Trisal

José Horta Manzano

A criatividade do brasileiro já foi maior. No século passado, conceitos novos eram quase sempre traduzidos ou adaptados para nossa maneira de falar. O simples mixer deu liquidificador, incômoda palavra de seis sílabas que se enraizou na língua e não se foi. Já hoje, um air fryer se diz air fryer mesmo, cru e com casca. Ninguém se dá mais ao trabalho de traduzir nem de adaptar.

Hot dog, iguaria conhecida no mundo inteiro com o nome original, virou cachorro quente entre nós, numa tradução jocosa e genial. Sandwich, que guardou a grafia original por toda parte, se naturalizou como sanduíche em nossa terra. O mesmo aconteceu com as francesas maillot, embrayage e capot, que se tornaram respectivamente maiô, embreagem e capô.

Apesar da aparente preguiça que atinge os habitantes de uma Pindorama (que, acreditem, já foi morna e úmida e não escaldante como atualmente), por vezes uma centelha ilumina a penumbra e nos brinda com uma palavra nova. E original.

É o caso de trisal, que dá nome a uma curiosa composição conjugal que, na minha opinião, é fadada a ter vida curta. Falo da composição conjugal, não da palavra em si. A palavra pode até ser que continue em uso por décadas, mas não acredito que um trisal aguente décadas.

Trisal há de ser conceito recente, visto que meu dicionário Houaiss, que já soprou 23 velinhas, não abona esse termo. É palavra que tem seu charme, goste-se ou não. Imagino que seja produto nacional – pelo menos, nunca vi termo correspondente em outra língua. Como palavra de difícil tradução, entra para o mesmo balaio que saudade e conceitos de igual jaez.

Estes dias, o trisal, deixou o campo lúdico para sapatear no tablado da injúria. A ofensa pessoal gratuita é um vício feio e inútil que, incentivado pelo imediatismo da internet, foi plenamente adotado, não sei por que razão, pela turma da extrema direita. Parlamentares que, vivendo à custa de obesos salários pagos pelo povo, se autorizam criar, do nada, mensagens insultantes e mandá-las ao ar na esperança de “lacrar” não devem ser mantidos no cargo.

Tanto faz que sejam deste ou daquele partido, que se ajoelhem diante deste ou daquele líder, que professem este ou aquele credo. Tanto faz. De elementos assim, nosso Congresso não precisa. Estão ali ocupando uma poltrona que poderia ser confiada a um cidadão mais sério, de espírito menos adolescente. Lugar de gente assim é no boteco, não no Parlamento. Em casos mais graves, que sejam mandados para a Papuda.

A esta altura, percebo que não dei detalhes do caso. É que imaginei que meus espertos leitores já estivessem a par. Trata-se das estrepolias de um deputado de nome Gayer, apoiador do capitão Bolsonaro, afiliado ao PL. A história começou com a estupidez dita por um Lula que atualmente se debate num atoleiro de maionese. A fala de Luiz Inácio, sem ser uma ofensa pessoal, era de um machismo primitivo, não condizente com os dias atuais. O deputado Gayer aproveitou a deixa para descer alguns andares na graduação da baixaria. Sugeriu que se formasse um trisal entre dois parlamentares homens e a presidente do PT. E deu nome aos bois!

Talvez algum fanático seguidor tenha achado graça. Os componentes do trisal mencionados por Gayer não sorriram. Para azar do deputado ofensor, um dos personagens de sua fantasia é o presidente do Congresso, senador Alcolumbre. Furioso, este último prometeu denunciar o desbocado personagem ao Conselho de Ética com vistas à cassação do mandato de Gayer por quebra de decoro parlamentar.

Torço para que o procedimento chegue a bom porto e que o deputado seja cassado. Será bom como exemplo. Quem sabe, depois disso, os parlamentares pensarão duas vezes antes de discursar no plenário debaixo de uma peruca amarela, como fez outro dia um fiel acólito do capitão.

Compliance & bullying

José Horta Manzano

Com curiosidade, tenho notado um fenômeno interessante na importação de palavras. Antigamente, palavras estrangeiras que aportavam na língua eram o mais das vezes traduzidas ou adaptadas. Se a tradução ao pé da letra fosse impossível, criava-se expressão equivalente. De meio século pra cá, essa prática feneceu. Termos forasteiros são enfiados em nosso léxico tal e qual, com casca e tudo.

Um exemplo de como se fazia antigamente é aeromoça ‒ quer termo mais poético? Foi criação genial, que deixa no chinelo hospedeira e comissária de bordo. A expressão soa bem, é fácil de pronunciar e dá o recado direitinho.

Bem depois das primeiras aeromoças, quando grandes centros de compras apareceram no Brasil, a preguiça já estava instalada. O primeiro shopping center foi chamado de… shopping center. Em outras terras menos resignadas, a expressão inglesa foi adaptada. Poderíamos, nós também, ter firmado centro comercial, expressão simples, fácil de pronunciar e de sentido evidente. Preferimos guardar o original. Deve parecer mais chique.

Em nossa língua, os adjetivos costumam vir depois do substantivo. Dizemos homem rico e não rico homem, assim como criança inteligente e não inteligente criança. Poucas línguas no mundo seguem esse padrão. Entre as línguas europeias, só conheço as línguas latinas e o polonês.

Assim, nossa tendência é tomar a primeira palavra de uma expressão como a mais importante. Quando expressões inglesas são introduzidas tal e qual em nosso falar, dão origem a reduções curiosas.

Para encurtar shopping center, por exemplo, dizemos shopping. “Vou passear no shopping” (ou no xópi, conforme o gosto). Só que, no original, a palavra importante é center e não shopping. Dizer “Vou passear no shopping” é como se, para abreviar centro de compras, disséssemos “Vou passear no compras”. Peculiar, não? O fenômeno atinge outras expressões importadas com casca e caroço.

Há palavras que chegaram recentemente à língua. Seguindo a tendência atual, não foram traduzidas. O original soa tão chique, não é mesmo? Dependesse de mim, compliance viraria conformidade, que é sua tradução perfeita. Bullying, esse fenômeno que sempre existiu apesar de antes não ter nome específico, dispõe de duas expressões capazes de traduzi-lo: pode-se tanto usar assédio escolar, quanto acosso escolar.

