Vasto mundo
Quem havera de dizê, sô!
Canetada
José Horta Manzano
Talvez eu tenha perdido um capítulo. Se li direito, um solitário magistrado, unzinho só, numa canetada de palácio, por motivos absconsos, resolve anular uma decisão que já havia sido tomada tempos atrás.
E não estamos falando de briga de comadres: trata-se de uma entrada de 10,3 bilhões de reais (2,1 bilhões de dólares), um caminhão de dinheiro em cima do qual nem um maluco como Mr. Musk cuspiria.
Imagine tudo o que essa fortuna poderia render se entrasse para os cofres da República – e se fosse bem empregada naturalmente. Hospitais, dá pra construir vários. Estradas, dá pra abrir e asfaltar quilômetros e quilômetros. Professores, dá pra aumentar consistentemente o salário de todos eles pelo resto da vida. E quanto mais o distinto quiser imaginar será igualmente possível.
Agora, vem um homem e decide sozinho privar a nação desses fundos? Ressalte-se que é de conhecimento público que a esposa do digníssimo magistrado advoga para os beneficiários da anulação da multa.
Em que mundo estamos? Esse é o tipo de decisão que não pode valer antes de ser ratificada pelo pleno do STF. Por unanimidade se for possível. Me espantaria que a canetada fosse referendada mas, em nosso país, nunca estamos a salvo de surpresas.
Há países em que um caso assim levaria a população indignada às ruas, homens e mulheres, jovens e anciãos. Por aqui, nada. Sai notícia em caracteres pequenininhos.
Será no intuito de manter esse estado de coisas que o andar de cima se interessa tão pouco pela Instrução Pública?
X, antigo Twitter
José Horta Manzano
Só conheço o X (antigo Twitter) de ouvir falar. Não sou de “seguir” gurus nem personalidades; tampouco sinto necessidade de apregoar, a cada instante, os pensamentos que me passam pela cabeça.
Tenho acompanhado a turbulência que sacode a plataforma desde que um multibilionário tornou-se proprietário dela. Pelas notícias que leio, a impressão que me dá é que a curiosa intenção do milionário é destruir a empresa. Ele age aos trancos, um pouco hoje, um pouco amanhã, sempre no modo “tiro no pé”. Difícil de entender.
Alguns meses atrás, o grande golpe foi trocar o nome da empresa. O rapaz jogou no lixo a marca Twitter, implantada e conhecida no mundo todo. Em seu lugar, botou “X”, nome sem graça, banal, que se pronuncia de maneira diferente em cada língua. A meu ver, uma decisão desastrosa.
E parece que não sou o único a reprovar a troca de nome. No mundo inteiro, em todas as línguas, a mídia, quando se refere a essa plataforma, continua a dizer “X, antigo Twitter”.
Não sei se fazem isso preocupados com a boa compreensão ou se estão mesmo é dando um chute na canela do bilionário. Seja qual for a razão, a conclusão é a mesma: os usuários não aprovaram a mudança.
Vamos ver qual é a próxima extravagância do ricaço.
Os exemplos abaixo foram todos publicados meses após a mudança de nome.
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O penteado

A partir do alto à esquerda, em sentido horário:
Geert Wilders (Hol.), Javier Milei (Arg.), Donald Trump (EUA), Boris Johnson (UK)
José Horta Manzano
As redes sociais de língua espanhola estão fervendo com uma descoberta. Trata-se de fato evidente, mas ninguém tinha ligado uma coisa à outra. Os líderes de extrema-direita parecem ter especial predileção por penteados extravagantes.
Donald Trump e Boris Johnson deram o sinal de partida à nova moda. O topete alaranjado do americano e o “cabelo assanhado com muito cuidado”(*) do inglês surpreenderam o mundo. Lá no fundo, cada um de nós pensou: “Como é que pode um presidente (um primeiro-ministro) se apresentar com uma cabeleira esquisita dessas?”. Mas pouca gente ligou uma coisa à outra.
Este mês, de repente, com poucos dias de intervalo, são eleitos dois novos membros da tendência ultra-direita populista. Na Holanda, é Geert Wilders, e na Argentina, nosso já familiar Javier Milei. Ambos ostentam o que, décadas atrás, se conhecia como “cabeleira de maestro”. De fato, não se costumava ver ninguém assim, exceto os diretores de orquestra.
