Mudança climática?

José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça conheceu seu terceiro inverno mais quente dos últimos 150 anos. Somente o inverno de 2006/2007 e o de 1989/90 foram mais suaves que este que se termina.

Em Genebra, tirando um curto instante na manhã de 29 de janeiro, não nevou este inverno. Em Neuchâtel, outra cidade suíça, não caiu nem um floco. As cercanias da cidade de Basileia não conheceram nenhum episódio de geada sobre o leito das estradas ― fenômeno perigoso, que pode provocar derrapagens. Fazia 150 anos que isso não acontecia.

Lago de Lungern, Cantão de Obwald Paisagem habitual no inverno Crédito: Walter Ming-Isaak

Lago de Lungern, Cantão de Obwald
Paisagem habitual no inverno
Crédito: Walter Ming-Isaak

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Lago de Lungern, Cantão Obwald 23 janeiro 2014 Crédito: Sigi Tischler, Keystone

Lago de Lungern, Cantão Obwald
Foto de 23 janeiro 2014
Crédito: Sigi Tischler, Keystone

Enquanto isso, leio que o Sul e o Sudeste brasileiro sofreram longas semanas sob calor sevilhano e secura namíbica.

Deve ser efeito da mudança climática que estamos atravessando.

O país dos relógios

José Horta Manzano

Parece brincadeira mas é verdade. A inacreditável notícia foi dada por vários órgãos da mídia suíça e europeia. Está tão bem contado pelo site francês MetroNews, que não me resta senão traduzir. Aqui está:

Avião sequestrado e desviado a Genebra Foto: SIPA

Avião sequestrado e desviado a Genebra
Foto: SIPA

Interligne vertical 9Um avião que cumpria o trajeto entre a Etiópia e a Itália foi sequestrado segunda-feira de manhã e desviado para Genebra. Mas a aviação (militar) suíça não se mexeu. Por quê? Simplesmente porque era cedo demais.

O aparelho foi escoltado até Genebra por aviões militares franceses e italianos. Os aviões suíços, no entanto, não alçaram voo. Em princípio, certas situações são consideradas excepcionais. Mas na Suíça, nem o sequestro de um avião tem o poder de alterar a regra: tem hora pra tudo.

Assim, quando o aparelho das Linhas Aéreas Etíopes, no trajeto entre Adis Abeba e Roma, foi sequestrado e desviado segunda feira cedo pelo próprio copiloto, a aviação suíça não se abalou. O regulamento reza que as forças aéreas somente estão disponíveis das 8h às 12h e das 13h30 às 17h. A Itália e a França se encarregaram de escoltar o aparelho até Genebra.

O diário suíço Le Matin explica essa singular peculiaridade helvética. «As autoridades suíças foram avisadas desde as 4h30 da madrugada que um avião etíope de carreira se havia desviado de sua trajetória na Itália e se dirigia a Genebra», escreve o jornal suíço. «Pela lógica, o alarme deveria ter soado em todas as bases militares do país, deixando seus F/A 18 prontos para decolar. Só que, mesmo em casos de extrema urgência ― como hoje de manhã ― a aviação militar respeita seu horário.»

Catástrofe evitada
«Não temos condições de assegurar plantão de 24 horas por dia», reconhece Laurent Savary, porta-voz das Forças Aéreas Suíças. «Tendo em vista nossas restrições de orçamento e de pessoal, a Suíça concluiu acordo com os países vizinhos para garantir o policiamento aéreo fora das horas de abertura das bases militares.»

«O problema é que, se o sequestrador tivesse perdido a cabeça e estivesse decidido a jogar o aparelho sobre a cidade de Genebra, os jatos estrangeiros não estariam autorizados a abatê-lo. Como nenhum avião militar suíço estaria disponível antes das oito da manhã, a catástrofe teria sido total.»

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Nota à atenção dos que pretenderem invadir a Suíça: tenham a fineza de fazê-lo no horário regulamentar. Antecipadamente, agradecemos.

A omelete e os ovos

José Horta Manzano

A alegria de uns…
Curvados e contritos, alguns grandes deste mundo estão à cabeceira da moribunda Síria. Tentam pôr-se de acordo para salvar o que ainda puder ser salvo.

