Ditadura “de esquerda” ou “de direita”

José Horta Manzano

Faz tempo que me pergunto como é possível um contingente de cidadãos darem crédito ao capitão e se disporem a votar nele.

Pra não deixar ninguém enciumado, me pergunto também como é possível que tanta gente acredite no Lula e se disponha a votar nele.

Depois dos males que esses dois já causaram no passado, no presente – e da ameaça que representam para o futuro do país –, não há mais o que provar. Não precisa fazer um desenho. Seja qual for dos dois, é desastre anunciado.

Com o antigo presidente, tivemos corrupção explícita e partição do país em categorias de indivíduos classificados conforme a cor da pele. É culpa dele se o Brasil caminha perigosamente para se transformar em república racialista, um tipo de sociedade em que cada habitante tem forçosamente de se encaixar numa etiqueta: ou é branco ou é negro, sem nuance. (Alguém pensou nos extremo-orientais?) Antes da ascensão do lulopetismo, nosso país era colorido; depois da passagem dos ‘barbudinhos’ pelo poder, retrocedemos à era do preto e branco.

Com o atual presidente, temos corrupção disfarçada de “orçamento secreto”, rachadinhas e partição do país em categorias de indivíduos classificados conforme a ideologia ou a religião. Bancadas religiosas no Congresso, presidente que se ajoelha diante de bispo autossagrado, orçamento secreto com bilhões distribuídos aos amigos do rei, presidente considerado persona non grata no mundo civilizado – estão reunidos todos os ingredientes da perfeita republiqueta de bananas.

Um dos dois apoia ditaduras sanguinárias ditas “de esquerda”; o outro apoia ditaduras sanguinárias ditas “de direita”. Se algum arguto leitor souber qual é a diferença entre uma ditadura “de esquerda” e uma “de direita”, que levante a mão. Ou que mande uma cartinha para a Redação.

Este blogueiro considera que qualquer ditadura é regime autoritário e liberticida que opera para transformar os habitantes em autômatos, gente sem criatividade, sem esperanças, sem ânimo, sem iniciativa e sem futuro. Quando se trata de ditadura, “de esquerda” ou “de direita” são etiquetas que não fazem sentido.

Que diferença há, no espectro político, entre um Hitler e um Stalin? O primeiro prometeu o paraíso a seu povo e o obrigou a ser massacrado sob bombas caídas do céu. O segundo prometeu o paraíso a seu povo e o obrigou a ser massacrado por tanques de guerra vindos do Oeste, sendo que os poucos cidadãos que sobraram foram despachados para o desterro na Sibéria.

Entre um Nicolas Maduro (Venezuela) e um Bashar El-Assad (Síria), quem é “de direita” e quem é “de esquerda”? E que diferença faz, se ambos condenam o próprio povo ao extermínio – um pela fome, o outro pelos gases asfixiantes?

Tudo o que o Brasil não precisa é de presidente apoiador de ditadura nem de presidente conivente com esse tipo de regime. Tanto Bolsonaro quanto o Lula propõem que o país continue eternamente mergulhado num passado de atraso.

E ainda tem gente que se dispõe a apoiar um ou outro desses dois. Como é que pode?

Avaliação

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Em numerosos momentos da vida, a gente é obrigado a provar que está apto para ser admitido em determinado círculo ou confraria. Em meu caso pessoal, a lembrança mais antiga que me ocorre é a da primeira comunhão. Antes de subir ao altar para abrir a boca e receber a hóstia, era preciso seguir um cursinho preparatório, que a gente chamava de Catecismo. Sem isso, nada de festa, nada de mesa de doces, nada de foto de fotógrafo e, principalmente, nada de hóstia.

Depois dessa, em muitas outras ocasiões tive, como qualquer cidadão, de demonstrar que estava preparado para a empreitada. Quem quer entrar na faculdade tem de ser aprovado num exame, seja qual for o nome que lhe atribuírem: Enem, vestibular ou outro. No mundo todo é assim. Curso superior não recebe qualquer um. O postulante tem de ser aprovado, seja pelo currículo escolar, seja por um exame de entrada.

Para assumir um emprego, o ritual é o mesmo. Currículo, entrevista, avaliação. Quer o processo se desenrole à antiga, com currículo batido à máquina em papel almaço e entrevistador cara a cara, quer decorra em modo covid, com troca de emails e entrevista por skype, o negócio é o mesmo: todo candidato entra num funil que só vai deixar passar os melhores.

E assim por diante. Candidatos a uma imigração, a um visto consular, a uma naturalização, a uma bolsa de estudos, a uma promoção passam necessariamente por uma seleção em que serão avaliados. Na hora de tirar carteira de motorista, por exemplo, ninguém escapa de passar pelo exame.

Já disse isso em outras ocasiões, mas quero repetir aqui. Digamos que o distinto leitor queira se candidatar a um emprego, seja ele de doutor ou de operário. Nenhum empregador o acolherá assim, de mão beijada, sem verificar sua aptidão para o cargo. Esse ritual não espanta ninguém. Todos nós o encaramos com naturalidade.

A cada quatro anos, é hora de escolher o presidente da República. A lei especifica certas condições para se candidatar. Idade, nacionalidade, filiação partidária estão entre elas. Mas não há nada que lembre, nem de perto nem de longe, um exame básico de avaliação, nem que fosse pra verificar se o indivíduo bate bem da bola.

Assim, quem pretende dirigir um Renault Kwid tem de passar obrigatoriamente por um exame de avaliação que ateste sua aptidão pra não sair por aí dando trombada e ameaçando a vida dos outros. No entanto, aquele que pretende dirigir o Brasil pode se candidatar sem problema, sem exame, sem avaliação. Se eleito (por um povo que não teve como avaliar sua aptidão), estará livre pra sair por aí dando trombada em Deus e o mundo e ameaçando a vida da população.

Esses problemas, que parecem piada, ocorreram na era Bolsonaro. O capitão saiu dando trombada e entrou em colisão com a China, a França, a Alemanha, a Noruega, a Argentina, o Chile, os países árabes. Com seu negacionismo destrambelhado, ainda ameaçou a vida da população brasileira. Aliás, não só ameaçou: executou a ameaça.

Até ontem, a instauração de um exame de avaliação de candidatos à Presidência da República podia parecer ideia de maluco, um atentado contra os costumes da República, uma exigência estapafúrdia e inútil. Agora, depois do furacão bolsonárico, tornou-se necessidade tangível.

