Boicote

José Horta Manzano

Gosto de comer apimentado. Para os dias em que a comida não está picante o suficiente, tenho sempre à mão um vidrinho do molho de pimenta Tabasco, feito justamente pra servir à mesa. Duas gotinhas e pronto: um prato sem graça vira uma iguaria.

Outro dia, passeando os olhos pela mesa da cozinha e lendo etiquetas de embalagem, um de meus passatempos preferidos, me dou conta de que o Tabasco é feito no país de Trump! De fato, é importado direto da Luisiana.

Me senti meio aborrecido. Com a agressividade comercial de Donald Trump fazendo o mundo inteiro temer pelo amanhã, não é confortável descobrir que estou agindo contra a corrente – em vez de me abster, continuo comprando produtos americanos.

Não é tanto por vingança, que não tenho nada contra eles, mas é questão de solidariedade para com os países que neste momento se sentem esmagados e banidos do comércio mundial.

Já que o assunto era Tabasco, tive curiosidade de saber um pouco mais sobre o produto. Descobri que já faz século e meio que é produzido na Ilha Avery, situada nos alagados do estuário do Rio Mississipi. Quem deu nome ao lugar foi a família Avery, franceses originários da Normandia, que por lá se estabeleceram nos anos 1830 e foram proprietários daquelas terras. Era o tempo em que a Nova Orléans era a porta de entrada da América francesa.

Imaginei vasculhar a lojinha do indiano aqui perto de casa. (Digo indiano, mas talvez seja paquistanês, não sei, o fato é que não fala língua nenhuma além da sua, fato que dificulta a compreensão.) A loja é minúscula, mas tem uma imensa quantidade de produtos espremidos nas prateleiras cambaleantes. Há centenas de produtos indianos, paquistaneses e de outras lonjuras do Extremo Oriente, além de artigos do mundo todo, incluindo latino-americanos e até brasileiros. Um bazar sortido.

Mesmo antes de ir ao indiano, já considerei que não vai ser fácil encontrar substituto para o Tabasco. Com todas aquelas embalagens escritas em caracteres extremo-orientais e com o balconista que não entende nada, estamos bem arranjados. Melhor não trocar o certo pelo duvidoso.

Está resolvido, fico com o Tabasco. Mas tomo uma resolução: em vez de duas gotas, vamos pingar uma gota só em cada prato.

Tenho certeza de que essa prova de desprendimento patriótico vai ajudar a cortar pela metade o PIB americano. Trump que se prepare, que comigo a conversa é apimentada.

Não vai acabar bem

José Horta Manzano


• Suprema Corte repreende Trump após governo ignorar decisão e pedir impeachment de juiz

• Juiz aponta inconstitucionalidade e ordena que Musk desfaça desmonte da USAID

• Justiça dos EUA bloqueia política que expulsaria militares transexuais das Forças Armadas

• Justiça questiona Casa Branca por rejeitar ordem que barrou deportação e causa tensão

• ‘Trump usa cargo para que Justiça aceite suas mentiras e põe EUA em labirinto constitucional’


Essas cinco chamadas estavam no Estadão online na manhã deste 19 de março. Aos 79, que completará daqui a alguns meses, Donald Trump deve estar se dando conta de que não terá tempo útil para encetar uma carreira de ditador.

Para chegar a um perfeito Putin, a um azeitado Fidel ou a um experiente Salazar, tinha que ter começado aos 40 ou 50. É nessa idade que se constroem as brilhantes carreiras autocráticas. Aos poucos, vai-se tecendo a teia de amizades, de cumplicidades, de cooptações. Só os anos podem alicerçar forte rede de apoios, eliminando duvidosos e interesseiros, e guardando somente fiéis e leais.

Veja o caso de Elon Musk, por exemplo. Como diz o outro, o salão oval não é grande o suficiente para dois egos daquele tamanho. Mais dia, menos dia, a própria eletricidade estática, fenômeno natural provocado pelo atrito entre duas massas, vai acabar expulsando um dos dois pela janela. Imagina-se que Trump, favorecido pelo peso do cargo e do corpo, continue atarrachado à poltrona presidencial. Portanto, sai o outro.

Com seu relógio pessoal encostando nos 80, fica muito complicado, para Trump, encetar o espinhoso caminho de ditador de carreira. Tendo interiorizado essa realidade, o presidente americano decidiu agir com rapidez. Acostumado ao papel de brutamontes nos negócios, está tratando os assuntos exteriores de seu país com ares de quem está com a faca e o queijo na mâo.

Desde a Alta Antiguidade, o mundo está interligado pelas trocas comerciais. Desde então, produtos são levados de cá e trazidos de lá, num movimento circular e constante. Dele participam todos os países. Pode chamar a isso globalização, mundo multipolar, mundo unipolar, mundo bipolar, tanto faz. Sempre houve essas trocas e não é hoje que vão parar.

Trump parece ignorar fatos que são maiores que ele. Ao aumentar impostos de importação, provoca represálias geralmente representadas pelo aumento de impostos de importação em países parceiros comerciais, que vão atingir produtos americanos. Qualquer ginasiano entende esse mecanismo, mas Donald Trump não parece acompanhar o giro da engrenagem.

Além de reações externas, Trump começa a sentir o peso de bloqueios internos. Em princípio, a Justiça não tem medo de cara feia. E o judiciário americano está começando a mostrar que se encaixa nesse modelo: brutamontes não assustam. É o que dizem as chamadas que recolhi hoje do Estadão e que estão na entrada deste artigo.

Se a Justiça americana continuar alerta – e aposto que continuará – o caminho de Trump vai se tornar pedregoso. Talvez ele logo se dê conta de que, apesar do estilo rolo compressor, não vai dar tempo de destruir tudo o que imaginava poder destruir.

O mundo agradece.

Pró-natalista

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, quando se costumava guerrear à força dos braços, o lado que dispusesse de mais braços tinha vantagem considerável sobre o adversário, pois podia contar com mais combatentes. Maior exército significava mais gente para segurar baioneta, para sitiar uma cidade, para manipular arbaletas, canhões ou minidrones.

Essa lógica funcionou até pouco tempo atrás. Desde que foram inventados artefatos que, lançados de longe, podem causar tremendo estrago, tornou-se relativa a necessidade de contar com exército mais numeroso que o do inimigo.

Na guerra da Ucrânia, por exemplo, a Rússia, país invasor, conta com população três vezes superior à do país invadido. Em teoria, poderia fazer mingau da Ucrânia. Mas faz três anos que está pelejando, sem sucesso.

Ao término de um período de conflitos, Estados guerreiros – como a França de Napoleão, por exemplo – instauravam políticas natalistas. A intenção era incentivar a população a ter mais filhos, de maneira a fornecer “carne de canhão” para servir às guerras pátrias.

Nestes últimos 80 anos, desde que terminou a Segunda Guerra Mundial, políticas de natalidade deixaram de fazer sentido na bacia atlântica (Europa e Américas). Se as famílias latino-americanas continuaram a fabricar muitos filhos por algumas décadas ainda, foi por falta de instrução adequada, nada a ver com política natalista.

A informação que reproduzi na entrada é de deixar surpreso. É realmente curioso ver aparecerem, na seita dos seguidores de Trump, grupos que veriam com bons olhos a instauração de uma política de natalidade. Para quê mesmo?

Me ocorre que esses grupos enxergam a chegada de clandestinos latino-americanos como ameaça existencial ao equilíbrio racial da sociedade dos EUA. É certamente essa a razão de tais grupos simpatizarem com uma política que promova o aumento da população branca. Na ideia deles, isso pode neutralizar a contaminação da sociedade americana por “latinos” pobres, de pele bronzeada e de baixa estatura.

Agora, um tanto incrédulos quanto à inclinação das jovens damas americanas para gerar mais pequerruchos, vamos endireitar a redação do anúncio da Folha, que está meio torto.

A expressão “Impulso a grupos pró-natalista” parece estranha. Para melhorar, há pelo menos três opções:

“Impulso a grupos pró-natalistas
(natalista pede s no final para concordar com grupos, que está no plural)

“Impulso a grupos pró-natalidade”
(é outra opção para substituir o deselegante “pró-natalistas”

“Impulso a grupos natalistas”
(é a opção mais simples e direta, eliminando o “pró”)

Massacre de Selma

Massacre de Selma
7 março 1965

José Horta Manzano

Faz 60 anos hoje. No âmbito da demorada luta que os pretos norte-americanos tiveram de enfrentar para conseguir a abolição do segregacionismo e o reconhecimento de seus direitos civis, um episódio importante aconteceu.

