Brasil: um país para não-amadores

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A primeira vez que me dei conta da imensa importância da energia elétrica – e do gigantesco estrago que ela pode causar na vida das pessoas comuns caso falte por alguma razão – foi quando a luz acabou no prédio da empresa em que eu trabalhava.

Eu atuava no RH da companhia e minha sala ficava no primeiro andar. Naquele momento, eu estava finalizando a contratação de um funcionário e precisava esclarecer alguns pontos da remuneração a que ele teria direito com o departamento financeiro – que, para meu desgosto, ficava no quarto andar. Como a coisa era urgente, subi pelas escadas e me deparei com uma pá de funcionários inertes, recostados em suas cadeiras, braços cruzados e olhar perdido na distância. O silêncio era geral e todos pareciam resignados com a situação, esperando obedientemente que a energia fosse restabelecida para entrar novamente em ação, como cachorros adestrados para não se mover até que um apito ou tiro fosse disparado.

Surpresa e incomodada com a apatia geral, tentei fazer o supervisor resolver o problema fazendo contas à mão mesmo, já que o recém-contratado não podia esperar. Ele me olhou com ar de perplexidade, como se eu lhe estivesse pedindo para escalar o Everest sem cordas. Respondeu que seria impossível, uma vez que teria de fazer cálculos complexos para posicionar os benefícios previstos para o cargo proporcionalmente à remuneração dos demais funcionários do setor a que a pessoa iria pertencer.

Foi minha vez de ficar perplexa. Perguntei se não havia alguma calculadora manual que pudesse dar conta do recado. Ele balançou negativamente a cabeça, sem disfarçar uma careta de desdém. Era como se ele me dissesse: Como assim? Calculadoras manuais são objeto de interesse de museus, mas não de uma empresa multinacional como a nossa. Não pude deixar de pensar no meu velho pai, também contador, que varava madrugadas a fio fazendo e refazendo suas contas incansavelmente na ponta do lápis. Não gostava de calculadoras e nunca se permitiu aprender a lidar com computadores.

É curioso como a gente desaprende certas habilidades ao terceirizá-las para máquinas. Se você teve de redigir algum texto mais longo à mão nos últimos anos, sabe do que estou falando. Se precisou lembrar do número do telefone de algum conhecido sem dispor de uma agenda eletrônica, também. Até hoje me pergunto como os mais jovens fazem para reter os aprendizados escolares se sua memória foi integralmente delegada ao Google.

Voltou à minha cabeça um acidente aéreo acontecido na rota São Paulo – Belém do Pará. O piloto havia se distraído ao inserir o código da região de destino no computador de bordo e só percebeu o engano depois de horas sobrevoando a floresta amazônica sem enxergar o aeroporto em que deveria pousar. A bordo havia um mateiro, experimentado nas características geográficas da região. Acompanhando o trajeto dos rios, a posição do sol, da lua e das estrelas, o dito cujo logo se deu conta de que o piloto estava perdido. Levantou-se, foi até a cabine e alertou o piloto que estavam fora de rota. Preferindo confiar mais nos instrumentos de bordo do que na sabedoria ancestral de um homem do povo, o piloto continuou voando em círculos até que o combustível acabou e o avião acabou se chocando contra as árvores.

Sem um plano B efetivo, não há como lidar com imprevistos. Dizem que as maiores descobertas científicas acontecem quando a máquina quebra. Como apontou Darwin em sua obra, não é o mais forte nem o mais inteligente que sobrevive. É o mais adaptável, o mais flexível diante das situações extremas. Por estranho que pareça, meu cérebro sempre se sai melhor em situações de alta tensão. Aliás, um dos meus prazeres mais extravagantes é imaginar o que eu faria se vivesse no século 18 e precisasse obter ajuda rápida sem poder contar com os recursos tecnológicos contemporâneos.

Terça-feira, 15 de fevereiro de 2022, 6 horas da manhã. Ao acordar, percebi que estava sem acesso à Internet. O problema não era falta de energia, mas algo errado com a minha conexão. Já prevendo atraso com minhas traduções, peguei o telefone para reclamar com a operadora e, surpresa! Meu telefone fixo estava mudo também! Entrei em surto: pela primeira vez na vida a sensação de estar isolada do mundo civilizado representava uma dor insuportável.

Nunca fui exatamente fã dos computadores, mas sempre foi motivo de orgulho para mim manter-me atualizada, em sintonia com a realidade. De repente, me ocorreu que eu já dispunha de um celular. Como não o uso habitualmente, não havia me dado conta de que a salvação estava ao alcance da minha mão. Liguei para o serviço de atendimento da operadora só para ficar ainda mais transtornada. Uma voz eletrônica descontraída me informou, assim como se nada de anormal estivesse acontecendo: a previsão é a de que o serviço seja restabelecido na quinta-feira, 17 de fevereiro, após as 18 horas!

Meu cérebro travou de tanta indignação. Vivendo na principal cidade da América Latina, em pleno século 21, num mundo em que a informação circula em velocidade ultrassônica, ele não conseguia entender como uma empresa que vende justamente acesso rápido ao mundo se permitia oferecer resposta em passo de tartaruga – e ainda encarar o fato como mero acidente de percurso totalmente desculpável.

Instantaneamente, comecei a fabular formas de vingança contra tanto descaso. Acessei o site do Procon, na vã expectativa de que pudessem forçar a empresa a resolver o problema mais rápido. Qual o quê! Para pasmo ainda maior, pediram um prazo de 20 dias para investigar junto à equipe técnica do provedor qual teria sido o real motivo da interrupção do serviço: incompetência, descaso ou simples obstáculo tecnológico incontornável.

Eu acabava de perceber que a indisponibilidade da tecnologia era ainda mais poderosa do que a falta de energia elétrica. Eu havia sido devolvida, de fato, ao século 18. Impotência, humilhação, descrença. Agora era eu de mãos vazias contra o Golias da comunicação, uma cidadã sem poder de influência contra os verdadeiros donos da nação.

Fernando Sabino, em seu livro Encontro Marcado, imaginou um divertido ataque terrorista contra a típica indiferença das autoridades brasileiras: certa manhã, os habitantes de uma cidade descobrem que não podem sair de casa porque há um gigantesco pão interditando a entrada. Mais tarde, surgem outros pães em pontos aleatórios da cidade, interrompendo o tráfego nas ruas, avenidas e pontes. Perplexidade geral. Peritos são chamados às pressas para examinar tão exótico artefato: nada com que se preocupar, trata-se apenas de farinha, água e fermento. Logo outras cidades começam a relatar o mesmo fenômeno e, em poucas horas, o país inteiro é paralisado.

Pondero que tipo de pão terrorista eu poderia utilizar em substituição. De repente, faz-se luz: vou infiltrar-me nas hostes inimigas e destruir o sistema por dentro, usando as redes sociais para aliar-me a outros usuários insatisfeitos e aumentar a pressão. Dito e feito, experimento uma sensação tola de justiça. Relaxo, me deito indolente, à espera do retorno ao paraíso.

Sexta-feira, 18 de fevereiro, uma e meia da tarde, a conexão é finalmente restabelecida…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Que tal ir ao essencial?

José Horta Manzano

Não sou lulista nem nunca fui. Não sou bolsonarista nem nunca serei. Não acredito que o Lula, eleito, venha a fazer bom governo, visto que nunca fez. Não acredito que Bolsonaro, reeleito, venha a fazer bom governo, visto que nunca fez.

Se alguém tiver alguma dúvida, está convidado a percorrer este blogue, que já está completando dez anos. Aqui na coluna da direita, há um campo mostrando as “tags” mais frequentes. Basta clicar em “Lula”, por exemplo, e aparecerão todos os artigos em que o ex-presidente é mencionado. O mesmo vale para Dilma, Bolsonaro & tutti quanti. Fica a dica.

