O general ministro

José Horta Manzano

Posse?
Toda a mídia deu notícia de que o general Eduardo Pazuello é o novo ministro da Saúde. Todos, sem exceção, falaram da posse do novo ministro. Quando se olha de perto, falar em tomada de posse não é a melhor maneira de descrever o que ocorreu.

Embora o general carregasse o incômodo adjetivo ‘interino’ diante do título, já fazia quatro meses que era o ministro da Saúde de facto. A não ser que tenha passado quatro meses como figurante inativo – o que não seria surpreendente num governo em que nada mais espanta –, Pazuello já havia tomado posse do cargo há quatro meses, ainda que interinamente.

Portanto, não lhe foi dada a posse do cargo, que essa ele já tinha. A cerimônia solene marcou sua efetivação no cargo. Agora, efetivo, livrou-se do epíteto e mandou o ‘interino’ para a lata do lixo.

De toda maneira, tomar posse é força de expressão. Pode-se tomar posse de um livro, de uma casa, de um objeto, mas não de um cargo público. Cargos públicos são, por natureza, passageiros. É verdade que certos figurões se agarram ao cargo como se dele se tivessem apossado. Há deputados que chegaram a ficar três décadas no cargo. Mas essa é outra história.

Onomástico
Pazuello é um sobrenome de evidente origem ibérica. Na língua galega, falada nas províncias do noroeste da Espanha, a raiz latina Palatium evoluiu para pazo, que equivale a nosso paço. Designa um solar, uma casa suntuosa.

Pazuello seria, pois, o diminutivo de pazo = um pequeno solar, um palacete. O nome é curiosamente de formação híbrida. Embora o núcleo seja galego, o sufixo uello é castelhano legítimo. Em galego, faz-se o diminutivo com o sufixo iño, que corresponde a nosso inho. Portanto, seria de esperar um Paziño (Pazo + iño).

Entre a cruz e a espada

Híbrido ou não, neste ponto, surge um problema. O sobrenome é raríssimo. Tão raro que, vasculhando a lista telefônica da Espanha inteira, não se encontra ninguém que o ostente.

Por seu lado, ele aparece no Dicionário Sefaradi de Sobrenomes, obra compilada por Paulo V. Faiguenboim & alia, ao lado de variantes tais como Pazuelo (com um L só) e Pazuelos (com S no final).

Sefaradis são os judeus espanhóis. Eles foram expulsos do país em 1492 pelos reis católicos, o que explica o desaparecimento do nome na Espanha. É concebível que o general seja descendente de uma dessas famílias forçadas ao exílio.

Expressão
É interessante como um assunto puxa outro. Falando em expulsão dos judeus ibéricos, me veio à mente a expressão «Entre a cruz e a caldeirinha». Refere-se justamente àqueles infelizes expulsos de repente da terra que lhes dava abrigo havia séculos e na qual se sentiam integrados.

Quando foi decidido o desterro da comunidade judaica, foi dada a seus membros uma única opção: se quisessem ficar, teriam de se converter ao cristianismo. Era condição obrigatória para a permanência. Quem se recusasse a se converter e teimasse em ficar seria entregue aos cuidados da terrível Inquisição, cujos métodos não eram lá de grande delicadeza.

Eis por que se diz que os judeus foram postos «Entre a cruz e a caldeirinha» ou também «Entre a cruz e a espada», expressões que hoje continuam significando estar diante de duas opções ruins.

É permitido crer que, naquela ocasião, os antepassados de nosso ministro (agora efetivo) tenham optado por deixar o país para sempre.

A ver navios

José Horta Manzano

Como tantas outras expressões, também esta tem origem incerta, pouco evidente, perdida na poeira dos séculos. “Estar a ver navios” ou “ficar a ver navios” tem sotaque luso; fosse nossa, é provável que fosse “ficou vendo navios”. Assim, pode-se garantir que tenha surgido em Portugal.

No uso popular, quando se diz de alguém que “ficou a ver navios”, informa-se que esse alguém sofreu frustração, ficou decepcionado. Equivale a dizer que “voltou de mãos abanando”. Encontrei numerosas hipóteses para explicar sua origem – nenhuma delas muito convincente, por sinal.

A mais difundida é a que liga a expressão à saga de Dom Sebastião, aquele jovem rei de Portugal desaparecido em 1578 na Batalha de Alcácer-Quibir (Ksar el-Kebir, no atual Marrocos). Inconformados com o sumiço do rei, provavelmente morto no campo de luta, integrantes do establishement português puseram-se a esperar por sua volta. Esse movimento dito sebastianista foi persistente, atravessou séculos; prolongou-se até um tempo em que o bom senso indica que o rei já teria morrido de velhice. Hoje arrefeceu.