Mas é verdade que expressão vernácula é meio chué. Que vivam os estrangeirismos puros e legítimos!

Vegetais de folhas verdes

O Globo, 21 ago 2023

José Horta Manzano

Saiu n’O Globo de hoje um primor de artigo. Ele promete revelar os alimentos milagrosos para controlar o colesterol. “Oba, vamos dar uma olhada” – pensei.

De fato, o longo texto trazia diversos subtítulos, um para cada categoria de alimento. Entre eles, o subcapítulo dos “Vegetais de folhas verdes”. Achei esquisito.

Por mais que eu me esforce, não me vem à cabeça nenhum vegetal comestível com folhas de outra cor. Não me lembro de ter comido planta de folha azul, roxa, cor-de-rosa. Foram sempre de folhas verdes.

Depois de ler o capítulo inteiro, desconfiei que a novilinguesca expressão “vegetais de folhas verdes” é provável tradução canhestra de alguma expressão inglesa.

Talvez soe natural a ouvidos modernos; a mim, não. Ainda sou do tempo em que “vegetais de folhas verdes” se chamavam verduras.

Pra regular o colesterol, prefira o original.


Naqueles que comem verdura, a saúde perdura.


Fico imaginando a mãe de Joãozinho chamando para o almoço. “Vem almoçar, filho, preparei um ensopado de “vegetais de folhas verdes” que está uma delícia!”

Será?

A destruição dos destroços

Virginia, EUA

José Horta Manzano

Volta e meia, grandes jornais publicam artigos saídos no New York Times ou no Washington Post, grandes diários dos EUA. A ideia é boa, dado que nem todo leitor brasileiro costuma acompanhar a imprensa internacional.

No original, os textos são escritos em inglês, fato compreensível. Para publicação no Brasil, têm de passar por uma tradução. Nos tempos de antigamente, esse trabalho era entregue a profissionais de verdade, que caprichavam em tornar o original perfeitamente compreensível ao leitorado brasileiro. Aos poucos, porém, essa prática parece estar sendo abandonada.

Os textos apresentados ao público nacional já não são esmerados como antes. Não sei bem qual é a causa. Será que profissionais da tradução escasseiam? Será que, mal pagos, deram um apegrêide na função e passaram a traduzir só artigos científicos? Será que, com a necessidade de postar imediatamente todo artigo novo na edição online, o tempo concedido aos tradutores, muito exíguo, já não permite trabalho de qualidade? Será talvez que os tradutores automáticos à disposição na rede são responsáveis pelo trabalho malfeito?

Não tenho a resposta, só me cabe constatar. Vi hoje no Estadão um relato traduzido do Washington Post. Traz esclarecimentos daquele caso do jatinho particular que, perseguido por caças das Forças Aéreas dos EUA, rodopiou e caiu numa região desabitada do estado da Virgínia. Traduzido para o português, o artigo soou realmente estranho. Vejam.

“O local do acidente levará muito tempo para chegar”, disse o chefe da investigação. Confesso que não entendi essa frase. O local do acidente levará muito tempo para chegar aonde?

Outro exemplo: “Os destroços estão altamente fragmentados.” Ora é normal que destroços estejam fragmentados. Se o objeto estivesse inteiro, não seriam destroços, mas uma carcaça.

Mais adiante, o artigo informa que o avião continuou a voar a cerca de 34 mil pés. Gentilmente, o tradutor explica para o público tupiniquim que essa medida equivale a 103 mil metros de altura. Só que nenhum avião comercial tem capacidade de atingir essa altitude. Cem quilômetros de altura? Só satélite artificial. O tradutor se enganou de uma vírgula. Na verdade, o avião voava a 10.300 metros, na faixa de velocidade utilizada por aviões civis.

Há outros deslizes que, se não bloqueiam a compreensão, causam ruído aos ouvidos. Fala-se da “destruição dos destroços”, sequência infeliz de palavras, quando se sabe que os destroços já são, por definição, o que sobrou de uma destruição.

Outro trecho pontifica que “a altitude é um local crítico para perder a pressurização”. Avião no solo não precisa de pressurização. Ela só costuma ser acionada durante o voo, ou seja, em altitude. Portanto, essa última frase ficou parecendo um truísmo. Perda de pressurização só pode ocorrer em altitude.

Se você tiver um amigo cujo cunhado tem um vizinho que conhece alguém dentro da redação de um grande cotidiano nacional, mande a dica que dou a seguir.

Para ganhar tempo – e qualidade de tradução – esqueça o Google translation. Prefira o DeepL. Tem uma oferta de línguas menos extensa do que o concorrente, mas sua qualidade está próxima da perfeição.

Rainha Isabel

José Horta Manzano

O aportuguesamento de nomes e sobrenomes era comum nos antigamentes. Todas as línguas procediam exatamente da mesma maneira. Há exemplos a dar com pau.

No original italiano, Cristóvão Colombo era Cristòforo Colombo. Em inglês, ficou Christopher Columbus; em espanhol, Cristóbal Colón; em francês, Christophe Colomb; em alemão, Christoph Kolumbus.

O português Fernão de Magalhães virou Fernand de Magellan em francês, Ferdinando Magellano em italiano, Fernando de Magallanes em espanhol.

Em nossa língua, o polonês Mikołaj Kopernik transformou-se em Nicolau Copérnico. Ingleses e alemães conhecem nosso D. Pedro II como Peter II, enquanto italianos dizem Pietro II e franceses preferem Pierre II.

Os espanhóis, até hoje, traduzem o nome dos membros da realeza estrangeira. Quando se referem à família real inglesa, é divertido ouvir falarem da rainha Isabel e dos príncipes Carlos, Guillermo, Henrique e Jorge. A gente precisa retraduzir mentalmente pra saber de quem estão falando.

No Brasil, hoje em dia, é raro ver nome estrangeiro traduzido ou adaptado. Mas de vez em quando escapa um. Foi o que fez o estagiário do Estadão, ao mencionar o nome daquele que (parece que) acaba de ser eleito para o cargo de presidente do Peru: Castillo virou Castilho.

