Mundo

José Horta Manzano

Veio ao mundo numa família pra lá de modesta. Esforçado, conseguiu superar as dificuldades. Ao fim da adolescência, ganhou o mundo. Com trabalho e boa dose de sorte, chegou a poupar um pouco. Não era um mundo de dinheiro, mas dava pro gasto. Afinal, economizar um pouquinho não é nada do outro mundo.

Em momentos de folga, enquanto outros deixavam o espírito vagar no mundo da lua, ele sonhava em viajar, correr mundo. Para concretizar o sonho, havia de mover mundos e fundos sem se deixar distrair. E seguiu a boa receita: sempre correto, passou ao largo de toda tentação do baixo mundo.

Assim que a poupança atingiu o montante necessário, comprou uma passagem de avião e caiu no mundo. Pra deixar amigos e conhecidos com água na boca, contou a novidade pra meio mundo. Em suas viagens, o que mais apreciou foi o Velho Mundo. Não se sentia atraído por países do Terceiro Mundo – sempre preferiu os do Primeiro Mundo.

Mesmo assim, ladrão há por toda parte. Um dia, foi assaltado. Levaram-lhe dinheiro vivo, cartões de crédito, passaporte e toda a bagagem – perda total. Seu mundo veio abaixo.

Precisou pedir asilo na embaixada, que o acolheu gelidamente. Com muita vergonha, foi obrigado a aceitar a passagem de retorno que lhe ofereciam. Voltou com uma mão na frente, outra nas costas. O pior mesmo foi quando todo o mundo ficou sabendo. O final da aventura foi melancólico. No aeroporto, em vez de um mundaréu de gente, não havia um gato pingado pra abraçá-lo. Mundo cruel…

Rindo da desgraça

José Horta Manzano

A pandemia tem causado stress no mundo todo. Mas a pressão não é uniforme e pode variar conforme as circunstâncias específicas de cada país. Na maior parte da Europa, o que mais tem chateado são os intermináveis períodos de confinamento. As autoridades não têm sido nada camaradas nesse aspecto. Quando decretam um confinamento, não brincam em serviço. A ordem é para a população permanecer em casa mesmo.

Pra sair, precisa levar no bolso uma atestação indicando o motivo da escapada. São poucas as razões aceitas. Entre elas: ir ao (ou voltar do) trabalho, ir ao (ou voltar do) médico, dar assistência a alguém entrevado ou doente, espichar as pernas num raio de 1km em volta da residência durante meia hora. O atestado só vale para uma saída e tem de estar preenchido e assinado antes de eventual controle. Caso o cidadão seja abordado e o atestado falte, a multa chega a R$700; reincidentes pagam o dobro. Não é mole.

Muitos fatos novos apareceram este ano, para os quais não havia palavras. O povo tratou logo de inventá-las. Algumas são mostrengos, mas há pequenas pérolas de inventividade. Em balanço de fim de ano, a mídia de língua francesa (França, Suíça, Bélgica e Canadá) destacou algumas expressões. Algumas são novas, enquanto outras, antigas, passaram a ser intensamente utilizadas.

covid          covid
coronavirus    coronavírus
quarantaine    quarentena
antimasque     antimáscara(os que se opõem à máscara)
antivax        antivacina
isolement      isolamento
faux positif   falso positivo
faux négatif   falso negativo
présentiel     presencial
coronapéro     aperô virtual(happy hour sem contacto)
bulle sociale  bolha social
distanciel     distancial
confinement    confinamento
déconfinement  desconfinamento

A casa editora do Robert, dicionário tão popular quanto nosso Aurélio, também entrou na dança. Incentivou o público a inventar palavras para descrever realidades trazidas pela epidemia. Normalmente, é malvisto criar palavras por conta própria. Neste caso, no entanto, visto que é o respeitado Robert que autoriza, ninguém será criticado.

Já há centenas de sugestões de leitores. A maioria são intraduzíveis, por serem composições de palavras. Umas poucas aguentam a transposição para nossa língua. Por exemplo, mascourir (=mascorrer), que é quando a gente volta pra casa correndo porque se esqueceu de pôr a máscara obrigatória. Ou ainda as reuniões de hydroalcooliques anonymes (=alcoolgélicos anônimos); o trocadilho é atroz, mas o resultado é simpático.