Suas Excelências têm a obrigação urgente de completar a legislação. O futuro da nação não pode continuar desprotegido, refém do próximo populista desequilibrado que aparecer na esquina.

Uma prova de aptidão tem de ser exigida de todos os que se candidatarem a dirigir os 212 milhões de brasileiros. Pelo menos uma avaliação de saúde mental levada a cabo por um colégio de doutores qualificados.

Se tivéssemos tido um dispositivo desse tipo, o país não estaria sendo destruído por um destrambelhado. O Brasil não aguenta outro Bolsonaro.

Quer enganar quem?

São Jorge
padroeiro da Inglaterra, da Geórgia, de Veneza, de Barcelona

José Horta Manzano

Os cidadãos que aderem a uma comunidade neopentecostal são bem-intencionados. Costumo compará-los aos cristãos de dois milênios atrás, que, correndo risco de vida, seguiam os apóstolos e os profetas da nova fé.

Os primeiros cristãos não eram iluminados. Eram pessoas desgostosas da devassidão nos usos e costumes da época, que procuravam um caminho puro para a salvação da própria alma.

Essa fuga da depravação tem sido o motor de cisões, tanto no seio do cristianismo como em outras religiões. A Reforma – o grande cisma do cristianismo do século 16 – é bom exemplo.

Voltemos a nossos neopentecostais, mais conhecidos como evangélicos. As insistentes acusações de enriquecimento ilícito feitas a alguns bispos e apóstolos menos escrupulosos não devem ser estendidas aos fiéis. A cupidez de um autossagrado bispo não implica forçosamente a culpabilidade do rebanho. Além disso, tenho certeza de que nem todos os chefes são encharcados de avidez ou de cobiça.

Se os evangélicos aderiram em peso a Bolsonaro em 2018, foi justamente porque ele encarnava o herói puro e disposto a combater o bacanal em que se haviam transformado os altos círculos da República. Era um São Jorge descido dos céus, com lança e cavalo, pronto a aniquilar o mal, restaurar o bem e repor o país de volta nos trilhos. Em peso, votaram no capitão.

Pouco inteligente, o atual presidente acreditou (e, ao que parece, continua a acreditar) que uma imersão no Rio Jordão, uma genuflexão diante de um bispo evangélico e uma visita a um e outro templo bastassem para satisfazer a clientela neopentecostal. Incapaz de lidar com os conceitos de aparência e de realidade, o capitão não se dá conta de que seu comportamento não condiz com a simpatia que diz ter pela fé e pelos ideais do eleitorado evangélico.

Passear de jetski e dançar funk cercado de mulheres em trajes menores enquanto infelizes baianos e mineiros eram castigados por mortíferas enchentes foi atitude escandalosa para os brasileiros. Para o contingente de evangélicos que ainda conservavam um restinho de crença no ‘São Jorge’ caipira, foi ultrajante.

A torrente de palavrões que jorra da boca do presidente a qualquer tempo e em qualquer ocasião é ofensiva para ouvidos comuns. Para ouvidos evangélicos, há de ser nefanda, insuportável, abominável.

Não é surpreendente que cada nova pesquisa mostre a erosão da popularidade do capitão no segmento que um dia aderiu em peso a sua candidatura.

Os neopentecostais não são um bloco de parvos que nada escuta e nada enxerga além da palavra do pastor. Longe de serem extraterrestres, são gente normal, que leva vida normal, que age normalmente. Dormem, acordam, comem, trabalham, conversam, se deslocam, viajam, se informam como todos os demais.

Têm uma visão mais rigorosa do que deve ser o comportamento do homem na sociedade – e é aí que a porca torce o rabo. O comportamento do capitão está a anos-luz da fé que ele diz professar. Uma coisa não bate com a outra; e a dissonância é tão flagrante, que não escapa a ninguém.

A conclusão, não é difícil tirar. Três longos anos de Bolsonaro no topo da República nos ensinaram que o personagem é assim, não mudou até hoje, não mudará nunca. Será sempre boca-suja (muito suja!), mentiroso, não-confiável, vingativo, nepotista, ocioso. São defeitos que batem de frente com a fé evangélica. Fiel nenhum quer ter como dirigente máximo um indivíduo com defeitos de tal maneira contrários à sua doutrina.

A consequência é evidente. O capitão não engana mais ninguém. Para os que apostam na subversão, na violência e na anarquia, ele continua sendo o candidato ideal. Já o apoio dos evangélicos, atualmente em erosão, tende a se liquefazer.

Bolsonaro periga chegar à eleição com um balaio de votos ainda mais magro que hoje.

La crevette de Bolsonaro

José Horta Manzano

Aproveitando o gancho da mais recente hospitalização de Bolsonaro, Aitor Alfonso, cientista político franco-espanhol, publicou artigo na revista Slate. O texto, bem-humorado e repleto de trocadilhos, lembra os grandes deste mundo que foram vítimas de acidente devido a um alimento ou a uma bebida. Vamos lembrar alguns deles.

O bretzel de Bush
Faz exatamente 20 anos, o presidente Bush (filho), deitado no sofá, assistia a um jogo de fotebol americano. Displicente, pegou um bretzel – aquele biscoito seco e salgado, de forma trançada. Logo na primeira mordida, engasgou. O sufoco foi tamanho, que seu ritmo cardíaco sofreu baixa súbita e o presidente, atordoado, caiu de cara no chão. Perigou empacotar ali mesmo, mas teve sorte: escapou com um “galo” azul abaixo do olho esquerdo.

O curioso caso de Fidel Castro
O Líder Máximo da revolução cubana detém o record do número de tentativas de assassinato. Foram 638 atentados, todos gorados. Dificilmente essa marca será superada. Dezenas, se não centenas, dessas tentativas passaram pelos alimentos ou pelas bebidas. A CIA tentou por todos os modos, mas nunca conseguiu atingir o objetivo. Castro faleceu de causas naturais aos 90 anos.