Não é a primeira vez que se reúnem para esse mesmo fim, mas a gente sempre espera que seja a última. Torcemos todos para que se alcance um compromisso que garanta aos diferentes estratos do infeliz povo sírio uma convivência pacífica. Atritos e tensões sempre haverá, não nos enganemos. Mas tomara que cheguem a um acordo para, pelo menos, mitigar o conflito. Inshallah!

Se isso acontecer, os homens de boa-vontade se alegrarão. Na Síria e no resto do mundo.

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… e a irritação de outros
Não se faz omelete sem partir ovos ― dizem os portugueses. Para juntar um punhado de figurões, é preciso cautela e extrema vigilância.

Não por acaso, as autoridades suíças estão habituadas a acolher mandachuvas. A cidade de Genebra abriga, entre outros organismos, a sede europeia da ONU, a OIT (Organização Internacional do Trabalho), a OMM (Organização Meteorológica Mundial), a OMS (Organização Mundial da Saúde), a UIT (União Internacional das Telecomunicações), a UPU (União Postal Universal), o CICR (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), a OMC (Organização Mundial do Comércio). E muitas outras menos conhecidas, sem contar as embaixadas, legações, consulados e missões permanentes.

Conferência Genebra II Crédito: AFP, Fabrice Coffrini

Conferência Genebra II
Crédito: AFP, Fabrice Coffrini

Gente importante vem e vai todos os dias, mas há dias mais especiais que outros. As reuniões da Conferência Genebra II, sobre o problema sírio, chamam a atenção do mundo inteiro. Portanto, todo cuidado é pouco para evitar atentados ou qualquer tipo de perturbação.

Apesar do nome, o encontro não se realiza em Genebra, mas em Montreux, pequena cidade turística à beira do Lago Leman, uma centena de quilômetros mais adiante. O pequeno burgo está em polvorosa. O Palace Hotel, palco das reuniões e lugar de hospedagem de várias comitivas, foi tomado de assalto. O tráfego está perturbado, as redondezas bloqueadas, ninguém pode se aproximar a menos de 100m do local. Parece praça de guerra.

Montreux Palace Hotel

Montreux Palace Hotel

Alguns comerciantes estão furiosos, porque simplesmente não terão movimento estes três dias. A farmácia, o salão de beleza, os pequenos comércios situados nas proximidades do hotel não têm chance nenhuma de ver entrar algum cliente. Estão até preparando um pedido de indenização à prefeitura.

Vamos torcer para que os frutos sejam bons: que a conferência seja um sucesso e que os comerciantes de Montreux recebam uma compensação pelo prejuízo. Não será fácil ― nem para estes, nem para aqueles.

Bilhete Único

José Horta Manzano

Você sabia?

Confesso que não sabia o que era Bilhete Único. Já devo ter lido, aqui e ali, essa expressão ― nova para mim ―, mas nunca lhe dei grande atenção.

Ao ler um texto de Elio Gáspari, publicado na Folha de São Paulo, entendi. Na cidade de São Paulo, Bilhete Único é o nome que se dá ao documento que prova que o usuário do transporte público já pagou adiantado o valor devido para um mês inteiro. É o que se poderia chamar assinatura mensal. Escolheram esse nome ― não vamos reclamar.

Ônibus urbano como suporte publicitário

Ônibus urbano como suporte publicitário

Gáspari explica que a assinatura custa 140 reais por mês. Diz também que 65% dos viajantes ganham até 1147 reais. Na falta de outro dado, tomemos esses 1147 como salário médio dos usuários. Portanto, o transporte representa 12,2% do salário de cada um. É uma pedrada!

Vamos ousar comparar com o que acontece na Suíça. A assinatura mensal que permite utilizar todas as linhas de ônibus da cidade de Genebra ― segunda aglomeração do país ― custa 73 francos(1). Para estudantes é mais barato, mas vamos ficar com esse número mesmo.

Segundo as estatísticas disponíveis, o salário mediano(2) ― considerando todas as idades e todas as profissões ― é de 5979 francos. É fácil fazer as contas. A assinatura mensal do transporte público genebrino equivale a 1,2% do salário médio.

