O homem da continência

John Bolton

José Horta Manzano

Na manhã do dia 29 de novembro de 2018, já eleito mas ainda não empossado, Bolsonaro recebeu em sua casa do Rio de Janeiro um emissário do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O visitante era um senhor de cabelo e bigode brancos chamado John Bolton, assessor de Segurança Nacional nomeado por Trump.

Assim que Mr. Bolton apontou no portão do jardim, um entusiasmado capitão, empertigado na soleira da porta de casa, bateu continência ao visitante(!), aquela saudação que um militar deve obrigatoriamente fazer diante de outro militar de grau mais elevado que o seu.

O primeiro a se surpreender com o gesto deve ter sido o próprio americano, desacostumado a ver as regras militares tratadas com leviandade, mas a mídia brasileira tampouco deixou passar em branco. Os comentários foram de espanto com a atitude do novo presidente do Brasil que, assim, deixou clara sua postura de curvar-se diante dos EUA, representados ali pelo emissário. Pegou supermal.

Nem o suco de caixinha e o pão com leite condensado servidos naquele petit-déjeûner em honra ao hóspede tresnoitado foram capazes de atenuar a sombra de mal-estar que pairava no ambiente. Mr. Bolton entregou a Bolsonaro o convite que Donald Trump lhe fazia para visitar os Estados Unidos.

Os anos passaram, Trump perdeu a reeleição, Bolsonaro terminou seu governo calamitoso e também perdeu a reeleição. Agora, depois de quatro anos atravessando o deserto, Donald Trump conseguiu ser de novo eleito para a presidência. Nas 24 horas que se seguiram à tomada de posse, despejou um balde de decretos carregados de ressentimento, raiva, perseguições, intolerância. Desfez medidas que seu antecessor havia implementado. Atirou a torto e a direito.

Um dos projéteis atingiu John Bolton, seu antigo assessor de Segurança Nacional, aquele que havia sido homenageado com a continência de Bolsonaro. O homem aparentemente caiu em desgraça, não se sabe exatamente por que razão.

O que se sabe é o seguinte. Em 2021, o presidente Joe Biden tinha concedido a Mr. Bolton proteção permanente do Serviço Secreto em razão de ameaças de morte proferidas pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Pois ao voltar à presidência esta semana, Trump revogou a proteção policial permanente dada a Mr. Bolton. Supõe-se que tenha feito isso por capricho, só para desfazer o que Biden tinha feito. Veja em que mãos está o governo dos EUA!

Bem, Bolsonaro que se cuide. Assim como ele mesmo faz com seu costume de abandonar amigos e correligionários feridos pelo caminho, Trump leva jeito de fazer igual.

Trump aprecia ganhadores, vencedores, os que ele chama de “winners”. Um Bolsonaro no Planalto podia até interessar Trump, mas um Bolsonaro na rua da amargura, cheio de processos e ameaçado de cadeia, periga ser atirado ao mar para alegria de tubarões e camarões.

E o barco segue.

Tu não te manca?

by Laerte Coutinho (1951-), desenhista paulista
via Folha de S. Paulo

José Horta Manzano

Chega a ser irritante a insistência do ex-presidente Bolsonaro em fazer de conta que ainda é o que já deixou de ser. De fato, um indivíduo que foi apeado do poder há dois anos e que é hoje inelegível e indiciado em um balaio de crimes deixou de ser um cidadão comum, como a maioria de seus concidadãos. Ele é hoje uma pessoa suspeita de ter praticado crimes e tem, portanto, contas a prestar à justiça.

Você e eu não vivemos sob “medidas cautelares” impostas pela justiça do país. Não temos de bater o ponto na delegacia; não precisamos pedir licença para visitar quem nos dê na telha; não estamos de passaporte retido pelas autoridades, impedidos de pôr o pé fora do país. Bolsonaro não pode dizer o mesmo. Suas liberdades estão cerceadas. É um indivíduo a um passo da infâmia de tornar-se réu da justiça criminal.

Apesar disso, ele volta e meia dá uma de joão sem braço e manda seus advogados solicitarem ao STF favores aos quais não faz jus. Sua proeza mais recente foi pleitear lhe concedessem autorização especial para reaver o passaporte e partir para uns dias de vilegiatura em Washington (EUA). A-do-ra-ria prestigiar(?) os festejos da tomada de posse de Donald Trump como presidente do país. Se conseguisse tirar uma selfie ao lado do empossado, então, seria a glória, a consagração.

Ó Bolsonaro, tu não te manca não, cara? – é assim que a gente costumava arrematar uma ousadia desse calibre. É impressionante como certos caras se consideram importantes como se fossem figurinha carimbada, enquanto não passam de reles figurinha rasgada. Não ornam mais nem álbum de criança.

Por que, raios, a justiça concederia favores especiais a um sujeito que passou os quatro anos de seu mandato a invectivar as instituições da república, o Judiciário em particular?

Que ele curta o empossamento de seu amigo Donald pela tevê, como todo o mundo, sentado no sofá da sala. Que aproveite, porque, quando estiver em cana, talvez nem direito a televisão lhe concedam.

Macaca

Estadão, 15 out° 2024

José Horta Manzano

Imagine só. Um dia, na escola, você comete uma enormidade. Não digo uma besteirinha, não, você lança uma tremenda ofensa verbal a uma colega. Se, em outros tempos, tal “deslize” poderia passar batido, hoje não é mais assim: é ato criminoso.

Pois aconteceu. Não foi no Parquinho Infantil da Dona Mariquinhas, mas num conhecido instituto de ensino superior. Uma aluna, dotada de espírito refinado, chamou uma colega de macaca.

Imagino o rebuliço causado pela injúria racial. Orientação, diretoria, conselho de disciplina se concertaram e deram o veredicto: expulsão da aluna raivosa.

O auê deveria terminar aqui, mas estamos no Brasil, o que é que há? Sem vergonha do ridículo, a expulsada recorreu à justiça, obteve uma decisão liminar favorável e… retornou às aulas na faculdade. Tremenda cara de pau!

O primeiro pensamento que me ocorreu foi que o comportamento arrogante da expulsanda decorria, em linha direta, do ambiente que se instalou em nosso país desde que Bolsonaro assumiu a Presidência. É um incômodo caso em que ignorância e prepotência se mesclam numa espetacular carteirada.

Presume-se que a formação educacional da expulsanda esteja sendo financiada por sua família, o que significa que, além de apoiar a jovem em sua atitude, ainda cobrem o custo do advogado e as custas do processo. Sinal evidente de que concordam com a atitude da herdeira.

Em seguida, num segundo momento, me pareceu que unicamente o apoio da família não seria suficiente para fazer a jovem voltar aos cursos na cara dura. Se, entre os colegas de classe, prevalecesse um sentimento de indignação, a expulsanda com certeza não cometeria o despeito de voltar às aulas, com receio de ser massacrada pelas demonstrações de repulsa da classe inteira.

E concluí que o afago da família não é o único esteio do espírito soberbo da aluna. Tudo indica que parte significativa dos colegas de classe estão com ela e concordam com seu xingamento.

O mundo mudou, minha gente. As porteiras estão abertas. Sinais inquietantes pipocam aqui e ali, a todo momento. Preparem-se porque no futuro vem mais.

Os nomes do capitão

José Horta Manzano

Exatamente dois anos atrás, em setembro de 2022, compilei uma lista de adjetivos que me pareceram combinar bem com a personalidade do então presidente de nossa República.