O bolo do rei Adolfo da Suécia
O rei Adolfo Frederico, da Suécia, gostava muito de comer. Na terça-feira do carnaval de 1771, como preparação para enfrentar as privações alimentares que a Igreja impunha na Quaresma, ele fez uma refeição reforçada. Engoliu caviar, sopa de repolho, arenque, lagosta com chucrute – tudo regado a champanhe. Para terminar a refeição com um gosto açucarado na boca, o rei optou por uma bomba glicêmica. Comeu uma especialidade sueca chamada semla, que é servida somente no mardi gras (terça-feira de carnaval). O doce lembra um pouco nosso sonho de padaria, só que é recheado com marzipan e creme Chantilly. Um ou dois não dão dor de barriga a ninguém. Mas o rei comeu quatorze. Não deu outra: o estômago travou, ele sentiu-se mal e morreu de um AVC provocado por indigestão aguda. Os estudantes suecos o conhecem como o rei que morreu de tanto comer doce.

O copo d’água do filho do rei Francisco da França
O rei Francisco I, da França, estava em Lyon com os filhos, já adultos. Fazia um calor sevilhano daquele mês de agosto de 1536. Apesar disso, Francisco, o filho preferido do rei, resolveu fazer uma partida de jeu de paume (= jogo de palma, antepassado do tênis). Terminado o jogo, cansado e transpirado, o jovem engoliu duma vez um copo d’água gelada. Logo começou a passar mal, sentiu-se fraco e morreu dias depois. Naquele tempo, era impossível saber se a morte era acidental ou se a água continha veneno. Na dúvida, o rei acusou o infeliz que tinha trazido o copo. O homem foi condenado à morte.

O melão de Maximiliano da Áustria
Era janeiro de 1519. O arquiduque Maximiliano I, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, estava passando uma temporada de cura de saúde nos Alpes austríacos. Um dia, um bufê foi organizado em sua honra. O imperador bateu o olho nuns melões que estavam num canto da mesa. É bom lembrar que janeiro não é tempo de melão. Hoje em dia, qualquer fruta chega por via aérea em qualquer época do ano. No século 16, não era assim. Os melões que encantaram o arquiduque tinham sido conservados desde o verão anterior. Ele se jogou em cima das cucurbitáceas. Comeu tanto, que acabou sofrendo uma crise de apoplexia. Empacotou. Dizem que o pai dele, Frederico III, teria morrido por ter abusado da mesma fruta mais de vinte anos antes.

La crevette de Bolsonaro
Crevette, em francês, é nosso camarão. No capítulo bolsonaresco, o autor se diverte com o camarão não mastigado de Bolsonaro.

Ele deve ter sabido da explicação dada pelo médico, de pé ao lado do capitão, sobre o estrago que um camarão causou no tubo digestivo do capitão.

Fiquei escandalizado com a tartufaria daquela cena. Pergunto a meus botões: será que alguém está interessado nos detalhes da masticação, da deglutição e da digestão do presidente?

Falo em tartufaria ao constatar a hipocrisia dessa mise-en-scène. O Brasil está pouco ligando para o camarão assassino. O país quer que o capitão explique direitinho essa história de usar nosso dinheiro para montar um bilionário “orçamento secreto” com o objetivo de favorecer os amigos. Pouco nos importa saber dos soluços e dos engulhos presidenciais.

Molière e Machado

Jean-Baptiste Poquelin, dito Molière
(1622-1673)

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, uma proposta, não me lembro de quem, causou escândalo. Sugeria que os livros de Machado de Assis fossem reescritos em linguagem moderna, compreensível para os brasileiros do século 21.

Os que ainda conseguem entender a obra de Machado tim-tim por tim-tim ficaram de cabelo em pé. Já os que pouco leem talvez nem tenham ficado sabendo da polêmica. Não sei se a ideia foi levada adiante.

Este 15 de janeiro marca o 400° aniversário de nascimento de Molière, ator e dramaturgo, o escritor de língua francesa mais conhecido no mundo todo. A importância dele para a cultura francesa pode ser medida pelo número de palavras que seu nome legou aos dicionários: moliérien (=molieriano), moliériste (=molierista), moliéresque (=molieresco), moliérisant (=molierizante), moliérophile (=molierófilo), moliéromane (=molierômano), moliérophobe (=molierófobo).

Nascido em 1622, Molière se exprimia no estilo de seu tempo, com todos o maneirismo e os rodopios característicos daquele início de reino de Luís 14. Suas peças de teatro, escritas em elaborados versos alexandrinos (de 12 sílabas), representam um requinte nas artes cênicas.

O problema é que, compostos quatro séculos atrás, seus versos são hoje de difícil compreensão. Se os eruditos se sentem à vontade no universo “molieresco”, o mesmo não ocorre com gente comum, especialmente os mais jovens. É uma pena o cidadão pagar a entrada e refestelar-se na poltrona do teatro pra passar duas horas ouvindo uma sequência de versos e rimas cujo significado muitas vezes lhe escapa.

Há atualmente um movimento, liderado por um temerário professor de literatura, que propõe a reescritura das peças “molieranas” traduzidas para a linguagem atual. A ideia, naturalmente, aborrece os poucos que ainda conseguem captar a verve e o humor de peças escritas há quatrocentos anos. Há também aqueles que, embora não sejam especialistas nos originais de Molière, respeitam a sacralização do grande autor e preferem que não se modifique nem uma vírgula.

Ainda que alguém se arriscasse a “traduzir” alguma peça para o francês moderno, seria difícil encontrar um editor que publicasse o resultado. Mais difícil ainda, se não impossível, seria convencer um teatro a permitir a montagem e apresentação da peça.

Uma outra ideia está no ar. É a tradução simultânea, a ser afixada logo acima (ou logo abaixo) da cena, como se faz para óperas. Talvez floresça, talvez não. Quando se tenta mexer em monstros sagrados, muita gente faz corpo duro, especialmente em países orgulhosos de seu patrimônio cultural, como a França.

No caso de Machado de Assis, a maior parte de sua obra foi escrita em prosa. É matéria para livro, não para o palco. Reescrever algum livro seu e publicá-lo no lugar do original me parece um sacrilégio, um atentado à memória do autor. Já uma edição “bilíngue”, em que o texto original seja cotejado com a “tradução” em linguagem atual não me parece uma afronta à glória do autor.

Se alguma obra de Machado já não tiver sido editada nesse formato, fica a ideia.

Como termina uma pandemia?