Portanto, um usuário paulistano tem de desembolsar proporcionalmente dez vezes mais(!) que um suíço para o transporte urbano.

Alguém vê alguma distorção?

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(1) Ao câmbio atual, equivale a aproximadamente 200 reais.
(2) Significa que 50% dos assalariados ganham mais que isso, enquanto 50% ganham menos.

A trilha dos toblerones

José Horta Manzano

Você sabia?

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Os suíços sentem muito orgulho por não terem tido o país invadido por tropas alemãs nem italianas na Segunda Guerra Mundial. É realmente surpreendente que a pequena Suíça ― cercada por Alemanha, Itália, Áustria (anexada pela Alemanha) e França (ocupada por tropas de Berlim) ― não tenha sido engolida, com casca e tudo, pelos exércitos do Eixo. A maioria do povo atribui essa não intervenção à força de dissuasão representada pelo poderio militar suíço.

Toblerone de verdade

Toblerone de verdade

Há quem sorria ao ouvir essa explicação. Seja como for, tanto Berlim quanto Roma sabiam que seria bastante complicado dominar e ocupar um território montanhoso como este. Sabiam também que os suíços estavam muito bem armados e equipados, além de serem conhecidos como combatentes aguerridos.

Hitler e Mussolini devem ter feito a conta duas vezes. Chegaram à conclusão de que não valia a pena perder tempo, dinheiro, esforço e vidas humanas para conquistar um território pouco industrializado e totalmente desprovido de riqueza mineral. De qualquer maneira, não saberemos nunca o que realmente passou pela cabeça dos dois ditadores.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones

Eu acrescentaria mais uma razão. Numa Europa conflagrada, interessava a todos respeitar a neutralidade de um pequeno território, situado bem no centro geográfico do conflito. Era um lugar seguro, de onde não se imaginava poder vir nenhuma ameaça. Mais que isso, era um lugar onde todos podiam guardar, na confiança, seus dinheiros, suas obras de arte, seus objetos de valor. Mais ainda: um lugar onde se podiam organizar eventuais encontros secretos e manter conversações discretas e confidenciais. Todas essas razões hão de ter contribuído para que o país fosse poupado.

Isso hoje é História. Como diz o outro, «depois do fato consumado, é fácil ser profeta». Difícil mesmo é adivinhar o que está por ocorrer. No final dos anos 30, um bafo de guerra soprava no continente, mas ninguém sabia de que lado nem com que força chegaria a tempestade. As autoridades suíças não podiam cruzar os braços e apenas torcer para que o país não fosse invadido. Todos tinham de estar prontos para repelir tropas inimigas.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones – hoje utilizada como trilha para caminhada a pé

A inteligência militar planejou um sistema de defesa. A referência mais próxima era a Primeira Guerra, durante a qual os ataques se faziam por via terrestre, com tanques e blindados. Foi pensando nisso que bolaram o sistema defensivo suíço, basicamente terrestre àquela época. Incluía numerosos pontos, alguns dos quais são hoje conhecidos do grande público, enquanto outros ficarão secretos para sempre. Talvez seja melhor assim.

Todas as pontes do país estavam minadas. Ao menor sinal, as vias de comunicação seriam interrompidas, o que dificultaria tremendamente o avanço de tropas inimigas. A região de Genebra, fronteiriça com a França, trazia um problema espinhoso para os militares. Por ser constituída de terrenos planos e pela ausência de rios, foi considerada indefensável. Tomou-se a decisão tática de dar a cidade como perdida e implantar o sistema de defesa uns 30km mais para o interior do país.

Villa Rose Fortaleza disfarçada de casa de campo

Villa Rose
Fortaleza disfarçada de casa de campo

Construíram-se fortalezas com aparência de casas de campo. Foram levantados bunkers com aspecto externo de inofensivos chalés de madeira. Instalaram-se discretos postos de observação em pontos mais elevados ― naqueles tempos não havia street view nem espionagem por satélite. Para completar, uma verdadeira obra de arte defensiva foi construída, uma versão helvética da muralha da China. Ficou conhecida popularmente como Ligne des toblerones, a linha dos toblerones.