O tempo passou, o presidente perdeu o trono, mas a lista ficou aí, nunca usada, à espera de novo manequim em que pudesse servir. Até hoje, a novidade política que mais lembra o velho capitão apareceu brusco como boneco de mola que assusta ao saltar fora de uma caixinha-surpresa: chama-se Pablo Marçal.

Rios de tinta têm sido gastos para dar conta da novidade. Os comentários da imprensa séria nem sempre são complacentes, antes, são nitidamente críticos dos métodos pérfidos do rapaz que, sob a aparência de “bom capiau semiletrado e inofensivo”, esconde um espírito viperino, exatamente como cobra pronta a atacar à traição.

Não, os adjetivos que cabem em Bolsonaro não servem obrigatoriamente para o “influenciador”, não dão bom caimento. A diferença é que Bolsonaro, o original, cobre toda a gama, de “tolo” a “pedaço-d’asno”. Já o hoje candidato a prefeito de São Paulo não passa de pálida imitação. Não corresponde a toda essa renca de qualificativos.

Veja bem, o “influenciador” pode até ser mais perigoso que o ex-presidente, mas aqui estamos falando de adjetivos que cabem ou deixam de caber. Este escrito não tem pretensão de ir além.

Aqui estão os quarenta e poucos adjetivos que selecionei para Bolsonaro (Primeiro e único).

Alofo
Animalejo
Babaca
Babaquara
Besta quadrada
Boçal
Bordalengo
Bronco
Bufão
Cepo
Charro
Chavasco
Coiçoeira
Lorpa
Madeiro
Maninelo
Modorro
Morcão
Néscio
Obtuso
Pábulo
Pacóvio
Palerma
Palonço
Palúrdio
Panal
Pancrácio
Papalvo
Parrado
Pascácio
Pasconço
Patau
Patego
Pateta
Patola
Patureba
Pedaço-d’asno
Simplório
Tacanho
Tanso
Tapado
Tolaz
Toleirão
Zamboa
Zote

Murro em ponta de faca

José Horta Manzano

Tem uma expressão conhecida, clara, usada com frequência e que carrega uma imagem doída do que nunca se deve fazer: dar murro em ponta de faca. Ui! Precisa ser demente pra fazer um negócio desses, não lhe parece?

Pois Jair Bolsonaro, nosso saudoso ex-presidente, está dando mostra de sua especial disposição para o sacrifício. Seria heroico, não fosse inútil. O capitão chegou ao cúmulo de convocar um comício no dia 7 de Setembro para dar publicidade a seu ato de coragem.

A multidão não veio tão compacta como costumava vir no passado, mas a mise en scène seguiu à risca o que tinha sido ensaiado. Os protagonistas principais discursaram, cada um dando sua contribuição e botando falatório para plateia cativa.

Quanto ao ex-presidente, abdicou do cargo de messias, posto ao qual se tinha autopromovido no passado. Deixou claro que sua única preocupação atualmente é salvar a própria pele e escapar dos processos a que responde. “O povo que se dane, eu quero mais é tirar Alexandre de Moraes do meu caminho” – ele não pronunciou exatamente essas palavras, mas elas resumem seu pensamento.

O capitão quer que o juiz seja destituído de suas funções e, se possível, que seja condenado a apodrecer numa masmorra. Puro murro em ponta de faca. Jair não se dá conta das consequências de sua insistência.

Quanto mais o capitão vocifera contra o juiz, mais forte este fica. Tão forte ele está se tornando, que foi a estrela do desfile oficial do Dia da Independência. Apareceu sorridente e prestigiado, ao lado do presidente e dos figurões da República.

Quanto mais o capitão bate no juiz, mais se reforça o corporativismo do STF. Ainda que, numa hipótese de probabilidade quase nula, Moraes fosse destituído, mais coesos e ressentidos ficariam os magistrados restantes. Um perigo, capitão!

Da justiça, vai ser difícil Jair escapar. Seus esperneios mais irritam que ajudam. Atacar e insultar aqueles que vão te julgar é péssima ideia. Percebe-se que os anos passaram, mas o capitão nada aprendeu: continua vociferando como quem acha que se ganha no grito. Não se ganha, capitão.

Se ele não aprendeu até hoje, é caso sem esperança.

Dirigentes provincianos

José Horta Manzano

“O Brasil se solidariza com a Rússia” – foram as palavras que Jair Bolsonaro, então presidente da República, dirigiu a Putin quando de sua visita ao Kremlin naquele fevereiro de 2022. O horizonte da Europa se assombreava naqueles dias, com a perspectiva da invasão da Ucrânia pelas tropas russas, na guerra que estouraria uma semana depois e que dura até hoje.

“Eu espero que o Biden ganhe as eleições” – foram as palavras de Lula da Silva em fevereiro deste ano em entrevista a um canal de tevê.

Há certas coisas que um presidente não deve dizer, certos pareceres que ele não pode dar, certas opiniões que ele não precisa externar. Pelo menos em público. Em privado, em sua sala de visitas diante de amigos e longe da imprensa, está livre para dar opiniões pessoais. Assim mesmo, é sempre bom ter cuidado porque, como se sabe, amigos são amigos até o momento em que deixam de o ser.

Já em público é outra conversa. As opiniões de um chefe de Estado têm o dom de comprometer o Estado inteiro.

Bolsonaro bajulou Trump e aplaudiu Putin, mas insultou a primeira-dama francesa e ofendeu o presidente argentino.

Lula apoiou a reeleição do presidente da Argentina e aplaudiu o Partido Socialista português, mas encrencou com Milei e desdenhou o presidente da Ucrânia.

Tanto Bolsonaro quanto Lula fizeram o que não deviam. Mostrar preferência por um dirigente estrangeiro, especialmente em época de eleições, é comportamento desajeitado, leviano e perigoso.

Quando o dirigente adulado perde, como é que fica? Digamos que Biden venha a perder, o que é não é improvável, com que cara Lula vai encarar Trump?

Em vez de atiçar Luiz Inácio e incutir-lhe doses de antiamericanismo radical, o “assessor” Amorim deveria abrir os olhos do presidente para evitar esse tipo de comportamento e fugir a futuras saias justas.

Se nossos provincianos dirigentes fossem mais cuidadosos no trato internacional, enfrentariam um caminho menos pedregoso.

Estado x governo

José Horta Manzano

Certos políticos, especialmente os de extrema direita (mas não só), têm desconcertante tendência a confundir Estado e governo. Em política estrangeira, é flagrante e constante essa dificuldade em fazer a distinção entre os dois conceitos.

O primeiro artigo de nossa Constituição elenca os princípios que regem as relações internacionais do Brasil. Entre eles, estão: 1) a prevalência dos direitos humanos e 2) a não-intervenção. Na cerimônia de tomada de posse, todo presidente da República promete cumprir a Constituição. Assim mesmo, apesar do juramento público e solene, volta e meia a Lei Maior é escanteada.

Presidentes de tendência autoritária como Bolsonaro e Lula convergem neste ponto: nenhum dos dois entendeu a diferença entre seu governo e o Estado brasileiro. Ambos acreditaram (e continuam acreditando) que, uma vez eleito, o presidente tem direito de burlar princípios constitucionais como se sua ideologia pessoal sobrepujasse a Constituição.