Mas vamos ser justos: foi sem intenção. Na hora de escrever, o automatismo falou mais alto e os dedinhos correram soltos.

Covid e as novas expressões

José Horta Manzano

Dos seres humanos que estão hoje vivos, nenhum jamais presenciou pandemia com as dimensões da atual. Houve a Gripe Espanhola de 1918-1919(*), é verdade. Mas os que, à época, estavam em idade de entender já se foram.

Nestes cem anos, a humanidade fez progressos incríveis. De uma época de comunicações precárias, quando nem rádio havia, passamos a uma fase buliçosa, em que todos falam com todos, em que tribunais informais berram em silêncio nas redes sociais, em que cada indivíduo condena ao fogo do inferno quem não lhe for simpático. Será que a precariedade antiga era melhor que a agitação de hoje? Taí uma boa pergunta pra futuros filósofos.

A pandemia gerou realidades novas. E foi preciso dar nome a elas. Rápidos no gatilho, anglo-saxões mergulharam na língua riquíssima e maleável que têm. E de lá sacaram nome perfeito pra cada fato novo. Agências de notícias traduzem despachos redigidos em inglês. Vai daí, a urgência (e a preguiça) optam pela facilidade: alguns termos são transplantados com raiz e tudo. São adotados como eram no original.

Há casos em que, para descrever a mesma realidade em nossa língua, precisaria de uma linha e meia, o que complica a vida; quando é assim, o remédio é adotar o termo original. Há outros casos, porém, em que basta um pouco de imaginação para encontrar termo equivalente. Vamos ver.

by Emmanuel Chaunu (1966-), desenhista francês

Homeschooling
Já falei sobre este termo em outro post. A mim parece que escola em casa é tradução perfeita. Tem a vantagem de evitar o vexame de pronunciar palavra inglesa com sotaque estrangeiro. Romi-iscúlim, por exemplo.

Coronavirus
Essa questão está resolvida. Ficou combinado adotar a forma inglesa com um acentozinho pra dar um ar tropical. Em vez de vírus corona, que tem mais ares nossos, vamos de coronavírus mesmo.

Social distancing
Fixou-se a expressão distanciamento social. Errado, não está. Eu teria adotado distanciação social. Distanciação é genuína palavra nossa, já dicionarizada. Apresenta a vantagem de ser raramente utilizada, excelente argumento pra servir de nome para um conceito novo.

Self isolation
Não tenho visto esta expressão utilizada no Brasil, nem no original, nem traduzida. Talvez o conceito esteja sendo confundido com lockdown (confinamento). Tem a ver, mas é mais específico. Está em auto-isolamento o cidadão que se isola por conta própria, sem ser obrigado pelas autoridades.

Key worker (ou keyworker)
Tendo em vista a balbúrdia em que se transformou o enfrentamento da pandemia no Brasil, essa expressão pouco aparece na mídia nacional. Key workers são os funcionários essenciais, os únicos autorizados a circular nas ruas em caso de confinamento rigoroso. São funcionários de hospital, supermercado, transporte em comum, corpo de bombeiros, polícia & assemelhados.

Protective distance
Não vi ninguém cair na tentação de dizer “distância de proteção”. A expressão protective distance vem sendo corretamente traduzida por distância de segurança.

Home office
Não resta dúvida: o original inglês é pra lá de chique. Dá impressão de que a gente está no 85° andar de uma torre envidraçada, apreciando a paisagem do Rio Hudson. Mesmo assim, ainda prefiro nosso teletrabalho, uma expressão que dá a ilusão de que nossa língua aboliu aquele castigo de Deus que é o hífen. Quem diz home office deixa a impressão de ter trazido o escritório para casa. Já o teletrabalho separa bem as coisas: o escritório e a residência ficam cada um no seu lugar; o funcionário é que espicha os braços, faz o trabalho que tem a fazer, depois encolhe os braços e volta pra casa. Há ainda a possibilidade de utilizar trabalho remoto, expressão a ser usada com cuidado, visto que remoto é termo ambíguo, que pode também significar antigo, remoto no tempo.

Lockdown
A perfeita tradução de lockdown é confinamento. Informa que o indivíduo (ou a população inteira) está obrigado, queira ou não, a ficar trancado num determinado espaço confinado. Antes do covid, o termo era usado em tempo de guerra ou para prisioneiros que, em caso de mau comportamento, são condenados a passar um tempo na solitária. Quem está sob lockdown fica confinado. Que diga lockdown quem quiser; mas, se for pra pronunciar “loquidáũ”, recomendo adotar confinamento mesmo. Soa mais natural.

(*) A ‘Espanhola’ não era espanhola. Levou esse nome porque, naqueles tempos de guerra mundial, a Espanha era um dos raros países em que informações sobre a epidemia puderam ser livremente publicadas. Fora daquele país, ninguém falava da doença. Com isso, fixou-se a informação falsa de que a doença era espanhola. Veja o alcance (secular) que um fake news pode ter!

Causada por um vírus da família H1N1, a gripe fez estrago feio. Segundo o Instituto Pasteur, o saldo de mortos situa-se entre 20 milhões e 50 milhões. Avaliações mais recentes chegam a mencionar 100 milhões de vítimas, ou seja, um morto para cada 20 habitantes do planeta. Uma enormidade.

Problema de tradução

José Horta Manzano

Ah, ninguém segura esses estagiários que escolhem facilidade aparente na hora de traduzir!

Este blogueiro é do tempo em que, quando alguém recebia violento golpe emocional, ficava arrasado. Podia também dizer que tinha ficado abalado ou abatido.

O que fica devastado é um prédio atingido por um míssil, uma cidade após um terremoto, um pasto depois do estouro da boiada. Gente devastada? Não é comum.

Dólar & covid

José Horta Manzano

Atualmente, a rapidez com que as notícias circulam é vertiginosa. Um rápido passeio pelos principais sites de informação do planeta confirma: nem bem aconteceu, já apareceu. Assim que o fato se produz, vira manchete.