Epidemia de peste em Marselha, 1720
by Miquel Serre (1658-1733), pintor catalão

José Horta Manzano

A pandemia de covid-19 registrou um “paciente zero”. Trata-se de um senhor de Wuhan cujo nome não foi divulgado. Pela história oficial, o homem assegurou nunca ter frequentado o mercado de peixes da cidade, lugar de onde se imaginava que a doença tivesse escapado. Fica no ar a dúvida: será que, com o homem doente, quiçá entubado, alguém realmente lhe fez essa pergunta? O coitado morreu de covid num hospital local.

Botei “paciente zero” entre aspas porque a expressão não me parece adequada. Parto do princípio que o infeliz não era uma “não-pessoa”. Portanto, se ele realmente existiu, não pode ter sido o “paciente zero”, mas sim “paciente um”. Tradicionalmente, as listas de pessoas começam do n° 1, não do zero, pois não?

Bom, para o início da pandemia, já temos um lugar certo e um momento aproximado. Mas agora como é que vamos decretar o fim da pandemia? A quem cabe tomar essa decisão? Há um bocado de gente cogitando sobre o assunto.

A Espanha deu a largada antes dos outros. Segunda-feira passada, señor Pedro Sánchez, que é o primeiro-ministro (chamado lá de presidente del gobierno), deu longa entrevista a uma emissora de rádio.

Embora não tenha dito com todas as letras, ele deixou claro que seu governo tem a intenção de abandonar a noção de pandemia e passar a considerar a covid-19 como doença endêmica. Com isso, ela passará a ser enfrentada como se enfrenta a gripe de todos os invernos. Vacina e, eventualmente, máscara: sim. Confinamento, distanciamento social e restrições de circulação: não. Será uma “gripalização” da pandemia.

É curioso que um dirigente europeu dê esse passo solitariamente, sem concertação com os parceiros da União Europeia. Bem, convém lembrar que, entre o dizer e o fazer, há boa distância. Vamos ver como evolui a situação na Espanha. Por enquanto, não se tem notícia de reação pública de outros governos da UE.

Cada pandemia tem características próprias. As do passado eram mais violentas e matavam muita gente. Higiene precária, famílias numerosas aglutinadas em pequenos cômodos e ignorância quanto ao modo de transmissão explicam. Mas as velhas epidemias tinham seu lado positivo (se é que assim me posso exprimir): ficavam circunscritas a um território. As populações praticamente não circulavam, o que dificultava o alastramento.

A peste negra, que assolou a Europa no século 14, durou 5 anos, aniquilou entre 25% e 50% da população, o que desarticulou a economia e a geopolítica.

A gripe espanhola, a mais mortífera dos tempos modernos, se espalhou pelo mundo todo, durou apenas dois anos, mas pode ter ceifado entre 20 milhões e 50 milhões de vidas. É curioso notar que as vítimas mortais estavam concentradas na faixa de 20 a 49 anos de idade.

As epidemias mais recentes são menos violentas. A gripe asiática castigou durante ano e meio (1956-1957). Correu mundo rapidamente, mas mesmo assim teve tempo de levar 2 milhões a 3 milhões para o cemitério.

A gripe de Hong Kong, que surgiu em fins de 1968, matou pouco, mas circulou pelo planeta inteiro e deixou multidões acamadas.

Hoje temos a OMS (Organização Mundial da Saúde). Cabe a eles dar as diretivas básicas para a saúde do planeta. Foi a OMS quem decretou que a epidemia de covid-19 tinha se transformado numa pandemia. Pela lógica, caberá a eles a palavra final – aquela que o planeta aguarda ansioso: a pandemia acabou.

No Brasil, no entanto, não dependemos de nenhuma OMS pra nos guiar. Desde o começo de 2020, o capitão nos ensinou que “esse negócio daí não é tudo isso que dizem”. E arrematou afirmando que não passava de uma gripezinha.


No Brasil bolsonárico, pandemia, que é bom, não houve. Portanto, não faz sentido decretar o fim de algo que não existiu. Somos um país abençoado por Deus. E bonito por natureza.


No meu governo, não tem corrupção! – 2

Estadão, 12 jan° 2022


Não tem corrupção? Peculato é corrupção ativa!


José Horta Manzano

Os dicionários informam que o crime de peculato consiste no desvio de dinheiro público para proveito próprio ou alheio, cometido pelo funcionário que os administra. Configura abuso de confiança pública.

Bolsonaro, que nunca mostrou compaixão pelo sofrimento do povo que o elegeu, não instituiu esse mimo a seus auxiliares diretos por sentir pena dos coitados que têm de sofrer horas e horas, perna encolhida, quiçá ao lado de uma empregada doméstica (que horror, Guedes!), a caminho da Disneylândia. Se instituiu essa regra, foi para garantir que os beneficiados lhe sigam fiéis, o que caracteriza desvio de fundos da nação em causa própria.

Tivéssemos instituições dignas, ele perigava perder o mandato. Corrupção não é só receber favores, é também usar o dinheiro do povo para cooptar personalidades em proveito próprio.

Peculato é crime comum. Apesar do nome bonito, é roubo. Não é crime de responsabilidade, que só dá perda de mandato. Peculato dá cadeia.

Entre os males que o lulopetismo legou ao país está um conceito distorcido de corrupção. A Lava a Jato destampou uma enorme caixa de Pandora. De lá saíram milhares, milhões, bilhões de notas verdinhas. Transportadas em valises, malas, baús – e até em cuecas – foram aterrissar em abrigos vários, uns mais seguros que outros.

Houve quem confiasse a banco suíço, ignorando que o segredo bancário no país alpino já havia sido abolido. Houve quem investisse em resort na espanhola Costa del Sol, sem saber que já existiam acordos de cooperação judiciária transnacional. Houve quem fugisse para a Itália, na ilusão de ser blindado pela dupla cidadania. Houve até quem usasse como cofre-forte um… apartamento em Salvador. Requintada falta de originalidade.

Depois de assistir a todos esses podres, o brasileiro passou a imaginar que a corrupção tinha necessariamente de envolver somas fabulosas, sempre em dinheiro vivo. Fora disso, corrupção não era.

Errado. Todo suborno – ou tentativa de suborno – entra na abrangência do crime de corrupção. Quem dá é o corruptor, o ativo; quem aceita é o corrompido, o passivo. Ambos incorrem no mesmo crime de corrupção. Apropriar-se ilegalmente de informações privilegiadas e usá-las em benefício próprio também se enquadra no mesmo conceito.

