Brasil x México

José Horta Manzano

Lula caricatura 1Abusando de seu senso inato para a delicadeza e para a diplomacia, nosso guia fez recentemente sutil pronunciamento repercutido pelo diário mexicano El Economista.

Declarou que, enquanto o Brasil é uma realidade econômica, o México não passa de uma promessa.

El Economista não hesitou em destilar a frase e fazer dela o título do artigo: «Brasil se envaidece de seu passado; México, de seu futuro».

Bateu, levou.

A ousadia

José Horta Manzano

Ainda que muitos não liguem a mínima pra isso, bato pé firme: não aceito que o meu País se transforme em esconderijo de bandidos, fugitivos de Justiça ou párias internacionais. Já bastam nossos bandidos, nossos fugitivos de Justiça e nossos párias nacionais. Já temos Dirceus e Malufs em quantidade suficiente. Chega, obrigado.

Uma coisa é dar abrigo a perseguidos por razões de raça, de etnia, de religião, de orientação sexual, de opinião política. Outra coisa, bem diferente, é acolher bandidos e fugitivos de Justiça. Coração de mãe não é covil de malfeitores.

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O Brasil mudou muito de uns 5 ou 6 anos pra cá. A economia já não vai tão bem quanto ia, é verdade. Apesar disso ― ou, talvez, por causa disso ― o povo parece ter aberto um olho. Se a proposta de acolher uma futura Copa do Mundo tivesse de ser tomada agora, em 2014, é duvidoso que fosse aceita.

Briga 2O povo descobriu que tem dirigentes. E os dirigentes se deram subitamente conta de que não vivem em círculo fechado. Perceberam que têm um povo por detrás e que essa gente pode até ― ora, vejam só! ― cobrá-los por seus feitos e malfeitos. Francamente, o mundo está de ponta-cabeça.

Pela primeira vez na história dos campeonatos mundiais de futebol do pós-guerra, o Chefe de Estado do país-sede não dirige palavras de boas-vindas aos participantes. Nada, nenhuma saudação! Três pombas se encarregaram de acolher zilhões de telespectadores de olho colado na telinha. Que vexame! Podiam ao menos ter integrado no magro espetáculo de dança uma coreografia de saudação ao mundo. Ficou demonstrado que nossos dirigentes temem o povo.

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Que é que tem acontecido no mundo? No plano internacional, Chávez desceu sete palmos, Ahmadinedjad foi varrido pra fora da arena e nossos belicosos vizinhos de parede ― atolados em problemas ― andam meio apagados. Do lado de cá das fronteiras, o Lula se foi, o Amorim foi mandado pra escanteio, o ‘top top’ Garcia se recolheu à sua insignificância. Dona Dilma está mais é preocupada em se manter de pé num momento em que todos tentam puxar-lhe o tapete.

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O nome do senhor Glenn Greenwald, empresário, advogado e jornalista americano, é bastante conhecido no Brasil. Todos o conhecem por ter anunciado ao mundo que os EUA tinham meios de espionar o planeta.

Briga 3Não foi, digamos assim, uma revelação de capital importância. Todos já sabiam disso. Há certas verdades sobre as quais é melhor manter a boca calada. Sabe Deus por que razão, Greenwald passou por cima dessas conveniências. Julgando-se dono da virtude, houve por bem botar a boca no trombone e proclamar bem alto o que todos já sabiam. Causou alguma marolinha, mas nada que abalasse o equilíbrio do planeta. O maior prejudicado foi ele mesmo.

O que menos gente conhece é o passado errático, movimentado e sulfuroso do jornalista. Poucos sabem que já foi até proprietário de um site pornográfico ― atividade pra lá de malvista em sua terra de origem. E que não se justifique como «erro de juventude»: foi 12 anos atrás, quando o advogado já tinha 35 aninhos. O gajo é useiro e vezeiro em matéria de desacato a seu próprio país.

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O senhor Greenwald concedeu entrevista estes dias ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Ele reivindica que o Brasil dê asilo a Snowden ― aquele maluquinho que andou roubando informações secretas de seu país e, procurado por todas as polícias do mundo, há um ano se encontra encurralado nas estepes russas.