Tem mais uma que me diverte. Os franceses criaram a expressão gestes barrière (=gestos barreira) para dar nome ao conjunto de providências que cada um tem de tomar para conter o alastramento da doença: usar máscara, lavar as mãos, manter distância. Alguém com espírito mais criativo sequestrou a expressão e a transformou em gestes carrière (=gestos carreira). É quando, numa reunião Zoom, o indivíduo veste uma bonita camisa para dar aos superiores a impressão de que é pessoa séria, enquanto, na parte de baixo, está de calção e chinelo de dedo.

Bem, caros amigos, o que eu contei até aqui foi o que espirrou da válvula de escape de populações conscientes de que suas autoridades estão cuidando da saúde e do bem-estar dos habitantes. Já no Brasil, as coisas não são exatamente assim. Enquanto a vacinação já começou em uma quarentena de países, não sabemos ainda nem que vacina nos será proposta. Como consequência, não temos a menor ideia de quando será iniciada a imunização dos brasileiros. Janeiro? Fevereiro? Março? Abril? Como já disse o outro, «Pra que tanta ansiedade?».

Proponho seguir o exemplo interessate dos francofalantes. Mas não precisa inventar palavras para a epidemia e seu entorno, que essas já têm nome. No Brasil, é simples. Em vez de espremer as meninges, costumamos importar o que nos vem do inglês. E engolimos tudo cru, com casca e tudo. Lockdown, homeschooling, self isolation, home office, social distancing – e o problema está liquidado.

Não. Proponho criar palavras e expressões para contar os comportamentos que povoam estes tempos estranhos. Nossa coleção de adjetivos não dá conta, por exemplo, de descrever as barbaridades cometidas por nosso presidente. Repórteres, jornalistas e analistas esgotaram o reservatório contido nos dicionários; já não há expressões suficientemente eloquentes.

Quando é que se viu, no passado, o chefe do Estado Brasileiro ser chamado (com propriedade) de idiota, apalermado, imbecil, parvo, tapado, irresponsável? Pois esses qualificativos, antes impensáveis, estão gastos de tanto ser usados atualmente. Já não bastam. Que a criatividade da nação desperte e se manifeste! Cartas para a Redação, por favor.

O general ministro

José Horta Manzano

Posse?
Toda a mídia deu notícia de que o general Eduardo Pazuello é o novo ministro da Saúde. Todos, sem exceção, falaram da posse do novo ministro. Quando se olha de perto, falar em tomada de posse não é a melhor maneira de descrever o que ocorreu.

Embora o general carregasse o incômodo adjetivo ‘interino’ diante do título, já fazia quatro meses que era o ministro da Saúde de facto. A não ser que tenha passado quatro meses como figurante inativo – o que não seria surpreendente num governo em que nada mais espanta –, Pazuello já havia tomado posse do cargo há quatro meses, ainda que interinamente.

Portanto, não lhe foi dada a posse do cargo, que essa ele já tinha. A cerimônia solene marcou sua efetivação no cargo. Agora, efetivo, livrou-se do epíteto e mandou o ‘interino’ para a lata do lixo.

De toda maneira, tomar posse é força de expressão. Pode-se tomar posse de um livro, de uma casa, de um objeto, mas não de um cargo público. Cargos públicos são, por natureza, passageiros. É verdade que certos figurões se agarram ao cargo como se dele se tivessem apossado. Há deputados que chegaram a ficar três décadas no cargo. Mas essa é outra história.

Onomástico
Pazuello é um sobrenome de evidente origem ibérica. Na língua galega, falada nas províncias do noroeste da Espanha, a raiz latina Palatium evoluiu para pazo, que equivale a nosso paço. Designa um solar, uma casa suntuosa.