Isso visto, que não venha o capitão bater no peito e declarar que, em seu governo, não há corrupção. Um dos primeiros fatos tortos de sua gestão, do qual hoje pouco se fala, foi a vingança que ele exerceu contra um fiscal que o tinha multado por pescar em local proibido. Lembram-se?

Pois essa vingança se enquadra no quesito corrupção. Para concretizar sua vingança, o doutor teve de procurar saber quem era o fiscal, em que repartição trabalhava, quem era o chefe. São informações confidenciais, não disponíveis ao cidadão comum.

Bolsonaro valeu-se, portanto, de informações privilegiadas obtidas ilegalmente e as usou em benefício próprio. Um benefício mesquinho e maldoso, diga-se.

Se as autoridades que têm poder para tanto tivessem levantado o espectro do impeachment já naquele momento, talvez o capitão já estivesse atrás das grades e nós, o povo, não tivéssemos chegado às eleições de 2022 tendo de escolher entre a peste bubônica e o cólera-morbo.

Rivais

Chamada do Estadão

José Horta Manzano

Desde que se sedentarizaram e se tornaram cultivadores, os humanos passaram a depender da água de maneira crucial. Sem água, como é sabido, planta não cresce.

Cinco mil anos atrás, nas civilizações da Mesopotâmia, já surgiu a questão da divisão das águas para irrigar as terras de cada um. Cada povo encontrou solução adequada à abundância (ou à raridade) do precioso líquido.

Aliás, a palavra rival é da mesma família que rio, ambos derivados do latim rivus. A parentela se espalha por diversas línguas europeias: o italiano rivo, o francês rivière, o inglês river, o espanhol río. No português arcaico, dois agricultores que compartilhavam as águas de um mesmo rio eram ditos rivais. Nessa acepção, o termo desertou a linguagem comum e só sobrevive em juridiquês.

Portanto, a ideia contida no termo rival é a de dois (ou mais) dividindo a posse de algo ou de alguém. Transposta para o plano humano, temos, por exemplo, a imagem de dois homens que condividem (ou disputam) a posse da mesma mulher. São rivais. Sucumbindo às exigências da linguagem politicamente correta, que se mencione também o caso de duas mulheres que condividem (ou disputam) o mesmo homem. Também são rivais, ora pois.

Na linguagem atual, são rivais duas pessoas que brigam para chegar ao mesmo objetivo. Dois alunos empenhados na conquista do título de melhor da classe são rivais. Dois esportistas que disputam o Balão de Ouro são rivais. E assim por diante.

Terras pertencentes a rivais

O presidente Bolsonaro lançou ao ar a insinuação de que o empenho do contra-almirante Barra Torres (presidente da Anvisa) em iniciar rapidamente a vacinação das crianças só podia ser resultado de “interesses”. Todo o mundo entendeu que os tais interesses da Anvisa só podiam ser escusos, venais, inconfessáveis.

Insinuação por insinuação, digo eu que cada um costuma julgar os outros por si. Mas não sei se aqui seria o caso.

Sentindo-se publicamente injuriado, o militar escreveu belíssima e emocionante carta aberta ao presidente, na qual defendeu a própria honradez e desafiou Bolsonaro a apontar algum indício de irregularidade na gestão da Anvisa. E mandou a injunção: “Se não encontrar nada, que se retrate!”. O texto integral se encontra fácil na rede.

Até o momento em que escrevo, três dias depois da carta, Bolsonaro não se retratou. Nem apontou nenhuma irregularidade na gestão da Anvisa. Está de bico calado e com o rabo enfiado no meio das pernas feito cachorro assustado. Tudo indica que o contra-almirante ganhou a parada: o capitão, maldoso mas leviano, se estrepou. Deu com a cara no chão, como se dizia.

A chamada do jornal diz que Barra Torres passou de aliado a rival do presidente. É tolice. Rivais seriam, em sentido metafórico, se estivessem, cada um por seu lado, disputando um mesmo objetivo – a saúde da população, por exemplo.

Não é nada disso. Quando se diz que duas pessoas são rivais, está sempre subjacente a ideia de compartilhamento. No caso que envolve Bolsonaro e o contra-almirante, não é bem assim. Os dois estão em polos opostos, um de costas para o outro, sem a menor disposição para compartilhar seja o que for.

Melhor será dizer que são oponentes, opositores, adversários, contraditores. Rivais, não são.

O Papa, os filhos e os pets

Papa Francisco

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Causou espécie o recente pronunciamento do papa Francisco de que seria um sinal de egoísmo e perda de humanidade a decisão de “trocar” filhos por pets. Não sei como as palavras do papa ressoaram junto às feministas, aos defensores da causa animal ou aos católicos tradicionalistas, mas admito que esse discurso me atingiu em cheio.

Em primeiro lugar, porque nunca quis ter filhos, embora tenha contemplado muitas vezes a possibilidade de adoção e me dedicado à criação de meus sobrinhos e sobrinhos-netos. Em segundo lugar, porque há 20 anos convivo prazerosamente com cachorros e os considero essenciais para meu bem-estar psicológico. Em terceiro lugar, ainda que não menos importante, porque nunca achei que, na decisão de adotar um pet, estivesse implícita necessariamente a escolha de substituição afetiva, a ideia de não querer lidar com a criação de um filho humano. Por que não as duas coisas ao mesmo tempo?

Confesso que uma fala forte como essa, associando o amor aos animais com menos amor à humanidade me chocou por ter saído da boca justamente de um papa que escolheu o nome de Francisco – o santo protetor dos animais – para enaltecer seu pontificado.

Não pretendo absolutamente crucificar um papa que me encanta desde que assumiu o pontificado. Compreendo que, por ser o líder máximo de uma estrutura patriarcal, hegemônica e conservadoramente misógina, ele precisa moderar suas palavras para não detonar uma crise que poderia ser fatal ao catolicismo, diante da crescente influência do neopentecostalismo.

No entanto, o que me parece central na sua mensagem é que, na tentativa de conciliar visões de mundo antagônicas e não ferir suscetibilidades, Francisco acabou dando uma no cravo e outra na ferradura. Antes de mais nada, não deve ter escapado a ninguém a inoportunidade do ‘timing’ de sua fala: como desejar colocar mais crianças num mundo pandêmico, em que os recursos naturais do planeta se esgotam a olhos vistos e onde o desemprego e a fome campeiam? Mesmo entendendo que ele não poderia escapar de estimular o comando bíblico do “Crescei e multiplicai-vos’, como desconsiderar as diferenças abissais em termos de contexto político, econômico e social de cada país ou continente?

