«(…) A atual conjuntura sugere que o Brasil está se tornando uma Argentina, a Argentina está virando uma Venezuela, e a Venezuela já é quase um Zimbábue.»
Editorial do Estadão de 17 jan° 2014.
Coisas e fatos da Europa e do mundo
«(…) A atual conjuntura sugere que o Brasil está se tornando uma Argentina, a Argentina está virando uma Venezuela, e a Venezuela já é quase um Zimbábue.»
Editorial do Estadão de 17 jan° 2014.
José Horta Manzano
Nicolas Sarkozy, antigo presidente da França, é um ser frenético, dono de personalidade hiperativa. Esse traço de caráter marcou sua presidência. Estava por toda parte, falava pelos cotovelos, ocupava a cena, ofuscava seus ministros. Divorciou-se, casou-se de novo e foi pai ― tudo isso durante seu mandato de 5 anos.
Chegado o momento de escolher novo presidente, Sarkozy naturalmente candidatou-se à reeleição. Seu adversário-mor, na intenção de marcar terreno e enfatizar a diferença entre seu estilo e o bulício da presidência que findava, proclamou aos quatro ventos que, se eleito, seria um presidente normal.
Foram os dois para o segundo turno. Por uma margem de votos que, sem ser apertada, tampouco foi ampla, Sarkozy foi dispensado de suas funções e François Hollande tomou seu lugar.
Diferentemente do Brasil, os candidatos franceses, uma vez empossados, costumam ser cobrados pelos eleitores por suas promessas de campanha. Mas ninguém sabia direito o que seria uma presidência normal ― talvez até nem o próprio Hollande soubesse bem como tornar o slogan realidade.
Instalado no palácio presidencial há já quase dois anos, Monsieur Hollande bem que tem tentado mostrar-se menos falante, menos frenético, mas… não tem jeito. Anda amargando os níveis de popularidade mais baixos já experimentados por um presidente desde que esse parâmetro começou a ser medido. O desditoso está abaixo de Chirac, de Mitterrand e até do próprio Sarkozy, o hiperativo.
Semana passada, Closer, uma revista sensacionalista francesa, publicou uma reportagem bomba revelando a ligação amorosa do presidente com uma atriz quase 20 anos mais jovem que ele. Escândalo no país! Durante dias, não se falou de outro assunto. Jornais impressos, radiofônicos e televisivos abriam invariavelmente com as mais recentes informações, opiniões e palpites sobre o caso.
Segundo Closer, o modo de proceder foi relativamente simples. A presidência da República mantém alguns apartamentos mobiliados, situados em imóveis discretos, onde costuma alojar visitantes temporários, gente cuja presença em Paris não deve ser tornada pública. O presidente tem autoridade para requisitar, quando lhe apraz, algum desses apartamentos para seu uso pessoal ― para encontrar-se discretamente com algum figurão, por exemplo.
Os repórteres da revista, não se sabe como, foram informados de que os encontros do presidente com a atriz ocorriam num desses apartamentos, a tal dia, a tal hora. A partir daí, foi fácil. Postaram seus fotógrafos na saída do palácio presidencial e na entrada do edifício que abriga a garçonnière.
Não deu outra: o presidente saiu de seu palácio, coberto por um capacete, na garupa de um scooter ― aquele meio de transporte que os antigos conheciam como lambreta ou motoneta. Dirigiu-se ao local onde já o esperava outro fotógrafo. As cenas foram registradas, mas o presidente nem se deu conta do que estava acontecendo.
A revista não perdeu a ocasião. Publicou a revelação em edição extra. A tiragem, que costuma ser de 150 mil exemplares, foi quadruplicada. Assim mesmo, esgotou-se em poucas horas. Atualmente, tem gente vendendo um exemplar (usado) daquele número pela elevada soma de 15 euros (perto de 50 reais).
É bem sabido que a desgraça de uns sempre acaba fazendo a felicidade de outros. Sixt, uma locadora de automóveis, saltou sobre a ocasião. Acaba de lançar uma divertida peça publicitária com os dizeres: «Senhor presidente, da próxima vez, evite o scooter. Sixt aluga carros com vidros fumês».
O povo francês está começando a descobrir um dos traços que caracterizam um presidente normal. É pular a cerca de vez em quando, como fazem tantos maridos.
PS: No dia seguinte ao da publicação, a companheira fixa do presidente ― aquela que é considerada a primeira-dama ― foi internada com graves problemas de saúde. Não se sabe bem que mal a acomete, mas o fato é que, passados mais de 10 dias, continua hospitalizada. Pode ser coincidência. Ou não.
José Horta Manzano
Você sabia?
O chinês
Entre 1850 e os primeiros anos do século passado, a China viveu tempos confusos. A extensão do território e a precariedade dos meios de comunicação dificultavam o controle e a imposição da autoridade central.
O Japão e as potências europeias aproveitaram a desordem para tirar uma casquinha aqui e ali. Ao cabo da primeira guerra sino-japonesa, ganha pelo País do Sol Levante, a China teve de entregar Taiwan e outros arquipélagos que interessavam ao vencedor. Os ingleses obtiveram uma concessão de soberania por 99 anos sobre um naco de terra adjacente a Hong Kong.
A Rússia, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro também se aproveitaram daqueles tempos para fazer valer seus interesses políticos e comerciais. Em 1911-1912, com o fim do regime imperial, foi proclamada a república. Mas muita água ainda teve de passar sob as pontes do Rio Yangtzé antes que o país se estabilizasse.
