O mundo veio abaixo

Emmanuel Macron – alocução de fim de ano

José Horta Manzano

No final do ano, como manda a tradição em muitos países, o chefe de Estado aparece na tevê e pronuncia discurso de ano-novo. Transmitida por rede nacional, a fala costuma trazer votos dirigidos a todos os cidadãos.

Dependendo do país, a tarefa pode ser delegada ao chefe de governo, mas é mais raro. Na França, quem fala é o presidente da República, que é o chefe do Estado. Na Inglaterra também, o discurso de fim de ano é tarefa da chefe de Estado, a rainha Elisabeth. Já nos países americanos, o presidente da República acumula os dois cargos – chefe de Estado e de governo. Naturalmente, cabe a ele se exprimir.

No dia 31 de dezembro passado, Emmanuel Macron apareceu em cadeia nacional em horário nobre. Em alocução de poucos minutos, fez rápido balanço de sua gestão e lembrou que, este ano, haverá eleições para a Presidência da República e para o Parlamento. A certa altura, soltou a seguinte frase:


«Nous aurons à élire le président de la République au printemps prochain, puis à désigner nos représentants à l’Assemblée nationale»

“Na primavera deste ano, vamos eleger o presidente da República e, em seguida, nossos representantes no Parlamento”


Quem ouve distraído não percebe nada de extraordinário. No entanto, procurando bem, a gente acha até pelo em casca de ovo. Chi cerca trova – quem procura acha. Não sei dizer se o distinto público francês se chocou com a fala presidencial ou se é só birra de uns poucos. Seja como for, vamos ver o que aconteceu.

Nestes tempos em que, na hora de falar ou escrever, a gente pisa em ovos e se autopolicia a todo instante pra evitar descambar para o politicamente incorreto, Monsieur Macron se distraiu.

A dita linguagem inclusiva – tormento dos falantes de todas as línguas que têm gênero gramatical – não tolera que se dê exclusividade nem preeminência ao gênero masculino. Quando se mencionam homens, é obrigatório mencionar também mulheres.

Para se enquadrar nos padrões “linguisticamente inclusivos”, a fala do presidente teria de ter sido “vamos eleger o presidente ou a presidente da República”, assim como “nossos e nossas representantes no Parlamento”.

O imperdoável deslize fez furor nas redes sociais. Até o respeitável jornal Le Figaro, baluarte da direita política, dedicou longo artigo ao assunto.

Não sei o que pensa o distinto leitor, mas este blogueiro acha que, em certos aspectos, o mundo está ficando muito chato. Bilionários estão torrando centenas de milhões para fazer turismo no espaço enquanto bilhões de seres humanos morrem de fome e doença. E, no meio dessas incongruências, ainda tem gente se preocupando com a forma do pronome, como se fosse esse o critério de avaliação de um chefe de Estado.

Ah, quem dera o único defeito de nosso presidente fosse a escolha de pronomes!…

Substantivo, adjetivo e pronome têm gênero. Quem tem sexo é gente. Não são a mesma coisa nem têm a mesma serventia.

Propostas afins

Eduardo Affonso (*)

Amigues,

Vocês já se divertiram à beça com a proposta estapafúrdia de se implantar uma linguagem neutra que, trocando um “O” por um “E”, acabaria com todes es problemes de machisme, misoginie, homofobie, transfobie etcétere.

Mas a ideia, em si, não é ruim. O que estraga é ser pouco abrangente e se limitar à questão de gênero. Há várias outras formas de opressão linguística – e a maior delas é… a opressão linguística.

Eu aproveitaria que todos os livros terão que ser reescritos e mandaria ver numa linguagem realmente inclusiva. Muita gente não entende, por exemplo, a diferença entre “mau” e “mal”. E deve se sentir muito mau contando a história do lobo mal para os filhos, sem saber quando está usando um adjetivo ou um advérbio.

Solução: uniformizamos a grafia, e daqui pra frente será “mao”. Tanto fará ser bom ou mao, andar bem ou mao acompanhado. Isso no singular, porque no plural continuará havendo males que vêm para o bem, e os bons acabarão pagando pelos maus.

De uma penada só, lá se vão 25% dos erros de português.

“Mas” e “mais” são outra desgraça que pode estar com os dias contados se adotarmos a grafia única “maes”.

O corretor ortográfico vai criar caso nos primeiros dias, maes nunca maes teremos dúvidas se é para usar a conjunção adversativa ou o advérbio de intensidade.

Outros 25% de erros eliminados.

“Menos” ou “menas”? Menes.

“Meio” ou “meia”? Meie, seja adjetivo, advérbio, numeral ou substantivo.

“Há” ou “a”? Ah!, seja artigo, verbo, preposição ou interjeição – e ah crase vai fazer companhia ao trema, ah fita para máquina de escrever e ao estado civil de “desquitada” no limbo das coisas que perderam ah razão de existir ah muito tempo.

Ah menes que você seja uma pessoa meie lenta, já terá percebido que ah inúmeras vantagens nessas alterações – ah maior delas sendo outros 25% de correções a menes ah fazer nas provas do Enem, nas matérias dos jornais, nos tuítes de ministros da Educação.

Finalmente, a pergunta que não quer calar: por que o português tem que ser tão complicado? Deve haver um porquê. Talvez porque um monte de filólogos mortos tenha decidido assim – mas por quê?

Não importa. Na reforma contra o preconceito linguístico tudo vai virar “pq”.

Pq? Pq sim. Não tem que ter pq.

E lá se vão os 25% de erros restantes.

Por isso, pensem duas vezes antes de criticar seus amigues progressistes e as fórmulas mirabolantes que eles inventaram para resolver os problemas do mundo com uma canetada. Eles podem ser çem noção mas não estão çem por cento errados. (O “ç” também é uma mão na roda, né não?)

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.