Em 7 de março de 1965, uma marcha de mais de 500 manifestantes, quase todos de pessoas “de cor”, como se dizia então, foi violentamente interrompida numa ponte chamada Edmund Pettus Bridge, em Selma, Alabama.

Policiais estaduais acompanhados por um bando de xerifes da região dispararam gás lacrimogêneo e espancaram violentamente os manifestantes com cassetetes. O episódio ficou conhecido como “Bloody Sunday” (domingo sangrento).

Post Scriptum
É de se perguntar se a “Festa da Selma”, senha combinada pelos depredadores da Praça dos Três Poderes, foi escolhida por mera coincidência ou se era alusão ao violento episódio americano de 60 anos atrás.

Se era uma referência ao espancamento dos negros de 1965, a escolha foi de mau gosto. A luta pelos direitos civis, uma batalha pelo avanço civilizatório, não se confunde com baderna pra tentar manter no poder, à força, um candidato derrotado.

Eskindô x Se acabô

José Horta Manzano

Enquanto uns vão de eskindô, outros amargam um se acabô. Tirando um ou outro acometido de amnésia etílica, todos ficaram sabendo do constrangedor espetáculo oferecido este fim de semana ao mundo por Donald Trump, no papel de “quem manda aqui sou eu”.

Esquecido de que Zelenski não havia entrado de penetra, mas a convite, Trump desancou o visitante e humilhou-o diante de câmeras e microfones. Puseram-se em dois – o dono da casa e seu vice – para descer a lenha no ucraniano. Para coroar, puseram o visitante pra correr, expulsando-o antes que fizesse o pronunciamento final.

Todas as análises que li desde então foram unânimes em expressar espanto e mal-estar. De memória de jornalista acreditado junto à Presidência americana, nunca se viu (nem se imaginou) cena desse tipo. Por detrás de portas cerradas, ninguém garante que já não tenha havido murros na mesa, brados de protesto, gestos de ameaça. Diante de câmeras e microfones, no entanto, jamais se tinha visto algo parecido.

Apesar de a cena parecer ter sido espontânea, gerada pelo calor da hora, tenho palpite de que não foi exatamente assim. A meu ver, houve preparação minuciosa, combinação prévia, verdadeira emboscada. Vejamos.

Não é todo dia que se vê o presidente americano discutir política externa com um colega estrangeiro diante de um batalhão de jornalistas munidos de gravadores, holofotes e câmeras. O que se costuma ver são cinco minutos de sorrisos para permitir fotos que vão estampar as reportagens. Discussões, nunca.

Assim sendo, o assunto não era para ser discutido naquele momento. Se o foi, é porque o desmonte da imagem do ucraniano Zelenski tinha sido minuciosamente preparado. A certa altura, Trump deu a primeira paulada, sinal de que a encenação podia começar. Logo em cima, seu vice, sem que lhe fosse solicitado, entrou no meio da conversa para sentar a pua no infeliz visitante que, com conhecimentos insuficientes de inglês, titubeou, dançou e rolou.

Estamos diante de um caso estranho. Numa guerra que já dura três anos, causada por uma potência que despachou suas forças armadas para invadir o país vizinho, a maior potência bélica do planeta apoia abertamente o agressor e não o agredido. Trump, no fundo, está rebaixando seu próprio país a um nível que imaginávamos reservado a dirigentes periféricos, como Lula, que também destratou o presidente ucraniano e deu apoio a Putin, o invasor.

Trump não sabe ainda, mas atitudes como a que ele tomou no Salão Oval diante do presidente Zelenski vão na contramão de seu desejo de fazer que os EUA voltem a ser grandes (Make America Great Again). No dia seguinte ao do bate-boca, os países que, confiantes, tinham se abrigado desde 1945 sob o guarda-chuva nuclear americano entenderam que a aliança estava morta.

A Europa entendeu que, sem o apoio militar dos Estados Unidos, corre perigo existencial. A Rússia, por seu lado, também entendeu que, com um Trump indiferente, é chegada a hora de recompor a Grande Rússia, como nos tempos da URSS. Quem sabe qual será a primeira das novas vítimas? Um país báltico? A Romênia? A Finlândia? É bem capaz de acontecer antes do que imaginamos.

Rearmar-se leva tempo, mas a Europa já está no bom caminho. O Reino Unido e a França são países dotados da arma atômica. A Alemanha acaba de pedir à França que estenda sua proteção nuclear ao território alemão. As coisas estão se mexendo com rapidez.

Como vão ficar os que confiaram na proteção dos EUA? Taiwan, cobiçado pela China continental? O Japão, desarmado há 80 anos e confiante na proteção americana? A América Latina que, fascinada pela Florida e pelos EUA, rejeita ser colonizada pela Rússia ou pela China?

Ninguém garante que Trump pendure as chuteiras no encerrar deste mandato. Pode ser que ouse entortar a Constituição e propor-se para mais quatro anos. Pode ser também que o próximo presidente seja o atual vice, J.D.Vance, que tem comportamento ainda mais ignorantão e agressivo que o chefe. Portanto, não é possível cravar, neste momento, que daqui a 4 anos estaremos livres desse pesadelo.

Trump pode até tirar algum proveito de sua guerra de tarifas de importação. Mas periga ver uma debandada de bons e antigos aliados. Ninguém quer ter aliado não confiável.

As preocupações do mundo

O Globo, 27 fevereiro 2025

José Horta Manzano

O Ipsos, conhecido instituto francês de pesquisa de opinião, leva a cabo um estudo permanente em 29 diferentes países (entre os quais o Brasil) para aferir as inquietações dos respectivos habitantes.

Ao entrevistado, é apresentada uma lista de 18 tópicos de sociedade. Pede-se que ele selecione os três que lhe parecem os mais preocupantes. Os resultados são frequentemente evidentes, às vezes curiosos, sempre interessantes.

A edição mais recente acaba de ser publicada, com os dados de fevereiro de 2025. Sem surpresa, a maior preocupação do brasileiro (38%) são o crime e a violência, tópico que incomoda muito pouco os habitantes de Singapura, onde foram citados por somente 7% da população.

Na Argentina, desde que a inflação desenfreada dos últimos anos arrefeceu, na esteira das reformas de Milei, a população parece ter recuperado o sorriso. A confiança na economia subiu 28 pontos com relação ao mesmo período do ano passado. O castigo da hiperinflação dos anos recentes foi tão pesado, que hoje estão todos se sentindo aliviados, apesar de a situação ainda estar bastante complicada.

Já a perocupação dos brasileiros quanto à inflação, está crescendo no sentido contrário ao dos argentinos: mais confiança lá, maior preocupação aqui. Até o ano passado, no Brasil, o dragão da inflação parecia adormecido. Este ano, a população está sentindo que o dragão acordou.

A pobreza e a desigualdade social, como era de se esperar, empata com a criminalidade na preocupação dos brasileiros. Mesmo os cidadãos cuja posição social está distante dessa categoria, sentem que aí reside um dos maiores males nacionais. Uma curiosidade: no Japão, uma porcentagem elevada de cidadãos (33%) mostra preocupação com o aumento da desigualdade social no país. Visto de fora, não imaginaríamos que fosse essa uma das inquietudes japonesas.

O desemprego não parece estar entre as preocupações nacionais do momento. O Brasil é o 21° (em 29) na lista dos que receiam o desemprego. Já a Argentina aparece em 3° lugar na mesma lista. O contraste entre as duas maiores economias da América do Sul é grande.

Quanto à preocupação com a corrupção política e financeira, o Brasil aparece no meio da lista, próximo da média mundial. Não é que o brasileiro não perceba a corrupção que rói as entranhas da nação; eu diria que nossa indiferença é reflexo do desalento e da certeza de que, por mais que façamos, a classe política continuará a negar-se a servir ao povo para poder servir-se do dinheiro do povo.

O tópico que mais me impressionou foi o das mudanças climáticas. Entre os países que se preocupam com as mudanças no clima da Terra, o Brasil está em 18° lugar (entre 29 países). Ou seja, estamos longe de nos preocupar com o estado do planeta que vamos deixar para nossos filhos e para os que virão depois.

Nossas catástrofes climáticas dos últimos tempos (entre as quais, enchentes diluvianas no Rio Grande, labaredas espontâneas a lamber o Pantanal e a Amazônia, seca saariana no Rio de Janeiro) parecem não ser suficientes para sacudir a percepção do brasileiro e alertá-lo para o cataclisma em que já pusemos o pé. E que nos obriga a entrar na roda, queiramos ou não.

