Memento homo

José Horta Manzano

Diante do que faz doutor Bolsonaro, a gente sente saudade dos mais recentes presidentes do Brasil. Exceção feita a dona Dilma, parecem todos grandes presidentes. Até o Lula está anos-luz à frente do pedregoso Bolsonaro. Pena que tenha se servido com tanta sem-cerimônia das benesses que o cargo lhe oferecia e – principalmente – que tenha permitido à malta despojar o Estado.

Diante do que diz doutor Bolsonaro, a gente sente saudade de todos os antigos presidentes do Brasil. Todos, de verdade, incluindo até aquele General Figueiredo, que gostava mais de cavalo do que de gente e que costumava dar coices verbais quando estava de mau humor. Em matéria de estilingadas verbais, Bolsonaro ganha estourado de todos eles.

Saiu um bom artigo de FHC no Estadão deste domingo. O antigo mandatário assume a confortável posição de observador distante e, com a autoridade de quem já viveu 9 décadas quase inteiras, distribui conselhos a quem interessar possa. Lá pelas tantas, ele cita um aforismo do Antigo Testamento. Coisa fina. Só que ele comete uma imprecisão. “Pulvis est et in pulvis reverteris” é o que ele diz, quando o correto é “Pulvis es et in pulverem reverteris”. Melhor ainda é citar o axioma na íntegra: Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris. – Recorda, homem, que és pó e ao pó retornarás”.

Não tem importância. Só a lembrança de que já tivemos um presidente que fazia citações em latim já é um bálsamo. Acende a esperança de que doutor Bolsonaro não será uma verruga encravada na alma nacional por muito tempo. Um dia, que esperamos seja o mais logo possível, seremos brindados com inquilino do Planalto menos agreste.

Observação
A locução latina aparece na Vulgata da Bíblia (Gênese). São as palavras que Adão ouviu de Deus quando foi expulso do paraíso depois de incorrer no pecado original.

A palavra memento, pronunciada com voz solene e indicador apontado para o alto, tem valor de interjeição. Foi usada por séculos como advertência a alguém que estivesse a ponto de cometer um erro. Em italiano, as duas primeiras palavras da locução se juntaram pra formar «mementomo!», repreensão dicionarizada, mas hoje caída em desuso.

Comida por quilo

José Horta Manzano

Tive uma tia que, já velhinha mas ainda esperta, almoçava fora todos os dias. Não se pode dizer que cozinhar tenha sido uma de suas paixões. Assim sendo, aproveitou, enquanto foi possível sair à rua sozinha, pra frequentar um restaurante «por quilo» que ficava perto.

Todos os dias, quando faltavam quinze para as onze, lá estava ela à porta do restaurante esperando a hora. Às onze em ponto, assim que abriam, ela pegava o prato e rapidinho ia se servir. Fazia questão de ser a primeira. Dizia que não gostava de comer «comida mexida». Não sei se terá sido em virtude da prudência alimentar, mas ela morreu centenária.

Na opinião de um especialista em culinária cujo blogue li estes dias, o coronavírus vai acabar com restaurante por quilo. Segundo ele, vão fechar todos. É verdade que, quando a gente pensa, o desfile de clientes diante das vasilhas espalha abundante sortimento de vírus, bactérias e outros bichinhos que fatalmente vão aterrissar sobre a comida. Não tem como escapar. Nem usando máscara e luva: um vírus mais ligadão pode até pular do braço do freguês direto no feijão. Te esconjuro!

O desaparecimento de estabelecimentos onde se come razoavelmente bem por preço módico seria uma tristeza. Poria muita gente fina em apuros. Mas o ser humano tem incrível capacidade de se adaptar. Novos caminhos aparecerão. O futuro dirá quais são.

Um detalhe linguístico me parece divertido. Imagine um atacadista que vende pregos. Um cartaz na parede adverte: «Venda por quilo». Todos entendem que o comerciante não vende pequenas quantidades; a medida é o quilo. O freguês tem de comprar um quilo, dois, três ou mais. A condição é clara.

Agora diga-me por que raios está escrito que o restaurante vende comida «por quilo»? Não é verdade. Ele não exige que se compre um quilo, dois, três ou mais. Na realidade, ele vende comida «por peso», que não é exatamente a mesma coisa. O preço é expresso em reais por kg, mas o cliente não é obrigado a comprar quilos; pode levar a quantidade que quiser.