Com mais esses dois na lista, não dá mais pra esconder. É por isso que as redes de língua espanhola estão excitadas. No Brasil, imagino que a empolgação seja bem menor, afinal nenhum dos personagens nos é conhecido e familiar – quem já ouviu falar de Geert Wilders?
Sigismeno, um amigo meu que, na juventude, foi cabeleireiro de dama, me garante que o cabelo de Bolsonaro, apesar do aspecto emplastado e descurado, é tingido. Tintura feita nos conformes, nada de trabalho caseiro com pincel e bacia sobre a mesa da cozinha, e a esposa ajudando. Como prova, Sigismeno aponta a meia dúzia de fios brancos que surgem ao lado da orelha do capitão, um embranquecimento lentíííssimo que não avançou um fio em seis anos, desde que o político se tornou conhecido.
Fico meio assim. Se bem que é verdade que, quando presidente, Bolsonaro mais de uma vez se deixou fotografar sentado numa cadeira de babearia de aspecto chinfrim. Será que não passava de disfarce pra desviar a atenção do distinto público?
Voltemos aos ultradireitistas cabeludos. No tempo dos Beatles, quando todos os jovens começaram a deixar crescer o cabelo, as vovós costumavam resmungar: “Cabelos compridos, idéias curtas”.
Trump e Johnson já deram sua contribuição para confirmar o resmungo das velhinhas. Vamos ver se os recém-chegados ao clube – o holandês e o argentino – conseguem fazer uma boa gestão e, assim, desmentir a maldição.

José Irimia Barroso, escritor hispano-venezuelano, tuitou: “Se vierem os extraterrestres, vão achar que ‘populismo de ultra-direita’ é algo relacionado com o penteado…”.
(*) “Cabelo assanhado com muito cuidado” é trecho da música Mocinho Bonito, do compositor Billy Blanco. O samba foi lançado no fim dos anos 1950, gravado por Isaura Garcia e, em seguida, por Doris Monteiro.
Visita secreta
Hongqi
José Horta Manzano
Em 1958, rodou o primeiro automóvel fabricado na República Popular da China. Sua marca era Hongqi, que se pronuncia hon dji e que significa Bandeira Vermelha – evidente alusão à bandeira nacional chinesa.
Nas primeiras décadas, os carros Hongqi foram reservados aos mandarins do Partido Comunista. Eram os únicos naquele país em condições de possuir automóvel. Os demais chineses viviam na pobreza, sem esperança de acesso a esses luxos.
Hoje, com a sensível melhora do nível de vida no país, a marca tenta se impor também no mercado internacional. Para isso, conta com um vistosíssimo “garoto propaganda”. Quando Xi Jinping, secretário-geral do Partido Comunista da China, viaja ao exterior, seu carro oficial, um Hongqi modelo N701 que viajou antes dele, o espera na descida do avião.
Esse modelo N701 tem quatro portas, mede 5 metros e meio de comprimento e é movido por um motor turbo V12 (12 cilindros) de 408 cavalos de potência. Roda 800 quilômetros sem precisar reabastecer. A versão presidencial tem alguns opcionais especiais: blindagem à prova de tiro de bazuca, isolamento contra ataque químico, pneus de 50cm à prova de bala, aparelhamento e monitores para transmissão criptografada. Peso mínimo: 3,1 toneladas. O preço de venda até que é modesto: US$ 700 mil.
Pouca gente precisa de tantos opcionais. A firma Hongqi produzirá não mais que 50 unidades nos próximos dez anos.
Em contraposição, o carro presidencial americano é um Cadillac de 5 lugares chamado The Beast (A Fera). É três vezes mais pesado que seu primo chinês: 10 toneladas. E sai pelo dobro do preço. Quanto aos acessórios de defesa, os americanos são menos loquazes que o chineses.
Mas cada um pode imaginar o sofisticado desempenho dessa fera. Só falta voar. Falta?…
Repeteco
José Horta Manzano
Luiz Inácio aprecia honrarias. Títulos de doutor “honoris causa” e condecorações estrangeiras, tem aos montes. Quando pode, estende também aos parentes as honras que recebe.