Há fenômenos naturais que não podemos combater por serem mais fortes que nós. Assim mesmo, temos meios humanos à nossa disposição para mitigar os efeitos de catástrofes. Cabe às nossas autoridades (federais, estaduais e municipais) investir em campanhas de esclarecimento da população. Cada um pode (e deve) fazer a sua parte. Tudo se aprende, que ninguém nasceu sabendo.

Placa de automóvel na Suíça

placa-23José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça é um dos poucos países onde placa de automóvel não pertence ao veículo mas ao proprietário do veículo. E como é que funciona?

Suponhamos que o cidadão compre seu primeiro carro, novinho em folha, direto da concessionária. A própria loja se encarregará de cumprir as formalidades junto às autoridades. O feliz proprietário já receberá seu carro emplacado e pode sair por aí.

No dia em que quiser revender o carro, vai entregar os documentos ao comprador mas não a placa. Deve tirá-la do carro e guardá-la. Se tiver intenção de utilizar a placa em outro veículo (novo ou de segunda mão), basta avisar o Departamento de Tráfego, completar a papelada, pagar eventuais taxas e pronto: pode instalar sua placa no novo carro.

Caso tenha aderido à filosofia do ecologicamente correto e tiver desistido de possuir veículo próprio, basta devolver as placas ao Serviço dos Automóveis e não se fala mais nisso. Vai receber reembolso da taxa de circulação e do seguro pro rata temporis.

Se tiver intenção de dar um tempo antes de comprar novo veículo, o melhor será entregá-la ao Departamento de Tráfego para armazenagem. Por módica taxa, ela será conservada por até um ano, à disposição do proprietário a qualquer momento. A vantagem dessa devolução temporária é que, durante o período de armazenagem, o proprietário não terá de pagar taxa de circulação nem seguro. Passado um ano, o direito ao uso da placa prescreverá. Caso o cidadão compre novo veículo no futuro, receberá nova placa.

Nenhum veículo pode circular sem placa ‒ é o que diz a lei. Então como é que fica no caso do comprador de carro de segunda mão? Se o proprietário antigo retém a placa, o novo dono sai por aí sem placa? Não pode. Pra remediar, a administração já pensou nesse problema. Antes de concluir a transação, o comprador terá de passar pelo Departamento de Tráfego e solicitar uma autorização provisória de circulação. O papel lhe dá direito a deslocar-se ‒ uma vez só ‒ do lugar onde está o veículo até o posto de emplacamento mais próximo. Se for parado no meio do caminho, o documento o protegerá contra toda sanção.

A grande vantagem desse sistema é evitar que, depois de haver vendido um carro, o antigo proprietário continue a receber multas cujo culpado é um novo dono que, distraída ou dolosamente, se «esqueceu» de transferir a posse. No Brasil, isso já aconteceu comigo. Dá uma dor de cabeça dos diabos, porque nem sempre é fácil localizar o novo possuidor.

Tem mais uma particularidade suíça: a placa intercambiável. Suponhamos que o indivíduo tenha dois veículos que nunca são utilizados ao mesmo tempo. Digamos que usa um deles para o trabalho, durante a semana, reservando o outro para passear no fim de semana. É possível ter uma placa só, intercambiável entre os dois carros.

As condições são duas. Por um lado, os dois automóveis nunca poderão circular ao mesmo tempo. Por outro, aquele que estiver sem placa não pode ser estacionado em via pública ‒ terá de ser guardado em lugar particular, que seja garagem, jardim, terreno ou assemelhado.

A vantagem de ter uma placa só para dois veículos é que uma só taxa de circulação e um só seguro valem para os dois. São 50% de economia.

Gulf of Mexico

José Horta Manzano

Até certo ponto, denominações geográficas se parecem com logradouros de cidades brasileiras: volta e meia, um vereador vem com a ideia de alterar este ou aquele nome. Por exemplo, propõe que a tradicional Rua da Igreja seja rebatizada como Rua Professor João Hipólito da Luz e Alvarenga Fernandes de Oliveira. Por falta de sensibilidade, os edis acabam aprovando. E adeus, Rua da Igreja!

Enquanto alterações descabidas se concentram dentro de limites municipais, o mal não é tão grande. Quando a mudança atinge a nomenclatura geográfica planetária, o problema muda de escala. Especialmente quando a alteração é imposta por meio de força bruta, censura ou pressão.

No Ginásio me ensinaram que o Golfo Pérsico se chamava assim mesmo: Golfo Pérsico. As águas do golfo banhavam então um único grande país: o Irã, a antiga Pérsia. Nos anos 1970, a rápida ascensão dos estados petroleiros mudou o panorama e o Irã deixou de ser o único país importante da região. As novas potências passaram então a pressionar para que o mundo chamasse aquelas águas de Golfo Arábico. Bem ou mal, todos adaptaram o nome, cada um à sua maneira. Alguns anotam Golfo Pérsico (Golfo Arábico). Outros fazem o contrário: Golfo Arábico (Golfo Pérsico). Os franceses, por fim, decidiram-se por Golfo Árabo-Pérsico.

Até a Guerra das Malvinas (1982), ninguém, fora da Argentina, estava realmente preocupado com o nome daquele arquipélago perdido no extremo sul do Atlântico. Cada um o chamava pelo nome que lhe parecia correto. Os países de fala castelhana diziam Islas Malvinas. Os demais preferiam Ilhas Falkland. Os franceses, sempre originais, diziam acertadamente Ilhas Malouines. É que, depois de receberem diferentes nomes, as ilhas foram finalmente chamadas Malouines em homenagem aos primeiros habitantes permanentes, marinheiros oriundos de Saint-Malo (França). Malvinas é adaptação espanhola de Malouines.

Depois da guerra anglo-argentina de 1982, o mundo passou a ter cuidado na hora de inscrever nos mapas o nome do arquipélago. Todos anotam agora o nome espanhol e o nome inglês. Os franceses continuam se referindo às Ilhas Malouines (Falkland).

O desastrado mapa-múndi lançado ano passado pelo IBGE para uso escolar deslocava o Meridiano de Greenwich e, em consequência, desregulava o relógio planetário, que se baseia naquele que é o meridiano zero, escolhido como ponto de partida da contagem da hora. Um péssimo exemplo de como não agir, visto que esse tipo de capricho só serve para confundir os alunos que terão dificuldade em entender a divisão do globo em 24 fusos horários partindo de Greenwich.

Contrariando o uso estabelecido pelos demais países, o mapa-múndi do IBGE não atribui nome bilíngue às Malvinas. Chama o arquipélago unicamente pelo nome espanhol. E anota que as ilhas são argentinas, o que não corresponde à realidade. História e Geografia reescritas.

Desconhecido na Europa até os anos 1600, o peru assustou quem o viu pela primeira vez. Ao observarem (de longe) a ave das Américas, cada um imaginou que pudesse vir de algum lugar longínquo. Os ingleses acreditaram que vinha da Turquia, país então muito distante no imaginário de todos. E o bicho acabou sendo chamado pelo próprio nome do suposto país de origem: turkey.

Meio milênio correu tranquilo. Até o dia, faz poucos anos, em que o líder turco se encrespou. Reclamou que na ONU, onde a língua de trabalho mais utilizada é o inglês, seu país estava sendo chamado pelo mesmo nome da ave, ou seja: Turkey. Pediu que o nome de seu país passasse a receber a grafia original turca: Türkiye. E assim foi feito. Foi-se a Turkey, boas-vindas à Türkiye. Poucos notaram a diferença, visto que em inglês as duas formas têm a mesma pronúncia.

Entre as fanfarronadas de Donald Trump estas últimas semanas, está sua ordem de que seja alterado o nome do Golfo do México. Apesar de a denominação estar em vigor há séculos, o moço decidiu que Golfo da América fica melhor. Preocupados em não desagradar ao potentado, todos responderam “Sim, senhor”. E, da noite para o dia, as “aguas calientes” da imensa superfície marítima se tornaram Golfo da América. A aplicação Google Maps esteve entre os primeiros a efetivar o novo nome.

A nós, habitantes de antigas colônias portuguesa e espanholas, não nos faz quente nem frio. Fica até simpático, Golfo da América. Parece que o continente inteiro foi contemplado com a homenagem.

Engano, senhores! Nós estamos entre os únicos a considerar que o termo América vale para o conjunto de países das Américas. Nos EUA, não é bem assim. Para se referirem ao continente que começa no Canadá e termina na Terra do Fogo, eles usam o termo no plural: Americas, The Americas. No singular, é outra coisa.