Bolsonaro, com seu apego à tortura, entra em choque com o princípio constitucional de prevalência dos direitos humanos. A cada vez que mencionou suas “preferências” nessa matéria, desrespeitou o Estado brasileiro, cuja Constituição condena expressamente a tortura.

Lula, ao desdenhar a vítima (o ucraniano Zelenski) e prestigiar o invasor (o russo Pútin), entra em colisão frontal com o princípio da não-intervenção. Ao Estado brasileiro, não cabe apoiar quem interveio no país alheio. A atitude de nosso presidente afronta a Constituição. Sua ideologia pessoal não pode ofuscar a Lei Maior.

O pensamento é livre, pode passear por onde quiser. Já a expressão do pensamento só é livre dentro de certos limites. Você e eu, em bate-papo informal, podemos até elogiar a tortura ou prestigiar Pútin. Mas Bolsonaro e Lula, durante o exercício do mandato, deixaram de ser cidadãos comuns; eles não se podem dar ao luxo de assumir publicamente certas posições. O presidente, afinal, não é o dono do país.

Outro princípio claro enunciado no mesmo artigo da Constituição do Estado brasileiro é a dignidade da pessoa humana. Trata-se de conceito que abrange múltiplos aspectos do comportamento em sociedade. A convivência civilizada entre indivíduos é um deles.

Já nos primeiros meses de governo, Bolsonaro insultou a esposa do presidente da França, indispôs-se com a Alemanha e a Noruega, ofendeu o Chile, deu de costas para a Argentina, caluniou a China. Note-se que são todos países amigos com os quais o Brasil mantém florescente comércio bilateral.

Lula, desde que iniciou seu terceiro mandato, não ficou atrás. Desdenhou o FMI, mandou flechadas contra Washington, encrencou com a Ucrânia, meteu-se na briga entre palestinos e israelenses, ofendeu gravemente Israel e acabou rebaixando o Estado brasileiro diante de observadores estrangeiros.

Em nenhum dos encontrões, o motivo das brigas, dos beicinhos e das rejeições foi político. As colisões ocorreram sempre em decorrência da visão de mundo primitiva e sem nuances dos presidentes que temos tido a má sorte de eleger. Desde os saudosos tempos de FHC, os presidentes de nossa castigada República deixaram de ser gente civilizada e passaram a ser populistas ignorantes sem eira nem beira.

A esses indivíduos encharcados de vaidade mas vazios de sabedoria, falta entendimento do que seja a coisa pública, realidade talvez fora do alcance das mentes simplórias que têm preenchido o mais alto cargo do Executivo nos últimos 20 anos.

Para mudar rapidamente esse estado de marasmo que não ata nem desata, o mais simples seria uma revolução. O problema é que a velha moda das revoluções brasileiras e latino-americanas passou. O caminho das mudanças não é mais aquele.

Só resta um outro método: é a escola. Só um programa de Instrução Pública digno desse nome poderá dar cabo da ignorância que, há séculos, sufoca nosso país.

Ah, mas isso aí vai demorar pra caramba! Vai. Mas não há outro jeito. Tem de começar pelo começo, não há milagre.

Copa do Mundo Feminina

José Horta Manzano

Quase quase eu diria que a atribuição da Copa do Mundo Feminina ao Brasil foi mais notícia no estrangeiro que em nossa terra, que será a sede do campeonato. A mídia internacional noticiou com ênfase e comentou com paixão, afinal não é todo dia que a versão feminina do esporte mais popular do planeta vem dar um abraço na “pátria do futebol”. E o círculo estará fechado: o futebol que reencontra sua ‘pátria’.

A mídia brasileira relegou a informação a uma nota de pé de página, onde se adivinhava uma falta de interesse, quase um incômodo. Por que será que isso ocorre? Este é um país em que, a cada quatro anos, na época da Copa, o território se transforma numa imensa bandeira, a paisagem vestida de um persistente verde-amarelo que engalana casas, ruas, vielas, bairros chiques e favelas, carrões de luxo e carrinhos de mão. O evidente desinteresse popular por esta Copa não é de bom agouro.

Será porque os jogadores são as jogadoras? Será que a ideologia que prega “Lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos” venceu? Será que a mescla de futebol com mulher mexeu com os brios dos cidadãos que votam Bolsonaro, aqueles que adorariam levar uma garrucha à cinta? Será isso?

Não acredito. Afinal, ainda deve existir gente normal neste país, gente que apoia a libertação das mulheres, uma liberação que lhes permita pelo menos exercer a profissão que desejam e praticar o esporte que lhes agrada. Será que nossos cidadãos liberais (de verdade) sumiram todos, engolfados pelos miasmas tóxicos da direita extrema?

O mais provável é que a origem do desinteresse pela feminização do esporte-rei se perca nas brumas do passado da humanidade. Trata-se de forte resistência da sociedade (homens, principalmente, mas mulheres também) em permitir que a mulher assuma certas funções e profissões antes exclusivamente masculinas.

O homem sempre participou das decisões importantes; a mulher só conquistou o direito de votar no século XX. As primeiras mulheres que conseguiram se inscrever nas faculdades de medicina ao redor do mundo encontraram forte resistência da sociedade e dos próprios colegas masculinos. E assim por diante – a primeira a dirigir um ônibus, a pilotar um avião de caça, a pegar em armas num exército regular, a jogar tênis num torneio maior – todas essas pioneiras tiveram de comer poeira e mastigar lagartos antes de chegarem lá.

A meu ver, a relutância do grande público em aceitar que mulher jogue futebol é resquício de resistências atávicas. Assim como as outras cederam, esta cairá também.

Deixe de ser ranzinza! Procure assistir, sem compromisso, a umas partidas de futebol feminino. Verá que, quando bem tratado, o cão não ladra e o gato é manso. Bom divertimento!

Termômetro da sociedade

José Horta Manzano

Que as redes se tornaram o termômetro maior da sociedade mundial, ninguém há de discordar. Pois essas redes às vezes me parecem um tanto hipócritas. Ou estarão desnorteadas.

A foto acima circulou pela internet. É um instantâneo do círculo mais chegado a Bolsonaro, colhido no show que a cantora Madonna estrelou sábado passado no Rio de Janeiro. Em princípio, seria mais uma imagem banal, semelhante a milhares de outros selfies tirados durante o concerto da diva. Mas este aqui tem uma carga diferenciada, como se diz hoje em dia.

As redes dos bolsonaristas se interessam por tudo o que diz respeito ao Jair, ídolo deles. Pois eles torceram o nariz para a foto, que elevou o nível de tensões internas preexistentes na extrema direita.

Entre os admiradores do capitão, forte contingente idealiza um mundo de sonho, sem pecados, sem erotismo, todo regradinho, sem desvios comportamentais de natureza sexual. A estrela do show de sábado não é conhecida por seu puritanismo. Bem ao contrário, nunca escondeu suas ideias de mulher liberada, empoderada, livre de preconceitos de ordem sexual.

Ora, ver que os colaboradores mais próximos do capitão – incluindo seu advogado pessoal – assistiram a um espetáculo a tal ponto ímpio deu frio na barriga de muito bolsonarista radical. A luta pela decência moral e contra toda desenvoltura sexual, razão de ser de todo cidadão de extrema direita, não combina com o escândalo dado pelos integrantes do primeiro escalão da seita bolsonárica que assistiram ao show de Madonna e ainda ousaram tirar essa foto com tanto sorriso.