A pressa é inimiga da perfeição – já diziam as professorinhas de antigamente. É verdade. Como as agências noticiosas despacham em inglês, funcionários desatentos acabam escrevendo chamadas com sotaque. Parece até filme mal dublado(*), daqueles em que certos diálogos soam artificiais.

Dólar bate R$ 5
As palavras são nossas, mas a sintaxe é inglesa. Em inglês, de fato, dizem: “Dollar hits …”. Resolve-se o problema com a substituição de bate por atinge, chega a, alcança ou outra forma verbal que se preferir.

Ele testa positivo
É outro sintoma do mesmo fenômeno. Em inglês, fica: “he tests positive”. Em português, soa esquisito. Para o resultado do teste, é preciso modificar a estrutura da frase, que a ossatura do inglês não combina com nosso falar. Em vez de começar falando do doente, é melhor falar do teste. Assim:

Em vez de “ele testa positivo”, prefira “o teste dele deu positivo”.

Nos tempos de antigamente, se contraía uma doença. Pra seguir a receita tradicional, seria excelente dizer: “o teste confirma que o figurão contraiu o coronavirus”.

Mas quem faz a língua são os falantes. Vamos em frente com o dólar que “bate 5 reais” e com o figurão que “testa positivo”. E não se fala mais nisso.

(*) Falando em dublagem, ainda bem que esse termo foi importado numa época em que o aportuguesamento era comum. A forma francesa doublage foi adaptada à fonética nacional. Fosse hoje, o termo seria importado do inglês e utilizado sem alteração: diríamos dubbing.

Falhar em?

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 17 maio 2020

O uso do verbo falhar em frases do tipo “Ele falhou em fazer tal coisa” é modismo. Poucas décadas atrás, não se via tal construção. Não sei de onde terá vindo; por ser decalque da sintaxe inglesa, imagino que tenha sido introduzida por tradutores apressados. Ou por turistas de retorno de trepidante temporada de vilegiatura na Disneylândia.

Em muitos casos, to fail se traduz por faltar. É verdade que outras acepções se traduzem por falhar. A sintaxe da chamada do jornal soa estranha, estrangeira. Talvez, no futuro, venha a ser completamente aceita; hoje, ainda não é o caso.

A norma culta não prevê ‘falhar em, mas ‘falhar a’. Falhou ao juramento, por exemplo, é forma legítima.

Pra consertar a chamada, aqui vão duas opções. Ambas conservam o verbo falhar intransitivo.

“Modelo sueco contra coronavírus falha ao não evitar recessão no país”.

“Modelo sueco contra coronavírus falha. Não evita recessão no país”.

A gripezinha

José Horta Manzano

«Não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar não, talquei?»

Desde que soltou essa preciosidade pela primeira vez, em meados de março, doutor Bolsonaro já tornou a insistir na metáfora em diversas ocasiões. Sempre em público.

Não está clara a origem do negacionismo do doutor diante da pandemia. Há quem diga que ele se sente uma espécie de super-homem, invulnerável e ungido pelos deuses, a quem nada pode acontecer. Também há quem diga que o homem é tapado e não consegue enxergar o tsunami que ameaça o mundo todo – Brasil incluído. É ainda permitido acreditar que ele contraiu a doença e se curou, provavelmente com hidroxicloroquina. Isso explicaria o merchandising que ele faz para o fármaco.

Seja como for, a gripezinha e o resfriadinho do doutor estão dando trabalho a tradutores. É que nossa língua facilita a formação de diminutivos, o que não acontece em outras línguas. Em português, os sufixos inho, zinho, zico, zito resolvem o problema e são utilizados em ampla escala. Pomos substantivo, adjetivo e até advérbio no diminutivo.

Em outras terras, jornalistas usaram o adjetivo pequeno(a) para se aproximar do efeito da fala de Bolsonaro. Chegaram perto, mas um pouco da nuance se perdeu. “Resfriadinho” não é a mesma coisa que “pequeno resfriado”, especialmente se o “resfriadinho” for pronunciado com a boca torcida. Na fala de Bolsonaro, o diminutivo marca todo o desdém que ele sente pela doença. É difícil traduzir esse estado de espírito. O mesmo ocorreria se a gente quisesse traduzir «presidentezinho».

Na tradução da notícia, a mídia internacional tem adotado a palavra “pequeno”. Ficou assim:

Inglês:
little flu, little cold

Francês:
petite gripe, petit rhume

Italiano:
piccola influenza, piccolo raffreddore

Alemão:
kleine Grippe, kleine Erkältung

Espanhol:
pequeña gripe, pequeño resfrío

Ho, ho, ho!

José Horta Manzano

Antes de se tornar frenesi comercial como conhecemos hoje, Natal já foi festa religiosa. Talvez os mais jovens não consigam dar-se conta disso.

Famílias reunidas – e com fome – iam à Missa do Galo, rito solene e demorado, que começava à meia-noite do 24 para o 25. Digo que iam com fome porque precisava estar em jejum pra receber a comunhão. O número de horas sem comer, que chegou a ser de 12 horas, foi-se afrouxando com o tempo. Depois da missa, ceia simples e levinha esperava em casa. A reunião familiar, de verdade, era para o almoço do dia 25.

É interessante saber também que, antes de ser comemoração religiosa, o fim de dezembro, período de solstício de inverno no hemisfério norte, era pontilhado por festas pagãs. O povo manifestava júbilo e alívio porque as longas noites iam começar a encurtar. A partir da época do Natal, os dias se alongam a olhos vistos. Dependendo da latitude, o período diurno vai mordiscando a noite e vai ganhando um, dois, quatro, cinco minutos por dia sobre o período de escuridão. O Natal anuncia a primavera e o renascimento.

A origem da figura do Papai Noel moderno é conhecida, mas não custa repetir. Até o começo do século XX, algumas regiões da Europa cultivavam a lenda do velhinho que vinha, na época do Natal, presentear as crianças bem-comportadas e castigar as que tivessem sido desobedientes.

