Reflexões sobre o poder e a tirania

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Muito tempo atrás, li um interessantíssimo artigo sobre o poder, escrito por um psicanalista argentino ‒ do qual, infelizmente, não lembro o nome – cujas considerações nunca me saíram da cabeça.

Nele, o ponto de partida para a análise era a observação de que, na maioria das línguas latinas, diz-se que um partido, grupo ou indivíduo detém o poder. E, comentava ele na sequência, basta consultar um dicionário qualquer para constatar que o principal significado do verbo deter é o de fazer parar, paralisar, interromper, sustar, bloquear, impedir. Depois de analisar as implicações psicanalíticas do desejo de tolher o outro, finalizava o artigo se perguntando se todo poder é espúrio, na própria medida que se propõe a impedir, total ou parcialmente, que outros segmentos sociais expressem sua autoridade.

Algum tempo depois da leitura, me dei conta de que também na língua inglesa o fenômeno ocorre. Seja através do verbo ‘to hold’ [que se traduz por ‘manter’, ‘deter’], seja através da frase jocosa que aparecia em uma plaqueta em cima da mesa de um presidente dos Estados Unidos: ‘The buck stops here’ [que, numa tradução literal, significa ‘o bastão para aqui’].

Hoje, pensando sobre a surpreendente aproximação entre o presidente dos Estados Unidos e o ditador norte-coreano, bem como nas inquietantes candidaturas à presidência do Brasil para as eleições de outubro próximo, essa coincidência linguística me voltou à lembrança.

Harry S. Truman (1884-1972) foi presidente dos EUA

Poder e força não são sinônimos, assim como autoridade e autoritarismo não coincidem. É inegável, porém, que nos círculos políticos de lá e de cá, muitos se esforçam por seduzir a plateia, tentando fazer crer que há plena sobreposição desses conceitos. Insanidade ou ilusionismo, tanto faz. O mais apavorante é que a bravata encontra eco na doentia sociedade do século 21: um número crescente de cidadãos vem demandando poder cada vez mais absoluto para seus representantes. Estamos, sem dúvida, diante de uma mistura perversa de machismo, conservadorismo, militarismo e egocentrismo.

Resta entender as razões que levam a esse estado de espírito e tentar encontrar um meio de nos livrarmos dele. Tenho cá minhas hipóteses. Quem viajou para Marte nas últimas férias pode ainda não ter percebido o explosivo crescimento dos movimentos de ‘empoderamento’ (eta palavrinha feia, sô!) das minorias. Os assim chamados “millennials” parecem ter embarcado de corpo e alma num comportamento experimentalista, sem precedentes na história. Seu mote é o de ‘se permitir’ viver toda sorte de experiências, sejam elas nobres, como engajar-se em trabalhos sociais voluntários, ou cruéis, como traficar drogas ou matar moradores de rua. É a relativização absoluta dos valores morais e éticos.

Não é preciso ter pós-graduação em psicologia ou psiquiatria para entender que isso provoca profundo desconforto e angústia em quem não se permite afrontar o próprio código de valores. Daí a secretamente desejar contar com um líder tirânico que se mostre capaz de calar em definitivo os que lutam por essas “liberdades” incômodas é só um passo.

No quesito, somos campeões. Basta lembrar das polêmicas que frequentaram o noticiário nos últimos meses: cura gay, escola sem partido, intervenção militar já, não à descriminalização do aborto e das drogas, manutenção do ensino religioso em escolas infantis públicas, militarização da segurança pública, desqualificação do conceito contemporâneo de família, desqualificação dos crimes de racismo em favor do enquadramento como simples injúria racial, e por aí vai. O inferno – não o céu ‒ é o limite para a ânsia de controle dos divergentes.

Uma chamada que encontrei por estes dias na internet chamou minha atenção por explicitar com humor esse fenômeno, ainda que, no original, se referisse apenas a um ministro do STF famoso por libertar corruptos: “Na septicemia, escolhe o lado das bactérias”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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