Pazuello seria, pois, o diminutivo de pazo = um pequeno solar, um palacete. O nome é curiosamente de formação híbrida. Embora o núcleo seja galego, o sufixo uello é castelhano legítimo. Em galego, faz-se o diminutivo com o sufixo iño, que corresponde a nosso inho. Portanto, seria de esperar um Paziño (Pazo + iño).

Entre a cruz e a espada

Híbrido ou não, neste ponto, surge um problema. O sobrenome é raríssimo. Tão raro que, vasculhando a lista telefônica da Espanha inteira, não se encontra ninguém que o ostente.

Por seu lado, ele aparece no Dicionário Sefaradi de Sobrenomes, obra compilada por Paulo V. Faiguenboim & alia, ao lado de variantes tais como Pazuelo (com um L só) e Pazuelos (com S no final).

Sefaradis são os judeus espanhóis. Eles foram expulsos do país em 1492 pelos reis católicos, o que explica o desaparecimento do nome na Espanha. É concebível que o general seja descendente de uma dessas famílias forçadas ao exílio.

Expressão
É interessante como um assunto puxa outro. Falando em expulsão dos judeus ibéricos, me veio à mente a expressão «Entre a cruz e a caldeirinha». Refere-se justamente àqueles infelizes expulsos de repente da terra que lhes dava abrigo havia séculos e na qual se sentiam integrados.

Quando foi decidido o desterro da comunidade judaica, foi dada a seus membros uma única opção: se quisessem ficar, teriam de se converter ao cristianismo. Era condição obrigatória para a permanência. Quem se recusasse a se converter e teimasse em ficar seria entregue aos cuidados da terrível Inquisição, cujos métodos não eram lá de grande delicadeza.

Eis por que se diz que os judeus foram postos «Entre a cruz e a caldeirinha» ou também «Entre a cruz e a espada», expressões que hoje continuam significando estar diante de duas opções ruins.

É permitido crer que, naquela ocasião, os antepassados de nosso ministro (agora efetivo) tenham optado por deixar o país para sempre.

A ver navios

José Horta Manzano

Como tantas outras expressões, também esta tem origem incerta, pouco evidente, perdida na poeira dos séculos. “Estar a ver navios” ou “ficar a ver navios” tem sotaque luso; fosse nossa, é provável que fosse “ficou vendo navios”. Assim, pode-se garantir que tenha surgido em Portugal.

No uso popular, quando se diz de alguém que “ficou a ver navios”, informa-se que esse alguém sofreu frustração, ficou decepcionado. Equivale a dizer que “voltou de mãos abanando”. Encontrei numerosas hipóteses para explicar sua origem – nenhuma delas muito convincente, por sinal.

A mais difundida é a que liga a expressão à saga de Dom Sebastião, aquele jovem rei de Portugal desaparecido em 1578 na Batalha de Alcácer-Quibir (Ksar el-Kebir, no atual Marrocos). Inconformados com o sumiço do rei, provavelmente morto no campo de luta, integrantes do establishement português puseram-se a esperar por sua volta. Esse movimento dito sebastianista foi persistente, atravessou séculos; prolongou-se até um tempo em que o bom senso indica que o rei já teria morrido de velhice. Hoje arrefeceu.

Segundo esta hipótese, multidões de lisboetas subiam ao Alto de Santa Catarina e lá permaneciam, a fitar o horizonte, pra ver se descortinavam a volta do barco do rei desaparecido. Fico um tanto desconfiado com essa lenda. Será que, em Lisboa, havia “multidões” sem outra ocupação que não fosse subir o morro pra passar horas olhando paisagem? A vista do mar é certamente linda, mas, assim mesmo, é difícil acreditar neste conto de fadas.