Diferentemente do que ocorre hoje, presente de Natal não vinha automaticamente, não era uma evidência. Não bastava ser criança para merecer prêmio. Precisava ter-se comportado bem. Pequerruchos rebeldes arriscavam-se a levar umas chicotadas do velhinho. Era ensinamento útil. Inculcava, nos pequeninos, a noção de que não existe almoço grátis – para atingir um objetivo, há que se esforçar.

A imagem que hoje temos de Papai Noel nada mais é que fruto da imaginação de desenhistas americanos. Em 1921, por ocasião de uma campanha de propaganda encomendada pelos fabricantes de Coca-Cola, bolaram aquele velhinho gordo e sorridente, de bochechas rosadas, viajando num trenó puxado por renas. E dizendo “ho, ho, ho!”.

Na Holanda, identificavam o velhinho do Natal com São Nicolau e o chamavam Sinterklaas. Por influência de imigrantes holandeses, os americanos adotaram o nome depois de o terem anglicizado para Santa Claus. Nos EUA, esse é o nome de Papai Noel. Vai, aqui abaixo, uma pequena lista dos diferentes nomes que diferentes povos dão ao bom velhinho do “ho, ho, ho”.

Noël 8EUA:         Santa Claus      (São Nicolau)
França:      Père Noël        (Pai Natal)
Brasil:      Papai Noel       [francês traduzido pela metade]
Portugal:    Pai Natal
Rússia:      Санта Клаус      (Santa Claus)
Reino Unido: Father Christmas (Pai Natal)
Alemanha:    Weihnachtsmann   (Homem da noite de Natal)
Catalunha:   Pare Noel        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Dinamarca:   Julemanden       (Homem do Natal)
Lituânia:    Kalėdų senelis   (Vovô Natal)
Holanda:     Kerstman         (Homem do Natal)
Suécia:      Jultomten        (Gnomo de Natal ou Duende de Natal)
Bulgária:    Дядо Коледа      (Vovô Natal)
Noruega:     Julenissen       (Gnomozinho de Natal)
Romênia:     Moș Crăciun      (Antepassado do Natal)
Turquia:     Noel Baba        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Polônia:     Święty Mikołaj   (São Nicolau)

Publicado originalmente em 25 dez° 2014

Um bom homem

José Horta Manzano

Traduzir não é tarefa das mais simples. Quando o tradutor tem tempo pra refletir, o trabalho é mais maneiro. Mas se o trabalho tiver de ser feito às pressas, então, a coisa se complica. É o que acontece na mídia. Nem sempre há tempo pra lapidar o escrito.

Chamada do Estadão

Um bom homem?
No original Donald Trump qualificou doutor Bolsonaro de good man. “He’s a good man” – foi exatamente o que ele disse. De fato, a good man é um bom homem. To the foot of the letter.(*)

Em geral, o tradutor tem duas opções. Pode ater-se rigorosamente à língua de partida e manter fidelidade a cada palavra. Nesse caso, seu texto poderá às vezes soar estranho, como se falasse com sotaque. Pode também optar por palavra ou expressão que, embora se afaste do original, leva ao leitor a imagem que o autor do texto original quis dar. Esse trabalho visa a «eliminar sotaque», mas toma tempo.

Chamada da Folha de São Paulo

Tanto o Estadão quanto a Folha de SP optaram pela via mais rápida. O good man de Trump virou bom homem. Errado, não está. Mas ficou esquisito, com sotaque. Viria à cabeça de alguém dizer que Collor, FHC, Lula ou qualquer político é um bom homem?

Pra dizer que alguém é bom de coração, o mais comum é defini-lo como um homem bom, expressão raramente usada pra políticos de alto coturno. Corações bondosos são artigo raro nas prateleiras no andar de cima.

Afora isso, sem descambar para o lado sentimental, diremos simplesmente que alguém é boa gente ou boa pessoa. Se tivesse tido tempo o tradutor teria caprichado no trabalho e, certamente, teria chegado a essa conclusão. Faltou tempo.

(*) ‘To the foot of the letter’ é tradução literal de nossa expressão ‘ao pé da letra’. Mas é só pra brincar, que nenhum falante de inglês compreenderia o sentido.

Da cadeia para o mundo

José Horta Manzano

Entre surpreso e incrédulo, o mundo recebeu a notícia de que Lula da Silva tinha dado entrevista à imprensa.

– Entrevista? Como assim? Mas ele não estava preso até outro dia?

– Pois ainda está. Mas o Brasil, sacumé, é um país que às vezes corre fora dos trilhos. Preso pode dar entrevista. Depois do Lula, dá pra imaginar um punhado de grão-condenados fazendo fila pra aparecer diante dos holofotes.

– Vão permitir que outros deem entrevista também?

– Se permitiram a um, não vejo como poderiam negar a outros. Quem se habilitar já pode começar a fazer fila.

Esse diálogo é imaginário. Mas não fantasioso. Fico realmente preocupado ao pensar que Marcola, Eduardo Cunha, Fernandinho Beira-mar e outros meliantes podem exigir o mesmo tratamento. Sempre haverá algum órgão de imprensa interessado em colher a entrevista. Já pensou?

Voltando à entrevista do Lula, foi particularmente edificante o trecho em que ele diz que essepaiz está sendo governado por «um bando de maluco». (Já reparou que Lula da Silva nunca pronuncia o nome dessepaiz? Freud deve poder explicar.) Pessoas sensíveis devem ter se sentido incomodadas com a violência das palavras proferidas por alguém que, afinal, já foi presidente da República. Não é comum. Bom, também não é comum um ex-presidente estar encarcerado por corrupção. Talvez isto explique aquilo.

Pouco comum também foi a resposta do atual presidente. Irritado, doutor Bolsonaro retrucou que mais valia o Brasil estar sendo governado por um bando de loucos do que por um bando de cachaceiros. Touché! Impressionante mesmo é o nível do palavreado dessa gente – tanto os loucos quanto os cachaceiros. Tudo farinha do mesmo saco.

Fiquei curioso em descobrir como a imprensa internacional tinha dado a notícia, em especial como tinham traduzido a expressão ‘bando de maluco’.

Os órgãos de língua francesa foram unânimes: disseram todos que o Brasil era governado por «une bande de fous». É tradução ao pé da letra.

