar que tal partido ganhe. É difícil explicar aqui em poucas linhas, mas acredite: o sistema dá dor de cabeça nos pesquisadores.

Não é garantido, mas é possível que, daqui a oito dias, Monsieur Jordan Bardella se torne primeiro-ministro da França.

Mas ninguém deve pensar que, da noite pro dia, os franceses se tornaram todos extremistas de direita. Não é bem assim.

Em primeiro lugar, a ascensão do Agrupamento Nacional não começou semana passada. Faz 40 anos que o partido vem crescendo paulatinamente.

Em segundo lugar, se 33% dos franceses votaram nesse partido, há que lembrar que 66% não votaram nele. Portanto, de cada 3 eleitores, 1 deu seu voto à família Le Pen, mas 2 preferiram outros caminhos.

A extrema direita ainda está longe de ocupar, sozinha, o variado cenário político francês.

Viva Santo Antônio!

José Horta Manzano

Hoje é dia de um santo muito popular, Santo Antônio, aquele que encontra as coisas. Nossas avós já ensinavam que, quando se perde alguma coisa, o mais prático é invocar logo Santo Antônio. Não costuma falhar. Diz-se também que ele é casamenteiro. Encontrar um par para almas solitárias há de fazer parte de suas atribuições.

Na verdade, a hagiologia é um tanto vaga e um bocado imprecisa quanto a esse personagem. Sabe-se que nasceu em Lisboa pouco antes do ano 1200, que estudou e se tornou grande orador, que abraçou a Ordem Franciscana, que morreu com trinta e poucos anos, em 1231. De estirpe aristocrática, era descendente de Carlos Magno e adquiriu elevada cultura. Foi canonizado a toque de caixa, menos de um ano após a morte.

É o santo padroeiro da capital portuguesa, onde o conhecem como Santo Antônio de Lisboa. Já no resto do mundo é mais conhecido como Santo Antônio de Pádua, epíteto que lhe foi pespegado por ter vivido algum tempo na cidade italiana.

Por que encontra objetos? Não há consenso quanto à origem da lenda. Muito mistério envolve a vida desse santo. Atribuem-lhe o dom da ubiquidade ― dizem que conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Dizem também que tinha o poder de falar aos animais e ser escutado com atenção. Tão difícil é contestar quanto provar essas habilidades.

Mas hoje não é dia de missa, podemos nos dedicar a atividades mais profanas. A dança, por exemplo. Estamos em época de festas juninas. Falemos um pouco de quadrilha, vamos lá?

A dança de grupo que se costuma praticar no Brasil nesta época não é de origem nacional. Nem portuguesa tampouco. É possível que suas raízes estejam plantadas em terras inglesas. O que se sabe com segurança é que a quadrilha se pôs de moda na França no começo do século XIX. Sobreviveu mais de um século, até a Primeira Guerra Mundial, quando foi varrida dos salões pelos novos ritmos trazidos pelos militares americanos que tinham vindo combater nas trincheiras europeias. E pela popularização dos gramofones, naturalmente.

A quadrilha francesa era dança de salão rigorosamente codificada. Naqueles tempos anteriores à valsa vienense, os pares não tinham liberdade de inventar os próprios passos. Obedeciam todos a um ritual imutável. Os participantes tinham obrigatoriamente de formar pares, cavalheiros e damas em número igual.

Os movimentos da quadrilha eram classificados em grupos e subgrupos. Alguns passos juntavam os homens e os apartavam das mulheres. Outros reagrupavam os participantes em pares. Alguns compositores se dedicaram a escrever música especialmente para essa dança.

Na França, algumas reminiscências da quadrilha sobrevivem, nada mais que em associações folclóricas dedicadas à conservação do patrimônio cultural. Na Áustria, a quadrilha ainda sobrevive, tradicionalmente dançada em ocasiões especiais como nos grandes bailes vienenses de fim de ano. Não sei como andam as coisas no Brasil estes últimos anos, mas é bem capaz de essa dança de salão ― ou de terreiro, depende do clima… ― estar mais vivaz em terras de Pindorama do que na Europa.

Um detalhe interessantíssimo é o fato de a quadrilha brasileira ter mantido, para alguns dos passos codificados, os nomes originais franceses. Estão um pouco arrevezados, é verdade. Assim mesmo, por detrás dos sons deturpados e amoldados à nossa fonética, ainda dá para reconhecer alguns comandos de 200 anos atrás. Eis alguns:

Balancê = balancer
movimento do corpo para a frente e para trás

Tur = tour (de main)
passo que reaparece no rockn’ roll

Alavantu = à l’avant tous / en avant tous
todos para a frente

Alavandê = à l’avant deux / en avant deux
dois passos à frente

Anarriê = en arrière
para trás

Changê = changer (de dame)
mudar (de dama)

Visavi = vis à vis
pra frente e pra trás com as damas paradas em frente

Outros passos foram conservados na coreografia, mas tiveram seus nomes traduzidos ou adaptados:

Caminho da roça
promenade, demi-promenade

Grande roda das damas
chaîne des dames

Grande roda
chaîne, chaîne anglaise

O importante é que Santo Antônio dê a cada um o que ele estiver procurando. E quentão, pinhão e pé de moleque para todos nós!

O que querem os franceses?

José Horta Manzano

A Constituição de 1958 instaurou na França um regime político sui-generis. O presidente da República (chefe do Estado) é eleito pelo voto popular direto, para um mandato de 5 anos. Ele convive com um primeiro-ministro (chefe do governo) indicado por ele mesmo e confirmado pela Assembleia dos deputados. Cabe ao primeiro-ministro (PM) formar o governo, ou seja, escolher o titular de cada pasta e de cada secretaria especial e, com eles, governar o país.

No papel, a autonomia do PM parece ampla. Na vida real, quando presidente e PM são do mesmo campo político, o PM serve como correia transmissora das diretivas presidenciais. Em outros termos, o presidente extrapola suas funções de apenas chefiar o Estado e acaba governando.

Na França, diferentemente do que se vê no Brasil, os partidos têm consistência. Não funcionam como biruta de aeroporto, como agem nossos partidos, amorfos e desprovidos de coluna vertebral. Em Paris, atrás de cada sigla partidária, há uma ideologia conhecida e uma visão da coisa pública aferível.

Emmanuel Macron está no meio de seu segundo mandato como presidente, o último ao qual se pode candidatar, segundo a lei francesa. É vedado candidatar-se a um terceiro tempo. Essa situação lhe dá calma de espírito e lhe confere a tranquilidade de quem conduziu o país da melhor maneira que lhe pareceu. Como ele mesmo declarou em sua fala de ontem, é o único político francês sem ambições pessoais para as próximas eleições de 2027.