A certa altura, o jornalista preconiza que o Brasil ofereça abrigo a Snowden. Segundo ele, «o Brasil não deve ter medo de deixar os EUA zangados, e acho que qualquer país independente vai acolher o Snowden. Na Europa, os países são muito submissos aos EUA e jamais vão fazer algo que os EUA não queiram. A questão é se o governo brasileiro é independente, mesmo.»

Briga 4Inacreditável! Um estrangeiro atreve-se a lançar desafio às autoridades brasileiras! Justamente um forasteiro que vive em nosso território em situação análoga à de um asilado ― não ousa voltar à sua terra por medo de ser preso.

A que ponto chegamos! A escalada da agressividade continua. Hoje, qualquer um xinga a presidente da República, ameaça de morte o presidente do STF, acusa a Justiça de parcialidade, destrói patrimônio público ou privado, e fica por isso mesmo.

Agora temos o que faltava. Um estrangeiro, que, embora esteja sendo aqui acolhido «de favor», ousa desafiar as mais altas autoridades da República com algo do tipo «vamos ver se você é homem».

É insuportável.

Frase do dia — 148

«Lula e Xuxa têm algo em comum além das vogais. Ambos foram personagens com apelidos incorporados a seus nomes, utilizados na construção de um império de entretenimento. O oportunismo nas alianças e na exposição. A ascensão e a riqueza estonteante, a carreira e os vínculos internacionais, a campanha irônica na gangorra real brasileira entre violência e educação.»

Genilson Albuquerque Percinotto, in Tribuna da Internet 12 jun° 2014.

Frase do dia — 147

«Impossibilitada de colher os louros de uma organização à altura das promessas feitas sete anos atrás pelo antecessor, Lula da Silva, Dilma opta por criminalizar o senso crítico da população em relação aos deveres do poder público e a consciência de que a realização da Copa do Mundo no Brasil não é uma dádiva merecedora de gratidão eterna.»

Dora Kramer, em sua coluna in Estadão, 13 jun° 2014.

Frase do dia — 143

«Luiz Inácio da Silva, ao ganhar a eleição em 2002, não soube perceber: a lei vale para todos e, uma vez transgredida com autorização do Estado, mais cedo ou mais tarde, a barbárie se generaliza.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão de 1° jun 2014.

Recordar é viver ― 2

José Horta Manzano

O Lula na África ― jul° 2010

O Lula na África ― jul° 2010

No dia 9 julho 2010, o site especializado em esportes do portal Terra tascou uma inequívoca manchete direto de Johannesburgo. «Lula: se o Brasil não tiver (sic) pronto para a Copa, teria de voltar a nado da África.»

Em uma de suas incontáveis viagens internacionais, nosso messias havia elogiado a organização do campeonato mundial de futebol na República Sul-Africana e, aproveitando o embalo que a platéia lhe proporcionava, saiu-se com um punhado de suas costumeiras bravatas.

Surpreso, na certa, de constatar que havia aeroportos por lá e que o apartheid havia desaparecido, indignou-se de que a imprensa não conte essas maravilhas.

O Lula na África ― jul° 2010

O Lula na África ― jul° 2010

É compreensível e desculpável. Nosso líder já confessou, mais de uma vez, que não costuma ler jornais. Donde, sejam quais forem as informações publicadas, ele jamais tomará conhecimento.

Cá entre nós, nosso antigo presidente leva uma vida invejável. Dado que sua única fonte de informação parece ser o jornal televisivo, a vida deve reservar-lhe permanentes deslumbres, o que não deixa de ser extremamente positivo.

Voltando a Johannesburgo, vamos conferir a frase inteira proferida pelo então presidente do Brasil:

Interligne vertical 12«Agora, as dúvidas já começaram com o Brasil. Já começaram as perguntas hoje: será que os aeroportos vão estar prontos? Será que vão (sic) ter corredores de ônibus? Os estádios estarão prontos? Posso dizer que em 2014 se seguirmos assim teremos a quinta melhor economia do mundo… Se o Brasil não tiver condições [para receber a Copa], teria que ir embora a nado da África…»

Da Cidade do Cabo ao Rio de Janeiro, são 6 mil quilômetros. Falta escolher a cor da sunga.

