Simplificação
José Horta Manzano
Você sabia?
A burocracia ― maliciosamente chamada por alguns «burrocracia» ― tem mais ou menos a idade do mundo. É praga que atravanca a humanidade desde tempos bíblicos.
Todos hão de se lembrar das aulas de catecismo. Lá nos ensinavam ― quem sabe ainda ensinam ― a razão pela qual Jesus nasceu num estábulo. Era porque seus pais estavam de viagem. Segundo nos disseram, José tinha de comparecer pessoalmente em seu vilarejo de origem por motivo de recenseamento ordenado pela administração romana. Como se pode depreender, não é de hoje que essas obrigações sem sentido nos aporrinham a existência.
No Brasil, nos últimos anos do governo militar, foi até criado um Ministério da Desburocratização, cujo primeiro e mais longevo titular foi Hélio Beltrão. Como? Se adiantou? Bem, julgue você mesmo, distinto leitor.
Alguns países, talvez por terem tido a sorte de contar com dirigentes mais esclarecidos e mais persistentes, reduziram procedimentos administrativos ao mínimo rigorosamente necessário. Outros, porém, não tiveram a mesma felicidade.
O Brasil, sabemos todos, está entre os mais bem aquinhoados numa hipotética escala de empecilhos oficiais. Mas não estamos sozinhos lá no topo. A França, surpreendentemente, também sobressai nessa classificação. É impressionante o volume de papelada que se costuma exigir dos que necessitam autorização para o que for.
Ciente de que o dinheiro, o tempo e o esforço despendidos em procedimentos desse tipo são um desperdício e um atraso de vida, o atual governo central nomeou uma comissão de cidadãos de bom-senso com o objetivo específico de se debruçar sobre o problema e propor soluções.
A incumbência do comitê é de selecionar 50 gargalos. Em seguida, os sábios disporão de seis meses para esmiuçá-los e apresentar soluções. A partir daí, tudo recomeça: mais 50 casos espinhosos serão estudados. A ideia está sendo posta em prática agora, portanto, não se sabe ainda quais serão os resultados práticos.
Um dos grandes estorvos ― e não só na França ― é a lentidão das diferentes repartições. Quando uma empresa tem alguma dúvida sobre o procedimento a adotar em determinada situação, é natural que faça uma consulta ao órgão adequado. Atualmente, não há legislação sobre essa matéria. A repartição pode levar meses para responder. Pode até nem responder, o que deixa o consulente em situação delicada.
Pois uma das primeiras propostas será instituir o «princípio de resposta garantida». Protocolada a consulta, o órgão terá um prazo para responder. Caso não o faça, seu silêncio será considerado consentimento. Afinal, quem cala, consente.
Outro ponto, inimaginável em outros países, é a Declaração dos Padeiros. Sabem o que é? Explico. No ano de 1790, em plena Revolução Francesa, o governo provisório tratou de garantir o fornecimento do pão, principal alimento da população. Para ter certeza de que não faltaria, ordenou que os padeiros informassem à administração, com antecedência, os dias em que, por algum motivo, tencionavam não trabalhar.
Nos primeiros anos, isso não teve grande impacto, dado que ninguém saía de férias. Nos últimos 80 anos, o panorama mudou: agora todos tiram seu mês de folga a cada ano. Como o decreto ainda está em vigor, cada pequena padaria francesa é obrigada a avisar as autoridades municipais sobre o fechamento anual por motivo de férias.
Sabem o que a autoridade faz, uma vez que toma conhecimento das férias de cada padeiro? Nada, absolutamente nada. A declaração vai parar numa caixa de papelão e terminará seus dias no porão da prefeitura. Essa ordenança do tempo da carochinha será, sem dúvida, uma das primeiras a desaparecer.
Mas que não se assustem os que planejam uma viagem a Paris. Com Declaração dos Padeiros ou sem ela, sempre haverá uma baguette fresquinha à espera.
