Conselho de Paz

Conselho da Paz
20 membros fundadores

José Horta Manzano

Davos, 21 janeiro 2026
A fila de espera para entrar no recinto em que Donald Trump era esperado para discursar estava “de dobrar a esquina”. (Que se entenda essa expressão em sentido poético, pois, com o frio que faz em Davos, ninguém ia esperar na esquina.) Armaram uma fila interna, como as que se vêem em check in de aeroporto. O discursante, a estrela do espetáculo, chegou atrasado em razão de problemas técnicos no Air Force One.

Em silêncio de catedral, o presidente dos EUA foi ouvido. Falou sem parar durante mais de uma hora. Se espremermos a fala pra extrair o suco, vamos descobrir que não disse nada além do que todo o mundo já tinha ouvido antes. Passou quase todo o tempo autoelogiando-se e desdenhando o trabalho do governo Biden, seu predecessor. É um de seus esportes preferidos, uma fixação.

Nesse particular, Trump me lembrou o Lula, que passou o primeiro mandato reclamando do antecessor (FHC) e se lamentando que tinha recebido uma “herança maldita”. Quando a reclamação é repetida ao ponto de virar mantra, o ouvinte deve desconfiar.

Da Venezuela, Trump disse pouca coisa. É pena, porque esse assunto nos interessa de perto. Insultou quanto pôde seus parceiros europeus, sem ir além do que já tinha dito anteriormente. Nenhuma novidade.

Novidade mesmo é sua ideia de criar um “Conselho de Paz” para funcionar em paralelo com a ONU. Terá o mesmo nobre objetivo, que é manter a paz no mundo, mas com diferenças fundamentais. Pelo que se vê, quem vai mandar no tal Conselho é um Donald Trump secundado por sua equipe, os companheiros de sempre. A dominação dessa “equipe fundadora” já ficou visível no convite aos futuros participantes: eles decidiram sozinhos quais países seriam convidados e quais seriam excluídos.

China e Rússia fazem parte dos eleitos. Também a Ucrânia, que já declarou ser impensável sentar-se em torno de uma mesa junto com a Rússia. Todos os países europeus foram chamados, mas quase nenhum confirmou até agora. Convidado, o Canadá respondeu que nem em sonho pagaria o bilhão de dólares exigido de cada participante. Um bilhão de joia, como num clube de luxo!

Os que já correram pra confirmar presença são os bons amigos de Trump, como Argentina, Israel e Hungria. Já a França e a Noruega recusaram logo de saída. Segundo Trump, “todo o mundo quer fazer parte”. Não parece. Dos cerca de 60 convidados, nem metade confirmou até agora. Entre os que disseram sim, estão: Azerbaidjão, Kosovo, Cazaquistão, Bahrein, Marrocos, Armênia. Uma seleção pra ninguém botar defeito.

Se posso dar um conselho à equipe de Lula, será o de pensar duas vezes antes de responder. Antes de mais nada, acho pretensioso, da parte de quem dá a festa, mandar “convite” e ainda cobrar um bilhão de dólares de entrada. Um montante assim deixa de ser simbólico e passa a significar enriquecimento ilícito à custa de quem pode menos. E, no fundo, esse dinheiro vai para quem? Para o tesouro americano? Para o bolso de Trump? Não ficou claro.

Donald está utilizando o truque da adulação. Está atiçando a vaidade de cada um. Muita gente se sentiria orgulhoso de sentar-se ao lado de Trump em volta de uma mesa – o saudoso Bolsonaro já caiu nessa, anos atrás, quando aceitou convite para jantar (e pernoitar) em Mar-a-Lago. Para ter esse privilégio, muito líder pagará o preço que for (sobretudo porque o dinheiro sairá do tesouro nacional, não do bolso do convidado).

Lula é vaidoso e sensível a marcas de apreço dadas por dirigentes mundiais. É por isso que advirto: Lula, prezado presidente, segure-se, conte até dez, tome um chuveiro d’água fria, respire fundo, dê um passeio na grama, converse com as emas, tire férias em Garanhuns. Mas recuse esse convite. O Brasil vai deixar de gastar um bilhão de dólares e vosmicê vai evitar passar vergonha.