Como as pesquisas já haviam adiantado, o campo da extrema direita avançou algumas casas nas eleições de domingo, ontem. Os 27 países membros da União Europeia votaram para escolher os deputados que enviarão a Estrasburgo (França), sede do Parlamento Europeu. Cada país tem direito a uma quota de deputados correspondente a sua população.

A direita extrema cresceu um pouco, mas abaixo do que se esperava. Já os resultados nacionais franceses confirmaram a tendência que já se vinha delineando: o partido populista-extremista de Madame Le Pen deu um salto à frente e se tornou o primeiro partido do país. Abocanhou 31,4% dos votos e deixou o partido do presidente Macron em segundo, comendo poeira, com menos de 15%.

Era mais ou menos o que se esperava, mas as previsões são uma coisa e o resultado final é outra. Dá um susto ver que os extremistas de direita, herdeiros de um passado de tenebrosa memória, viraram a maior força do país. Para os 70% que não votaram neles, dá um nó no estômago. Muitos dos que deram seu voto a essa gente só para mostrar descontentamento com a carestia, com a violência ou com a alta do preço da gasolina estão agora arrependidos.

Macron, um político agora descompromissado, agiu rapidíssimo. Uma hora depois do anúncio dos resultados (das projeções, porque nem resultados oficiais eram), fez um pronunciamento nacional por cadeia de rádio e tevê. Anunciou que, a partir desta segunda-feira, a Assembleia Nacional (Câmara dos Deputados) estaria dissolvida e que eleições para escolher novos deputados estavam convocadas para 30 de junho (1° turno) e 7 de maio (2° turno).

É o caso de dizer: pegou todo o mundo de calça curta! A maioria do eleitorado tinha descartado que ele lançasse mão dessa medida. Da minoria que tinha considerado esse passo, ninguém acreditou que viesse com tal rapidez. Pensaram que o presidente fosse tergiversar, resistir um pouco e só ceder depois de muita reclamação.

O Artigo 12 da Constituição Francesa dá ao presidente o poder de dissolver a Câmara e convocar novas eleições. A única restrição é que se deixe um espaço de um ano entre dissoluções.

O decreto de dissolução vale imediatamente e fixa as eleições para 30 de junho, com segundo turno uma semana depois. A partir desta segunda, a França está sem Assembleia Nacional. Todos os deputados compareceram para esvaziar gavetas e recolher objetos pessoais. Projetos de lei em discussão ficam bloqueados até segunda ordem.

A campanha eleitoral (20 dias) será uma das mais curtas que já se viram, embora dentro do prazo constitucional. As candidaturas terão de ser registradas até sexta-feira desta semana. Uma eleição a jato, como se costumava dizer (minha mãe escrevia “a jacto”).

Macron está fazendo verdadeiro lance de pôquer. Está colocando os eleitores franceses diante de suas responsabilidades. Eles têm agora 20 dias para pensar se realmente querem ser governados por deputados de extrema direita ou se deram somente um voto de protesto do qual se arrependem.

A resposta será conhecida dia 7 de julho às 20h em ponto, 15h pela hora de Brasília.

Veteranos de 1944

José Horta Manzano

Oitenta anos atrás – só os que já viveram muito podem se lembrar – agricultores franceses e raros soldados alemães presenciaram, com enorme espanto, o grande desembarque de tropas aliadas vindas do outro lado do mar para libertar a França ocupada por tropas nazistas. Eram ingleses, franceses, escoceses, poloneses, canadenses, australianos, mas principalmente um contingente de 73 mil americanos.

Tinham se concentrado durante meses do outro lado do Canal da Mancha, no sul da Inglaterra, à espera do momento favorável tanto na estratégia militar quanto na meteorologia. O clima daquela região é caprichoso, cambiante, instável, o mau tempo pode vir a qualquer momento. Naqueles tempos em que as previsões não contavam com apoio de satélites nem de meios modernos, era ainda pior.

Assim mesmo, a ordem de embarque veio dia 6 de junho de 1944, dada pelo general Eisenhower, que seria eleito presidente dos EUA 8 anos mais tarde. A travessia da Mancha se fez num mar tempestuoso. Os poucos soldados alemães postados na França, de frente para o mar, defenderam suas posições com determinação. O resultado foi um número elevado de baixas entre os que desembarcavam.

Não vamos aqui fazer um relato sobre a Segunda Guerra Mundial, que você pode encontrar melhor e mais completo na Wikipedia. Só queria acrescentar que, embora o desembarque tenha sido bem sucedido, os aliados não chegaram a Berlim no dia seguinte. Até que o último canhão se calasse, foi ainda preciso batalhar por quase um ano, com tudo o que isso acarreta de sofrimento e perdas humanas.

O mundo – nós incluídos – deve muito àqueles soldados americanos que atravessaram o oceano para arriscar sua jovem vida na Europa, numa guerra que nem era a deles. Se não tivessem ido, de duas uma: caso a Alemanha de Hitler tivessem vencido, falaríamos hoje alemão e estenderíamos o braço para a saudação nazista; se fossem os russos a derrotar a Alemanha, falaríamos hoje russo e nosso país faria parte dos satélites de Moscou. E estaríamos obedecendo a Vladímir Putin ou a outro ditador de turno.

O soldado Jake Larson em 1944 e hoje, com 101 anos.

Para comemorar este 80° aniversário do desembarque de junho de 1944, sessenta americanos sobreviventes foram convidados a fazer de novo a viagem até a França e lá passar uma semana. Dos 73 mil soldados de oitenta anos atrás, já não restam muitos. Dos que agora foram convidados, o mais ‘mocinho’ tem 96 e o mais velho, 107 anos. Estão todos muito orgulhosos e um pouco espantados de ainda estarem vivos passados tantos anos.

Quando foram lutar contra Hitler, desembarcaram com fuzil no ombro. Hoje, quase todos em cadeira de rodas, a imagem é menos guerreira mas certamente mais emocionante.

Dos anjos ao pecado

José Horta Manzano

Quem se lembra do trem-bala que, em 2010, nossa “presidenta” garantiu que estaria pronto para as Olimpíadas de 2016? Era pra ligar São Paulo ao Rio de Janeiro. As duas pontas de linha estão até hoje esperando o apito de um trem que não vem.

Detalhe: para confirmar nosso jeitinho “Me engana que eu gosto”, a ínclita presidenta foi perdoada pela engabelação; paulistas, cariocas e também os outros brasileiros votaram nela e a reelegeram.

Em matéria de trem, os Estados Unidos foram do tudo ao quase nada. Me explico. O grande progresso do país se deu nos cem anos que correram entre meados do séc. 19 e meados do séc. 20, ao mesmo tempo que o desenvolvimento das estradas de ferro.