America, no singular, é o nome que os americanos atribuem ao país deles, à exclusão de todos os demais países. Quando Trump determinou que o nome seja Gulf of America, assim no singular, referiu-se aos Estados Unidos. Aos ouvidos deles, soa Golfo dos Estados Unidos.

De repente, fica menos ingênuo.

Como se comportar diante da IA?

Discurso de J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos
Cúpula de Ação sobre a Inteligência Artifical. Paris 10 & 11 fev° 2025

José Horta Manzano

Por iniciativa do presidente Emmanuel Macron, realizou-se em Paris nos dias 10 e 11 de fevereiro uma Cúpula de Ação sobre a Inteligência Artificial. Especialista em bem receber seus convidados, a França soube dar ares de pompa ao evento a fim de causar boa impressão. O majestoso Grand Palais foi escolhido para abrigar os debates.

Entre outros participantes importantes, estavam o primeiro-ministro da Índia, o vice-primeiro ministro da China, o primeiro-ministro do Canadá. O Brasil mandou Mauro Vieira, nosso chanceler.

Já os Estados Unidos não deixaram por menos: mandaram o vice-presidente do país, ou seja, o número 2 do Executivo. Trata-se de James D. Vance, eleito na chapa de Donald Trump.

Antigo militar de profissão, Mr. Vance é um homem de apenas 40 anos e já tem no currículo alguns anos de carreira política. Ideologicamente, é considerado ainda mais radical que o chefe, defensor daquela imagem ideal dos EUA sonhada por Walt Disney: com habitantes brancos, ricos, sorridentes e felizes.

Na segunda-feira 10, Macron ofereceu um jantar de gala, realizado sem a presença de câmeras e holofotes. Com ou sem jornalistas, fatos interessantes sempre chegam a vazar para o exterior do salão.

Numa atitude talvez ensaiada de véspera, Mr. Vance levantou-se e deixou a sala assim que o representante da China começou a discursar. Em matéria de descortesia e afronta, nem nosso pranteado Bolsonaro faria melhor. Vê-se que Mr. Vance é herdeiro direto do espírito dos caubóis  trombudos, revólver à cinta e espora no tornozelo. Vai encarar?

Terça-feira 10, no salão de eventos, de novo Mr. Vance subiu ao púlpito. Antes de iniciar o discurso, lançou um olhar ao presidente Macron e agradeceu pela acolhida e pelo vinho da véspera. (É de acreditar que o míster não esteja habituado a ver outra bebida à sua frente que não seja aquele líquido amarronzado que espuma e parece vinho mas não é.)

Daí pra frente, despejou tudo o que levava no bolso. Expôs sua ideia de IA. Pleiteou uma tecnologia solta, sem filtro, totalmente livre de controles e de entraves (como um potro desbocado que ninguém pode deter). Disse que todo controle seria prejudicial ao desenvolvimento da técnica. Era o exato contrário do que grande parte dos demais participantes queria ouvir. Afinal, o objetivo da cúpula era justamente encontrar um acordo supranacional para impor regras e limites à IA.

Desnecessário será dizer que os EUA não assinaram a declaração final. Em consequência, o desenvolvimento da IA permanece sem regras mundiais, comuns, claras e firmes.

Trump quer esvaziar Gaza

José Horta Manzano

Em 27 de janeiro passado, está fazendo quase dez dias, escrevi um post ao qual dei o nome de Plaza Strip. Naquele texto, botei no papel uma realidade que me parecia evidente, bastanto juntar duas falas de Donald Trump pronunciadas em momentos diferentes. Eu tinha entendido que o presidente americano, experiente no ramo de promotor imobiliário, enxergava a Faixa de Gaza como excelente localização para implantar um complexo turístico de luxo.

Pelas manchetes que vejo hoje nos jornais do mundo inteiro, fico com a impressão de ter sido o único a ligar as duas falas de Trump. Esse é o lado lisonjeiro. Do lado decepcionante, percebo que nenhum dos líderes globais – Xi Jinping, Macron, Putin nem mesmo Lula – leu meu artigo. Se tivessem lido, já teriam reagido antes dos comentários da multidão. E olhe que não leram de bobeira: aqui não tem anúncio! Enfim, paciência.

As manchetes devem estar fazendo muita gente fina cair das nuvens, todos assustados com o pronunciamento que Trump fez ontem sobre Gaza. Desta vez, ele juntou tudo numa fala só, e foi bem claro. Lançou no ar a ideia de que os EUA devem tomar conta de Gaza, não sem antes tirar de lá os gazeus e reparti-los entre Egito e Jordânia. Em seguida, a faixa de terra será reconstruída e se tornará uma “Riviera” do Mediterrâneo Oriental. (Daí eu ter chamado meu escrito de Plaza Strip, fazendo rima com Gaza Strip, mas numa declinação mais chique e sofisticada, lembrando grandes hotéis de luxo da orla mediterrânea.)

Não precisei ir mais longe que nossa mídia online nacional para encontrar as primeiras reações ao projeto: desumano, limpeza étnica, roubo de território, mundo chocado, projeto truculento, mandar palestinos para onde? (Lula), violação de leis internacionais, genocídio.

Concordo com todas essas expressões. Trata-se de mais um passo no genocídio montado contra os infelizes palestinos, cidadãos cujo triste destino todos lamentam mas que ninguém se anima a convidar pra morar em casa.

Agora vamos mudar de tom. Não se trata de ser cínico, mas realista, questão de ver as coisas como são.

Israel controla a Faixa de Gaza. Ninguém lá entra nem de lá sai sem autorização de Tel Aviv. Desde o começo da guerra, nenhum jornalista estrangeiro pisou o território. Remédio só entra a conta-gotas. Todos os hospitais foram destruídos ou fortemente degradados. Em Gaza City, 90% dos imóveis desmoronaram.

Os Estados Unidos são a maior potência econômica e militar do planeta. São também aliados incondicionais de Israel.

Juntando os dois, Israel e EUA, temos a fome e a vontade de comer. Portanto, não perca dinheiro na bolsa de apostas de Londres: o que Donald Trump quer, se fará. Que  seja chocante ou não, que pareça legal ou não, que o mundo aprecie ou não, dentro de pouco tempo o território será esvaziado dos trapos humanos que o habitam. Alvas construções em estilo brotarão e palmeiras recém-plantadas enfeitarão a borda das piscinas para suavizar o clima desértico. E os primeiros nababos começarão a chegar.

Quem poderá impedir que isso tudo aconteça? Xi Jinping? Putin? A União Europeia? Quem se arriscaria numa guerra contra os EUA?

Como disse, prezado leitor? Pra onde vão os gazeus? Ora, uma parte para a Jordânia e outra para o Egito, exatamente como Trump deseja. E como é que ele vai conseguir que esses países aceitem dois milhões de maltrapilhos? Pela ameaça. Tanto a Jordânia quanto o Egito são tributários de substancial ajuda americana. Todo ano, recebem quantia que não podem perder. Receberão, naturalmente, uma compensação pela gentileza de acolher os refugiados. E vão acolhê-los, sim, senhor.

Mas tem uma coisa. Como se sabe, toda moeda tem duas faces. Na outra face desta, está o precedente que Trump estará abrindo caso insista nessa ideia descabida. Se sua cupidez imobiliária o cegar, estará dando ao mundo prova de que é legítimo intervir de forma truculenta para conquistar territórios estrangeiros.

Daí pra frente, não poderá mais dar um pio se a Rússia intervier militarmente na Moldávia ou na Geórgia ou se a China decidir tomar Taiwan à força dos canhões. O mundo terá regredido aos séculos de antigamente. Estará aberta nova era de conquistas territoriais como nas guerras napoleônicas. Só que agora a espada será substituída por drones incendiários, minas antipessoais e outros bijuzinhos da guerra moderna.

Os onze milhões

 

José Horta Manzano

Uma maluquice incomoda muito a gente
Duas maluquices incomodam muito mais

Duas maluquices incomodam muito a gente
Três maluquices incomodam muito mais

E assim por diante…

Donald Trump entrou de sola no segundo mandato. Desde o primeiro momento, soltou um festival de maluquices que tem assustado muita gente. No entanto, dado que cada maluquice empurra a anterior para a tumba do esquecimento midiático, as primeiras já passaram para segundo plano.

A primeira (assustadora) medida que Trump tomou foi garantir que cumpriria ao pé da letra a ameaça de expulsar onze milhões de cidadãos estrangeiros que vivem ilegalmente no território dos EUA. Por mais que soe impossível de cumprir, promessa de presidente costuma ser levada a sério.