O que era e por que lhe deram esse nome?
Era ― e ainda é ― uma linha de 10km de blocos de concreto para barrar a passagem de tanques de guerra. São quase 3000 monstros de 9 toneladas cada um. Têm forma peculiar de tetraedro que lembra um pedaço de chocolate Toblerone, daí o apelido.

Não se tem notícia de que nenhum tanque tenha jamais tentado superar o obstáculo. Mas os toblerones continuam lá até hoje. Viraram atração turística. Trilhas próprias para caminhadas a pé serpenteiam por quilômetros ao longo da barreira de concreto. É hoje o Sentier des Toblerones, a Trilha dos Toblerones.

Villa Rose Janela com cortina falsa

Detalhe da Villa Rose
Janela com cortina falsa

Taí uma obra militar que soube envelhecer. Em escrupuloso respeito ao espírito atual, não foi atirada a um lixão mas acabou reciclada.

Helvetismos 2

José Horta Manzano

Você sabia?

Prisão suíça
Quase três meses atrás, eu lhes informava que prisioneiros do Centro de Detenção de Genebra haviam prestado queixa por tratamento desumano. A superfície das celas dividida pelo número de ocupantes dava, em alguns casos, 3,84m2 por inquilino, quando as normas internacionais estipulam um espaço mínimo de 4m2 por pessoa.

A denúncia havia sido aceita e, em Primeira Instância, os requerentes tiveram ganho de causa. Mas o Ministério Público entrou com recurso. A causa foi para a Segunda Instância, que aceitou a incumbência de rejulgá-la.

Cadeia

Cadeia

O Tribunal de Justiça, a instância superior, embora reconhecendo que as condições de detenção são, de fato, difíceis, considerou que elas não chegam a violar o espírito da Convenção Europeia dos Direitos Humanos (CEDH). Negou provimento e anulou o julgamento da instância inferior.

Portanto, os suplicantes podem dizer adeus à indenização pela qual ansiavam e vão ter de se conformar em viver com 0,16m2 de espaço a menos.

Por enquanto, pelo menos. Ainda cabe recurso ao Tribunal Fédéral, o STF suíço. Mas é uma medida que engendra custas e custo elevados ― advogados, neste país, cobram honorários de arruinar qualquer cristão. Só costuma apelar para o supremo quem tem razoável dose de certeza de obter ganho de causa.

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Policial suíço
Embora haja pequenas variações de uma região a outra, a formação de um agente policial suíço é estruturada de maneira bastante uniforme. Para poder prestar o exame de admissão à Escola de Polícia, o candidato tem de ser titular de um diploma profissional ― pouco importa de que profissão seja. O certificado que se recebe ao final da escola média, aquela que se termina pelos 18 anos de idade, também pode ser aceito. Cabe à Escola de Polícia julgar caso por caso.

Se for aceito, o candidato poderá prestar o exame de admissão. Parece que não é moleza. Há até cursinhos preparatórios para as provas. Se conseguir vencer essa etapa, o postulante seguirá um curso de um ano em período integral. Durante esse ano, dado que não poderá trabalhar, receberá um salário bruto de 4’000 francos (= 9’500 reais), remuneração correspondente ao grau de aspirante.

Polícia suíça

Polícia suíça

As matérias principais do curso são:

Direito penal e Código de processo penal
Código de processo civil
Defesa pessoal
Policiamento de proximidade
Psicologia
Ética profissional e Direitos Humanos
Lutas marciais, corrida a pé, natação, esportes
Conhecimentos gerais

Terminado o curso, o aspirante ainda tem de ser aprovado no exame final. Se passar, seu salário inicial será de 6’100 francos (= 14’500 reais). De 5 em 5 anos receberá aumento por tempo de serviço. A partir do vigésimo ano, chegará ao topo da carreira e atingirá salário de 9’000 francos (= 21’500 reais). O 13° salário não é obrigatório na Suíça. Algumas empresas o adotaram, outras não. A Polícia, generosa, paga esse benefício a seus membros.