Em 1909, no ocaso do regime imperial chinês, o Brasil recebeu uma comitiva vinda do país oriental. Era encabeçada pelo príncipe Liu She-Shun, representante de Sua Majestade. O intuito da visita era duplo: buscava firmar acordos comerciais e ― principalmente ― tentava convencer o governo dos Estados Unidos do Brazil a aceitar imigração de mão de obra chinesa.
O senhor Liu, recebido com todas as honras devidas a tão ilustre visitante, esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta última cidade, deu uma passada pelos cartões postais de então, incluindo uma inevitável visita à Escola Normal ― orgulho do nascente magistério republicano. Foi saudado em francês, como se usava na época. E em francês respondeu.
Um ano antes da visita do príncipe, a primeira leva de imigrantes japoneses já havia aportado a Santos. Pode ter sido porque os japoneses estavam sendo bem avaliados por seus empregadores, pode também ter sido porque a instabilidade da China atrapalhava ― o fato é que o pleito do embaixador chinês gorou. Não se estabeleceu uma corrente contínua de imigração de chineses para o Brasil.
Os mapas
Era grande a cobiça que a China, desorganizada, despertava em potências estrangeiras. Os chineses se ressentiam da situação. Um exemplo é o mapa abaixo, onde países são representados por animais indesejados, cada qual carregando seu estandarte.
As bandeiras são um tanto fantasiosas, assim mesmo dá para distinguir a Itália, Suíça, a Suécia, a Hungria. A águia americana aparece também.
Naqueles tempos, a península indochinesa ― aquela tripa de continente onde hoje estão o Vietnã, o Cambodja, o Laos ― era colônia francesa. No mapa, a França aparece simbolizada por uma rã assentada sobre a Indochina e prestes a agarrar a China. Por que uma rã? Porque os franceses são chamados frogs (=sapo) pelos ingleses. O apelido pejorativo vem do fato de os gauleses terem o surpreendente hábito de comer pernas arrancadas de rãs vivas. Para quem não está habituado, it’s really shocking, é chocante.
Para completar o capítulo geográfico, uma curiosidade. Cada um de nós sente que é o centro do universo. É natural, it’s human nature. Pois o mesmo ocorre com nações e países. Quando desenhamos um mapa-múndi, pomos o nosso país no centro e o resto em volta. Estamos acostumados a ver as Américas à esquerda, a Europa à direita e o Oceano Atlântico no meio. A China e o Japão quase caem do mapa.
Os chineses sofrem do mesmo mal. Sentem, eles também, que são o centro do mundo. Você já viu um planisfério chinês? Veja então a imagem abaixo. A China é localizada no meio do mapa. A Europa fica na extrema esquerda e as Américas se situam na extrema direita, com o Brasil quase caindo do mapa.
Cada um vê o mundo com seus óculos.
José Horta Manzano
A comunicação verbal é um dos traços distintivos entre o homem e o resto dos animais. Essa relação passa por um conjunto de códigos ― em princípio conhecido por todos os participantes.
Damos a essa coleção de símbolos o nome de língua. Dialeto, pidgin, crioulo, patoá, gíria, jargão são variantes do mesmo tema. Para que a informação passe, é imprescindível que os integrantes do grupo conheçam os códigos. Se assim não for, o recado não chega aonde deveria chegar, o que pode causar a maior confusão.
Como toda obra humana, a difusão das chaves da comunicação não é uniforme. Por mais homogêneo que seja o grupo, nem todos os seus componentes conhecerão todo o elenco de palavras disponíveis.
A reportagem de J. M. Tomazela, do Estadão, relata um fato constrangedor, daqueles que escancaram o resultado do processo de infantilização ao qual nosso povo vem sendo submetido.
O artigo relata a péssima ideia ocorrida a um jovem adulto brasileiro, que atualmente toma aulas de publicidade nos EUA. Sabe-se lá por que razão, o moço descabeçado decidiu cutucar a área de segurança americana. O mundo inteiro sabe que, por aquelas bandas, esse é assunto altamente sensível. Bulir com segurança nacional é pior que xingar a mãe do guarda.
Acreditando-se inatingível, o jovem enviou mensagens eletrônicas nas quais anunciava a presença de bomba num determinado voo, programado para dali a alguns dias. Para coroar o desvario, o moço tentou embarcar justamente no voo que havia apontado em suas denúncias. De criança, não deve ter aprendido que brincadeira tem hora, lugar e, principalmente, limite.
Desde os atentados de 2001, os serviços de segurança americanos não brincam em serviço. Pelo contrário, chegam a exagerar na prevenção. O irresponsável foi rapidamente identificado. Os policiais não se deram nem ao trabalho de colhê-lo em casa. Esperaram no aeroporto. Quando lá chegou, o engraçadinho, naturalmente, não embarcou. Foi direto para o xilindró, onde periga passar uma boa temporada. Naquele país, habeas corpus e embargos infringentes não são corriqueiros.
A família do estudante declarou que o jovem adulto agiu sem má-fé. Como é que é? Sem má-fé? Uma consulta ao dicionário se impõe. Está lá no Houaiss:
«Má-fé
1 Disposição de espírito que inspira e alimenta ação maldosa, conscientemente praticada; deslealdade, fraude, perfídia
2 Termo usado para caracterizar o que é feito contra a lei, sem justa causa, sem fundamento legal e com plena consciência disso».