Compreende-se que os demais seguidores do capitão, que se inteiraram do acontecido pelas redes, tenham ficado chocados e desorientados.

Quanto a nós, que não rezamos por essa cartilha, o que salta aos olhos são outros detalhes reveladores.

  • Como de costume, a galera vem do clube da testosterona, onde menina não entra. Para eles, lugar de mulher é certamente em casa, cuidando da numerosa prole. Como Deus manda.
  • Como de costume, a confraria é composta unicamente de homens brancos (ou quase brancos). É um conciliábulo em que diversidade não entra. As esposas? Decerto em casa, cerzindo as meias.

Agora dá pra entender como é que Madonna consegue reunir um milhão e meio em Copacabana. Ela, que não é boba, não faz diferença entre espectadores de esquerda ou de extrema direita. Quer que venham todos, desde que aplaudam.

Fiasco do 1° de maio

José Horta Manzano

O comício que Lula da Silva convocou para o 1° de maio foi um furo n’água. Você assistiu? Nem eu. Comparando com os sucessos de bilheteria do capitão, dá pena ver o grupo magrinho de admiradores que foram ouvir o Lula. Qualquer cantor(a) de renome atrairia mais gente que o velho guerreiro de Garanhuns. Como é possível que o antigo torneiro mecânico, que eletrizava multidões até algum tempo atrás, tenha perdido o charme? Qual é a razão, afinal, do fiasco de público?

A maioria dos analistas explicam, com razâo, que a esquerda murchou e que o mundo que Lula deixou ao sair da Presidência mudou muito sem que ele perceba. É verdade, mas não pode ser só isso. O mundo mudou, sim, mas, dede o ano de 2010, a Terra não passou a girar ao contrário. Mudanças houve, mas não a ponto de cortar a conexão entre o Lula e o povo.

A meu ver, o buraco é um pouco mais embaixo. Mudou o mundo e Lula, que insiste em não aceitar isso, continua a fazer de conta. Mas acredito que, nessa explicação, está faltando um ingrediente.

Acredito que o grande fator que elegeu Lula em 2022 foi o desejo de milhões de eleitores de se livrarem do capitão. Se o adversário de Luiz Inácio fosse qualquer outro, Lula muito provavelmente teria fracassado. Ele só foi eleito, repito, para derrubar Bolsonaro e desalojá-lo do Planalto.

O fato de ter sido eleito praticamente sem um esboço de programa de governo é forte indício de que, para os eleitores, isso era mero detalhe. Votaram nele assim mesmo.

A última eleição foi diferente das anteriores. Enorme contingente de brasileiros estavam fartos de Bolsonaro e queriam se livrar dele. Acredito que qualquer adversário que não fosse o Lula teria vencido por margem até mais ampla do que os magros 50,9% do antigo metalúrgico. É que, para um número considerável de eleitores, Lula era tão repulsivo que votar nele era impensável.

A meu ver, o ingrediente que está faltando nas análises que li é o fator cansaço. O Brasil está cansado de Lula. Veja só, a candidatura de Lula às presidenciais equivale, guardadas as proporções, à candidatura de um Collor de Mello. Há diversos pontos comuns entre eles. Ambos foram presidentes. Ambos deram boa contribuição ao país, Collor com a abertura do Brasil ao mundo e Lula com um olhar compassivo em direção aos desvalidos. Ambos saíram chamuscados de problemas com a justiça: um foi destituído e outro acabou na cadeia.

Por que razão uma candidatura de Collor de Mello hoje em dia é inconcebível? Porque é figura do passado. Já deu o que tinha que dar, e passou. A página está virada. O homem, que é senador da República, ainda circula pelos palácios de Brasília feito um zumbi, mas seu tempo passou.

E o Lula? Pois está nas mesmas condições: é figura do passado, já deu o que tinha pra dar, já passou, é página virada. Para alguns, deixou saudade, mas não se faz um país com saudade. Ele quis candidatar-se à Presidencia num momento crucial da vida da nação.

Venceu, mas venceu por um fio. No dia seguinte, já tinha esquecido das condições da vitória. Está governando como se tivesse sido eleito com cem porcento dos votos. Na parte internacional, envergonha o país a cada ocasião que se apresenta. Na parte nacional, está sempre atrasado, correndo atrás da realidade, que lhe escapa.

Sem Bolsonaro, Lula jamais teria sido eleito. Ele deve sua estreita vitória ao forte antibolsonarismo. Nosso país não tem demonstrado especial preferência por um governo gerontocrático. À porta dos 80 anos, Lula já está fazendo hora extra.

Seria bom não ceder à vaidade que o impele a solicitar mais um mandato. Seu oponente não será o inelegível Jair Bolsonaro. Dependendo de quem for o candidato, Lula periga ser derrotado, o que seria um desastre para sua biografia.

Que solte as cartas, passe a mão, levante-se e vá preparar sanduichinhos. Sem ele, a partida continuará do mesmo jeito. Talvez até melhor do que com ele.

Lula e os novos tempos

José Horta Manzano

Quando vejo a dexteridade de meus sobrinhos-netos ao lidarem com telefone celular e outros teclados ainda mais sofisticados, fico aliviado. Acho ótimo que essas modernidades tenham chegado agora, quando já não preciso mais delas. E desconfio que, mesmo mais jovem, eu não teria sido capaz de escrever mensagens num tecladinho de faz-de-conta, utilizando só a pontinha de dois dedos. Para os que, como eu, fizemos curso de dactylographia em mil novecentos e nada, escrever num celular é desafio. Ainda bem que escapei dessa.

Nos dias atuais, não seria possível aguentar o tranco de uma vida profissional sem utilizar telefones e outros instrumentos que todos usam. Para voltar à ativa, eu teria de me dobrar à evidência: é indispensável me atualizar. Só que eu não quero nem pretendo retormar o batente, portanto estou dispensado de reciclagem.

Mas tem gente que, após uma pausa de anos, decide voltar à ativa sem passar pela fase de reciclagem, porque acha muito chato ter de aprender. E vai em frente e mete as caras, crente que sua esperteza vai vencer todos os obstáculos.

Talvez o distinto leitor já se tenha dado conta de que estou pensando em nosso atual presidente, Lula da Silva.

Afastado dos negócios durante uma dúzia de anos – inclusive porque esteve preso –, Luiz Inácio quis porque quis voltar à Presidência. Dos oito anos que havia passado no cargo, só guardava lembranças felizes, de reis e rainhas, de honras e louvores, de mares de bonança singrados com sucesso. Tendo descido a rampa com 80% de popularidade, pareceu-lhe ter atingido o ponto máximo, lugar de onde não se desce mais até o fim da vida.

A realidade é mais cruel. Não é permitido a nenhum mortal conservar para sempre seu prestígio no patamar mais elevado. Se até os que morreram na glória são, com o passar dos anos, rebaixados, imagine os vivos.

O fato é que o tempo passou, novos ventos sopraram e aquela aura de demiurgo que Lula carregava se dissipou. E ele não percebeu. Ou achou que seu olho vivo daria conta de reinflar o que houvesse murchado.

Descurou a voz da experiência, que ensina o óbvio:


“Tem que reciclar, Lula! Não se opera telefone celular só com diploma de dactylographia! Tudo mudou no mundo. Toma cuidado, que tu não és mais esperto que a esperteza!”