Gosto de deixar as coisas bem claras logo de entrada. Nestes tempos estranhos, muitos enxergam um mundo em preto e branco: quem não é de um lado só pode ser do outro. E vice-versa. Comigo não funciona assim. Sou capaz de encontrar (se bem que é difícil) algum detalhe positivo nos longos governos lulopetistas. Seria também capaz de encontrar (se bem que é quase impossível) algum detalhe positivo no interminável mandato do capitão.

Isso posto, vamos ao ponto. Estes dias, boa parte do Brasil pensante está indignada. Como fariseus, batem no peito e juram que jamais se comportariam assim. Refiro-me às viagens que um certo senhor Frias & assessores empreenderam aos EUA. Pelo que dizem, o indigitado senhor, encarregado de cuidar da cultura em nosso país(!), só não participou do segundo convescote por estar em licença-covid.

Um punhado de auxiliares teriam dado os dois passeios, um a Nova York e o outro à Cidade dos Anjos, como costumam dizer os franceses (Los Angeles). Leio hoje, em artigo da Folha, que um subsecretário gastou cerca de 20 mil reais numa estada de 5 dias em LA.

Ao câmbio atual, a quantia corresponde a 3.900 dólares. Não é dinheiro de pinga, é verdade, mas convenhamos, não me parece nenhum despropósito. Sem dúvida, o homem podia ter passado uma semana comendo hambúrguer, mas parece que engorda. Podia também ter viajado de ônibus, mas ia demorar mais. Além disso, pra atravessar a América Central, ia ter de se vacinar contra a malária; como bom discípulo do capitão, talvez recusasse a picada.

Enquanto isso, o capitão bloqueou o Aerolula por uma semana pra ir dizer pessoalmente a Vladímir Putin que se solidariza com ele, numa daquelas gafes pesadas, que esgarçam nossa imagem no exterior. Ele nos pôs no nível da Nicarágua, da Venezuela, da China, da Bielo-Rússia, do Cazaquistão e da Quirguízia: todos se solidarizam com a Rússia. Estamos em boa companhia.

Acho interessante que, enquanto estão todos crucificando o sub do sub por ter assimilado rápido as regras da casa e agido como agiria o chefe do clã, ninguém está fazendo as contas de quanto o vexame internacional moscovita custou aos cofres do país. Viagem presidencial começa uma semana antes, com os “batedores” que abrem a picada. E dá-lhe avião da FAB, diárias de hotel, restaurantes e gastos anexos. A comitiva presidencial compõe-se de dezenas de convidados, uns úteis (ex: grandes importadores e exportadores), outros inúteis (ex: o filho do capitão, vereador do RJ).

Bolsonaro jura que a hospedagem em Moscou, em suites com diária de 100.000 reais, foi mimo do governo russo. Pode até ser, mas fico de pé atrás. De qualquer maneira, não foi com o cartão corporativo de Putin que a multidão de acompanhantes pagou suas diárias. Nem a alimentação. Nem os extras. Nem as matriochkas que vieram na bagagem de volta.

Tenho dificuldade em entender por que razão os que têm voz se jogam em cima do peixinho e deixam escapar o tubarão. Será por medo? Falta de informação? Falta de vontade?

É bom ter em mente que, se o peixinho se permite desvios de comportamento é porque se sente coberto por seus superiores hierárquicos. Que também se sentem acobertados. E assim por diante, até chegar ao chefão. Isso não é “Lei de Murphy”, é simplesmente a realidade.

Tem outra coisa. No caso da viagem do sub do sub a Los Angeles, seria mais útil deixar de lado, por um instante, o custo da viagem e se interessar pelo objetivo do passeio. O que é que o rapaz foi fazer lá? Com quem se encontrou? Que pito toca essa pessoa? Há relatório escrito? Que diz esse relatório? Foram concluídos negócios? Foi assinado um protocolo de acordo? Quais são as perspectivas de futuro? Qual é o interesse do país nesse gasto de tempo, energia e dinheiro nosso?

Esse é o tipo de questionamento que está a fazer muita falta. Estamos nos perdendo nos considerandos sem nunca chegar aos finalmentes.

Bolsonaro deu o nariz aos russos

José Eduardo Agualusa Alves da Cunha (*)

Há poucos dias a minha filha Kianda, de 3 anos, veio ter comigo, preocupada com a origem da Humanidade:

– Como é que nós aparecemos no mundo, nós, as pessoas?

Tentei explicar-lhe a Teoria da Evolução, de Charles Darwin, nos termos mais simples possíveis. Ela escutou-me atentamente, como se eu lhe estivesse a contar uma história de fadas, antes de dormir. Por fim, concluiu:

– Eu cá não descendo de macacos, descendo de unicórnios.

Fiquei a pensar naquilo. Talvez Kianda esteja certa e nem todos tenhamos a mesma ascendência. Muitas vezes, assistindo aos noticiários, ou escutando os discursos de certos políticos, me horroriza a ideia de partilhar com toda a restante Humanidade uma avozinha comum.

Penso, por exemplo, em Donald Trump, e numa boa parte dos seus seguidores, esses mesmos que insistem em defender a ineficácia das vacinas. Sinceramente, acho mais fácil acreditar que Donald descenda dos arimaspos ou dos cíclopes, aqueles homens com um único olho, um tanto brutos, que viviam nas margens da terra plana. Nada contra os arimaspos e os cíclopes. Tampouco contra Trump e os seus seguidores. Só não os quero no meu galho.

Ao contrário do presidente francês, Emmanuel Macron, e do chanceler alemão, Olaf Scholz, que recusaram fazer os testes de PCR russos, Jair Bolsonaro permitiu que os médicos e cientistas de Vladimir Putin lhe vasculhassem as fossas nasais – ao que parece por cinco vezes!

Macron explicou a firme recusa, afirmando que não gostaria de ceder aos russos o seu material genético. A mim, aquela afirmação inquietou. Passei uma noite sem dormir, imaginando o que os russos poderiam fazer com o material genético de Macron. Ou com o material genético de Olaf Scholz. Felizmente, o que quer que tencionassem fazer, não conseguiram.

Bolsonaro, contudo, deu o nariz aos russos. Não uma, não duas, mas cinco vezes!

Na posse do material genético de Jair Bolsonaro, os cientistas russos podem, por exemplo, investigar a sua ancestralidade. Vai que descobrem algum arimaspo, um cinocéfalo, um basilisco, perdido numa ramagem remota da sua árvore genealógica, onde era suposto haver apenas doces macaquinhos?

Vai que descobrem genes fraquejados? Ou genes exultantes de feminilidade, carnavalescos, brilhando de suor e purpurina?

Vai que descobrem genes ateus, marxistas-leninistas?

E, embora seja extremamente improvável, o que acontecerá se os cientistas russos descobrirem no muco bolsonarista remotos genes feministas, pacifistas ou antirracistas?

Tendo tais resultados nas mãos, os russos poderiam facilmente chantagear o presidente do Brasil. Quem sabe conseguiriam forçá-lo a prestar homenagem aos soldados que combateram pelo comunismo na II Guerra Mundial? Ou forçá-lo a apoiar a Rússia, ao lado da China comunista, contra os EUA e todo o mundo ocidental, no conflito com a Ucrânia?

Leio agora, enquanto escrevo esta coluna, que isso já aconteceu, durante a atual visita relâmpago de Bolsonaro a Moscou.

A sério?! Mau sinal. Muito mau sinal.

Provavelmente descobriram o arimaspo.

(*) José Eduardo Agualusa Alves da Cunha (1960-) é escritor e jornalista angolano.

As mágoas do Lula

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Muita gente, inclusive este escriba, considera que Bolsonaro tem uma visão distorcida do que sejam relações humanas. Confunde afinidades pessoais com relação entre nações. Acredita que o relacionamento do Brasil com países estrangeiros está irremediavelmente vinculado às relações pessoais que ele possa ter com os governantes desses países.