O que Trump quer é estar rodeado de anjos que lhe digam amém. Ou alguém imagina que esse “conselho” tem vocação para o diálogo e a negociação?

Segure-se, Lula. Fuja dessa, meu irmão.

Board of Peace – logo

Davos, 21 janeiro 2026
Trump aproveitou estar em Davos para reunir solenemente os “membros fundadores” de seu clube. Assinaram a ata de fundação os seguintes países:

• Argentina — Presidente Javier Milei
• Armênia — Primeiro-Ministro Nikol Pachinyan
• Azerbaidjão — Presidente Ilham Aliyev
• Bahrain — Xeique Isa bin Salman Al Khalifa
• Bulgária — Primeiro-Ministro Rosen Jelyazkov
• Catar — Primeiro-Ministro Xeique Mohammed bin Abdul Rahman Al Thani
• Cazaquistão — Presidente Kassym Jomart Tokayev
• Emirados Árabes Unidos — Ministro Khaldoon Al Mubarak
• Hungria — Primeiro-Ministro Viktor Orbán
• Indonésia — Presidente Prabowo Subianto
• Jordânia — Primeiro-Ministro Ayman Safadi
• Kosovo — Presidente Vjosa Osmani
• Mongólia — Primeiro-Ministro Gombojavyn Zandanchatar
• Marrocos — Ministro de Relações Exteriores Nasser Bourita
• Paquistão — Primeiro-Ministro Xehbaz Xarif
• Paraguai — Presidente Santiago Peña
• Saudi Arabia — Ministro de Relações Exteriores Faisal bin Farhan Al Saúd
• Turquia — Ministro de Relações Exteriores Hakan Fidan
• Uzbequistão — Presidente Chavkat Miromonovitch Mirziyoyev

Como se pode ver, só gente fina. Nenhum europeu, com exceção da Hungria e da Bulgária. Nenhum latino-americano, com exceção de Argentina e Paraguai (nem mesmo El Salvador topou). Nem China, nem Rússia, nem Canadá. Um detalhe curioso: Israel anunciou sua adesão mas, na hora agá, não assinou. Talvez não tivessem levado um bilhão de dólares no bolso, o que era condição incontornável. Nesse caso, assinar mais tarde.

Segura-te, Lula!

Um último detalhe, pequeno, mas que diz muito. Observe o mapa-múndi do logo. Reparou em algo inusitado? Pois é claro! Pra ser mapa-múndi está xinfrim. Só aparecem a América do Norte e um pedacinho da América do Sul e da Groenlândia. Será esse o mundo de Trump? Com um logo desses, como é que ele pretende resolver problemas do planeta inteiro? Ainda precisa comer muito feijão.

Ondas perdidas

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 30 maio 2020.

Nestes tempos de epidemia, a história se precipita. Da noite para o dia, o ritmo acelerado dos acontecimentos envelhece as notícias. Casos da semana passada já estão no arquivo morto; coisas de três meses atrás já estão entrando no livro de história. Faz quatro meses, Paulo Guedes visitou o Fórum Econômico Mundial, em Davos, onde recebeu, na ausência do presidente, as honras devidas ao Brasil. Sua fala passou quase despercebida. É verdade que ele não fez nenhuma revelação acachapante. Referindo-se a nosso país, filosofou: “Perdemos a grande onda da globalização e da inovação, então essa mudança vai levar um tempo, mas estamos a caminho”.

O ministro não foi o primeiro a passar recibo da lentidão de reação de nosso país. Cem anos atrás, o estadista francês Georges Clémenceau (1841-1929) já havia se dado conta disso. Quando lhe contaram que o Brasil era o país do futuro, replicou ferino: “e há de continuar assim por muito tempo”. Tinha razão. Um século depois, o futuro radioso ainda não se vê. Toda vez que a gente pensa que a hora boa chegou, a realidade se encarrega de nos desenganar. Perdemos não só a onda da globalização e da inovação, sublinhada pelo ministro, mas muitas outras. Chegassem todas juntas, formariam um tsunami. Nossa maré baixa já vem de longe.