Frase do dia — 130
«Ao contrário do que pensam as autoridades petistas, a maioria dos brasileiros continua a gostar muito de futebol. Eles só não gostam de ser tapeados.»
Editorial do Estadão, 21 abril 2014.
Olhar de ver
Dad Squarisi (*)
Estive com García Márquez três vezes. A convite da Fundação Nuevo Periodismo, participei de oficinas em Cartagena sobre jornalismo para a paz. A Colômbia vivia em guerra, com sequestros que mantinham a população refém do medo. Ele, dono da casa, dava boas-vindas e conversava com o pequeno grupo. Vestia-se de branco da cabeça aos pés. Nem a pulseira do relógio fugia à regra.
O olhar do escritor foi o que mais me encantou. Ao conversar com alguém, ele lhe dedicava atenção plena. Os olhos, em nenhum momento, se desviavam em passeios vadios que expulsam o interlocutor. Nas sessões de autógrafo, sem ligar pro tamanho da fila, negava-se a redigir dedicatórias genéricas.
Indagava quem era a pessoa, o que fazia, do que gostava. Depois, mandava recado particular. O presidente do jornal recebeu o aposto “o homem que manda”. O diretor de finanças, “o dono do dinheiro”. O repórter, “o que corre atrás”. Esperei pacientemente a minha vez. Não me perguntou quem eu era. Havíamos conversado durante o curso.
Mas me mirou longamente. Baixou a cabeça, esboçou um desenho e escreveu “Uma flor para Dad”. Colega equatoriana que estava a meu lado se dirigiu a ele com voz invejosa. “Eu também quero”, gemeu suplicante. Ele largou a caneta sobre o livro, observou a moça com firmeza e surpreendeu: “A Olga, que quer uma flor, eu dou duas”. E deu.
(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura.
Foi sem querer
Sigismeno tem acompanhado com grande atenção a tragicomédia que envolve a Petrobras e sua refinaria de Pasadena. É verdade que certos detalhes lhe escapam à compreensão ― por exemplo, já me dei conta de que ele não entendeu exatamente o significado da expressão inglesa “put option”.
Ontem de tarde, em pleno domingo de Páscoa, lá veio ele com mais uma de suas filosofias. Mal chegou, foi logo argumentando:
― Não entendo por que é que essa gente, em vez de se perder em considerandos, não vai direto aos finalmentes.
― Como é que é, Sigismeno? Essa gente quem?
― Estou falando da Petrobras. Essa história de dona Dilma ter assinado sem ler.
― Ah, entendi. Você fala da compra daquela refinaria americana. Bom, antes de mais nada, convenhamos, o fato de uma companhia brasileira ter comprado empresa americana é motivo de orgulho, né não? Coisa impensável trinta ou quarenta anos atrás.
― Olhe, em matéria de orgulho, preferia ficar sabendo que o Brasil subiu na classificação Pisa.
― Ok, ok, Sigismeno. Melhor virar a página, que não vale a pena discutir por tão pouco. De que considerandos você estava falando?

Petrobras 2006: os mandachuvas Lula, Dilma, Gabrielli e o diretor atualmente encarcerado.
Foto Ed.Ferreira/Estadão
― Pois veja só. Mais de um bilhão de dólares ― do nosso dinheiro! ― foram atirados pela janela, não foram?
― É o que dizem. Justamente, uma Comissão Parlamentar de Inquérito está sendo montada para averiguar. Cabe a ela estabelecer a verdade.
― Pois é com isso que não concordo ― atalhou Sigismeno.
― Não quer que a verdade seja apurada, Sigismeno?
― Não é isso. Não acredito que CPI resolva. Função de parlamentar não é investigar, é legislar. Além do que, o Congresso é constituído de facções, confrarias, grupos de interesse. Cada um puxa a brasa pra sua sardinha. Uns fazem força pra acelerar, enquanto outros tentam bloquear. Não é o lugar adequado, não é tribunal.