É exatamente o que fez o tresloucado jovem: movimentou todo um dispositivo de segurança, atrasou um voo comercial, atazanou a vida de centenas de passageiros, sacudiu a logística de uma companhia aérea, fez estrilar alarme vermelho em agências de segurança. Agiu de forma deliberada e consciente. Se isso não for má-fé, o que será?
Para efeito de comparação, vejamos o que nos ensina o mesmo Houaiss no verbete boa-fé:
«Boa-fé
1 Retidão ou pureza de intenções; sinceridade
2 Convicção de agir ou portar-se com justiça e lealdade com relação a alguém, a determinados princípios
3 Respeito ou fidelidade às exigências da honestidade ou do que é considerado direito; lisura»
Agora ficou claro. O ato praticado foi de má-fé, sim, senhor. Aqueles que, preocupados em defender o jovem, disserem o contrário estarão deturpando a expressão.
Esperemos que estejam usando o substantivo errado por simples ignorância e não por… má-fé.
Sigismeno leu matéria do Estadão deste domingo e ficou sabendo que a Fifa, numa decisão um tanto fora dos padrões, decidiu conceder uma Bola de Ouro a Pelé ― uma espécie de bola honoris causa.
O mundo inteiro, Sigismeno incluído, sabe que Edson Arantes do Nascimento foi um grande jogador de futebol. Autor de mil e tantos gols, participou de quatro Copas do Mundo ― em três das quais a seleção do Brasil foi campeã.
Um pouco simploriamente, como de costume, Sigismeno veio com suas cogitações filosóficas. Disse que a Fifa não costuma dar ponto sem nó. Até aí, tive de concordar. Disse também que andou espiando no gúgol e ficou sabendo que Pelé jogou sua última partida como profissional mais de 35 anos atrás e que, desde então, pendurou as chuteiras.
Sigismeno sabe que a Fifa nunca se preocupou com outros grandes craques brasileiros, sabe que Garrincha morreu na miséria, sabe que outros grandes foram completamente esquecidos. Espremeu suas meninges à cata de uma razão para essa repentina homenagem que a federação mundial resolveu prestar a Pelé depois de tanto tempo. O homem está aparentemente em boa saúde, portanto não há-de ser daquelas honrarias que se concedem in extremis.

Blatter, Pelé & Dilma
Reparem: a Fifa esqueceu de conferir no gúgol e acabou pisoteando a grafia do sobrenome presidencial
De repente, a luzinha acendeu. «Mas é claro! É por causa da Copa do Mundo, que está para começar daqui a 5 meses!» Confesso que, na hora, não entendi bem a relação. «E o que tem isso a ver com o ouro que vão dar ao Pelé?», perguntei.
«Mas você não percebe?», retrucou meu amigo. «Os cartolas de Zurique estão apavorados com protestos e manifestações de rua que possam ocorrer durante a Copa».
«Continuo sem entender», retruquei, sem conseguir acompanhar o raciocínio do Sigismeno.
«Pois é o seguinte, meu caro. Em junho passado, os da Fifa se deram conta de que o povo anda um bocado enfezado com essa história de Copa. Os gastos, o desperdício, os roubos, os atrasos, essa farra toda. Para se mostrar simpáticos, resolveram agradar aos brasileiros. Devem ter pensado até em dar o prêmio a nossa presidente, mas, sacumé, depois das vaias no Maracanã, a coisa ficou meio delicada. É por isso que estão homenageando o Pelé, por imaginarem que é uma espécie de ídolo adorado por todos os brasileiros. É uma tentativa de amansar o povo, você não percebe?».
Percebo. Devo admitir que percebo. Se vai funcionar, isso são outros quinhentos.
E o Sigismeno, inspirado, ainda profetizou que a Bola de Ouro deste ano ― a verdadeira ― pode ser dada até ao Dalai Lama, mas jamais será dada ao Messi. Porque o moço é argentino. Melhor não atiçar rivalidades.
Parece um gesto ajuizado. Pode dar certo. Ou não.
José Horta Manzano
Você sabia?
É praticamente impossível reaver celular roubado. Os ladrões logo passam adiante, e assim, de mão em mão, o rastro se perde. É experiência desagradável, mas as bondosas companhias operadoras substituem rapidamente o chip e parecem não se importar com o destino do celular furtado. Compreende-se: o que a operadora quer é consumo. Mesmo roubado, o telefone periga trazer um novo cliente. Elementar, não?
Existe maneira de fazer que o telefone roubado, ainda que não seja devolvido, se torne inutilizável. Se todos agirem assim, aos poucos, os assaltantes perderão o interesse em roubar celulares. Leia com atenção.
Todos os celulares têm um numero de série único, sua impressão digital, seu ADN. Não há dois telefones no mundo com o mesmo código. Chama-se Código IMEI (=International Mobile Equipment Identity). É composto de um número de 15 algarismos. Somente o dono do aparelho pode conhecer o código. Para saber qual é o seu, basta teclar
* # 06 #
Só isso. Não pressione a tecla Enviar (=Send/Enter/Return). Na tela, aparecerá o código IMEI. Anote-o e guarde-o em lugar seguro. Acima de tudo, não vá anotá-lo no telefone.
Se lhe roubarem o celular, entre imediatamente em contacto com a operadora e indique o Código IMEI do telefone surrupiado. O celular será bloqueado completamente e, ainda que o ladrão ponha novo cartão ou novo chip, nunca mais funcionará.
Se todos fizerem isso, o roubo de celulares cairá vertiginosamente.