Naquela época em que o trem supria praticamente todas as necessidades de transporte de cidadãos e de mercadoria, a costa Atlântica se ligou ao Pacífico, cidades brotaram, o país se instalou de verdade no território e se transformou na potência que é hoje.

De repente, a partir de meados do séc. 20, o transporte por via férrea foi minguando, dando lugar às estradas de rodagem. Gente e mercadoria passaram a ser levados de carro, de ônibus e de caminhão. E o trem quase desapareceu da paisagem.

Neste ano, estamos a exatamente quatro anos das próximas Olimpíadas, programadas para 2028 em Los Angeles. Mês passado, Joe Biden autorizou o início da construção da primeira linha de verdadeiro trem-bala do país. Deverá ligar Los Angeles a Las Vegas, numa viagem de 2h10, em trens que rodarão a até 320 km/h! O mesmo trajeto em automóvel leva no mínimo 4h30.

Em espanhol, como sabem meus espertos leitores, Los Angeles quer dizer Os Anjos. Em inglês, Las Vegas, a cidade dos jogos e do strip-tease, tem o apelido de “Sin City” (= a cidade do pecado). Fica explicada a brincadeira feita no título deste artigo: Dos anjos (Los Angeles) ao pecado (Las Vegas).

Fico muito curioso pra saber se o trem-bala americano ficará pronto em 4 anos, que é pouquíssimo tempo, ou se dará com os burros n’água como o brasileiro. Dá vontade de rodar o filme para a frente só pra ver no que deu.

Pimenta nos olhos

José Horta Manzano

Pimenta em olhos alheios é refresco, todo o mundo sabe disso. Incêndio na casa dos outros é espetáculo. Ver terras distantes cair em apuros é curiosidade. Contagem de mortos em transtornos de grande amplitude é estatística.

Estes dias, o espetáculo dado por uma cantora chamada Madonna e o dilúvio que castiga o Rio Grande do Sul têm competido no noticiário internacional. Até os jornais televisivos falaram dos dois fatos.

Para quem vive longe do Brasil, as tragédias climáticas que têm agredido nossa terra ultimamente são como incêndio na casa dos outros: não levam ninguém ao desespero. Já para os que moram no território nacional, o drama está fisicamente mais perto, portanto é mais envolvente.

Pouco a pouco, severos desastres climáticos por toda parte vão confirmando os gritos de alerta que climatologistas têm lançado nas últimas duas décadas: o planeta está se aquecendo e o clima está mudando rapidamente.

O que se esperava para 2050 está acontecendo já agora. O ritmo das mudanças vai se acelerando. Parte da China está afundando. Com a subida do nível dos oceanos, países insulares do Pacífico estão desaparecendo. Na Europa, faz dois anos que cada mês representa um recorde de temperatura em comparação com a média das décadas anteriores para o mesmo mês.

No Brasil, o que vemos são períodos de calor extremo que se repetem, nem bem acaba um, já vem o outro. Calor fora de época, como esse que assola o Sudeste em pleno mês de maio. Que dizer então do dilúvio catastrófico que atingiu o Rio Grande do Sul, seguido de mortos, feridos, desalojados temporários (que não conseguem voltar pra casa) e desabrigados perenes (que perderam a casa). Dois terços do estado foram atingidos – uma calamidade de proporções bíblicas.

No Brasil, a praga do cepticismo climático não é tão generalizada como em outros países. Por seu lado, a consciência da urgência climática também não é arraigada entre os cidadãos.

Vamos esperar que, de tanta desgraceira, saiam pelo menos duas consequências positivas. Por um lado, que o grasnido agourento de nossos urubus negacionistas se cale; por outro lado, que o povo brasileiro comece a se conscientizar de que, para amenizar e retardar a degradação do planeta, é preciso contar com a ação conjunta de todos os habitantes da Terra.

Cada um tem de fazer sua parte. Está mais que na hora de o governo programar campanhas nacionais de conscientização.

Refúgio na embaixada

Embaixada do México em Quito invadida no meio da noite pela polícia equatoriana

José Horta Manzano

Quando me inteirei do que tinha acontecido na noite de 5 para 6 de abril na embaixada do México em Quito (Equador), me lembrei de Jószef Mindszenty, o cardeal húngaro que passou 15 anos na embaixada dos EUA em Budapest, de 1956 a 1971.

O prelado, ao mesmo tempo antifascista e anticomunista, conseguiu a façanha de irritar todos os tipos de governo que a Hungria teve ao longo de anos (os pró-Hitler e os pró-Stalin). As temporadas que passou na prisão não foram suficientes para fazê-lo renunciar a suas convicções.

Um dia, aproveitou uma liberação temporária da cadeia onde cumpria pena de prisão perpétua e solicitou asilo à embaixada americana em Budapest. Foi acolhido e passou a viver no imóvel da representação diplomática. Permaneceu lá à espera de ser liberado para transferência para os EUA. Mas os anos se passavam e a solução para seu caso não vinha.

Foi só depois de 15 anos de espera e muita negociação entre a Hungria comunista, os Estados Unidos, a Áustria e o Vaticano que o cardeal conseguiu autorização para viajar para Viena (Áustria), onde viria a se instalar, falecendo 4 anos mais tarde, aos 83 anos.

Não vamos esquecer que, naqueles tempos sombrios, a Hungria vivia sob a tutela de Moscou e amargava um rigoroso regime comunista. Assim mesmo, apesar do pouco respeito que se dava então aos direitos humanos, as forças policiais húngaras nunca ousaram forçar a inviolabilidade da representação diplomática. Policiais vigiando em roda do edifício da embaixada americana, é certo que havia. Mas nenhum jamais tentou arrombar a porta.

Neste fim de semana, de repente, estoura a notícia de que a polícia do Equador invadiu a embaixada do México em Quito para recuperar um cidadão equatoriano que lá se encontrava. Esse cidadão, que foi vice-presidente do Equador, tinha procurado abrigo na embaixada meses atrás para escapar da cadeia.

Segundo convenções internacionais (e segundo o bom senso) toda missão diplomática de um país no estrangeiro é considerada juridicamente território nacional desse mesmo país. Sua sede é inviolável. Violar intencionalmente uma representação diplomática equivale a invadir o território nacional do país ali representado. É ato de extrema gravidade, verdadeiro casus belli – motivo suficiente para declaração de guerra.

Nosso ex-presidente sabia disso quando entrou na embaixada da Hungria em Brasília para solicitar asilo diplomático – refúgio que, em 48 horas, lhe foi negado. Se seu pedido tivesse sido aceito, sua permanência ali havia de criar uma dor de cabeça para os governos húngaro e brasileiro. Mas Bolsonaro deu com os burros n’água, o que lhe arrefeceu os ânimos. Vai pensar duas vezes antes de entrar noutra embaixada.

