As entranhas

José Horta Manzano

Exatamente no dia de Natal, faz quase um mês, o Estadão publicou um artigo assinado pelo professor Zander Navarro, sociólogo e antigo docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A data de publicação não foi a mais propícia. Acredito que muita gente possa ter deixado de ler. O texto, sintomático da atual realidade brasileira, não merece cair no esquecimento. É por isso que lhes dou hoje o endereço. O título é As entranhas do bolsismo. Transcrevo aqui um parágrafo:

Interligne vertical 12«Em Salvador, uma candidata a empregada doméstica foi entrevistada na casa da senhora contratante. Acertados o salário e os horários de trabalho, ela impôs uma inesperada exigência: não queria ter a Carteira de Trabalho assinada. Diante da surpresa, explicou que se for assim perderá o “auxílio-pesca” que recebe há quase dez anos. “Mas você é pescadora?” Ela riu e disse que nunca fez isso, mas em seu município de origem todos recebem o benefício federal, mesmo não sendo pescadores. Mora com o marido na capital, mas mantém o endereço anterior para continuar beneficiária. Pretendem se mudar para a cidade de Conde, pois lá ofereceriam adicionalmente uma cesta básica por mês.»

Pronto, o tom está dado. Clique aqui para ler o texto integral.

Vamos montar uma ong?

José Horta Manzano

Fiquei sabendo que dona Marta, aquela senhora de ares arrogantes que um dia foi prefeita da cidade de São Paulo, foi condenada por haver cometido pecado de improbidade administrativa durante sua gestão. Eu disse condenada? Tudo é relativo. Agora chegou a hora do jus esperneandi, como costuma acontecer no Brasil. Recursos, medidas protelatórias, embargos infringentes, embargos postergantes, o diabo.

Os fatos ocorreram há já doze anos. Pode contar mais uns dez até que a decisão transite em julgado. Até lá, a antiga alcaide ― que completa 69 aninhos dentro de exatos dois meses ― já será anciã e fará jus à doçura que nossa lei devota aos velhinhos.

Mas deixe estar. Aquela cuja biografia já estava marcada pela ousadia vulgar e debochada do «relaxa e goza» acrescentou mais uma missanga a seu colar de impropriedades. A História se encarregará de guardar memória.

E o vento levou...

E o vento levou…

Seu crime? Ter contratado, sem licitação, os serviços de uma ong da qual era sócia fundadora. Por uma quantia próxima de 200 mil reais ― valores de 2004. Não precisa ser jurista para se dar conta da promiscuidade dessa trama.

Nessa mísera história, o que mais me perturba não é o fato de dona Marta ter patrocinado uma ação entre amigos. O que não consigo entender é que a lei permita ao Executivo contratar serviços de ongs contra remuneração. Pior que isso, mais abismado fico com o desprendimento, a desenvoltura e a despreocupação com que nossos governantes doam milhões do nosso dinheiro a organizações nebulosas, saídas não se sabe de onde, que brotam feito mato depois da chuva.

Organizações não governamentais, por definição, têm de estar desligadas e bem afastadas de governos. Que andem com suas próprias pernas e que vicejem por seus próprios meios. Irrigá-las com dinheiro público é porta escancarada a corrupção e a desvios. Um desatino.

Frase do dia — 81

«(…) A atual conjuntura sugere que o Brasil está se tornando uma Argentina, a Argentina está virando uma Venezuela, e a Venezuela já é quase um Zimbábue.»

Editorial do Estadão de 17 jan° 2014.

O sabor está nos detalhes

José Horta Manzano

Em seu blogue Olimpílulas, alojado no Estadão, o jornalista Demétrio Vecchioli traz uma panorâmica da desastrosa situação do País em matéria de preparação para os Jogos Olímpicos de 2016.

Falta de interesse das confederações, parques aquáticos e outros ginásios fechados para reforma, indiferença geral por parte de autoridades, falta de estímulo à população estão minando o caminho de um Brasil que aspirava a tornar-se potência esportiva.