Por aqui, caro leitor, nem sonhe em oferecer «um cafezinho» a um policial para se livrar de uma multa. Não vai funcionar e você pode se estrepar.

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No Brasil, para combater a praga da corrupção policial não há outro meio: o salário tem de ser pra lá de atraente. O maior receio de todo policial tem de ser o de perder o emprego. E ele tem de estar ciente de que um cafezinho ou uma cervejinha podem render-lhe expulsão sumária da corporação.

Com políticos, é um pouco mais complicado.

Helvetismos 1

José Horta Manzano

Prisão suíça
O Tribunal des Mesures de Contrainte do Cantão de Genève ― uma instância da Justiça Penal que, entre outras atribuições, supervisiona o cumprimento das penas ― acaba de declarar que o fato de um prisioneiro dormir num colchão estendido diretamente no chão é ilegal. O regulamento prevê que o colchão seja assentado sobre uma cama. Por aqui, não convém bobear com regulamentos.

E não é só. O tribunal deu outro puxão de orelha nos responsáveis pelo principal Centro de Detenção do Cantão. A lei é clara: cada preso tem de dispor de no mínimo 4 metros quadrados. Algumas celas de 23m2, previstas para 3 inquilinos, estão sendo ocupadas por 6 indivíduos. Isso dá 3,84m2 por pessoa. É ilegal, naturalmente.

Os presos que estão vivendo nessas condições indignas têm direito a prestar queixa e reclamar uma compensação financeira do Estado. Estima-se que uma boa metade dos presos de Genebra vivem assim. Vão todos certamente pleitear e conseguir uma reparação financeira. Eventuais prisioneiros brasileiros também terão o mesmo direito.(*)

Quanto à resolução do problema da superlotação, o abacaxi terá de ser descascado pelas autoridades competentes.Interligne 29

Ônibus no Lago Léman Crédito: AFP, Keystone

Ônibus no Lago Léman
Crédito: AFP, Keystone

Mergulho
Segunda-feira passada, pelas seis da manhã, um atônito transeunte avista um ônibus afundando no Lago Léman (Lago de Genebra), ao largo da cidadezinha de Vevey. Não é espetáculo corriqueiro.

Alertados, os socorros acorreram ao lugar. Após rápido inquérito, constatou-se que o ônibus turístico pertence a uma empresa da Macedônia ― uma das repúblicas surgidas na sequência da explosão da antiga Iugoslávia ― situada a 1750km de Vevey.

Ônibus no Lago Léman Crédito: AFP, Keystone

Ônibus no Lago Léman
Crédito: AFP, Keystone

Apurou-se que o ônibus tinha trazido um grupo de turistas para alguns dias de estada em Berna. O motorista, que tem familiares morando em Vevey, pediu autorização à empresa para passar um ou dois dias junto aos parentes.

Deixou os turistas em Berna e foi. Com o ônibus, naturalmente. À noite, deixou o veículo estacionado numa grande praça, bem em frente ao lago. O local tem um leve declive. É possível que, na ânsia de abraçar a família, o motorista não tenha puxado o freio de mão com força suficiente. O fato é que, vendo o nascer do sol e aquele lindo lago à sua frente, o ônibus não teve dúvida: decidiu dar um mergulho.

Ônibus no Lago Léman Crédito: AFP, Keystone

Ônibus no Lago Léman
Crédito: AFP, Keystone

Ninguém se feriu. A empresa despachou da Macedônia um outro veículo para resgatar os turistas em Berna.Interligne 29

Pra espantar assaltante
Na Suíça, o nível de criminalidade está (ainda) longe de atingir níveis brasileiros. Malfeitores procuram evitar confronto direto com a vítima. Preferem dedicar-se a furtos e a assalto de casas na ausência dos habitantes.

O dono de uma oficina mecânica das redondezas de Lucerna teve uma ideia original para dissuadir assaltantes de residências desocupadas. Você vai sair de férias? Tem medo que o «amigo do alheio» lhe faça uma visitinha enquanto estiver ausente? Que não seja por isso. O pequeno concessionário Andreas Birrer tem a solução.