O eco da selvageria cometida pelo Equador foi planetário. Missão diplomática é santuário, todos os países concordam. Como é que o pequeno Equador ousou cometer tamanha irresponsabilidade? A reação dos países não se fez esperar.

O México, país agredido, cortou na hora suas relações diplomáticas com o Equador; seu pessoal diplomático deixou o país no dia seguinte, domingo, no primeiro voo comercial. A Nicarágua de Ortega emulou o México e também anunciou a ruptura de suas relações com o Equador. Os demais latino-americanos reprovaram a violência contra as convenções internacionais.

Até o Brasil, que, nestes tempos lulopetistas, tem ficado frequentemente em cima do muro, soltou uma nota bastante dura contra a atitude equatoriana. Notas de condenação foram emitidas por chancelarias tão diversas como: Cuba, Chile, Venezuela, Argentina, Bolívia, Panamá, Costa Rica.

Não sou amigo do Bolsonaro, mas aproveito o espaço para mandar-lhe um aviso.

 

Prezado ex-presidente,

Se ainda lhe passar pela cabeça mendigar asilo em embaixada estrangeira, recomendo-lhe evitar o Equador. Essa mancada que acabam de dar ao invadir a embaixada do México não é a primeira na história recente do país. Há pelo menos um grave precedente.

Vosmicê deve se lembrar que, tempos atrás, deram refúgio a Julian Assange na embaixada equatoriana em Londres, não lembra? Pois é, depois de abrigar o asilado durante sete anos, um belo dia avisaram que a autorização de permanência tinha vencido e não seria renovada. Ao fim e ao cabo, o infeliz hóspede teve de deixar a embaixada e se entregar à polícia inglesa, que o levou para uma prisão de segurança. Está lá há vários anos.

Portanto, risque o Equador de sua lista, Seu Jair. De toda maneira, embaixada é cumbuca furada. Papuda é lugar mais tranquilo, acredite.

Saudações

 

Nós, que não estamos fugindo da polícia, vamos hoje parando por aqui.

Tiroteio

credit: Markku Uländer via Reuters

José Horta Manzano

Para nós, ouvir falar de disparos de arma de fogo dentro de uma escola finlandesa parece notícia falsa (em bom português: fake news). Para um finlandês, é ainda mais perturbador. De memória, não me lembro de ter nunca ouvido falar de ocorrência desse tipo num país que é considerado o mais feliz do mundo.

Pois foi o que aconteceu alguns dias atrás num colégio da capital, Helsique. Professores e alunos, ninguém está preparando para um acontecimento desse calibre. Foi chamada uma força de intervenção. A foto acima mostra a chegda de alguns dos policiais, armados até os dentes.

Vosmicê vai reparar que, dos quatro figurantes, um destoa do resto do batalhão. O rapaz calça tênis e veste uma calça jeans (que, na minha juventude, levava o jurássico nome de ‘calça rancheira’). Onde é que já se viu integrante de força de intervenção tática carregando metralhadora e… calçando tênis?

Talvez o homem estivesse de folga e foi sacudido na cama? Ué, mas nesse caso teria vestido o uniforme e não essa roupa de passear no parque.

Talvez o uniforme estivesse no tintureiro, quando ele foi chamado às pessas? Ora, nesse caso, um outro policial teria sido convocado no lugar desse.

Talvez a polícia esteja com falta de pessoal e, na urgência, tenha chamado esse cidadão na rua: “Ei, você aí, que é alto e fortão, precisamos de você! Venha já aqui, é a pátria chamando!”

Não saberemos nunca o que aconteceu. Mas que é engraçado, é.

Repare também que, na Finlândia, prédios residenciais não têm guarita nem porteiro. E janelas do andar térreo não têm grades. As bicicletas se estacionam na rua, em frente de casa. É um outro mundo.

Terremoto em Taiwan

credit: Markku Uländer via Reuters

José Horta Manzano

Há imagens que não dizem grande coisa. Há outras que prendem a atenção e fazem refletir. A foto acima é daquelas que não deixam ninguém indiferente.

Esteticamente, é belíssima, uma réplica taiwanesa da torre original, situada em Pisa. Acho até que a inclinação desse prédio é mais forte do que a da torre italiana.

Há outros espantos. Dos aparelhos de ar condicionado, nove ainda estão lá, quietinhos, exatamente no lugar em que foram instalados. Aguentaram o baque. Instalador taiwanês é gente competente.

Dos vidros espelhados, excetuando os que foram esmagados no movimento de inclinação, a quase totalidade resistiu sem cair.

Fico imaginando o pavor de quem estivesse dentro do prédio na hora do sismo. Sentir um tranco e perceber que o assoalho se inclina, se inclina… Situação de infarto.

Aqui em Pindorama, volta e meia cai um prédio aqui, outro ali, sem terremoto mesmo. Engenheiros e arquitetos da ilha de Formosa (hoje Taiwan) merecem forte aplauso. Sabem fazer edifícios sólidos e resistentes.

Dá a impressão de que, com um guindaste gigantesco, se conseguiria erguer o imóvel e recolocá-lo na posição original.

Vai ver que ele só se inclinou pra dar bom-dia à cidade.

Acerte seu relógio

Relógio solar antigo

José Horta Manzano

No tempo dos romanos, não havia relógio. Nem precisava. A passagem do tempo era marcada pelo sol, pelo canto do galo, pelo mugir das vacas. Sabia-se que era meio-dia porque o sol estava no ponto mais elevado. E isso bastava.

Assim continuou na Idade Média. Os viventes, em maioria analfabetos, não sabiam sequer em que ano estavam. E isso não tinha a menor importância. O tempo era ritmado pelo calendário litúrgico que os clérigos não deixavam de recordar.

Todos sabiam que era tempo de Quaresma, que domingo que vem é Pentecostes, que estava para chegar a festa da Ascensão, de São José, ou da Imaculada. A hora do dia pouco importava.

Media-se a passagem de um tempo específico. Para os gregos, a clepsidra preenchia essa função. Seu parente, a ampulheta, continuou a satisfazer o mundo medieval. Para quem fizesse questão de ter uma ideia mais precisa das horas do dia, havia o relógio solar ― esse mesmo que ainda se pode observar no frontispício de antigos edifícios europeus. É verdade que só funcionava em dias de sol. Mas não havia outro jeito, que a técnica da época não permitia voos mais altos.

O problema começou a se agravar com as grandes navegações. Para medir latitudes, o sextante era suficiente. Mas como medir longitudes? Na falta de um relógio razoavelmente preciso, como saber que distância havia percorrido o barco e quanto faltava para chegar ao destino?