Perdeu-se a memória do Brasil imperial, defunto há mais de 130 anos. Nenhum vivente sabe mais, de experiência própria, como era então a vida. Mas a história ensina que, em terras onde o chefe de Estado é permanente e desprovido de poder real, a estabilidade política é superior. Entra governo, sai governo, a figura do patriarca vitalício é garantia de segurança. Essa onda da estabilidade política, que a República não soube compensar, perdemos.

A grande onda de Kanagawa
by Katsushika Hokusai (1760-1849), artista japonês

O ensino foi sempre tratado com pouco caso. A primeira universidade das Américas foi fundada nos anos 1530; a abertura da Escola de Cirurgia da Bahia – primeiro curso superior do Brasil – só ocorreria 250 anos mais tarde. Já demos a largada com dois séculos e meio de atraso. O desdém para com o estudo se reflete até nossos dias. Na virada do século 19 para o 20, dois em cada três brasileiros maiores de 15 anos eram analfabetos. Em 1950, metade da população ainda não sabia ler nem escrever. Foi só nestes últimos 70 anos que os números começaram a sorrir – sorriso tímido, visto que o analfabetismo resiste e ainda condena 7% dos brasileiros à ignorância. Como pode a sociedade aceitar que 1 compatriota em cada 15 viva na escuridão? A onda da Instrução Pública, perdida, continua a nos desafiar.

O Brasil rateou também na hora de decidir sobre mobilidade. Sucumbindo a interesses poderosos, elegeu o transporte rodoviário como solução única, relegando a estrada de ferro ao ferro-velho. Na mesma fieira, não soube prever que a supremacia absoluta do transporte de superfície em detrimento do metrô geraria entupimento permanente nas grandes cidades.

Na Saúde Pública, perdura uma surpreendente jabuticaba – bizarrice que não parece comover ninguém. Longe da contenção de gastos recomendada a todo país pobre, boa parte dos assalariados brasileiros são compulsoriamente afiliados a dois sistemas de saúde redundantes. O sistema nacional (SUS) e uma rede de convênios privados correm em paralelo. Um dos dois sistemas será sempre supérfluo, dado que cada ato médico só poderá ser ministrado uma vez. O cliente passa a vida pagando dobrado. Quando se pensa na dificuldade que o Brasil tem para suprir necessidades básicas de seus filhos, esse contingente de cidadãos sobreassegurados é tremendo desperdício. A pandemia de covid-19 tem mostrado que, apesar do sistema duplo, o circuito hospitalar segue assoberbado, próximo do colapso. Está aí um problema que, visto o atual descaso com a Saúde, só deverá ser enfrentado por um próximo governo.

A fala do ministro em Davos mostra que, além de não resolver problemas passados, continuamos a adicionar ondas perdidas à contabilidade nacional. Enquanto não encararmos essa realidade pra valer, seguiremos dando razão ao velho Clémenceau: estamos condenados a ser eternamente o país do futuro.

O que pode e o que não pode

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro fez seu début internacional num palco de prestígio. Entrou pela porta grande. Ser o convidado de honra logo na abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, não é pra qualquer capiau. Durante o discurso, o presidente dava a impressão de funcionar como ventilador, com a cabeça abanando pra um lado e pro outro. Isso ocorre em virtude do posicionamento do ponto.

O ponto (no original, presidential teleprompter) é uma placa de plexiglas fixada no topo de uma haste metálica que se assenta num tripé. À medida que o discurso avança, o texto vai desfilando, como num karaokê, mas visível só do lado de quem faz o pronunciamento. O objetivo é dar a impressão de que a oração é feita de improviso.

Em geral, são colocados dois pontos, à esquerda e à direita do orador. Para dar a impressão de estar falando espontaneamente, ora ele lê no ponto da direita, ora no da esquerda. A ilusão é quase perfeita. O encanto só se quebra quando o discursante engasga na leitura de uma palavra. Não deu outra: aconteceu com o doutor. São acidentes de percurso.