Para alcançar nível elevado, seja ele nos esportes, nas artes ou nas ciências, simples esperanças não bastam. É necessário muito trabalho, muito investimento e muita paciência. Sem esforço, com investimento parco e, ainda por cima, de afogadilho, não se chega lá. É indiscutível.

O artigo é afligente. Chega-se ao final com sentimento de desalento. Ainda que se comece a leitura com espírito de combatente optimista, termina-se com ânimo de vira-lata. Garantido.

As coisas são assim, que remédio? Nós outros, distantes dos centros de poder e de decisão, pouco ou nada podemos fazer. Mas nem tudo está perdido. Sobra uma consolação. Como diz o outro, rir é a melhor solução.

No final do texto, aparecem os comentários. Um leitor, que se assina Carlos Moura, desvenda, em tom irônico e bem-humorado, as raízes do mal.

Comentário de um leitor do Estadão

Comentário de um leitor do Estadão

Transcrevo:

Interligne vertical 12«Somos campeões mundiais em diversas modalidades (em moralidade perdemos todas!). Não temos concorrentes em desvios orçamentais, assalto com farra, arremesso de impostos, mil mensaleiros livres, trampolim político sincronizado, micha atlética, lançamento de dano, helicoptatlo, assalto à distância, badminton, camuflagem, EBX, concurso completo de indicação, tiro perdido, tiro com arco 51, e até corredor de helicópteros… Tudo com as bênção dos deuses do Eulimpo! Por último, o sigla que avança a olhos vistos, malvistos e não vistos, e o outro COI ― Começão Olímpica de Impostos. Uma pena. A criatividade deveria estar sempre a serviço do bem.»

Pra frente, Brasil!

Frase do dia — 80

Me dá uma bolsa aí!

«O aumento expressivo na inatividade registrado em novembro é explicado pelo crescimento da faixa da população que não trabalha nem quer ter um emprego, segundo o IBGE. O fenômeno já tinha sido observado no mês anterior.»

Daniela Amorim, in Estadão 16 jan° 2014.

Rapidinha 12

José Horta Manzano

Com reportagem de Ricardo Chapola, o Estadão nos informa que foi criado um site exclusivamente para passar o chapéu e arrecadar uma ajudazinha do distinto público. Para quê? Ora, para pagar a multa a que um dos réus do mensalão foi condenado.

Três dúvidas me ocorrem:

Interligne vertical 141) O partido ao qual esse senhor é afiliado é considerado abastado. Por que não enfiam a mão no bolso e acabam logo com essa encenação?

2) Dados relativos a movimentação bancária são, em princípio, sigilosos. Quem garante que o montante anunciado terá sido realmente alcançado? De qualquer maneira, seja qual for a quantia declarada, ninguém poderá contestar.

3) Três dos condenados no processo do mensalão pertencem ao mesmo partido. A vaquinha está sendo lançada para dar arrimo apenas a um deles. Por que razão os outros dois não ousam recorrer à caridade pública? Será lícito tomar esse silêncio por uma reconhecimento de culpa?

Quem viver verá.

Boa-fé, má-fé, pouca fé

José Horta Manzano

A comunicação verbal é um dos traços distintivos entre o homem e o resto dos animais. Essa relação passa por um conjunto de códigos ― em princípio conhecido por todos os participantes.

Damos a essa coleção de símbolos o nome de língua. Dialeto, pidgin, crioulo, patoá, gíria, jargão são variantes do mesmo tema. Para que a informação passe, é imprescindível que os integrantes do grupo conheçam os códigos. Se assim não for, o recado não chega aonde deveria chegar, o que pode causar a maior confusão.

Estudante 2Como toda obra humana, a difusão das chaves da comunicação não é uniforme. Por mais homogêneo que seja o grupo, nem todos os seus componentes conhecerão todo o elenco de palavras disponíveis.

A reportagem de J. M. Tomazela, do Estadão, relata um fato constrangedor, daqueles que escancaram o resultado do processo de infantilização ao qual nosso povo vem sendo submetido.