Todos ainda devem se lembrar que, em 31 de dezembro de 2010, último dia de seu segundo mandato, distribuiu passaporte diplomático a todos os membros de sua família – esposa, filhos e agregados. No dia seguinte, quando já não era presidente, criou uma situação de absoluta excepcionalidade: foi passar férias com a família no Forte Militar dos Andradas, litoral de São Paulo, à nossa custa. Ficou por isso mesmo. (Depois a gente reclama do Bolsonaro.)
Naquele mesmo 2010, aproveitando sua staliniana cota de popularidade, que roçava então os 80% de aprovação, fez uma bufonaria. Concedeu a Ordem de Rio Branco, mais alta honraria do Itamaraty, a Dona Marisa, sua esposa. E não deixou por menos: outorgou-lhe a ordem no mais alto grau, o de Grã-Cruz. A faixa com a medalha foi entregue pessoalmente por Lula em cerimônia oficial.
A imprensa se encarregou de difundir a notícia, que rodou o país e causou espanto. Proibido não é, mas é chocante por contrariar a ética e o decoro presidencial.
O tempo passou. Ontem, 13 anos depois da jactância de 2010, Lula reincidiu. Enviuvado e recasado, concedeu à atual esposa a mesma honraria com que tinha mimado dona Marisa. Janja da Silva acaba de ser agraciada com a Ordem de Rio Branco, no grau Grã-Cruz. Só que desta vez, pra fugir a eventuais reprimendas, Lula preferiu fazer a entrega numa cerimônia discreta, privada, sem imagens. Nem mesmo as fotos do Ricardo “Stuquinha” Stucker, fotógrafo pessoal do presidente, circularam.
Lula é malandro. Não corrigiu a agressão à ética, mas aprendeu a camuflá-la. Numa época em que tudo passa pelas redes sociais, imagem é crucial. Sem imagem, não há notícia. Ninguém mais lê informação de texto. Se a Globo não der (e como vai dar notícia sem imagem?), ninguém vai ficar sabendo.
Assim, fica o dito pelo não dito. E estamos entendidos.
População do planeta
José Horta Manzano
Isonomia, paridade e proporcionalidade são conceitos em voga. São aplicados em muitas áreas, mas estão longe de vigorar por toda parte. A distribuição geográfica da humanidade, por exemplo, passa ao largo e não respeita nenhum desses conceitos de equilíbrio.
Por motivos complexos, a população do mundo está distribuída de forma bastante irregular e desigual. A imagem abaixo é instigante. Acredite: há mais gente vivendo dentro do círculo do que fora dele.
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Este outro planisfério, desenhado por autor desconhecido (trabalhador abnegado, que deve ter feito muitas continhas), também é muito interessante. A população das regiões cor de abóbora somadas equivale à população das áreas brancas. Em outros termos, metade da humanidade se concentra nesses pequenos territórios coloridos.
Clique nos mapas para ampliar.
Lista telefônica
Será que os mais jovens já viram uma lista telefônica?
Era um livro gordão, pesado, de capa mole, com a lista dos assinantes do serviço telefônico de uma determinada região.
De criança, eu gostava de ler lista telefônica. Passatempo bizarro, né? Podia passar horas folheando aquele calhamaço. Falando nisso, faz tempo que não vejo uma, será que ainda publicam? Hoje, com a praticidade de internet e google na palma da mão, não faz mesmo mais sentido distribuir um catálogo que, ao ser impresso, já está desatualizado.
Numa época em que não havia internet, a lista era ferramenta indispensável. Sem ela, como saber o número de telefone de alguém? Cada assinante de uma linha fixa (todas as linhas eram fixas) tinha direito a um exemplar. Todo ano, vinha um funcionário da companhia telefônica trazer a nova lista e recolher a antiga. Não sei por que razão recolhiam a anterior. Era obrigatório, não deixavam ninguém guardar o volume do ano anterior. Seria pra recuperarem uns centavos com a venda de papel velho?