Mas os deslizes conceituais não param por aí. Voluntária ou involuntariamente, Francisco colocou em pé de igualdade conjunturas psicológicas e sociais distintas, mesmo dentro de uma mesma comunidade. Misturou, por exemplo, a opção de não ter filhos biológicos com o tema da responsabilidade social de adoção (que deveria ser contraposta mais propriamente com a crescente valorização das técnicas de fertilização in vitro ou barriga de aluguel, acessíveis apenas aos mais ricos). Me veio à cabeça na hora aquela canção satírica de Eduardo Dussek (“Troque seu Cachorro por uma Criança Pobre”) que fez muito sucesso por aqui nos anos 80.

Talvez por ser um homem idoso, Francisco não conseguiu abarcar em sua exortação as profundas diferenças psíquicas e aspiracionais de homens e mulheres, tratando como se fossem idênticos os desejos e sentimentos vinculados à paternidade e à maternidade, o que evidentemente não são nem nunca foram. Ignorou, consciente ou inconscientemente, as lutas de emancipação femininas e os dilemas éticos enfrentados por muitas mulheres ao entrar para o competitivo universo do trabalho. “Esqueceu-se” de mencionar que os cuidados com a prole sempre foram tratados historicamente como atribuição exclusiva das mulheres. Deixou de abordar os graves transtornos psicossociais derivados do abandono masculino de suas parceiras logo após tê-las engravidado e do decorrente abandono de recém-nascidos por impossibilidade de sustento financeiro.

Talvez ainda mais grave, assumiu que o desenvolvimento de um vínculo de amor entre pais e filhos é algo natural, instintivo e está inscrito mais especificamente na natureza feminina. Há um livro chamado ‘Um Amor Conquistado, o Mito do Amor Materno’, de Elisabeth Badinter, que demonstra de forma exaustiva que essa pretensa devoção amorosa incondicional da mulher a seus rebentos flutua ao sabor das épocas e das culturas. Ela narra como se dava a criação de bebês na Europa dos séculos 17 e 18: as crianças eram normalmente entregues a uma ama e levadas para um depósito na zona rural, onde eram acumuladas sem qualquer cuidado higiênico, e as que sobrevivessem só eram devolvidas às mães após os cinco anos de idade. Sempre me perguntei também como uma mulher estuprada pode vir a amar o fruto de uma violência sexual, como defendem muitos cristãos fundamentalistas antiaborto.

Do ponto de vista psicológico, não sei se há base científica para se afirmar que se “escolhe amar” isto ou aquilo. Há muito pouco de racionalidade na entrega amorosa. Que seja possível eleger objetos preferenciais de amor só faz sentido à luz das necessidades afetivas individuais, valores, carências, traumas infantis, contingências atuais, etc. Mas parece não haver qualquer fundamento científico na crença de que apaixonar-se por A significa desapaixonar-se por B, C ou Z, ou de que um amor substitui todos os demais possíveis.

Já a necessidade de cuidar de outros seres vivos – seja de uma planta, uma baleia ou outra pessoa – me parece uma tendência universal, que não é apanágio do universo feminino, mas abrange também os homens, todas as classes sociais, raças e idades. Excetuando-se, é claro, os casos de psicopatias e sociopatias que abundam entre nós.

Isso tudo posto, preciso concordar com Francisco em alguns aspectos: há realmente pessoas que optam pela convivência com os bichos porque não conseguem superar suas dificuldades de relacionamento com outros humanos. Tenho ainda de dar a mão à palmatória de que a tendência de tratar pets como filhos é um fenômeno recente, uma distorção típica da pós-modernidade líquida de que falava Bauman, e eivado de egocentrismo e futilidade.

Mais do que filhos, acredito que os pets são representações de um ego ideal – isto é, revelam os traços de personalidade valorizados pela pessoa para se destacar socialmente, assim como as pré-condições impostas por ela para a formação de um relacionamento minimamente aceitável com outras criaturas (sujeição incondicional ao seu estilo de vida e valores, além de risco quase zero de virem a ser abandonados um dia).

Falando nisso, o mesmo descompromisso que muitos revelam com filhos humanos pode ser testemunhado com os pets todos os dias nas ruas e praças das cidades: o número de animais abandonados só fez crescer tão logo a pandemia deu os primeiros sinais de recrudescimento.

Pode parecer paradoxal, mas estou convicta de que, ao contrário do que apregoa o papa, a convivência com os bichos nos humaniza ainda mais – ou seja, nos desarma de nossa intelectualidade discriminatória e, dessa forma, destrói o mito da superioridade moral da espécie humana.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O mundo veio abaixo

Emmanuel Macron – alocução de fim de ano

José Horta Manzano

No final do ano, como manda a tradição em muitos países, o chefe de Estado aparece na tevê e pronuncia discurso de ano-novo. Transmitida por rede nacional, a fala costuma trazer votos dirigidos a todos os cidadãos.

Dependendo do país, a tarefa pode ser delegada ao chefe de governo, mas é mais raro. Na França, quem fala é o presidente da República, que é o chefe do Estado. Na Inglaterra também, o discurso de fim de ano é tarefa da chefe de Estado, a rainha Elisabeth. Já nos países americanos, o presidente da República acumula os dois cargos – chefe de Estado e de governo. Naturalmente, cabe a ele se exprimir.

No dia 31 de dezembro passado, Emmanuel Macron apareceu em cadeia nacional em horário nobre. Em alocução de poucos minutos, fez rápido balanço de sua gestão e lembrou que, este ano, haverá eleições para a Presidência da República e para o Parlamento. A certa altura, soltou a seguinte frase:


«Nous aurons à élire le président de la République au printemps prochain, puis à désigner nos représentants à l’Assemblée nationale»

“Na primavera deste ano, vamos eleger o presidente da República e, em seguida, nossos representantes no Parlamento”


Quem ouve distraído não percebe nada de extraordinário. No entanto, procurando bem, a gente acha até pelo em casca de ovo. Chi cerca trova – quem procura acha. Não sei dizer se o distinto público francês se chocou com a fala presidencial ou se é só birra de uns poucos. Seja como for, vamos ver o que aconteceu.