Enquanto Donald Trump era presidente dos EUA, chamava-o de amigo, nunca escondeu seu fascínio pelo personagem e mostrou claramente acreditar que as relações entre Brasil e EUA dependiam dessa “ligação carnal” entre supostos amigos. Enquanto o “amigo” esteve na Casa Branca, fez diversas visitas ao país de Tio Sam, pouco importando o pretexto para a viagem. Desde que Trump se foi, nunca mais quis saber de conversa. É verdade que não foi convidado, mas tampouco consta que tenha convidado Biden para tomar um café com pão e leite condensado no Planalto.

Foi à Rússia e disse que Putin e ele professam os mesmos valores(!). Foi à Hungria e chamou Orbán de irmão(!). Tem agido como se as relações exteriores do Brasil só funcionassem com nações comandadas por “amigos”. Essa visão redutora das relações internacionais pode servir para alimentar sua bolha de fanáticos, mas é nociva ao país.

Em artigo deste sábado, a jornalista Bela Megale conta algumas tristezas do Lula, antigo presidente do Brasil. Diz que o homem está ressentido com o comportamento de Dias Toffoli. Entre outras reclamações, está desagradado com a proximidade de Toffoli com Bolsonaro, fato que incomoda o demiurgo de Garanhuns. O Lula reclama ainda dos entraves postos por Toffoli no dia em que, ainda encarcerado, solicitou ser liberado por algumas horas para acompanhar o enterro de um irmão.

É bom lembrar que o atual ministro do STF foi advogado do PT e advogado-geral da União (AGU) durante o governo do Lula. Se hoje ocupa uma poltrona no STF, é por ter sido nomeado justamente pelo antigo presidente.

As mágoas do Lula são inquietantes. Ele demonstra estar sintonizado com Bolsonaro na mesma visão de um mundo dividido entre “os meus compadres” e os outros. Formam um par perfeito. Ao indicar Toffoli para o STF, o Lula tinha a certeza de ter “comprado” um juiz para defendê-lo fiel e incondicionalmente para o resto da vida. Essa esperança é idêntica à que Bolsonaro deposita nos pupilos alçados por ele ao STF: o “terrivelmente evangélico” e o “terrivelmente dócil”.

Ao dividir personagens políticos e magistrados entre “amigos” e “inimigos”, Lula dá mostra de agir exatamente como o capitão. A bem da verdade, ressalte-se não há que se espantar; essa faceta do ex-presidente já era conhecida. Nas diversas ocasiões em que foi a Havana louvar os bondosos irmãos Castro e à África incensar ditadores corruptos, Lula já tinha deixado evidente sua maneira de enxergar o mundo.

Entre os dois adeptos do compadrio desbragado – o Lula e o capitão –, está cada dia mais difícil separar o joio do trigo. Só se vê joio. Trigo mesmo, que é bom, anda em falta.

Vai ter Carnaval?

José Horta Manzano

Você sabia?

Feriado é dia em que assalariado recebe sem precisar trabalhar. Em princípio, o dispositivo se aplica a todos. No entanto, por óbvio, certas profissões e funções não podem seguir à risca. Nem todos são iguais diante dos feriados oficiais. Bombeiros, urgentistas, policiais, controladores aéreos, taxistas, cozinheiros, enfermeiros, motoristas fazem parte das exceções.

Feriados oficiais mudam com o vento e variam com o tempo. Tentar enumerar, num conjunto lógico, os feriados nacionais brasileiros é pisar terreno pantanoso. Leis, decretos, resoluções e calendários nem sempre estão em sintonia. O emaranhado de dias festivos nacionais, estaduais e municipais tem muito cipó.

Para complicar a questão, persiste entre nós o «ponto facultativo», figura singular, de perfume arcaico. Não é impossível que sua origem seja o «bank holiday» inglês. Nesses dias, o trabalho pode até ser ‘facultativo’, mas não se costuma ver ninguém batendo ponto.

Quando jovem, este blogueiro chegou a ter emprego em que era obrigatório “bater ponto” na entrada e na saída. Mas isso foi no tempo em que os bichos falavam. Não sei se o método ainda é hoje utilizado. Muito provavelmente já foi substituído por algum sistema de identificação digital, facial ou equivalente.

Salvo melhor juizo, os sete feriados nacionais oficiais estão elencados em lei de 2002. São eles: 1° janeiro, 21 abril, 1° maio, 7 setembro, 2 novembro, 15 novembro e 25 dezembro. Fora dessa lista, há os mencionados ‘pontos facultativos’, além dos dias festivos estaduais e municipais.

Achei interessante comparar as festas nacionais atuais com as de um século atrás. Em 1916, eram dez dias, três a mais que hoje. Em compensação, não se falava ainda em pontos facultativos. Conclui-se que o trabalho nesses dias era, de certo modo, proibido.

Entre os feriados de 1916, alguns ainda são comemorados. Outros desapareceram. Entre os que sumiram, estão:

24 de fevereiro
Festejava-se a promulgação da Constituição Federal de 1891. Dado que, depois dessa, já tivemos quase meia dúzia, o feriado desapareceu. Não faz sentido mudar a data a cada 15 ou 20 anos. Ou festejar todas, o que ia acabar afetando o PIB nacional.

3 de maio
Comemorava-se a descoberta do Brasil. A escolha do dia 3 de maio devia-se a um erro histórico. Aprendemos na escola que o primeiro nome dado às terras avistadas por Pedro Álvares Cabral foi Ilha da Vera Cruz. A liturgia católica consagra o 3 de maio à celebração da verdadeira cruz de Cristo, a Vera Cruz. A carta de Pero Vaz de Caminha, com a data exata, andou extraviada por uns trezentos anos. Na falta de outro indício, determinou-se que o dia do descobrimento só podia coincidir com o dia da festa religiosa. E ficou combinado de celebrar o descobrimento em 3 de maio. Hoje se sabe que foi num 22 de abril, mas a informação chegou atrasada: o feriado já tinha caído.

13 de maio
Era a festa da «extincção da escravatura». Já faz tempo que deixou de ser feriado. Talvez porque, num país de desigualdades abissais como o nosso, o sistema escravagista, no fundo, não tenha sido totalmente “extincto”.

14 de julho
Como sabem meus cultos leitores, é o dia da Tomada da Bastilha, festa nacional francesa. A comemoração foi abrasileirada, digamos assim. No Brasil, o 14 de julho passou a comemorar a liberdade e a independência dos povos americanos. De todos os povos americanos, ressalte-se, e não somente daqueles cuja ideologia presidencial bata com a de nosso presidente de turno. Também esse dia já deixou de ser festa entre nós.

12 de outubro
Era o dia do Descobrimento da América. Por coincidência, hoje é um daqueles feriados ‘informais’. Já não faz mais alusão a Cristóvão Colombo, mas a Nossa Senhora Aparecida.

Reparem que não se comemoravam nem o 7 de Setembro, nem o 15 de Novembro, nem o Dia de Tiradentes. Quais serão os feriados daqui a um século? Nossos bisnetos saberão.

Observação
Vai ter Carnaval este ano? No fim de semana que vem, teremos a resposta. De qualquer modo, Carnaval não é feriado nacional oficial.

Publicado originalmente em 25 jul° 2016.

O Brasil se solidariza à Rússia

José Horta Manzano

Para Celso Luft (1921-1995), grande dicionarista e profundo conhecedor da língua, o verbo solidarizar pode ser usado pronominalmente (solidarizar-se). Nesse caso, pedirá a preposição com: Solidarizar-se com algo ou com alguém.

Em conversa com Vladímir Putin, o autocrata russo, nosso capitão rosnou que “o Brasil se solidariza à Rússia”. Digo que ele rosnou porque rosnar é o verbo que melhor descreve seu modo habitual de se expressar. O capitão não fala “pra fora”, como se diz. Ele lança sons meio enrolados. O final das palavras sai engolido. Muitas vezes, faltam os verbos. Para serem entendidas, suas frases têm de ser reconstruídas, como fazem os linguistas com línguas desaparecidas.

Tirando a pisada de bola na regência do verbo e apurando a frase, fica a afirmação de que “o Brasil se solidariza com a Rússia”. Que diabo ele quis dizer com isso? Analistas de boa cepa espremem as meninges pra entender aonde o presidente quis chegar. No fundo, ninguém conhece ao certo a abrangência do pensamento presidencial. Nem ele mesmo, provavelmente.