Falsa viatura policial

Falsa viatura policial

Ele criou, de maneira assaz convincente, carros idênticos aos utilizados pela polícia. Com pintura, sinal luminoso no teto e todo o aparato. Basta combinar com ele e informar o dia em que você vai sair de férias. Uma viatura «da polícia» ficará estacionada bem em frente ao seu portão até a sua volta. O serviço sai por 250 francos suiços por semana, pouco mais de 400 reais.

Dado que a lei exige que carros de polícia sejam dirigidos por policiais, a falsa viatura será rebocada até seu portão. Na volta, repeteco: um guincho levará o veículo embora.

Indagados sobre a novidade, policiais ― verdadeiros ― acharam a ideia divertida. Mas não acreditam que os assaltantes se deixem enganar por muito tempo.Interligne 29

(*) Seguindo conselho de uma leitora, o blogue consultou o Centro Prisional de Champ-Dollon, em Genebra. A diretoria nos confirmou que, no rol dos inquilinos atuais, não figura nenhum ex-prefeito de São Paulo.

 

Esquizofrenia

José Horta Manzano

Quando cheguei à Europa, quase 50 anos atrás, nós brasileiros éramos olhados com curiosidade. A gente se sentia realmente estrangeiro. Viajar custava caro, poucos podiam se dar ao luxo de fazer turismo de cá para lá ou de lá para cá. A maioria dos europeus nunca havia visto um visitante vindo de tão longe.

A Europa ainda era cheia de fronteiras, de vistos, de alfândegas. Hoje não é mais assim, mas naquela época, para passar de um país a outro, era absolutamente necessário apresentar documentos. Nossa nacionalidade era tão exótica, que cheguei a assistir a cenas surpreendentes.

Uma vez, ao atravessar uma fronteira rodoviária entre a Itália e a França, o policial de serviço recolheu nossos passaportes, mandou esperar, e desapareceu dentro da guarita. Voltou um momento depois acompanhado de um outro, que parecia ser seu chefe. Pelo olhar benévolo e inofensivo que nos lançaram, percebi que estavam movidos apenas pela curiosidade. Estavam vendo ― provavelmente pela primeira vez na vida ― gente de carne e osso proveniente de uma terra tão longínqua e improvável como era a nossa.

Alguns países exigiam visto de brasileiros. Entre eles, mui estranhamente, a Espanha. A autorização de entrada naquele país tinha um custo, é verdade, mas valia a pena: o visto espanhol era um prazer para os olhos. Uma enorme marca de carimbo de tinta roxa preenchia uma página inteira do passaporte. Metade da superfície carimbada vinha encoberta por uma fieira de estampilhas coloridas. Uma assinatura se sobrepunha ao bonito conjunto. O único senão é que todos os selos, sem exceção, traziam a cara de Franco, o feroz caudilho.

Espanha ― Selos antigos

Espanha ― Selos antigos

O tempo passou, as coisas mudaram. Hoje em dia, nem os próprios diplomatas brasileiros que servem na Europa conseguem dizer com exatidão quantos conterrâneos nossos, entre legais e clandestinos, vivem em cada país. Nos países mais concorridos, somos centenas de milhares.

Uma amiga minha, brasileira mas radicada há muitos anos na Europa, costuma dizer que dar um passeio em Genebra num domingo de verão à beira lago equivale a passear à beira-mar em Natal ou Fortaleza. A paisagem é bonita e os frequentadores são metade brasileiros e metade estrangeiros.

Talvez por falta de visão estratégica, o governo brasileiro costuma ser apanhado de surpresa assim que o panorama mundial se altera. Não só crises financeiras e outros eventos planetários têm o poder de colher nossos mandachuvas de calças curtas. Modificações paulatinas ― e previsíveis ― do comportamento dos cidadãos não costumam ser antecipadas. É preciso que a pressão esteja a ponto de fazer saltar a tampa para que alguém se preocupe em acionar a válvula de escape.

Assim foi com o aumento de brasileiros estabelecidos ― legal ou ilegalmente, pouco importa ― no exterior. Não aconteceu da noite para o dia. O aumento já vem se acentuando há um quarto de século. As representações consulares brasileiras, quase ociosas nos anos 60 e 70, foram-se tornando pouco a pouco mais movimentadas.