Nestes tempos em que, na hora de falar ou escrever, a gente pisa em ovos e se autopolicia a todo instante pra evitar descambar para o politicamente incorreto, Monsieur Macron se distraiu.

A dita linguagem inclusiva – tormento dos falantes de todas as línguas que têm gênero gramatical – não tolera que se dê exclusividade nem preeminência ao gênero masculino. Quando se mencionam homens, é obrigatório mencionar também mulheres.

Para se enquadrar nos padrões “linguisticamente inclusivos”, a fala do presidente teria de ter sido “vamos eleger o presidente ou a presidente da República”, assim como “nossos e nossas representantes no Parlamento”.

O imperdoável deslize fez furor nas redes sociais. Até o respeitável jornal Le Figaro, baluarte da direita política, dedicou longo artigo ao assunto.

Não sei o que pensa o distinto leitor, mas este blogueiro acha que, em certos aspectos, o mundo está ficando muito chato. Bilionários estão torrando centenas de milhões para fazer turismo no espaço enquanto bilhões de seres humanos morrem de fome e doença. E, no meio dessas incongruências, ainda tem gente se preocupando com a forma do pronome, como se fosse esse o critério de avaliação de um chefe de Estado.

Ah, quem dera o único defeito de nosso presidente fosse a escolha de pronomes!…

Substantivo, adjetivo e pronome têm gênero. Quem tem sexo é gente. Não são a mesma coisa nem têm a mesma serventia.

A solidão de Bolsonaro

José Horta Manzano

Rodeado de áulicos e todo tipo de interesseiros que só sabem aplaudir, o capitão não se dá conta da realidade. Ele se esquece que, no duro mesmo, o que conta é o voto popular. Não adianta subornar militares nem comprar o Congresso pra formar uma coalizão de aparência sólida. Ao fim e ao cabo, quem manda são os eleitores. Se não derem apoio a Bolsonaro nas urnas, assistiremos ao fim da comédia.

Na medida que continuar se enfraquecendo nas pesquisas, o presidente vai assistir à debandada dos que só lá estão por interesse. Ninguém tem vontade de associar o próprio nome ao de um perdedor.

Não sei se o capitão está a par de que, no exterior, seus melhores amigos – mais espertos que ele – estão trilhando outras veredas. Enquanto ele continua a dar murro em ponta de faca com seu negacionismo vacinal, dois de seus raros apoios estrangeiros já viraram a casaca.

Nas vésperas do Natal, o governo de Israel anunciou que passaria a propor uma quarta dose de vacina aos maiores de 60 anos, assim como ao pessoal médico e paramédico, que são os mais expostos ao contágio.

Aliás (não sei se o distinto leitor tem a mesma impressão), me parece que a profusão de bandeiras israelenses que os bolsonaristas arvoravam nas manifestações andam meio sumidas, não? Talvez aquilo explique isto, ou seja, o não-negacionismo explícito do governo israelense entra em colisão com o negacionismo primitivo de nossos aprendizes de extrema-direita.

Portanto, a amizade tipo unha e carne que parecia ter se cristalizado entre Brasília e Tel-Aviv virou fumaça. De fato, não dá pra conciliar o intenso programa vacinal israelense com a indignação de um Bolsonaro que chegou a dizer “Não entendo essa gana por vacina”. Ah, tem tanta coisa que ele não entende…

Outro amigo de infância que se distanciou do capitão foi Donald Trump. Esse, então, deu uma cambalhota. Faz uns dias, perto da virada do ano, no momento em que a onda de ômicron começava a se alastrar pelos EUA, o ex-presidente bilionário ressurgiu como defensor da vacinação, um inesperado arauto na luta contra a desinformação sanitária (!).

Algumas semanas atrás, num comício no Alabama – um dos estados com índice de vacinação mais baixo –, Trump foi claro: “Recomendo a vocês que se vacinem. Eu me vacinei. É bom. Vacinem-se!”. Algumas vaias se alevantaram, e o astuto orador mudou de assunto. Mas não desdisse o que havia dito.

Mais adiante, em 19 de dezembro, o antigo presidente reincidiu. Chegou a desestabilizar apoiadores e analistas ao defender a vacinação em diversas ocasiões, de modo aberto e inequívoco. Em Dallas (Texas), diante de uma multidão de simpatizantes, voltou a bater na mesma tecla. Aproveitou para se vangloriar de que as vacinas tinham sido desenvolvidas durante sua gestão. Asseverou que a vacinação vem salvando dezenas de milhões de vidas no mundo, e que é uma terapêutica fantástica. Levou vaias de novo.

Incansável, retomou o fio numa entrevista na tevê, dias mais tarde, quando dialogava com Candace Owens, apresentadora e porta-bandeira dos antivax. Bastou a moça insinuar que as vacinas não têm nenhum interesse, para Trump cortar-lhe a palavra, brusco: “É uma das grandes conquistas da humanidade. A vacina funciona.” E concluiu o raciocínio dizendo que “as pessoas não morrem [de covid] quando estão vacinadas”. Mais claro, impossível.

Os grandes apoios internacionais de Bolsonaro se dissolvem a olhos vistos. Minguando nessa velocidade, tanto interna quanto externamente, o que é que sobrará do capitão em outubro?

Passaporte vacinal falso

José Horta Manzano

Em resposta ao questionamento de parlamentares, Monsieur Olivier Véran, ministro da Saúde da França, revelou hoje que 1 em cada 20 pacientes internados por covid era portador de passaporte vacinal falso.

Lembrou que os titulares de um passaporte vacinal falso se expõem ao risco de serem condenados a até 5 anos de cadeia, além de serem “premiados” com multa de 75 mil euros (480 mil reais).

Os hospitalizados, se escaparem da infecção, não escaparão da justiça. Assim que estiverem recuperados, terão de responder ao processo.

Moral da história
Declarações falsas não protegem contra a epidemia e ainda podem custar (muito) caro. Fazendo bem as contas, não vale a pena trapacear.

Partido Democrata x Partido Republicano

José Horta Manzano


“In our closely divided and highly polarized country, each party is likely to hold power at some point in coming years. But when the Republican Party does, it may change the rules to ensure that it remains in power, as Trump tried in 2020 and as Viktor Orban has done in Hungary.”

“Em nosso país extremamente dividido e polarizado, cada um dos partidos tem chance de assumir o poder nos próximos anos. Mas quando chegar a vez do Partido Republicano, ele pode mexer nas regras a fim de garantir sua permanência no poder, como Trump tentou em 2020 e Viktor Orbán conseguiu na Hungria.”