Nas grandes cidades, havia duas listas de particulares: a de nomes e a de endereços. A primeira trazia os assinantes por ordem alfabética do sobrenome, começando com a família Aadyl e terminando com o clã Zwingli. A segunda lista era organizada por nome de rua, casa por casa, seguindo a ordem numérica. Nas cidades maiores, havia também as “páginas amarelas”, que listavam empresas, lojas e profissionais. Eram organizadas por atividade profissional.
Eu gostava daqueles livrões gordos, rechonchudos, de centenas de páginas impressas em papel-bíblia com letrinhas miúdas.
Eram tempos menos violentos, em que praticamente ninguém se opunha a ver seu nome, endereço e n° de telefone publicados, à vista de todos, à mercê de qualquer mal-intencionado. Figuravam na lista nossos parentes, professores e colegas, mas também políticos, jornalistas, personagens do rádio e da tevê, gente conhecida.
Hoje, isso deve parecer conto da carochinha. Vivemos atualmente num mundo em que figuras conhecidas são obrigadas a viver cercadas de seguranças. Até o cidadão comum, que não dispõe de milhões de seguidores em rede nenhuma, é obrigado a se proteger da criminalidade: mora em casa com aparência de jaula ou em prédio ornado de guarita, sistema de alarme e câmeras de vigilância. E, se puder, manda blindar o carro.
A violência permeia nossa existência. Me pergunto até que ponto o passar das décadas melhorou a vida de todos. Hoje viajamos mais rápido e conversamos (de longe) com montões de amigos. Por seu lado, ninguém mais sabe o que é uma pitanga; para andar a pé, tem de subir na esteira da academia porque na rua é perigoso; o celular tem mil utilidades, mas é melhor não sacá-lo na rua, porque periga ser levado por alguém.
Me pergunto se não se vivia melhor no tempo das listas telefônicas.
IA generativa
Carro elétrico
Em 2019, quando Romeu Zema (governador de Minas Gerais) concedeu a cidadania honorária do estado a Jair Bolsonaro, o governo do capitão estava apenas começando. Ainda não se falava em covid, nem em cloroquina, nem em jet ski, nem em pizza na calçada. Era admissível que alguns cidadãos ainda tivessem esperança de ter um governo decente.
Em 2023, encerrada a era bolsonárica, as ilusões já haviam morrido. Não era mais permitido dar ao capitão o benefício da dúvida, porque dúvida já não havia: seu governo havia sido calamitoso.
Senhor Zema, reeleito governador das Gerais em 2022, não precisava dar vexame, mas deu. Com a cumplicidade da Assembleia Legislativa, organizou uma festa em homenagem ao cidadão honorário. Em agosto passado (dois meses atrás), recebeu Bolsonaro com pompa e entregou-lhe o diploma. Não era obrigado a fazê-lo. Podia ter deixado o título honorífico continuar dormindo na gaveta do esquecimento. Se levou o caso até o fim, foi porque quis.
Vê-se que, para Romeu Zema, o 8 de Janeiro, as joias contrabandeadas, a minuta do golpe, a fuga para Orlando, o escândalo da covid, as vacinas sonegadas, a propaganda de remédios falsos, as bíblias negociadas contra barras de ouro – tudo isso não foi suficiente para mudar sua ideia. Para ele, Jair Bolsonaro continua merecedor da honra de ser declarado mineiro.
De um homem com essa mentalidade, pode-se esperar tudo. Até essa barbaridade que aparece no recorte acima.
Assim como a mentalidade estreita de Bolsonaro via no confinamento da covid apenas uma ameaça à economia nacional, Zema vê no carro elétrico “uma ameaça aos nossos empregos”. Sua visão afunilada não consegue vislumbrar o futuro. Não deve estar a par da determinação de numerosos países de simplesmente proibir o emplacamento de veículos com motor a combustão a partir de 2025 ou 2030.
Se estivéssemos no fim do século XV, esse senhor estaria denunciando a perda de emprego dos copistas medievais suplantados pela imprensa de Johannes Gutenberg.
Mas deixe estar. Não será um sabujo qualquer que vai fazer o mundo parar de girar. Quer doutor Zema goste ou não, o futuro da indústria automobilística estende os braços aos veículos elétricos e a hidrogênio. E isso vai acontecer antes do que ele imagina.