É natural que as operadoras façam corpo mole e não mostrem grande empenho em dar essa dica a seus clientes. Para a operadora, que seja roubado ou não, um celular em circulação significa um cliente potencial a mais.
Essas instruções valem para o mundo todo. Se um dia você comprar um celular na Mongólia ou no Zimbábue, experimente e verá que funciona.
Quer checar o seu? Proceda assim:
1) Tecle *#06# e anote seu IMEI
2) Visite o site www.imei.info
3) Entre seu código IMEI. Você verá que, sobre seu aparelho, eles sabem mais do que você imagina.
Big brother is watching you. Boa sorte!
José Horta Manzano
Ninguém jamais saberá dizer com exatidão quantos mortos deixou a Segunda Guerra (1939-1945). Estimativas situam a quantidade de vítimas entre assustadores 50 milhões e 70 milhões de pessoas. Foi o conflito mais mortífero que o planeta já conheceu.
Até o Brasil, posto que não tenha travado batalha em seu próprio solo, deplorou por volta de duas mil vítimas: mil militares da Força Expedicionária (FEB) enviada à Itália e mais mil civis massacrados em ataques de submarinos alemães contra navios de cabotagem da marinha mercante nacional junto às costas brasileiras.
Certos países da Europa Oriental chegaram a perder ¼ de sua população, uma monstruosidade. A Europa ficou profundamente marcada. Até hoje, passados quase 70 anos, ainda se fala da guerra como se tivesse terminado anteontem.
Milhares de homens, mulheres, anciãos e recém-nascidos foram sumariamente exterminados pelo simples fato de serem judeus ou ciganos. É tão estarrecedor que nós, que não vivemos aquela época, temos dificuldade em conceber que atos tão ignóbeis possam ter sido cometidos por seres humanos.
Essa perseguição racial foi pra lá de traumatizante. Em consequência, muitos países europeus inseriram em sua legislação dispositivos destinados a sufocar no nascedouro toda e qualquer manifestação racista. Na França, atos ou palavras que possam ser enquadrados como incentivo ao ódio racial são passíveis de processo criminal.
Uma coincidência interessante une três dos ditadores protagonistas da última guerra. Há uma dose de estrangeirice em todos eles.
Hitler, ao nascer, era súdito do Império Austro-Húngaro. Tornou-se alemão por naturalização.
Stalin tampouco nasceu russo, mas georgiano. Não precisou naturalizar-se, dado que a Geórgia ― hoje país independente ― era, à época, território pertencente ao Império dos Tsares.
Mussolini nasceu italiano, mas viveu anos da juventude como emigrante em terra estrangeira. Morou na Suíça, onde, aliás, seu espírito turbulento deixou marcas.
É curioso observar a frequência com que rebeliões, revoltas ou simples escândalos são protagonizados por pessoas cuja história de vida diverge da maioria.
A conflagração que abalou a França em maio 1968 era norteada por um estrangeiro (Daniel Cohn-Bendit). A política externa dos EUA foi conduzida, de 1969 a 1977, por Heinz (Henry) Kissinger, americano naturalizado. O atual ministro dos Negócios Interiores da França ― cargo preeminente ― nasceu em Barcelona e emigrou ainda criança: Monsieur Vals é hoje francês naturalizado.
Os brasileiros, que já têm suficientes problemas internos, não devem estar muito preocupados com escândalos estrangeiros. Há um que está sacudindo a França já faz alguns dias. Está sendo causado por Dieudonné, um humorista que já está deixando de fazer rir. Alguns já o qualificam abertamente como ativista.
Nascido em 1966, Dieudonné M’bala M’bala é filho de pai africano da República dos Camarões e de mãe francesa. No começo de carreira, fazia graça, que é o ganha-pão de todo comediante. De uns tempos para cá, sabe Deus por que, decidiu enveredar pelo caminho perigoso do antissemitismo. Considerando-se que o homem é afrodescendente ― como diriam no Brasil ―, é surpreendente.
Suas piadas e seus esquetes adquiriram tons sombrios de estímulo ao ódio racial. Há quem goste ― há gosto para tudo. Mas 70% dos franceses desaprovam. O governo resolveu agir: proibiu seus espetáculos. Os advogados do humorista invocaram a liberdade de expressão e conseguiram liminar para o show de 9 de jan°. A Justiça contra-atacou argumentando que, em vista do sério risco de perturbação da ordem pública, o espetáculo estava definitivamente anulado.
Foi uma primeira vitória. Mas o artista, que tem apresentações já programadas para os próximos meses, pretende contestar a proibição de cada espetáculo, um por um. Temos pela frente batalhas jurídicas a perder de vista.
A mim me choca ver um profissional do riso fazer graça ― e ganhar a vida ― tripudiando sobre a desgraça alheia. Além de ser contrário à lei, é comportamento indigno. Mais que isso, que um triste espetáculo antissemita seja concebido e estrelado por um afrodescendente, é, no mínimo, grotesco.
Algumas manifestações da imprensa francesa estão aqui:
Le Nouvel Observateur
Les Echos
Le Monde
«A Editora Confiança, que edita a Carta Capital, tem como sócia uma empresa com sede na Inglaterra e esta empresa é composta pela associação de duas empresas com sede no Panamá que têm o mesmo endereço, foram criadas no mesmo dia e têm exatamente a mesma composição.»
Excerto de um artigo publicado pelo editor do site Reaçonaria, fruto de pesquisa que há-de ter necessitado beneditina paciência. O resultado é edificante.
Sabe o que vai acontecer agora? Adivinhou: nada, rigorosamente nada.