O artigo relata a péssima ideia ocorrida a um jovem adulto brasileiro, que atualmente toma aulas de publicidade nos EUA. Sabe-se lá por que razão, o moço descabeçado decidiu cutucar a área de segurança americana. O mundo inteiro sabe que, por aquelas bandas, esse é assunto altamente sensível. Bulir com segurança nacional é pior que xingar a mãe do guarda.

Acreditando-se inatingível, o jovem enviou mensagens eletrônicas nas quais anunciava a presença de bomba num determinado voo, programado para dali a alguns dias. Para coroar o desvario, o moço tentou embarcar justamente no voo que havia apontado em suas denúncias. De criança, não deve ter aprendido que brincadeira tem hora, lugar e, principalmente, limite.Bomba 1

Desde os atentados de 2001, os serviços de segurança americanos não brincam em serviço. Pelo contrário, chegam a exagerar na prevenção. O irresponsável foi rapidamente identificado. Os policiais não se deram nem ao trabalho de colhê-lo em casa. Esperaram no aeroporto. Quando lá chegou, o engraçadinho, naturalmente, não embarcou. Foi direto para o xilindró, onde periga passar uma boa temporada. Naquele país, habeas corpus e embargos infringentes não são corriqueiros.

A família do estudante declarou que o jovem adulto agiu sem má-fé. Como é que é? Sem má-fé? Uma consulta ao dicionário se impõe. Está lá no Houaiss:

Interligne vertical 13«Má-fé
1 Disposição de espírito que inspira e alimenta ação maldosa, conscientemente praticada; deslealdade, fraude, perfídia
2 Termo usado para caracterizar o que é feito contra a lei, sem justa causa, sem fundamento legal e com plena consciência disso».

É exatamente o que fez o tresloucado jovem: movimentou todo um dispositivo de segurança, atrasou um voo comercial, atazanou a vida de centenas de passageiros, sacudiu a logística de uma companhia aérea, fez estrilar alarme vermelho em agências de segurança. Agiu de forma deliberada e consciente. Se isso não for má-fé, o que será?

Para efeito de comparação, vejamos o que nos ensina o mesmo Houaiss no verbete boa-fé:

Interligne vertical 13«Boa-fé
1 Retidão ou pureza de intenções; sinceridade
2 Convicção de agir ou portar-se com justiça e lealdade com relação a alguém, a determinados princípios
3 Respeito ou fidelidade às exigências da honestidade ou do que é considerado direito; lisura»

Agora ficou claro. O ato praticado foi de má-fé, sim, senhor. Aqueles que, preocupados em defender o jovem, disserem o contrário estarão deturpando a expressão.

Esperemos que estejam usando o substantivo errado por simples ignorância e não por… má-fé.

De ouro

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno leu matéria do Estadão deste domingo e ficou sabendo que a Fifa, numa decisão um tanto fora dos padrões, decidiu conceder uma Bola de Ouro a Pelé ― uma espécie de bola honoris causa.

O mundo inteiro, Sigismeno incluído, sabe que Edson Arantes do Nascimento foi um grande jogador de futebol. Autor de mil e tantos gols, participou de quatro Copas do Mundo ― em três das quais a seleção do Brasil foi campeã.

Um pouco simploriamente, como de costume, Sigismeno veio com suas cogitações filosóficas. Disse que a Fifa não costuma dar ponto sem nó. Até aí, tive de concordar. Disse também que andou espiando no gúgol e ficou sabendo que Pelé jogou sua última partida como profissional mais de 35 anos atrás e que, desde então, pendurou as chuteiras.

Sigismeno sabe que a Fifa nunca se preocupou com outros grandes craques brasileiros, sabe que Garrincha morreu na miséria, sabe que outros grandes foram completamente esquecidos. Espremeu suas meninges à cata de uma razão para essa repentina homenagem que a federação mundial resolveu prestar a Pelé depois de tanto tempo. O homem está aparentemente em boa saúde, portanto não há-de ser daquelas honrarias que se concedem in extremis.

