Deus é mesmo brasileiro?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Deus triangulo 2Bom, eu não costumo achar que conheço a vontade de Deus ou seus planos para nosso futuro. Não posso nem mesmo argumentar que mantenho diálogos frequentes com a divindade, durante os quais Ele me explica os detalhes de algum acontecimento que não compreendo de imediato.

Esforço-me apenas para identificar os sinais de Sua intervenção em nosso cotidiano. E, se tenho feito a lição de casa com denodo e precisão, parece que Ele não se sente lá muito à vontade em ser nosso compatriota. Se não, vejamos:

Interligne vertical 11c1. Ele indicou recentemente como seu lídimo representante aqui na terra um argentino e, pior, não foi a única vez que preferiu apostar num cidadão de outro país. Ao contrário, em todos os pleitos anteriores, foi sempre um estrangeiro o escolhido;

2. Levou de nosso convívio nos últimos meses os mais doces e apaixonantes personagens de nossa cena artística, literária e educacional. Gente talentosa como Millôr Fernandes, José Wilker, Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves. Acaba de atacar desta vez no plano político, levando-nos de um só golpe e sem aviso prévio um promissor integrante da nova geração de políticos brasileiros, Eduardo Campos. Não me entendam mal, não conheci Campos pessoalmente e entrei em contato com muito poucas de suas ideias. Nem o fato de ele ser neto de uma figura respeitável como Miguel Arraes me servia de garantia de que os rumos de nosso país seriam de fato mudados. Apenas ele me parecia ter um fogo que há muito tempo não se via por estas bandas e um brilho especial nos olhos. No conjunto, Deus nos levou todo um punhado de pessoas intelectualmente articuladas, bem humoradas, de bem com a vida e capazes de nos colocar na boca o gosto bom da esperança;

3. Essa última perda reeditou em meu peito a dor angustiante da perda de outro nome emblemático na história política nacional: Tancredo Neves. Depois de vinte e um longos anos de chumbo e sombras, desapareceu aquele que talvez tenha sido nosso último estadista. Já os ratos de porão de nossa elite política continuam vicejando e engordando, sempre tramando novos esquemas pelas nossas costas e levando seus parentes e pets para passear em jatos da FAB: Maluf, o clã Sarney, Renan, Collor, Arruda, Cabral, Lula, José Dirceu, Genoíno… a lista de nomes politicamente asquerosos não termina nunca;

4. Mesmo mantendo-o vivo, afastou de nós e do nosso território um personagem do calibre do ministro Joaquim Barbosa, o único magistrado em toda a história republicana que, ao menos a meus olhos, conseguiu se mostrar destemido, dando nome aos bois sem titubear e usando um linguajar simples de ser compreendido, fossem eles seus pares, governantes ou outras figuras públicas.

NuvensAnalisando esse padrão de intervenção divina na história de nossa pátria – ou seja, o de permitir que a tensão vá se acumulando, os ânimos se exacerbando e chegando próximo a um ponto de ruptura, sem que jamais haja uma real chance de descarga e alívio final da tensão – cheguei à conclusão de que só há duas hipóteses para explicar esses últimos acontecimentos: ou Deus quer que nos ferremos todos porque não temos como povo o potencial para gerirmos de maneira satisfatória nossas próprias vidas, ou Ele nos está dando, mais uma vez, um empurrão para que assumamos finalmente as rédeas de nosso destino. Na dúvida, por ignorância ideológica e por ser uma pessoa de boa vontade, opto pela segunda.

Imagino mesmo que se eu O cobrasse, ele diria algo como:

Interligne vertical 11“Mas, minha filha, não coloque toda a responsabilidade exclusivamente nas minhas costas. Eu lhes concedi o dom do livre arbítrio exatamente para que vocês pudessem relativizar o impacto de muitos de meus planos. Se não o fizeram, foi por vontade humana e não divina. Eu lhes dei um país rico em recursos, uma terra generosa e um povo amável e acolhedor. Por que vocês não colocam em prática os valores nos quais acreditam e ficam esperando que lhes caia dos céus a solução de todos seus problemas? O que você quer de mim? Que eu lhe indique o próximo salvador da pátria? Isso não é problema meu, ora bolas!”

P.S.:
Acabo de descobrir uma nova interpretação para a vontade de Deus em levar Eduardo Campos de nosso convívio. O que Ele queria, suponho eu, era assistir de camarote a disputa de quem pode se declarar seu verdadeiro – e único – herdeiro político! Como muitos de nós humanos, ouso acrescentar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Os óculos do Monsieur

José Horta Manzano

Os menos jovens certamente se lembrarão das gravatas Hermès do senhor Collor, aquele que ― é até difícil acreditar ― um dia foi presidente de nosso país. Afortunado desde o berço, o referido cavalheiro não dispensava adereços de luxo, do colarinho ao bico do sapato. A imprensa e o povo achavam graça. Afinal, se ele paga com dinheiro do seu próprio bolso, que mal há?