A mídia de língua inglesa foi mais variada. Alguns, como The Guardian, traduziram por «lunatics». Outros, como o Washington Post, preferiram «crazy people». A edição inglesa de France 24 foi mais elaborada. Optou por «gang of madmen» – gangue de gente louca.

Os castelhanos também foram sortidos. TeleSur, a tevê de Maduro, tascou «una banda de locos». O Portal Notimerica foi mais sóbrio: «un puñado de locos». E o argentino Clarín escolheu uma formulação mais coloquial: «una banda de chiflados» – um bando de gente de raciocínio perturbado.

Antes, os cachaceiros. Agora, os loucos. Essepaiz está bem arrumado.

Quem viu, viu

José Horta Manzano

«Je ne la verrai plus jamais. Il faudra 40 à 50 ans pour la reconstruire ‒ Eu não a verei nunca mais. A reconstrução vai levar 40 ou 50 anos.» As palavras (e as lágrimas) são de Monsieur Stéphane Bern, popular apresentador televisivo que aparece todos os anos na lista das personalidades mais apreciadas pelos franceses. O testemunho foi dado enquanto ainda não se haviam extinguido as brasas do incêndio da catedral Notre-Dame(*) de Paris.

Talvez haja algum exagero na estimativa de Monsieur Bern, compreensível dada a emoção do momento. Na minha opinião, no entanto, por mais importantes que sejam as verbas aplicadas na reconstrução, ela não se fará da noite para o dia. As dificuldades são muito muito grandes.

Para começar, certos materiais simplesmente não existem mais. A parte que se incendiou completamente ‒ o madeirame que sustentava o telhado ‒ era de carvalho maciço. Setecentos anos atrás, árvores de bom tamanho e de boa qualidade já não eram fáceis de encontrar. Hoje em dia, simplesmente desapareceram. Não existem mais. Muitas análises terão de ser feitas só pra encontrar substituto válido.

Os estudos de solidez da estrutura que restou serão minuciosos e longos. Afinal, a ordem de reconstruir por cima de alicerces fragilizados não pode ser dada com leviandade. Nenhum arquiteto gostaria de ver seu nome ligado, para todo o sempre, a um eventual desmoronamento de Notre-Dame em consequência de erro seu. Que terrível estigma!

Obras arquitetônicas há muitas, algumas magníficas como o Taj Mahal. Templos religiosos há milhares, como a igreja de qualquer pracinha. Construções icônicas há um punhado, como o Cristo Redentor. O magnetismo de Notre-Dame vinha do fato de concentrar essas três qualidades: era monumento arquitetônico, templo religioso de primeira grandeza e símbolo da França e de Paris em particular. Com 13 milhões de visitantes por ano, era ‒ disparado ‒ o edifício mais visitado da Europa, quiçá do mundo.

Mas assim são as coisas. Quem viu Notre-Dame por dentro, viu. Quem não viu, não verá.

(*)À cata da repercussão do desastre de Paris, consultei sites escritos em diversas línguas. Achei curioso que nenhum deles traduzisse o nome da catedral. Ninguém falou em Our Lady Cathedral, nem em Cattedrale della Madonna, muito menos em Catedral de Nossa Senhora. Todos mantêm a forma original: Notre-Dame. Não há dúvida, soa muito mais chique.

Mixórdias incompreensíveis

Ruy Castro (*)

Entra presidente, sai presidente, e os funcionários das embaixadas brasileiras no exterior continuam sofrendo. Nossos governantes precisam viajar de vez em quando e, como não são obrigados a falar outra língua ‒ nenhum governante é ‒, dependem dos intérpretes para conversar com seu colega estrangeiro ou com a imprensa local. Esses intérpretes, se forem do velho Itamaraty, são fluentes nas línguas internacionais e competentes na dos países em que servem. O problema são os presidentes. Além das asneiras que dizem, quase todos têm péssima dicção.

Jair Bolsonaro, pelo que já se viu e ouviu, é um desastre vocal. Fala depressa demais e suas consoantes atropelam as vogais, numa mixórdia quase incompreensível ‒ é como um trem descarrilado, com os vagões, no caso, as sílabas, amontoados uns sobre os outros. Às vezes, desiste de uma frase pelo meio e a substitui por outra, que, idem, não conclui. Esse suposto à-vontade não quer dizer segurança ou desembaraço, mas desleixo, mesmo. Ou contratam uma professora como Glorinha Beutenmüller para ensinar Bolsonaro a falar, ou seus intérpretes terão de pular miudinho.

Não é só Bolsonaro, claro. Lula era língua presa ‒ ainda é. Seus esses soam como efes, tipo “Eu fó queria faber, eu fou ou não fou o dono do fítio?”. Imagine-o, em presidente, falando com Mugabe, do Zimbábue, Maduro, da Venezuela, ou Ali Bongo, do Gabão, e os intérpretes tendo primeiro de traduzi-lo para o português antes de vertê-lo para seus ditadores favoritos.

Já o problema de Dilma eram os absurdos que dizia, como “Depois que a pasta de dente sai do dentifrício, ela dificilmente volta pro dentifrício”. E o de Temer é o conteúdo zero com os pronomes certos ‒ suas falas são um vácuo, não dizem nada.

E Fernando Collor? Posso calcular o suplício do intérprete se ele dissesse lá fora o que, certo dia, disse aqui: “Eu tenho aquilo roxo!”.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Compliance & bullying

José Horta Manzano

Com curiosidade, tenho notado um fenômeno interessante na importação de palavras. Antigamente, palavras estrangeiras que aportavam na língua eram o mais das vezes traduzidas. Se a tradução ao pé da letra fosse impossível, criava-se expressão equivalente. De meio século pra cá, essa prática feneceu. Termos forasteiros são enfiados em nosso léxico tal e qual, com casca e tudo.

Um exemplo de como se fazia antigamente é aeromoça ‒ quer termo mais poético? Foi criação genial, que deixa no chinelo hospedeira e comissária de bordo. A expressão soa bem, é fácil de pronunciar e dá o recado direitinho.