Convém considerar que será necessário expulsar uma média de 7.500 clandestinos por dia – dia sim, outro também, sábados e domingos incluídos – para atingir a meta dos onze milhões nos 1.460 dias do mandato. Trocando em miúdos, será necessário mobilizar em permanência entre 100 e 150 aviões das forças aéreas americanas, cada um com capacidade de 100 passageiros em média. Todos farão rotações incessantes, ida e volta, rápida parada para embarque, desembarque, abastecimento e troca de equipagem. Vai sair caro.

Dessa primeira maluquice do presidente-estrela, apesar de ela ser missão impossível, já se fala menos. A atenção do planeta está voltada para a maluquice seguinte, o aumento brutal nas taxas de importação de nações amigas e/ou inimigas, tanto faz. Canadá, México, China entram no mesmo molde. Os outros países estão preocupados na expectativa de serem os próximos da lista.

Especialistas garantem que essa guerra de tarifas alfandegárias vai causar a ruína da própria economia dos EUA. Será uma pena. Trump, veja você, só dura 4 anos. Por seu lado, se a China preencher o lugar dos Estados Unidos declinantes, teremos de viver por décadas sob a lei de Pequim.

Os dez primeiros dias

Trump subindo a escadaria

José Horta Manzano

Dez dias se passaram desde que Donald Trump “subiu a rampa” da Casa Branca para seu segundo mandato. Falei em “subir a rampa” como linguagem simbólica. Bem mais antiga que nosso Palácio do Planalto, a sede do Executivo americano só tem uma rampinha lateral construída em anos recentes. A entrada mesmo se faz pela escadaria, e é por lá que Trump subiu.

É praxe conceder a todo governante iniciante um armistício (ou paz provisória) de 100 dias para permitir-lhe mostrar a que veio. No entanto, pelos tempos frenéticos que correm – especialmente para um governante hiperativo como Trump –, os primeiros dez dias já deveriam mostrar uma tendência. De fato, mostram.

Meus argutos leitores já devem ter reparado que o novo presidente é mais destruidor que construtor, é mais de rasgar que de costurar, é mais de cuspir fogo que de apagar incêndios. Prestem atenção agora. Nestes dez dias, Trump já afrontou dezenas de países (com ameaça de sançôes e, principalmente, com expulsões de imigrantes clandestinos). Me digam se lhes ocorre, entre os países afrontados, algum que seja poderoso ou simplesmente importante.

Não encontraram? Nem eu. Mostrou ao vizinho México quem é que manda no pedaço, mas não se atracou com o vizinho Canadá. Está despachando, com espalhafato, trabalhadores imigrantes clandestinos da América Latina, mas não deu um pio quanto aos ilegais de origem chinesa ou indiana. Vociferou contra os povos mais frágeis do Oriente Médio (no momento, os habitantes de Gaza), mas não fez o mesmo contra Israel. Contra China, Rússia, Índia? Também nem um pio.

Vai ficando claro que Trump escolhe suas vítimas entre os mais fracos, nunca entre os mais fortes. Vai ficando também claro que o presidente se permite gastar dez dias fornecendo manchetes sensacionalistas para os jornais enquanto os verdadeiros problemas de seu país (e do mundo) passam ao segundo plano e continuam à espera.

Trump se preocupou com pessoas trans, assunto que apaixona todo político de extrema-direita, mas cuja discussão deveria ser confiada ao Congresso. Não faz sentido um chefe de Estado preocupar-se com esse tipo de problema de sociedade.

Trump retirou seu país da Organização Mundial da Saúde, abrindo a porta para que a China passe a dominar esse importantíssimo setor da vida do planeta. Também retirou os EUA da Organização Mundial do Comércio – seria cômico se não fosse trágico que o país responsável por uma fatia de quase 10% do comércio mundial renuncie a fazer parte da organização que trata desse assunto. De novo, a porta está escancarada para a China.

Adicione os gestos que acabo de mencionar. Só encontrará afronta a países menores e destruição de políticas estabelecidas de longa data. Destrói-se o que não agrada sem propor substituição, esse parece ser o lema.

Espera-se que o espetáculo ignóbil e indigno da deportação de trabalhadores estrangeiros pobres e algemados chegue rapido ao fim. Se não, em breve não mais haverá no país quem varra as ruas, quem lave a louça, nem quem limpe as latrinas.

Plaza Strip

by Jean Galvão (1972), desenhista paulista
via Folha de São Paulo

José Horta Manzano

Este sábado 25 de janeiro, tive confirmação de minha teoria sobre o perigo dos pronunciamentos que líderes fazem quando estão fora de casa. Quando estão de viagem no estrangeiro ou também no avião que os conduz de um lugar a outro, chefes de Estado e chefes de governo deveriam prestar extrema atenção às palavras que proferem. Políticos de alto coturno já tiveram de encerrar a carreira devido a uma frase imprudente pronunciada em viagem. Há anos escrevi um post sobre o assunto.

Com um impressionante barulho de fundo – eu nâo imaginava que o 747 Air Force One fosse tão barulhento – Trump conversou uns vinte minutos com jornalistas que viajavam com ele, num estilo pingue-pongue (perguntas breves e respostas rápidas).

O assunto principal era a guerra de Israel em Gaza. Donald Trump exprimiu seu desejo de esvaziar totalmente a Faixa de Gaza (2 milhões de habitantes!) e despachar essa população para os países vizinhos, Egito e Jordânia.

Aqui tenho de abrir um parêntese. Convém estabelecer uma correlação entre a espantosa ideia revelada no avião e as palavras que o próprio Trump pronunciou logo depois de ter sido empossado. No dia da posse, o novo presidente disse que Gaza “realmente tem de ser reconstruída de um jeito diferente”. Ele acrescentou que “Gaza é muito interessante por gozar de localização espetacular à beira-mar, no melhor clima, onde tudo é bom. Coisas lindas poderiam ser feitas lá”.

Nesse ponto, é bom sentar, tomar uma respiração profunda e refletir um instante.

Esvaziar? Expulsar aquela ralé? Limpar o terreno? Construir coisas lindas? Vindas de quem enricou no ramo imobiliário e mantém negócios na indústria hoteleira, essas palavras fazem sentido. Não são elucubrações de um qualquer, são projetos com começo, meio e fim, feitos por quem é do ramo. É capaz até de o orçamento estar pronto.

Esses acontecimentos me inspiram pelo menos duas reflexões.

A primeira
Donald Trump mais uma vez passa recibo de absoluta inaptidão para as funções que ocupa. Apesar das lantejoulas e dos paetês, salta aos olhos sua ignorância profunda de História Geral, em especial da História do Oriente Médio. Tampouco sabe como funcionam as relações entre estados. No vácuo de sua cabecinha, cabe a ideia de dar, aos países vizinhos, ordem de abrir a fronteira e aceitar os milhões de infelizes habitantes de Gaza. E pronto, o problema está resolvido.

Ignora que cada país tem sua soberania, seus problemas, seus objetivos em política interna e externa. E que, apesar de receberem ajuda dos Estados Unidos, nenhum deles está disposto a importar milhões de estrangeiros só para agradar Donald Trump. Se o problema é encontrar um pouso para os gazeus, por que é que o presidente não os leva diretamente para os EUA? Por que não lhes daria um pequeno território para viverem tranquilos, longe dos israelenses e das bombas? É feio dar esmola com o chapéu alheio, como Trump está fazendo.

Os eleitores de Donald, que vivem alienados do mundo, que não leem nada, que não assistem nem ao jornal da tevê, que só se informam pelas redes trumpistas, nunca vão se inteirar do que se passa em Gaza, nome que só conhecem de ouvir falar. Trump pode dizer ou fazer o que bem entender, que seus fãs vão continuar usando um boné vermelho escrito “Make America great again”. E vão continuar votando no Salvador.

A segunda
Mais uma vez, Trump mostra que só se lembra da raça humana em tempos de eleição. Fora isso, para ele, os seres humanos não passam de peões, peças sem grande valor alinhadas num tabuleiro. Tirá-las do caminho ou eliminá-las faz parte do jogo e não lhe causa engulhos. É tão humanista, flexível e empático quanto uma porta de aço. Fechada.

Os EUA não são nenhuma Finlândia, nenhuma Islândia, países onde a distância entre os abastados e os necessitados é pequena. No país de Trump, há amplo contingente populacional de renda baixíssima, que não tem nem como tratar da saúde ou dos dentes. Depois de “limpar” a Faixa de Gaza, o que é que Trump pretende fazer com esses infelizes? Fazer uma limpeza de terreno, tirá-los do caminho e despachá-los para longe da vista, digamos, para a Groenlândia?