Parece esquisito, mas é só falta de costume: «por peso» exprime melhor o princípio. Minha velha tia nunca devoraria comida aos quilos. Sua medida era o que a magra pensão lhe permitia; não podia passar de R$ 3,50 por refeição. Contadinhos.

Dois em um

José Horta Manzano

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A chamada do Estadão vem com dois problemas. Por coincidência, os dois envolvem o acento grave.

Depor
O verbo depor tem múltiplos significados. Sua regência varia conforme a acepção. Em linguagem jurídica, quando significa prestar depoimento, é intransitivo, ou seja, não aceita objeto direto nem indireto.

Portanto, Sérgio Moro vai depor (ou prestar depoimento) neste sábado. Ponto final. Ele não prestará depoimento a ninguém. Pode-se complementar informando o local, a data, e outras circunstâncias. Endireitada, a frase fica assim:

Neste sábado, Sérgio Moro presta depoimento na PF.

Crase
Na frase ‘Audiência marcada para às 11h’, a crase sobra. Não há encontro de artigo com preposição. Veja a diferença:

Ele chegará para a audiência às 11h
(às = a + as)

Audiência marcada para as 11h
(as = as)

Pra corrigir, basta portanto tirar o acento grave.

Revoltante

José Horta Manzano

Não sou anticlerical. Nem teria como – quem vem, como eu, de família cheia de padres, freiras e carolas sempre guarda laços de respeito ainda que não pratique a religião. Atenção: respeito não é sinônimo de submissão, muito menos de fanatismo cego.

Fiquei sabendo que, no Brasil, a remuneração de pastores evangélicos é isenta de tributos. É possível que muitos estivessem a par mas eu não estava. Não sei que efeito essa informação faz no distinto leitor; quanto a mim, fico de cabelo em pé.

O Estado brasileiro é laico. Laico não quer dizer ateu, nem herético, nem muito menos anticlerical. Quer dizer que ele paira acima de preferências religiosas. Com relação às diferentes denominações religiosas, o Estado mantém-se neutro e equidistante, assim como também não ampara um time de futebol em detrimento dos demais. É fácil de entender.

A Constituição garante a cada um o direito de aderir (ou não) a uma organização religiosa. É decisão que pertence ao campo pessoal, ligada ao foro íntimo de cada um. O cidadão que adere a um agrupamento religioso tem o direito de tirar dinheiro do próprio bolso para dar amparo financeiro ao agrupamento. Isso é atitude normal. O que não é normal é o Estado dar uma forcinha a alguma organização religiosa, seja ela qual for.

Entidade religiosa é instituição privada, assim como clube de futebol ou escola de samba. O Estado não tem dinheiro próprio, ele cuida do dinheiro da sociedade; seus cofres guardam os haveres dos contribuintes, que somos nós todos. Desde o capiau que compra um quilo de feijão até o grande empresário, todos contribuem. O empresário paga imposto sobre seus ganhos; o capiau paga, ainda que não se dê conta, o imposto embutido no preço do feijão. Portanto, não me parece justo que o Estado laico abra os cofres e use meu dinheiro para amparar entidade religiosa.

Determinados bispos neopentecostais burlam a lei. Valendo-se da isenção de tributos sobre a remuneração de pastores, fazem passar participação nos lucros, dividendos e outras benesses como salário. Escapam, assim, ao imposto. O chato é que a Receita faz controles pontuais, aqui e ali. Quando apanha algum infrator, aplica multa pesada. Em certos casos mais graves, as multas podem ser milionárias. Tem muita organização religiosa batalhando pra não pagar o que deve.

Saiu a notícia de que donos de organizações pentecostais em débito com a Receita estão pressionando doutor Bolsonaro para que mande afrouxar as regras e anular a cobrança. Dado que o presidente está muito interessado na reeleição e nada comovido com o dinheiro do contribuinte, é bem capaz de consentir. Se assim for, teremos mais um caso de transferência de renda às avessas: tira-se dos humildes para dar aos milionários. Lindo, não?

Observação:
Ricardo França, fiel e atento leitor, conhece bem a questão da tributação. Informa-nos que a reportagem do Estadão, fonte deste artigo, embola os fatos e confunde o leitor.

No frigir dos ovos, ainda que a informação do Estadão esteja confusa, uma realidade aparece: dirigentes de determinadas seitas estão se aproveitando de brechas na legislação tributária para encher ainda mais os bolsos.