― E qual seria a solução? Não vá me dizer que tem de chamar a polícia.
― A polícia? Não, não é o caso. Quem tem de agir é a Justiça.
― A Justiça? Mas por quê?
― Porque há forte suspeita de crime, ora. Enquanto o País inteiro está entretido a cogitar se o relatório que dona Dilma diz ter recebido era ou não omisso, estamos passando ao largo do que é realmente importante.
― E, segundo você, o que é importante, Sigismeno?
― Ora, meu caro, vejo que até você está-se deixando engabelar. Você está seguindo o rebanho sem parar pra pensar.
― Agradeço pelas gentis palavras, Sigismeno. Continuo sem saber o que é importante.
― Explico. Imaginemos que você esteja procurando comprar um carro usado. Digamos que o valor de mercado da marca e do modelo que você quer seja por volta de 25 mil reais.
― Você anda lendo meus pensamentos. Estou justamente atrás de uma boa ocasião.
― Não é disso que estamos falando agora. Se você continuar me interrompendo, não vamos chegar ao final.
― Tá bom, não fique chateado. Continue com a história do carro usado.
― Pois é, digamos que você encontra um veículo dentro dos parâmetros que você tinha fixado: marca, modelo, ano de fabricação, quilometragem, cor da carroceria, número de portas. Só que, em vez de 25 mil, estão pedindo 250 mil reais. Você faz o cheque?
― Peraí, posso ser bonzinho, mas não sou completamente tapado. É claro que não vou pagar preço de carro de luxo por um calhambeque!
― Pois é aí que eu queria chegar. Qualquer espírito medianamente informado entende que, quando os dirigentes da Petrobras aprovaram a compra de uma refinaria por valor dez vezes superior ao de mercado, alguma coisa muitíssimo estranha estava acontecendo. A tal cláusula que obrigava a petroleira brasileira a dobrar o investimento é secundária.
― Secundária? Não estou de acordo, Sigismeno. É justamente aí que está o nó. É exatamente nesse ponto que entra em cena a então presidente do conselho de administração da empresa ― nossa atual presidente da República.
― Cáspite! Você está tão contaminado pela propaganda oficial que não consegue mais enxergar com seus olhos! Pense um pouco. O caso do relatório «falho», se é que relatório existiu, passa por cima do principal. Com ou sem relatório, o preço da transação era conhecido por todos. Dona Dilma pode não ter ideia do valor de uma refinaria, mas a empresa cujo conselho de administração ela presidia certamente ainda contava com gente capaz de avaliar. Por que é que não o fizeram?
― Pois eu sei. Foi tudo de caso pensado. Não é possível acreditar que jogaram fora nosso dinheiro por terem sucumbido ao encanto dos olhos do antigo proprietário da refinaria. É muito dinheiro. Nalgum lugar foi parar.
― É difícil acreditar.
― Era. Era difícil. O inimaginável tem virado rotina no Brasil de hoje.
― Não deixa de ter razão, Sigismeno. Mas por que não deixar que a CPI faça seu trabalho?
― Porque não vai dar em nada, já lhe disse. Alguma entidade de peso ― OAB, partido político, grupo de congressistas ― teria de apresentar denúncia diretamente à Justiça. Em terras mais civilizadas, isso já teria sido feito. Quem desvia um bilhão de dólares de um povo carente de cuidados básicos não pode safar-se com um «desculpe, foi sem querer».
Região perigosa
José Horta Manzano
Notícia boa custa a circular mas notícia ruim vem a cavalo, como se dizia cem anos atrás. Os distúrbios que têm sacudido a real cidade de São Salvador da Bahia já são destaque em jornais, rádios e tevês europeias.
Ainda mais preocupados ficam todos ao se darem conta de que Salvador sediará alguns jogos da «Copa das copas». De fato, têm razão, que é caso pra grande desassossego.