Blatter, Pelé & Dilma Reparem: a Fifa pisoteou a grafia do sobrenome presidencial

Blatter, Pelé & Dilma
Reparem: a Fifa esqueceu de conferir no gúgol e acabou pisoteando a grafia do sobrenome presidencial

De repente, a luzinha acendeu. «Mas é claro! É por causa da Copa do Mundo, que está para começar daqui a 5 meses!» Confesso que, na hora, não entendi bem a relação. «E o que tem isso a ver com o ouro que vão dar ao Pelé?», perguntei.

«Mas você não percebe?», retrucou meu amigo. «Os cartolas de Zurique estão apavorados com protestos e manifestações de rua que possam ocorrer durante a Copa».

«Continuo sem entender», retruquei, sem conseguir acompanhar o raciocínio do Sigismeno.

«Pois é o seguinte, meu caro. Em junho passado, os da Fifa se deram conta de que o povo anda um bocado enfezado com essa história de Copa. Os gastos, o desperdício, os roubos, os atrasos, essa farra toda. Para se mostrar simpáticos, resolveram agradar aos brasileiros. Devem ter pensado até em dar o prêmio a nossa presidente, mas, sacumé, depois das vaias no Maracanã, a coisa ficou meio delicada. É por isso que estão homenageando o Pelé, por imaginarem que é uma espécie de ídolo adorado por todos os brasileiros. É uma tentativa de amansar o povo, você não percebe?».

Bola de ouro

Bola de ouro

Percebo. Devo admitir que percebo. Se vai funcionar, isso são outros quinhentos.

E o Sigismeno, inspirado, ainda profetizou que a Bola de Ouro deste ano ― a verdadeira ― pode ser dada até ao Dalai Lama, mas jamais será dada ao Messi. Porque o moço é argentino. Melhor não atiçar rivalidades.

Parece um gesto ajuizado. Pode dar certo. Ou não.

Frase do dia — 78

«Os números são claros como as águas do Mar do Caribe: dos 13 mil profissionais que o programa Mais Médicos pretende mobilizar até março, mais de 10 mil serão cubanos. Com isso, não resta mais nenhuma dúvida de que a anunciada intenção de atrair médicos de outras nacionalidades ou mesmo brasileiros não passou de fachada para um projeto há muito tempo acalentado pelo governo petista: importar médicos cubanos em grande escala, ajudando a financiar a ditadura cubana.»

Programa “mais cubanos”, editorial do Estadão de 11 jan° 2014. Para ler o texto integral, clique aqui.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Comentário meu

Com ou sem ajuda do dinheiro suado dos brasileiros, a ditadura cubana há-de cair de podre, mais dia, menos dia. O intuito maior dessa chamada maciça de imigrantes é espalhar cabos eleitorais pelos cantos mais recuados do território nacional, numa tentativa de conservar o poder.

Enquanto a galeria se entusiasma com discussões estéreis sobre financiamento de propaganda eleitoral, aí está o exemplo acabado de que o custeio já está sendo feito com dinheiro público. É isso aí, camaradas!

Frase do dia — 77

«O presidente da Fifa, Joseph Blatter, queixou-se do comportamento da presidente Dilma Rousseff ao técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, e, nos bastidores, alfineta a presidente sempre que é perguntado sobre o envolvimento do governo na preparação para a Copa.»

Jamil Chade, em artigo publicado pelo Estadão em 7 jan° 2014. Para ler as 160 palavras adicionais, clique aqui.

Frase do dia — 75

«Se houve um tema predominante na América Latina em 2013, foi o naufrágio das ilusões óticas. Da guerra às drogas no México, que matou 60 mil e segue sem trégua, ao Mercosul, que se encorpou com a entrada da Venezuela e definhou como pacto de integração regional, o ano velho foi-se e levou a soberba.»

Mac Margolis, em sua coluna publicada no Estadão, 5 jan° 2014

Frase do dia — 74

«Ser simples não é pegar crianças no colo, comer cachorro-quente na esquina ou gesticular para famílias nas calçadas. A simplicidade está no ato de pensar, dizer e agir com naturalidade. Sem artimanhas nem maquiagens.»