Ideias havia, já desde a antiguidade. Mas a precisão não era lá muito confiável. Há controvérsia quanto à invenção do relógio tal como o conhecemos hoje. Os ingleses são reconhecidos por sua importante contribuição para aperfeiçoar o aparelho. Grandes navegadores, tinham necessidade crucial de uma medida confiável.

Durante alguns séculos, o relógio embarcado nos navios resolveu o problema dos navegantes. E o mostrador redondo encravado na torre das igrejas foi suficiente para ritmar o dia a dia de vilas e vilarejos.

Lá por meados do século XIX, quando começaram a aparecer as primeiras ferrovias, a coisa se complicou. Antes disso, cada localidade era regulada pelo relógio de sua igreja. Contudo, os horários dos trens careciam de marcação uniforme da hora. Era impossível estabelecer horários se cada vilarejo seguia uma hora diferente.

Para encurtar a história, digamos simplesmente que o problema acabou sendo resolvido. A precisão cada vez maior dos relógios e o telégrafo ajudaram. A humanidade chegou ao século XX com uma hora, se não universal, pelo menos bem mais generalizada do que 50 anos antes.

Guerras são acontecimentos terríveis, sem sombra de dúvida. Mas são também períodos que favorecem avanços nas artes médicas, nas comunicações e na vida prática.

A Grande Guerra 1914-1918 trouxe penúria para os beligerantes. O petróleo, que já então começava a substituir o vapor e a mover o mundo, fez-se raro. A Alemanha, envolvida até o pescoço no conflito, não produzia uma gota sequer do precioso líquido. Medidas tiveram de ser tomadas para reduzir seu consumo doméstico, a fim de que sobrasse para uso militar.

Foi quando surgiu a ideia de instituir o horário de verão. A defasagem artificial entre a hora solar e a hora oficial seria benéfica para poupar combustível. A economia de eletricidade significaria, naturalmente, diminuição do gasto de petróleo.

Em 1916, os alemães foram os primeiros a oficializar o avanço dos relógios durante o período estival. Outros países apreciaram a ideia e, pouco a pouco, adotaram o sistema. Dois anos depois, os Estados Unidos já fariam sua primeira experiência.

A França discutiu, tentou, tergiversou, torceu o nariz, hesitou. A partir de 1940, ocupada pelas tropas alemãs, não teve como escapar. Enquanto durou a presença estrangeira, a cada verão os relógios tiveram de ser adiantados em uma hora. Depreciativamente, os franceses diziam que aquela era a heure allemande, a hora alemã.

O Brasil fez sua primeira experiência em 1931, quando Getúlio mandava no País. De lá para cá, houve outras tentativas esporádicas. A partir de 1986, a hora de verão foi oficializada. Tornou-se medida rotineira até ser abolida alguns anos atrás.

A Europa generalizou a medida em meados dos anos 1970. Desde então, às 2h da madrugada do último domingo de março, «perde-se» uma hora, ou seja, os relógios têm de ser adiantados. Essa hora nos é devolvida às 3h da madrugada do último domingo de outubro, a noite mais longa do ano.

A partir deste 31 de março, portanto, a Europa está um pouquinho mais distante do Brasil. Brasília está a quatro horas de Lisboa e a cinco de Madrid, Paris, Berlim, Roma.

Voltaremos a nos reaproximar no fim de outubro.

Portugal: Lula na cadeia

José Horta Manzano

Neste domingo os eleitores portugueses votam para renovar o Parlamento. Dependendo do resultado, o deputado André Ventura, líder do “Chega” (partido de ultradireita), ficará bem posicionado para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Seu partido exibe, com orgulho, o apoio de Jair Bolsonaro.

Quinta-feira última, Ventura fez um discurso de campanha. Apesar do ar irônico, foi veemente ao afirmar (com todas as letras que o falar lusitano lhe permite):

“O senhor presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não vai entrar em Portugal. Nós não vamos deixar que entre em Portugal.”

(Neste ponto, pausa para uma chuva de aplausos e coro de “Ventura, Ventura”, que o deputado incentiva, regendo a cadência com a mão direita)

Mais adiante, animado pelos aplausos, adota palavreado sarcástico. Adverte “todos os que estão pra vir neste 25 d’abril” (cinquentenário da Revolução dos Cravos, que enterrou a ditadura em Portugal em 1974), que sejam “prudentes na compra da passagem”. E cita de novo “senhor Lula da Silva” ao repetir que, se ele aparecer, “ficará no aeroporto de Lisboa”. E martela: “Se insistir, vai pra uma cadeia, mas ele já sabe o que é isso, portanto também não será uma grande novidade pra ele”.

O discurso foi blablá de bravateiro, visto que o Lula já pagou pelo que fez, seu processo foi encerrado e ele não tem por que temer fanfarronices. Já é diferente o caso do Bolsonaro, mentor do deputado português. Com as investigações que carrega às costas, inclusive na Corte Internacional de Justiça, é o capitão quem arrisca ser preso assim que puser os pés fora do país.

Uma lição se pode extrair da fala do deputado, um ensinamento que o Lula deveria reter. Vai aqui abaixo.

Tirando dirigentes do nível de Bolsonaro, que felizmente são poucos, não é comum ouvir insultos pesados e gratuitos dirigidos contra mandatários estrangeiros. Se o deputado português sentiu-se à vontade para zombar tão violentamente do presidente de nossa República, não é somente por ser ele da extrema direita. Tem mais.

Com seus malditos palpites dados em público em assuntos dos quais não entende patavina, o Lula tem aberto o flanco. Ao posicionar-se ao lado de Putin e contra a Ucrânia, ao condenar Israel e aliviar a barra do Hamás, ao defender Maduro e denunciar a oposição, Lula põe-se do lado sombrio da História. Ao dizer “sombrio” refiro-me realmente à falta de luz. Lula prefere seguir o caminho das sombras, cercado de gente ao lado de quem um ser bem informado jamais tomaria uma cervejinha.

Aberto o flanco, Lula se expõe e vira alvo fácil dessa malta cuja violência começa nas palavras e vai sabe-se lá até onde. Vamos partir da hipótese que, em vésperas de eleição, o deputado esteja tentando granjear uns votos a mais. Portanto, ele não havia de estar discursando unicamente para seus fiéis eleitores. Tinha na mira também eleitores de outras correntes políticas. O que ele disse foi dirigido a todos, não somente aos seus. Se disse o que disse, é porque se sentiu convicto de que suas palavras não escandalizariam ninguém.

Tivéssemos nós um presidente “normal”, um homem que mostrasse equilíbrio e escrutínio, um ataque como esse do deputado dificilmente ocorreria. Se ataque houve, é porque o eleitor português, seja de direita, centro ou esquerda, não é bobo: está a par das trapalhadas internacionais de nosso presidente. Tripudiar sobre o Lula parece estar se tornando algo como jogar cocô na Geni, um ato corriqueiro.