Bem depois das primeiras aeromoças, quando grandes centros de compras apareceram no Brasil, a preguiça já estava instalada. O primeiro shopping center foi chamado de… shopping center. Em outras terras menos resignadas, a expressão inglesa foi adaptada. Poderíamos, nós também, ter firmado centro comercial, expressão simples, fácil de pronunciar e de sentido evidente. Preferimos guardar o original. Deve parecer mais chique.

Em nossa língua, os adjetivos costumam vir depois do substantivo. Dizemos homem rico e não rico homem, assim como criança inteligente e não inteligente criança. Poucas línguas no mundo seguem esse parâmetro. Possivelmente existam outras, mas só conheço as línguas latinas e o polonês.

Temos portanto por instinto tomar a primeira palavra de uma expressão como a mais importante. Quando expressões inglesas são introduzidas tal e qual em nosso falar, dão origem a reduções curiosas.

Para encurtar shopping center, dizemos shopping. “Vou passear no shopping” (ou no xópi, conforme o gosto). Só que, no original, a palavra importante é o substantivo center, não o adjetivo shopping. Dizer “Vou passear no shopping” é como se, para encurtar centro de compras, disséssemos “Vou passear no compras”. Peculiar, não? O fenômeno atinge outras expressões importadas com casca e caroço.

Há palavras que chegaram recentemente à língua. Seguindo a tendência atual, não foram traduzidas. O original soa tão chique, não é mesmo? Dependesse de mim, compliance viraria conformidade, que é sua tradução perfeita. Bullying, esse fenômeno que sempre existiu apesar de não ter nome específico, dispõe de duas expressões capazes de traduzi-lo. Pode-se tanto usar assédio escolar, quanto acosso escolar.

Mas é verdade que expressão vernácula é meio chué. Que vivam os estrangeirismos!

Fiquei devastado

José Horta Manzano

Traduzir não é tarefa simples. Frases de aparência inofensiva escondem armadilhas. Uma delas é a contaminação. Basta um instante de desatenção e… catapum! O escriba dá uma escorregadela e troca os pés pelas mãos.

A contaminação se dá quando o termo a traduzir encontra na língua de destino um par que, embora muito semelhante, não dá exatamente o mesmo recado. A tentação é grande de optar pela simplicidade, utilizar a palavra parecida e seguir caminho. Mas nem sempre é a melhor opção. Parecido não é igual.

Quando se sente extremamente chocado com um acontecido, o inglês costuma dizer «I am devastated». Dia sim, outro também, encontramos na mídia nacional a tradução literal: «Fiquei devastado». Errado, propriamente, não está, mas soa esquisito e artificial como filme mal dublado.

Devastar(*) é formado pelo verbo vastar precedido pela partícula de reforço «de». Na origem, significa esvaziar um lugar e transformá-lo em deserto inabitado. Quem preferir traduzir «devastated» por «devastado» que o faça. Proibido não é, mas, convenhamos, um pouco de aplicação não faz mal a ninguém.

Segue aqui abaixo uma lista (não exaustiva) de substitutos. Cada um carrega uma nuance específica, mas giram todos em torno do mesmo tema. Da próxima vez, em lugar do bizarro «Fiquei devastado», experimente:

●  Fiquei arrasado
●  Fiquei abalado
●  Fiquei afetado
●  Fiquei impressionado
●  Fiquei assustado
●  Fiquei perturbado
●  Fiquei abatido
●  Fiquei estremecido
●  Fiquei horrorizado
●  Fiquei aflito
●  Fiquei sensibilizado
●  Fiquei atristado
●  Fiquei entristecido
●  Fiquei compungido
●  Fiquei chocado
●  Fiquei alarmado
●  Fiquei comovido
●  Fiquei aniquilado
●  Fiquei desolado
●  Fiquei aterrado
●  Fiquei destroçado

Não será por falta de opção, não é? Ninguém mais precisa se sentir “devastado”.

(*) Vasto é termo de origem germânica. É parente do inglês waste, do francês gâter, do alemão wüst (deserto), do português gasto.

A doutora na Finlândia

José Horta Manzano

A Finlândia me é simpática. Não fosse por outro motivo, foi ali que passei meu exame de motorista e recebi minha primeira carteira. Já faz muito tempo, mas guardo o documento de lembrança até hoje ‒ uma cadernetinha, como se usava na época, com páginas hoje amarelecidas. Os dados eram todos inscritos à mão numa língua que poucos conseguem ler. Bons tempos.

Doutora Dilma está estes dias na Finlândia. Ninguém sabe direito o que madame estará fazendo por lá além de desancar com nossas instituições e denegrir ainda mais a imagem do país. Por falar nisso, ninguém sabe ao certo o que a doutora tem feito estes últimos vinte anos. Além da saudação à mandioca e ao ET de Varginha, a memória coletiva nacional não guardou lembranças imperecíveis de sua passagem pelas altas esferas.

Em vista da viagem, ela solicitou ao Planalto que lhe fossem concedidos três assessores ‒ pagos com nosso dinheiro, naturalmente. O pedido foi acolhido. Assim, estamos nós todos financiando o alegre giro turístico da antiga presidente e de seus esforçados companheiros. Segundo a revista Época, ela pretende espichar a vilegiatura por 12 dias, entre Finlândia e Rússia. Rancorosa, continuará insistindo, em palestras diversas, na demolição das instituições do país.

Ao final do passeio, madame terá perdido mais uma vez. Não conseguirá ser reintegrada na presidência nem terá convencido finlandeses ou russos, quem têm outras fontes de informação além da fala confusa da palestrante. Aliás, nós outros, na qualidade de financiadores do giro, também teremos perdido. Pagaremos para dar à doutora a ocasião de admirar as cores deste começo de outono naquela região de floresta boreal.

Já na primeira palestra, proferida na Universidade de Helsinque, madame asseverou que o Lula estará na eleição de 2018 «vivo ou morto». Taí afirmação que, em matéria de surrealismo, rivaliza com a saudação à mandioca. Disse mais a ilustre palestrante. Assegurou que o Lula «sempre estará presente porque ele não é mais uma pessoa: já é um projeto».