Fernando de Noronha
O arquipélago de Fernando de Noronha sempre foi tratado como o que é: um posto avançado da nação, um retalhinho de Brasil espichado a quase 400 km da costa, um confete estratégico que nunca deixou de receber as devidas atenções por parte da autoridade federal. No passado, pelo menos, era assim.
Este blogueiro, nas aulas de Geografia tomadas décadas atrás, aprendeu que Fernando de Noronha era um território federal – ao lado de Acre, Amapá, Rio Branco e Guaporé, com governador nomeado diretamente pelo Poder central. Isso mostra a importância dessas regiões de fronteira.
As décadas passaram e os territórios se emanciparam e viraram estados. Quanto a Fernando de Noronha, ao perder o status de território, foi anexado ao estado de Pernambuco. Essa anexação foi mais simbólica que outra coisa. Geograficamente, o arquipélago continua onde sempre esteve, ocupando um posto avançado como se dissesse ao navegante de passagem: “Aqui começa o Brasil”.
Já faz alguns dias que a mídia publica com insistência a história de um jovem brasileiro com sobrenome de chef francês que, enricado da noite pro dia, ficou bilionário e agora vai se casar. Para isso, o rapaz, com seu ar de adolescente estudioso, decidiu “fechar” o antigo território federal. Requisitou todos os alojamentos para hospedar seus 600 convidados. “Ninguém mais entra na ilha” – parece dizer. “Pelo espaço de um fim de semana, ela é minha.”
Posso parecer implicante, mas esse tipo de comportamento me choca. Há alguns pontos que me incomodam. Acho um acinte, num país em que há gente passando fome, jogar dinheiro pela janela dando uma festa de arromba e ainda sair por aí anunciando de alto-falante. A discrição nunca fez mal a ninguém.
A decisão de “fechar” um antigo território federal também me surpreende. Nem sabia que fosse possível. Soa como se alguém se apossasse de um símbolo da República, digamos, do Palácio do Planalto ou do Museu Paulista, para dar uma festa particular. Fica esquisito.
Ao fim e ao cabo, presenciamos um xilique típico de nouveau riche, de alguém que subiu rápido demais. E cedo demais na vida. Lembra os caprichos de certos futebolistas cujo nome nem preciso citar.
Terão seus méritos, mas me parecem indivíduos um tanto quanto ocos.
Conspiracionismo
Tenho uma amiga que fazia anos que eu não via. Dia desses nos reencontramos. Conversa vai, conversa vem, depois dos patati e patatá, ela solta a pergunta:
– Você se vacinou?
– Vacinou? Contra o quê?
– Contra a covid.
– Ah, claro! Tomei as quatro doses assim que saíram na praça.
– Pois eu não me vacinei – me diz ela.
– Não? E por que não?
– Sou antivacina.
– Hã? Antivacina? Você está brincando, né?
– Brincando nada. Você não percebeu que essa história de covid é um grande engodo? Pra começar, essa epidemia não foi tão séria quanto a mídia quer nos fazer crer, foi bem mais suave. Não morreu tanta gente assim, só pessoas que já tinham doenças graves. Tanto a covid quanto a vacina fazem parte de uma grande conspiração para diminuir a população do planeta!
– Não posso imaginar que você acredita nessas teorias conspiracionistas.
– Veja bem: todos os que se vacinaram acabaram pegando a doença. Quer prova maior?

Estonteante, não? Em pleno 2023, quase quatro anos depois que a epidemia surgiu, tem gente negando que ela tenha existido. E garantindo que tudo não passou de uma tentativa de diminuir a população do planeta. Barbaridade!
Eu sabia que havia algumas bolhas de indivíduos conspiracionistas, mas não imaginei ter um espécime a meu redor.
E olhe que a amiga em questão não é uma pessoa atrasadona. Já está na idade madura, casou, teve filhos, descasou, viajou muito, morou em três ou quatro diferentes países, fala línguas, continua viajando duas ou três vezes por ano para passar uns tempos com uma filha que vive num país da Ásia Central, daqueles que terminam com “istão”.