Por mais religiosos que sejam, não há milagre. No final, a conta vem para todos nós. É revoltante.

Alteração feita em 2 maio 2020.

Desaforo poliglota

José Horta Manzano

O «E daí» de nosso refinado presidente ecoou lá fora. Ao dar a notícia, os jornais tiveram de traduzir. Ficou assim.

The Guardian (Londres, Reino Unido) escolheu
«So what?»

El Tiempo (Bogotá, Colômbia) preferiu
«¿Y entonces?»

AskaNews (Roma, Itália) optou por
«E allora?»

Frankfurter Allgemeine Zeitung (Frankfurt, Alemanha) ficou com
«Na und?»

France 24 (Paris, França) decidiu-se por
«Et alors?»

Como se vê, malcriação tem tradução fácil em qualquer língua. Já presidente malcriado e desaforado é menos comum, por isso dá manchete.

As três vacas

José Horta Manzano

Você sabia?

O tratado mais antigo da Europa foi firmado em 1375. Continua em vigor há quase 650 anos. Na época em que foi assinado, os países ainda não existiam da forma como os conhecemos; os Estados não tinham meios de exercer soberania sobre todo o território. Muitas das atribuições de um governo central ficavam por conta de pequenas autoridades locais.

Os Montes Pireneus marcam a fronteira entre França e Espanha. Por ali, em altitudes acima dos mil metros, a água escasseia e as nascentes são raras. Desde que domesticou bovinos e caprinos, o homem tem absoluta necessidade de água para matar a sede dos animais que são levados a pastar. Dois mil anos atrás, já se tem notícia de rusgas e conflitos motivados pelo acesso à água.

Em certo trecho da cadeia de montanhas, de um lado fica o Béarn (região francesa) e do outro a Navarra (região espanhola). Entre os dois, aqueles montes pontudos. Lindos, mas semiáridos. No verão, pastores dos dois lados levam o rebanho a pastar a erva abundante lá no alto. Na região, só há uma nascente – pomo de discórdia que, desde sempre, azucrinou a existência de todos.

Junto ao marco fronteiriço: três prefeitos franceses (de faixa) e três espanhóis (de sombrero preto).

No começo dos anos 1370, numa briga feia pela água, um pastor espanhol matou um pastor francês. Seguiram-se anos de violência generalizada, vinganças, emboscadas, assassinatos. O horror chegou a vitimar 300 pessoas de cada lado da fronteira, uma hecatombe regional. Numa batalha importante, os franceses perderam o chefe e acabaram entregando os pontos e debandando. Os bispos da região decidiram que era hora de pôr um fim à barbárie.

Costuraram o tratado popularmente conhecido como Tributo das Três Vacas. Ficou combinado que, todos os anos à mesma época, os pastores franceses entregariam aos espanhóis três vacas de 2 anos de idade, em perfeita saúde. Passaram os séculos, houve revoluções, alianças se fizeram e se desfizeram, houve guerras mundiais, ditaduras viraram pó, e… o Tributo das Três Vacas continua de pé. Aliás, foi oficialmente reconhecido e confirmado em meados do século 19 pelo Estado Francês e pela Coroa Espanhola.

Religiosamente, no dia 13 de julho de cada ano, três prefeitos de vilarejos franceses e três do lado espanhol se reúnem junto ao marco fronteiriço n° 262 para a cerimônia de entrega das três vacas. Foi-se o tempo em que os pastores da região se matavam por uma nascente; mas a tradição ficou, como uma página da história local que os habitantes insistem em não virar. O Tributo das Três Vacas está inscrito no Inventário do Patromônio Cultural Imaterial da França.

Alhos e bugalhos

José Horta Manzano

Você sabia?

Certamente todos já usaram, alguma vez, a expressão «alhos com bugalhos». Juntamos essas duas palavras para exprimir coisas disparates. «Não misturar alhos com bugalhos» ‒ é o que se ouve de costume. Mas… o distinto leitor saberia dizer o que são bugalhos? Atenção: o desafio só vale para brasileiros. Portugueses conhecem a resposta.

Pois é, alho, todo o mundo sabe o que é. Mas aposto que poucos de vocês se terão preocupado em conhecer o significado de bugalho. Na verdade, uma palavra não tem relação nenhuma com a outra. Estão aí justapostas só pra dar rima. Mas vamos ao significado.