Por outros motivos, que não convém aqui esmiuçar, o presidente foi impedido de prosseguir no cargo em 1992. Voltou pras Alagoas. Mas o exemplo ficou guardado na gaveta. Seus sucessores imediatos, o deselegante Itamar e o pão-duro FHC, não se interessaram pelo legado do antecessor. Não sobressaíram pelo esmero no vestir. Mais tarde, no entanto, com a chegada ao Planalto do presidente-operário, os costumes “Ancien Régime” foram devidamente restabelecidos.

É notório que nosso guia não regateou na hora de escolher seus impecáveis trajes. Importados, de preferência, tinham de ter caimento perfeito. O corpo não ajudando muito, o bom corte compensava. A imprensa e o povo acharam graça, e ficou tudo por isso mesmo.

François Hollande Foto Kenzo Tribouillard, AFP

François Hollande
Foto Kenzo Tribouillard, AFP

No Brasil, a agonia das pequenas indústrias é encarada com indiferença pelo governo central. O que conta mesmo são os grandes números gerados por aquela meia dúzia de grandes exportadores de matéria-prima. São os que melhoram as estatísticas. São os que têm capacidade de despejar no partido doações generosas. O resto é o resto. Que cada um cuide de si.

Exatamente como o Brasil, a França está em processo acelerado de desindustrialização. Badulaques são sistematicamente importados da China. Artigos menos chinfrins vêm de países de mão de obra barata ― Europa Oriental, Marrocos, Tailândia.

Abandonados pelas autoridades, o pequeno e o médio empresário brasileiro têm motivos para inquietação e tristeza. Já na França, o governo central empreende ações para encorajar os cidadãos a darem preferência a produto nacional, ainda que tenham de desembolsar um pouco mais. Até um ministério foi criado especialmente para tentar “endireitar” a situação. «Dê preferência ao made in France» é a palavra de ordem.

Dia destes, o presidente da República, Monsieur Hollande, foi fotografado de óculos novos. Até aí, morreu o Neves. O problema é que um fabricante francês de armação, especialista no assunto, percebeu que os óculos presidenciais não eram franceses, mas dinamarqueses.

Sacrilégio! Em tempos de penúria industrial, um descuido presidencial dessa magnitude é imperdoável. O fabricante nacional dirigiu carta aberta ao presidente, missiva que saiu na mídia do país. Além da carta, o esperto empresário mandou de presente a Monsieur Hollande uma armação legítima, das boas, garantidamente made in France. Argumentou que, na qualidade de vetor da imagem do país no exterior, não ficava bem ao presidente estampar, bem no meio do rosto, um objeto fabricado em terra estrangeira.

As próximas fotos de François Hollande confirmarão se ele assimilou a lição. Ou não.

Recordar é viver ― 3

José Horta Manzano

Longe de imaginar que, poucos anos mais tarde, alguns de seus mais fiéis colaboradores seriam despachados pela Justiça para boa temporada de repouso nas acolhedoras dependências da Papuda, o Lula fez um de seus incontáveis vaticínios no dia 29 de maio de 2009.

Quando da inauguração de grandiosa obra no Rio de Janeiro, subiu ao palanque e declarou à populaça que «este país pode ser diferente se a gente aprender a não eleger mais vigarista nesse(sic) país».

Blá, blá, blá!

Blá, blá, blá!

Foi antes do julgamento do Mensalão e da aliança com Maluf, mas depois dos juramentos de amor eterno feitos a Collor e a Sarney. Fica evidente que o Lula já tinha dado início ao processo de eliminação dos vigaristas dessepaís.

Pelo tempo decorrido de lá pra cá, não deve ter sobrado nenhum sem-vergonha nessepaís. Foram varridos todos.

Melhor assim. O povo, reconhecido, agradece.

Interligne 18c

Reportagem disponível no site Globo
Vídeo disponível no youtube

Daqui ninguém me tira

José Horta Manzano

A Rússia é o maior país do planeta. Sua superfície equivale a dois Brasis. Com tanto espaço para população relativamente pequena ― de uns 140 milhões de habitantes ― convém perguntar por que razão se batem pela Crimeia.