Considerando esses antecedentes, percebo que ideias conspiracionistas podem germinar em qualquer um. Isso explica a quantidade de gente que segue ideias de extrema direita. Pensamentos estranhos podem ocorrer a gente normal, sem problemas, de boa formação cultural, com diploma no bolso e nome na praça.
Ignoro qual seja o mecanismo que leva a pessoa a negar a existência de fatos evidentes. Mas há muito negacionista por aí. Há quem afirme que as câmaras de gás dos campos de concentração nazistas jamais existiram. Há quem acredite que Getúlio Vargas não morreu em 1954. Há ainda quem jure que o acidente de carro que matou Juscelino Kubitschek em 1976 foi atentado.
Para qualquer fato real, sempre aparecerá quem o negue, ainda que se trate de evidência documentada, fotografada, gravada, comprovada, jurada e sacramentada. Daqui a algumas décadas, ainda é capaz de aparecer que acredite que a guerra na Ucrânia nunca existiu, que tudo não passou de escaramuças de fronteira, combates sem importância.
Nada como um dia após o outro
José Horta Manzano
Estava pondo ordem numa gaveta quando encontrei uma manchete graciosa. Foi publicada pelo Estadão em agosto do pré-diluviano 2018, num momento em que Lava a Jato, Moro e Dallagnol estavam na crista da onda. Era um tempo em que muita gente fina ainda acreditava que Bolsonaro, então em campanha, seria um presidente limpo, que acabaria de vez com a corrupção no mundo político.
Como um farol da nação, o xerife Dallagnol, hoje caído em desgraça, se permitia distribuir conselhos ao eleitorado nacional. Recomendava que “ninguém votasse em envolvidos em delações ou inquéritos”.
O mundo dá voltas. Cinco anos depois desse episódio, entalado até o pescoço sob o peso de inquéritos e condenações, Dallagnol abandonou a carreira, entrou para a política, foi eleito, acabou destituído. Continua esperneando, mas sabe-se que não terá sucesso em recobrar o mandato perdido.
Os conselhos que ele dava eram bons e continuam válidos. O chato é que o ex-procurador passou para o outro lado do espelho e agora também faz parte dos candidatos a serem evitados. Pisou no pé de muita gente e vai ser difícil se redimir.
O presunçoso que ousa dar diretivas à nação sem estar capacitado acaba se estrepando. Nada como um dia depois do outro.
O vôlei e a camisa 24
Leio a notícia e imagino que esse Arco-Íris seja um grupo esportivo exclusivo para integrantes do espectro LGBT. Após verificação, descubro que não é bem assim.
Na coluna “Notícias recentes” do site deles, a notícia mais recente foi postada no longínquo ano 2018. Talvez outras atividades mais importantes não tenham deixado tempo livre para atualizar a página. Em todo caso, o site não traz nenhuma menção de atividades esportivas.
Me parece curioso ver uma associação externa ao vôlei (e ao esporte) recorrer à Justiça para tentar impor sua visão de mundo a uma modalidade esportiva tão popular como o vôlei. Pior que isso, me parece hipócrita ver uma juíza tomar satisfações da Confederação de Vôlei quanto à não atribuição da camiseta n° 24. No Brasil, todo o mundo sabe muito bem por que razão nenhum esportista deseja vestir uma camisa com esse número: é que todos fogem ao constrangimento.
Se o grupo Arco-Íris decidisse montar um time de vôlei em que todos os jogadores ostentassem o n° 24, que o fizessem: seria parte das liberdades de toda associação. Quem não estivesse de acordo não se associaria. Até aí, tudo perfeito.
Agora, que acionem a Justiça para requerer que a CBV obrigue seus jogadores a ornamentar a camiseta com um signo que os estigmatizaria me parece uma violência.
Que um juiz acolha o pedido abusivo e lhe dê sequência é ainda mais inquietante. A judicialização do dia a dia do brasileiro sobe a níveis cada vez menos suportáveis.
Está aí a Polícia dos Costumes mais uma vez em ação.