Um partido fascista

Sebastião Nery (*)

MUSSOLINI
Em 1922, na Itália, Benito Mussolini dizia-se um “líder socialista”. Criou seus camisas negras, seus grupos de assalto, os Fascio, organizou uma Marcha Sobre Roma, recebeu plenos moderes do Parlamento, prendeu seus antigos companheiros Antonio Gramsci, Silvio Pelico, matou milhares, criou o Movimento Social Italiano tendo como pedra angular a “unicidade sindical”, impôs à Itália o regime fascista e se aliou a Hitler. Deu no que deu.

Fanfarrão como o Lula, acabou pendurado de cabeça para baixo, berrando como um bode imundo, em um posto de gasolina.

Charles Chaplin in O Grande Ditador, 1940

Charles Chaplin in O Grande Ditador, 1940

LULA
Lula começou a pôr as unhas de fora. Apareceu como um inofensivo líder sindical, retirante protegido pelo delegado legalista Romeu Tuma, agarrado às batinas da Igreja e às botas do general Golbery. Tantos de nós, direta ou indiretamente, de uma forma ou de outra, o ajudamos.

Fascismo 1Criou o PT, o “Partido dos Trabalhadores”, como se só eles fossem trabalhadores, e a CUT, a Central “Única” dos Trabalhadores, como se só ela representasse os trabalhadores. Era a repetição da “unicidade sindical” de Mussolini.

De repente, Lula convocou o PT a ser um partido fascista sob o comando de seu presidente Rui Falcão ― indisfarçado teórico fascista ― e a “sair para a guerra, guerra total a quem ameaçar a conquista da hegemonia em torno do nosso projeto de sociedade”.

HEGEMONIA
Em política, em matéria de conquista de poder, hegemonia está com toda simplicidade muito bem definida pelo saudoso mestre Houaiss:

Interligne vertical 15Hegemonia: Supremacia ou superioridade cultural, econômica ou militar de um povo… supremacia, influência preponderante… autoridade soberana… liderança, predominância ou superioridade”.

É toda a base do fascismo.

Antes, o PT rosnava. Agora, já começaram a morder. Na TV, o deslumbrado baiano aprendiz de Goebbels (chefe da propaganda de Hitler) João Santana apela para o mais escrachado terrorismo querendo fazer do medo o centro das próximas eleições.

Com Dilma derrapando toda semana nas pesquisas, vaiada toda vez que aparece em público, só podendo mostrar a cara nos fundos do Planalto ou nos convescotes do Alvorada, eles estão com medo de perder as bocas sujas, os conselhos fajutos, as maracutaias passadenas.

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(*) Sebastião Nery é jornalista, advogado e professor. Sua coluna é publicada por jornais de 20 estados brasileiros. www.sebastiaonery.com.br/

Frase do dia — 139

«Quando a Infraero diz que vai “tapear” obras inacabadas ou o Lula chama de “babaquice” a falta de metrô, o brasileiro sente o calafrio: as decisões que influenciam a vida de todos estão nas mãos dessa gente!»

José Anibal, deputado federal, in O Globo, 21 maio 2014.

Frase do dia — 138

«Lula, por boa contingência da vida, conta com transporte terrestre e aéreo à disposição, trata da saúde no Sírio-Libanês e não enfrenta desconfortos do cotidiano.

Nada contra, desde que não faça pouco caso de quem se ache no direito de querer algo além de comida (cara) no prato, serviços públicos de péssima qualidade e apelos à gratidão eterna para um governo que se tem na conta de inventor do Brasil.»

Dora Kramer, em seu artigo Ir a pé ou ir de trem, in Estadão 20 maio 2014.

Frase do dia — 137

«O governo Lula fez uma jogada arriscada com o Irã ao tentar mediar um acordo nuclear. Imagine se a Turquia resolvesse fazer um acordo entre Argentina e Uruguai. Não tem como.»