Por que fazem tanta questão de conservar um território exíguo, do tamanho do pequenino Estado das Alagoas? Seriam os russos gananciosos a ponto de tomarem à força um pedaço de terra estrangeira, assim, sem mais nem menos, pelo prazer de aumentar seu próprio território? Que diferença faz acrescentar 27 mil km2 a um país que já dispõe de 17 milhões de km2? A Crimeia, afinal, não tem petróleo, nem ouro, nem urânio.

O buraco é mais profundo. Por grande que seja, a Rússia tem um problema antigo de difícil solução: seu imenso território é encravado, a porta de saída é estreita. Com exceção de alguns trechos, suas costas estão expostas a mares frios, daqueles que congelam no inverno e dificultam ou impedem a navegação.

Faz séculos que o governo russo tenta por todas as maneiras estender suas costas a águas mais clementes. Cada quilômetro de beira-mar livre de gelo agregada ao território representa uma vitória.

O avanço em direção ao sul é o objetivo maior do Estado russo. Em todas as guerras que o país travou, o butim mais significativo foi sempre a conquista de mais uma franja de costa. Foi o que aconteceu ao final da Guerra Russo-Finlandesa e da Segunda Guerra Mundial. Cada uma delas aumentou a exposição do país a mares temperados.

Rússia e península da Crimeia

Rússia e península da Crimeia

Pois a Crimeia entra nessa linha. Banhada pelo Mar Negro, situada a uma latitude de 45 graus, tem suas costas livres de gelo o ano inteiro. Do ponto de vista estratégico, é uma das joias da coroa. Para Moscou, aquela peninsulazinha vale ouro.

De qualquer maneira, era território russo até 1954, quando foi atribuída à Ucrânia por decisão burocrática tomada em Moscou. Na época, como a Rússia e a Ucrânia faziam parte da União Soviética, essa redefinição de fronteiras internas não trazia consequência. Hoje não é mais assim. Mas frise-se que a população daquele território ainda é majoritariamente de origem e de língua russa.

Os EUA e a UE podem reclamar, ameaçar, espernear ― não vai adiantar. Exagerando nas tintas, eu diria que é mais fácil os russos entregarem um pedaço da Sibéria que a Crimeia. Os estrategistas do mundo inteiro sabem disso. O que se vê estes dias não passa de jogo de cena. A Rússia lá está e lá continuará «duela a quién duela». (*)

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(*) Nota em atenção aos mais jovens
Em 1992, quando de uma entrevista à televisão argentina, Collor de Mello ― então presidente do Brasil ― soltou uma joia de puro portuñol. Querendo afirmar que todos os corruptos seriam desmascarados e punidos, traduziu ao pé da letra nossa expressão “doa a quem doer”. Ficou incompreensível para ouvidos castelhanos. Foi um desastre.

Lavoisier

José Horta Manzano

«Rien ne se perd, rien ne se crée, tout se transforme». Costuma-se atribuir a Antoine Laurent de Lavoisier, cientista parisiense do séc. XVIII, a adaptação francesa de máxima formulada, mais de um milênio antes dele, pelo filósofo grego Anaxágoras.

Seja como for, taí uma verdade incontestável: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Protestos já havia na Grécia conturbada de Anaxágoras e na França pra lá de tumultuada de Lavoisier. Há que lembrar que o infeliz químico francês terminou seus dias na guilhotina.

Dado que é impossível satisfazer a todos, descontentamento sempre houve e sempre haverá. O que muda, eventualmente, é a maneira de exprimir desagrado. Pode ir de uma praga rogada em silêncio até um golpe de Estado com exército e canhões.

O Brasil anda meio pasmo com a ressurgência de manifestações de protesto. É compreensível. Os que hoje travam batalha contra policiais não haviam nascido quando as últimas manifestações vigorosas tiveram lugar no Brasil, no fim da Era Collor.

Passeatas que degeneram estão longe de ser particularidade brasileira. Como prova, estão aí as atualíssimas manifestações populares venezuelanas, bem mais mortíferas que as tupiniquins.

Até a pacífica Suíça ― espante-se o senhor e a senhora ― tem escaramuças episódicas. As últimas aconteceram em novembro de 2009. Foi quando o bando autodenominado «Black Blocs» decidiu promover manifesto, em Genebra, contra a OMC.

Genebra, 28 nov° 2009 Quebra-quebra promovido por blocos pretos

Genebra, 28 nov° 2009
Quebra-quebra promovido por “blocos pretos”   –   Clique sobre a imagem para assistir

Acho curioso que quadrilhas protestem contra a Organização Mundial do Comércio, um fórum onde o mundo se reúne justamente para dialogar. Que se combatam decisões autoritárias, posso entender. Hostilizar concertações civilizadas parece-me despropositado. Mas assim acontece, infelizmente.