No tópico Brasil de sua página dedicada a orientar cidadãos franceses de partida para viagens internacionais, o Ministère des Affaires Etrangères (Ministério francês das Relações Exteriores) lançou um alerta. Traduzo.

E nossos ingênuos dirigentes, hein?
Acreditavam que bastaria estalar os dedos para que o Brasil se transformasse em potência mundial, em exemplo de civilização! Julgaram que construir estádios monumentais seria suficiente para sairmos bem na foto. Tentaram levantar uma casa sem alicerces.
Parece que a casa está caindo. Socorro, meu rei!
Frase do dia — 129
«O presidente Barack Obama, numa economia quase oito vezes maior que a do Brasil, tem apenas 200 cargos comissionados. A presidente Dilma tem 22 mil!»
Ives Gandra da Silva Martins, advogado e professor emérito de numerosas universidades, em sua coluna do Estadão de 19 abril 2014.
A Páscoa e os ovos
O chefe presenteou os subordinados com ovos de Páscoa. Feita a compra, pediu à secretária que pagasse a despesa. Eis o diálogo:
— Faça um cheque de 600 reais.
— Como se escreve seiscentos?
— Faça dois cheques de 300.
— Trezentos se escreve com s ou z?
— Não sabe escrever 300? Faça quatro cheques de 150.
— Chefe, o trema foi abolido?
— Pelo amor de Deus, mande pagar em dinheiro.
Surrupiado do blogue da Dad Squarisi.
La culotte
A culotte, peça do vestuário masculino já varrida pelo tempo, era uma espécie de calça curta de tecido de valor, um calção que descia até o joelho. Daí pra baixo, a vestimenta era completada por meias.
Até a Revolução Francesa e a queda das monarquias absolutistas que veio em seguida, a culotte era apanágio de gente do andar de cima ― nobres, militares e amigos do rei. Os homens do povão se vestiam com calção inteiriço, largão, de pano grosseiro, verdadeiro ancestral do pijama atual. Eram os sans-culotte, os sem-culotte.
A culotte saiu de moda, mas o termo permaneceu e foi, digamos assim, reciclado. Hoje é usado para designar roupa íntima feminina. Pode também servir para dar nome a calças bufantes ― daquelas que os gaúchos chamariam de bombachas. Usa-se ainda essa palavra para nomear calça de montar a cavalo, calção de golfe.
Numerosas expressões familiares ou irônicas fazem uso da palavra. «Porter la culotte» ― usar culotte ― se diz de mulher que manda no marido. Em linguagem futebolística, se costuma dizer, de um jogador que sofre marcação cerrada, que ele está sendo «marqué à la culotte» ― marcado na culotte.
Sob o título «Neymar, marqué à la culotte», o site Courrier International (do grupo parisiense Le Monde), comentou a última façanha do jogador Neymar. Explicou a seus leitores que o futebolista, em pleno jogo, tinha arregaçado várias vezes seu calção para fazer propaganda de uma determinada marca de cuecas. O título do artigo é frase de duplo sentido, arte na qual os franceses são afiados.
Para que conste, informo que a palavra culotte é derivada de cul, a extremidade inferior do tubo digestivo.
Surpreso? Ora, distinto leitor, que não seja por isso. Mesmo sem nos dar conta, também nós usamos frequentemente derivados semelhantes. Senão vejamos: cueca, cueiro, culatra, acuar, recuar. Todas elas fazem alusão ao referido orifício.
Afanador de galinhas
Sylo Costa (*)
Cícero, na primeira Catilinária contra a corrupção de seus contemporâneos, exclamou: ó, tempora, ó, mores! O mesmo podemos dizer do nosso Brasil de hoje: gente pobre, se comete um deslize furtando uma galinha ou um galo, é para comer, nunca para formar aviário. Já alguns sem-vergonha e ladrões roubam é Petrobras. Outros, remediados e ricos, políticos e velhacos, afanam tudo, principalmente dinheiro público, fazendo fortunas. Ó, tempos, ó, costumes!