No fundo, que o discurso seja lido no papel, decifrado no ponto ou declamado de cor, o que importa mesmo é o conteúdo. Comentaristas brasileiros consideraram que a fala foi muito curta e superficial. Não compartilho essa impressão. A concisão é qualidade rara. É mais difícil resumir o assunto em poucas palavras do que espichar a alocução durante horas. Ficaram na história os discursos do bondoso Fidel Castro, que chegavam a durar seis ou sete horas, pronunciados sob o sol impiedoso de Havana, com chavões repetidos ad nauseam. Faltava, ao líder máximo, o precioso dom da concisão.

É verdade que a fala de doutor Bolsonaro não foi ao fundo de cada tópico. Não esmiuçou os pontos da reforma da Previdência. Não deu previsão de quantos hectares serão poupados do desflorestamento. Não disse quantos corruptos serão processados. Mas, convenhamos, não era hora nem lugar pra descer a minúcias. As linhas mestras foram traçadas, e isso era o que interessava.

Tirando a mímica do ventilador, o discurso inaugural não me chocou. No dia seguinte, no entanto, a gafe que tinha de acontecer aconteceu. Com pré-aviso de quinze minutos, o presidente cancelou coletiva de imprensa agendada havia semanas. Num universo como aquele, almofadado, azeitado e feito de regras fixas, essas piruetas não estão previstas. Os pretextos foram desencontrados. Certas fontes alegaram cansaço do presidente. Outras disseram que a culpada era a imprensa, que não estava se comportando exatamente como doutor Bolsonaro gostaria.

Blá-blá-blá! É ridículo alegar que a culpa é da imprensa. Mídia com cabresto é atributo de regimes autoritários. No Brasil (por enquanto) o regime é liberal. O cansaço, vá lá, é compreensível. Ainda assim, se fosse verdade, os outros componentes da mesa deveriam ter honrado o compromisso. Não é porque o chefe está de repouso que os companheiros devem acompanhá-lo na greve. Por que não vieram participantes importantes, como Moro e Guedes, cujo comparecimento era esperado?

O fato de o presidente ainda estar em fase de aprendizado não explica desfeitas como essa. Se não sabem como se comportar, que contratem um assessor com experiência internacional. Faltar a um compromisso sem motivo justo, em terras civilizadas, é ressentido como afronta. Quem está tentando «vender» um novo Brasil e atrair investidores não pode cometer afronta justamente aos donos do dinheiro. É mais que tolice: é um disparate.

Davos 2019

José Horta Manzano

Presidente ilegítimo
Hoje, abre-se em Davos (Suíça) mais uma edição do WEF ‒ World Economic Forum, encontro annual dos grandes deste mundo, na politica e principalmente na economia. O Brasil está representado por um presidente… ilegítimo.

De fato, minutos antes de embarcar, doutor Bolsonaro transferiu seus poderes ao vice-presidente. A partir daí, general Mourão passou a ser o legítimo presidente do Brasil. Jair Messias entrou num território esquisito, como quem está entre parênteses. Surgem duas hipóteses.

A primeira considera que os poderes presidenciais são unipessoais, ou seja, só podem ser exercidos por uma única pessoa de cada vez. Se assim for, o presidente em exercício é Mourão, o que ficou em Brasília segurando as rédeas. Aquele que será apresentado ao distinto público de Davos não passa de impostor. O que ele disser e os papéis que assinar não terão validade. A voz do Brasil não é ele.

A segunda hipótese concede que os poderes presidenciais sejam exercidos por dois indivíduos ao mesmo tempo. Dado que, em nosso país, vigora regime presidencial, essa ideia é esdrúxula. Se, por hipótese, os dois tomarem atitude diferente diante de um mesmo fato, qual das decisões prevalecerá? A do que largou os poderes e se foi para a Suíça ou a do que ficou tomando conta do forte? Convenhamos : ter dois presidentes ao mesmo tempo é folclórico. Resquícios de um passado que morreu.