Quem não há de ter apreciado é o próprio Lula. Ao dizer que o demiurgo, mesmo morto, pode participar de uma eleição por já se ter transformado em projeto, a doutora não faz um favor a seu criador. Admite, nas entrelinhas, que, ainda que esteja detrás das grades acolhedoras de Curitiba, nosso guia participará ‒ em espírito ‒ da eleição. Com amigos assim, o ex-presidente não precisa de inimigos.

Resumo da ópera: segundo a doutora, o projeto lulista continuará assombrando a próxima eleição. A candidatura do torneiro mecânico, na ótica de madame, não é indispensável. Qualquer um que encarne o suposto projeto serve. Te esconjuro!

Só fico com pena dos encarregados de traduzir o dialeto em que a doutora exprime seu pensamento confuso. Pra traduzir, é obrigatório ter entendido. Nós não entendemos, e intérpretes estão no mesmo barco. Que mensagem estarão passando a atônitos finlandeses e russos?

Terrível

José Horta Manzano

Apesar da existência de (raros) excelentes profissionais, o Brasil apresenta lacunas no campo da tradução. Os bambas na área não são regra, mas exceção. Entre nós, não é fácil encontrar gente traquejada em línguas estrangeiras. Entrevejo diversas razões possíveis.

● deficiência crônica no ensino de línguas;

● isolamento voluntário do país, acentuado nos últimos 15 anos;

● sentimento difuso de que aprender língua não serve pra nada;

● interrupção do fluxo imigratório a partir dos anos 70;

● diminuto afluxo de turistas forasteiros, fato que não incita ao aprendizado de línguas;

● alastramento da preguiça macunaímica, já detectada por Mário de Andrade faz um século.

Chamada do Estadão, 28 fev° 2017

Chamada do Estadão, 28 fev° 2017

Provavelmente cada uma dessas razões contribui com um tijolinho para construir o muro que nos isola ‒ linguisticamente ‒ do resto do mundo. Aprende swahili, mongol ou tailandês quem tem especial interesse. São idiomas de difusão limitada. Já inglês, francês, alemão, espanhol são outra coisa.

Este blogueiro é do tempo em que, além da norma culta do Português, se aprendia latim, francês e inglês. Fosse um ou dois anos mais velho, teria tido grego também. Não sei como anda o currículo hoje, mas espero que o inglês continue a ser lecionado.

É interessante notar que, no auge da dominação da Inglaterra vitoriana, no século 19, a língua inglesa ainda não tinha alcançado a irradiação do francês, então dominante. Só depois do desfecho da Segunda Guerra, o mundo assistiu à vigorosa ascenção da língua de Shakespeare. E o fenômeno se amplia a cada dia. Quem pretender passear pela internet e beber no maior número de fontes tem de conhecer bem inglês. Do contrário, seu horizonte estará um bocado limitado.

O ensino de línguas estrangeiras ‒ com foco especial no inglês ‒ deveria ser preocupação constante das autoridades que cuidam da Educação básica no Brasil. Vale a pena refletir sobre melhora na formação de professores, intercâmbio internacional, reforço na carga horária. A pobreza da formação gera indigência na tradução, é uma evidência. Certas matérias jornalísticas parecem ter passado por tradução automática do google. Certas informações se deformam a ponto de não serem mais entendidas.

Chamada da Folha, 28 fev° 2017

Chamada da Folha, 28 fev° 2017

É certo que, pelos lados de Brasília, a coisa anda feia. Os grandes males nacionais são tão agudos que deixam outras deficiências em segundo plano. Mas uma coisa não impede a outra. Que a Lava a Jato siga seu curso: há quem cuide dela. Não há desculpa para deixar a Educação nacional ao deus-dará.

Observação linguística
Terrível deriva de terror. O étimo latino terreo significava propriamente ‘fazer tremer’. Terrível é o que dá medo, o que apavora, o que assusta, o que aterroriza.

O desastrado rapaz que trocou os envelopes na cerimônia de entrega dos prêmios cinematográficos não quis dizer que apavorava nem que assustava nem que amendrontava ninguém. Se o tradutor tivesse posto seus miolos a funcionar, teria encontrado termo melhor. Temos uma coleção de expressões para exprimir o sentimento do moço: confuso, mal, envergonhado, arrasado, vexado, desconfortável, desbaratado, destroçado, abatido, deprimido, destruído, frustrado, em pandarecos, acabrunhado, acabado.

Terrível? Francamente não. Terrível foi o erro. Não cabe ao responsável se «sentir terrível».

Carnificina

José Horta Manzano

Ah, o perigo está sempre à espreita do tradutor. Como costumo dizer, em matéria de tradução, nem sempre o que parece é.

Que não se preocupe o distinto leitor. A imprensa brasileira não foi a única a escorregar. Na França, rolaram pela mesma ladeira. Ao comentar o discurso de entronização de Mr. Trump, todos falaram em «carnificina» sem desconfiar que a afirmação não fazia sentido, que algo estava fora de esquadro.

Quando, no discurso de tomada de posse, o novo presidente falou em «American carnage», usou expressão informal, em princípio restrita a colóquio entre amigos.

Num pronunciamento importante como aquele, o homem deveria ter-se exprimido de outra maneira. Mas talvez seja exigir muito de um Lula de olhos azuis. Embora nascido e criado em berço de ouro, o novo presidente dá preferência a expressões caseiras, na intenção de aproximar-se, assim, do povão.

Chamada do Estadão, 20 jan° 2017

Chamada do Estadão, 20 jan° 2017

Carnage  entrou no inglês vindo diretamente do francês. A raiz latina caro/carnis deu prole importante. Em nossa língua, temos carne, carnal, carneiro, carnívoro, encarnar, descarnado. Temos também carnificina, termo utilizado justamente na chamada do Estadão. O estagiário, embasbacado, procurou no dicionário e ficou com a primeira acepção que encontrou.

Bobeou. Embora o significado usual de carnage seja realmente carnificina, não foi o que Mr. Trump quis dizer. Ele pensava na acepção secundária da palavra.

«American carnage» teria sido mais bem traduzido como fracasso americano, ruína americana, débâcle americana, tragédia americana. Nada que ver com carne sangrando.