Gaudêncio Torquato, jornalista e consultor político, in Estadão, 5 jan° 2014

Frase do dia — 72

«Só revalorizando a meritocracia e com obsessão pelo cumprimento de metas o Brasil dará o salto que precisa dar na qualidade dos serviços públicos. Com uma carga tributária de 36% do PIB, recursos não faltam.»

Fernando Henrique Cardoso, em coluna publicada no Estadão, 5 jan° 2014

Frase do dia — 69

«Copa do Mundo ― Evento que transformou o Brasil de gigante emergente em anão incompetente aos olhos do mundo. O evento que seria nosso baile de debutante planetário atraiu um foco negativo como nunca antes na história deste país. Morte de operários, goteiras e desabamento em estádios, corrupção, injustiça social, nossa continental roupa suja está sendo lavada em múltiplas línguas.»

Lúcia Guimarães, em seu Glossário de 2014, publicado pelo Estadão de 30 dez° 2013. Para ler o texto completo, clique aqui.

Previsões para a Copa

José Horta Manzano

A Copa do Mundo de Futebol, para quem não se deu conta, já começou faz uns dois anos. As 32 equipes que evoluirão este ano nas «arenas» (=estádios) do Brasil estarão disputando a fase final. O torneio começou com as eliminatórias regionais, das quais participaram perto de 200 países.

Os que integram a fase final são já uma elite, visto que 5 em cada 6 pretendentes já foram desclassificados. Para a maioria dos times nacionais, o objetivo era chegar a essa fase, ou seja, ganhar a passagem para o Brasil. Já se dão por satisfeitos de o terem conseguido. Outras equipes são mais ambiciosas e fixam a meta um bocadinho mais além: fazem de tudo para chegar às quartas de final, glória suprema.

Pelo que tenho constatado, nenhum país ousa declarar que tem como objetivo «ganhar» a Copa. É claro que todos os torcedores ficariam felizes se seu time nacional fosse campeão. Mas chegar às quartas de final já é façanha considerada de bom tamanho. Ninguém se arrisca a falar abertamente em levar o caneco.

Na cabeça do torcedor brasileiro, as coisas não funcionam exatamente assim. O objetivo é um só: ganhar o campeonato e levar a taça para casa. Terminar em segundo lugar ― o segundo entre 200 nações! ― é considerado, entre nós, um fracasso. Ficar em terceiro, então, é catastrófico. Menos que isso é vergonha nacional.

Por que isso acontece? Quem tiver uma explicação, que me diga. Confesso que não sei.

Interligne 18e
Sonia Racy colheu as costumeiras previsões para o novo ano formuladas por especialistas em tarô, numerologia e astrologia. A mesma série de perguntas foi feita a cada um deles. Entre as respostas, estão evidências que dispensam estudos esotéricos: haverá furacões, inundações, terremotos, manifestações populares durante a Copa, escândalos políticos. Para isso, dispensamos prevedores.

Já em outros assuntos, os três especialistas não conseguiram entrar em acordo. Há quem aposte na reeleição de mandatários atuais, há quem jure que serão varridos pelos eleitores. A ver. (Ou “haber”, como me escreveu uma vez um amigo espanhol. Não imite, que está errado, hein!)

Um tema, no entanto, uniu a predição dos três especialistas: o Brasil não será campeão de futebol.Copa 14 logo 2

O tarólogo foi pouco incisivo, mas bastante claro:
«O brasileiro costuma cantar vitória antes da hora (é pretensioso), e a pretensão é a maior inimiga da vitória».

A numeróloga foi direto ao ponto:
«Haverá uma queda de confiança na equipe, que levará o Brasil a perder a Copa».

E o astrólogo martelou um golpe seco e sem dó:
«O Brasil terá grande atuação, mas não vencerá».

É isso aí, minha gente. Melhor ir-se conformando.

Clique aqui se quiser ler a integralidade das previsões.

O bolso e a bolsa

José Horta Manzano

Chegou o fim do ano e, com ele, o tempo dos balanços. Uns medem o que venderam, o que compraram, o que construíram, o que gastaram. Outros avaliam quanto engordaram, quanto emagreceram, quanto envelheceram. Cada qual com seu problema.