Fernando Henrique Cardoso em entrevista concedida à Folha de São Paulo por ocasião da cerimônia em que a Universidade de Tel Aviv lhe concedeu o título de doutor honoris causa. Publicado na edição online de 19 maio 2014.

Olhar italiano

José Horta Manzano

A ANSA ― Agenzia Nazionale Stampa Associata ― é a mais importante agência italiana de notícias. Seu site apresentou, alguns dias atrás, um retrato cru dos preparativos para a «Copa das copas». Cru, mas verdadeiro, não há que contestar.

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

Crédito: Guilherme Bandeira
olhaquemaneiro.com.br

Começa contando que, a um mês do apito inicial do campeonato, o Brasil já ganhou a copa dos atrasos e do desperdício. Refere-se a obras previstas e nunca realizadas como o trem-bala Rio-SP ou o futurístico monotrilho do centro de Brasília ao estádio. Há ainda obras inacabadas, como três dos doze estádios. A isso tudo há que adicionar os custos faraônicos, que superam amplamente o que se gastou com a copas da Alemanha e da África do Sul reunidas.

O artigo pondera que, no pesado balanço, ainda tem de ser debitada a perda de nove vidas nos trabalhos de construção. Diz também que esse conjunto de trapalhadas suscitou um vasto descontentamento em muitas camadas da sociedade, gente que teria preferido ver esses fundos utilizados para melhorar serviços de saúde, instrução e transporte.

O autor explica que, quando festejou a atribuição da Copa ao Brasil, sete anos atrás, o Lula pretendia mostrar ao mundo o progresso econômico e social do País. Não podia prever a série interminável de incidentes e de acontecimentos negativos que acabaram projetando ao exterior a imagem do Brasil como gigante de pés de barro, incapaz de programar e de organizar um evento de alcance mundial.

Copa 14 logo 2Referindo-se à Copa das Confederações de 2013, o texto assinala que a competição será pouco lembrada pelo futebol e muito mais por causa das «oceânicas» manifestações de protesto contra o dinheiro público gasto por Dilma Rousseff para a Copa, enquanto os serviços públicos brasileiros não estão à altura de um País que reclama o direito de acesso ao restrito clube das grandes potências.

O articulista fecha seu escrito recordando que a torcida (em português no texto) espera que a Selecao jogue e vença a final. Mas Dilma, em constante queda nas pesquisas, terá um motivo a mais para torcer.

Quem viver verá.

Retorno de investimento

José Horta Manzano

Universidade de Salamanca

Universidade de Salamanca

A participação americana na Primeira Guerra marcou o début do país na cena internacional, até então dominada pelos grandes impérios europeus com destaque para Reino Unido e França.

Com sua intervenção decisiva na Segunda Guerra, os EUA reafirmaram sua preeminência bélica, econômica e política. Para que um ganhe, é preciso que outro perca ― assim funciona o mundo. À ascensão dos Estados Unidos, correspondeu forte degradação da influência dos impérios.

Como corolário ao aumento do prestígio dos EUA, a língua inglesa cresceu em importância. A projeção da língua francesa, que reinava solitária nos contactos diplomáticos e comerciais até o início do século XX, começou a definhar. E o inglês foi, pouco a pouco, tomando seu lugar.

Universidad Salamanca 1Os anos 1960 ― e a descolonização da África ― cuidaram de dar o golpe de graça na antiga preferência pelo francês. De lá pra cá, a língua inglesa se firmou como veículo de comunicação internacional em todas as áreas. Até no campo diplomático, onde, durante séculos, teria sido inimaginável exprimir-se em idioma que não fosse o francês. Nosso passaporte é um bom exemplo. Até os anos 1970, vinha escrito em português e em francês. Em seguida, o inglês forçou passagem.

Hoje em dia, o inglês é de facto a língua internacional. Quando duas pessoas não se entendem, é com naturalidade que recorrem ao inglês. No mundo atual, quem não conhece a língua dominante está arriscado a passar ao largo de muita coisa interessante. De tanto perder capítulos, periga não entender mais a novela.