No sábado 28 nov° 2009, Genebra assistiu a cenas de deixar qualquer integrante do bloco preto brasileiro babando de inveja. Que clique aqui quem quiser ter uma ideia do que aconteceu aquele dia.

E sabem qual foi a consequência? Nenhuma, absolutamente nenhuma! A OMC continua lá fazendo o que sempre fez. Se eu fosse integrante de algum bloco preto, me sentiria desapontado. A não ser…

… a não ser que estejam fazendo arruaça pelo simples prazer de fazer arruaça. Sei não, algo me diz que a hipótese da bagunça pela bagunça não está longe da verdade.

Houve um tempo

Percival Puggina (*)

Verdade que era um Brasil ainda muito rural. Metade da população vivia no campo. A elite nacional tinha menos “celebridades”, menores quadros e cultura superior. Havia apenas quatro brasileiros para cada dez de hoje. As capitais estaduais compunham razoáveis espaços de convivência. A tevê recém surgia e o processo de formação da cultura e das opiniões passava principalmente pela Educação, pela transmissão oral e pela leitura. O mundo acadêmico era de acesso mais restrito e assim, com menos gente, a qualidade ganhava densidade. O país ainda não fora infestado pelas pragas do relativismo moral e das drogas, e os pais zelavam pela formação do caráter dos filhos. Os religiosos tinham plena consciência de sua função no mundo. Tudo isso é verdade. Era um tempo em que não se metia a mão nos recursos públicos para uso e fins privados com a facilidade proporcionada nestes nossos dias.

Leio, escandalizado, as notícias que chegam da Corte ao cair a primeira chuva de 2014. O destaque é dado ao uso e abuso na utilização dos jatinhos da FAB pelos ministros da nossa desatenta e estabanada “gerentona”. Nos últimos seis meses de 2013, um pequeno grupo de 40 pessoas, com cargo ou hierarquia equivalente à de ministros de Estado, realizaram mais de 1,4 mil voos nessas custosas aeronaves supostamente adquiridas para atender demandas da segurança nacional. Todos os voos, informam os requisitantes, são realizados a serviço de suas pastas. Arre gente com serviço externo, que não esquenta cadeira no ministério!

José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, por exemplo, realizou 80 dessas viagens em 180 dias e entra para o Guiness Book. Solicita avião a jato com a mesma sem cerimônia que a gente acena para a lotação ou chama o taxi. Imagino o desagrado com que oficiais da FAB assumem o papel de mordomos das regalias aeronáuticas brasilienses. Por outro lado, a revoada dos ministros de Dilma evidencia um admirável amor ao torrão natal. Seus ministros parecem ter muito a fazer em casa e pouco em Brasília e no resto do país. Voam tais quais pássaros, sem pagar passagem nem combustível, mas reconheça-se, são generosos. Fornecem carona como se fossem caminhoneiros da Força Aérea, transportando amigos e companheiros.

Bem sei o quanto são desconfortáveis nossos aeroportos e aeronaves. Mas as coisas andariam melhores também nisso, se os figurões da República enfrentassem como o populacho a dura realidade dos voos domésticos brasileiros.

Avião da alegria

Avião, que alegria!

Então, como eu dizia, houve um tempo em que as coisas não eram assim. Ministros e secretários de Estado viajavam em estradas de pó e barro, nas “carroças” definidas como tais por Collor de Mello. Hospedavam-se em casas de amigos. A verba era curta para todos e as diárias não cobriam as despesas. O governador Peracchi Barcellos, que usava um velho Aero Willys quando já circulavam nas ruas os veículos mais luxuosos da época, os cobiçados Ford Galaxie, demitiu um membro do governo que lhe pediu autorização para adquirir um deles.

Era diferente a mentalidade dos governantes daquele tempo, como demonstra a conhecida recusa do presidente João Figueiredo quando outro João, o Havelange, lhe propôs realizar uma Copa do Mundo no Brasil: “Você conhece uma favela do Rio? Você já viu a seca do Nordeste? Você acha que eu vou gastar dinheiro em estádio de futebol?”

O país mudou. E em vários sentidos não mudou para melhor. O povo até gosta dessas ostentações (quem muito gasta, supostamente muito pode dar). Mas a revoada de jatinhos da FAB levando ministros para lá e para cá bem que podia, ao menos, se expressar em qualidade de gestão, em rigorosa fiscalização dos demais gastos, em menos corrupção e menor uso de recursos públicos com finalidade estritamente pessoal, política e eleitoral. Ganhar eleição assim, não tem graça. Nem mérito.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Não fui eu, foi ele!