E lá se foi o Lula, com demasiada confiança em si mesmo, achando-se capaz de dar daquelas piruetas que a idade já não lhe permitia. Estivesse, ainda, cercado de profissionais de qualidade superior a aconselhá-lo (e estivesse ele disposto a seguir os conselhos), a coisa ainda teria jeito. Mas Lula é orgulhoso e cabeçudo. Além de sua equipe nem sempre ser lá essas coisas, ele refuga os conselhos bons e acolhe os maus.

A imagem que o governo envia é um cenário todo feito de desencontros, de hesitações, de morde e assopra, de batalhas palacianas, de dois passos à frente e dois atrás. Adivinha-se um Lula com sinais inquietantes de ter perdido a mão. O que antes dava certo já não funciona, e ele não encontra a chave para resolver problemas novos. Tenta soluções antigas, que não dão cabo do enrosco.

Não sei se Luiz Inácio acha que está abafando, como nos velhos tempos, ou se já admitiu, para si mesmo, em seus pensamentos mais recônditos, que os truques e mágicas do passado já não funcionam e que ele perdeu o pé.

De um lado, temos um Bolsonaro inelegível e amedrontado, aflito para escapar da justiça; de outro, temos um Lula passivo, preocupado com picuinhas, distante dos grandes projetos do passado, mais reagindo do que agindo.

Nossa gerontocracia vem a galope, já aponta o nariz na esquina. E não vem sorridente.

Irã e prisões de segurança máxima

José Horta Manzano

O ataque lançado pela República Islâmica do Irã sobre o Estado de Israel, na noite de sábado passado, envolveu mais de 300 foguetes, incluindo 170 drones, 30 mísseis de cruzeiro e pelo menos 110 mísseis balísticos.

Para se defender, Israel contou com a ajuda de três potências: os EUA, a França e a Grã-Bretanha. Esses países contam com bases militares na região, e conseguiram deter e destruir boa parte das armas voadoras antes que atingissem território israelense. O exército de Israel fez o resto. Daí os estragos terem sido tão limitados.

Não precisa ser especialista em assuntos militares pra se dar conta de que o Irã lançou mão de apreciável quantidade de foguetes – arsenal fabricado por eles, ainda por cima. Tivessem atirado três bombinhas, é possível que Israel, ao constatar a fragilidade do inimigo, já estivesse enviando seus próprios foguetes para destruir Teerã.

Acredito que a amplidão do ataque seja um dos fatores que estão fazendo o governo de Tel Aviv hesitar. Se os dois países entrarem em guerra de verdade, o risco é grande de o equilíbrio regional (e talvez mundial) sentir o baque e sair abalado.

Faz quase duas décadas que o Irã vive sob sanções pesadas aplicadas pelos EUA e também pelos países aliados. Na teoria, o Irã deveria estar exangue, com a língua de fora, pedindo arreglo. Não foi o que se viu sábado passado. Analistas tentam minimizar a força do Irã, argumentando que o arsenal é antiquado, fora de moda, impreciso e isto e aquilo. Me parece mais é desculpa de despeitado.

Antiquado ou não, o arsenal despachado pelo Irã não bate com a imagem de um país mendigo, de pires na mão, pária do mundo civilizado. Como é possível? “Fatta la legge, fatta la burla”, como dizem os italianos (a lei nem bem acabou de ser feita, já se dá um jeito de fraudá-la).

Nosso cândido Lula da Silva gosta de se apresentar como “aliado” deste ou daquele país, o Irã entre eles. Ser aliado é mais do que sair na foto ao lado do “parceiro”. Inclui unir forças em busca de um objetivo comum. Qual é o objetivo comum entre Brasil e Irã, além de buscar o progresso do povo respectivo? Concluo que o Brasil não é “aliado” de fato do Irã. Ainda bem.

O fato é que o Irã tem petróleo e o mundo precisa de petróleo. Pronto, a conexão está feita. Dinheiro não compra tudo, mas quase. Petróleo pode ser excelente moeda de pagamento. Se uns se recusam a comprar óleo iraniano, outros fecham os olhos para os excessos do regime dos aiatolás e entram na fila dos compradores.

Assim, com dinheiro na mão e meio quilo de esperteza, qualquer país “pária” dá logo um jeito de passar por cima das sanções e adquirir tudo o que quiser. Com os equipamentos assim importados, os iranianos vão construindo seus drones e seus mísseis. Não vamos esquecer que, junto com a Turquia, o Irã está entre os melhores fornecedores de drones da Rússia.

Tudo isso mostra que impor sanções é o mesmo que tapar um cano d’água com peneira de taquara: o fluxo pode até diminuir, mas a água continua passando.

Os protocolos de segurança de uma prisão “de segurança máxima” funcionam de forma semelhante. Por mais medidas que se tomem, como celas revistadas, algemas no passeio, informação compartimentada e encarcerados isolados, sempre resta alguma brecha. E é por ali que passa toda a comunicação que não devia passar.

Em conclusão, vamos dizer que não somos “aliados” de papel passado do Irã nem temos prisões de absoluta “segurança máxima”. Jair Messias já quebrou os dentes quando levou um ‘chega pra lá’ de Viktor Orbán, seu “aliado” húngaro. Não me venha agora Luiz Inácio com suas manias de considerar seus ditadores de estimação como “aliados do Brasil”.

Tanto Bolsonaro quanto Lula estão errados. O capitão, após a decepção da embaixada, já caiu na realidade. Entendeu que, em política internacional, não existe amizade.

E tu, Lula, vais continuar batendo na mesma tecla?

Bolsonaro já está preso

José Horta Manzano

Julian Assange é cidadão australiano residente na Inglaterra. Em 2012, passou a ser procurado pela justiça americana por estar envolvido no rumoroso caso Wikileaks. Para escapar a uma extradição capaz de lhe valer mais de um século de prisão, refugiou-se na embaixada do Equador em Londres.

Ficou sete anos na representação diplomática, dormindo num cubículo, sem sair jamais, sem sequer ver a luz do sol. Só não embranqueceu de vez por ter à mão uma lâmpada bronzeadora facial. Só não travou das pernas por ter conseguido uma esteira.

Um dia, o Equador anulou o asilo diplomáico e expulsou Assange. Diante da porta, o rapaz foi acolhido (e colhido) pela polícia inglesa. Desde então, ele curte as delícias da prisão londrina de Belmarsh, uma das mais rigorosas do reino. Está no aguardo de uma provável extradição para os EUA. No total, já passou doze anos como prisioneiro – ainda sem julgamento, sublinhe-se.

Jair Bolsonaro vive atualmente na situação em que Assange vivia antes do asilo na embaixada. Em outras terras, com todas as acusações que lhe pesam sobre a cabeça, o capitão já estaria encarcerado à espera de julgamento. Nossa justiça é menos rigorosa que outras, razão pela qual ele ainda está solto.

Solto, sim, mas não mais senhor de seus movimentos. Está sem passaporte, com restrições de deslocamento e… monitorado (esta parte não se põe por escrito). Discretamente, a PF há de estar a par de seus menores deslocamentos. Sabem onde está, a que horas chegou, a que horas saiu, o que veio fazer, onde dormiu, com quem se comunicou, essas minúcias.

Eis por que é errado dizer que Bolsonaro está livre. Livre de verdade, como qualquer um de nós, ele não está. Você e eu, se tivermos amanhã vontade (e condições econômicas) de viajar para Israel, marcamos a passagem e vamos. Já o capitão não pode. Aliás, ele pediu estes dias a Alexandre de Morais licença para embarcar para Tel Aviv. A autorização pode até ser que venha; por enquanto, não veio.