Tudo o que eu disse aqui acima parece uma evidência, não é mesmo? Não para todos. Alguns anos atrás, a estreita franja ideológica ― um dos componentes da constelação de quereres que nos governa ― «detectou» declínio da potência americana.

Chapéu acadêmico

Chapéu acadêmico

Cheios de satisfação, nossos gurus profetizaram então que a língua inglesa sairia logo de cena. Era tremendo erro estratégico, mas a ignorância disseminada entre os medalhões do andar de cima fez que todos dessem de ombros e acatassem o raciocínio.

Ato contínuo, nosso messias anunciou que, daquele momento em diante, o ensino da língua espanhola seria privilegiado em detrimento do inglês. Quanta ingenuidade! Não se deram conta de que a potência americana não é o único sustentáculo da popularidade mundial da língua de Shakespeare. A simplicidade da gramática, a singeleza da conjugação verbal, a riqueza do vocabulário contam tanto (ou mais) que a força dos EUA para garantir ao inglês um longo reinado.

Equivocou-se quem apostou na derrocada da língua inglesa. Daqui a alguns anos, a juventude brasileira vai-se dar conta do logro. Mas nem tudo é perdido. Tem quem lucrou com essa trapalhada.

A Universidade de Salamanca (Espanha), uma das mais antigas do planeta, acaba de outorgar título de doutor honoris causa a nosso messias. Essa honraria é conferida por merecimento. A nosso antigo presidente, o colegiado de doutores de Salamanca atribuiu o mérito de ter contribuído para a educação da população brasileira(!). Em particular, foi levado em conta que, sob sua égide, foi implantado o ensino obrigatório da língua espanhola.

Interligne vertical 5Quod natura non dat, Salamantica non præstat.

O que a natureza não dá, Salamanca não empresta.

Refrão enunciado em latim. Sugere que, sem o talento natural, o estudo não tem nenhuma serventia. Quanto a mim, continuo acreditando que estudo faz muita falta.

Foi sem querer

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno tem acompanhado com grande atenção a tragicomédia que envolve a Petrobras e sua refinaria de Pasadena. É verdade que certos detalhes lhe escapam à compreensão ― por exemplo, já me dei conta de que ele não entendeu exatamente o significado da expressão inglesa “put option”.

Ontem de tarde, em pleno domingo de Páscoa, lá veio ele com mais uma de suas filosofias. Mal chegou, foi logo argumentando:

― Não entendo por que é que essa gente, em vez de se perder em considerandos, não vai direto aos finalmentes.

― Como é que é, Sigismeno? Essa gente quem?

― Estou falando da Petrobras. Essa história de dona Dilma ter assinado sem ler.

― Ah, entendi. Você fala da compra daquela refinaria americana. Bom, antes de mais nada, convenhamos, o fato de uma companhia brasileira ter comprado empresa americana é motivo de orgulho, né não? Coisa impensável trinta ou quarenta anos atrás.

― Olhe, em matéria de orgulho, preferia ficar sabendo que o Brasil subiu na classificação Pisa.

― Ok, ok, Sigismeno. Melhor virar a página, que não vale a pena discutir por tão pouco. De que considerandos você estava falando?

Petrobras 2006: os mandachuvas Lula, Dilma, Gabrielli e o diretor atualmente encarcerado. Foto Ed.Ferreira/Estadão

Petrobras 2006: os mandachuvas Lula, Dilma, Gabrielli e o diretor atualmente encarcerado.
Foto Ed.Ferreira/Estadão

― Pois veja só. Mais de um bilhão de dólares ― do nosso dinheiro! ― foram atirados pela janela, não foram?

― É o que dizem. Justamente, uma Comissão Parlamentar de Inquérito está sendo montada para averiguar. Cabe a ela estabelecer a verdade.

― Pois é com isso que não concordo ― atalhou Sigismeno.

― Não quer que a verdade seja apurada, Sigismeno?

― Não é isso. Não acredito que CPI resolva. Função de parlamentar não é investigar, é legislar. Além do que, o Congresso é constituído de facções, confrarias, grupos de interesse. Cada um puxa a brasa pra sua sardinha. Uns fazem força pra acelerar, enquanto outros tentam bloquear. Não é o lugar adequado, não é tribunal.