José Horta Manzano

«Não fui eu, foi ele!»

De criança, é comum, corriqueiro e compreensível que toda desavença seja levada à autoridade paterna ou materna para decisão. Cada litigante apresentará seus argumentos, e a Justiça adulta determinará.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Em outros termos, não se exige de criança pequena que assuma a responsabilidade por tudo aquilo que faz. Primeiro, porque ainda não está madura para entender os comos e os porquês de seus atos. Segundo, porque, de qualquer maneira, sempre aparecerá um adulto para consertar o estrago.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Com gente grande, a coisa muda de figura. De um adulto, espera-se que tenha entendido que mamã não virá correndo atrás para catar os brinquedos espalhados pelo chão. Compete a cada um recolher seus próprios pertences. Ou não os deixar cair.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Muitos de nossos concidadãos não conseguem enxergar o mundo assim. São do tipo eu sou mais eu e não estou nem aí. Essa dificuldade em se dar conta de que a infância acabou aparece, contundente, nas constrangedoras imagens de imundície captadas na praia de Copacabana no amanhecer de 1° de janeiro.

Os que fizeram isso ― e hão de ter sido milhares de pessoas ― continuam acreditando que mamã virá atrás catar os cacos.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014 Credit: Cezar Loureiro, O Globo

Praia de Copacabana, 1° jan 2014
Crédito: Cezar Loureiro, O Globo

Faz 500 anos que as políticas paternalistas de nossos sábios governantes só têm feito reforçar a infantilização do povo. «Não se preocupe, filho, que papai cuida disso. Vá brincar agora.»

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Está aí o resultado: uma população de ovelhas, sem iniciativa, sem noção de pertencimento a uma comunidade. Gente que não consegue enxergar além do próprio umbigo. É nesse terreno fértil que brotaram Getúlio, Jânio, Collor. E que continuam surgindo Lulas e Tiriricas.

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

Ah! Aos distraídos, quero lembrar que o pontapé inicial da Copa-14 será dado daqui a seis meses. Durante um mês, dois bilhões de pares de olhos estarão voltados para o Brasil. Não verão unicamente a beleza de Copacabana. Repórteres são curiosos por natureza. Hão de encontrar imagens mais picantes para impressionar seu público.

Feliz 2014!

Foto di famiglia

Todos já viram a (rara) foto di famiglia em que nossos mais recentes mandatários-mores aparecem juntos, unidos, sorridentes, descontraídos. Um retrato para emoldurar e afixar em lugar de honra na sala de visitas de todo lar brasileiro.

Presidentes

Crédito provável: Roberto Stuckert F°, fotógrafo oficial da Presidência.

Reparem no gesto cheio de atenção e de carinho com que nosso guia ampara um de seus predecessores, o bom velhinho Sarney, homem simples, que tanto bem tem espalhado à sua volta. Dizem que os dois são como unha e carne desde criancinhas. Está aí a prova incontestável de que a fraterna amizade perdura. Comovente.

Interligne 23

Bem no centro do retrato, pairando acima da cabeça de todos, aparece, destacada sobre fundo vermelho, a palavra SAÍDA. Lembra a insígnia que ornava o pórtico do inferno de Dante. Pode ser entendida como uma advertência: “Vós, que aqui entrais, perdei toda esperança de permanecer ― um dia, queirais ou não, abrir-se-vos-á a porta de saída”

Frase do dia — 45

«Para evitar o impeachment, Lula abriu os braços a oligarcas e representantes do atraso no país. Sarney, Collor, Maluf e Renan são hoje amigos do peito do ex-presidente petista. Eles estão soltos. Dirceu e Genoino estão presos. Faz sentido.»

Vinicius Mota, in Folha de São Paulo, 18 nov° 2013

A insubordinação louvada

José Horta Manzano

O Blog do Noblat, alojado no jornal O Globo, está promovendo uma pesquisa. Claro, é dessas enquetes de internet, sem garantia e sem valor científico. Assim mesmo, especialmente quando o resultado faz a balança pender implacavelmente para um dos lados, esse tipo de consulta dá conta do espírito reinante na população.

A pergunta é: «Que achou do funcionário do Itamaraty que trouxe para cá, à revelia do governo boliviano e também do nosso, o senador asilado na embaixada do Brasil em La Paz?». Além do incontornável «não tenho opinião», duas respostas são propostas: «Ele agiu bem diante do risco de o senador se matar» ou «Ele agiu mal porque não tinha autorização dos seus superiores».