Na verdade, Bolsonaro está num limbo entre cidadão livre e prisioneiro. O andamento dos processos que lhe pesam sobre os ombros é que decidirá de que lado ele vai cair: do lado do cidadão livre ou do outro.

Se o ex-presidente tentar de novo e obtiver asilo numa embaixada (como já tentou em fevereiro), vai pular da panela pro fogo. Vai seguir o exemplo de Julian Assange. Periga passar um bom tempo lá dentro, vivendo num cubículo, comendo quentinha ou miojo, sem ver a luz do sol, à espera de que a situação se decante. Isso pode durar meses, anos.

À porta da embaixada estará sempre estacionado um carro descaracterizado com uma duplinha de federais. Deixar a embaixada num porta-malas? Nem pensar! Se o embaixador permitisse isso, perderia o emprego e era capaz de terminar na cadeia. Além de abrir uma grave crise diplomática entre seu país e o Brasil. Não, o capitão não sairia de lá.

Portanto, Seu Jair, asilo em embaixada, melhor esquecer. Vosmicê devia ter aproveitado o turismo que fez em Orlando para negociar asilo em algum país, não na embaixada, no país mesmo. Não fez? Bobeou, dormiu no ponto.

Na situação atual, o que lhe resta é esperar tranquilo, enfrentar os processos. Em caso de encarceração, ninguém vai mandá-lo para o Complexo de Gericinó, no meio de seus amigos milicianos. Vosmicê vai ocupar uma suite confortável na Papuda, com direito a lâmpada solar e esteira. Vai ficar alguns anos, mas certamente menos do que teria de ficar no quartinho da embaixada.

Tranquilo, pois! Tome um chá de camomila e aguente firme. Vale a pena.

Observação
Na ilustração, pus uma embaixada de Cuba de propósito. Não é gozação. É porque acredito que, caso se asilasse em Cuba, Bolsonaro teria recepção e tratamento de primeiríssima. Imagine o orgulho dos bondosos dirigentes da ilha, de poder mostrar ao mundo que, entre quase 200 países e territórios, o capitão escolheu o país deles!

O espanhol se aprende facilmente em Havana, cidade de garotas estupendas, onde, para um homem de olhos azuis e 1m85, em cada esquina “pinta um clima”.

Cagão

José Horta Manzano


Disclaimer
Este texto apenas enumera hipóteses elaboradas pelo autor. Ainda não são (e talvez nunca se tornem) verdade atestada.


Peço desculpas ao distinto leitor e à graciosa leitora pelo título deste escrito. Por estas bandas, não costumamos nos alimentar de pratos escatológicos, mas a situação é especial. No entourage do capitão, palavras como essa do título são como arroz e feijão: são servidas em todas as refeições.

Mas o fato do dia é que… o imbroxável broxou de vez. Se homiziou na embaixada da Hungria em Brasília e lá passou dois dias. Não sei quanto está cobrando a embaixada pelo pernoite com pensão completa. Se o preço for abordável, vou bater-lhes à porta dia desses.

Quem liberou as imagens?

Achei estranho, em todos os papéis que li, não ter visto ninguém querendo saber quem liberou os vídeos e como eles foram parar na mídia mundial. Pois a resolução do mistério reside exatamente nesse ponto: quem liberou as imagens?

Se alguém quiser causar a maior repercussão planetária utilizando um só veículo da mídia, não há dúvida – o caminho é um só: The New York Times, de longe o jornal mais importante do mundo.

Pensei: como é que os vídeos chegaram lá? Tentei imaginar um repórter do NYT escalando o muro da embaixada da Hungria no escurinho da madrugada, em seguida arrombando a porta da entrada e aspirando, com um pen drive (chave USB), o arquivo de vídeos de segurança. Coisa de filme de espionagem, inimaginável na vida real. Mas se ninguém roubou, quem passou as imagens para o NYT?

Ora, se as imagens não foram surrupiadas, só podem ter sido entregues ao jornal pela própria embaixada, não vejo outra possibilidade. E por que razão terão feito isso?

Vamos começar do começo. Quando a justiça retirou o passaporte de Bolsonaro, o pavor de uma prisão iminente deve ter se instalado no entorno dele. Conselho de crise foi instalado e ideias foram brotando, umas mais estrambóticas que as outras: deixar o país dentro de um porta-malas, encomendar a um meliante mais jeitoso que confeccionasse passaporte falso, fretar jatinho privado capaz de percorrer longas distâncias.

A intenção era de escapar à cadeia. Mas cada ideia tinha seus inconvenientes. Deixar o país num porta-malas e, no dia seguinte, como fazer sem passaporte? Encomendar passaporte falso que responda a todos os requisitos tecnológicos? Impossível, seria parado no primeiro guichê de imigração. Viajar num jatinho privado? Seria como viajar no porta-malas. No dia seguinte, sem documento, como é que fica?

Depois de uns dias espremendo as meninges, um dos pequenos gênios que cercam o capitão veio com a ideia de pedir refúgio a uma embaixada estrangeira. Se aceitassem, ele estaria protegido, visto o estatuto de extraterritorialidade das representações diplomáticas: nenhuma polícia poderia alcançá-lo ali. Se não aceitassem dar-lhe refúgio, ficariam elas por elas, tudo discreto, episódio não visto e não sabido. A ninguém ocorreu levar em consideração o risco de a própria embaixada botar a boca no trombone.

Sim, senhores, porque foi exatamente o que ocorreu. Vamos ver como.

A embaixada deve ter sido avisada da chegada iminente de Bolsonaro, ex-presidente do Brasil. Sabiam que ele tinha um assunto urgente a tratar com o embaixador. Visita de ex-presidente não se pode recusar. O visitante chegou, entrevistou-se com o embaixador, pediu asilo diplomático. Naturalmente, nenhuma resposta lhe pôde ser dada na hora. O profissional ficou de consultar Budapest.

Era noite, e o capitão assustado pediu licença para se recolher na embaixada. Foi alojado na ala de visitantes.

Dia seguinte, ficou sabendo que nenhuma resposta tinha vindo de Budapest. O jeito era esperar, que essas coisas são complicadas e demoradas. Fico imaginando o apuro do governo húngaro, atarantado, sem saber o que fazer. Bolsonaro é um sujeito pestilento – ou tóxico, como se diz hoje em dia. É daquelas visitas fortemente incômodas, que merecem vassoura atrás da porta, de cabeça pra baixo. Não sei se, nas tradições magiares, essa simpatia também funciona.

Pousou mais uma noite nos locais, sempre na incerteza da concessão do asilo. Os vídeos publicados pelo NYT não deixam claro, mas imagino que o ex não tenha sido deixado à míngua. Pensão completa deve ter sido servida. Talvez em quentinhas, que é sempre melhor “jair se acostumando”.

No terceiro dia, não dava mais pra segurar. Deram a Bolsonaro a notícia chata: nada de refúgio, capitão, que Budapeste não está de acordo. Se você ainda não assistiu aos vídeos, preste atenção no finalzinho, quando nosso ex deixa a embaixada. Provavelmente estava sendo gentilmente acompanhado até a porta. Sai apressado, enfezado, sem olhar para os lados, não cumprimenta ninguém, encafua-se no carro e zarpa. Se aquilo não é sintoma de que seu objetivo foi pro espaço…

Isso tudo ainda não explica por que razão os vídeos saíram no NYT.