Agasalho
Espero que doutor Bolsonaro & excelentíssima equipe tenham trazido bons agasalhos. Hoje de manhã, fazia 13,5° abaixo de zero em Davos. Saiu um solzinho chocho, que fez subir a temperatura. Às duas da tarde, no melhor momento do dia, o mercúrio subiu para 3,5° abaixo de zero. A partir daí, recomeçou a descer rumo às profundezas do inverno alpino.

Luzerner Zeitung (Lucerna, Suíça), 21 jan° 2019

Convidado de honra
Nem Mr. Trump nem Monsieur Macron estarão presentes. As senhoras May (UK) e Merkel (Alemanha) também decidiram não comparecer. O presidente da Rússia, o número um da China e o primeiro-ministro da Índia mandaram avisar que não virão. Assim, por falta de concorrentes, doutor Bolsonaro foi promovido a convidado-vedette.

Sua fala está marcada para amanhã à 15h30. Os encontros do Fórum de Davos se realizam em quatro salas. Normalmente, há eventos simultâneos, frequentemente quatro de uma vez só. Na meia hora dedicada a doutor Bolsonaro, uma concessão especial: nenhum outro evento ocorrerá ao mesmo tempo. O mundo econômico vai parar, por meia hora, pra ouvir o que tem a dizer o doutor.

Etiqueta grudada
Quando uma etiqueta gruda firme, não há solvente que dê conta de a retirar. Falando da vinda do presidente do Brasil a Davos, o jornal suíço Luzerner Zeitung publica um artigo com título bombástico: «Stargast am WEF hat keine Ahnung von Wirtschaft ‒ Convidado-vedette do WEF não tem nenhuma noção de economia».

O autor da boutade foi o próprio doutor Bolsonaro quando, ainda em campanha, confessou nada entender do assunto. Sinceridade é bom, mas sincericídio mata. Foi ingênuo, o doutor. Podia ter dado uma pirueta e respondido algo como: “Nesse campo, as competências de Paulo Guedes são superiores às minhas. Sugiro-lhe fazer a pergunta a ele”. Teria sido menos impactante.

É um perigo dizer o que passa pela cabeça, sem refletir nas consequências. Segundo os chineses, há quatro coisas que não se podem recuperar: a pedra lançada, a ocasião perdida, o tempo passado e a palavra pronunciada.

Fórum mundial e mundano

José Horta Manzano

Depois de um mês de neve e tempo fechado, o sol finalmente saiu hoje em Davos, Suíça. Três metros de flocos brancos caíram desde o Natal. Com o peso, a espessa camada de neve vai-se comprimindo, mas assim mesmo ainda mede um metro e setenta. Pra nenhum cartão de boas-festas botar defeito.

Paisagem branca com sol e céu azul é um encanto. A recepção aos participantes da 48a. edição do WEF (Fórum Econômico Mundial), que se abre hoje, promete ser grandiosa. Os setenta chefes de Estado e/ou de governo que devem circular pelo vilarejo esta semana tiveram sorte com o tempo. Não estão sozinhos, os figurões. Três mil personalidades públicas de 110 países e os dirigentes das maiores empresas do planeta também estão por lá para participar de 400 sessões de debates. Sem contar a imprensa e os numerosos assessores.

O contraste entre a população residente da acanhada cidadezinha e os visitantes que retornam a cada janeiro é surpreendente. O vilarejo tem apenas doze mil habitantes fixos. Na época do fórum, seus hotéis recebem quarenta mil hóspedes, uma enormidade. Pelo espaço de cinco dias, torna-se o lugar onde todos querem ver e ser vistos.

Davos, Suíça ‒ altitude: 1600m

Com tanta gente importante reunida num lugar só, não se brinca com a segurança. Manifestações e passeatas são terminantemente proibidas. Uma zona de exclusão aérea com raio de 46km foi determinada. (Ela inclui trechos do território de quatro países.) As ruas e os telhados estão coalhados de militares armados e atiradores de elite. Militares e policiais da Suíça inteira foram convocados em reforço. Sem esquecer os dirigentes de grandes países, como os EUA, que mandam dezenas de agentes de segurança.