Pesquisa ― Blog do Noblat alojado no Jornal O Globo

Enquete ― Blog do Noblat
Jornal O Globo

Talvez eu seja um dos raros a pasmarem diante do resultado. Mais de 87% dos primeiros 672 a responder optaram pela primeira opção: aprovaram a ação do funcionário insubmisso. Embora não seja prova irrefutável, é boa indicação de que praticamente 9 em cada 10 brasileiros acham que o senhor Saboia agiu bem.

É surpreendente. Fica a desagradável impressão de que a esmagadora maioria de nossos concidadãos está de acordo com o princípio de que os fins justificam os meios. Dado que a liberação do senador deu certo, pensam quase todos, que se passe o apagador por cima dos meios. Está justificada a insubordinação do funcionário. É uma lógica perversa e muito perigosa.

A destituição do presidente Collor foi justamente consequência de um fato de mesma natureza. Logo nos primeiros dias de seu governo, para lograr debelar a monstruosa inflação, o presidente aprovou a confiscação da poupança da população brasileira. O princípio era o mesmo: com vistas a atingir um objetivo nobre, meios tortuosos podem ser utilizados. Deu no que deu. Ninguém jamais esqueceu nem perdoou. Não demorou muito, o homem foi despachado de volta para suas Alagoas.

Que não me entendam mal. Não estou aqui a defender a permanência do senador boliviano num cubículo da embaixada ad vitam æternam. Acho uma crueldade o que fizeram com ele. A vergonha de ter usado um ser humano como joguete de interesses politiqueiros recai sobre o governo brasileiro tanto quanto pesa sobre o governo boliviano. O problema não é esse.

O senhor Saboia, certamente um homem de bons sentimentos, um dia decidiu empregar-se como funcionário de carreira dos serviços diplomáticos brasileiros. O estatuto de funcionário tem suas regalias e suas contrariedades. Do lado bom, estão um emprego garantido, um plano de carreira, um salário confortável, apoio do Itamaraty para problemas do dia a dia tais como escola para as crianças, moradia e assemelhados. Do lado menos simpático, estão as obrigações de todo funcionário: cumprir horários, respeitar ordens da hierarquia, seguir a orientação dos superiores.

Não se pode ficar só com a parte boa e recusar o que estorva. Ninguém é obrigado a ser funcionário. Está ao alcance de qualquer um montar uma barraquinha e sair vendendo sanduíches naturais. O autônomo assume os riscos de seu negócio, mas tem a vantagem de organizar sua vida como bem entende. O mesmo não acontece com um funcionário. Não se pode ter tudo na vida.

Uma sociedade tem de ser enquadrada por regras. E regras existem para ser cumpridas. Fora desse esquema, grassa a anarquia. A ninguém é permitido fazer justiça com as próprias mãos. Foi onde o senhor Saboia deslizou.

Tivesse ele, ao término de sua cinematográfica fuga da Bolívia, entregue o senador às autoridades brasileiras e, imediatamente, apresentado sua demissão ao Itamaraty, eu poderia ainda concordar. O que não me parece certo é que esse senhor cometa um importante ato de insubordinação e ainda pretenda conservar seu emprego como se nada tivesse acontecido.

Homem-aranha

Homem-aranha

Digo mais uma vez, só para que fique bem claro. No meu entender, o governo brasileiro deveria ter pressionado o folclórico Evo desde o primeiro dia para que concedesse um salvo-conduto ao refugiado. O problema, assim, teria sido resolvido em poucos dias, o senador estaria vivendo feliz e contente em Pindorama. No entanto, o Planalto decidiu seguir caminho diferente.

Eu, pessoalmente, se tivesse vocação para homem-aranha, teria ido raptar o senador na Embajada del Brasil em La Paz e o teria levado para o Brasil. Eu poderia fazê-lo, porque não sou funcionário do Itamaraty, portanto, não estou sujeito à hierarquia interna da instituição. O senhor Saboia não tinha esse direito.

Já imaginaram se for permitido a cada funcionário passar por cima da disciplina e tomar as atitudes que lhe parecerem mais adequadas? Será a anarquia garantida.

Stop novelas, please!

José Horta Manzano

Tevê: não me identifico

Tevê: não me identifico

Percorrendo as manchetes dos jornais brasileiros online deste sábado, levei um susto. O Correio Braziliense informa que mais de 2/3 dos brasileiros não se identificam com a programação de tevê. Ué, como é possível? Dizem que nove em cada dez telespectadores seguem fanática e religiosamente as novelas. Parece até que um antigo presidente da República não costumava perder nenhum capítulo. A coisa me pareceu fora de esquadro.