David Leonhardt, em artigo no The New York Times, 6 jan° 2022


No Brasil, a inacreditável pulverização partidária torna menos viável essa sombria possibilidade que pesa sobre os EUA.

Nosso sistema de coalizão por cooptação faz que a maioria parlamentar se desloque sistematicamente em direção ao centro do poder, pouco importando quem for o chefe do governo.

Entre nós, etiquetas partidárias importam menos que interesses pessoais e paroquiais. No Brasil, o voto ideológico não passa de figura de linguagem. Nunca vai além do palanque eleitoral.

De certo modo, é até bom que assim seja.

Pra derrubar Bolsonaro

José Horta Manzano


Embora não passe de devaneio, está aqui a fórmula certeira pra derrubar Bolsonaro e, ao mesmo tempo, evitar que o Lula volte à Presidência


Do jeito que a coisa vai, só pode piorar. Enquanto o capitão estiver no trono, não há esperança. Corrupção, compra de parlamentares, destruição da natureza, inflação, vergonha internacional – o cardápio é indigesto.

O Lula tem boas chances de vencer Bolsonaro. Só que “ter boas chances” não é certeza de vitória. Se um cadidato de terceira via sobressair nos próximos meses – Moro, Doria, Tebet, Pacheco ou outro – crescerá a possibilidade de termos um segundo turno entre esse candidato e o Lula. Se isso acontecer, o Lula estará em situação de fragilidade eleitoral. O quadro vai se complicar para ele.

Há uma fórmula com potencial de derrubar Bolsonaro na certeza, com vitória já em primeiro turno.

Outro dia, o Lula e Alckmin jantaram juntos e trocaram juras de amor eterno. Garantiram que a amizade inabalável que os une vem do tempo em que jogavam bafo e trocavam figurinhas no parque infantil.

Pois que levem adiante esse reencontro. Que formem uma chapa para as eleições presidenciais. Mas não aquela em que todos estão pensando (Lula para presidente e Alckmin de estepe). Este é um daqueles casos em que a ordem dos produtos altera o resultado.

Uma chapa com Alckmin para presidente e Lula para vice seria im-ba-tí-vel. Contentaria a gregos e troianos, e garantiria vitória no primeiro turno.

Lulopetistas, ainda que se sentissem um pouco desapontados de não ver seu herói na cabeça, não deixariam de apoiar a chapa. Votariam.

Antibolsonaristas, esperançosos de derrubar Bolsonaro e aliviados de o cabeça de chapa não ser o Lula, votariam.

E até os nem-nem (nem Bolsonaro, nem Lula), tranquilizados pelo fato de não ver nenhum dos estropícios na cabeça da dobradinha, votariam.

É, mas aqui esbarramos num muro resistente. Alguém imagina o orgulhoso Lula, aquele que um dia ousou dizer “a opinião pública somos nós”, se contentar com a vice-presidência? Certo que não.

É uma pena porque, rearrumada na ordem que proponho, a dupla faria sucesso. Venceriam na certa, ainda que o capitão dobrasse o valor da bolsa família e jurasse nunca mais falar palavrão.

Brasil vai virar comunista?

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, dizia-se que comunistas eram perigosos porque devoravam criancinhas. Não se espante, distinto leitor, muitos acreditavam nisso. Na verdade, ninguém tinha ideia exata de como era a vida nos países de regime comunista. Pouquíssima informação escapava da URSS de Stalin e da China de Mao. E dos satélites deles, naturalmente.

Em 1989, a queda do Muro de Berlim não só eliminou o muro, mas levantou o véu que encobria os podres do império soviético. Por detrás dos escombros, o mundo pôde constatar o estado de indigência em que viviam os povos castigados pelo comunismo durante 70 anos.

Com isso, na Europa e nas Américas, virou-se a página desse sistema de organização do Estado. Partidos comunistas, que ainda eram fortes na Europa, murcharam. Ficou claro que não havia meio de aquilo dar certo.

A China, contida pela mão pesada do partido único, mantém um comunismo apenas de fachada; na realidade, o nome do jogo é ditadura ultra-autoritária, onde “comunismo” não passa de firula semântica.

Já Cuba é uma excrescência, uma fábrica de pobreza que ainda sobrevive com os euros trazidos pelas hordas de turistas europeus que passam uma semana bronzeando baratinho em Varadero all inclusive. Sem conversar com nenhum nativo, a não ser com os ultravigiados serviçais do “resort”. O regime, mais dia menos dia, desmorona.

Em meados de dezembro passado, o Instituto Datafolha publicou uma pesquisa detalhada. Entre outras questões, quis tomar a temperatura da população e saber que percepção tinham de uma certa “ameaça comunista” constantemente denunciada pelos bolsonaristas.

A pergunta era se o entrevistado concordava ou não com a afirmação de que havia risco de o Brasil se tornar comunista na próxima eleição. Espantosamente, 44% dos eleitores declararam ter esse receio. Do outro lado do espectro, 50% consideram que não há perigo. Sobram 6% que não têm a menor ideia. Considerando que quem cala consente, os que não se pronunciaram podem ser acrescentados aos receosos.

Logo – é espantoso! – metade dos eleitores brasileiros têm algum receio (pouco ou muito, dependendo do grau de adesão às ideias do capitão) de que o país se torne comunista na próxima eleição. Supõe-se que estejam entrevendo a eleição do Lula.

Acho inacreditável que metade dos brasileiros ainda vivam nos anos da Guerra Fria, com os mesmos temores. Esse deve ser o contingente que teme uma invasão da Amazônia com bombas, aeroplanos e tanques de guerra. Decerto os terraplanistas fazem parte da turma. Coisa de louco!

Não é possível que Bolsonaro, apesar de se esforçar durante três anos de diabruras, tenha incutido essas caraminholas na cabeça do povo. Isso tem nome certeiro, uma praga bem anterior à chegada do capitão: é desinformação. O que falta a essa gente é desempoeirar as ideias, abrir-se para o mundo, aprender o que vem acontecendo no planeta no último meio século.

Fica claro que passar o dia grudado no telefone a se divertir com memes, videozinhos, conversas de zap e fake news não dá camisa a ninguém. A raiz do mal está no mesmo lugar de sempre: falta de instrução.