Cúpulas de G7, G8, G20, Brics & assemelhados são mais vistosas, com foto de turma e reuniões de todos os participantes ao mesmo tempo. Mas são menos frutíferas que o fórum de Davos. Na cidadezinha suíça, são incontáveis os encontros informais entre dirigentes e figurões. Às vezes a solução para problemas cabeludos nasce mais facilmente numa conversa em torno de um chocolate quente do que com discursos inflamados diante de plateia que aplaude. É isso que faz a força de Davos, um fórum que, além de mundial, está-se tornando cada dia mais mundano.

Depois de dezoito anos de ausência, um presidente americano estará presente. Bill Clinton foi o último a comparecer, em 2000. Donald Trump está sendo aguardado com curiosidade. Imprevisível que é, consegue surpreender ‒ e escandalizar ‒ quando menos se espera. Outro que deve sobressair é Monsieur Macron, o presidente da França, rapaz jovem (40 anos) que se está tornando uma espécie de «presidente informal da Europa».

Há quem se insurja contra essas manifestações. Não é meu caso. Continuo acreditando no velho adágio: “É conversando que a gente se entende”.

No aguardo do visitante

José Horta Manzano

Daqui a uma dezena de dias, ocorrerá um evento histórico. Um importante personagem político deverá estar de visita a uma cidade que não costuma frequentar. Imagina-se que fará um pronunciamento. Os olhos e os ouvidos do planeta inteiro estarão abertos e atentos para não perder uma migalha do que o homem vai dizer.

Uma baciada de jornalistas do mundo inteiro estão na fila para obter a cobiçada autorização que lhes dará o direito de portar crachá e cobrir o evento. Já faz alguns dias que mil e quinhentos agentes especiais ‒ muitos deles armados ‒ já foram despachados à cidade para cuidar da logística e da segurança do visitante e de seu entourage.

Esse batalhão de homens treinados está encarregado de cuidar minuciosamente de todos os detalhes de hospedagem, alimentação e transporte do ilustre líder. Naturalmente, sem descurar a segurança, ponto primordial.

Para evitar manifestações hostis, a polícia local isolará e garantirá ordem e segurança no trajeto que o personagem deve seguir e nos pontos que deve visitar. O espaço aéreo da cidade será fechado a todo sobrevoo. Drones e helicópteros das forças policiais, munidos de câmeras com visão noturna, esquadrinharão em permanência toda a área central da cidade para prevenir toda tentativa de incursão.

Se o distinto leitor me acompanhou até aqui, há de estar imaginando que estou a descrever eventual comparência do messias de Garanhuns a Porto Alegre para inteirar-se do destino que a Justiça lhe reserva. Sou obrigado a decepcioná-lo. Não, não estou me referindo ao Lula.

Descrevi os preparativos para a esperada visita que Mr. Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, deve fazer à Suíça daqui a dez dias. O dirigente vai participar do World Economic Forum, evento organizado todo janeiro em Davos.

Este ano, espera-se a presença de 350 líderes governamentais oriundos dos quatro cantos do planeta ‒ entre os quais 60 chefes de Estado ou de governo(!) ‒, além de um milhar de personagens importantes da sociedade civil, da vida acadêmica e da mídia. É esperada ainda alentada comitiva de ministros do governo americano, de senadores e de deputados.

A atenção do mundo estará voltada para os pronunciamentos e para os tuítes que Mr. Trump emitirá. Jornalistas se esforçarão para destrinchar as palavras do líder, por vezes cabeludas.

O anúncio que o tribunal de Porto Alegre fará, referente aos crimes de nosso ex-presidente, não deverá ocupar a manchete dos grandes veículos mundiais. Será relegado a nota de rodapé. A vida é cruel. Ninguém se condói da desgraça de líderes decaídos.

Visita de Estado

José Horta Manzano

Não sei se o rancor aparece entre os traços de caráter marcantes dos chineses. O que sei que é que, apesar da aparência fria e distante, são muito sensíveis. Apegados a valores tais como a acolhida a visitantes, dão grande importância à maneira como são recebidos no estrangeiro.