O Correio dava como fonte a Agência Brasil. Fui conferir. De fato, o despacho original tinha sido transcrito ipsis litteris, com todas as vírgulas, os esses e os erres. A agência cita a Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, como autora da pesquisa. Dado que essa fundação não faz parte dos institutos de sondagem de opinião pública tradicionais ― Ibope, Ipsos, Datafolha ― continuei a puxar o fio da meada.

Cheguei ao site da fundação. Curiosamente, não aparece ali menção à pesquisa cujo resultado a própria instituição acaba de publicar e difundir.

Não precisa ser doutor em psicologia para entender que, dependendo das perguntas e de como forem formuladas, pode-se induzir o entrevistado a dizer aquilo que queremos ouvir.

Tevê: não aguento mais!

Tevê: não aguento mais!

Tem mais. Para que se possa avaliar a seriedade de uma sondagem, é necessário saber qual foi o universo abrangido pela pesquisa, quais foram as perguntas, quantos indivíduos foram entrevistados e como foram escolhidos. Nada disso aparece neste 17 de agosto no site da fundação. Repito que os resultados da consulta foram publicados ontem, dia 16.

Tudo muito estranho. Esses números, lançados assim ao vento, vão na contramão do bom-senso. É descabido afirmar que, numa terra onde a esmagadora maioria não perde um capítulo de novela, 2/3 dos telespectadores «não se identificam» com a programação. Desconfiado, quis saber um pouco mais sobre a Fundação Perseu Abramo.

No site, não consegui encontrar os estatutos ― talvez não lhes interesse expô-los, assim, ao primeiro bisbilhoteiro. Mas o histórico se encarrega de nos esclarecer. Está lá, com todas as letras:

Interligne vertical 7«A natureza da Fundação, como instituição de direito privado, instituída pelo Partido dos Trabalhadores mas com autonomia jurídica e administrativa, com sede em São Paulo, mas de âmbito nacional, “tendo como fins a pesquisa, a elaboração doutrinária e a contribuição para a educação política dos filiados do Partido dos Trabalhadores e do povo trabalhador brasileiro”.»

Pronto, agora ficou claro e explicado. A «pesquisa», apresentada como verdade lapidar, emana de uma fundação cuja finalidade explícita é a educação doutrinária dos filiados de um partido politico. Se realmente pesquisa houve, fico eu a imaginar quem terão sido os entrevistados e como terão sido formuladas as perguntas. Digo bem: se pesquisa foi levada a cabo.

Quando o resultado de uma consulta diverge a tal ponto da realidade perceptível, fica difícil acreditar. Até a velhinha de Taubaté, se viva fosse, ficaria desconfiada.

Por detrás dessa ― digamos francamente ― desajeitada jogada de marketing, está uma das ideias fixas dos que nos conduzem há pouco mais de dez anos: cercear a liberdade de expressão e fazer que a mídia difunda unicamente o que a eles interessa. Além de irritante, essa insistência padece de dois defeitos maiores: é ilógica e perigosa.

Televisor com imagem adequada

Tevê:  imagem adequada

Ilógica? Pois, sim. Ressalte-se que tanto Collor quanto Sarney (aquele brasileiro que não pode ser tratado como pessoa comum, lembram?) são, ao mesmo tempo, sustentáculos do atual governo e concessionários de um império midiático.

A família Collor de Mello é proprietária da TV Gazeta de Alagoas, afiliada à Rede Globo. É dona também de jornal, de estações de rádio, de sites internet e… de um instituto de pesquisa. A família Sarney possui a TV Mirante do Maranhão, afiliada à Rede Globo. Um jornal e outras emissoras completam o império.

Perigosa? Pois, sim. Os atuais mandachuvas federais certamente imaginam eternizar-se no poder. Controlando a mídia, o círculo estará fechado. O poder segura a mídia e a mídia segura o poder. Uma espécie de bolivarianismo tupiniquim. Mas… e se um milagre de São Benedito fizer que a atual maioria seja mandada para o vestiário? Os novos ocupantes das altas esferas terão à sua disposição uma mídia servil. O feitiço pode virar contra o feiticeiro.

Se eu tivesse de dar um conselho à fundação que se transmutou em instituto de pesquisa de opinião, lembraria a eles que é melhor não brincar com fogo. Criança que brinca com fogo faz pipi na cama. E pode até se queimar.

Interligne 18h

De última hora
Acaba de me ocorrer uma interrogação. Quantos, dos supostos entrevistados, conheciam o significado de «identificar-se» com algo ou com alguém? Não são muitos os brasileiros familiarizados com essa palavra. Na maior parte dos casos, desde que pesquisa tenha realmente havido, o entrevistador deve ter sido obrigado a traduzir a frase para um vernáculo mais elementar. Quais terão sido os termos empregados? Seria interessante ficar sabendo. Em resumo: quais terão sido as verdadeiras perguntas? Um doce a quem descobrir.