Para Merval Pereira (d’O Globo e da ABL), “Bolsonaro não sabe usar as palavras, e é possível que nem soubesse o que estava falando quando afirmou que o Brasil é ‘solidário à Rússia’. Ele provavelmente estava se referindo à economia e ao comércio, mas se solidarizar com a Rússia numa visita oficial é um erro absurdo neste momento de crise.”

Para Bruno Boghossian (da Folha de São Paulo), “O Bolsonaro que visitou Putin exibiu sua própria falta de expressão. Ninguém se incomodou muito quando o presidente disse que os brasileiros eram ‘solidários à Rússia’ – o que poderia indicar que o país apoiava o Kremlin nas tensões com a Ucrânia. Na mesa dos adultos da diplomacia, ele praticamente desapareceu.”

Há outras análises, todas no mesmo tom. Ao final, fica a terrível impressão de termos um presidente ignaro que, de olhos vendados como num jogo de cabra-cega, é conduzido por não se sabe quem, para não se sabe onde. O homem não parece ser mestre do próprio destino. Vai para onde mandam que vá.

Nosso país parece estar sendo dirigido por uma junta misteriosa, sem rosto, sem etiqueta, sem nomes. Quem, na verdade, conduz os negócios? Entre os organizadores dessa farsa macabra, estarão certamente os filhos, os generais palacianos, os cabeças do centrão. E sabe-se lá mais quem. Fica patente que o presidente não é senhor de seus atos. Embora, pelo cargo, devesse representar a nação brasileira, seu desempenho denuncia que ele é apenas representante de si mesmo.

Insignificante fora das fronteiras e nocivo no país, qual é o lugar de Bolsonaro? Acredito e espero que os rios de (nosso) dinheiro que ele possa torrar daqui até outubro não serão suficientes para reelegê-lo. Nossa Senhora dos Aflitos não vai nos faltar.

A elegância presidencial

José Horta Manzano

Pois é, senhores, temos presidente. Não é lá muito inteligente, não é esperto, não é corajoso, não é confiável, não é instruído, não é bem-intencionado, não é amado, não é líder, não é firme, não é insuspeito, não é simpático, não é religioso, não é anticlerical, não é bem educado, não é pessoa de fino trato, não é diplomata, não é sutil. Não é grande coisa, mas é o presidente do Brasil.

Ao aceitar a faixa presidencial, recebeu a incumbência de representar nosso país no exterior. Em terras russas (ou de qualquer outro país), ele é o Brasil. E o Brasil é ele.

Agora saboreie esta fotografia. Foi tirada em Moscou na terça-feira 15 de fevereiro, à chegada do capitão.

Ela flagra um Bolsonaro empertigado para a audição dos hinos, executados logo após a aterrissagem no Aeroporto de Vnukovo. Os componentes da banda musical, os figurões que foram recepcionar o capitão e até o segurança (que se adivinha pelo “discreto” fone de ouvido) vestem gravata. Admita-se que é adereço normal para uma solenidade dessas.

Quanto a nosso mandatário, se gravata tinha, não se viu. Vê-se uma figura um tanto disforme, ostentando pança avantajada e trajando calça amarrotada, com ar de ter ido à guerra e voltado sem ver ferro de passar. Paletó, não se vê. No lugar da peça mais comum do vestuário formal masculino, aparece uma espécie de blusão trancado até o queixo, de matéria plástica, azul-marinho (chocando com a calça marrom). O blusão tem jeitão de “made in China” comprado a preço de fim de feira.

Pensei que a Presidência da República contasse com um serviço de cerimonial, com chefe, conselheiros e executantes. Imaginei que fossem consultados nessas horas, nem que fosse pra evitar gafes presidenciais, tipo roupa errada na hora errada. Constato que serviço de cerimonial não há. Se há, não funciona.

Alguém precisa informar a senhor Bolsonaro que, em fevereiro, na Europa, faz frio. Na Rússia, mais ainda. Não se desce de avião vestindo um blusão de banca de feira. Além de dar impressão de que nosso país está mais na miséria do que realmente está, ainda periga não aquecer suficiente o corpo sofrido de um senhor de idade avançada, que sofreu meia dúzia de intervenções cirúrgicas nos últimos anos.

Que ele tome exemplo em Donald Trump, seu mentor. Não me lembro de ter visto o presidente americano sair à rua sem a proverbial gravata vermelha e o mantô azul-marinho que cobre até o tornozelo. Será que Bolsonaro só absorveu as patacoadas do mestre, deixando de lado seus poucos ensinamentos úteis?

Em tempo
Não vale alegar que o capitão não tem dinheiro, que não tem tempo de fazer mala, que não dá pra se trocar no avião, que ele não sabe escolher o próprio guarda-roupa.

Para a falta de dinheiro, está aí o famigerado cartão corporativo, financiado com o suor de todos nós, destinado justamente a esses gastos “confidenciais”.

Para arrumar-lhe as malas, ele conta com esposa. Se não bastasse, é suficiente estalar os dedos e um batalhão de serviçais (pagos com nosso dinheiro) acorrerá, todos prontos para dobrar cuecas, arrumar na valise e afivelar.

Que não pôde se trocar no avião? Ora, venha cá. O Aerolula – que ele usa até hoje mas que guarda o nome do presidente que o comprou – tem mais espaço que muito apartamento por aí. A suite presidencial, onde o capitão pode espichar as pernas e dormir numa cama de verdade com armário e espelho, dá pra duchar-se, barbear-se, e trocar de roupa antes da aterrissagem. Teria dado pra enfiar uma calça decente.

Que ele não sabe escolher o próprio guarda-roupa? É uma evidência. Só que tem uma coisa. Quando sai pra passear de lancha, pode usar camiseta com propaganda da firma de um amigo; fica um lixo, mas os admiradores não costumam reclamar.

Agora, quando ele é a imagem do Brasil em terra estrangeira, por favor, capitão, evite mostrar a pança espremida dentro de um blusão com ar de plástico “made in China”. Pega pra lá de mal. Quem sabe o Trump, que agora vive nos calores da Florida, pode até ceder-lhe o dele. De altura, os dois regulam.

O que aconteceria

José Horta Manzano

Li hoje, de soslaio, um artigo em que o autor dava sua opinião sobre “o que aconteceria no agro brasileiro se a Rússia invadisse a Ucrânia”. Era artigo longo, de mais de 4.000 toques (página e meia em escrita Arial corpo 12). Me pergunto se alguém terá lido.

Longe de mim pretender menosprezar o autor. Este escriba sabe, por experiência própria, quanto dói uma saudade. Meus textos para o blogue geralmente são feitos na hora, mas, quando escrevo para jornal, a conversa é outra. O Correio Braziliense, que costuma publicar meus artigos num sábado, pede que sejam enviados na quinta-feira o mais tardar.

Dado que não espero até o último minuto da última hora do último dia, escrevo antes. Lá pela segunda ou terça, já está pronto. Aí surge o dilema. Mando ou não mando? E se o assunto já tiver envelhecido quando chegar a hora da publicação? E se o problema já tiver desaparecido? E se o personagem malhado tiver sido hospitalizado com doença grave? Dizem que não é de bom-tom atirar em quem está caído.

Tem sorte quem, como eu, conta com autorização do jornal para abordar o assunto que bem entender. Jornalistas especializados não têm essa amplitude. Comentarista político tem de falar de política. Analista econômico só escreve sobre economia. E assim por diante.

Em situações em que o panorama pode mudar de um minuto a outro, a porca torce o rabo. O pobre comentarista que mencionei deve ter pulado miudinho para escolher bem suas palavras, pois foi dormir com um Putin vociferante e um exército de 100 mil homens amontoado junto à fronteira ucraniana. Era uma quase-guerra.

Só que, quando se levantou de manhã, ficou sabendo do começo de retirada das tropas russas e do arrego de um Putin que argumenta, num contorcionismo: “Mas eu nunca disse que invadiria país nenhum! Tudo não passa de intriga da oposição!”.