Lula que se cuide. A insistir no caminho pantanoso em que está metido, quem vai acabar no brejo é sua reputação.

Assistir no youtube a fala do deputado (2 min).

O pequeno El Salvador visto por seu próprio presidente

José Horta Manzano

Ganhar uma eleição para presidente da República com 85% dos votos no primeiro (e único) turno – sabe lá o que é isso? Pois a façanha foi conseguida pelo jovem Nayib Bukele (42 anos), presidente de El Salvador, pequeno país da América Central. Aliás, não é de simples eleição que se trata, mas de reeleição. Bukele entra em seu segundo mandato.

Ele teve carreira meteórica, indo em sete anos de prefeito de cidadezinha até a Presidência. Analisando seu score soviético de reeleição, depreende-se que seu primeiro mandato deve ter agradado muito à população de El Salvador.

Nayib Bukele (que, fosse brasileiro, teria o prenome de Nagib) é de origem palestina. Teve um dia da semana passada em que ultrapassou 10 milhões de visualizações no Tweeter (atual X), com um vídeo em que aparece dando lições de história e democracia “à moda salvadorenha” a um compadecido jornalista da BBC.

O moço tem seis milhões de seguidores nessa mesma rede, multidão igual à população de seu país. Conclui-se que sua fama já atravessou as fronteiras.

Neste segundo mandato, o “ditador mais cool do mundo” (como se autodefine) continuará a governar à sua particular maneira. Com a força de seu partido Nuevas Ideas, que ocupa 54 dos 60 assentos do Parlamento, pulverizou a oposição. O país vive um estado de emergência agora permanente, que lhe dá amplos poderes, tudo com a clara aprovação da maioria de seus compatriotas.

Aqui estão alguns trechos de sua entrevista à BBC.

«Você não vive mais no El Salvador que foi, no passado, o campeão do mundo dos assassinatos. De país mais perigoso do mundo, passamos a ser o país mais seguro do Hemisfério Ocidental e a única maneira de chegar a isso foi prender todos os 70.000 assassinos.

Não havia outro jeito. O que você queria? Que prendêssemos uma centena de pessoas deixando 69.900 pandilleros (membros de gangues criminosas) nas ruas e que, por arte ou magia, os assassinatos diminuíssem? Ou você acha que nós, como salvadorenhos – uma espécie de cidadãos de segunda classe – merecemos morrer, deixar matar nossas famílias e nossos filhos porque vossa concepção de democracia precisa ser respeitada?

Devemos continuar a sangrar por mais 50 anos por causa das políticas importadas de vossos países? Na década de 1980, vocês financiaram uma guerra entre nós, salvadorenhos, uma guerra entre irmãos. Naquela ocasião, 85.000 salvadorenhos morreram. Depois, um milhão de deslocados foram para os EUA, para guetos, criaram gangues. Esses membros de gangues acabaram deportados de volta para El Salvador: os pandilleros.

Vocês nos impuseram outra de vossas receitas: “Não prendam menores”. Mas naquela época todos os membros de gangues eram menores. Assim, as pandillas cresceram e terrorizaram o país. Tentamos a receita da ONU, a receita da União Europeia, a receita dos EUA. Nenhuma delas funcionou.

Tínhamos que fazer alguma coisa para salvar nossa gente. Agora somos o país mais seguro do Hemisfério Ocidental, mas de repente parece que alguma coisa desagrada a vocês. Saiba que não apenas temos o direito de fazer o que achamos certo e o que o povo de El Salvador decide por meio de eleições livres, mas provamos que isso funciona.

Se eu pusesse o melhor governo da União Europeia para governar o Afeganistão, ele não duraria uma semana. Pare de nos pedir para usar suas receitas porque aqui elas não funcionam.»

Observação
Por diferentes razões, tanto Lula quanto Bolsonaro devem estar babando de inveja do jovem ditador.

Lula simplesmente adoraria poder controlar 90% do Parlamento. Todas as suas vontades e seus caprichos passariam fácil, sem reclamação e sem demora, sonho de todo candidato a autocrata. Governar sem oposição, já pensou?

Bolsonaro há de vibrar com a ideia de poder prender gente assim, à vontade, a torto e a direito, por um sim ou por um não. Proporcionalmente, os 75 mil salvadorenhos presos corresponderiam a 2,5 milhões de brasileiros atrás das grades. Nessa cifra, dá pra incluir todos os bandidos do país e ainda sobra bastante espaço para prender parlamentares, juízes, governadores, oponentes, rivais, adversários e inimigos.

¡Extranjeros, no!

José Horta Manzano

O misterioso título do artigo da Folha me chamou a atenção:


“Argentina aperta cerco contra estudantes brasileiros sem visto e falsos turistas”.


Sei que os brasileiros têm o direito de permanecer na Argentina até 3 meses sem visto. Sei também que o período é prorrogável por 3 meses. Cogitei: “Onde estarão esses ‘falsos turistas’ e por que razão um cerco se aperta contra eles?” Intrigado pela enigmática chamada, li o artigo.

O drama, creio eu, tem a ver com má circulação da informção no emaranhado de funcionários burocráticos argentinos que fixam diferentes taxas. Há jovens brasileiros que optam por estudar numa faculdade argentina, o que pode ser uma ideia interessante. Em princípio, para eles, o roteiro deveria ser: primeiro, matrícula no estabelecimento; segundo, obtenção de um visto de estudante; terceiro, viagem rumo à Argentina e entrada no país.

Só que aí tem um problema – burocrático, acredito. O visto de residência para estudar na Argentina (normalmente solicitado antes de entrar no país) custa 550 dólares (R$ 2.700). No entanto, o mesmo visto solicitado por um estrangeiro que já se encontra no país sai bem mais barato: 14 mil pesos (R$ 80).

Essa disparidade explica que muito candidato a estudar num estabelecimento argentino de ensino superior tente burlar a regra fazendo o caminho inverso. Em vez de solicitar o visto antes de entrar na Argentina, o indivíduo entra como turista, sem pagar nada, e só então faz a solicitação do visto de residência para estudante. Sai por R$ 80.

A diferença de custo entre os dois vistos é tão brutal que dá margem a esse tipo de “caminho alternativo”. Pecadinho que, convenhamos, não é tão grave assim.

Agora, com a subida de Javier Milei à Presidência, ficou mais difícil escapar da taxa de 2.700 reais. Controles têm sido feitos para desmascarar e expulsar do país os “falsos turistas”, ou seja, os estrangeiros que os agentes de imigração julgam ser futuros estudantes. Há muito de adivinhação nesse procedimento, e a consequência são injustiças aos montes.