Talvez pelo pouco caso com que foram tratados durante séculos pelos europeus, mostram susceptibilidade exacerbada ao mínimo deslize no modo como são recepcionados quando estão de visita ao exterior. Altas personalidades do governo chinês fazem questão de ser tratadas nos conformes.

Presidente da China: Xi Jingping & esposa Presidente da Suíça: Doris Leuthard

Presidente da China: Xi Jingping & esposa
Presidente da Suíça: Doris Leuthard

Tradicionalmente, a Suíça só recebe uma visita de Estado por ano. Dirigentes estrangeiros podem vir ao país quando desejarem, mas somente uma vez por ano se oferecem honrarias oficiais ao dirigente de um país. Este ano, é vez da China. A última visita de Estado de um presidente chinês tinha ocorrido no século passado, em 1999.

Naquela ocasião, a passagem do dirigente oriental tinha constituído verdadeiro desastre. No exato momento em que o ilustre visitante atravessava a praça em frente ao Palácio Federal, um grupo de cidadãos munidos de faixas, bandeiras e cartazes iniciou uma ruidosa manifestação contrária à anexão do Tibete ‒ assunto supersensível em Pequim.

No discurso que pronunciou logo em seguida, o presidente da China não escondeu a fúria. Mostrando-se amargo e ofendido, disse não entender como a Suíça não tinha capacidade de controlar o próprio povo. Azedo, acrescentou: «Vocês acabam de perder um bom amigo». Pegou muito mal.(*)

suisse-28-xi-jinping-1Mas o tempo dissipa querelas. O presidente mudou, os tempos mudaram. Mais poderosa que vinte anos atrás, a China se esforça para mostrar que merece o lugar de destaque que lhe vinha sendo negado por séculos. Para provar que o antigo comunismo já não existe e que o país se transformou em economia de mercado, o presidente Xi Jinping está na Suíça há dois dias. Veio chefiando a delegação de seu país para participar, pela primeira vez, do Fórum Econômico de Davos. É excelente ocasião para mostrar aos donos dos dinheiros do mundo que vale a pena investir na China.

O governo suíço, escolado pelo fracasso da visita anterior, fez o necessário para não ofender os visitantes. Os entornos do Palácio Federal transformaram-se em praça de guerra. O exército foi chamado para dar uma mão. Há barreiras por toda parte. Atiradores de elite estão posicionados em cima dos telhados. Ninguém circula pelas ruas. Até mesmo moradores da vizinhança têm de ser filtrados, identificados e revistados. Para não tolher completamente o direito de livre expressão, uma manifestação em favor do Tibete foi autorizada ‒ longe do palácio e horas antes da chegada do ilustre visitante.

suisse-29-xi-jinping-2Desta vez, pelo menos até agora, nenhuma gafe foi registrada. Apesar das estonteantes diferenças entre os dois países ‒ a região de Pequim, sozinha, abriga três vezes a população da Suíça ‒ há interesses comuns. A Suíça, que não faz parte da União Europeia, está de olho no imenso mercado chinês. A China, por seu lado, está interessadíssima na tecnologia de vanguarda que lhe faz tanta falta e que a Suíça domina.

Está aí uma das vantagens de não pertencer a nenhum bloco econômico ou político: a liberdade de estabelecer tratados e relações privilegiadas com outras nações. Amarrados por pactos rigorosos, membros da União Europeia ou do Mercosul nem sempre podem agir como melhor lhes parece. Têm de obter anuência prévia dos sócios.

No que diz respeito ao Brasil, está chegada a hora de afrouxar certos nós que nos mantêm atados ao bloco «devagar quase parando» ao qual nosso destino está unido.

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(*) Esse episódio já foi mencionado em artigo meu de quatro anos atrás.

Frase do dia — 284

«A melhor notícia para o Brasil nos últimos tempos é Mauricio Macri.»

Conhecido analista econômico que se confiou, exigindo anonimato, ao jornalista Clóvis Rossi em Davos, Suíça. O artigo saiu na Folha de São Paulo, 22 jan° 2016.