Em artigo de 30 dez°, Josette Goulart, do Estadão, nos informa que o índice Bovespa ― da Bolsa de Valores de São Paulo ― caiu 15.5% em 2013.

Esclarece a jornalista que o esfacelamento de uma companhia petroleira pertencente a um certo senhor Batista responde por nada menos que 40% do baque. O resto vem principalmente do encolhimento da Petrobrás e da Vale. A retração do mercado chinês se encarregou de completar a derrocada.

Não é preciso ser doutor em Economia para entender que, por detrás desse fracasso, estão as impressões digitais do governo brasileiro.

Os negócios do senhor Batista foram encorajados pelo Planalto e generosamente regados com dinheiro nosso. Em atitude típica daquele que nunca tinha comido mel, os luminares que imaginam governar o País se lambuzaram. E acabamos todos melados.Estatísticas 2

A Petrobrás ― cujo capital, frise-se, é majoritariamente constituído de dinheiro nosso ― tem sido instrumentalizada à moda bolivariana.

Para coroar a trapalhada, a ideologia míope que domina nossas altas esferas optou por menosprezar clientes tradicionais e atrelar nosso destino econômico à China.

O negócio do senhor Batista era vidro e se quebrou. A Petrobrás, sugada, enxugada e usada para fins politiqueiros, anda mal das pernas. A China desacelerou. Deu no que deu: a bolsa brasileira, que reflete a confiança que o mundo deposita no futuro de nossa economia, desceu a ladeira.

A Bolsa de Tóquio logrou excepcional valorização de 55%. A de Nova York subiu mais de 25%. Com informações da Reuters, aqui abaixo está a lista da valorização anual das principais bolsas europeias até 30 dez° 2013:

    Dublin         + 33,5
    Helsinque      + 28,7
    Atenas         + 27,9
    Frankfurt      + 25,5
    Copenhague     + 24,0
    Oslo           + 23,0
    Madri          + 20,9
    Zurique        + 20,1
    Bruxelas       + 17,8
    Paris          + 17,3
    Amsterdã       + 16,7
    Lisboa         + 16,6
    Milão          + 16,6
    Londres        + 14,0
    Viena          +  6,1

Para o ano que vem ― quem sabe? ― nosso governo toma jeito. Não boto muita fé, mas estamos em época de festa, de euforia. Afinal, Deus é brasileiro, não?

Primeira-ministra destituída

O Estadão continua deixando as manchetes a cargo de estagiários. Sem supervisão, hoje rebaixaram Frau Angela Merkel ao posto de presidente.

Estadão, 31 dez° 2013

Estadão, 31 dez° 2013

Está errado. O presidente da República Federal da Alemanha é Herr Joachim Gauck. Naquele país, a presidência é cargo meramente honorífico. Frau Merkel é chanceler. Se quiser chamar de primeira-ministra, ela não há de se ofender. Presidente, nein!

Novo aeroporto

José Horta Manzano

Como é bom ser grande empresário num país de gente apática! Nossa falta de noção de pertencimento a uma comunidade faz que cada um de nós reaja com um simples dar de ombros a qualquer notícia, seja ela boa ou má.

O máximo que se vê é algum protestozinho mole aqui ou ali ― alguma manifestação que acaba se desmanchando em vandalismo. De estudar, que é bom, não gostamos. De aprender, que é bom, não gostamos. De nos esforçar, que é bom, não gostamos. De dar o melhor de nós mesmos, que é bom, não gostamos. Passamos a vida à espera de que alguém faça alguma coisa. Costumamos ter a nítida impressão de que o problema não é conosco.

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

Alguns poucos se apercebem dessa generalizada tendência ao descaso, ao «tô-nem-aí». Para desgraça nossa, nem sempre são os mais bem-intencionados. Vai daí, nossas portas estão abertas a aventureiros, predadores, espertalhões, inescrupolosos, aproveitadores. A conjunção deletéria do descaso da população com o oportunismo de uma meia dúzia trava o país. E perpetua o insuportável contraste entre a riqueza indecente de uns contra a miséria negra de outros.