«O presidente da Fifa, Joseph Blatter, queixou-se do comportamento da presidente Dilma Rousseff ao técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, e, nos bastidores, alfineta a presidente sempre que é perguntado sobre o envolvimento do governo na preparação para a Copa.»
Jamil Chade, em artigo publicado pelo Estadão em 7 jan° 2014. Para ler as 160 palavras adicionais, clique aqui.
José Horta Manzano
Tudo o que é excessivo é pernicioso. In medio stat virtus, já diziam os antigos romanos, a virtude está no meio. Para evitar danos, convém moderar a dose. Certos medicamentos, por exemplo, contêm, em quantidade ínfima, moléculas tóxicas, como arsênico e beladona. Não ultrapassando a medida, nenhum mal hão de causar.
Assim é também com o dinheiro. Se for escasso, transforma a vida num perereco. Já quando se apresenta em quantidade excessiva, acaba transtornando cabeças e enevoando decisões.
A Fifa ― sempre ela! ― é uma das instituições mais abastadas do planeta. São incontáveis os milhões de que dispõe. Tem um orçamento de dar inveja a muitos países. Essa riqueza toda ― e a perspectiva de incrementar os ganhos ― fazem que, no momento de tomar decisões, pontos importantes sejam descurados. Foi o que aconteceu quando decidiram atribuir ao Emirado do Catar a organização da Copa do Mundo de Futebol de 2022.
Muitos países pagariam (e pagaram) para obter o direito de sediar a Copa. O Catar também queria chegar lá. A diferença é que o emirado tem dinheiro, muito dinheiro. Não foi difícil convencer os decididores de que aquele exíguo pedaço de deserto escaldante era o lugar ideal para receber uma Copa. Ficou, então, combinado que o evento de 2022 se realizará naquele país.
Ainda faltam 8 anos, mas algumas interrogações já começam a surgir. Em junho e julho, época do ano em que a Copa costuma ser disputada, a temperatura diurna média naquelas paragens é de 48° (quarenta e oito centígrados)! Não se pode expor jogadores a essas condições, sob pena de vê-los desabar feito moscas no meio do gramado.
Em entrevista coletiva concedida sexta-feira passada, Joseph Blatter, o presidente da Fifa, anunciou que a Copa de 2022 poderá ter lugar em novembro-dezembro, diferentemente de todas as 21 edições anteriores, que sempre se realizaram em junho-julho.
Sem sobra de dúvida, é atitude muito nobre a Fifa levar em conta o conforto e a saúde dos jogadores. Só que um tremendo problema está sendo armado. Os países que participam do campeonato mundial estão localizados, em esmagadora maioria, no hemisfério norte, onde os meses de verão (junho, julho, agosto) são reservados às férias. Essa é justamente a época em que campeonatos nacionais fazem uma pausa, deixando os profissionais livres para disputar um torneio mundial. Novembro e dezembro são meses de plena atividade.
E agora, como fazer? Desorganizar o calendário tradicional do futebol mundial ou despachar os infelizes jogadores para uma temporada naquela fornalha? Quem pariu Mateus que o embale, dizem nossos amigos lusos. A Fifa criou o problema. Cabe a ela resolvê-lo.
Não fossem tão ricos, aposto que seriam mais ajuizados.
José Horta Manzano
Dia 1° de janeiro, o euro ― a moeda comum a 12 países da União Europeia ― ganhou um novo afiliado. É uma daquelas três pequenas nações que agrupamos sob o nome genérico de «países bálticos», embora haja diferenças consideráveis entre elas. De comum, têm a incômoda proximidade com o gigante russo, vizinho de parede que lhes atormenta a existência faz séculos.
Imensa extensão de terra encravada no norte da Ásia, a Rússia sempre procurou uma saída marítima em águas «quentes», daquelas que não congelam no inverno. É o que explica que Moscou tenha ocupado, desde o fim da Segunda Guerra, algumas ilhotas do norte do Japão. Explica também por que fincaram pé em Kaliningrad (a antiga Königsberg), onde ainda hoje mantêm um enclave ― com frente para o mar evidentemente. Esclarece por que surrupiaram dos finlandeses a península de Kola. Deixa evidente por que apoiam o regime da Síria, país onde mantêm a base naval de Tartus.
Os três países bálticos sempre fizeram fronteira com o Império Russo. Além disso, sempre dispuseram de abertura para o Mar Báltico. Vai daí…
Tiveram de esperar a decomposição da União Soviética para lograrem sua independência.
Bem, falei, falei, e ainda não lhes disse qual é o nome do 13° membro da Zona do Euro. Mais de uma vez já tenho lido ― e da pluma de gente fina! ― que o novo afiliado é a Latvia. Não sei se será pressa, preguiça, desleixo, ignorância. Talvez uma mistura de tudo isso. Mas está errado.
As agências noticiosas despacham geralmente em inglês, eis por que falam em Latvia. Em português, faz séculos que esse país tem nome. Chama-se Letônia. Diz-se letão do que vem de lá, gente ou coisa.
Riga é a charmosa capital do pequeno país. Legou-nos a expressão pinho-de-riga, madeira bastante usada em construção.
Então, ficamos combinados, hein! Os países bálticos são: a Estônia, a Lituânia e a Letônia.
José Horta Manzano
Chegou o fim do ano e, com ele, o tempo dos balanços. Uns medem o que venderam, o que compraram, o que construíram, o que gastaram. Outros avaliam quanto engordaram, quanto emagreceram, quanto envelheceram. Cada qual com seu problema.