Morreu de medo…

José Horta Manzano

Suisse 7Estes dias, realiza-se o Fórum Econômico Mundial, simpósio que, ano após ano, congrega os grandes deste mundo durante alguns dias em Davos, Suíça. Em seus tempos de esplendor, nosso guia fazia questão de comparecer e aparecer. Este ano, quarenta chefes de Estado fizeram questão de estar presentes, assim como 1500 dirigentes de multinacionais – um total de 2900 participantes.

É possível que a Mongólia não tenha enviado representante. É também provável que nenhum responsável do Haiti ou do Butão esteja presente.

Pelo ordenamento constitucional brasileiro, os cargos de chefe de Estado e de chefe do governo são exercidos pela mesma pessoa. Atualmente, dona Dilma Rousseff encarna esse superpersonagem.

Suisse 4Pois dona Dilma, mostrando que sua autoestima anda mais baixa do que se imagina, fez saber que preferia desdenhar a Suíça e prestigiar a reentronização de seu ídolo Evo Morales. A escolha há de ser fruto de um daqueles ataques de voluntarismo de que nossa presidente é vezeira. Recuso-me a acreditar que seus assessores, posto que sejam tacanhos, lhe tenham aconselhado trocar Davos por La Paz.

A ausência da figura maior da nação brasileira no fórum assinala marcha à ré na política de projeção mundial entabulada por nosso guia doze anos atrás. Põe a perder o esforço – às vezes atabalhoado, mas sincero – de alçar o nome do Brasil entre as potências planetárias.

Suisse 6Não acredito em escolhas ideológicas. Se dona Dilma faltou à reunião, foi por orgulho. Fugiu para escapar às críticas e à reprovação a seu modo de gerir a coisa pública. O mundo sabe, hoje, que a gestão de seu primeiro quadriênio foi calamitosa. Todos sabem também que nada de auspicioso se apresenta para o futuro próximo.

Resultado: como em reuniões familiares, fala-se mal dos ausentes. O economista-chefe do IHS – instituto americano de análise econômica e tecnológica – chegou a qualificar de «moribundo» o estado de saúde do Brasil. Enquanto isso, os Estados Unidos, a Índia e o México estão no foco da admiração. De fato, ninguém gosta de quem anda pra trás.

Suisse 5Dona Dilma tem perdido apoio internamente. Sua renúncia a representar o país em reuniões importantes periga ser interpretada como renúncia do Brasil a participar do clube dos grandes deste mundo. Nosso guia há de estar desgostoso.

De criança, a gente cantava um refrãozinho de deboche que assenta bem na atual chefe do Estado brasileiro. Começa com «Morreu de medo…». E termina com «… no dedo».

Frase do dia — 90

«Assistimos ontem, em Davos, a Dilma falando de um País que infelizmente não é o nosso. As palavras não têm o dom mágico de mudar a realidade.»

Aécio Neves, senador de nossa República, ao comentar a fala da presidente de nossa República. In Estadão, 25 jan° 2014.

Frase do dia — 89

«A desconfiança em relação ao Brasil é excessiva. Os críticos estão exagerando.
(…)
Mas hoje (…) estamos fazendo road-shows.»

Guido Mantega, ministro da Fazenda de nossa República, em entrevista concedida dia 25 jan° 2014 aos enviados do Estadão a Davos.

Frase do dia — 88

«O mau humor com Dilma hoje é tamanho que, durante sua fala, o dólar chegou a bater nos R$ 2,42. Logo depois, quando começaram em Davos os boatos de que Guido Mantega não mais ficaria no cargo, o real voltou a se valorizar.»

Sonia Racy comentando o discurso pronunciado por dona Dilma em Davos. In Estadão, 25 jan° 2014.

Frase do dia — 84

«Não deixa de ser paradoxal que o governo brasileiro, que vem respeitando há pelo menos 20 anos os cânones do capitalismo, precise deslocar-se a Davos para vencer resistências, ao passo que o Irã, cujo confronto com o Ocidente é o mais agudo de todos os países mais ou menos relevantes, se faz cortejar.»

Clóvis Rossi, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo, 14 jan 2014.