Segundo esta hipótese, multidões de lisboetas subiam ao Alto de Santa Catarina e lá permaneciam, a fitar o horizonte, pra ver se descortinavam a volta do barco do rei desaparecido. Fico um tanto desconfiado com essa lenda. Será que, em Lisboa, havia “multidões” sem outra ocupação que não fosse subir o morro pra passar horas olhando paisagem? A vista do mar é certamente linda, mas, assim mesmo, é difícil acreditar neste conto de fadas.

Há outras hipóteses. Uma delas faz referência a um rico armador da cidade do Porto, um certo Pedro Sem, que teve a péssima ideia de desafiar o Todo-Poderoso a fazê-lo empobrecer. Naquele exato instante, toda a sua frota naufragou ali, sob seus olhos, sem mais nem menos, deixando-o a ver navios indo ao fundo. Esta fantástica história me faz lembrar Jonas, o personagem bíblico que foi engolido por uma baleia, ficou três dias e três noites em seu ventre e, em seguida, foi regurgitado. Inteiro e com vida. Uma história fabulosa (no sentido de fábula).

by Louis-Philippe Crépin (1772-1851), artista francês

Outra explicação nos faz de novo subir ao Alto de Santa Catarina. Conta que armadores portugueses da época da expansão colonial lá permaneciam a perscrutar o horizonte à espera das caravelas que retornavam carregadas de mercadoria. Ainda que fosse verdade, não vejo relação entre uma coisa e outra. Se esperavam a chegada dos navios para, em seguida, descer ao porto para comerciar, onde está a decepção contida em “ficar a ver navios”?

Quem procurar encontrará ainda mais hipóteses, umas mais cabeludas que as outras. Não tenho pretensão de ter inventado a pólvora, mas acredito que a origem há de ser uma situação bem mais simples. Nada de Dom Sebastião ou de caravelas de retorno das colônias. Imagino origem próxima do dia a dia dos portugueses daquele tempo.

Tenho uma proposição de hipótese a ser acrescentada à lista das candidatas a verdade incontestável. Portugal é país voltado para o mar. Desde sempre, a pesca tem tido peso importante em sua economia. Fico imaginando um grupo de meia dúzia de pescadores que deixem a costa num barquinho e se aventurem a jogar rede mar adentro. Passado o dia, voltam com um par de sardinhas, nada mais.

“– Então, António, como foi a pesca?”

“– Péssima! Não deparámos nenhum cardume. Passámos o dia a ver navios.”

De tanto ser repetida, a expressão entrou para a língua com o sentido de voltar decepcionado. Se não for verdade, bem que poderia ser.

Tá na hora

José Horta Manzano

A partir de ontem, 27 de out°, a Europa está mais próxima do Brasil. Somente três horas nos separam. Inglaterra, Irlanda e Portugal estão ainda mais próximos: a apenas duas horas de Brasília.

Por falar nisso, você já reparou como, em português, as expressões que mencionam a hora hesitam entre o singular e o plural? Em princípio, não há razão lógica para usar um ou outro. As locuções que utilizamos atualmente são o extrato de um falar que vem evoluindo há muitas centenas de anos. Vejamos:

Singular:
O relógio da igreja deu a hora
e não “o relógio da igreja deu as horas”

Plural:
Que horas são?
e não “que hora é?”

Singular:
Saiu em cima da hora
e não “saiu em cima das horas”

Plural:
Chegou a altas horas (= de madrugada)
e não “chegou a alta hora”

Singular:
É hora de ir embora!
e não “são horas de ir embora!”

Plural:
Isto são horas? (diz-se quando alguém chega tarde)
raramente “isto é hora?”

Singular:
Cobrar por hora
e não “cobrar por horas”

Relógio solar

Relógio solar

Plural:
Amigo se conhece nas horas difíceis
e não “amigo se conhece na hora difícil”

Singular:
Pela hora da morte (= muito caro)
e não “pelas horas da morte”

Plural:
Ficamos batendo papo até horas mortas
e não “ficamos batendo papo até hora morta”

Singular:
Fazer hora extra
e não “fazer horas extras”

Plural:
Fazer um bico nas horas vagas
e não “fazer um bico na hora vaga”

Singular:
O tomate está pela hora da morte
e não “o tomate está pelas horas da morte”

Plural:
Ele chegou a horas (=chegou pontualmente)
e não “ele chegou a hora”

Singular:
Pela hora oficial, são três da tarde
e não “pelas horas oficiais, são três da tarde”

Plural:
Nunca se esquece das horas canônicas (das orações diárias)
e não “nunca se esquece da hora canônica”

Singular:
É hora do rush
e não “são horas do rush”

Plural:
A boas horas (=no momento adequado)
e não “a boa hora”

Singular:
Foi-se embora (= em boa hora)
e não “foi-se emboras (= em boas horas)”

Plural:
Ter o estômago a dar horas (estar com fome)
e não “ter o estômago a dar hora”

Singular:
Fazer hora
e não “fazer horas”

E vamos parando por aqui, que está na hora.