Imagine esta situação, caro leitor: Afanásio Maximiniano Guimarães afanou um galo e uma galinha do galinheiro de Raimundo das Graças Miranda. A Defensoria Pública requereu ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais a extinção do processo, uma vez que o acusado devolvera os animais (presumo que o dito cujo tenha sido condenado na 1ª instância).
Se o perigoso assaltante de galinhas tivesse tido tempo para devorar os bichos, certamente que a defesa apelaria para o chamado furto famélico, situação em que se subtrai algo para comer e não morrer de fome.
Ou não, porque os políticos de Brasília e aqueles que comem quietos, como mensaleiros e fanáticos interessados na Petrobras e outras fontes luminosas como Copa e Olimpíadas, já desmoralizaram esse tipo de crime e, provavelmente, já pensaram em todas as maneiras de como sair incólume dessas aventuras, depois das ditas efemérides.
Mas, voltando ao tema do furto de galinhas, presumo eu que existiu outro pedido da defesa, em caráter liminar, quanto à aplicação do princípio da insignificância, e o assunto foi parar no Supremo.
O ministro relator, Luiz Fux, ao analisar o caso, decidiu aguardar o julgamento do mérito do pedido para depois decidir a questão em definitivo. É…, um país cujos principais juízes se preocupam na mais alta Corte com galos e galinhas e não conhecem de Renans e Roses, escondidos que vivem debaixo dos caracóis dos seus cabelos e perucas, não podem ter mesmo tempo para mandar prender ladrões de casaca que abundam e que agem abertamente para desmoralizar nossas instituições e quebrar, no sentido de arrebentar, nosso país.
Não sei quem foi o iluminado que um dia descobriu o termo “hediondo” e, achando-o bonito, resolveu enquadrar tudo quanto é desgraça nesse título para substituir nosso Código Penal, fazendo até furto de galinha ser crime hediondo. Ladrão de galinhas não pode ser o mesmo que ladrão de Petrobras.
A lei não pode ser oito ou 80. Quer dizer que eu, que sou apenas um cidadão comum, se furtar uma galinha para comer serei julgado por crime hediondo e terei julgamento igual a esses ladrões sócios de doleiros? Furto é uma coisa, roubo é outra.
Ó, quer saber? Eu e muita gente só vamos esperar a primeira parada desse trem brasileiro. Ainda que não tenha chegado a lugar algum, quero descer e só subirei de volta quando desratizarem o ambiente pátrio.
(*) Sylo Costa é colunista do jornal O Tempo, de Belo Horizonte.
Máximas do Barão ― 12
«A esperança é o pão sem manteiga dos desgraçados.»
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho
Parlez-vous portugais?
José Horta Manzano
Você sabia?
Em 1903, a indústria francesa respondeu pela metade da produção mundial de automóveis. Naquele mesmo ano, os EUA produziram 18% do total mundial. Os britânicos foram responsáveis por 15%, e os alemães, por 11%. A Itália e a Bélgica fechavam a fila. E era só. Ninguém mais construía automóvel naquele tempo.
Em 1914, havia 155 fabricantes de automóvel na França. O tempo se encarregou de eliminar excedentes, cortar sobras, limar beiradas. Atualmente ― exceptuado algum montador artesanal ― sobraram apenas dois grandes grupos: Peugeot e Renault.
Longe da antiga glória, a Peugeot ocupou um modesto 10° lugar na classificação global 2013 das montadoras, pelo critério de volume de vendas. A Renault, então, nem aparece na lista das dez mais. Assim mesmo, são dois grandes grupos industriais.
As duas empresas apresentam uma curiosa particularidade: têm ambas um presidente estrangeiro. Ambos se chamam Carlos e nasceram fora do território nacional.