Inepto, ignorante e desumano, assim é o miliardário que hoje governa o país mais poderoso do mundo. E certamente assim são os que o cercam, miliardários ou intrometidos. É um clube em que cada sócio puxa a brasa para sua sardinha sem ligar a mínima para as necessidades do populacho.

A continuar nesse passo, daqui a pouco tempo Gaza terá se tornado destino turístico mundial, com palmeiras à beira-mar, livre de árabes pobres, com hotéis, cassinos, “resorts” de luxo e cais especiais para grandes iates. Seu nome será mudado. Em vez de Gaza Strip, será Plaza Strip, um spot internacional de luxo aberto aos nababos de todo o planeta. Naturalmente, os árabes serão acolhidos de braços abertos – desde que sejam endinheirados.

O homem da continência

John Bolton

José Horta Manzano

Na manhã do dia 29 de novembro de 2018, já eleito mas ainda não empossado, Bolsonaro recebeu em sua casa do Rio de Janeiro um emissário do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O visitante era um senhor de cabelo e bigode brancos chamado John Bolton, assessor de Segurança Nacional nomeado por Trump.

Assim que Mr. Bolton apontou no portão do jardim, um entusiasmado capitão, empertigado na soleira da porta de casa, bateu continência ao visitante(!), aquela saudação que um militar deve obrigatoriamente fazer diante de outro militar de grau mais elevado que o seu.

O primeiro a se surpreender com o gesto deve ter sido o próprio americano, desacostumado a ver as regras militares tratadas com leviandade, mas a mídia brasileira tampouco deixou passar em branco. Os comentários foram de espanto com a atitude do novo presidente do Brasil que, assim, deixou clara sua postura de curvar-se diante dos EUA, representados ali pelo emissário. Pegou supermal.

Nem o suco de caixinha e o pão com leite condensado servidos naquele petit-déjeûner em honra ao hóspede tresnoitado foram capazes de atenuar a sombra de mal-estar que pairava no ambiente. Mr. Bolton entregou a Bolsonaro o convite que Donald Trump lhe fazia para visitar os Estados Unidos.

Os anos passaram, Trump perdeu a reeleição, Bolsonaro terminou seu governo calamitoso e também perdeu a reeleição. Agora, depois de quatro anos atravessando o deserto, Donald Trump conseguiu ser de novo eleito para a presidência. Nas 24 horas que se seguiram à tomada de posse, despejou um balde de decretos carregados de ressentimento, raiva, perseguições, intolerância. Desfez medidas que seu antecessor havia implementado. Atirou a torto e a direito.

Um dos projéteis atingiu John Bolton, seu antigo assessor de Segurança Nacional, aquele que havia sido homenageado com a continência de Bolsonaro. O homem aparentemente caiu em desgraça, não se sabe exatamente por que razão.

O que se sabe é o seguinte. Em 2021, o presidente Joe Biden tinha concedido a Mr. Bolton proteção permanente do Serviço Secreto em razão de ameaças de morte proferidas pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Pois ao voltar à presidência esta semana, Trump revogou a proteção policial permanente dada a Mr. Bolton. Supõe-se que tenha feito isso por capricho, só para desfazer o que Biden tinha feito. Veja em que mãos está o governo dos EUA!

Bem, Bolsonaro que se cuide. Assim como ele mesmo faz com seu costume de abandonar amigos e correligionários feridos pelo caminho, Trump leva jeito de fazer igual.

Trump aprecia ganhadores, vencedores, os que ele chama de “winners”. Um Bolsonaro no Planalto podia até interessar Trump, mas um Bolsonaro na rua da amargura, cheio de processos e ameaçado de cadeia, periga ser atirado ao mar para alegria de tubarões e camarões.

E o barco segue.

Internacional reacionária

Viktor Orbán, Giorgia Meloni, Donald Trump, Marine Le Pen, Elon Musk

José Horta Manzano

Duas semanas atrás, num discurso proferido na Conferência dos Embaixadores em Paris, o presidente Macron se referiu a Elon Musk como o homem que “dá apoio a uma nova Internacional Reacionária. Nessa comparação, ele se referiu a duas organizações que realmente existiram: a Internacional Comunista (que viveu de 1919 a 1943) e a Internacional Socialista (fundada em 1951 e que ainda sobrevive).

Essas duas organizações buscavam favorecer a implantação do comunismo (respectivamente, do socialismo) em todos os países. Como sabemos hoje, o objetivo de nenhuma das duas foi alcançado, embora ainda haja muita gente assustada com o “perigo do socialismo”. O próprio capitão, quando conduzia(!) o Brasil, declarou na ONU que tinha livrado nosso país do perigo do socialismo.

Hoje Donald Trump toma posse do cargo que havia perdido quatro anos antes. Volta a ser presidente dos Estados Unidos por um mandato único e não renovável de quatro anos. A tradição americana não inclui convidar políticos estrangeiros para assistir às cerimônias. Assim mesmo, expoentes da extrema direita internacional fizeram questão de anunciar, com antecedência, sua presença.

Assim, os regozijos pela assunção de Trump contarão com o prestígio de três chefes de Estado ou de governo em exercício: Giorgia Meloni (primeira-ministra da Itália), Viktor Orbán (primeiro-ministro da Hungria) e nosso vizinho Javier Milei, presidente da Argentina.

Mas não é só. Eric Zemmour, ex-candidato à presidência francesa já confirmou presença. As francesas Sarah Knafo e Marion Maréchal, ambas deputadas europeias, também vão. Todos os três são conhecidos por suas posições de direita extrema, anti-imigração, isolacionistas, antimuçulmanos.

Há mais figuras peculiares. O espanhol Santiago Abascal, do partido extremista Vox, estará presente. É aquele que gostaria de enforcar os independentistas da Catalunha por crime de traição. Um espírito suave e tolerante, como se vê.

Outro que fez questão de marcar presença é o britânico Nigel Farage, um dos líderes do movimento isolacionista que culminou no (hoje pranteado) Brexit.

Um alto dignitário do partido Alternative für Deutschland estará, naturalmente, entre os políticos europeus presentes. Afinal, Elon Musk declarou que seu partido extremista, o AfD, era o único capaz de “salvar a Alemanha”. Parece mentira, mas é verdade. Faz poucos dias que isso aconteceu.

Não se sabe bem por que razão, a francesa Marine Le Pen estará ausente. Uns dizem que ela não foi convidada. Outros creem que ela procura se resguardar com vistas às próximas eleições presidenciais. Não quer perder pontos aparecendo em má companhia.

Tem um que anda choramingando pelos cantos. Fez besteira grossa e está de castigo sem poder viajar. Ah, e ele gostaria taaaanto de estar naquele clube acolhedor, no meio de tanta gente fina, todos se ajoelhando diante de um mesmo senhor. Perder uma festa dessas é punição pior que uns dias na cadeia. Ah, como Jair Bolsonaro deve estar se sentindo mal. Excluído de uma reunião da Internacional Reacionária! Ai, como dói.

Raiva do Xandão que não deu licença. Saudades do Trump e dos bons tempos de recepção em Mar-a-Lago. Medo de ser superado por Milei no coração de Trump. Tristeza de não poder se encontrar pessoalmente com Orbán para cobrar a verdadeira razão pela qual a embaixada da Hungria em Brasília não lhe concedeu asilo.

Tem nada não, fica pra outra vez. Mas… será que haverá outra vez?

Fique esperto!

José Horta Manzano

Este escriba é do tempo em que produtos alimentícios não eram etiquetados com data de validade. Nenhum artigo tinha data, nem mesmo garrafas de leite fresco. E como é que se fazia pra sobreviver sem se envenenar neste mundo tão cheio de perigos?

Pra começar, o mundo era menos perigoso, pelo menos é a lembrança que guardo. Por seu lado, visto que nunca ninguém tinha ouvido falar de etiqueta de validade, estávamos todos preparados pra resolver esse tipo de problema com nossos próprios meios.

Peixe no mercado ou na feira? Um rápido exame do olho do bicho nos indicava se era fresco ou se já começava a passar. Frutas e legumes? Um exame visual também era suficiente. Congelados? Não havia. De todo modo, ninguém tinha congelador. Leite, manteiga, queijo? Quem detectava o estado do artigo era o nariz do freguês. Uma cheirada bastava para dar o veredicto. Em vez de etiqueta com data, tínhamos o conhecimento familiar, transmitido de mãe para filha (e de pai para filho também).