Nisso, o artigo já estava no prelo. E lá está ele hoje, com destaque: “o que aconteceria no agro brasileiro se a Rússia invadisse a Ucrânia”. Mas a Rússia não invadiu a Ucrânia. E a invasão se torna menos provável a cada minuto que passa. Putin pode ser atirado, mas estúpido não é. Seria uma guerra em que todos perderiam, a Rússia mais que os outros.

Tecer considerações sobre o que aconteceria (ou, melhor dizendo, o que teria acontecido) se tivesse havido guerra corresponde a conjecturar como seria o mundo se Hitler tivesse ganhado a guerra. É assunto que pertence ao campo da ficção científica. Ou filme de horror.

O bilionário monitorado

Rastreamento de voo

José Horta Manzano

Faz uns dez dias, o New York Times publicou um fait divers engraçado. Um primeiranista da Universidade da Florida Central, de 19 anos, está alcançando, há dois anos, um tremendo sucesso de audiência em sua conta Twitter.

A razão da popularidade é simples: Jack Sweeney, o estudante adolescente, publica mapas com as indas e vindas de Elon Musk, um dos indivíduos mais ricos e poderosos do planeta. Mr. Musk é aquele que faz coisas que, contando, ninguém acreditaria. Além de fabricar carros elétricos, chega a lançar satélites por conta própria para instalá-los em órbita em torno da Terra. Um assombro.

Como é que o jovem consegue monitorar o jatinho do bilionário? O procedimento é de uma simplicidade infantil. Como se sabe, todo jato conta com um dispositivo que sinaliza a posição do aparelho e relata outros parâmetros do voo. Em princípio, destina-se aos operadores da torre de controle, mas não há como impedir que suas informações sejam captadas por quem procure por elas. As regras da aviação civil impõem que esse dispositivo esteja sempre ligado quando o avião estiver voando.

Há na internet pelo menos dois sites especializados em informar, em tempo real, todos os movimentos aéreos ao redor do globo. Todos os aviões aparecem. Os sites – um sueco, outro americano – informam velocidade, altitude, direção de voo, aeroporto e hora de partida, destino e previsão de chegada. E muitos outros detalhes. A gente pode passar um bom tempo apreciando aqueles aviõezinhos a se movimentar no mapa, saber que tipo de aparelho é cada um, de onde vem, para onde vai, a que horas vai chegar, que temperatura faz em cada aeroporto do planeta inteiro. Um mundo de informações.

Pois bem, nosso adolescente criou um algoritmo e um software rastreador especialmente para monitorar o jatinho de Elon Musk. A partir do momento em que a aeronave é ligada, pronto: o software instalado no computador pessoal do rapaz passa a acompanhar o voo. E tudo é publicado para seus milhares de seguidores. Em tempo real.

Assim que ficou sabendo da “espionagem”, Elon Musk ficou furioso. “Como assim? Eu, com meu dinheiro e meu poder, sendo seguido por um espinhudo qualquer?” – é o que deve ter resmungado. Resolveu agir. Mas… como? Se a lei não proíbe os sites de monitorarem os aviões, ninguém pode ser criminalizado por divulgar essas mesmas informações.

O ricaço escreveu ao rapaz, ameaçou, protestou, alegou razões de segurança, pediu que desativasse a conta. Chegou a oferecer 5 mil dólares. Não conseguiu. O adolescente fez uma contraproposta: fecharia a conta Twitter contra uma recompensa de 50 mil dólares; ou então, se contentaria com um carro elétrico Tesla de 38 mil dólares, veículo fabricado justamente pelas indústrias de Mr. Musk. (Logo em seguida, dando-se conta de que poderia ser acusado de chantagem, o rapaz retratou-se e disse que estava brincando.)

Até hoje, entendimento não houve. A troca de mensagens entre o ricaço e o remediado se estancou no mês passado. Os deslocamentos aéreos do aviãozinho do bilionário continuam sendo publicados. Para deleite dos 305 mil seguidores do espinhudo.

No fundo, qual é a importância dessa historinha? Para nós, que não somos bilionários nem temos intenção de seguir carreira na espionagem, a importância é mínima. Mas a fábula convida a uma reflexão sobre o instinto de sobrevivência. Me explico.

No tempo dos neandertais, os humanos levavam vida intranquila. Não tinham de fugir de ladrão, mas era vital precaver-se contra eventuais ataques de tigres, lobos e outros bichos ferozes. Desde criança, o neandertalzinho aprendia a abrir bem o olho, estar sempre alerta, vigiar tudo e todos, o tempo todo. Sua sobrevivência dependia dessa vigilância permanente.

Os milênios passaram, leões e hienas não correm mais soltos pelas avenidas, mas o instinto continua presente. Adaptado à vida moderna, ele leva os humanos a fiscalizar-se uns aos outros. Vizinho adora vigiar vizinho, colega adora vigiar colega, todos adoram vigiar gente famosa. Apesar da inutilidade de tanta supervisão, insistimos. Há enorme interesse por imagens roubadas de celebridades, por conversas particulares de gente famosa e por miudezas do pessoal do andar de cima.

O monitoramento de Mister Musk se inscreve nessa lógica. Pensando bem, ninguém ganha nada em ficar sabendo dos trajetos do ricaço. Mas o instinto desenvolvido no tempo das cavernas não morreu. Foi apenas reorientado conforme os preceitos da modernidade.

Em tempo
Os dois sites que monitoram os movimentos aéreos em tempo real são os seguintes:

O sueco Flight Radar 24

O americano ADSB Exchange

Evolução do templo

José Horta Manzano

Você sabia?

Desde tempos pré-históricos, o homem sentiu necessidade de designar local específico para cultuar deuses. O Oriente Médio guarda numerosos resquícios de templos de outras eras. Petra (na Jordânia atual) e Palmira (na Síria atual) são exemplos de antiquíssimas cidades que contavam com edifícios de culto.

Na Europa Ocidental, a Idade Média conheceu o apogeu do fervor espiritual. Entre os anos 1200 e 1500, dezenas de catedrais góticas foram levantadas. Eram obras monumentais cuja edificação, à força de braço, levava muitíssimos anos, um século às vezes.

Catedral de Córdoba

Há o caso curioso de um templo cuja função flutuou ao sabor da religião dominante. Mais de dois mil anos atrás, o povoado ibérico situado onde hoje está Córdoba (Espanha) foi ocupado por tropas romanas, que aí estabeleceram a capital da província da Hispania Bætica.

Como toda capital que se preze, Córdoba merecia um templo. Ganhou um dedicado a Janus, o deus romano dos começos e dos fins, aquele que abre portas e passagens. É o mesmo deus que, mais tarde, emprestaria seu nome ao mês de janeiro, espelhando o fim de um ano e a abertura de outro.

Passaram os séculos. O esfacelamento do Império Romano abriu caminho à invasão de Vândalos e de Visigodos. Povos germânicos convertidos à fé cristã, os recém-chegados se valeram do que restava do antigo edifício para construir templo cristão.

Catedral de Córdoba

Trezentos anos mais tarde, a região mudou novamente de dono. Muçulmanos, que haviam atravessado o Estreito de Gibraltar, estabeleceram em Córdoba um califado que duraria mais de 500 anos. Não destruíram o templo existente. Preferiram reformá-lo e ampliá-lo inteiramente para abrigar o culto maometano. Majestosa, a nova mesquita refletia o poder do califa.

Cinco séculos depois, no lento movimento que ficou conhecido como como La Reconquista, o muy católico Fernando III, rei de Castela, retomou Córdoba. Na sequência, reformou-se de novo a mesquita. Colunas foram derrubadas. Acrescentou-se uma nave, ergueu-se uma torre e o edifício voltou a ser templo cristão.