Bugalho em folha de carvalho

O carvalho, árvore comum em regiões de clima temperado, é praticamente inexistente no Brasil, o que explica que o termo seja desconhecido. O bugalho é uma excrescência ‒ uma doença, pode-se dizer ‒ que aparece na folha de uma árvore, especialmente na do carvalho, quando picada por determinado tipo de inseto ou de parasita. Para quem nunca viu, imagine uma noz moscada. O bugalho tem aspecto semelhante.

Os franceses dão a essa bolinha o nome de noix de galle ‒ algo como «noz gálica». Dela se extrai o ácido gálico, que foi usado, durante séculos, em tinturaria.

Por extensão, os portugueses dão o nome de bugalho ao que conhecemos como bolinha de gude. No Brasil, a ausência de carvalhos e de bugalhos faz que o povo desconheça o significado da palavra.

Bolinha de gude, conhecida como bugalho em Portugal

Em compensação, permanece viva na língua brasileira de todos os dias a expressão «olhos esbugalhados», com o significado de olhos muito abertos, arregalados, redondos como dois bugalhos. Certos casos de cirurgia estética mal sucedida dão como resultado uma infeliz criatura com olhos permanentemente arregalados. Um perigo.

É interessante como a gente pode passar a vida usando palavras sem conhecer o sentido.

Artigo publicado originalmente em 24 abril 2017.

Democracia?

José Horta Manzano

Em tese, o Brasil vive sob regime democrático. Democracia é sistema de governo no qual o poder é exercido pelo conjunto dos cidadãos. Essa é a teoria. No entanto, entre teoria e prática, a distância é às vezes ampla. Tem horas em que o regime é posto à prova. Estamos numa delas.

Todo cidadão de boa vontade sabe – e até estudos sobre as tuitadas das últimas 48 horas mostram – que folgada maioria de compatriotas quer mais é ver doutor Bolsonaro pelas costas. ¡Basta ya! – Chega!, como diriam os espanhóis. Encheu os picuá, como se dizia antigamente. Toda língua e todo dialeto tem expressão pra dizer que passou da conta. Nunca o Brasil teve presidente tão minguado e governo tão ruim.

É agora que a democracia tem de mostrar os músculos. É o governo do povo, pois não? O povo, decepcionado, não quer mais o líder. A lógica ensina que basta trocar de presidente. Infelizmente, não é tão simples. Nosso sistema político-eleitoral é travado. Os iluminados que costuraram a Constituição de 1988 não calcularam que uma Dilma ou um Bolsonaro pudessem ocupar a Presidência. Não previram porta de saída. Não há meios de convocar plebiscito de recall (recolha), como em outras terras.

Os duzentos e tantos milhões de brasileiros estão de mãos amarradas. O futuro imediato do país está na dependência do veredicto de um punhado de indivíduos, nossos verdadeiros grandes eleitores . São eles: o procurador-geral da República, os senadores, os deputados federais e os ministros do STF. Ao todo, não dá mil pessoas. A saída de Bolsonaro tem necessariamente de contar com a anuência deles.

Cada um dos grandes eleitores tem interesses pessoais, nem sempre sintonizados com a vontade do eleitor comum. Pra chegar ao desfecho que a maioria de nós espera, precisa haver convergência desses interesses particulares em direção a um objetivo comum, o que é difícil.

Sozinho, o distinto leitor pode se enervar, gesticular, gritar, bater panela, xingar a mãe – nada vai acontecer. Para pressionar os figurões e dobrá-los à vontade da maioria só há um jeito. É preciso que a grita popular se concerte, se alevante, se sobreponha ao ruído de robôs e milícias digitais. É o que se fez pra mandar Dilma pra casa, só que agora o prêmio é maior: um Bolsonaro vale duas Dilmas. Por baixo.

Tuíte – 10

José Horta Manzano

A gripezinha que o capitão trouxe na bagagem de volta dos EUA já fez estragos no mundo. A contagem de mortos, atualizada em 25 abril, é a seguinte:

Bélgica:      6.700
Reino Unido: 20.000
França:      23.000
Espanha:     23.000
Itália:      26.000
EUA:         53.000

O total de casos confirmados no mundo beira os 3 milhões, sem contar ampla subnotificação. Repararam que o doutor parou de falar em gripezinha e em cloroquina? Falando nisso, onde está o resultado do teste, que o capitão ficou de mostrar e não mostrou?