Quem te viu, quem te vê ‒ 3
Saiu hoje no Diário Oficial a indicação de Cristiano Zanin para preencher a vaga aberta pela aposentadoria de Ricardo Lewandowski. Como é de conhecimento geral, Zanin é amigo pessoal do presidente Lula da Silva. Vem defendendo o atual presidente desde há muitos anos, tendo notadamente enfrentado o auge dos processos da Lava a Jato. Um amigo valioso.
O jornalista Lauro Jardim lembrou, em sua coluna n’O Globo, da declaração feita por Lula durante a campanha eleitoral de seis meses atrás. Quando de um debate na Band, o ora presidente foi veemente:
“Estou convencido que mexer na Suprema Corte para colocar amigo, para colocar companheiro, para colocar partidário é um atraso, um retrocesso que a República brasileira já conhece muito bem. Eu sou contra.”
Não diga! É contra mesmo?
O distinto está surpreso? Pois não devia. Nesse particular, Lula é reincidente. Durante seus primeiros mandatos, já tinha incorrido no mesmo pecado ao indicar para o STF seu amigo Ricardo Lewandowski.
Na época, muitos criticaram a escolha, não tanto pelo nepotismo explícito como pelo fato de o indicado não ser dono de notável saber jurídico como exige a Constituição. Passou na sabatina assim mesmo.
Zanin, o atual indicado, tampouco é personagem carregado de diplomas. Vai passar do mesmo jeito.
Afinal, estamos no Brasil, país onde a palavra de um figurão público vale menos que um bilhete corrido.
Crime perfeito
De trás pra diante
Os fatos da vida costumam fluir numa direção dada. Em princípio, as coisas evoluem do começo em direção ao fim, não ao contrário.
Me lembro de um filme engraçado – O curioso caso de Benjamin Button –, estrelado por Brad Pitt e Kate Blanchett, lançado no Brasil em 2009. Contava a história de um indivíduo que nascia velhinho e, conforme passavam os anos, ia aos poucos rejuvenescendo até morrer sob a forma de um recém-nascido. Uma vida de trás pra diante, em suma.
No cinema, pode tudo. Na vida real, é mais usual os fatos fluírem do começo em direção ao fim.
O percurso das palavras não escapa a essa lógica. Diferentemente do que muita gente imagina, não são os dicionários que inventam ou dão vida a palavras novas. O caminho é exatamente inverso: é só depois de surgirem e de se popularizarem que as palavras entram para o dicionário. O “pai dos burros” não faz mais que registrar expressões e termos já consagrados pela fala popular.
Pois tem gente que acha que é possível inverter a lógica. Em vez de seguir o caminho habitual uso popular → dicionário, tentam arrevesar para dicionário → uso popular.
Explico melhor. Fiquei sabendo de uma campanha lançada por SporTV e Pelé Foundation. A intenção é pressionar os dicionários a registrarem Pelé como palavra comum (substantivo e adjetivo). Sem-cerimônias, os autores da petição dão até as acepções que gostariam de ver registradas:
1. Maior que todos os outros.
2. Referência de grandeza.
3. Inigualável.
4. Sinônimo de excelência.
5. Único.
E enumeram as razões que embasam a escolha de Pelé:
1. Maior de todos
2. É considerado o maior brasileiro de todos os tempos
3. Uma lenda e recordista de gols e títulos
4. Foi responsável por parar uma guerra na África
5. Possui títulos e medalhas além do futebol
Que Pelé foi um grande jogador, quiçá o melhor do mundo, ninguém discute. Que marcou gols e ganhou títulos e medalhas, me parece natural, visto que jogava como atacante. Agora, que tenha sido “o maior brasileiro de todos os tempos”, eu diria que a concorrência é rude. Com tantos heróis e heroínas que povoam nossa história, pode ser que haja alguma controvérsia.
Mas o mais curioso nessa campanha é tentarem inverter a ordem natural das coisas. Não é comum a gente consultar o dicionário para, só em seguida, começar a usar uma palavra nova. É o contrário que costuma acontecer. Assim, me pergunto qual seria a utilidade de um verbete Pelé (pelé, na verdade).
No dia em que o termo entrar de verdade na linguagem corrente, pode deixar: dicionaristas hão de introduzi-lo na próxima edição. Não precisa nem de abaixo-assinado.