Em artigo de 30 dez°, Josette Goulart, do Estadão, nos informa que o índice Bovespa ― da Bolsa de Valores de São Paulo ― caiu 15.5% em 2013.
Esclarece a jornalista que o esfacelamento de uma companhia petroleira pertencente a um certo senhor Batista responde por nada menos que 40% do baque. O resto vem principalmente do encolhimento da Petrobrás e da Vale. A retração do mercado chinês se encarregou de completar a derrocada.
Não é preciso ser doutor em Economia para entender que, por detrás desse fracasso, estão as impressões digitais do governo brasileiro.
Os negócios do senhor Batista foram encorajados pelo Planalto e generosamente regados com dinheiro nosso. Em atitude típica daquele que nunca tinha comido mel, os luminares que imaginam governar o País se lambuzaram. E acabamos todos melados.
A Petrobrás ― cujo capital, frise-se, é majoritariamente constituído de dinheiro nosso ― tem sido instrumentalizada à moda bolivariana.
Para coroar a trapalhada, a ideologia míope que domina nossas altas esferas optou por menosprezar clientes tradicionais e atrelar nosso destino econômico à China.
O negócio do senhor Batista era vidro e se quebrou. A Petrobrás, sugada, enxugada e usada para fins politiqueiros, anda mal das pernas. A China desacelerou. Deu no que deu: a bolsa brasileira, que reflete a confiança que o mundo deposita no futuro de nossa economia, desceu a ladeira.
A Bolsa de Tóquio logrou excepcional valorização de 55%. A de Nova York subiu mais de 25%. Com informações da Reuters, aqui abaixo está a lista da valorização anual das principais bolsas europeias até 30 dez° 2013:
Dublin + 33,5
Helsinque + 28,7
Atenas + 27,9
Frankfurt + 25,5
Copenhague + 24,0
Oslo + 23,0
Madri + 20,9
Zurique + 20,1
Bruxelas + 17,8
Paris + 17,3
Amsterdã + 16,7
Lisboa + 16,6
Milão + 16,6
Londres + 14,0
Viena + 6,1
Para o ano que vem ― quem sabe? ― nosso governo toma jeito. Não boto muita fé, mas estamos em época de festa, de euforia. Afinal, Deus é brasileiro, não?
O Estadão continua deixando as manchetes a cargo de estagiários. Sem supervisão, hoje rebaixaram Frau Angela Merkel ao posto de presidente.
Está errado. O presidente da República Federal da Alemanha é Herr Joachim Gauck. Naquele país, a presidência é cargo meramente honorífico. Frau Merkel é chanceler. Se quiser chamar de primeira-ministra, ela não há de se ofender. Presidente, nein!
Ruy Castro (*)
Pesquisa científica divulgada há dias revela que foram os chineses, há 5.500 anos, que domesticaram os gatos ―1.500 anos antes dos egípcios, a quem se creditava essa maravilha. Quando um país está com a bola branca, como a China, não apenas seu presente chama a atenção ― até seu passado fica iluminado. E, se alguns ainda se espantam com o ímpeto com que ela ocupa hoje todo tipo de espaço, só me intriga que não tenha acontecido antes.
A história nos ensina que, com sua criatividade, os chineses já mudaram o mundo pelo menos duas vezes. Uma foi quando inventaram a pólvora ― de que resultaram o canhão, o mosquete, o arcabuz e muita gente morta. A outra foi quando criaram o papel e, daí a séculos, os tipos móveis, de argila ― do que, 400 anos antes de Gutenberg, nasceu a imprensa.
Essas foram as suas grandes contribuições no atacado. No varejo, é aos chineses que devemos o macarrão e, deste, o talharim, o espaguete e a língua de pato. Eles nos deram também a seda, a porcelana, a bússola, o sismógrafo, o moinho hidráulico e até a pipa ― esta, para pescar sem barco. Sem falar no palito de fósforo, nos fogos de artifício e na tinta ― não por acaso, nanquim.
Mas isso foi lá atrás. A China moderna são os bilhões de cacarecos e cafonices que assolam o mercado mundial, empesteiam o planeta e levarão séculos para ser digeridos pelo ambiente. E ela vem agora com uma novidade ainda mais revolucionária: a desinvenção da imprensa. Seus jornalistas, se quiserem manter a licença de trabalho, terão de devorar um manual de 700 páginas para fazer uma prova sobre os princípios do marxismo e se submeter a 18 horas de treinamento para se condicionar a não contrariar o Partido.
No Brasil, havia gente no governo que queria nos impor essa medida. Mas isso foi antes da Papuda.
(*) Ruy Castro, escritor e jornalista, em sua coluna na Folha de São Paulo.
José Horta Manzano
Agressão só pode suscitar reação inflamada. Os ecoterroristas da (poderosa) Greenpeace ― aquela que, de paz, só tem o nome ― não conseguiram captar essa mensagem em 40 anos de ativismo.
Que ninguém me entenda mal. Sou o primeiro a preconizar a substituição dos combustíveis fósseis por fontes de energia renovável. Tanto porque a queima de gaz e petróleo polui a atmosfera, quanto porque essa riqueza que não se renova é preciosa demais para ser queimada.
O que desaprovo vigorosamente são os métodos dessa organização não governamental. You can catch more flies with honey than with vinegar ― dizem os ingleses ― é mais fácil apanhar moscas com mel do que com vinagre. O modus operandi aplicado pelos dirigentes de Greenpeace está longe de ser meloso. Está mais para vinagre.