Festa da cumeeira

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Idade Média, os grandes profissionais especializados eram dois: o ferreiro e o moleiro (ou moendeiro, ou moageiro). Todo vilarejo maiorzinho tinha sua forja e seu moinho. O ferreiro era aquele que, sabendo trabalhar o ferro, fornecia ferraduras, enxadas, caldeirões, pregos e todos os petrechos metálicos. O moleiro era o dono do moinho que, tocado pela força do vento ou da água corrente, permitia moer trigo e fabricar farinha.

by Jos Goemaer (séc. XVI), pintor flamengo
Faz parte do acervo do Museu da Gulodice, na Bélgica

Tirando esses profissionais maiores, praticamente todos os demais aldeães eram autossuficientes e praticavam agricultura de subsistência. No entanto, havia certos trabalhos que um homem não era capaz de executar sozinho. Construir uma casa, por exemplo. Nessas horas, precisava da ajuda de vizinhos, parentes e conhecidos. Todos punham a mão na massa. Quando a casa ficava pronta, a tradição mandava que o dono oferecesse uma festa aos que haviam ajudado. Era a forma de agradecer.

Junto a uma das paredes da casa, estava instalada a lareira encimada pela respectiva chaminé para evacuação da fumaça. O calor da lenha queimada tanto servia para aquecer a morada como para cozinhar a sopa. O caldeirão pendia da viga mestra sustentado por uma corrente de ferro. Para aumentar a fervura, baixava-se o caldeirão, aproximando-o do fogo. E vice-versa, quando era necessário fogo brando.

Telha de cumeeira

Quando a casa ficava pronta, o último apetrecho a ser instalado era justamente a corrente que sustentava o caldeirão. Era sinal de que a morada podia ser habitada. Era hora de oferecer uma refeição de festa aos que haviam dado uma mão. Em terras francesas, esse costume gerou uma expressão: «Pendre la crémaillère» ‒ pendurar a corrente.

Hoje, já não se cozinha em caldeirão de ferro pendurado na viga mestra, mas a expressão permaneceu. Quando alguém se muda de casa, organiza uma festinha para os amigos e manda convites para comparecerem à «pendaison de la crémaillère» ‒ a pendura da corrente.

Alemanha: instalação da viga mestra

Com pequenas diferenças, a inauguração de casa nova mantém a simbologia e continua sendo ocasião de festinha (ou festança) até hoje em muitos lugares do mundo. Os americanos dão às festividades o nome de «house-warming party» ‒ festa de aquecimento da casa. Vem do antigo costume de cada convidado trazer um feixe de lenha para a lareira. O aquecimento tanto servia no sentido próprio de trazer calor ao ambiente quanto no sentido simbólico de afugentar maus espíritos.

Alemães (Richtfest) e escandinavos (Inflyttningsfest) também organizam festa nessa ocasião. No Brasil, o equivalente é a Festa da Cumeeira(*). Costuma traduzir-se por churrasco dedicado aos artesãos que construíram a casa. É oferecido logo após a colocação da fieira de telhas que coroa a viga mestra.

(*) Cumeeira é o ponto mais elevado do telhado, a linha que marca a repartição entre duas águas.

Artigo publicado originalmente em 8 out° 2017.

Tuíte – 9

José Horta Manzano

Sergio Moro acaba de dar demissão ao vivo. Durante os 16 meses em que esteve à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública, engoliu cobras, lagartos, sapos e pernilongos. Foi humilhado dezenas de vezes pelo capitão. Dizia-se à boca pequena que ele estava apequenado, que se agarrava ao emprego.

De repente, caiu a gota d’água, aquela que fez transbordar o pote até aqui de mágoa. Entornou tudo, até a última gota. O ex-magistrado disse, com todas as letras, que saía porque doutor Bolsonaro não havia cumprido a palavra dada.

Pegou mal pra caramba, talquei? Que o doutor fosse homem em quem não se deve confiar, todos já sabiam. Mas ele nunca havia sido malhado dessa maneira, em praça pública, em rede nacional, por personagem tão admirado pela população.

Agora todos ficaram sabendo por que o doutor quis trocar o chefe da PF: a fim de proteger a si e aos filhos de perigosa proximidade com a Justiça, prefere dar o cargo a um amigo.

Mas a hora do acerto de contas vai chegar um dia. E esse dia pode estar mais próximo do que imagina o capitão. Quem tem rabo preso, não adianta fugir – tudo acaba aparecendo.