O Grupo Renault é presidido por Carlos Ghosn. Neto de libaneses, nasceu em 1954 em Guajará-Mirim, no então Território do Guaporé ― hoje Rondônia. Quando o senhor Ghosn era ainda menino, sua família se transferiu a Beirute, onde ele foi escolarizado num liceu jesuíta. Ele detém três nacionalidades: a brasileira (pela lei do solo), a libanesa (pela lei do sangue) e a francesa (por naturalização).
O Grupo Peugeot tem como presidente o senhor Carlos Tavares, nascido em Lisboa em 1958. Seu pai trabalhava para uma firma francesa e sua mãe ensinava a língua de Molière. O menino cursou o Liceu Francês de Lisboa. Optou por não se naturalizar. Conserva sua nacionalidade portuguesa.
Em resumo, por um capricho do destino, cada um dos dois grupos automobilísticos franceses é comandado por um lusófono.
Frase do dia — 128
«O Brasil é oficialmente governado pela presidente Dilma Rousseff e sua capital é Brasília, mas as decisões mais importantes da diplomacia comercial brasileira vêm sendo tomadas na Casa Rosada, em Buenos Aires, capital da República Argentina.»
Editorial do Estadão, 17 abril 2014.
Em fila
Rapidinha 25
José Horta Manzano
Serviço pós-venda
O Estadão nos informa que, em livro que acaba de sair do prelo, um jornalista britânico lança suspeita sobre a lisura da escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. A acusação é de que membros do Comitê Internacional Olímpico tenham sido subornados. Em resumo: os Jogos foram comprados.
Fica no ar uma pergunta: pode devolver?
Para transações de compra concluídas, todo código de consumidores costuma estipular prazo de carência durante o qual o comprador tem direito a devolver a mercadoria que não lhe agradou ou que não serviu.
Cada dia fica mais claro que esses Jogos não são remédio, antes, agravam o mal do paciente. Portanto, nada mais justo que registrar reclamação junto ao Serviço Pós-Venda do Comitê Olímpico, mandar os Jogos de volta e pedir reembolso. Ou não?
Democracia direta
José Horta Manzano
Mês que vem, os cidadãos suíços serão chamados a se pronunciar sobre quatro matérias de âmbito nacional. Como de costume, cada cantão vai aproveitar a ocasião para incluir alguma consulta regional.
Dentre os assuntos federais, três são particularmente interessantes.
Pedofilia
Ainda que pareça desconcertante, indivíduos condenados por atos pedófilos ― e que já tenham cumprido a respectiva pena ― estão liberados para voltar a exercer atividade profissional em contacto com menores.
Uma iniciativa popular recolheu o número de assinaturas suficiente para que seja organizado um plebiscito sobre o assunto. A petição exige que tais indivíduos sejam proibidos de trabalhar junto a menores de idade. O parlamento não deu nenhuma recomendação de voto. O povo decidirá.
Salário mínimo
Diferentemente de muitos outros países, a Suíça nunca estabeleceu um salário mínimo nacional. Alguns sindicatos mais poderosos já conseguiram, por meio de acordos setoriais, instituir uma paga mínima para seus afiliados. No entanto, grande parte dos assalariados continua sem garantia salarial.
O plebiscito convocado para 18 de maio solicita à população que se pronuncie sobre a instituição de um salário mínimo de 22 francos por hora, equivalente a 58 reais. Por grande maioria, o parlamento rejeitou essa proposta. O voto popular dará a palavra final.
Aviões de combate
Faz anos que 54 aviões Tiger F5 obsoletos da Força Aérea Helvética adquiriram direito à aposentadoria por tempo de serviço. Depois de profundos estudos técnicos e longas negociações, a Aeronáutica decidiu substituí-los por 22 modernos caças Gripen. O distinto leitor já deve ter ouvido falar dessa joia da indústria sueca, não é mesmo?
É. Mas acontece que, na Suíça, decisão de tamanha importância não costuma ser sacramentada por uma simples canetada palaciana. Uma petição exigindo referendo popular contra a decisão de compra foi lançada e alcançou o número de assinaturas regulamentar.