Catedral de Córdoba, detalhe

Olhando hoje do exterior, o visitante hesita em definir o conjunto como mesquita, convento ou catedral. Pra dizer a verdade, o edifício ‒ por muitos chamado Catedral-Mezquita ‒ é um verdadeiro bolo de noiva. Uma surpreendente e interessantíssima mistura que marca a passagem de diferentes culturas.

Publicado originalmente em 25 jan° 2016.

Complemento ao post anterior

José Horta Manzano

Em sua coluna do jornal O Globo de 12 fev° 2022, a jornalista Bela Megale relata o que ouviu de funcionários do Itamaraty:

“[…] um dos principais focos da viagem é discutir uma cooperação de tecnologia militar entre os governos brasileiro e russo e que, por isso, a comitiva será formada majoritariamente por militares”.

O bom senso ensina que espionagem, em nível de Estado, é tecnologia militar. Logo…

Esse esclarecimento vem reforçar a ideia que expus no post A razão da visita de Bolsonaro.

A razão da visita de Bolsonaro

José Horta Manzano

Parece que está esclarecida a disparidade de dimensões entre, de um lado, a mesinha de chá que punha Putin a meio metro de distância do argentino Fernández, e, de outro, a mesona de mármore que mantinha 6 metros de distância entre o russo e o francês Macron.

Segundo o próprio Kremlin, a razão é sanitária. Visto que Emmanuel Macron se recusou a passar pelos testes de detecção de covid exigidos pelo hospedeiro, este impôs distância física entre os dois. Vladímir Putin afasta todo risco a sua excelsa pessoa. Ameaçar vizinho de bombardeio pode (veja a Ucrânia), mas respirar bafo de colega não testado não pode.

Bolsonaro está de partida para Moscou. Agora, que as redes sociais já começam a estranhar a insistência do capitão em fazer essa viagem justo agora, quando o mundo faz novena pra evitar uma guerra na região, está começando a ficar realmente esquisito.

O presidente não é conhecido por ser homem corajoso. No dia a dia, vive transferindo as próprias culpas a terceiros e, quando obrigado a aparecer em público, vem regularmente escorado atrás de uma legião de seguranças. Se ele se expõe a atravessar uma região em conflito e passar uns dias nos gelos russos, com o risco de ser alvejado por um míssil, alguma razão muito forte haverá. Qual será?

Nem o Kremlin nem o Planalto vão confirmar. Resta conjecturar. Não custa nada, vamos lá.

O distinto leitor já há de ter ouvido falar em Pegasus, um spyware israelense de excepcional desempenho, capaz de se infiltrar em qualquer telefone celular e realizar tarefas de roubo de dados e monitoramento de voz. Meses atrás, fiquei sabendo que um dos bolsonarinhos, aquele que é deputado federal, estava interessadíssimo em adquirir a tecnologia. O objetivo evidente era espionar adversários, desafetos, ministros do STF, parlamentares da oposição, líderes de associações, ONGs e quetais. Talvez tenha sido essa uma das razões da viagem que uma alentada comitiva do Planalto fez a Tel Aviv meses atrás. O motivo declarado era buscar um spray nasal contra a covid, mas essa alegação podia ser mera cobertura.

Por mais que apreciem o clã Bolsonaro, os israelenses não são bobos. Sabem que, dentro em breve, serão todos varridos para a lata de lixo da história. Em resumo: não vão se comprometer vendendo tecnologia tão sensível a gente tão pouco estável – e nada confiável. Acredito que o negócio tenha dado chabu.

Por trás da visita “de cortesia” a Putin, o capitão pode estar com alguma ideia desse tipo. Embora a Rússia não tenha nunca admitido, o mundo ficou sabendo da insidiosa interferência de Moscou quando da corrida presidencial americana que elegeu Donald Trump. Interferência, se houve, foi muito benfeita. Tanto que, até hoje, todos desconfiam, mas ninguém foi capaz de comprovar.

Essa poderia ser a razão que está levando o capitão a procurar comprar ajuda russa para lhe dar uma mãozinha na tentativa de reeleição. Comprar ajuda russa com nosso dinheiro, saliente-se. Diante de uma reeleição quase impossível, ele há de estar apelando para todos os santos.

Depois de ter orgulhosamente anunciado ao mundo todo que não estava vacinado e que não pretendia vacinar-se, Bolsonaro está agora em situação delicada. Putin foge da covid como da peste. Para se aproximar dele, todo convidado tem de passar por meia dúzia de testes consecutivos, ainda que esteja vacinado. Como é que as coisas vão se desenrolar?

Macron, que está vacinado com três doses, recusou-se a passar pelos testes. Receia que seu ADN seja coletado pelo Kremlin para fazer sabe-se lá o quê. Como vai reagir Bolsonaro? Vai passar pela humilhação dos testes? Acho que será obrigado, se não Putin não o receberá nem com mesa de 6 metros. E quanto à ajuda que está buscando, vai conseguir? Teremos interferência russa nas eleições de outubro?

Tenho cá minha ideia. Não é porque Bolsonaro voou até Moscou que ele será agraciado com ajuda russa para reeleger-se. Acho que Putin, que pode não ser grande amigo da democracia mas bobo não é, vai recusar. Não vejo que interesse ele teria em ter o capitão por mais quatro anos no Planalto. Mais interessante para Moscou é ter em Brasília um amigo da Venezuela, que é atualmente afilhada da Rússia.

E o distinto leitor sabe qual dos candidatos à Presidência do Brasil é o mais próximo de Caracas, pois não?

Monark e Caloi

José Horta Manzano


Na minha adolescência, duas marcas de bicicleta disputavam o mercado brasileiro: a Monark e a Caloi.


A Monark, mais prestigiosa, era de origem sueca. Nos primeiros anos, era importada. Mais tarde, os veículos passaram a ser fabricados no Brasil. No ano de 1956, a matriz sueca contava com 2500 funcionários, enquanto a filial brasileira já dava emprego a 1000 pessoas, o que mostra a importância da marca no Brasil. Alguns anos mais tarde, a Monark brasileira gritou seu “Independência ou Morte” e passou a seguir caminho próprio. Hoje, as duas versões coexistem: tanto a Monark sueca quanto a brasileira continuam fabricando bicicletas.

Caloi era a outra marca de bicicleta. Seus primeiros anos foram semelhantes aos da concorrente. O imigrante italiano Luigi Caloi começou importando bicicletas italianas. Um negócio cômodo, que não dava dor de cabeça nem exigia grande investimento. Mas chegou a Segunda Guerra, e a fonte secou. Dedicada integralmente à indústria bélica, a Itália parou de exportar bicicletas. Para continuar vendendo, Signor Caloi foi obrigado a montar, às carreiras, uma fábrica nacional. Assim nasceu a Caloi genuinamente tupiniquim.

Agora, vamos à hora da saudade. Durante toda a infância e a adolescência, minha preferida – hoje se diria meu “sonho de consumo” – foi uma Monark. Papai Noel andava meio apertado naquele tempo. A bicicleta só chegou aos 16 anos, quando o sonho já tinha evaporado. Décadas mais tarde, por um desses acasos que a vida nos reserva, cheguei a conhecer a viúva do fundador da fábrica, uma senhora magrinha e já bem velhinha. Todo o mundo a chamava de Dona Caloi. Fim da hora da saudade.

Dia desses, um retardado com nome de bicicleta apoiou, numa laive na internet, a criação de um partido nazista. Acho que não preciso dar aqui detalhes, que o Brasil inteiro ficou sabendo da história. Se faltasse uma prova, está aí a demonstração que os ditos “influenciadores” (que pretensão!) do povão não passam de ignorantes. Os seguidores agem como bando de cegos guiado por caolho.

Com a petulância que só a ignorância lhe permite, o rapaz sustentou sua tese, mostrando desconhecer a História. Na sua cabecinha vazia, nazismo é uma doutrina como qualquer outra. Não é. O nazismo tem um defeito de nascença, que o torna incompatível com o mundo civilizado. Preto no branco, seu programa afirma o objetivo de promover a superioridade da “raça” ariana (em cujos cânones, aliás – cabelos loiros e olhos azuis – o tal influenciador parece não se encaixar). Paralelamente, essa malfadada doutrina põe como objetivo exterminar fisicamente judeus, ciganos, homossexuais e todos aqueles que se opuserem a ela.