― E qual seria a solução? Não vá me dizer que tem de chamar a polícia.

― A polícia? Não, não é o caso. Quem tem de agir é a Justiça.

― A Justiça? Mas por quê?

― Porque há forte suspeita de crime, ora. Enquanto o País inteiro está entretido a cogitar se o relatório que dona Dilma diz ter recebido era ou não omisso, estamos passando ao largo do que é realmente importante.

― E, segundo você, o que é importante, Sigismeno?

― Ora, meu caro, vejo que até você está-se deixando engabelar. Você está seguindo o rebanho sem parar pra pensar.

― Agradeço pelas gentis palavras, Sigismeno. Continuo sem saber o que é importante.

― Explico. Imaginemos que você esteja procurando comprar um carro usado. Digamos que o valor de mercado da marca e do modelo que você quer seja por volta de 25 mil reais.

― Você anda lendo meus pensamentos. Estou justamente atrás de uma boa ocasião.

― Não é disso que estamos falando agora. Se você continuar me interrompendo, não vamos chegar ao final.

― Tá bom, não fique chateado. Continue com a história do carro usado.

Petrobras 5― Pois é, digamos que você encontra um veículo dentro dos parâmetros que você tinha fixado: marca, modelo, ano de fabricação, quilometragem, cor da carroceria, número de portas. Só que, em vez de 25 mil, estão pedindo 250 mil reais. Você faz o cheque?

― Peraí, posso ser bonzinho, mas não sou completamente tapado. É claro que não vou pagar preço de carro de luxo por um calhambeque!

Estes não pagaram um bilhão. Investiram do próprio bolso.

Estes não pagaram um bilhão.
Investiram do próprio bolso.

― Pois é aí que eu queria chegar. Qualquer espírito medianamente informado entende que, quando os dirigentes da Petrobras aprovaram a compra de uma refinaria por valor dez vezes superior ao de mercado, alguma coisa muitíssimo estranha estava acontecendo. A tal cláusula que obrigava a petroleira brasileira a dobrar o investimento é secundária.

― Secundária? Não estou de acordo, Sigismeno. É justamente aí que está o nó. É exatamente nesse ponto que entra em cena a então presidente do conselho de administração da empresa ― nossa atual presidente da República.

― Cáspite! Você está tão contaminado pela propaganda oficial que não consegue mais enxergar com seus olhos! Pense um pouco. O caso do relatório «falho», se é que relatório existiu, passa por cima do principal. Com ou sem relatório, o preço da transação era conhecido por todos. Dona Dilma pode não ter ideia do valor de uma refinaria, mas a empresa cujo conselho de administração ela presidia certamente ainda contava com gente capaz de avaliar. Por que é que não o fizeram?

Petrobras 3― Sei lá eu, Sigismeno.

― Pois eu sei. Foi tudo de caso pensado. Não é possível acreditar que jogaram fora nosso dinheiro por terem sucumbido ao encanto dos olhos do antigo proprietário da refinaria. É muito dinheiro. Nalgum lugar foi parar.

― É difícil acreditar.

― Era. Era difícil. O inimaginável tem virado rotina no Brasil de hoje.

― Não deixa de ter razão, Sigismeno. Mas por que não deixar que a CPI faça seu trabalho?

― Porque não vai dar em nada, já lhe disse. Alguma entidade de peso ― OAB, partido político, grupo de congressistas ― teria de apresentar denúncia diretamente à Justiça. Em terras mais civilizadas, isso já teria sido feito. Quem desvia um bilhão de dólares de um povo carente de cuidados básicos não pode safar-se com um «desculpe, foi sem querer».

Com unhas e dentes

José Horta Manzano

Reportagem do Estadão deste 8 de abril informa que, para o Lula, o governo precisa defender a Petrobras «com unhas e dentes».

Não precisava nem dizer. Ninguém vai ser louco de maltratar a galinha dos ovos de ouro. Ou não?