Já venho. Os serviços de segurança da Hungria são herdeiros do duro sistema soviético. Faz tempo que recobraram a independência, mas há coisas que marcam um país por décadas. Entendem que Bolsonaro, embora pareça viver livre e solto na natureza, está sendo discretamente seguido pela nossa PF. Compreenderam que a Federal estava a par da longa visita à embaixada da Hungria e devia estar com a pulga atrás da orelha.

Antes de cair na desconfiança da polícia brasileira, os diplomatas, certamente instruídos por Budapest, fizeram chegar os vídeos de segurança ao New York Times. É até possível que o jornal tenha se comprometido a não divulgar a verdadeira fonte, talvez inventem o nome de um intermediário qualquer.

Agora, publicados os vídeos, a embaixada da Hungria lava as mãos. Por certo não dirão mais nada. Vão deixar que cada um faça sua própria ideia sobre a razão da visita de Bolsonaro.

Pronto, gente boa, o círculo está fechado. Podem se dispersar, o espetáculo acabou.

Para Bolsonaro ficou a lição. “Países não têm amigos, têm interesses”. Enquanto ele era presidente do Brasil, representava um certo interesse para a Hungria. Agora, derrotado e na mira da Polícia Federal, virou um lixo que ninguém quer ver por perto.

O indiciamento do capitão visto de fora

José Horta Manzano

Desgraça (ou júbilo, dependendo do ponto de vista) costuma dar a volta ao mundo num segundo. Nem Júlio Verne, em seus eflúvios fantasistas, ousaria imaginar que uma notícia pudesse circular a tal velocidade.

Bastou nossa PF soltar uma nota sobre o pedido de indiciamento de Bolsonaro, que de Buenos Aires a Berlim, de Washington a Moscou, a notícia já estava nos portais por aí afora.

A nota da polícia brasileira não era acompanhada por foto, dando assim liberdade a cada redação para a escolha da imagem. A maioria optou por inserir uma foto do próprio Bolsonaro.

Três das redações postaram uma imagem cômica de Bolsonaro de máscara antiviral. Quanto à expressão facial do capitão, nenhum dos portais foi “bonzinho” na escolha – os instantâneos são todos infelizes.

Ou, quem sabe, ainda está por vir um fotógrafo capaz de colher imagem “feliz” do ex-presidente. O trabalho é complicado e as inscrições para a façanha continuam abertas.

 

Brasil: Polícia acusa Bolsonaro de fraude em registros de vacinas contra a covid

 

 

Brasil, Bolsonaro é indiciado pela polícia por certificados falsos de covid

 

 

No Brasil, Jair Bolsonaro acusado de falsificar certificados de vacinação contra a covid

 

 

Jair Bolsonaro é indiciado por falsificar passaportes de vacinação

 

 

Polícia brasileira pede que Bolsonaro seja indiciado por falsificar sua carteira de vacinação

 

 

Bolsonaro é acusado de falsificar certificados de vacina

 

 

Polícia brasileira acusa Bolsonaro de falsificar registros de vacinação

 

 

Aperta o cerco a Bolsonaro: ele é acusado de “falsificar” registros de vacinação

 

 

Ex-presidente brasileiro Bolsonaro é acusado de falsificar certificado de vacinação contra a covid

 

Criminho

 José Horta Manzano

Não faz muito tempo, analistas informavam que o STF tinha planos e até um roteiro pronto para tratar o caso do fracassado golpe de Estado de Bolsonaro. O capitão só seria incriminado depois de todas as peças do processo estarem juntadas, todas as testemunhas terem sido ouvidas, todas as provas estarem reunidas.

A partir daí, viriam o indiciamento e o devido processo. Em seguida, os inevitáveis recursos. Quando não houvesse mais recurso possível e o caso tivesse transitado em julgado, só então Bolsonaro seria preso.

Mas o golpe fracassado, que culminou no ataque de 8 de Janeiro, era o “crimão”. Pelo que ora se descortina, a estratégia começa pelos criminhos, aqueles cujas penas não serão suficientemente pesadas a ponto de determinar encarceramento do réu. Mas ficarão gravadas em seu prontuário e tirarão do justiciado, para sempre, a condição de réu primário.

Até chegar ao 8 de janeiro, ainda tem chão. O caso das joias e dos presentes afanados, o incentivo ao contágio durante a pandemia, o exercício ilegal da medicina quando receitou cloroquina, a convocação dos embaixadores para dinamitar a confiança nas instituições nacionais – e outros que me escapam agora –serão julgados antes do caso da intentona.

A convocação dos embaixadores já lhe rendeu a inelegibilidade mas, se eu não estiver enganado, ainda não foi julgada criminalmente.

Se for esse o roteiro, me parece muito bem arquitetado. Sai de uma bobaginha e vai crescendo até o clímax: o julgamento do golpe abortado. O crimão.

Vox populi

José Horta Manzano

A pluma do jornalista Lauro Jardim nos informa que convocar a manifestação na Avenida Paulista duas semanas atrás foi um grande erro que Bolsonaro cometeu. Não se trata de opinião de uma pessoa, mas de resultado de pesquisa do Ipec, instituto que, entre os dias 1° e 5 de março, consultou dois mil eleitores sobre o assunto.

A uma questão direta, a resposta tem de ser direta. A pergunta era: “Na sua opinião, está certo ou errado o ex-Presidente Jair Bolsonaro convocar um ato em seu apoio após se tornar alvo de investigação da Polícia Federal pela suspeita de ter planejado um golpe de Estado?”. E a resposta só podia ser “certo” ou “errado”, sem mais nuances.

Pasmem: 61% dos entrevistados julgam que Bolsonaro errou ao organizar o comício. O resultado é surpreendente, visto que, pouco mais de um ano atrás, o país saiu das eleições dividido em dois campos de tamanho praticamente igual.

A pesquisa mostra que não só os que votaram no Lula acham que Bolsonaro fez uma grande besteira. Até entre os que têm simpatia pelo capitão e nele votaram, um eleitor em cada três acredita que ele errou.

Ao longo de seu mandato, Bolsonaro especializou-se em convocar reuniões, entrevistas e comícios que, sendo erros políticos, desabaram sobre sua cabeça.

* Vamos lembrar das desastrosas reuniões ministeriais em que a enxurrada de palavrões não encobriu a estupidez e a maldade do que foi dito. A última delas está até servindo de prova nos processos movidos contra o ex-presidente.

* Vamos recordar também o calamitoso “brienfing” com Suas Excelências, os embaixadores de países amigos. Esse meeting absurdo cobrou custo pesado: provocou a inelegibilidade do capitão.

* E não nos esqueçamos do trio elétrico montado nas comemorações de 7 de setembro, alguns anos atrás, peça importante entre as acusações que pesam sobre o ex-presidente.

Lula tem cometido erros primários, que embaçaram o brilho que envolvia sua personalidade. No entanto, verdade seja dita, até agora se absteve de convocar “brienfings” e manifestações em causa própria.

Que continue assim, pra não arriscar ficar cada dia mais parecido com seu predecessor.

Baile da saudade

José Horta Manzano

A charge
Achei genial a charge que saiu na Folha de hoje, obra do jovem desenhista João Montanaro (27 anos). É a imagem reproduzida acima.