Essas diretivas já estavam, aliás, explicitadas no livro Mein Kampf (Meu Combate), que Adolf Hitler escreveu em 1925. Orientais, pretos e índios não são mencionados simplesmente porque, quando a doutrina foi elaborada, não estavam presentes em número significativo em solo europeu. Nazismo é ideologia que, já na cartilha do partido, prega o genocídio – postura proibida por nossa Constituição.

Portanto, que um infeliz “influenciador” não concorde com os termos de nossa Constituição, é problema interno dele. Pode gostar ou deixar de gostar, assim como gosta de costela de porco e detesta sorvete. Pode até comentar numa rodinha de amigos na intimidade de seu chatô. Só não tem o direito de propagar suas ideias em praça pública, comportamento agravado, aliás, pelo fato de ser “influenciador”.

Em matéria de conselhos tortos, quanto maior for a audiência, maior será a culpa de quem os dá. Em nosso país, toda pregação contra os preceitos da Constituição é crime. As queixas-crime que tramitam contra o capitão o demonstram.

Bolsonaro não teve outra opção se não repudiar a fala do rapaz com nome de bicicleta. Só que, mesmo sendo menos “influenciador” que o rapaz ignorante, mostrou ser tão (ou mais) ignorante que ele. Aproveitando o embalo, repudiou também o comunismo, sua obsessão, alegando ser “doutrina que prega o antissemitismo”(sic).

Como é que é? O comunismo prega o antissemitismo? ¡Vaya ignorancia!, como diriam os espanhóis. Quanta ignorância! O capitão precisa urgentemente ler duas linhas sobre o assunto. Vale até a Wikipédia, que, pra ele, já está de bom tamanho. É pra não soltar tanta asneira em público. Acaba pegando mal.

E se alguns daqueles dez ou doze porcento de eleitores que (ainda) o apoiam forem menos ignorantes que ele e souberem que a doutrina comunista, teorizada pelo judeu Karl Marx, não prega o antissemitismo? Vão corar de vergonha? Ou a devoção ao mito do “mito” vai sobrepujar?

The lottery

José Horta Manzano

Faz alguns anos, o prêmio acumulado da Loteria Nacional Britânica estava pelas alturas. O ganho máximo seria de quase 58 milhões de libras, o que equivale atualmente a mais de 400 milhões de reais. O país estava em frenesi, os cidadãos fazendo fila, cada um querendo fazer sua fezinha. Uma loucura.

Um jornal publicou então um artigo desmancha-prazeres. De modo sádico, calculou que as chances de um apostador acertar na cabeça era de 1 em 45 milhões. Já começa a dar desânimo, mas o artigo não parou por aí. Comparou a probabilidade de ganhar o grande prêmio com a chance de sobrevirem outros acontecimentos raríssimos. Por exemplo.

  • Um cidadão tem maior probabilidade de ser atingido por uma peça desprendida de um avião (1 em 10 milhões) do que de acertar todos os números.
  • O risco de um canhoto sofrer um acidente fatal por ter utilizado mal um aparelho concebido para destros é de 1 em 4,4 milhões.
  • Ser atingido por um meteoro é muitíssimo mais provável do que ganhar na loteria: 1 probabilidade em 700 mil.
  • Ser eletrocutado por um raio e morrer é quatro vezes mais provável que acertar o prêmio grande (1 em 10 milhões).
  • Esta é pior: qualquer um de nós tem mais risco de morrer de infecção bacteriana do que ganhar na loteria (1 em 1 milhão).
  • Dar à luz quadrigêmeos idênticos também é mais provável do que acertar todas as dezenas (1 em 13 milhões).

Parece que até a chance de ganhar o Oscar é maior do que tirar a sorte grande. Só que, para chegar lá, é aconselhado estrelar primeiro um filme.

Línguas lusófonas

Chamada da Folha de São Paulo, 9 fev° 2022

José Horta Manzano

A Europa abriga grandes famílias linguísticas. Há as línguas latinas, as germânicas, as eslavas. As latinas também podem ser chamadas neolatinas, romances ou românicas.

Com toda sinceridade, é a primeira vez que ouço falar em “línguas lusófonas”. Suponho que a língua portuguesa entre nessa curiosa categoria. Quais seriam as outras? Ou será que o jornal já dá de barato que o português e o brasileiro são línguas diferentes?

Em tempo
O adjetivo lusófono define o indivíduo que fala português. A língua propriamente dita, não se deve dizer que é “lusófona”, mas lusa.

Bolsonaro visita o tsar de todas as Rússias

José Horta Manzano

Não é a primeira vez que falo deste assunto, que me deixa bastante inquieto. Tenho a impressão de que a imprensa brasileira tem passado ao largo do desastre que está se preparando. Parecem todos mais preocupados com a ‘jequiata’ que Bolsonaro planeja do que com a ‘burrata’ que está prestes a cometer.

Imagine o distinto leitor que o Dalai Lama fizesse uma visita ao Principado de Mônaco. Ou que o papa Francisco desse um pulinho a Andorra. Um conversaria com o príncipe, o outro se encontraria com o chefe do governo. Conversariam amenidades, trocariam presentes, dariam passeio em carro aberto, escutariam coral de crianças agitando bandeirinhas. E pronto. Terminado o passeio, cada um voltaria pra casa. E a Terra não pararia de girar.

Fim de semana que vem, Bolsonaro embarca para uma visitinha dita ‘de cortesia’ à Rússia. Não é fácil explicar a razão pela qual os personagens mais vistosos a acompanhar o presidente – além dos intérpretes, evidentemente – serão Mário Frias, secretário de Cultura, e o “capitão Cultura”, um senhor que fiscaliza a Lei Rouanet. Vão aprender como montar uma companhia de dançarinos cossacos? Como de costume, a comitiva presidencial deverá ser rechonchuda, com dezenas de autoridades, convidados, xeretas e penetras.

Alguém precisa urgentemente contar ao capitão que a Rússia não é Mônaco nem Andorra. Uma visita desse quilate não passa despercebida. Tem significados, nem sempre aparentes, aos quais ele não parece estar dando a devida importância.

Pra começar, Jair Bolsonaro e Vladímir Putin não hão de ter grande coisa a conversar. O capitão não deve entender lhufas de política interna russa. Nunca deve ter ouvido falar no mundialmente conhecido Alexei Navalny, oponente e atual prisioneiro político, que foi vítima de tentativa de assassinato da qual escapou penosamente depois de meses de tratamento na Alemanha. Novichok, o veneno de que foi vítima, não se compra na farmácia da esquina. É substância desenvolvida pela indústria militar russa. Donde se conclui que a ordem de eliminá-lo partiu do chefe de Estado. Gente fina.

Menos ainda deve nosso capitão entender do problema entre a Rússia e a vizinha Ucrânia. Com boa vontade, admito que já tenha ouvido falar da União Soviética, que finou 30 anos atrás. Mas não deve estar a par da importância que a Ucrânia representa para os russos, considerada por estes o berço da civilização nacional. Não deve ter a menor ideia de que, nas fronteiras russas, se prepara um afrontamento entre Rússia e Otan. (Estou supondo que saiba o que é a Otan, mas não tenho muita certeza.)

Essa visitinha presidencial me lembra aquela que o Lula fez, acompanhado de alentada comitiva, ao Oriente Médio. Tinha na cabeça uma ideia ambiciosa e genial: resolver a questão palestina, nada menos que isso. Imaginou que, com um jogo de futebol entre os adversários, tudo se resolveria. Santa ingenuidade! Deu tudo errado e ele teve de voltar com o rabo entre as pernas, quase escorraçado como inhambu em festa de jacu. Humilhação total. Nunca mais se falou no assunto.