Tem boi na linha
Lá pelo fim dos anos 1950, foi lançado o filme nacional “Tem boi na linha”, estrelado por Zé Trindade. Era uma chanchada – comédia leve e despretensiosa filmada em estúdio sem cenas externas, produzida com orçamento modesto.
Perto de minha escola, havia um cinema. Pela janela escancarada, dava pra ver o que estava passando: “Tem boi na linha”. Na fachada, o letreiro em letras enormes. Ao ler o nome do filme, nosso professor de Português, um mestre rigorista, escandalizou-se. Não entendia como tinham ousado pôr no título um linguajar tão vulgar. No seu entendimento, tinha de ser “Há boi na linha”. Outros tempos.

Lembrei do caso estes dias ao ler a notícia de caranguejos que atravessaram a pista do aeroporto de Vitória do Espírito Santo e causaram momentânea interrupção de pousos e decolagens. Primeiro, um avião avisou à torre que “um monte” de caranguejos estavam na pista. Ato contínuo, a torre deu ordem de arremeter a um aparelho prestes a pousar.
Inspecionada a pista, descobriu-se que havia um só caranguejo. O crustáceo foi retirado e a movimentação de aviões pôde reiniciar. No avião que teve de arremeter, os passageiros foram informados do que tinha acontecido e riram muito, achando a situação engraçadíssima.
A Prefeitura de Vitória informou que o aeroporto se encontra próximo a um manguezal, o que propicia o aparecimento de algum “intruso” na pista. A meu ver, a informação foi dada pelo avesso. O manguezal já estava lá havia milênios quando o aeroporto foi construído. Os intrusos, portanto, são os humanos, não os crustáceos. Foram os homens que invadiram território alheio sem pedir licença.
A Prefeitura esclareceu ainda que estamos no período de reprodução dos caranguejos – época chamada “andada”. É quando, seguindo o próprio instinto, se deslocam todos na mesma direção, para copular no lugar adequado. Se o Brasil já tivesse chegado a um bom nível de consciência ecológica, a reação dos passageiros não teria sido tão hilária. O fato de ter sobrado só um caranguejo na pista pode indicar que o grosso da colônia já tinha atravessado.
Não tenho condições técnicas de aconselhar os responsáveis pelo aeroporto, mas acredito ser possível abrir uma passagem para os caranguejos. Por cima da pista não se pode, mas por debaixo, um túnel, quem sabe. Não custa dar uma mãozinha para perpetuar a espécie e evitar acidentes na pista.

No mundo todo, pistas asfaltadas e linhas de trem formam barreira intransponível para a passagem de animais (grandes e pequenos). Para evitar mortandade pelas estradas, cada ponto crítico vem recebendo solução adequada.
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Surrealismo
No tempo em que anúncio se chamava reclame e jornais eram impressos em preto e branco, o anunciante tinha de espremer a imaginação para tornar a mensagem marcante. Não havia chegado a era de consumo. Os anúncios se limitavam a apregoar objetos úteis, do dia a dia. Boa parte deles promoviam remédios.
A ausência de cor exigia expressividade no desenho. Para ilustrar uma propaganda de fortificante, a imagem mostrava um indivíduo magro, esquelético, descarnado, exageradamente subnutrido.
A ilustração de uma loção para cabelo trazia uma figura feminina com cabelos compridíssimos, chegando à cintura.
O Elixir Doria (marca registrada!), que se apresentava como “o rei dos preparados para estomago figado, intestinos”, deu preferência a uma ilustração surrealista, como se pode ver na imagem acima. Intui-se que o senhor bem-posto do desenho tenha engolido um carneiro (ou um bode) inteiro, começando pelas patas, só faltando a cabeça e os chifres.
O desenho é tão assustador, que fica no ar a pergunta: será que algum paciente se animou a correr à “pharmacia” pedir esse elixir?
O Elixir Doria foi anunciado na segunda metade dos anos 1930. É interessante que, com 80 anos de antecedência, mencionasse o nome de dois políticos de nossos dias: João Doria e Michel Temer.
De fato, Doria aparece já no nome do remédio. E um “não a Temer” está visível entre os chifres do bode (ou carneiro).






