Desde que a data de vencimento passou a ser indicada nos produtos, esses reflexos antigos começaram a se perder. Hoje a gente vai buscar os óculos, torce o pescoço e vira a embalagem de todos os lados até encontrar a data. A ninguém mais ocorre recorrer aos métodos antigos. Talvez o conhecimento milenar legado de geração em geração desde o tempo das cavernas, esteja se perdendo, atropelado pela comodidade da etiqueta de validade, que nada mais é que um nariz alheio cheirando nossa comida.


O planeta anda desacorçoado porque aquele bilionário cujo nome lembra um pão de açúcar, dono de Facebook e Instagram, decidiu abolir, ou pelo menos afrouxar, a restrição de notícias falsas que circularem por suas redes. Muita tinta tem sido gasta em comentários e catastróficas previsões sobre o futuro das redes. Sobreviverão, perguntam-se muitos, ou a rede vai virar uma cacofonia dos diabos, um imenso mercado persa em que todos gritam e ninguém se entende?

Olhe, com ou sem controle de “fake news”, eu diria que o ambiente já é caótico, um universo onde a gritaria é tanta que acaba impedindo a circulação da boa informação.

Muitos dos que estão há tempos mergulhados nesse universo sobreviveram até hoje e já provaram ser capazes de viver na tormenta, com mar revolto e ondas gigantescas. Para esses, a eliminação da censura prévia não fará quente nem frio. De toda maneira, sabiam se virar sozinhos.

Para os que se sentirem perdidos, meu conselho é adotarem o sistema da vovó. Não é complicado, é mais ou menos como expliquei nos primeiros parágrafos. Já que vão eliminar todas as etiquetas de validade, o que nos resta é sopesar cada pedaço de informação e só então aceitar ou rejeitar. É bom se desacostumar a engolir como verdade absoluta tudo o que vem escrito.

O novo esquema nos tira uma comodidade (o material não vem mais depurado de vícios e inverdades) porém nos abre largas possibilidades de desenvolver nosso espírito crítico. Agora podemos julgar por nós mesmos, situação que faz bem ao espírito.

No começo, não vai ser fácil. Uma vez passado o tempo de aprendizado, vai ficando mais fácil distinguir o verdadeiro do falso. No fundo, se os frequentadores das redes aproveitarem a oportunidade para aprender a mastigar a própria comida, o clima de liberou geral das redes terá sido uma dádiva.

Obrigado, Mr. Musk, Mr. Pão de Açúcar e quem mais vier!

Os rebeldes que derrubaram o ditador sanguinário

Síria – estradas de rodagem

José Horta Manzano

Uma boa metade da Síria é desértica, sem plantação, sem mato, quase sem gente. A rede ferroviária é limitada e não permite a circulação de pessoas e mercadorias por todos os rincões. Resta a malha rodoviária, cuja coluna vertebral é um eixo de 500 km, que atravessa todo o país na direção Norte-Sul e interliga as maiores cidades.

Esse eixo principal é constituído de excelentes autoestradas – com duas pistas mais acostamento em cada sentido, separados por um canteiro central. Foi essa estrada que permitiu aos rebeldes libertar, em apenas 12 dias, uma cidade atrás da outra, até chegarem a Damasco, a capital, no sul do país.

Sabe-se que a Rússia mantém bases militares no país incluindo uma base naval, a única que os russos têm no Mediterrâneo, e que lhes permite evitar os estreitos turcos. Sabe-se que a Rússia tem sido forte aliada do extinto regime do clã Al-Assad – aliás, o ditador só se segurou no poder até a semana passada em decorrência do apoio militar russo.

Aí vem o espanto. Como é possível que um grupo de rebeldes armados de simples metralhadoras tenha conseguido a façanha de passar 12 dias viajando de autoestrada aproveitando para libertar todas as grandes cidades do caminho, sem ser jamais incomodado pelo exército russo? Está aí um mistério que talvez um dia venha a ser esclarecido.

Vejo duas hipóteses. A primeira é que tenha havido um acerto prévio, combinado entre russos e rebeldes. (É sempre bom combinar com os russos.) Mas a hipótese me parece pouco plausível, visto que os rebeldes não estavam em condições de garantir aos russos a continuidade da autorização de funcionamento das bases militares. Os russos não abandonariam assim, tão facilmente, as bases instaladas na Síria.

Há uma segunda hipótese, que é a mais provável. A facilidade com que os rebeldes percorreram os 500 km de estrada em menos de 2 semanas, libertando cidades, vilas e vilarejos pelo caminho, só foi possível pelo fato de a Rússia estar impossibilitada de defender a ditadura do aliado Assad. Acompanharam os acontecimentos de braços atados, horrorizados mas impotentes. E por quê?

É que o intenso esforço militar que têm feito na guerra que estourou após terem invadido a Ucrânia os deixou mais diminuídos do que se imaginava. Tropas, aviões, tanques e munições que estavam estacionados na Síria já faz tempo que foram levados à Ucrânia. A atual presença russa na Síria é virtual, baseada numa imagem e não na realidade do terreno.

Com um único avião, a Rússia poderia ter bombardeado a autoestrada à frente dos rebeldes, derrubando duas ou três pontes ou viadutos. Isso teria parado a ofensiva, o ditador continuaria no trono e os russos permaneceriam no comando do país. É permitido supor que não tenham tido à mão esse simples avião bombardeiro.

A conclusão é que o temido exército russo está em condições piores do que se imaginava. Isso é ótima notícia para os ucranianos, num momento em que se aproximam as negociações de paz.

Carrefour

José Horta Manzano

Não é de hoje que as grandes redes de varejo europeias dão sinais de descontentamento com o acelerado desmatamento da Amazônia. O problema está ‘dans l’air du temps’ (em sintonia com a atualidade). Na França, país em que qualquer pequeno acontecimento tem potencial de gerar grande polêmica, esse problema do rápido encolhimento da mata tropical é ressentido com maior intensidade.

Nestes dias em que o tratado entre o Mercosul e a União Europeia parece que vai desencantar – depois de mais de 20 anos! – os agricultores franceses começam a sentir-se ameaçados. O medo deles é difuso, um tanto irracional. Está mais pra temor do desconhecido do que receio de uma ameaça real.

Nenhum deles se preocupou em ler o texto do tratado. O que planta hortaliças tem medo de ver o mercado inundado por salsinha e rabanetes uruguaios a preço de banana. O que colhe abricô está apavorado de perder mercado para os abricôs argentinos. O que está criando uma dúzia de galinhas e três porcos tem pesadelos à noite só de pensar na invasão de carne brasileira a preços de liquidação.

Não fica bem montar no trator e fazer carreatas de protesto, trancando as estradas do país, para reclamar de rabanetes e salsinha. Já a carne é excelente motivo. Inventou-se, não sei por que motivo, a balela de que a carne brasileira é produzida segundo normas de qualidade inferiores às normas francesas, e que os bois são engordados à base de hormônios. O mundo agrícola se agarrou a essa notícia falsa.

Faz semanas que o mundo agrícola francês está em ebulição. Não se passa um dia sem alguma manifestação em algum lugar. Monsieur Alexandre Bompard, diretor-geral do grupo Carrefour, farejou excelente ocasião para ficar bem-visto pelos agricultores e para, ao mesmo tempo, promover sua empresa. Mandou carta aos sindicatos agrícolas e repicou nas redes seu compromisso de não vender carne da América do Sul em seus supermercados.

O problema é que o Monsieur não mediu as consequências de sua promessa. Não lhe passou pela cabeça que sua filial brasileira é responsável por quase 25% das vendas do grupo e que a carta enviada aos sindicatos franceses podia vazar e até ecoar no Brasil. Pois vazou e ecoou.

No Brasil, o clamor popular – justificado – foi tal que o CEO logo percebeu a catástrofe que tinha causado. Mais que rápido, curvou-se e mandou uma carta de desculpas a nosso ministro da Agricultura. Na missiva, pede desculpas, elogia a carne brasileira, reconhece que as normas de produção são de Primeiro Mundo, mas não desmente a afirmação que havia feito, de que suas lojas francesas não vão mais vender carne brasileira. Portanto, ficou parecendo pedido de desculpas de mentirinha, só pra enganar ministro.

Outra coisa que Monsieur Bompard não disse é se sua empresa pretende continuar a importar costeletas de carneiro da Nova Zelândia, produzidas não se sabe como, mas que chegam às gôndolas francesas baratinhas, baratinhas.