Na corda bamba

José Horta Manzano

Saiu a notícia. Temos agora a prova de que dona Dilma realmente ouviu o clamor popular. Vem aí a reforma ministerial, o grande trunfo que ela guardava na manga!

Equilíbrio na corda bamba

Equilíbrio na corda bamba

É, mas vem tímida essa reforma. Do obeso corpo de 39 ministros que a cerca, a presidente anunciou que um ― um só! ― será substituído. Trata-se da titular da pasta de Relações Institucionais, dona Ideli.

Cada cabeça, uma sentença. No lugar da presidente, eu aproveitaria a atual onda de reclamos para fazer uma reforma ministerial cirúrgica e radical. Despacharia todos e recomeçaria do zero. Mostraria ao povo que não só ouvi os protestos, mas que os escutei. Mas a presidente é ela, não eu. Melhor assim.

Ao tomar decisões sempre acanhadas, dona Dilma age como se estivesse recuando o tempo todo. Não emite um bom sinal. Nem ao povo, nem a ninguém. A mandatária fortona e inflexível vai aos poucos desvelando sua fragilidade. A meu ver, a presidente incorre em quatro erros básicos.

O primeiro é que esse tipo de anúncio não se deve fazer com antecedência. Essas coisas têm de ser zás-trás, catapum, nada de aviso prévio! Demite-se o inquilino antigo, apresenta-se imediatamente o novo locatário, e vira-se a página. Do jeito que está sendo feito, o efeito de surpresa está irremediavelmente diluído.

Equilíbrio na corda bamba

Equilíbrio na corda bamba

O segundo erro é a presidente «dar uma de marrudinha», principalmente no difícil momento que atravessa. Fez questão de proclamar que não dispensará a ministra enquanto os aliados a estiverem pressionando. Quis dizer: «Faço o que quero, quando quero, como quero. Ninguém manda em mim». Só faltou fazer biquinho.

O terceiro é que a troca de ministros, de tão tímida, não terá o menor impacto no povo insatisfeito. Se a maioria conhece a função de um ministro da Educação ou do titular da Saúde, poucos sabem para que serve a ministra de Relações Institucionais. O nome é pomposo, mas o efeito que essa exoneração terá sobre a opinião pública será próximo de zero

O quarto erro é que dona Dilma dá mostras de continuar em cima do muro, equilibrando-se numa corda bamba. Dá uma no cravo, outra na ferradura. Hoje tenta agradar uma ala do partido A. Amanhã, uma facção do partido B. No dia seguinte, um grupo de congressistas reclamões. O risco é de desagradar a maioria dos cortesãos, cujo apetite por sinecuras é pantagruélico. E, nessa roda-viva, os eleitores e seus rogos vão sendo deixados para trás. Que se contentem com quimeras, como o bizarro plebiscito.

É pena que a presidente não consiga se liberar das amarras que a prendem às intrigas palacianas, a correligionários, a messias, a gurus e a congressistas cooptados e mal-acostumados. É de lastimar que continue dando a impressão de governar unicamente para os do andar de cima.

Equilíbrio na corda bamba

Equilíbrio na corda bamba

Os modernos meios de comunicação mudaram, a população que nasceu com internet está chegando à idade adulta. A presidente dá sinais de estar confusa, perdida, atirando para todos os lados, na ânsia de conciliar o inconciliável.

Astuto, o presidente anterior tem feito o que pode para manter-se longe dos holofotes. Ele, que bobo não é, não gostaria de ver seu nome associado ao nebuloso momento atual.

Mas deixe estar. A cada dia que passa, nossa terra está mais próxima de se tornar um país normal. Com ou sem Dilma, com ou sem o Lula, com ou sem Renan, Sarney, Collor, Maluf, Demóstenes, Dirceu & companhia.

A frase do dia – 02

“Ressalvadas as óbvias variações conjunturais, há mais semelhanças estruturais entre os modelos políticos da colônia, do Império, da República, do Estado Novo, do regime de 1964 e do governo do PT que diferenças.

O paradigma do Estado hegemônico, que no período Collor, Itamar e Fernando Henrique começou a perder substância e poder ― apesar de marcado por inconsistência, transigência e culpa ―, recebeu dos governos Lula e Dilma o sopro renovador que o reinstalou mais uma vez na sua histórica posição hegemônica em face da sociedade.”

Francisco Ferraz
in Estadão, 21 maio 2013
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