Para corrigir o problema na raiz, bastaria que a burocracia argentina acertasse os ponteiros com referência às taxas. Basta igualar as duas e o nó será desfeito. Todos entrarão no país já com o visto no bolso e os “falsos turistas” serão coisa do passado.

O que surpreende nesse drama é o fato de o governo argentino dificultar a vinda de estudantes estrangeiros que buscam as universidades do país. Os alunos não argentinos acabam se sentindo “personae non gratae”, expressão que anda por todas as bocas. Não atino a razão por detrás dessa prática de estigmatizar alunos estrangeiros.

Em princípio, todo país, principalmente os que já são (ou gostariam de ser) potências importantes, trabalham para difundir sua cultura e seu modo de vida. Foi assim que a cultura dos EUA e seu “American way of life” marcaram e continuam marcando o globo. Países importantes mantêm escolas e institutos no estrangeiro para espalhar sua influência. Todos querem ser sede de encontros importantes: G7, G20, Brics, Olimpíadas, Copa do Mundo.

O estudante que passa quatro ou cinco num país como a Argentina chega ao fim do curso com uma bagagem cultural que conservará por toda a vida. E essa bagagem inclui a língua e os costumes do país no qual passou esses anos todos.

Parece-me que a Argentina, ao tratar estudantes estrangeiros como penetras, está na direção errada. O aluno rejeitado encontrará de qualquer maneira outro país que o acolha. A continuarem as coisas desse jeito, quem sai perdendo é a Argentina.

Eleições na Indonésia

Eleições indonésias: transporte das urnas após encerramento da jornada eleitoral

José Horta Manzano

Quarta-feira passada, os eleitores indonésios foram convocados para votar nas eleições gerais. Quem não tem grande informação sobre o país pode calcular o tamanho do enrosco pelos seguintes números:

● 200 milhões de eleitores

● 820 mil seções eleitorais

● 10 mil candidatos para ocupar:
     – 580 cadeiras de deputado
     – 152 cadeiras de senador

● 38 províncias e 416 distritos elegem prefeitos e vereadores.

Dado que o país é um imenso arquipélago, as urnas tiveram de ser entregues a seções eleitorais espalhadas por 6 mil ilhas, ilhetas e ilhotas. Viajaram de barco, de caminhão, de canoa e até de carro de boi.

Na Indonésia, vota-se em imensas cédulas de papel, coloridas, dobráveis, com o nome e a foto dos candidatos. O voto é demorado, visto que cada eleitor leva um certo tempo até encontrar seu(s) candidato(s) preferido(s).

Encerrada a eleição, as urnas percorrem o caminho inverso, de carro de boi, de canoa, de caminhão e de barco até chegarem a um centro de apuração, geralmente situado num grande estádio coberto.

As apurações começaram no dia seguinte. Correndo tudo bem, devem terminar daqui a um mês, em março. Sublinho: se tudo correr bem.

Não sei quem fabrica nossas urnas eletrônicas mas, seja que firma for, me parece que estão marcando bobeira. O que é que estão esperando pra convencer os dirigentes daquele país de que chegou a hora de entrar no século 21? Às favas esse voto pré-histórico!

A perspectiva é de comercializar um milhão de urnas! Em vez de ofender gregos e troianos a todo instante, o Lula utilizaria melhor seu tempo vendendo tecnologia made in Brazil. A experiência de terreno é genuinamente verde-amarela.

Brasil invadido

José Horta Manzano

O site britânico Statista publica bons mapas históricos. Num artigo de 2021, informa, com indisfarçado ufanismo very British, que, entre os quase 200 países do globo, somente 22 nunca foram invadidos pela Grã-Bretanha. Acompanha um mapa-múndi com os continentes recobertos de azul-marinho (os países invadidos pelos ingleses) e umas manchas de cor cinza, aqui e ali, indicando aqueles que nunca foram invadidos. (Veja ilustração.)

Pensei que, se eles afirmam isso, deve ser verdade. Mas não me lembrava de ter ouvido falar de invasão de ingleses em Pindorama. A única ocasião em que, assim por dizer, britânicos puseram os pés em terras nossas com o fim de tomar posse delas aconteceu na passagem do século XIX para o século XX.

Como sabemos, as Ilhas da Trindade e Martim Vaz hoje fazem parte do estado do Espírito Santo. Mas nem sempre foi assim. Até os anos 1890, nenhum país havia se preocupado em tomar posse do arquipélago. Desabitadas e inóspitas, as ilhas eram terra de ninguém.

Foi quando, em 1893, um sujeito bastante original, de nacionalidade americana, desembarcou em Trindade e fez saber ao mundo que ele era o dono do pedaço. Aquela minúscula ilha havia de se tornar ‘ditadura militar’ submetida a seu comando pessoal. O nome do novo país seria Principado de Trinidad (sic) e ele, o dono, seria conhecido como James I, Príncipe de Trinidad.

A declaração ecoou em Londres e no Rio de Janeiro e soou alarme vermelho. De fato, os britânicos, no auge de seu poder marítimo, entendiam que o local era ideal para instalar uma estação telegráfica. Quanto ao Brasil, considerava que Trindade era parte integrante do território nacional desde a época do descobrimento.

Os britânicos foram os primeiros a acudir ao arquipélago. Com o pretexto de estudos de astronomia, desembarcaram e detiveram o “príncipe”. A partir daí, começou a disputa entre a Inglaterra e o Brasil pela posse das ilhas. A questão não levou muito tempo para se resolver, dado que o interesse inglês não era particularmente forte. Ao final de tratativas diplomáticas, o arquipélago foi atribuído ao Brasil.

Esse é o único episódio em que o olho gordo dos ingleses “invadiu” território nacional. Não me ocorre outra ocasião. Se algum leitor souber de outra invasão britânica, me avise por favor.

Bom, o mapa está aí para a apreciação de vosmicês. Não sou o autor da ideia nem do grafismo. Estou vendendo o peixe pelo mesmo preço que paguei.

Fila da fome

Fila da fome
Buenos Aires, 5 fev° 2024

José Horta Manzano

Quinta-feira passada, os deputados argentinos debatiam a aprovação de um pacote de reformas apresentadas pelo presidente Javier Milei. O angustiante contexto é um país com inflação anual de 211% (pelos dados oficiais, nem sempre confiáveis). Como consequência direta, 45% dos habitantes estão abaixo da linha de pobreza.

Enquanto os parlamentares negociavam, um grupo de pessoas se dirigiu ao Ministério de Capital Humano para reclamar do corte de verba destinada a restaurantes comunitários.

A ministra veio em pessoa atender aos reclamantes. Vendo que não passava de um grupinho pequeno, pensou num jeito de resolver o problema. Perguntou: “Gente, vocês estão com fome?”. Sem lhes dar tempo de responder, emendou: “Venham um por um que vou anotar o n° do documento de identidade, o nome, de onde vem, e vão receber ajuda individualmente.”