A seita
Os obstinados que se mobilizam a um simples aceno de Bolsonaro estão mais para sectários (fiéis de uma seita) do que para partidários (companheiros de partido). A obediência absoluta demonstra isso. Partidos, especialmente no Brasil, não exigem fidelidade total de seus membros. Já uma seita só sobrevive da lealdade de seus adeptos.

Sem faixas
Me parece simples. Com receio de ser levado em cana por incitação à sedição, Bolsonaro pediu a seus fiéis que não trouxessem faixas. Resultado: ninguém veio com faixas. Isso expõe a devoção do distinto público a Seu Mestre, ou seja, ao super-homem que lhes dá ordens.

O Brasil já conheceu populistas que, a seu tempo, magnetizavam os fiéis. Getúlio Vargas talvez tenha sido o mais significativo deles. Assim mesmo, assisti a conversas animadas entre getulistas e ademaristas (de Adhemar de Barros) que não terminavam em tiro nem morto estendido no meio-fio.

A diferença é o que eu dizia antes: num caso, temos simpatizantes de um partido; no outro, são fiéis obedientes a um guru. Essa é a diferença entre os de antigamente e os de hoje. Daí a dificuldade de lidar com os ditos “bolsonaristas”.

No espírito de um “bolsonarista”, o chefe tem sempre razão. Não há discussão possível. Se mandou levar faixa, levo; se não mandou, não levo. Se ele diz que é um inocente perseguido por pessoas más, acredito.

Como argumentar? Não adianta nem tentar. Seria como tentar convencer um eleitor argentino de que o “peronismo” já faleceu faz meio século. Ele não concordará.

Resumindo
Isso foi o que mais me impressionou no ajuntamento de ontem: a ausência de faixas. Da meia dúzia de discursos, já se imaginava que não insultariam magistrados, mas do público era mais difícil. No final, vê-se que foi mais fácil adestrar os assistentes do que conter um dos ‘pastores’ discursantes, que chegou a cutucar autoridades superiores a ele.

Trocando em miúdos, temos uma continha de soma zero. Os ‘bolsonaristas’ deram mostras de quem são e do apreço que devotam ao guru. Continuam a apreciar o chefe. Quanto aos ‘não bolsonaristas’, continuam no seu canto, sem precisarem de chefe que lhes diga de que cor têm de se vestir. Os de lá não votam nos de cá e vice-versa. O desfile não fez ninguém mudar de campo. Zero a zero.

Quanto à Justiça, ah, são outros quinhentos! O tempo judicial é mais longo que o tempo do trio elétrico ex-presidencial. Daqui a uma semana, a algazarra suscitada pelo ajuntamento da Avenida Paulista terá sossegado. Mas os processos, implacáveis, continuarão a correr nos escaninhos do Supremo.

Não acredito que choro de Madame amoleça coração de magistrados.

PS
Esperemos que os juízes que vão julgar Bolsonaro não tenham interpretado essa movimentação como demonstração de força ou, pior, como afronta ou provocação. Juiz irritado tem a mão pesada.

Odette Roitmann

by Igor Dantas, desenhista mineiro

José Horta Manzano

As investigações em torno da quadrilha instalada no Planalto nos tempos do capitão estão apertando. A conspiração se desvenda cada dia um pouco mais e o nome dos bois começa a aparecer. A boiada começa a passar. Por ironia, tudo lembra muito o auge da Lava a Jato, quando as estrelas Moro e Dall’Agnol concentravam a luz dos holofotes e os criminosos, um a um, iam sendo mandados para a Papuda.

Quanto aos conchavos bolsonáricos, a história completa ainda está por ser escrita. Todo bom romance tem de ir até o fim – não termina enquanto a trama não estiver totalmente desenrolada. Em nosso atual “Quem matou Odette Roitmann”, não basta saber quem deu o tiro. Também tem de ficar claro quem comprou a arma, quem adiantou o dinheiro, quem pagou pela munição, quem carregou o revólver, quem catou o cartucho caído no chão, quem escondeu a arma depois de consumado o crime. Tudo tem de ser apurado, nenhum figurante deve escapar “duela a quién duela”, como disse uma vez o ilibado presidente Collor.

Nesta altura dos acontecimentos, ninguém está em condições de contar o drama de A a Z – com exceção dos personagens, evidentemente. Tenho lido numerosas análises da novela. Mas todas só vão até o capítulo atual, sem arriscar palpite sobre o que virá. Todas, não. Encontrei uma, uma apenas, que não só conta o fim de Odette Roitmann como também dá o nome do assassino e dos cúmplices.

Falo do artigo que o Estadão publicou ontem, assinado pela competente jornalista Eliane Cantanhêde. Com boa visão de conjunto e espírito de síntese, a autora dá sua visão do desenrolar do drama daqui para a frente. Vale a pena dar uma olhada.

Copiei e ponho aqui ao dispor dos corajosos leitores que preferiram abondonar o Bloco do Mamãe eu Quero para ler estas linhas. Fica aqui meu agradecimento.

Virada de Mesa.

Gente bem

by Alexandre Cechetto Beck (1972-) desenhista catarinense

José Horta Manzano

Uma vez, quando eu era criança, um coleguinha (ou uma coleguinha, não me lembro bem) me perguntou: “Teus pais são gente bem?”. Não sei se dei alguma resposta, o fato é que não entendi a pergunta. Nunca tinha ouvido a expressão e fiquei com vergonha de perguntar o que era.

Anos mais tarde, aprendi que gente bem são os cidadãos que pertencem à alta sociedade, à elite. São os “bem-nascidos”.Se assim for, minha resposta teria sido “Não, meus pais não pertencem à alta sociedade”.

Em 1957, a cantora Dolores Duran lançou um samba composto por Billy Blanco, bem chacoalhado, chamado Estatuto de boate. Começava assim:

Gafieira de gente bem é boate
Onde a noite esconde a bobagem que acontece
Onde o uísque lava qualquer disparate
Amanhã, um sal de fruta e a gente esquece

Faz tempo que não ouço essa expressão “gente bem”. Acho que envelheceu, foi aposentada e hoje goza de merecido repouso na gaveta do esquecimento.

Por seu lado, há outra, bem parecida, mas de significado diferente. É gente de bem. Essa, parece, surgiu durante o regime militar, lá pelos anos 1970. Incentivada sabe-se lá por quem, estigmatizava todo oponente à ditadura. Gente de bem era o cidadão ‘normal’, de bons costumes, vida regrada, se possível cristão e, sobretudo, apreciador do regime (ou, pelo menos, conformado de viver numa ‘democracia relativa’). Quem não fosse gente de bem levava, fácil fácil, o carimbo de terrorista.

Aqueles tempos sombrios passaram. Faz alguns anos, porém, um cidadão egresso das trevas decidiu reativar aquela expressão velhusca e dar-lhe uma segunda vida. A expressão é gente de bem e o cidadão, Jair Bolsonaro. Em suas falas, volta e meia o capitão soltava um “gente de bem” ou, melhor ainda, um “cidadão de bem”. O novo significado, sem surpresa, é bem próximo do que vigorava nos tempos ditatoriais: o cidadão de bem é aquele que adere à tortuosa ideologia da extrema direita ou, pelo menos, que se resigna calado.

O antigo “gente bem” passou. O “gente de bem” da ditadura também se foi. O “cidadão de bem” bolsonárico já está passando.

Tudo passa. Amanhã, um sal de fruta e a gente esquece.