Reunir uma trintena de idealistas jovens e ingênuos e mandá-los para a linha de frente pode lisonjear os dirigentes da organização, mas não fará avançar a defesa da «causa». Nem um milímetro.
A infantaria da ong ― falo do grupo de 30 jovens adultos ― foi escolhido a dedo. No intuito de criar um imbróglio internacional, misturaram gente de uma vintena de países diferentes. Nesse particular, conseguiram seu intento: armaram um tremendo quebra-cabeça para as autoridades russas.
Mas, sacumé, russo não brinca em serviço. O navio ― sim, senhor, a opulenta organização dispõe de dois navios ― foi apreendido. Os arrojados ativistas foram direto para o xilindró. E lá teriam permanecido ainda um bom tempo, não fosse um evento internacional do qual, compreensivelmente, pouco se fala no Brasil: os Jogos Olímpicos de Inverno. Daqui a pouco mais de um mês, em 7 fev° 2014, a cidade russa de Sochi será palco da cerimônia de abertura da versão hibernal das Olimpíadas.
Tal como a Copa 14 é importante para a imagem do Brasil, os JOs de inverno são uma vitrina para a Rússia. Estes últimos dias, o governo de Vladimir Putin abriu um pacote de bondades. Liberou o bilionário Mikhail Khodorkovski, inimigo político do atual presidente, que apodrecia num campo de trabalho na Sibéria fazia 10 anos. Soltou também duas daquelas moças que, cabecinhas de vento, tinham tido a bizarra ideia de cantar uma oração punk em plena catedral ortodoxa.
O perdão concedido aos ousados grumetes de Greenpeace se inscreve nessa mesma linha. Tiveram sorte. Não fosse a proximidade dos JOs e a aspiração russa de sair bem na foto, perigavam passar alguns anos pouco calorosos.
O resultado? Pois a poderosa organização conseguiu ser citada pela mída planetária, o que lhe há de granjear apoio e doações ― cada um é livre de doar a quem lhe aprouver. Os 30 incautos que, instrumentalizados, se prestaram a essa palhaçada devem estar-se sentindo heróis.
E o principal, a defesa do Ártico, como é que fica? Pois não saiu do lugar. Ninguém em sã consciência imaginaria um só instante que a gigantesca Gazprom, a Petrobrás russa, renunciasse a suas atividades na sequência de um protesto frouxo e desajeitado.
Alguém precisa avisar a esses ecoterroristas que terão muito mais sucesso se fizerem a mesma encenação nas plataformas brasileiras. Na hipótese mais elementar, receberão asilo político, se assim o desejarem. Na hipótese mais optimista, frearão a exploração petrolífera, o que não deixa de ser uma boa herança para os que virão depois de nós.
Esta é do Sigismeno. Depois de ler a Frase do dia ― 64, no post anterior a este, deu-se conta de que, invertido, o raciocínio pode ser aplicado aos suíços.
Está aqui o que ele disse: «A previdência, o planejamento sistemático, a recusa de soluções improvisadas são as características que fazem do administrador um craque e do jogador de futebol, um perna de pau.»
E não é que ele tem razão? As mesmas causas costumam engendrar os mesmos efeitos.
«Ao propor a fundação da Alba, Chávez disse que a integração latino-americana por ele projetada era vital: “Ou nos unimos ou afundaremos”. Pelo visto, os países bolivarianos estão se afastando da Venezuela justamente para evitar esse abraço dos afogados.»
A fonte chavista secou, editorial do Estadão, 27 dez° 2013
José Horta Manzano
Como é bom ser grande empresário num país de gente apática! Nossa falta de noção de pertencimento a uma comunidade faz que cada um de nós reaja com um simples dar de ombros a qualquer notícia, seja ela boa ou má.
O máximo que se vê é algum protestozinho mole aqui ou ali ― alguma manifestação que acaba se desmanchando em vandalismo. De estudar, que é bom, não gostamos. De aprender, que é bom, não gostamos. De nos esforçar, que é bom, não gostamos. De dar o melhor de nós mesmos, que é bom, não gostamos. Passamos a vida à espera de que alguém faça alguma coisa. Costumamos ter a nítida impressão de que o problema não é conosco.
Alguns poucos se apercebem dessa generalizada tendência ao descaso, ao «tô-nem-aí». Para desgraça nossa, nem sempre são os mais bem-intencionados. Vai daí, nossas portas estão abertas a aventureiros, predadores, espertalhões, inescrupolosos, aproveitadores. A conjunção deletéria do descaso da população com o oportunismo de uma meia dúzia trava o país. E perpetua o insuportável contraste entre a riqueza indecente de uns contra a miséria negra de outros.
Em seu blogue alojado no Estadão, Marina Gazzoni nos contava, semana passada, que está prevista a construção de novo aeroporto (mais um!) para servir a cidade de São Paulo. O projeto foi apresentado por um consórcio de grandes empreiteiras. A certeza de que seja aprovado sem reticências é tão grande, que as construtoras já compraram até o terreno. Afinal, convencer autoridades públicas é especialidade de grandes empresários…
O adjetivo absurdo, de tão usado, já gastou. Dizer que a ideia é absurda soa banal. Contraditória? Incoerente? Insensata? Disparatada? Que cada qual escolha o termo que melhor lhe convier. Estamos diante de uma estupidez sem nome.