No dia 18 de maio à noite, computado o último voto, saberemos se o povo terá dado seu acordo ao desembolso de 3 bilhões de francos (8 bilhões de reais).
Parece salgado demais para ser aceito. Quem viver, verá.
Clique aqui quem quiser consultar a convocação oficial do governo suíço
Linha quebrada
José Horta Manzano
O alvorecer do século XX conheceu espetacular movimento estético. Todo feito de curvas lânguidas e voluptuosas, o Art Nouveau tomou conta do ambiente artístico. Pintura, arquitetura, grafismo sucumbiram ao charme da nova tendência.
A quase ausência de ângulos concedia liberdade ilimitada à criação e trazia um não sei quê de fim de época, como se se estivessem queimando os últimos cartuchos antes do fim da festa. De fato, a festa acabou. A carnificina da Grande Guerra (1914-1918) deu conta de aniquilar todas as ilusões.
Nos anos 20 e 30, surgiu nova tendência artística. Era o Art Déco, a arte decorativa. As curvas sensuais foram banidas. Ângulos ríspidos e círculos bem organizados tomaram conta. O novo movimento ― ordenado, rigoroso, controlado, vigiado, canalizado ― combinava com os novos tempos.
O Art Déco cresceu ao mesmo tempo que regimes fascistas e nazistas, de forte tendência autoritária. A hecatombe da Segunda Guerra (1939-1945) se encarregou de enterrar tanto os regimes quanto, de quebra, o movimento artístico.
Já faz décadas, desde que a circulação de veículos automóveis se acentuou, que brotou a ideia de dar diretivas ao motorista por meio de inscrições no solo. A simbologia, feita de linhas e de inscrições, é conhecida por todos. Alterações do fluxo têm sido tradicionalmente indicadas por linhas curvas, tanto para alargamento, quanto para afunilamento. A linha curva tem efeito colateral não desprezível: incita à fluidez e à harmonia.
O que vou dizer agora pode parecer brincadeira, mas asseguro-lhes que é verdade. As autoridades que coordenam o tráfego da cidade de São Paulo acabam de substituir a curva por um zigue-zague. Parece um primeiro de abril atrasado.
Duas reflexões me ocorrem. A primeira diz respeito ao comportamento dos motoristas no tráfego do Brasil em geral e de São Paulo em particular. Linha angulosa combina com a rispidez e a selvageria que caracterizam os usuários. Comportamentos bicudos são atiçados pelas linhas angulosas. Está criado um círculo vicioso em que a agressividade se autoalimenta.
A segunda reflexão é sobre o momento que nosso País atravessa. Tentações autoritárias, vindas todas do andar de cima, mostram suas garras e ameaçam os cidadãos que somos. Regulação de internet, controle de mídia, censura à imprensa são farinha do mesmo saco. Tendem todas a incrementar a dominação dos que estão por cima.
Vamos torcer para que as linhas quebradas do solo paulistano não sejam prenúncio de quebras maiores. De liberdade, por exemplo.
E como é que fica?
José Horta Manzano
Estava lendo, agora há pouco, os resultados de pesquisa feita pelo Instituto Datafolha para aferir o índice de confiança dos brasileiros.
Para transpor felicidade em números, os técnicos questionam os entrevistados sobre sete pontos. Dois deles são vagos, como o orgulho de ser brasileiro. Os demais têm que ver com o bolso de cada um.
Uma rápida análise mostra que as questões se limitam a sondar as expectativas de cada um. Nenhuma pergunta é feita sobre a atitude que o entrevistado tenciona assumir para mudar esse estado de coisas. É dado de barato que o cidadão, por definição, é um ser passivo que se limitará a aprovar ou rejeitar uma situação.
Seria interessante incluir, numa próxima edição, perguntas sobre a ação que o entrevistado pretende empreender para ajudar a corrigir o que lhe parece fora do lugar.