Em seu blogue alojado no Estadão, Marina Gazzoni nos contava, semana passada, que está prevista a construção de novo aeroporto (mais um!) para servir a cidade de São Paulo. O projeto foi apresentado por um consórcio de grandes empreiteiras. A certeza de que seja aprovado sem reticências é tão grande, que as construtoras já compraram até o terreno. Afinal, convencer autoridades públicas é especialidade de grandes empresários…

Reinventando o avião by Glen Baxter, desenhista inglês

Reinventando o avião
by Glen Baxter, desenhista inglês

O adjetivo absurdo, de tão usado, já gastou. Dizer que a ideia é absurda soa banal. Contraditória? Incoerente? Insensata? Disparatada? Que cada qual escolha o termo que melhor lhe convier. Estamos diante de uma estupidez sem nome.

O aeroporto de Guarulhos, que há 30 anos serve a capital do Estado, viu passar 32 milhões de passageiros em 2012. No mesmo ano, o movimento de viajantes registrado nos dez aeroportos mais movimentados do planeta foi o seguinte:

    Dubai       = 58 milhões
    Djacarta    = 58 milhões
    Dallas      = 59 milhões
    Paris       = 62 milhões
    Los Angeles = 64 milhões
    Chicago     = 67 milhões
    Tóquio      = 68 milhões
    Londres     = 70 milhões
    Pequim      = 82 milhões
    Atlanta     = 95 milhões (!)

Guarulhos não aparece nem entre os 30 aeroportos mais movimentados do mundo. Como qualquer um pode deduzir, se outros conseguem acolher o triplo dos viajantes atendidos em Cumbica, por que, raios, não seríamos nós capazes de fazer o mesmo? Há maneiras mais práticas, mais baratas, mais eficazes e mais lógicas de melhorar o desempenho da estrutura existente.

Foi um erro ter construído o aeroporto onde se encontra? Muitos dizem que sim. Mas não tem mais jeito: feito está, feito ficará. O que não convém é repetir a asneira.

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário by Ross Thomson, desenhista inglês

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário
by Ross Thomson, desenhista inglês

Caieiras, o município «escolhido» pelos empreiteiros, é localidade encarapitada na Serra da Mantiqueira, a quase 800m de altitude, num dos raros pulmões verdes que ainda sobram à roda de São Paulo. Para coroar o desatino, aquela serra é considerada zona de mananciais. Uma parte do abastecimento de água da megalópole depende da preservação e dos bons cuidados que se dediquem à região. E tem mais: como localidade serrana, Caieiras é tão sujeita a nevoeiros como Guarulhos.

Antes de pensar em novo aeroporto, ainda há muito que fazer no velho. Ligação ferroviária rápida, aumento da capacidade dos estacionamentos, construção de novos terminais, desapropriação de terrenos circunvizinhos, melhora na logística de movimento de carga, aprimoramento da formação de pessoal, reforço da segurança. Tudo isso é mais lógico e sai mais barato do que construir mais uma estação aérea.

Não tem cabimento termos estádios padrão Fifa e continuarmos com aeroportos padrão Uagadugu.

Frase do dia — 59

«Dentre os destinos possíveis para o americano desterrado, o Brasil desponta como ecossistema promissor. Afinal, é um portento entre os emergentes, democrático e dono de uma diplomacia independente. Respeita a liberdade de expressão e nutre um certo dissabor frente ao poderio americano. Tanto que o Palácio do Planalto parece até teleguiado por Snowden, que se manifesta pela caneta do jornalista Glenn Greenwald.»

Mac Margolis, colunista dominical do Estadão e editor do site Brasilinfocus.com, discorrendo sobre Mr. Snowden e a sinuca em que se meteu. In Estadão, 22 dez° 2013.

Observação natalina: neste começo de estação, a temperatura em Moscou anda anormalmente clemente: estacionou no zero grau faz alguns dias. Mas a previsão é de que, nas próximas semanas, volte ao costumeiro e desça uns 10 ou 15 graus. O inverno moscovita pode tardar, mas não falha nunca, que diabos!