O aeroporto de Guarulhos, que há 30 anos serve a capital do Estado, viu passar 32 milhões de passageiros em 2012. No mesmo ano, o movimento de viajantes registrado nos dez aeroportos mais movimentados do planeta foi o seguinte:
Dubai = 58 milhões
Djacarta = 58 milhões
Dallas = 59 milhões
Paris = 62 milhões
Los Angeles = 64 milhões
Chicago = 67 milhões
Tóquio = 68 milhões
Londres = 70 milhões
Pequim = 82 milhões
Atlanta = 95 milhões (!)
Guarulhos não aparece nem entre os 30 aeroportos mais movimentados do mundo. Como qualquer um pode deduzir, se outros conseguem acolher o triplo dos viajantes atendidos em Cumbica, por que, raios, não seríamos nós capazes de fazer o mesmo? Há maneiras mais práticas, mais baratas, mais eficazes e mais lógicas de melhorar o desempenho da estrutura existente.
Foi um erro ter construído o aeroporto onde se encontra? Muitos dizem que sim. Mas não tem mais jeito: feito está, feito ficará. O que não convém é repetir a asneira.
Caieiras, o município «escolhido» pelos empreiteiros, é localidade encarapitada na Serra da Mantiqueira, a quase 800m de altitude, num dos raros pulmões verdes que ainda sobram à roda de São Paulo. Para coroar o desatino, aquela serra é considerada zona de mananciais. Uma parte do abastecimento de água da megalópole depende da preservação e dos bons cuidados que se dediquem à região. E tem mais: como localidade serrana, Caieiras é tão sujeita a nevoeiros como Guarulhos.
Antes de pensar em novo aeroporto, ainda há muito que fazer no velho. Ligação ferroviária rápida, aumento da capacidade dos estacionamentos, construção de novos terminais, desapropriação de terrenos circunvizinhos, melhora na logística de movimento de carga, aprimoramento da formação de pessoal, reforço da segurança. Tudo isso é mais lógico e sai mais barato do que construir mais uma estação aérea.
Não tem cabimento termos estádios padrão Fifa e continuarmos com aeroportos padrão Uagadugu.
«Dentre os destinos possíveis para o americano desterrado, o Brasil desponta como ecossistema promissor. Afinal, é um portento entre os emergentes, democrático e dono de uma diplomacia independente. Respeita a liberdade de expressão e nutre um certo dissabor frente ao poderio americano. Tanto que o Palácio do Planalto parece até teleguiado por Snowden, que se manifesta pela caneta do jornalista Glenn Greenwald.»
Mac Margolis, colunista dominical do Estadão e editor do site Brasilinfocus.com, discorrendo sobre Mr. Snowden e a sinuca em que se meteu. In Estadão, 22 dez° 2013.
Observação natalina: neste começo de estação, a temperatura em Moscou anda anormalmente clemente: estacionou no zero grau faz alguns dias. Mas a previsão é de que, nas próximas semanas, volte ao costumeiro e desça uns 10 ou 15 graus. O inverno moscovita pode tardar, mas não falha nunca, que diabos!
José Horta Manzano
Semana passada, o Hospital Georges Pompidou, de Paris, realizou uma façanha sem precendentes. Implantou, num paciente com insuficiência cardíaca terminal, um coração artificial permanente.
Já houve casos de enxerto de coração artificial. Mas todos eles eram provisórios, solução de curta duração, à espera do órgão de um doador falecido. Esta foi a primeira vez que um coração artificialmente fabricado foi introduzido em caráter permanente em lugar do órgão doente. A mídia francesa tocou todos os sinos e todas as buzinas do país. No Brasil, curiosamente, a notícia não foi divulgada pelos grandes jornais. No entanto, se der certo, terá sido um grande passo no campo da cirurgia torácica.
Milhares de pessoas morrem a cada ano à espera de um transplante de coração. Ficam na fila, mas sua vez não chega a tempo. Doadores são raros, a compatibilidade não é automática, a distância e as condições de transporte entre a retirada do órgão e a inserção no doente podem representar uma barreira. Um feito como o da semana passada não dá voto a ninguém, mas representa uma esperança de sobrevida para muita gente.
Este coração artificial é recoberto por uma membrana ― o pericárdio ― que «tapeia» o organismo e reduz o risco de rejeição. O órgão é inteiramente controlado por computador capaz de detectar momentos em que o ritmo das pulsações deve ser acelerado e, ao contrário, períodos em que a frequência precisa ser diminuída ― durante o sono, por exemplo.
Há ainda um lado psicológico importante. Ao carregar prótese feita de material artificial, o transplantado não sofre o peso emocional de abrigar um pedaço do cadáver de um falecido. Não é difícil imaginar que isso possa ser, para certas pessoas, um fardo dificil de arrastar.
O mundo ficou boquiaberto quando, em dezembro de 1967, ficou sabendo que um certo doutor Christiaan Barnard (1922-2001), médico sul-africano, havia feito o primeiro transplante cardíaco. Foi um abalo equivalente ao pouso de um astronauta na Lua ― fato que só se daria um ano e meio mais tarde.
Para apurar remédios imunuodepressores, foram necessários muitos anos. Hoje, embora sejam bem mais eficazes que 45 anos atrás, ainda representam um peso para todo transplantado. Limitar seu uso é uma vantagem considerável.
Resta esperar que as pesquisas continuem e que, dentro de breve tempo, doentes não precisem mais passar anos à espera do falecimento de um doador compatível.
Artigo do jornal Le Monde (em francês)
Artigo de Radio France Internationale (em português do Brasil)