Ninguém é obrigado a agir, mas, para quem se decidisse a arregaçar as mangas, abrem-se vários caminhos: manifestação de rua, escolha mais ajuizada de representantes do povo, quebra-quebra, doutrinamento de vizinhos e amigos, criação de movimento político, decisão de matricular-se num curso qualquer. Vale até pensar em abandonar o País.
É interessante ficar sabendo a quantas anda o humor do povo. Melhor ainda será conhecer a solução preconizada por cada um.
A aceitação da apatia geral vai acabar transformando o índice de confiança em índice de descrédito.
A pesquisa
O resultado da pesquisa está aqui.
A carvão
A rainhazinha
José Horta Manzano
Você sabia?
O pouco caso que se faz da bicicleta no Brasil contrasta com o prestígio de que ela goza em outras partes do mundo. Na Europa em particular. Na França, por sinal, tem o apelido de «petite reine» ― a rainhazinha.
Os primeiros veículos de transporte pessoal apoiados sobre duas rodas já existiam desde princípios do século XIX. No entanto, não eram dotados de pedal, o que tornava seu uso problemático na subida.
Nos anos 1860, o estabelecimento parisiense Maison Michaux lançou a bicicleta com pedais, novidade absoluta para a época. A partir de então, o veículo se popularizou. Numa época sem automóveis, poder triplicar ou quadruplicar a velocidade de deslocamento era uma revolução!
A Europa do Norte conheceu, em poucos anos, uma revoada de magrelinhas. A novidade teve especial sucesso em regiões de planície ― é fácil entender por quê. Norte da França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, norte da Alemanha, norte da Itália são bons exemplos.
Com a popularização, o novo veículo foi objeto de melhoramentos constantes. Foi-se tornando mais confiável, mais seguro, mais resistente, mais veloz. Quem fala em velocidade, pensa em competição. Foi exatamente o que aconteceu.
Na virada do século XIX para o século XX, surgiram grandes concursos nacionais de corrida por etapas. Cada país fez questão de ter o seu. O Tour de France (1903), o Giro d’Italia (1909), a Vuelta a España (1935), competições prestigiosas, têm sido disputadas sem interrupção até hoje. Só foram suspensas durante períodos de guerra.
Além dos incontornáveis concursos nacionais, que duram de uns poucos dias a três semanas, há inúmeras corridas regionais ou locais, com duração de algumas horas. Uma das mais antigas é a Paris-Roubaix, que se realiza a cada ano, sempre no mês de abril. A edição 2014 tem lugar neste 13 de abril.
Como seu nome indica, o percurso original levava da capital a Roubaix, no extremo norte, fronteira com a Bélgica. Já faz quase 50 anos que, apesar do nome, a partida é dada em Compiègne, a uns 70km da capital. Essa corrida é cognominada Inferno do Norte.
A razão de qualificativo tão drástico é o fato de uma parte do percurso se efetuar em estrada revestida de paralelepípedos. Sem ser ciclista, cada um pode imaginar o que isso representa de sacolejo, escorregão e pneu furado.
Ciclistas belgas constituem a vasta maioria dos campeões do passado. De cada duas edições, nos últimos 50 anos, uma foi vencida por um corredor belga. Vamos ver quem será o primeiro a cumprir os 257km hoje.
Uma curiosidade dessa corrida é o troféu. O vencedor tem direito a… um paralelepípedo! Limpinho, lavado, escovado, montado sobre uma base, é verdade, mas sempre paralelepípedo será. O mais difícil é, depois de horas de suadeira, ainda encontrar força para fazer o tradicional gesto de levantar os 15-20kg do troféu e exibi-lo à multidão.
Até hoje, a História não registra nenhum vexame.
Informação complementar:
Um ciclista holandês venceu a Paris-Roubaix 2014. E não deixou cair o paralelepípedo.




