Há outras hipóteses. Uma delas faz referência a um rico armador da cidade do Porto, um certo Pedro Sem, que teve a péssima ideia de desafiar o Todo-Poderoso a fazê-lo empobrecer. Naquele exato instante, toda a sua frota naufragou ali, sob seus olhos, sem mais nem menos, deixando-o a ver navios indo ao fundo. Esta fantástica história me faz lembrar Jonas, o personagem bíblico que foi engolido por uma baleia, ficou três dias e três noites em seu ventre e, em seguida, foi regurgitado. Inteiro e com vida. Uma história fabulosa (no sentido de fábula).

by Louis-Philippe Crépin (1772-1851), artista francês

Outra explicação nos faz de novo subir ao Alto de Santa Catarina. Conta que armadores portugueses da época da expansão colonial lá permaneciam a perscrutar o horizonte à espera das caravelas que retornavam carregadas de mercadoria. Ainda que fosse verdade, não vejo relação entre uma coisa e outra. Se esperavam a chegada dos navios para, em seguida, descer ao porto para comerciar, onde está a decepção contida em “ficar a ver navios”?

Quem procurar encontrará ainda mais hipóteses, umas mais cabeludas que as outras. Não tenho pretensão de ter inventado a pólvora, mas acredito que a origem há de ser uma situação bem mais simples. Nada de Dom Sebastião ou de caravelas de retorno das colônias. Imagino origem próxima do dia a dia dos portugueses daquele tempo.

Tenho uma proposição de hipótese a ser acrescentada à lista das candidatas a verdade incontestável. Portugal é país voltado para o mar. Desde sempre, a pesca tem tido peso importante em sua economia. Fico imaginando um grupo de meia dúzia de pescadores que deixem a costa num barquinho e se aventurem a jogar rede mar adentro. Passado o dia, voltam com um par de sardinhas, nada mais.

“– Então, António, como foi a pesca?”

“– Péssima! Não deparámos nenhum cardume. Passámos o dia a ver navios.”

De tanto ser repetida, a expressão entrou para a língua com o sentido de voltar decepcionado. Se não for verdade, bem que poderia ser.

Tá na hora

José Horta Manzano

A partir de ontem, 27 de out°, a Europa está mais próxima do Brasil. Somente três horas nos separam. Inglaterra, Irlanda e Portugal estão ainda mais próximos: a apenas duas horas de Brasília.

Por falar nisso, você já reparou como, em português, as expressões que mencionam a hora hesitam entre o singular e o plural? Em princípio, não há razão lógica para usar um ou outro. As locuções que utilizamos atualmente são o extrato de um falar que vem evoluindo há muitas centenas de anos. Vejamos:

Singular:
O relógio da igreja deu a hora
e não “o relógio da igreja deu as horas”

Plural:
Que horas são?
e não “que hora é?”

Singular:
Saiu em cima da hora
e não “saiu em cima das horas”

Plural:
Chegou a altas horas (= de madrugada)
e não “chegou a alta hora”

Singular:
É hora de ir embora!
e não “são horas de ir embora!”

Plural:
Isto são horas? (diz-se quando alguém chega tarde)
raramente “isto é hora?”

Singular:
Cobrar por hora
e não “cobrar por horas”

Relógio solar

Relógio solar

Plural:
Amigo se conhece nas horas difíceis
e não “amigo se conhece na hora difícil”

Singular:
Pela hora da morte (= muito caro)
e não “pelas horas da morte”

Plural:
Ficamos batendo papo até horas mortas
e não “ficamos batendo papo até hora morta”

Singular:
Fazer hora extra
e não “fazer horas extras”

Plural:
Fazer um bico nas horas vagas
e não “fazer um bico na hora vaga”

Singular:
O tomate está pela hora da morte
e não “o tomate está pelas horas da morte”

Plural:
Ele chegou a horas (=chegou pontualmente)
e não “ele chegou a hora”

Singular:
Pela hora oficial, são três da tarde
e não “pelas horas oficiais, são três da tarde”

Plural:
Nunca se esquece das horas canônicas (das orações diárias)
e não “nunca se esquece da hora canônica”

Singular:
É hora do rush
e não “são horas do rush”

Plural:
A boas horas (=no momento adequado)
e não “a boa hora”

Singular:
Foi-se embora (= em boa hora)
e não “foi-se emboras (= em boas horas)”

Plural:
Ter o estômago a dar horas (estar com fome)
e não “ter o estômago a dar hora”

Singular:
Fazer hora
e não “fazer horas”

E vamos parando por aqui, que está na hora.