Frase do dia — 119

by Sinfronio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

by Sinfronio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

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«Faltaram ao ex-presidente Lula e à presidente Dilma os pilares de sustentação para a Copa ser sediada no Brasil: planejamento, organização, direção e controle.»

Francisco Bendl, in Tribuna da Imprensa, 12 mar 2014.

Frase do dia — 113

«Fico feliz com as suas palavras de incentivo. Seria como se o Federer me encorajasse a jogar tênis, como se o Bill Gates me estimulasse a programar computadores ou como se o Lula me incitasse a roubar 100 milhões do tesouro nacional.»

Resposta risonha e franca dada por um jovem amigo a quem eu havia dirigido algumas palavras de incentivo. A parte final da metáfora me fez sentir o nec plus ultra da parada. Um elogio e tanto!

Cada quar com seu cada quar

Esta semana, aconteceu uma coincidência. Dois antigos chefes de Estado tiveram a ideia de fazer uma visita de cortesia a um mandatário estrangeiro.

Cada um escolheu seu par. Faz sentido. A conversa é sempre mais agradável quando se está em companhia de gente como a gente.

Cada um procura sua turma, é ou não é?

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Sarkozy & Merkel Visita de cortesia ― 28 fev° 2014 Crédito: Handout, Reuters

Sarkozy & Merkel
Visita de cortesia  ―  Berlin, 28 fev° 2014
Crédito: Handout, Reuters

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Lula & Fidel Castro Visita de cortesia Foto divulgada em 28 fev° 2014

Lula da Silva & Fidel Castro
Visita de cortesia, La Habana
Foto divulgada em 28 fev° 2014

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Palmas pra ela

José Horta Manzano

«(…) Vocês podem tentar criar qualquer conflito ou qualquer barulho ou ruído entre mim e o presidente Lula, que vocês não vão conseguir.»

Dilma Rousseff, por ocasião da entrevista coletiva concedida em Bruxelas dia 24 fev° 2014.

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Entre mim e ele? Concordo que soa muito estranho, mas assim é.

Bandeira Brasil UEQuanto ao mais, com sua habitual falta de tacto, Dona Dilma misturou estações. Confundiu Cúpula UE-Brasil ― reunião de elevado nível ― com debate na OMC, onde não costumam discursar chefes de Estado. Soltou os cachorros no lugar inadequado e na hora indevida. Chorou pitangas para auditório que esperava outra coisa.

Chegado o momento da coletiva, a plateia de repórteres já temia o pior. Todos já se perguntavam se a presidente usaria martelo, marreta ou britadeira para acariciar a língua portuguesa.

Para surpresa geral, ela encaçapou a bola sete. Ninguém esperava, sejamos honestos. É raríssimo ouvir seja quem for dizer «entre mim e ele». Pois está corretíssimo, acreditem. É uma questão de coerência gramatical.

As preposições pedem pronome na forma oblíqua. Vejam só:

Interligne vertical 12Dirigiu-se a mim.
Chegou antes de mim.
Veio até mim.
Testemunhou contra mim,
Não espere nada de mim.
Causou forte impressão em mim.
Para mim, não vale nada.
Manteve o respeito perante mim.
Por mim, está tudo bem.
sem mim, que fico por aqui.
Discutiam sobre mim.

Por que, diabos, somente a preposição «entre» escaparia à regra geral? Pois não escapa, ensina a norma culta. Entre mim e ele, sim, senhor. Quer mais inusitado ainda? Veja só: entre ele e mim. Gramaticalmente correto, sim, senhora.

Voltando à fala da presidente, há um ditado francês que diz que une fois n’est pas coutume ― um raro acerto aqui ou ali não significa que ela acerte sempre.

Desta vez, acertou. Pela singularidade do ato, sugiro uma salva de palmas pra ela. Clap, clap.

Razão dá-se a quem tem. Mas… que ninguém se engane. O malho não se aposentou. Está apenas de férias e pode voltar a qualquer momento.Interligne 18c

Se você ainda duvidar da redenção presidencial, comprove aqui:
O Globo
Jornal do Brasil
Valor Econômico
Folha de São Paulo