Vitória da diplomacia brasileira

José Horta Manzano

Leio no jornal de hoje que a cúpula do G20 foi uma “vitória da diplomacia brasileira”. Tenho minhas reservas. Podiam dizer, com mais propriedade, que foi uma vitória da organização do evento, que:

não sofreu nenhum tropeço;

policiou por terra, mar e ar, abatendo drones intrusos;

preocupada com possíveis dificuldades masticatórias ligadas à idade avançada de alguns chefes de Estado, mandou servir-lhes pirarucu (que é peixe) e carne desfiada (que é molinha);

geriu com maestria o alojamento dos milhares de participantes, não deixando nenhum deles ao relento nas areias de Copacabana;

tocou com profissionalismo a complicada tradução multilíngue e simultânea das falas e dos discursos pronunciados em todas as línguas de Babel;

conseguiu convencer os cariocas a esvaziarem ruas e avenidas, sem fazer cara feia, para ceder passagem a alguns dos grandes deste mundo;

coordenar a presença de nossos graúdos com os graúdos de fora que pousavam ou decolavam do Galeão e requeriam uma acolhida à altura da ocasião. Há participantes que vieram de muito longe: alguns estão desde ontem voando de volta a seu país, onde só pousarão nesta quarta-feira à noitinha, hora de Brasília.

Entre outros, que me escapam neste momento, foram esses os pequenos ou grandes detalhes que compuseram a feira de vaidades que o Rio acolheu.

Quanto ao brado ufanista de “vitória da diplomacia brasileira”, acho-o exagerado. Quando o evento se abriu, já fazia dias que assessores e colaboradores tresnoitavam na confecção de um “comunicado final” que agradasse a todos os participantes ou, pelo menos, que não desagradasse frontalmente a nenhum deles.

É obra quase impossível. Em tese, há tantas posições quantos são os participantes. Todas divergentes entre si. Nessas horas, a solução é limar asperezas, aplainar desacordos, arredondar cantos, até que o texto se torne aceitável por todos. O resultado dessa busca de um denominador comum são comunicados finais insossos, pasteurizados, que não comprometem ninguém, que excluem dissensos e pontos de atrito.

Não se falou dos massacres provocados pela invasão da Ucrânia pela Rússia, não se deu importância aos massacres entre árabes e judeus. Sobraram vagas promessas de trabalhar pela erradicação da fome no planeta, arroz com feijão que ressurge a cada cúpula, seja ela qual for.

É o caso de se perguntar para quê servem essas cúpulas. Não tenho resposta exata e cravada, mas eu diria que, no mundo internetizado em que vivemos, não têm mais grande utilidade. Tudo o que se pode discutir em torno daquela imensa mesa, redonda ou em ferradura, pode ser debatido, com vantagem, numa videoconferência. Que, aliás, sai imensamente mais barata.

Nos anos 1970 e 1980, as reuniões do G7 (que já foi G5, G6, G8) eram um acontecimento. Numa era pré-internet, conferências presenciais eram indispensáveis. Naqueles anos, talvez, alguma decisão importante tenha sido tomada na ocasião desses encontros.

Hoje não é mais assim. Há grupos demais, conferências demais, reuniões demais. O que é demais cansa. Cada novo evento desse tipo suga a importância do anterior. Saibam meus caros leitores que, na Europa, não ouvi nem li uma linha sobre esse G20. Nada. Ninguém aqui ficou sabendo da extraordinária “vitória da diplomacia brasileira”.

Quando dois se reúnem, temos discussão séria e pra valer. É um pingue-pongue radical e frutuoso: se houver vontade de entrar num acordo, uma meta comum vai aparecer. Reunião de três participantes pode até funcionar, embora já não seja a mesma coisa. Mais que isso, complica.

Por outro ângulo, quando há uma certa uniformidade entre países participantes (PIB per capita, níveis de pobreza, avanço tecnológico razoavelmente compatíveis), as discussões tendem a ser menos ásperas e mais produtivas.

O chamado G20 é composto por países de grande disparidade de população, nível econômico, sistema de governo. Há democracias e autocracias medievais como Arábia Saudita e Rússia. Há países leigos e outros que se encaminham para tornar-se uma teocracia como Turquia e EUA. Há fortes diferenças em matéria de PIB (o da China é 37 vezes maior que o da África do Sul).

Nenhuma declaração de guerra jamais sairá dessas cimeiras. Nem tratados de paz, que necessitam seleção específica de participantes. Desse tipo de reunião, seja de G20, G7, Brics & congêneres, só podem sair esparadrapos – insuficientes para conter sangrias.

Mas já que divertem o povo e confortam o ego de organizadores e participantes, que se divirtam todos.

O palavreado de Milei

José Horta Manzano

Num aprendizado benfeito, o aprendiz que se aplica de verdade chega, às vezes, a superar o mestre.

Tome por exemplo Donald Trump, presidente eleito dos EUA. Seu palavreado tem feito sucesso entre os que apreciam um governo autoritário. O personagem é mentiroso contumaz, dono de um discurso recheado de lorotas. Um dia, falando em público na época do covid, revelou que tinha o hábito diário de tomar creolina(*) como preventivo contra a doença. Pois sim… (como se dizia antigamente para demonstrar que não dava pra acreditar).

Tremendas mentiras, sim. Apesar delas, Trump não é conhecido por fazer discursos recheados de insultos e palavrões. Pode ser que escape alguma coisinha aqui ou ali, mas não é a tônica.

Nosso Jair Bolsonaro nacional, admirador declarado de Trump, tentou adotar o estilo oratório do ídolo. Só que seu baú de expressões é pobre e sua mente, pouco criativa. Em decorrência, decerto por falta de palavras, não conseguiu elevar o nível de suas invectivas. Seus quatro anos na Presidência escorreram sem que ele fosse além de palavrões rasteiros, daqueles de boteco de beira de estrada. Foi incapaz de estruturar um raciocínio sequer.

Virada a página de Bolsonaro, novo aprendiz apareceu na Argentina. Chama-se Javier Milei. Mais jovem, mais vigoroso e mais instruído que o capitão, conseguiu juntar, em seus discursos, a agressividade de Trump e a vulgaridade de Bolsonaro. Mas não se contentou de apenas continuar vivendo de carona, aboletado no calhambeque dos tutores. Com sua motosserra, alargou a picada a fim de poder trafegar com seu caudal de impropérios.

Assustados com seu palavreado, catedráticos da própria universidade em que Milei se formou vêm publicando artigos no site da instituição, textos que acabam repercutindo na mídia argentina. Karina Galperín, diretora-geral de estudos da universidade, declarou que a luta selvagem de Milei pela desregulamentação atingiu seu discurso político. O jornal La Nación analisou um discurso pronunciado pelo presidente no mês passado e descobriu que, em 70 minutos de fala, o discursante cometeu nada menos que 29 agressões.

Aqui estão alguns dos insultos, cuja variedade deixa Trump e Bolsonaro comendo poeira: casta podre, vendidos, kirchneristas, ratazanas, bando de delinquentes, ladrões, excremento humano(!), mentirosos, traidores, covardes, imbecis, ratos miseráveis, bunda suja, degenerados fiscais, esterco imundo(!).

Essa moda de se comportar há de corresponder a uma tendência mundial. Ainda outro dia, a cidade de São Paulo passou pertinho de mandar para o segundo turno um forasteiro aventureiro que parecia ter incorporado o espírito do presidente argentino. Desta vez, foi por pouco, mas ninguém garante que, da próxima, o resultado não seja diferente.

Os argentinos usam um verbo cujo significado, à primeira vista, nos escapa: putear. Em política, se usa para definir um palavreado chulo, rasteiro, recheado de palavrões. A imprensa informa que Milei sempre foi fã desse modo de se exprimir. Só que, enquanto era um personagem obscuro, o problema não era tão grave. Agora, que se tornou chefe do Estado, o eco chega mais longe.

Como se vê, parece que a puteada está se tornando o dialeto habitual dos novos dirigentes autoritários, uma política de comunicação eficiente e aceita pelos eleitores. Os discípulos de Trump estão se saindo melhor que o mestre.

(*) Não me lembro bem se Trump disse creolina, benzina ou querozene. Tanto faz, dá no mesmo: seja qual for o desinfetante, a mentira da afirmação é ululante.

Lembro a meus queridos leitores que “creolina” não tem nada a ver com as palavras hoje proibidas por habitarem no index verborum prohibitorum. Creolina não tem a ver com raça. É marca comercial de um antigo desinfectante e antisséptico feito à base de creosoto, daí o nome. Não sei se ainda é produzido.