Até não faz muito tempo, pelo menos no consulado do Brasil em Genebra, o atendimento era caótico. Levas de conterrâneos se espremiam diante de dois exíguos guichês, senhas não eram distribuídas, não havia nenhuma cadeira disponível, o horário de atendimento era de 3 horas por dia. Cada um tinha seu problema: uma renovação de passaporte, uma legalização de documento, o registro de um recém-nascido, um documento militar, um título de eleitor, uma procuração. O atendimento só era possível na base da cotovelada.

Atendimento reverencioso

Atendimento reverencioso

De uns dois anos para cá, o esforço de um novo Cônsul-geral conjugado a uma tomada de consciência do Itamaraty operaram um milagre. Aquele apinhado de gente em frente do guichê é pesadelo do passado. Hoje marca-se hora ― perdão! ― hoje se agenda por internet e, no dia combinado, recebe-se atendimento personalizado. E pontual.

Não tenho informação, mas suponho que os demais consulados do Brasil estejam agora oferecendo o mesmo tratamento digno que recebemos aqui. Finalmente, o Itamaraty se deu conta de que os milhões de conterrâneos residentes no exterior não são banidos nem desterrados. São brasileiros como os outros e têm necessidade de atendimento.

É curioso constatar que a instituição que vem agora tratando os brasileiros do exterior com tanta urbanidade e tanto mimo é a mesma que afaga caudilhos confirmados e aprendizes, ditadores experimentados e iniciantes, e dignitários de regimes sanguinários no resto do mundo.

Sem dúvida, um caso curioso de esquizofrenia.

Notícias de Ponta Grossa

José Horta Manzano

Passeando pelos jornais de hoje, topei com um relato um tanto confuso de uma vereadora de Ponta Grossa (PR), presa por ter forjado seu próprio sequestro. Não se lançou à aventura sozinha, mas acumpliciada com Suzicleia, Idalécio e Adalto. Para espíritos mais curiosos, a notícia completa está aqui.

Se entendi a história ― mas não tenho certeza ― a edil fez o que fez para escapar da eleição da Câmara. Confesso não saber a que eleição da Câmara se refere o articulista. Pensava que, para não votar, bastasse não comparecer. Parece que é bem mais complicado.

Contra a vereadora e seus cúmplices, será apresentada denúncia por crime de formação de quadrilha, simulação de sequestro e fraude processual. Não é pouca coisa. Mas parece que a eleita municipal já providenciou advogado. O causídico, naturalmente, entrará logo com pedido de habeas corpus. E assim, vão todos para casa torcer para que o processo se eternize nos escaninhos da Justiça brasileira. E tudo bem.

Crédito: Thiago Schuina

Crédito: Thiago Schuina

Não conheço Ponta Grossa. A curiosidade me levou a consultar a Wikipédia. Fiquei sabendo de muita coisa. O município não é nenhuma Xiririca da Serra, não, senhor. A população estimada é de mais de 300 mil almas, como Genebra!

Uma outra informação me deixou pasmo. O inverno é mais frio e o verão é mais quente! Não é um fato digno de nota? Para quem quiser conferir, está lá com todas as letras, no tópico Clima. Aqui.

A Wikipédia traz um capítulo sobre a composição da população de Ponta Grossa. Fala dos desbravadores portugueses, dos tropeiros, das famílias vindas de São Paulo. Conta que, mais tarde, chegaram eslavos, árabes, italianos e outros estrangeiros. Curiosamente, nenhuma menção é feita aos habitantes primitivos do lugar, os indígenas. Não terá sobrado nenhum?

Não vamos atirar pedra nesse artigo. Não é o único, apenas segue a linha que nos ensinaram desde o curso primário. Nossa historiografia oficial menciona todos os imigrantes ― do português ao coreano ―, fala do africano trazido à força, mas faz abstração do habitante originário, como se nunca tivesse existido. O índio pode até servir como figurante de quadros épicos, mas na vida real atrapalha.

Por que razão isso acontece?