Lula, o messias de Garanhuns, tinha a pretensão de salvar o mundo, mas faltava-lhe instrução e capacidade. Bolsonaro apesar de ser Messias de nome, é bobão. O momento é de quase-guerra entre Rússia e Ucrânia. Se não for para tratar de apaziguar os ânimos, o momento é péssimo pra qualquer visita, seja ela de cortesia ou de negócios. Quem não for lá pra ajudar só vai atrapalhar.

A visita de Bolsonaro a Putin (a versão 2.0 do tsar de todas as Rússias) não trará nada de bom para nosso país. Vejamos por quê:

• Uma viagem dessas implica logística complexa e custa os olhos da cara. Se não tiver um objetivo útil para o Brasil, é dinheiro jogado fora.

• A Rússia, que já é cliente dos frigoríficos brasileiros, não vai comprar nem um bife a mais.

• A Ucrânia, país que contribuiu para a formação do Brasil com mais imigrantes que a Rússia, vai ficar muito desagradada. Por que Bolsonaro visita Moscou, mas ignora Kiev? Não é inteligente indispor-se com um mercado de quase 45 milhões de consumidores.

• A União Europeia, que tem envidado esforços para garantir a paz na região, vai se sentir contrariada. Não convém indispor-se com a UE assim, sem nada, sem motivo válido, num momento de tanta tensão.

Os EUA já rogaram a Bolsonaro que desista da viagem. Nosso aliado tradicional são os Estados Unidos, não a Rússia. Isto aqui não é a Venezuela – Bolsonaro está confuso.

Já que ele bate o pé, me resta dar-lhe um conselho de bom samaritano.

Capitão, procure não repetir o vexame de Nova York, quando vosmicê e seus badalos se deixaram fotografar comendo pizza na calçada. E com as mãos! É verdade que, de quem come farofa com as mãos, tudo se pode esperar.

Mas olhe que em Moscou faz muito frio nesta época do ano. Quem, como vosmicê, está a caminho dos 70 anos e passou recentemente por meia dúzia de cirurgias devia evitar apanhar resfriado. Pode dar complicação. Se acontecer, não são seus seguranças nem o Centrão que vão acudir.

A sala de visitas de Putin

José Horta Manzano

Em diversos países da Europa, o uso comercial da expressão “saldos” é protegida. Isso quer dizer que toda venda de saldos é regulamentada. A palavra não pode ser usada por qualquer comerciante, pra vender qualquer tipo de mercadoria, a qualquer preço, em qualquer época do ano. Só pode ser usada durante a época fixada pelas autoridades que regulam o comércio. Nem antes, nem depois. Isso lhe agrega valor. A época dos saldos é aguardada ansiosamente.

O período dos saldos é especialmente apreciado por comerciantes de roupas. E por seus clientes, naturalmente. É que o comércio de peças de vestuário, além de sazonal, é sujeito às variações da moda. Os saldos são autorizados durante algumas semanas em janeiro (para liquidar o estoque encalhado de roupas de inverno) e, de novo, em julho (para o vestuário de verão).

Conforme o país, as vendas especiais duram de 3 a 4 semanas, às vezes até mais. Os primeiros dias têm o efeito de uma sexta-feira negra (em português: black Friday). Antes da abertura das lojas, já tem gente encostada à porta. Comerciantes que não trabalham com vestuário também aproveitam o embalo pra fazer caixa, vendendo alguns de seus artigos a preço de pechincha.

Quinta-feira passada, Señor Alberto Fernández, presidente da Argentina, esteve de visita a Vladímir Putin, em Moscou. Na foto, entre os dois dirigentes, aparece uma mesinha dessas que se usam pra pousar uma xícara de chá e, se der, pra ajeitar um pratinho (pequeno) para o bolo. Na mesinha que separava os dois, de tão minúscula, acho que nem bolo ia caber.

Terminada a visita, chegou o fim de semana. Vladímir Putin, que não tem o hábito de ir à feira comer frango com farofa, deve ter inventado outro programa. A agenda do dirigente russo não confirma, mas é possível que ele tenha aproveitado a folga pra dar uma espiada nos saldos de alguma loja de móveis. Não conheço os costumes locais, mas pode ser que os saldos de Moscou se estendam até fevereiro.

O fato é que, na segunda-feira 7, Monsieur Emmanuel Macron veio visitá-lo. A exígua mesinha de chá tinha desaparecido. Não se sabe onde foi comprada nem quanto custou a mesa ao redor da qual se sentaram Macron e Putin, mas, convenhamos, ela é im-pres-sio-nan-te!

Daqui a alguns dias, será a vez de nosso capitão fazer sua peregrinaçãozinha nas neves moscovitas. Vamos ver qual das duas mesas sairá na foto. A mini de chá ou a XXL dos saldos? A conferir.

Em tempo
Quem lê jornais em vez de ficar mergulhado na bolha sabe que a Rússia e a Ucrânia estão em pé de guerra. Putin encostou na fronteira com a Ucrânia um contingente militar de assustar. Fotos de satélite avaliam que cem mil homens estão ali, à espera da ordem de atacar. Um tiro de chumbinho na hora errada pode ser suficiente pra assustar todo o mundo e desencadear uma carnificina.

Macron, que bobo não é, entendeu a fragilidade da situação. Numa hora dessas, visitar um e ignorar o outro significa automaticamente que se tomou partido na briga. É exatamente o que Macron, a França e a Europa querem evitar. Nesta terça-feira, terminada a visita a Moscou, o presidente francês está em Kiev para uma conversa com o presidente ucraniano, Zelensky – que, por coincidência, também é Vladimir (ou Volodímir, como dizem eles). Se o encontro vai evitar a guerra, só o futuro dirá. Mas, pelo menos, Macron guardará o mérito de haver tentado.

Nosso capitão, que bobo é, vai se meter onde não foi chamado. O infeliz não consegue entender o frágil e o delicado da situação. Com os dois a ponto de se morderem mutuamente a orelha, lá vai o paspalhão visitar um dos contendores, ignorando o outro. Em linguagem diplomática, que é entendida por todos os governos do planeta, essa visita significa alinhamento com um dos beligerantes. Uma imensa estupidez para um Brasil que não tem nada a ver com aquele peixe. Não temos nada a ganhar com essa demonstração explícita de preferência por um dos lados.

A visita unilateral de Bolsonaro vai acrescentar agressão gratuita e desnecessária a mais um povo. O gesto será somado à longa lista das afrontas que já fizeram, ele e seu clã, aos EUA, à França, à Itália, à Alemanha, à Noruega, à Argentina, ao Chile, ao Peru. E, naturalmente, à China, vítima preferencial de suas ofensas de babaca boca-suja.

Ucrânia, seja bem-vinda ao clube! Sinta-se honrada! Amigo do capitão bom sujeito não é.

Brasil extraviado

José Horta Manzano

Saudades do tempo em que o Brasil atraía imigrantes em busca de recomeçar a vida num país pacífico e de futuro.

Saudades do tempo em que a simples menção do nome “Brasil” evocava imagens de gente feliz, sorridente, acolhedora, alegre, prestativa, solidária, dançante.

Saudades do tempo em que o mundo nos olhava com respeito e uma ponta de inveja.

O Brasil se extraviou. Os novos tempos são anunciados diariamente, ao mundo todo, em todas as línguas. Aqui está o exemplo mais recente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

In the subway

José Horta Manzano

Um estudo levado a cabo anos atrás por biólogos da Universidade do Colorado constatou que o ar que se respira nos labirintos subterrâneos do metrô nova-iorquino não é lá essas coisas. Imagino que a conclusão possa ser estendida a todos os sistemas de metrô do planeta.

Apesar da ventilação forçada e dos filtros, cerca de 15% das amostras de ar colhidas nas plataformas é constituída de… pele.

Os cientistas decidiram investigar mais a fundo para conhecer a proveniência exata dessa pelanca toda. Descobriram que a maior parte provinha da cabeça e da sola dos sapatos dos viajantes. Além disso, uns 12% da pele provinha de outras zonas do corpo: do umbigo, do ouvido, das axilas e do bum-bum.

Bon voyage! Have a nice trip!