A ministra não imaginou em que arapuca estava se metendo. O fato é que sua proposição extravazou do grupinho de reclamantes. A voz correu e logo todos os pobres de Buenos Aires (teoricamente 45% da população) já ficaram a par.

A proposta da ministra foi tomada ao pé da letra. Ontem, segunda-feira, os sem-dinheiro formaram a chamada “Fila da fome”. Foram milhares de participantes. A fila começava na porta do ministério e continuava por 30 quarteirões, visão impressionante.

Cartazes reclamavam: “Comer mal adoece”, “Emergência alimentar já!”, “Com a fome do povo não se negocia”, “No restaurante comunitário falta comida para as crianças”. E assim por diante.

Todos esperavam ser atendidos pela ministra, que não recebeu ninguém, com a desculpa de que “nenhum deles tinha agendado encontro comigo”.

Nossos políticos têm sorte de os brasileiros serem menos enfezados e reativos do que os hermanos. Por aqui, um ou outro é incomodado no avião ou no restaurante – coisa feia, rebotalho dos tempos do capitão, mas sempre menos visível que uma fila de três quilômetros de gente sacudindo cartazes.

De qualquer maneira, nem fila nem agressão verbal a políticos resolve problema nenhum. O único instrumento que tem o poder de mudar as coisas é o voto. Não adianta votar mal e, em seguida, xingar político ou fazer fila na rua portando cartaz com rima.

Mas que ninguém se preocupe. Votar mal e reclamar em seguida não é exclusividade destes pagos – no mundo inteiro é igual.

Isenção fiscal

José Horta Manzano

Em princípio, todos os cidadãos de um país estão sujeitos a tributação sobre a renda que recebem. Em termos claros, o imposto é para todos. Afinal, essa é a base da sociedade tal como a conhecemos: para financiar a máquina, cada um dá contribuição à sua medida.

Gostar de pagar imposto, ninguém gosta; mas não tem jeito porque é assim que a sociedade funciona. Quem ganhou mais dá mais, quem ganhou menos contribui com menos. Só quem não paga são aqueles cuja renda não atingiu o piso estabelecido.

Todos os cidadãos são iguais. No entanto, confesso que não me lembrava que, no Brasil, em matéria fiscal, alguns cidadãos são mais iguais que outros. Tinha passado fora de de meu radar o fato de “lideranças religiosas” estarem isentas de dar contribuição à bacia comum.

Gostaria de conhecer a justificativa para isso. O que é que faz dessas “lideranças” seres especiais? Serão indivíduos depenados e situados abaixo da linha de pobreza? Sinceramente, não vejo por que razão esses cidadãos têm o direito de usufruir da estrutura financiada pelo Estado, sem ter de dar sua contribuição pessoal.

As Forças Armadas, as polícias, o SUS, as estradas, o sistema escolar nacional, a Embrapa, o IBGE, as agências reguladoras, a rede diplomática e consular – são poucos exemplos das centenas de entidades e instituições financiadas com dinheiro público. Quem dá às “lideranças religiosas” o direito de se aproveitar dessa estrutura sem ter de pagar?

No país em que vivo, a Suíça, todos os cidadãos são taxados sobre seus ganhos. Como é compreensível, há uma classe de pessoas que não atinge o piso e, assim, está isenta de impostos. Fora isso, os outros(*) contribuem sobre a totalidade de seus ganhos, o que me parece justo e normal. O presidente do país está sujeito à mesma regra que o mais humilde dos cidadãos. Diferentemente do Brasil, “lideranças religiosas” (padre, pastor, rabino, imame, pai de santo) pagam imposto de renda como qualquer outro habitante. Ninguém tem nem ao menos parte de seu salário “isenta de impostos”.

Não sei se o Lula, que mexe em vespeiro ao pôr ordem na fiscalidade do país, vai aguentar o tranco. Tem gente muito influente por detrás dessa aberrante isenção concedida às “lideranças religiosas”.

Esperemos que o presidente segure essa e dê um tranco nessa gente folgada. Nos tempos de antigamente, se não houvesse senhoras na sala, a gente dizia que quem quer moleza come… aquilo que vocês estão pensando.

(*) Há na Suíça entre 4000 e 5000 multimilionários estrangeiros enquadrados num regime especial em que a taxação é baseada nas despesas e no valor imobiliário. São condições reservadas a estrangeiros endinheirados que adotam residência na Suíça. Essas pessoas, que só recebem ganhos do exterior, também pagam imposto, só que ele é calculado sobre outras bases que as dos demais cidadãos. É um privilégio concedido a fortes contribuintes, que interessam ao fisco nacional.

Os convidados de Milei

by Luis Grañena, caricaturista espanhol

José Horta Manzano

Os sul-americanos
Os líderes mundiais presentes à tomada de posse do novo presidente argentino fazem parte da nata da ultradireita internacional. Como é natural e esperado, compareceram os chefes de Estado dos países próximos, tais como os presidentes do Chile, do Uruguai, do Paraguai e mais alguns. O rei da Espanha é outro que nunca deixa de prestigiar trocas de governo nas ex-colônias.

Os extremistas
Já os demais são personagens da extrema-direita. Começa com nosso conhecido Bolsonaro, figurinha caricata que conhecemos bem. O estranho presidente de El Salvador, aquele que uma vez mandou o exército invadir o parlamento de seu país, não deixou de comparecer. Viktor Orbán, o aprendiz de ditador da Hungria, também estava lá. É de se notar a presença de uma estrela ascendente do movimento europeu de extrema-direita: Santiago Abascal, líder do partido Vox e deputado no Congreso de los Diputados da Espanha.

O perigo das entrevistas
Já devo ter narrado episódios fora do comum criado por dirigentes políticos durante entrevista concedida no exterior. Com declarações fora de propósito, Lula já caiu nessa, Bolsonaro também, Macron idem, o Papa foi outro. Não sei o que acontece com essa gente quando está fora de casa. Parece que a língua se solta e acaba torcendo para o lado errado.

A vítima da vez foi señor Santiago Abascal, o ultradireitista espanhol. Em entrevista ao jornal argentino Clarín, afirmou que os espanhóis estavam fartos do primeiro-ministro, Pedro Sánchez (socialista). Acrescentou que vai chegar o momento em que “o povo vai querer pendurá-lo pelos pés”.

A maldosa alusão ao destino terrível do líder fascista italiano Mussolini, que, já morto, foi pendurado pelos pés e de cabeça pra baixo num posto de gasolina de Milão, calou fundo na mídia espanhola. A violência verbal naquele país ainda não atingiu esse nível. A frase do deputado foi condenada por toda a classe política espanhola. Ficou patente a violência de todos os extremistas.